sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

O ÉDIPO E O SUPEREU - Prof. Renato Dias Martino


Quando a gente fala de Édipo, normalmente a gente tem a ideia de que existe ali, uma triangulação onde duas figuras estão unidas e vem uma terceira para cortar esta relação. Esta colocação é extremamente inadequada. 

CORTE, TRANSFORMAÇÃO E ENRIQUECIMENTO 

A entrada do pai não promove corte algum, ele vai promover um enriquecimento, ele vai vir para trazer uma possibilidade de influência para que esta relação, entre o filho e a mãe possa se enriquecer, possa se transformar. É um ponto de transformação e não de corte. Os lacanianos se apossaram dessa palavra corte, castração e trazem uma um empobrecimento na possibilidade de associação do que se tem como teoria, na prática. A entrada do pai é um fator enriquecedor, que vai possibilitar a desobstrução da relação filho e mãe, para que esta relação possa se transformar em algo adequado. Então, quando a gente está falando de triângulo edípico, nós estamos falando de uma configuração que vem para trazer uma possibilidade de transformação e não de ruptura. O vínculo entre mãe e filho se enriquece com a entrada do pai.

NOVA DIMENSÃO E ADEQUAÇÃO

Todas as configurações triangulares que o sujeito virá experimentar no futuro, vão estar de alguma forma subordinadas à elaboração daquilo que o Freud chamou de complexo de Édipo. O Freud trouxe o mito de Édipo, mas você não precisa do mito de Édipo para que você possa entender a configuração triangular. O próprio triângulo, a própria geometria já é o suficiente para que você possa perceber aí, dois pontos e um terceiro ponto que promove, não um corte, mas uma nova dimensão para esta configuração. O ponto não corta, ele traz uma nova configuração. A entrada da função paterna precisa ser algo enriquecedor para relação. Ele traz a possibilidade de enriquecer o relacionamento que o filho tem com a mãe. Ele traz a possibilidade de se esclarecer as possibilidades vinculares entre filho e mãe. A função paterna real e saudável é aquela que traz a possibilidade de adequação da relação filho e mãe.


PARA KLEIN


Irá ganhar uma nova configuração por conta da função paterna que passa a integrar o mundo emocional-afetivo da criança. Para Melanie Klein, o complexo de Édipo já existia dentro daquilo que ela chamou de um Édipo arcaico, de um proto-superego, por assim dizer. Um período pré-edipico que na fase fálica vai tomar uma configuração exteriorizada, por assim dizer. Como é que se dá esta configuração pré-edipico, no que a gente vai chamar de superego arcaico, dentro da configuração kleiniana? Melanie Klein, dentro daquilo que ela chamou de posição esquizoparanóide, divide o bebê. Vai dividir a realidade em duas, cindindo essa realidade em dois. Uma parte é benevolente, uma parte vem para satisfazer e a outra parte está ligada à privação e é um seio persecutório. Então, seio bom e seio mau. O seio bom é aquele que vem e satisfaz e o seio mau é aquele seio que priva da satisfação. Por mais que o sujeito esteja desfrutando do seio bom, ele está o tempo todo com medo da perseguição do seio mau. Então, se a gente está falando de sei o bom e sei o mau e o sujeito, nós estamos falando então, de uma triangulação. O superego primitivo, ou arcaico é um superego persecutório, é aquele perseguidor, é aquele que que vem ameaçar a paz do bebê com o seio bom. Diferente do superego proposto por Freud na fase fálica que é o herdeiro do complexo de Édipo fálico, que é o superego legislador. É aquele que traz a lei, é aquele que vai trazer o que pode e o que não pode. A princípio, o bebê vai viver um superego persecutório e depois ele vai, através da entrada do pai, transformar esse superego num superego legislador. O sujeito que tem a preponderância, ou a predominância da parte psicótica, não conseguiu essa transformação de superego persecutório para um superego legislador. O superego legislador é aquele que vai ser o fiscalizador, ou o fiscal das neuroses, dos sintomas neuróticos e o superego persecutório é aquele que vai atormentar as alucinações psicóticas.

PARA FREUD

Para o Freud, o superego é um herdeiro do complexo de Édipo e para o Freud o complexo de Édipo acontece na fase fálica. Então, na elaboração do complexo de Édipo na fase fálica, para Freud, aparece o superego para ele. Antes não tinha superego e o que que é o superego para o Freud é a possibilidade de elaboração do complexo de Édipo. As questões edípicas. Ideal de eu. O que então, deveria ser. Então, este superego, ao mesmo tempo vai cobrar que o sujeito tem a mãe só para ele e também, ao mesmo tempo, vai negar e proibir que ele possa ter esta mãe para ele. E quando esse pai não exerce uma função suficientemente boa, isso passa a ser um elemento extremamente perturbador na configuração da estrutura mental do sujeito.

