Entrevista por Gisele Bortoleto para a revista Bem-Estar.
Gisele Bortoleto - Como se forma a autoconfiança em uma pessoa?
Prof. Renato Dias Martino - A autoconfiança é uma qualidade do ego, que é a parte da estrutura mental que tem função principal no funcionamento mental e que popularmente chamamos de autoestima. Assim como toda habilidade mental, também a autoconfiança é desenvolvida através do que podemos chamar de experiência emocional bem sucedida. E isso inclui alguém além do eu. Quero dizer com isso que, a constituição da autoconfiança depende fundamentalmente da possibilidade de formar conexões emocionais saudáveis. A saúde dessas conexões é determinada justamente pela condição de se poder confiar no outro.
Vínculos dessa espécie não são apenas úteis no que diz respeito à manutenção da personalidade, por proporcionarem segurança para se viver de forma razoavelmente tranquila, mas nos servem como modelos para usarmos em relação a nós mesmos e assim expandirmos nossas possibilidades. Quero dizer com isso que, a autoconfiança é gerada pela confiança (real) do outro. Não é possível cultivar autoconfiança sem ter experimentado do outro a confiança.
Gisele Bortoleto - De que forma ela pode nos ajudar no dia a dia?
Prof. Renato Dias Martino - Assim como a autoestima, também a condição da autoconfiança é à base de todo funcionamento mental. É o que nos possibilita reconhecermos nossos próprios limites. Só através disso podemos realizar no mundo. E é bom lembrar certa diferenciação onde realizar é diferente de produzir. De outra forma seremos sempre desacreditados, hora pelo outro, hora por nós mesmos.
Gisele Bortoleto - De que forma podemos dosar essa autoconfiança? Ela pode nos atrapalhar se não for bem dosada?
Prof. Renato Dias Martino - Não sei se tratamos aqui de algo que se deve dosar. Penso que falamos de conceitos diferentes entre si. Digo isso, pois penso que quanto maior a capacidade de autoconfiança, tanto melhor para o funcionamento mental. Contudo, o conceito de autoconfiança deve ser uma qualidade da autoestima (ou autoreconhecimento), de outra forma não pode ser chamada assim.

Isso quer dizer que a real autoconfiança coincide com “confiar no verdadeiro eu”, nos usando aqui da ideia do pensador Donald Woods Winnicott (1896 — 1971) pediatra e psicanalista inglês, o verdadeiro eu é aquele eu, que aprendemos a reconhecer com muita dedicação e que muitas vezes não coincide com o eu ideal, que talvez possamos desejar. Muitas vezes o desejo impensado de nos tornarmos algo, nos conduz a construção do falso eu. Podemos então levantar a hipótese de uma falsa autoconfiança, ou melhor, dizendo, a confiança no eu falso. Nas situações das quais nos “metemos” em circunstâncias complicadas, ou seja, quando “nos metemos em enrascadas”, na realidade estávamos confiando em uma parte do eu que está distante de ser verdadeira.

Gisele Bortoleto - Como fazer para saber quando estamos nos excedendo nessa autoconfiança a ponto de que ela se transforme em arrogância e afaste as pessoas de perto de nós?
Prof. Renato Dias Martino - A arrogância é o ultimo estagio da ignorância. Quando somos arrogantes é sinal de que não nos conhecemos e tão pouco, podemos confiar em nós mesmos. A autoconfiança dissolve a arrogância. E isso nos leva a constatar que não deve ser a capacidade de autoconfiança que movimenta a arrogância. Aquele que realmente confia em si mesmo, já deixou de usar esse recurso hostil.
Na realidade somos arrogantes justamente quando não estamos confiando em nós mesmos. Aprender a confiar em si mesmo é, antes de tudo, aprender a reconhecer sua própria realidade expandindo essa mesma realidade através da esperança que é o desejo do possível, mesmo que além do que é real.
Link para a versão online da revista: http://www.diariodaregiaodigital.com.br/Flip/Flip_Books/Bem_Estar-20110703/index.html#/4/
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Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866
renatodiasmartino@hotmail.com
http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com
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