sábado, 19 de julho de 2014

A Importância do Ambiente - Prof Renato Dias Martino



Qual é a importância do ambiente na busca pelo reconhecimento do eu interior?
Total!
Quanto mais o ambiente for ameaçador menos contato com o eu interior eu vou ter.
Faz sentido?
Porque eu vou estar direcionado para o meu eu exterior, para que possa me proteger.
“Engrossando a casca” — com Prof. Renato Dias Martino.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Dicas de filmes - Noé

Um filme épico, que recebeu duras críticas das classes religiosas, por discordância quanto à fidelidade na história bíblica. Contudo, apesar disso, o filme trata-se de uma obra muito bem realizada que proporciona chance de grande reflexão sobre o que o ser humano vem fazendo hoje, com o planeta e ainda, como vem conduzindo seus vínculos na contemporaneidade. 

Russell Crowe é Noé que vive com a esposa Naameh, interpretado por Jennifer Connelly e os filhos Sem (Douglas Booth), Cam (Logan Lerman) e Jafé (Leo McHugh Carroll) numa terra destruída e estéril. Os humanos descendentes de Cain caçam e trucidam uns aos outros, vivem num caos. Um dia, Noé sonha com uma mensagem do Criador e busca encontrar seu avô Matusalém, interpretado por Anthony Hopkins e descobre que ele tem a tarefa de construir uma colossal arca, para abrigará os animais de um dilúvio que extinguirá a vida na terra e acabará com a raça humana.


sábado, 21 de junho de 2014

Grupo de Estudo



Grupo de Estudo

Uma visão introdutória dos conceitos psicanalíticos, num formato acessível ao leigo interessado no assunto. Oportunidade de reflexão para o estudante aspirante a psicoterapeuta. Não obstante o grupo se mostra útil para o psicanalista dedicado a prática clínica, em sua tarefa incessante de releituras da própria psicanálise.

Fone: 17-30113866
renatodmartino@ig.com.br

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Da ilusão como recurso fundamental

Em 2009 escrevi sobre os motivos que levariam o sujeito a buscar um processo de psicoterapia. Na ocasião propus reflexão à dedicação que se pode ter “a momentos onde a concretude das coisas simplesmente perde o valor”. Levanto a hipótese de que “a humanidade parece enfrentar um período da historia onde a infertilidade (para não dizer esterilidade) na produção do pensamento é algo preocupante”.

 Pretendo novamente trazer a baila tal cogitação. Cinco anos se passaram e a realidade nos mostra que a capacidade de pensar sem dúvida continua sendo certa habilidade muito deficitária no ser humano contemporâneo, que parece agir mais e pensar muito pouco. Sendo assim, a ilusão passa a ser muito mais frequente que a tomada de consciência da realidade.
O ser humano se vê engajado de criar expedientes que possam mantê-lo dentro das ilusões. Vem se especializando cada dia mais na tarefa de criar mecanismos que permitam mantê-lo iludido a maior parte do tempo possível. Na impossibilidade de vinculação saudável, existe então uma tentativa que aposta na substituição de um real suprimento de necessidades básicas por artifícios vazios de experiências realmente nutridoras e escassas de qualidade profícuas, que ofuscam e adiam esse imperativo de satisfação fundamental que ora está impedido de suprir-se.
Ilusões são sedutoras por serem prazerosas e sugerirem um afastamento dos desconfortos, no entanto são pobres e não estão a serviço da nutrição da mente.

Pressupondo-se de certa demanda básica a ser suprida e diante da impossibilidade no suprimento adequado, cria-se então certa ilusão substitutiva dessa necessidade. Foi o caminho da qual a psicanálise nos ensinou.




