quarta-feira, 22 de março de 2017

COGITAÇÕES A PROPÓSITO DA DEPRESSÃO

A depressão tem sido avaliada, na contemporaneidade, como um problema de saúde pública, e alguns especialistas chegam a considerá-la como aquilo que será o mal do século 21. No entanto, muito tem se afirmado e até mesmo, vem se predizendo sobre essa experiência mental que, na realidade, muito pouco se tem conhecimento.
Numa sociedade de características cada vez mais imediatistas, que visa a satisfação a todo custo, onde o que se vê é a evitação de todo e qualquer desconforto, não será surpresa se houver uma condenação de uma importante experiência psíquica natural do desenvolvimento mental, como sendo patologia, por conta de suas características demoradas e dolorosas.
Ora, além do mais, não é fato digno de espanto que nessa sociedade de qualidades superficiais, uma experiência que demande profundidade possa ser descrita como doença. A palavra depressão tem sido comumente utilizada para designar uma forma de patologia mental, no entanto esse conceito tem aplicações muito mais amplas podendo, até mesmo ser motivo de equívocos, dentro do olhar apressado, característica típica do ser humano contemporâneo. Num olhar impaciente tendemos a julgar e diagnosticar com muita rapidez algo que mereceria mais respeito.
“Do Latim respectus, particípio passado de respicere, “olhar outra vez”. Do re, “de novo”, mais specere, “olhar”: a ideia é de que algo que merece um segundo olhar em geral merece respeito.”. (Martino, 2013).

Afinal, o que estamos chamando de depressão? O conceito de depressão é relativo a um movimento para baixo. Encontramos esse termo na geografia topográfica, descrevendo regiões do terreno que estejam num nível mais profundo. Nas formulações emocionais usa-se esse conceito para descrever o movimento de recolhimento dos investimentos de interesse. A retirada da importância do mundo externo numa introjeção da libido em direção do eu. A origem da palavra vem do latim DEPRESSIO, de DEPRIMERE, significando o ato de apertar firmemente para baixo, na junção de “de” = “para baixo”, + “premere” = “apertar, ou comprimir”. Quando esse termo é aplicado às experiências emocionais, de modo geral, poderíamos dividir a depressão em duas manifestações: 
a) O processo depressivo natural, do qual poderíamos classificar como sendo saudável, que é gerado por conta da situação de luto. Nesse caso, o que ocorre é que frente à perda de algo de muita importância o sujeito se deprime e o mundo externo fica desinteressante, por isso o recolhimento da importância que se atribuía ao mundo externo. Essa experiência pode ser obstruída quando existe um impedimento para que o processo natural de luto possa acontecer de forma saudável. Uma exigência externa que não permita a retirada do interesse do mundo externo. Isso pode gerar um agravamento e até mesmo originar um quadro patológico, se persistir o impedimento. 
b) Um segundo caso seria o estado depressivo patológico configurado na melancolia, assim como nos orienta Sigmund Freud (1856-1939). A melancolia ocorre quando a relação que o sujeito tem com aquilo que se perdeu guarda características narcisistas, onde o eu e aquilo que foi perdido não puderam se separar emocionalmente. Nesse caso existe uma exigência interna que não permite que o sujeito descanse sua mente para que o processo de luto ocorra. Freud publica LUTO E MELANCOLIA em 1917 e contribui com isso, enormemente para o estudo e aprimoramento do atendimento psicoterapêutico do sujeito depressivo. 
“O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante. Em algumas pessoas, as mesmas influências produzem melancolia em vez de luto; por conseguinte, suspeitamos de que essas pessoas possuem uma disposição patológica.”. (Freud, 1917).

