Renato Dias Martino
Desde as primeiras publicações de Sigmund Freud (1856-1939), no inicio do pensamento psicanalítico, por volta de 1885, muitas condutas sociais se transformaram e parecem continuar em constante mudança. Modelos de costumes de gentileza, por exemplo, que eram cultivados em épocas passadas, hoje parecem raros e muitas vezes se tornam motivo de espanto.
Assim, não me parece um equívoco dizer que nos depararmos com um ato de gentileza em nossos tempos, é sem duvida motivo de surpresa.

Dessa forma, quando temos a sorte de percebermos uma ação de gentileza em alguém que encontramos, no nosso cotidiano, somos impulsionados a enaltecer o sujeito desse ato. Esse enaltecimento revela o quão raro é encontrar alguém capaz de gentilezas. Contudo, essa exaltação ao ato gentil revela, por outro lado, a dimensão da tolerância quanto aos comportamentos pouco amáveis que acabam por assumir a posição de “lugar comum”. Aprontam em incorporar-se naquilo que se pode esperar das pessoas.
A percepção dessa realidade é a origem do desassossego que me fez dedicar as reflexões contidas nas próximas linhas.
De tal modo, partindo de certo pressuposto que está para o aparelho mental, assim como a comida serve ao corpo físico, proponho aqui cogitarmos o conceito do reconhecimento. Quero propor o conceito de reconhecimento, quanto àquilo que nutre o eu.
Vínculos que resultam no reconhecimento, trazem a verdade que é em si, o alimento da alma. É dessa verdade que se retira o substrato da manutenção do funcionamento mental. Depende-se disso para o desempenho do pensar. O reconhecimento é o resultado da simbolização do objeto conhecido. A autoestima parte daí.
O conceito de símbolo começa a ser observado com maior cuidado, a partir dos estudos de Melanie Klein (1882-1960), pensadora da psicanálise posterior a Freud. Em sua obra “Da importância da formação de símbolos no desenvolvimento do ego” de 1930, Klein propõe que a capacidade do bebê em simbolizar o seio nutridor, é o protótipo de vínculo que pendurará na vida emocional. Iniciando daí as tentativas de novas experiências que possam aprimorar essa capacidade de simbolizar.
A partir desse vértice, cada experiência simbólica com a realidade, deve habilitar o “eu” a viver a falta e assim, sobreviver mesmo na falta. Só depois da experiência da falta é que se pode viver o reconhecimento. Conhecemos, vivemos o afastamento do que se conheceu e só depois reconhecemos.
Quando proponho o reconhecimento, isso não coincide com o ato de elogiar, como mencionado no inicio do texto. Não proponho valorizar o conceito efêmero do elogio, que me parece tão pobre em nutrientes e tão inútil para funcionamento saudável da mente, quanto à ação da crítica. Aquele que elogia, o faz por não ser capaz de reconhecer. Por se julga incapaz de reconhecer em si mesmo, aquilo que elogia no outro.
Isso na melhor das hipóteses, pois quando a experiência é muito primitiva, o que temos é a crítica. A crítica que parte da incapacidade daquele que critica, tem efeitos devastadores na qualidade dos vínculos. O crítico se fortalece criticando o outro. Isso por que despeja o peso de sua incapacidade no objeto da critica.
O elogio por sua vez, é o falso reconhecimento. Um alimento extremamente pobre no papel da manutenção da autoestima. O elogio é gerado por certa impressão superficial da realidade, bem distante de uma visão dedicada quanto à profundidade das pessoas e coisas, justamente onde se abre a dimensão do reconhecimento.
O que tentamos chamar aqui de reconhecimento, está na ordem da capacidade de percepção da realidade dos fatos. Distante do enaltecimento do elogio, que se encontra na ordem do idealizado, muito afastado do real. O “re-conhecer” trata da experiência de conhecer novamente, mas agora contando com a imagem internalizada do objeto de reconhecimento.
Necessitamos da opinião do outro quanto ao que somos. Isso existe naturalmente como necessidade de reconhecimento. Então, o ego carece disso pois é daí que se nutre a autoestima. Contudo sendo o reconhecimento uma qualidade do funcionamento mental, deve partir de dentro, ou seja, deve emergir do mundo interno. Quero propor que, só é capaz de reconhecer o outro, aquele que aprendeu a reconhecer-se a si mesmo. No entanto, isso só se dará a partir da experiência desse que hoje reconhece, em ter sido, por sua vez, reconhecido.
Ser reconhecido é perpassar o conhecimento do eu, pela confirmação do outro. Quero propor que para saber quem somos nós, necessitamos transcorrer essa verdade através do olhar do outro. Uma verdade sobre o eu, que só o eu conhece, não pode ser chamada de verdade.
Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866
renatodiasmartino@hotmail.com
http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com/












1 comentários:
Muito bom pude perceber esse processo de conhecer a si mesmo, com isso pude reconhecer o outro sem distinção, pois pude ter a experiência de tal reconhecimento, vejo que a cada dia isso se faz novo em meu ser, e procuro sempre saber um pouco do si mesmo, dentro das minhas experiências, assim posso a cada dia conhecer a mim e posteriormente reconhecer o outro.
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