PERSEGUIÇÃO E LEGISLAÇÃO

Um sujeito que tem a predominância da parte psicótica da mente, ele não tem a ligação razoável com o mundo externo, logo, as leis para ele fazem muito pouco sentido. Toda figura de autoridade vai significar perseguição e não legislação. Todas as vezes que houver um contato, tanto com a figura externa de autoridade, quanto com a figura interna de autoridade. Este contato será um contato de perseguição de alguém que vem me sondar com um olhar que fica o tempo todo à espreita. A alucinação do psicótico, a miúde, tem esta figura de perseguidor independente de leis ou não. Não tem a ver com lei, tem a ver com perseguição. Estão me perseguindo! E o superego legislador é mais fácil ainda, porque todo o sintoma neurótico acontece por conta de uma proibição, de uma proibição da civilização. Como é que se desenvolve um sintoma neurótico? O sujeito reprime um desejo perverso, por ser proibido civilizatoriamente, dizendo, e a partir dali, ele elege um substituto, que é permitido pela sociedade e ali ele desenvolve o seu sintoma. Todo o sintoma neurótico perpassa por uma proibição civilizatória social.

PARA BION

O Bion observa um uma outra característica do Édipo. Não restrita a ideia do crime sexual e do parricídio, mas ele vai para além. Ele percebe ali, a forma arrogante que o Édipo lida com a verdade. Quando ele manda buscar o Tirésias e pergunta quem foi que matou Laio. Conforme o Tirésias vai revelando ali a verdade, o Édipo vai se enfurecendo, ficando hostil e lidando com arrogância frente essa verdade. Mesmo dentro do Édipo, fora dessa configuração, se estabelece mais um triângulo. Não mais em relação a Laio e Jocasta, mas agora em relação à verdade e o Tirésias. Então, mais um triângulo aí que não tem a ver com sexualidade. Mas o Édipo gostaria que a realidade fosse uma coisa e o Tirésias traz a verdade que não é aquilo que o Édipo gostaria que fosse. Então dentro da história do Édipo se instala um novo triângulo que é uma extensão do próprio triângulo edípico, onde o Édipo deseja que a realidade seja alguma coisa e o Tirésias diz que a realidade não é aquilo que ele deseja.

MODELO EDÍPICO

Quando a gente fala de triângulo edípico, triangulação do Édipo, do complexo de Édipo, nós não estamos falando somente da ideia sexualizada, mas nós estamos falando aqui, de uma experiência onde há um objeto de desejo e algo a ser respeitado na tentativa de conseguir este objeto de desejo. O sujeito, um objeto de desejo e algo que precisa ser respeitado na direção de conseguir este objeto de desejo. Não somente, sujeito, mãe e pai. Ou sujeito, pai e mãe, mas sujeito algo que ele deseja e algo que barra a realização desse desejo. Então, este é um modelo que vai para além da simples triangulação no desejo da criança obter a mãe exclusivamente para ele e excluir o pai desta relação.


quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

SOBRE O BENEFÍCIO DE SE ESTAR DOENTE - Prof. Renato Dias Martino


O que chamamos de personalidade parece ser o resultado de disposições inatas, mas fundamentalmente das configurações de relacionamentos estabelecidos. Nascemos com características peculiares, no entanto também vamos sofrendo influências que irão acentuando ou minimizando esses atributos. Quando Wilfred Bion (1897 – 1979) nos orienta sobre o fato de que "O pensar passa a existir para dar conta dos pensamentos." (BION, 1962), ele nos sugere que antes mesmo de o pensador ter nascido já havia um pensamento que o precedeu.

Quando nasce um bebê, de certa forma, já tem como incumbência suprir certas expectativas, que já existiam antes de seu nascimento. Portanto, fica claro que mesmo antes de o sujeito nascer, as configurações vinculares já definiam certas características de sua personalidade. Os vínculos significativos, que definem traços fundamentais na estruturação da personalidade, também continuam influenciando a configuração do funcionamento do sujeito. Por essa perspectiva a frase bíblica parece ganhar um grande sentido quando propõe: “diga com quem andas e eu te direi quem tu és.”. (Provérbios 13:20 e 1 Coríntios 15:33.) As relações influenciam na maneira como funcionamos, tanto de forma saudável quanto de maneira nociva. Uma vinculação saudável pode propiciar a expansão do pensar e com isso um bom desenvolvimento da personalidade. Por outro lado, um vínculo nocivo pode obstruir a ampliação do pensamento dificultando o desenvolvimento da maturidade emocional e consequentemente prejudicando a estruturação da personalidade. Isso deve ser tão comprometedor quanto mais tenra for a idade do sujeito em desenvolvimento.

