domingo, 26 de fevereiro de 2017

Coragem e Transformação - Prof. Renato Dias Martino


cor = “coração” + agire  = "agir"
Mais do que um ato de ousadia, a coragem no sentido de agir com o coração.
Agir com o coração para renunciar aquilo que,
na verdade, está fora do nosso limite, não tem haver com nossas capacidades.
A razão esta dizendo que você tem que ir, mas o teu coração está dizendo que não.
Então você precisa ter coragem para renunciar a isso.
Difícil, né? Bonito mais difícil, né?
Porque muitas vezes você tem que bater de frente com o mundo, que é racional.
Qualquer mudança que não seja pelo amor ela é dissimulação.
Essa mudança precisa estar sendo nutrida de afeto.
Porque se não ela é uma dissimulação.
E assim que o outro desviar a visão ela deixa de existir.
Porque é feita por medo.
E a hora que o medo não esta...
o objeto de medo não está presente,
não tem o porquê manter aquilo que foi transformado.
Por que, na realidade, nunca foi transformado.




Prof. Renato Dias Martino
http://www.pensar-seasi-mesmo.blogspot.com.br/

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

DA AUSENCIA PATERNA - Prováveis consequências

A figura paterna é para a psicanálise freudiana elemento central por configurar-se naquilo que deve estruturar a personalidade do sujeito. 
“Não consigo pensar em nenhuma necessidade da infância tão intensa quanto a da proteção de um pai.” (Freud, em O MAL-ESTAR NAS CIVILIZAÇÕES, 1930). A importância paterna é indiscutível mesmo no senso comum se pensarmos que uma mãe precisa se sentir segura o suficiente para cuidar dos filhos de maneira bem sucedida. 
“Um modelo muito interessante é o da formação da natureza, onde a fêmea prenha busca um local seguro para se aninhar e receber seu filhote. Nesse momento contará com o resguardo do macho que a protegerá das ameaças externas e proverá recursos para que ela se ocupe em assegurar as melhores condições possíveis para o desenvolvimento deste que nasce. Uma fêmea sem esse resguardo nunca poderá cuidar do que precisa ser cuidado.”. (Martino, em PRIMEIROS PASSOS RUMO À PSICANÁLISE, 2012).
Nos grupos de primatas mais evoluídos, como é o caso dos chimpanzés que compartilham de 98 a 99 % de DNA com os humanos, existe uma clara estrutura de liderança do macho mais velho, que oferece proteção às fêmeas e aos machos mais jovens. No entanto, na raça humana o papel do pai nas famílias parece estar sofrendo severa transformação, especialmente nas últimas décadas. Existe uma decadência muito clara da presença paterna nos lares que parece, a cada dia, ameaçada de extinção. Isso fica evidente tanto através da prática clínica quanto na vida cotidiana. Falo aqui deste mesmo humano que vem ameaçando de extinção também o chimpanzé, assim como outras espécies de animais.
A ausência do referencial masculino pode acarretar inúmeros prejuízos que por mais que sejam ignorados pelo olhar social, ainda assim se pronunciam diante de nossos olhos desde a dificuldade de definição da sexualidade até nos casos de delinquência. Essa ausência pode tornar a criança aversiva às orientações dos adultos, tanto de representantes femininos quanto masculinos. Com isso pode se tornar um adulto que não consegue se adaptar às regras básicas de convívio, interpolando as duas posições: ora subserviente, ora revoltado com as regras.
Assim como Melanie Klein (1882 — 1960) bem nos orientou sobre o fato de que, quando a experiência com a realidade não pode ser vivida de maneira bem sucedida o sujeito não consegue integrar os objetos do mundo externo que fica dividido em amável e maldoso. Com isso também a figura paterna ausente fica desintegrada e segundo Klein: “É preciso uma identificação mais completa com o objeto amado e um reconhecimento mais completo de seu valor para que o ego perceba o estado de desintegração a que o reduziu, e continua a reduzir.” (Klein, 1935).
O modelo masculino se faz essencial na formação e estruturação da personalidade da criança e é desse referencial que angariará recursos para elaboração de complexos importantes no funcionamento psíquico. A ausência desse modelo pode dificultar a capacidade de estabelecer parâmetros de relacionamento que podem obstruir a capacidade de vinculação saudável na vida adulta. Ainda que este modelo possa não vir necessariamente do pai biológico é importante que essa outra figura masculina não seja um avô, um tio ou qualquer outro parente consanguíneo, já que a importância dessa figura está ligada aos processos edípicos. Esse homem representará a imago daquele que vem possuir a mãe e com isso libertar a criança do risco do incesto. Assim, essa figura deve encontrar-se num namorado da mãe que seja afetuoso e presente, ou um aspirante de padrasto, por exemplo.
Na elaboração do complexo de Édipo, a ausência desta figura significa que nada se interpõe entre a criança e sua mãe, o objeto desejado, que, sem obstáculos, é toda sua. Essa criança em que sofreu uma severa privação da figura paterna deve ter dificuldades em reconhecer limites e aprender regras de convivência social, já que o pai é o representante desse limite e a mãe configurará naquilo que se deseja.
“O estabelecimento de limites é característica central da presença emocional paterna. É do pai a função de dizer “não”, por exemplo, quando a mãe faz isso é sempre em nome do pai: “Espera só seu pai chegar!”, entretanto essa definição deve contar com uma boa dose de afeto. A ausência do afeto nessa experiência resulta na criação de um funcionamento cruel com ele mesmo.” (Martino, 2013).