Bem, é necessário nos lembrarmos de que as ilusões são componentes do ciclo de desenvolvimento mental, entretanto permanecer demasiadamente dentro delas passa a se revelar um risco para o mesmo processo de desenvolvimento. A situação torna-se realmente danosa quando o sujeito aferra-se a isso de maneira tão dependente que fica obrigado a construir um sistema de justificativas racionais para que possa explicar sua permanência nos domínios dessa fantasia. Um subterfúgio por substituição de algo que na realidade nunca poderia ser substituído efetivamente, torna então do sujeito um prisioneiro. Quando uma criança chora por que perdeu a chupeta, sua angustia não diz respeito aquele pedaço de borracha, mas à aquilo que a angustiava antes de conhecer a chupeta.
Contudo, ainda que o exercício do pensar seja recurso fundamental para a expansão de uma mente saudável, proporcionando maior capacidade afetiva, o direito de conservar sua ignorância é reservado a cada ser humano. Até porque o que o leva manter-se ignorante de certa verdade, é o fato de não ter encontrado algo que valesse a pena, na realidade externa, com o outro.







Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866
renatodmartino@ig.com.br

http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com 

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Dicas de filmes - Pelos Olhos de Maisie (What Maisie Knew, 2012)



Filme baseado no belo romance que é uma das mais importantes obras de Henry James (1843  1916), publicado em 1897.
Esse belo filme retrata a história da bela garotinha de sete anos Maisie, interpretado por Onata Aprile, que em meio ao perturbador divórcio dos pais, tenta sobreviver. 
Henry James (1843  1916)
Por um lado sua mãe, Susanna (Julianne Moore), uma cantora de uma banda de rock, do outro seu pai, Beale (Steve Coogan), um influente negociador de obras de arte; cuidam de suas vidas particulares sem serem capazes de perceber o drama da menina. Entretanto, a menina acaba descobrindo um novo sentido para sua vida e para a palavra "família".

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Relacionamentos Complicados

Entrevista por Elen Valereto, para a revista Bem-Estar veiculada ao jornal Diário da Região.

Elen Valereto - Quais características da personalidade podem tornar o “relacionamento a dois” mais complicado? 

Prof. Renato Dias Martino - Relacionamentos danosos são construídos por pessoas em condição imatura, ou mesmo que estejam enfraquecidas emocionalmente. Poderíamos aqui sugerir dois tipos básicos de personalidade que poderiam ser nocivas na tentativa de estabelecimento de um vínculo saudável; os que buscam dominar o outro, retirando certo benefício oculto dessa configuração afetiva e aqueles que se colocam com extrema dependência se beneficiando secretamente dessa amarração. Nessa conformação de relacionamento fica impedido o desenvolvimento das personalidades, que passam a ficar empobrecidas, não podendo existir, assim, expansão das partes, muito menos do vínculo.

Elen Valereto - Em quais situações a origem dessas características acaba sendo herdadas pelos pais? 

Prof. Renato Dias Martino - Os pais, ou aqueles que ocupam essa função são sempre os responsáveis por oferecerem modelos aos filhos. Dessa forma, se o modelo oferecido guardava falhas severas, existe uma grande chance de se estenderem como herança naquilo que constituirá a personalidade dos filhos.

Elen Valereto -  Que influência pais autoritários podem ter sobre seus filhos quando estes estiverem adultos? 

Prof. Renato Dias Martino - A influencia da posição autoritária é sempre desastrosa na vida de uma criança. Poderíamos levantar a hipótese que isso poderia se dar de duas maneiras; através de uma formação reativa, transformando a criança num adulto inseguro e subserviente aos outros, ou então uma reprodução identificativa do autoritarismo dos pais, numa repetição fiel do modelo autoritário na vida adulta.

Elen Valereto -  Por que pessoas “difíceis de lidar” não aceitam argumentos de outros indivíduos, mesmo sabendo que são melhores que os seus? 

Prof. Renato Dias Martino - A incapacidade de sentir-se ignorante é algo muito pouco desenvolvido no ser humano. É gerador de grande ansiedade e muitas vezes, por conta de sua intolerância, obriga o sujeito a criar uma falsa verdade, que o satisfaz, criando a falsa impressão do saber. Entretanto esse “pseudosaber” não poderá ser questionado e assim deverá ser mantido e resguardado pela arrogância.

Elen Valereto -  Essa necessidade de prevalecer a vontade ou opinião estão relacionadas à insegurança pessoal ou baixa autoestima? Ou significa certo medo de perder o 'poder'?

