quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

SOBRE O CARISMA

A proposta de refletir sobre conceitos inerentes ao funcionamento da mente é tarefa incessante e não existe dúvida de que demanda de manutenção constante. Não trata-se de certa pesquisa que busca um conhecimento por si só, mas o desenvolvimento de recursos de reflexão fluida e inexaurível.

Não seria diferente então, no caso da pesquisa sobre o conceito de carisma. Nos deparamos aí com uma capacidade extremamente almejada dentre as demais. Não é motivo de surpresa alguma, pelo menos para aquele que estuda a psicanálise, que o desejo de ser desejado é o anseio original do ser humano e que perdura como maior de todas as cobiças na vida mental do sujeito. O carisma indica justamente o desejo do outro em sua aceitação e aprovação. O carismático é, sem dúvida, um sujeito desejável e o que define sua condição carismática é justamente a aceitação do outro.
Como não seria diferente, aqui também a genealogia do termo pode nos mostrar alguns aspectos, revelando questões confusas dentro do exame do funcionamento mental (o que reflete em nosso comportamento) e isso implica impreterivelmente, em nossas uniões afetuosas. A palavra “carisma” tem origem tanto no latim quanto no grego e em ambos os radicais, guarda os significados de graça, meiguice, bondade... 
Todas essas características são sinais claros de transcendência da mente. São aspectos presentes na maturidade emocional daquele que se encontra num estágio superior de expansão da consciência que transcende no ser. Essas características são pressupostos da capacidade de acolhimento, são aspectos daquele que é capaz de proporcionar e manter vínculos saudáveis, logo,“enchem os olhos” do outro, que imediatamente dispõe sua atenção.
Com isso, a possibilidade de conseguir o que se deseja (que a priori parte do “ser desejado”) é realmente mais provável. Apesar disso, quando alcançou esse estágio de evolução do pensar, o sujeito deve também ter desenvolvido certo grau avançado de humildade. Esse nível adiantado da simplicidade faz com que seu desejo encontre-se em uma perspectiva também modesta. E é muito interessante perceber que é justamente nesse ponto do desenvolvimento mental que o sujeito é capaz de abrir mão de grande cota do desejo de ser aprovado e desejado pelo outro.
O carisma pode perfeitamente se encontrar na ordem das características inatas de um sujeito, penso que realmente certas pessoas nascem com certo dom do carisma. Muito provavelmente pelo fato de que o pensamento que antecedeu esse pensador já pressupunha tal capacidade. Ora, no entanto, não posso concordar que em um ambiente pobre de modelos carismáticos alguém possa desenvolver essa capacidade. Isso por que quando falamos de capacidades, sempre estaremos subordinados a possibilidade do desenvolvimento. Uma capacidade nunca nasce pronta, mas necessita ser acolhida e estimulada, para que se desenvolva. A capacidade é inerente a expansão constante e nunca é definida como algo estaticamente adquirido.


O carisma não pode ser confundido com popularidade, já que essa ultima não garante a qualidade. O carisma diz respeito ao reconhecimento do si mesmo, que também é exercício incessante. O carisma não pode ser algo que se persiga, isso pois não está configurado num objetivo, mas é o resultado da maturidade da alma, é sinal da evolução mental. O verdadeiro carisma é certa qualidade daquele que busca respeitar-se a si mesmo e assim atrai olhares externos daquele que também busca ser respeitado. Só poderá ser agradável, ou desejável ao outro aquele que se tornou alguém agradável a si mesmo e se tornou capaz de reconhecer-se em suas reais capacidades.




Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866
renatodiasmartino@hotmail.com
http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com/

sábado, 18 de fevereiro de 2012

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A comunicação e o eu desconhecido


Quando nos propomos publicar algo, por mais descritiva que possa ser essa publicação, ainda assim revelamos algo particularmente nosso, nisso que comunicamos. Isso acontece independe do tipo de meio de comunicação utilizado. Mesmo sendo um simples ato de contar um fato ocorrido a alguém, isso já se caracteriza numa publicação. Uma publicação é sempre uma ação que torna algo de conhecimento público. Isso, mesmo que esse público já tenha certa consciência desse fato. Ainda assim, cada um que conta a mesma história, coloca nela aspectos particulares e assim, diferentes daquilo que já é sabido. Isso está de acordo como o que nos propõe o dito popular “cada conto aumenta um ponto”.
Estes aspectos que não partem da realidade dos fatos, mas do desejo (ou ainda, de um medo) daquele que publica, surgem nas publicações sem que o próprio sujeito da publicação tenha consciência. O fato é que, muitas vezes aquilo que de nós é incluído na publicação, é justamente o que não pudemos pensar melhor e se assim for, não foi possível também, nos responsabilizar por isso. Quero dizer que, quando não somos capazes de conhecer e nos responsabilizar por certos aspectos de nossa personalidade, isso pode aparecer, sem que percebamos, em nossas publicações. Sem que seja percebido, isso escapa-nos e então, revela-se naquilo que comunicamos ao outro, ou seja, naquilo que tornamos publico.


Estaremos diante de um tema de grande importância se pudermos compreender que, vivendo socialmente agrupados, nós publicamos o tempo todo. Temos que nos comunicar para viver. Seja através de meios bem limitados como um simples “bate papo” com um colega, ou ainda, em escala extremamente ampliada, como é o caso das redes sociais digitais, na internet. O fato é que, por vezes nos comunicamos; falando ou agindo de certa maneira que logo depois nos questionarmos o porquê fizemos isso, sem chegarmos à conclusão alguma que nos possa justificar tal fato.


São aspectos da nossa personalidade dos quais por algum motivo, não fomos capazes de reconhecer como nosso. Talvez por estarem vinculados a sentimentos desagradáveis, como medo, vergonha e humilhação. Ao identificarmos certos sentimentos desagradáveis automaticamente evitamos pensar sobre eles, imaginado talvez, que dessa forma deixarão de existir. Contudo, um sentimento não deixara de existir por ser ignorado.
Ele simplesmente será negado em nossa consciência e surgirá em alguma publicação sem nossa permissão, em alguma tentativa de comunicarmos algo. Ainda assim, são características de nossa personalidade, mas que evitamos conhecê-lo e assumi-lo como parte do que somos. Muito provavelmente por que isso nos custaria reconhecer algo que desaprovamos em nós mesmos. Agora, renegado e reprimido isso então, nos surge de maneira indireta em algo que publicamos.


Partindo dessa idéia, fica claro o fato de que, quanto mais consciente de nós mesmos pudermos nos tornar, menos aspectos impensados de nós mesmos estarão por entre as informações que publicamos.


Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866
renatodiasmartino@hotmail.com
http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com