Quando esse modelo não pode estar presente, a criança tem grande dificuldade na identificação e definição sexual, ou de gênero. A criança que de início vive uma configuração bissexual buscará na figura paterna uma referencia tanto de identificação (o que eu sou) quanto de escolha pelo par amoroso (quem eu quero ter) da vida adulta. Na prática clínica fica claro que pacientes que apresentam “queixas de impotência sexual, ou quaisquer que sejam as questões que impedem um desenvolvimento saudável de uma vida sexual e até mesmo, certo casos de homossexualidade, em sua maioria, carregam históricos extremamente conturbados, no que diz respeito às vivências de descobertas da vida sexual.”. (Martino, PARA ALÉM DA CLÍNICA, 2011).
Dessa maneira a presença de ambos os pais é o que permitirá que a criança viva de forma mais natural possível os processos de identificação e diferenciação, o que em sua ausência de um deve ocorrer a saturação no papel do outro.  Na ausência do pai, por exemplo, ocorre a saturação da presença da mãe, minimizando e até anulando a personalidade da criança que quando adulto tanto pode se tornar subserviente a todos, quanto tornar-se um narcisista arrogante para compensar o sentimento de inferioridade.
“É de extrema importância que, ao se arriscar nesse abismo chamado bebê, a mãe conte com um alguém (marido/pai) que mantenha a mão seguramente dada. De outra forma existirá sempre um grande risco de se perder nesse abismo. A mãe e o bebê se confundem, e essa importante experiência de discriminação entre um e outro só pode ocorrer com a entrada de mais alguém (o pai) na relação.” (Martino, em PRIMEIROS PASSOS RUMO À PSICANÁLISE, 2012).
Quando trato aqui de presença, ou ausência, quero me referir ao fato de que a necessidade afetiva paterna está muito além da simples presença física. No entanto essa presença do pai, que a princípio, deve ser uma ideia no interior da mãe, e assim, transmitida para o bebê como autoconfiança daquela mãe que se sente segura por poder contar com seu marido, deve ser sucedida do encontro com o pai físico no plano sensorial. O bebê carece de ouvir a vós, sentir o cheiro, sentir o toque daquele que cumpre essa função fundamental na estruturação de sua personalidade. “Não se pode criar uma imagem interna sem um representante no mundo externo.”. (Martino, em PRIMEIROS PASSOS RUMO À PSICANÁLISE, 2012).
No início da vida do bebê ele se relaciona com pessoas e coisas numa forma narcisista de ligação e isso acontece num processo natural da evolução dos vínculos, se repetindo de alguma forma, na vida adulta em cada nova relação travada pelo sujeito. A próxima etapa inclui outra forma de ligação da qual Freud (1856 – 1939) denominou ligação objetal, onde existe a possibilidade de ligar-se ao outro não mais por identificação, mas agora levando em conta também as diferenças. “...onde anteriormente se sentia como uma extensão da mãe, como sendo parte de um só, numa ligação por identificação.” (Martino, em O LIVRO DO DESAPEGO 2015).
A psicanálise nos ensinou que o processo de evolução da ligação por identificação para a ligação objetal deve ocorrer a partir da introdução da função paterna na relação, que até então era entre dois e agora expande-se na perspectiva da tríade, requerendo maior capacidade. Existe então uma quebra de narcisismo, onde se configura impreterivelmente um afastamento entre mãe e a criança que a partir daí deve começar a buscar novas experiências para além do triangulo. “Experiência dolorida de se viver! Mas a mãe dedicada cuidará para que o bebê se magoe o mínimo possível nesse distanciamento e assim possa viver o luto da relação.” (Martino, em O LIVRO DO DESAPEGO 2015).
Contudo, o desempenho dedicado da função paterna inclui a capacidade de tolerar o sentimento de inveja gerado pela atenção da mãe que se concentra na chegada do filho. Ser um pai realmente presente é uma tarefa que demanda grande dedicação. Não é simplesmente prover o que se encontra na ordem material, mas consiste em se colocar presente no apoio e no amparo emocional nessa experiência tão delicado que é a chegada do filho, assim como a manutenção da vida que brota da união do casal.
Bem, não é só a figura paterna que parece estar em decadência nos lares, mas a figura materna também vem se ausentando e a maioria das crianças parece ser hoje criada na melhor das hipóteses por babás, quando não, crianças com menos de seis meses são deixadas, muitas vezes o dia todo e todos os dias, em instituições publicas ou privadas.  ...e assim, continuamos a condenar a criança pela incapacidade do adulto em cuidar de seus próprios filhos.

Freud, S. 1930. O MAL-ESTAR NAS CIVILIZAÇÔES, em OBRAS PSICOLÓGICAS COMPLETAS - Edição Standard Brasileira, IMAGO (1969-80)
KLEIN, M. 1935. UMA CONTRIBUIÇÃO À PSICOGENESE DOS ESTADOS MANÍACO-DEPRESSIVO. In:____. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945). Rio de Janeiro: Imago Ed., 1996.
MARTINO, Renato Dias. PARA ALÉM DA CLÍNICA. Renato Dias Martino - 1. ed. São José do Rio Preto, São Paulo: Editora Inteligência 3, 2011.
_____ . PRIMEIROS PASSOS RUMO À PSICANÁLISE, 1. ed. São José do Rio Preto, SP : Vitrine Literária Editora, 2012.
_____O LIVRO DO DESAPEGO, 1. ed. São José do Rio Preto, SP : Vitrine Literária Editora, 2015.