Prof. Renato Dias Martino - Penso que a arrogância sempre denuncia a insegurança. Aquele que está seguro não se envolve em debates infecundos. Na verdade nem um tipo de conhecimento pode estar na ordem da certeza absoluta e sendo assim, somos todos ignorantes em certa medida. Quando somos cientes de nossa própria ignorância a arrogância se dissolve, abrindo espaço para a capacidade de aprender com a experiência.




Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866
renatodmartino@ig.com.br

http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com 

sábado, 31 de maio de 2014

Algumas Palavras Sobre a Palavra

A palavra é uma unidade de linguagem, um instrumento de comunicação das ideias por meio da fala ou da escrita, e essa é uma definição lógica, aquilo que transforma em conceito o conjunto de letras “p”, “a”, “l”, “v” e “r”, arranjadas de certa forma específica. Palavra vem do grego parabolé. Cedo percebemos que a palavra foi criada no intuito de vinculação entre as pessoas, a palavra une as pessoas.
De qualquer forma, a proposta desse texto não é se prender a modelos já pensados, mas tentar transcender o modelo de conceito racional, vazio de experiência, até porque, não é só isso: o valor que se pode dar à palavra está intimamente ligado ao desenvolvimento emocional. A palavra está vinculada e é subordinada de certa área de nosso psiquismo onde o racional não pode penetrar. Logo, da forma como lidamos com a palavra, podemos revelar sinais da saúde mental, que pode ser descrita como a capacidade de vínculo que se pode ter entre nosso mundo interno (impulsos instintuais e fantasias) e mundo externo (o outro, aquilo que existe independente do desejo do eu).
Dessa forma é indispensável, para o desempenho da palavra, a capacidade de simbolização, já que a própria palavra é antes de tudo um símbolo, e isso quer dizer que tem a propriedade de fazer o conteúdo da ideia presente, mesmo em sua ausência.
Poderíamos, até, fazer uso de um modelo filosófico para pensar o que é símbolo. Imaginemos, então, algo, alguém, algum lugar, que possamos sentir a presença, mesmo não podendo confirmar com os órgãos dos sentidos. Quando dermos conta dessa proposta, podemos de alguma forma simbolizar. O símbolo se encontra exatamente na ausência real sensorial. O bebê aprende a simbolizar a mãe e, isso é o que lhe permite tolerar, até que ela atenda seu choro. O símbolo sustenta a alma na falta do objeto, aí então, se está apto a transformar em palavra.
Hanna Segal ( 1918 – 2011)
 
Hanna Segal ( 1918 – 2011), grande pensadora da psicanálise, coloca em 1982 que: “A formação de símbolos governa a capacidade de comunicação, já que toda a comunicação se faz mediante símbolos”.
Ela postula que, quando ocorrem perturbações que comprometem essa capacidade simbólica, a capacidade de comunicação é também perturbada:

Hanna Segal ( 1918 – 2011)
primeiro, porque a diferenciação entre o sujeito e o objeto se desfaz; segundo, porque os meios de comunicação estão ausentes, já que os símbolos são sentidos de modo concreto e, portanto, não estão disponíveis para fins de comunicação.

Quando se comunica a ideia de alguma coisa através da palavra, acredita-se nela, mesmo sem que se tenha, a mão, a coisa em si. A capacidade do espaço mental em sustentar uma imagem interna boa o bastante para que se possa transmiti-la ao outro é o que define a qualidade da palavra e consequentemente da saúde psicológica.
Quando levantamos a hipótese da degradação da palavra, estamos antes de tudo descrevendo um estado de incapacidade de troca afetiva. A palavra deve ser uma extensão do ser, ou seja, a qualidade da ideia contida na palavra é o que define a própria palavra. Palavras distantes do ser são frias e como uma “nota fiscal fria” (refiro-me a um modelo tributário), não conta com a responsabilidade daqueles que a emitem.


