sábado, 9 de abril de 2011

A LIGAÇÃO COM O EU (no outro)


Num olhar mais cuidadoso podemos perceber que em cada novo vínculo que estabelecemos em nossa vida afetiva, revivemos cada fase como quando fizemos isso pela primeira vez na vida. Mesmo tendo boa consciência de que estamos conhecendo alguém novo, tendemos a usar nessa nova relação, modelos de vínculo que já usamos anteriormente com outras pessoas. Percorremos certos caminhos nessa nova relação, que em sua maior parte coincide com experiências já vividas. Poderíamos dedicar um olhar especial para essa experiência, usando o ponto de vista de Wilfred R. Bion (1897 – 1979) quando propõe os conceitos de ‘transformação’ e ‘invariância’. Essa idéia está sobre tudo reunida em seu trabalho, As Transformações – A Mudança do Aprender Para o Crescer, publicado originalmente (em inglês), em 1965 e no Brasil em 1970 pela editora Imago. Nessa obra, Bion escreve que um pintor quando reproduz na tela certa paisagem, necessita das invariâncias para que o observador (que não tem conhecimento da paisagem original) reconheça que aquilo que está no quadro é uma representação dessa paisagem. Não obstante, esse mesmo artista precisou antes da capacidade de transformação, para partir do real sensório, compreendido no contato com a paisagem original (no caso pelo órgão da visão) e então representá-la em formato de pintura.  


Pois bem, usando esse mesmo modelo, pensemos agora, na forma como nos relacionamos com as pessoas e coisas do mundo. Se assim fizermos perceberemos algo muito próximo. Algumas características das fases do desenvolvimento desse vínculo estão na ordem das transformações e por evoluírem se distanciam muito das formas primitivas de ligação afetiva. Entretanto, outras se mantêm na ordem dos invariantes enquanto persistem inalteradas até a vida adulta. Esta segunda ordem de características vinculares se mantém, repetindo-se em cada nova ligação que nos dispõe no mundo.


Sigmund Freud (1856 a 1939)


A psicanálise nos orientou com muita propriedade quanto aquilo que nos motiva na escolha de algo e o que faz nos aproximarmos disso. Porém, não precisamos entender muito sobre a teoria da psicanálise para percebermos que fazemos isso justamente pela identificação. Se observarmos o comportamento das crianças, isso fica bem claro. Aproximamo-nos das pessoas e coisas do mundo por que de alguma forma nos vemos nelas. Isso é característico das crianças, mas num olhar mais atento, perceberemos que se encontra fortemente inalterado nos adultos. Esse é o primeiro e maior motivo que nos leva a nos ligarmos a aquilo que existe além de nós mesmos. Assim Sigmund Freud, que viveu de 1856 a 1939, escreve em 1921, numa das melhores definições de ‘identificação’ encontrada em sua vasta obra. Em seu notável ‘Psicologia das massas e analise do ego’, o pai da psicanálise descreve a identificação como sendo ‘a mais remota expressão de um laço emocional com outra pessoa. ’(pg. 55). 
Freud nos mostra que isso acontece em conformidade com a primeira fase do desenvolvimento emocional. Nessa fase se entra em contato com o mundo através da boca, no que denominou ‘fase oral’. A área erógena do corpo se encontra concentrada na boca. A boca é a parte do corpo (do ‘eu’) que entra em contato com o corpo do outro. A necessidade nutritória (orgânica) está, nessa época da vida, fundida á satisfação de necessidades sexuais, protótipo das relações amorosas. Nesse momento da vida o vínculo afetivo coincide com a fonte de alimento. O ato de alimentar-se está, nessa época da vida, totalmente misturado com a obtenção do amor da mãe.
‘ A principio, a satisfação das zonas erógenas deve ter-se associado com a necessidade de alimento. A atividade sexual apóia primeiramente numa das funções que servem à preservação da vida, e só depois torna-se independente dela. Quem já viu uma criança saciada recuar do peito e cair no sono, com as faces coradas e um sorriso beatífico, a de dizer a si mesmo que essa imagem persiste também como norma da expressão da satisfação sexual em épocas posteriores da vida. ’(pg. 171).
Arthur Schopenhauer (1788-1860)
Dessa forma é que Freud, em 1905 nos seus Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade, descreve a fusão de satisfações ocorrente no ato de mamar. Nessa época da vida, o bebê começa a criar recurso para perceber o outro e a si mesmo. Lentamente começa a se entender desligado, porém, dependente da mãe e faz isso através de uma batalha com impulsos de retornar a segurança do seu ventre. Num desejo de retornar a posição de unificação do funcionamento mental com a mãe. O bebê suga o seio da mãe com a ânsia de incorporá-lo. O sentimento de liberdade, tão almejado para o adulto é extremamente desconfortável no bebê.
Essa proposta está em concordância com ‘O Livre Arbítrio’ de Arthur Schopenhauer (1788-1860):
“Considerando exatamente, o conceito de liberdade é negativo. Com isso não fazemos mais do que formular a ausência de qualquer impedimento e de qualquer obstáculo, dado que o obstáculo, sendo manifestação de força, deve indicar uma noção positiva” pg.19 .
Nessa época da vida as transformações ocorrem de forma intensa, o bebê vive um fluxo de libido enorme emanando do seu interior, clamando pelo encontro com o outro e isso gera enorme oportunidade de crescimento. Contudo a transformação em si é um conceito que traz a conotação da desorganização, do desordenado, do caótico. São libidos livres, soltas sem muita definição de direção ou de objeto. Por não ter capacidade de reconhecer o que realmente precisa, o bebê apenas chora e conta com a atenção e o cuidado daquele (mãe) que se sensibilizará com seu choro e o assistirá com seus cuidados.