Depois de Freud, Melanie Klein (1882 — 1960) introduz sua teoria das posições (1935), onde propõe que a mente funciona em duas perspectivas: posição esquizo-paranoide em que a partir de uma tendência a desintegração, a mente provoca uma divisão da realidade; tanto do eu quanto do mundo e a posição depressiva onde ocorre a integração da realidade. Na posição depressiva o sujeito toma consciência da realidade como um todo e com isso sente-se culpado por ter odiado o mesmo objeto que também amava. Essa posição provoca sofrimento, onde leva a sofrer o processo de transformação da culpa em responsabilização. Por conta disso o sujeito pode tentar evitar essa posição a todo custo.
No entanto, evitar sofrer não representa o fim da dor. Entristecer-se é fundamental na tarefa de pensar; aquele que não se encontra capaz disso, ou escapa para euforia, ou mergulha na depressão patológica. O desconforto é o primeiro sinal da transformação do pensamento. O pensar só pode ocorrer quando se inclui a ideia do outro e assim a expansão passa a ser possível. Dessa maneira a dedicação a um processo psicoterapêutico de qualidade é um bom recurso para promoção dessa expansão.
Sem um bom vínculo de confiança as ilusões podem ser percebidas como fatos. Imaginar não é pensar. Quando um quadro de depressão se pronuncia, pode não se tratar necessariamente de uma situação patológica.
Isso pode estar sendo um sinal de uma experiência de luto natural, frente à perda de algo significativo para o sujeito. Algo que muitas vezes, nem o próprio sujeito consegue ter muita consciência. Nessa situação os sinais revelam a evidencia de que existe a necessidade de resguardar-se, por conta de certa fragilidade emocional característica desse processo.
Essa experiência deve ser lenta, levando um tempo diferente em cada caso. Nunca podendo ser estabelecido um período determinado. Quando não se pode respeitar o processo do luto, muito provavelmente a situação pode se agravar. Na tentativa de abreviar o decorrer desse lento processo, a tendência é que se desenvolva um quadro mais severo.
A insistência em se expor às experiências emocionais, quando se está fragilizado emocionalmente, pode trazer sérios danos ao sujeito enlutado e uma depressão grave e patológica pode ser um provável desfecho para isso. A urgência para que o sujeito saia logo do seu processo depressivo, ou ainda, seja arrancado de seu estado deprimido, muitas vezes com administração de fortes medicamentos e técnicas psicoterapêuticas que forcem o sujeito a enfrentar o retorno da vida social é uma prática perigosa entretanto, muito comum na sociedade contemporânea.
Nos tempos atuais parece não existir espaço para experiências que espacem um longo período, assim como os relacionamentos duradouros parecem estar cada dia menos frequentes. Parece haver uma ânsia desmedida pelo consumo assim como o acúmulo de bens e concomitantemente, a necessidade de produção. Experiências psíquicas delongadas, como as do processo depressivo, assim como a constituição de relacionamentos duradouros são nocivas a um modelo de vida baseada no comprometimento com a realidade material.
Essa alucinação da vida de produção e consumo desmedido acarreta a saturação do aparelho sensorial, provocando inúmeras patologias que se manifestam desde a forma mais sutil, no âmbito mental, que compromete diretamente a capacidade de amar, até a manifestação no corpo físico. Em ultima análise, cair em depressão é uma forma extrema de buscar a paz. 


Freud, S. 1917. LUTO E MELANCOLIA, em OBRAS PSICOLÓGICAS COMPLETAS - Edição Standard Brasileira, IMAGO (1969-80). KLEIN, M. 1935. UMA CONTRIBUIÇÃO À PSICOGENESE DOS ESTADOS MANÍACO-DEPRESSIVO. In:____. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945). Rio de Janeiro: Imago Ed., 1996. MARTINO, Renato Dias. O amor e a expansão do pensar: das perspectivas dos vínculos no desenvolvimento da capacidade reflexiva, 1. ed. São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2013.