Capítulo do livro Para Além da Clínica. Renato Dias Martino - 1. ed. São José do Rio Preto, São Paulo: Editora Inteligência 3, 2011.

sábado, 24 de maio de 2014

Cogitações sobre a inveja

E então, vemo-nos aqui, mais uma vez, na difícil missão de focalizar na direção daquilo que é extremamente desconfortável, mas nem por isso, menos frequente nos processos do desenvolvimento psíquico. Aqui, em especial, trataremos do sentimento responsável pelo que teria sido o primeiro homicídio registrado na humanidade, segundo o livro do Gênesis na Bíblia.
Caim mata Abel a pauladas e faz isso, invejoso do seu próprio irmão. O assunto aqui tratado é sobre o segundo dos sete pecados capitais, antecedido apenas pela vaidade, conforme São Tomás de Aquino (1225-1274) o mais sábio dos santos e o mais santo dos sábios.
O conceito de inveja é algo que aprendemos a determinar como parte das “coisas ruins da vida”. A partir dessa ideia, criamos um mecanismo onde toda inveja que possa ser percebida deve ser afastada, arrancada a qualquer custo da alma.
Assim, sem tempo ou chance para que se possa entender ou estabelecer um sentido sobre esse sentimento, ele é arremessado de volta para as profundezas de onde surgiu um dia. Entretanto, a priori, tudo aquilo que somos hoje, um dia passou pela inveja.
Se hoje “somos alguma coisa” foi por que um dia invejamos, pelo menos em certa medida, aquele do qual tivemos como modelo. Logo, se pensarmos sob certo vértice lúdico da família, o sentimento de inveja é filho do desejo e, se esse sentimento der sorte de casar-se com a esperança, dessa união eles poderão gerar uma linda realização.
Parece claro, que na tentativa de evitarmos sentir inveja, morremos invejosos. Isso ocorre, pois, quando estudamos os elementos que estão em certo nível onde se encontram os sentimentos, falamos de uma classe de manifestação psíquica da qual não temos o menor controle, mas nem por isso deixa de existir.
Não se pode escolher sentir ou não sentir.
Apenas “se sente”, e a partir deste sentimento, conforme as experiências, pode se tornar ou não capaz de “tomar consciência” do sentimento que o acomete. Assim, como o medo ocorre sem que possamos controlá-lo, a inveja nos acomete, forçando a repressão. Falamos então do reprimido, se estivermos falando aqui de algo que se sente, mas que não se é capaz de tomar consciência.
Sigmund Freud (1856-1939), o pai da teoria psicológica do qual chamamos de psicanálise, escreve em 1905 os “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”. Por causa dessa obra literária Freud, sofreu “críticas duras”. Pelo fato de “expor uma verdade” da qual a civilização “guardava sob sete chaves”, justamente por não se imaginar capaz de sustentá-la conscientemente. Contudo, essa mesma civilização formatou-se sem perceber em conformidade com certo sentimento indesejável, inconscientemente e sem ter chance de escolhas.
Em “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, Freud escreve sobre as fases do desenvolvimento libidinal e, dentre elas, cita uma que, em especial, nos chama atenção no presente trabalho. A fase fálica, onde, segundo ele, a criança vive a fantasia de que todo ser humano possui pênis. Diante desta fantasia a criança, sem capacidade para argumentações mais elaboradas, começa a justificar a ausência do pênis, nos que não o possuem, através da crença de que ainda não cresceu ou então, que eles perderam por alguma razão. No menino, Freud chamou essa experiência de complexo de castração, certa experiência geradora do medo horrível no garotinho, de ser castrado. Freud afirma também que, o reconhecimento do valor do órgão genital feminino só é feito bem mais tarde, na vida da criança.
Essa dificuldade de reconhecimento é, sem dúvida, colaborada pela disposição anatômica interna do órgão feminino. Nesse período, o ambiente fica especialmente propenso à formação de inveja. Aquilo que no menino, Freud chamou de complexo de castração, na menina, surge como inveja do pênis. Para Freud, na menina, essa é uma experiência tão dolorosa quanto o complexo de castração no menino. A experiência do reconhecimento fálico é sempre muito confusa e dolorida para qualquer criança.
A capacidade racional auxilia a reprimir grande parte dessas experiências doloridas e que foram incompreendidas.
Aprendemos a esquecer, até certo ponto, o que hoje nos parece quase inviável admitir conscientemente, o quanto nos foi confusa a época em que tivemos que arrumar um sentido para explicar a problemática da genitália humana.
Aqui me parece caber um exemplo bem humorado das experiências infantis confusas sobre o reconhecimento da genitália. 