Wilfred R. Bion (1897 – 1979)


De qualquer forma, nunca se tem certeza na transformação, por mais que exista certo grau de previsão. Como Bion sugere: ‘O termo ‘transformação’ desorienta, a menos que se reconheçam limitações da implicação de ‘forma’”(pg. 22)”. Nesse contexto a constância da forma é imprescindível para um desenvolvimento saudável desses conteúdos mentais que brotam no bebê. Na verdade a invariância onde se encontra o ponto de apoio é o ambiente proporcionado na ação da maternagem.
Segundo Freud, esse modelo de ligação deve dar lugar a outro modelo mais evoluído de vínculo. O que chamou de ligação objetal. Num esquema progressivo do processo, poderíamos sugerir a seguinte seqüência: a identificação é sinal de que se prenuncia a perda do objeto como parte do eu. Inicia-se a necessidade de reconhecer o outro além do eu, mas ainda com a condição de que esse outro seja uma extensão do próprio eu (como na ligação umbilical). Identifica-se com o outro e passa a ser igual a ele. Isso se da, pois nesse período talvez seja a única forma de admitir o desligamento. Na impossibilidade da incorporação que induziria a ‘ser’ o outro, o processo leva a querer ‘ter’ o outro. Nessa etapa é que se abandona a posição de objeto (aquele que é desejado) e conquista-se o status de sujeito, ou seja, aquele que deseja (o objeto). A ideia importante está no fato de poder diferenciar-se do objeto. Agora com a consciência das diferenças entre o eu e o outro, pode se estabelecer certo vínculo saudável.
Cada evolução nos processos mentais, que conduz á maior capacidade de estabelecer vínculos saudáveis com as pessoas e coisas do mundo, também estará sempre subordinada à regressão, quando não realizados de forma segura. Uma ligação objetal, por exemplo, pode regredir para uma identificação frente à perda ou a ameaça de perda do objeto.
O que se espera na vida adulta, que possa ter seguido um processo de desenvolvimento mental saudável, é que grande parte dessas características possam também ter sido elaboradas, dando lugar a modelos mais amadurecidos de relacionamento.  Características possessivas nos relacionamentos e tentativas de incorporar o outro como sendo parte de si mesmo, são sintomas claros de alguém que, mesmo na idade adulta, ainda guarda características vinculares imaturas (invariantes), contudo, tenta bravamente evoluir (transformação) emocionalmente e em sua forma de ligação efetiva.

Bion, W. R. Transformações - mudança do aprendizado ao crescimento. Rio de Janeiro, Imago, 1970.
Freud, S. Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas - Edição Standard Brasileira, IMAGO (1969-80)
Schopenhauer, A. O Livre Arbítrio / Elogio da Loucura. São Paulo, editora: Novo Brasil, 1987



Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866 

3 comentários:

Jacqueline disse...

Espetacular!

Que a arte nos aponte uma resposta disse...

Em um programa de tv, com um poeta .Ao ser perguntado sobre o que era a poesia ?? refletiu e respondeu :

“ Não sei o que é poesia , mas si eu estiver diante de uma eu a reconheço “

O poeta não tinha resposta , pois necessitava de uma realização , ou seja um conteúdo no qual ele si reconhecia , referia ele a determinadas invariantes que compõe o universos da sua arte .

A experiencia emocional está presente alimentando a experiencia de investigação aguardando ser identificada e nomeada gerando significado e sentido ela não pode ser conhecida a priori mas vai si revelando durante...... e após a vivencia .!!!!

A Psicanalise tinha como escopo desvendar o inconsciente, revelar um conhecimento pŕe existente não conhecido a eté então . Para Bion a proposta de investigação não parte á busca do não encontrado , mas em busca de um significado a ser construido através de um vinculo que possibilitará ésta construção através da experiencia emocional .

Prof. Renato Dias Martino disse...

Muito obrigado!