Prof. Renato Dias Martino 
http://www.pensar-seasi-mesmo.blogspot.com.br/

domingo, 19 de março de 2017

PSICANÁLISE NÃO É - Prof. Renato Dias Martino


É muito mais fácil você dizer o que não é psicanálise.
É a mesma coisa de você dizer assim: O que é amor?
Eu não sei o que é amor. Mas, eu sei muito bem o que não é amor.
Psicanálise não é medicina! Psicanálise não é psicologia!
Psicanálise é muito mais do que isso.
Psicanálise é ser!
Psicanálise não está dentro da perspectiva simplesmente teórica.
Saber de psicanálise não garante que você seja um psicanalista.
Você pode saber muito de psicanálise e não conseguir ser um psicanalista.
Quando você tiver alguém, um paciente na sua frente você não consegue ser psicanalista mesmo sabendo muito sobre psicanálise.
Porque a psicanálise nasce na prática. Em que prática que ela nasce? Nasce da prática de sua analise pessoal.
Um analista precisa ser impreterivelmente ser analisado. É isso que vai qualificá-lo a ser psicanalista.
Prof. Renato Dias Martino
http://www.pensar-seasi-mesmo.blogspot.com.br/

sábado, 18 de março de 2017

PALESTRA SOBRE DEPRESSÃO


Depressão – Dia 25 de março de 2017 das 09:00 às 12:00 
no anfiteatro do hospital Ielar. São José do Rio Preto - SP

Inscrições no local, no dia do evento = 1 pacote de fralda adulta G ou GG

sábado, 4 de março de 2017

SOBRE A HISTÓRIA E AS ESTÓRIAS

Cada sujeito que tenha vivido uma experiência em comum com outras pessoas deve guardar na memória elementos dessa ocasião dos quais mais se identificou e isso deve se diferenciar do que outra pessoa que vivera a mesma experiência possa ter arquivado em suas lembranças. Uma pessoa relata um ocorrido de forma bem diferente do que outra pessoa que esteve no mesmo local e momento do ocorrido. Isso, pois a descrição do acontecido depende muito mais da interpretação daquele que vive a experiência do que daquilo que realmente aconteceu.

A memória é falha por selecionar elementos e nunca conseguir registrar o todo da experiência. Por vezes deixando escapar partes cruciais para que pudesse ser possível se perceber a situação de maneira razoavelmente autêntica. Mesmo que a situação tenha sido registrada por aparelhos de alta tecnologia, que consigam grande poder de apreensão e que apresentem grande potencial de definição, ainda assim, inúmeros aspectos, se não, a maior parte deles, ficarão ausente do registro e impossíveis de serem revelados. 

“A fotografia da fonte da verdade talvez seja muito boa, mas, da fonte após turvada pelo fotógrafo e sua máquina; mesmo assim, continua o problema de interpretar a fotografia. A falsificação do registro é maior, por emprestar verossimilhança ao já falsificado.”. (Bion, 1962). 

Ainda que esse fato tenha sido relatado por uma grande quantidade de pessoas, que concordem com a mesma versão, ainda assim temos inúmeros motivos para acreditar que possa existir um pretexto que esteja guiando esse grupo para uma falsa interpretação do que realmente ocorreu e que ainda assim a maior parte dos aspectos legítimos do ocorrido estará ausente da conclusão. Além disso, conforme o tempo passa o relato do que ocorreu pode sofrer modificações, tanto por suscitar novas lembranças, quanto por estar suscetível ao esquecimento de partes do ocorrido. Por conta disso, o registro de fatos ocorridos é sempre duvidoso. No dito popular “quem conta um conto aumenta um ponto” encontramos um representante dessa ordem de reflexões da qual proponho aqui. O que tem de verdadeiramente real num fato relatado, ou mesmo registrado é a questão de ordem.

O tema do registro dos fatos ocorridos é um tema de grande importância para a prática clínica da psicanálise. “O que aconteceu só se mantém através da memória, e a memória é seletiva, traiçoeira em potencial, por fundir-se ao conteúdo impensado da mente, invalidando assim sua fidedignidade com a realidade dos fatos.”. (Martino, 2015).