 Sendo de uma maneira ou de outra, essa influência deve ocorrer essencialmente através de modelos. Quando somos amados com sinceridade, por exemplo, aprendemos a amar a nós mesmos e com isso nos qualificamos para amar o próximo. No entanto, enquanto a influência que combina amor e sinceridade é poderosa, proporcionando a expansão e o desenvolvimento, a influência que esteja permeada de ódio tem consequências desastrosas. Alguém que não esteja emocionalmente saudável pode ameaçar a saúde mental daquele que se encontra intimamente ligado. A desorganização na mente de um desorganiza a mente do outro. Sigmund Freud (1856 – 1939) alertou com propriedade sobre o que denominou “lucro secundário” nos pacientes. Para Freud lucro secundário consiste no benefício em continuar doente, ou ainda, as vantagens em sustentar uma suposta doença. Freud percebeu em inúmeros casos que o paciente percebera uma vantagem em continuar doente “e raramente deixa de haver ocasiões em que se comprova que a doença, repetidas vezes, se torna útil e adequada, e adquire, por assim dizer, uma função secundária que reforça novamente sua estabilidade.” (Freud, 1917).

 Enquanto o ganho primário estaria na possibilidade de descarga da libido reprimida, geradora de enorme desconforto e que é aliviado a cada manifestação do sintoma, numa “a fuga para a doença”, o benefício secundário se encontraria nas vantagens sociais e emocionais adquiridas pelo paciente em função de sua suposta doença que perduram mesmo depois das causas terem sido amenizadas, ou mesmo dissolvidas. “Eles se queixam da doença, mas a exploram com todas as suas forças; e se alguém tenta afastá-la deles, defendem-na como a proverbial leoa com seus filhotes.” (Freud em A QUESTÃO DA ANÁLISE LEIGA, 1926). No entanto, não é só o paciente que deve lucrar com o estado de sua enfermidade, mas aquele que convive com ele também pode ter um benefício nisso.

Muitas vezes, aquele que se relaciona com um sujeito adoecido ou mesmo fragilizado, seja fisicamente ou emocionalmente, pode encontrar uma forma de se beneficiar dessa situação. Amiúde, o diagnóstico dado a uma pessoa é muito conveniente também a aquele que com ela está vinculado, trazendo certos benefícios ocultos. Esse benefício pode ser desde ordem financeira, até no âmbito emocional. A isso poderíamos chamar de “ganho terciário”. Isso pode se estender para além das patologias, mas deve também ser aplicável às características mais amplas de cada sujeito.

 Manter-se vinculado a alguém emocionalmente imaturo, por exemplo, pode trazer ao sujeito a impressão de ser muito amadurecido. Assim como, manter-se numa relação com alguém fracassado pode trazer a ilusão ao sujeito, de ser bem-sucedido. Nessa relação parasitária, o sujeito que se sente inferior obviamente também tem o ganho de se manter num estado confortável de comodismo. O fato de o sujeito se impor frente ao outro, infligindo uma forma dominadora de ser, não é um sinal de saúde emocional. Por mais que muitas vezes a arrogância seja idealizada por dar ares de superioridade, por detrás de um prepotente existe sempre um grande inseguro de si mesmo. Muitas vezes o sujeito demonstra uma suposta habilidade em comandar o outro, no entanto, mal consegue conduzir a si mesmo. Dessa maneira, muitas vezes o sujeito mais comprometido com incapacidades emocionais pode se esconder atrás de uma suposta sensatez, que na realidade é amparada por arrogância, dissimulando sua insegurança com prepotência. Esse sujeito dificilmente busca ajuda, até porque não acredita precisar. Muitas vezes aquele que busca psicoterapia é justamente o sujeito emocionalmente mais saudável da família.

 Quando é possível se realizar um bom trabalho no processo psicoterapêutico, o resultado se expande para além do próprio paciente. Para tanto, é fundamental que exista o encontro entre um sujeito que é capaz de perceber sua necessidade de ajuda e um psicoterapeuta que possa contar com um bom nível de maturidade emocional para acolhê-lo. Uma psicoterapia bem-sucedida não favorece exclusivamente o paciente, mas também àqueles que com ele se relacionam.

 

Referências:

BION, W. R. [1962]. “Uma teoria sobre o pensar.” In: BION, W. R. Estudos psicanalíticos revisados. Rio de Janeiro: Imago, 1994. p. 127-137.

FREUD, S. A teoria geral das neuroses, estado neurótico comum, Conferência XXIV, Parte III. (1917 [1916-17]). Obras Completas, Vol. XVI.

____. A questão da análise leiga: conversações com uma pessoa imparcial. (1926). Obras Completas, Vol. XX.

 











Prof. Renato Dias Martino