sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

O DESEJO QUE CEGA E A FERA NA JAULA EM “U”

O desejo que move o humano em direção às coisas é mesmo desejo que cega seus olhos para as mesmas coisas. Se o desejo, quando satisfeito em seu tempo, faz por diluir o próprio desejo, esse mesmo desejo ora submetido à grande privação torna-se perigoso e coloca o sujeito vulnerável.
Numa cruel experiência, pesquisadores puderam revelar o poder destruidor do desejo. Foi colocado um tigre faminto, que havia sido privado de se alimentar por vários dias, numa jaula em formato de “u”. Uma farta peça de carne fresca foi disposta bem em frente ao painel frontal da jaula. Contudo, o suculento pernil de cordeiro teria sido arranjado de uma forma onde a esfomeada criatura não pudesse alcançar. Mas, ainda assim, a parte de carne se encontrava próxima o bastante para que a fera se esmagasse, insistindo em investir repetidas vezes contra a grade,  na tentativa de agarrar o objeto do seu desejo. 
No polo oposto de onde se encontrava a porção de carne existia uma extensa abertura. Nos fundos do confinamento, uma larga abertura dava à grade o formato da letra “u”. Tão sedenta pela refeição a fera não conseguia sequer olhar para traz e perceber que a jaula estava aberta às suas costas. Diferente disso o tigre mantinha-se se esticando, e debilmente insistindo em seu alvo. Sua condição de privação o deixou sem poder tolerar o mínimo necessário para enxergar a saída que está no caminho oposto do seu desejo.
Essa fictícia metáfora sugere a satisfação da necessidade de nutrição representada pela fome do tigre. Ele teria sido obrigado a ficar sem se alimentar por longo período e isso gerou nele uma cegueira para tudo que não fosse seu objeto de desejo. Pensemos então na situação da privação do olhar reconhecedor, na impossibilidade de satisfação da necessidade  de reconhecimento. Enquanto o corpo necessita de alimento a alma precisa de reconhecimento através do amor e da verdade. Quando somos reconhecidos pelo olhar sincero e amoroso do outro, construímos, nesses mesmos moldes a noção de verdadeiro eu, e a alma se nutre disso.
Viver em condição de privação do olhar reconhecedor  tem consequências análogas. Uma alma desnutrida e intolerante se revela incapaz de refletir possibilidades. Incide a intransigência impedindo o olhar para qualquer outra direção.  A arrogância talvez seja a característica mais marcante do empobrecido na alma que mostra especial rigidez nas ideias, sendo que a inflexibilidade impede qualquer chance de aprender com as experiências.






Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
renatodiamartino@hotmail.com

http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com.br

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