Aquele que tenha feito uma pequena pesquisa na obra de Wilfred Bion (1897 – 1979), deve ter percebido a característica nociva da memória para o analista em seu trabalho na prática clínica. Na procura pelo fato psíquico em questão no processo psicoterapêutico, aquilo que já passou não deve ser mais objeto de atenção, se tornando então um obstrutor da possibilidade da apreensão do fato presente. Assim como a expectativa do que acontecerá no futuro se configura num elemento danoso para a apreensão do fato presente. Bion propõe que quanto maior for a capacidade de armazenamento de dados na memória, menos o psicoterapeuta será capaz de perceber aquilo que se apresenta no tempo presente; justamente onde se manifesta a realidade.
“Um analista cuja mente for desse tipo é alguém incapaz de aprender, porque está satisfeito.”. (Bion, 1970). Só pode aprender aquele que tem a consciência de sua ignorância e aquilo que supostamente se imagina saber está armazenado na memória. “A tentativa de lembrar ou registrar destrói a capacidade para a observação dos eventos psicanaliticamente significantes e a interrompe.”. (Bion, 1970). Aquilo que foi registrado está distante do que realmente aconteceu.

Na língua portuguesa a palavra estória é muito antiga, servindo para referirem-se às narrativas populares, ficções folclóricas ou ainda às tradições não verdadeiras. A palavra estória aparece em dicionários e no vocabulário ortográfico da Academia Brasileira de Letras, entretanto esse termo não é unanimemente aceito. Guimarães Rosa (1938 - 1967) é um escritor que se utiliza bastante desse termo em suas obras, como uma tentativa de ilustrar invenções e concepções imaginativas da criatividade. 
Guimarães Rosa
(1938 - 1967)
“Precisávamos de imaginar, depressa, alguma outra estória, mais inventada, que íamos falsamente contar, embaindo os demais no engano.”. (Rosa, em Pirlimpsiquice, 1962). Ainda assim, esta expressão tem seu uso condenado por muitos estudiosos, por ser considerada invenção brasileira e sem necessidade de existir. Diferentemente, a palavra história é utilizada quando a intenção é se referir sobre a ciência, como registro factual com base em acontecimentos reais.

Mas, se concordamos aqui, com a ideia de que todo registro do passado sempre guarda uma grande cota de contaminação da visão daquele que relata o ocorrido e ainda, que o relato do que ocorreu no passado sofre inúmeros reveses até que possa chegar numa conclusão, que de fato nunca será realmente conclusiva, então o termo mais inadequado é justamente “história”. Já que o relato do passado só pode ser considerado uma aproximação do que realmente ocorreu e que a maior parte dos elementos que definiriam a fidedignidade do ocorrido fica encoberta pela limitada capacidade de registro. Então, o relato dos eventos factuais está sempre subordinado à interpretação daquele que registra e então tenta relatar.

BION, W.R.(1962). APRENDENDO COM A EXPERIÊNCIA. Rio de Janeiro: Imago,1962.
________ (1970). ATENÇÃO E INTERPRETAÇÃO. Rio de Janeiro, Imago, 2007.
MARTINO, Renato Dias. O LIVRO DO DESAPEGO - 1. ed. -- São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2015.
ROSA. J. G. Pirlimpsiquice, in PRIMEIRAS ESTÓRIAS - Texto integral, Editora Nova Fronteira, Rio de janeiro, 2005/1962.



Prof. Renato Dias Martino 
http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com.br/ 

sexta-feira, 3 de março de 2017

UMA INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE - Teoria e Prática

UMA INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE - Teoria e Prática
Com Prof. Renato Dias Martino
Dia 18/03 às 14 hs no auditório do hospital Bezerra de Menezes
Rua Major João Batista França (entrada pela rua Ovaldo Aranha)
São José do Rio Preto - SP
Inscrição: R$ 10,00 + 1 Kg de Alimento
Informações pelo fone: 17-30113866 ou 17-9883175