Um garoto corre para ver o que a irmãzinha quer chamando aos berros. Ao chegar ao banheiro o menino vê a garota que vive ali, pela primeira vez, sua menstruação. Ela pede ajuda do garotinho mostrando seu genital sangrado. O menino, assustado pergunta: “Puxa, arrancaram seu pipi?”.

O despreparo dos pais em resolver problemas dessa ordem em suas próprias experiências, é um fator importante no processo que nos leva a reprimir ideias, das quais, nunca conseguimos arrumar uma explicação.
Então, carente de sentido ficam reservadas num lugar interno junto ao reprimido. No entanto, como a sina de qualquer que seja o impulso reprimido, também a incompreensão na descoberta da ausência do falo, perdura inconscientemente.
Agora, amiúde essa experiência é projetada no ter ou não ter, naquilo que temos ou deixamos de ter. Muitas vezes, justificamos nossas experiências de derrotas e vitórias criando valores baseados na fantasia de que alguns são fálicos e outros castrados.
A obra “Inveja e Gratidão”, publicada em 1957 é um trabalho de enorme repercussão no pensamento psicanalítico. Nesse importante livro, Melanie Klein (1882-1960) propõe que o sentimento de inveja é vivido originalmente nas tenras fases do desenvolvimento emocional. Numa época onde o modelo de vínculo ainda limitava-se na experiência primitiva entre mãe e bebê. A ideia de Klein parte de certa pressuposição onde o funcionamento mental saudável deveria contar com a introjeção do objeto suficientemente bom. 
Para a pensadora, esse objeto deveria, de forma segura, ser capaz de enraizar-se no ego. Isso numa época onde esse ego ainda apresenta-se como uma pequena formação psíquica, num estágio imaturo e desprotegido da estrutura mental. Através do vínculo afetivo inicia-se a formação de um modelo de cuidado e contenção. Um padrão de vínculo com o outro, que servirá de modelo com o próprio eu em formato de “auto cuidado”, “auto contenção”.
Desgosto ou pesar pelo bem ou pela felicidade de outrem. Desejo violento de possuir o bem alheio. Com essas frases, o dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, descreve esse sentimento. 
Contudo, a proposta e o vértice apresentados aqui, mostram que Klein chama a atenção para a necessidade de se distinguir, de início, a inveja, o ciúme e a voracidade.
Klein propõe que a inveja é um sentimento de desejo pelo que é do outro, e que gera certo impulso de tirá-lo dele ou então danificá-lo. A partir da idealização do que é do outro sem a menor capacidade de conseguir por si mesmo. A inveja, ainda guarda certa característica primitiva particular, onde a relação pode se restringir a apenas duas pessoas.
Klein continua sua proposta dizendo que o ciúme tem a mesma base da inveja, apesar disso, inclui mais uma pessoa, assim sendo, é vivido entre três pessoas. Isso também sugere um modelo mais evoluído e complexo, dentro do funcionamento mental. Nessa etapa, o sentimento de ciúme inclui três posições básicas, num modelo triangular: (Édipo) sujeito, objeto e rival (modelo ou aliado).
A voracidade, para ela encontra sua definição naquilo que o sujeito deseja e que se encontra além da capacidade e disponibilidade do objeto em dar. Klein ainda vê uma diferença entre voracidade e inveja, quando propõe que enquanto a primeira está relacionada à introjeção, a segunda é referente à projeção.
Klein nos ensina que na primitiva relação entre mãe e bebê, ele sente que ela (o seio) possui tudo que necessita para viver. Esse é o primeiro e maior gerador de inveja. Na realidade, a impossibilidade de se estabelecer certo vínculo saudável o bastante para que o bebê possa se perceber dependente da mãe é o que dificulta a elaboração do sentimento de inveja na estrutura mental.
Quando não há uma possibilidade de sentir-se seguro na relação com aquele que depende, as defesas do aparelho psíquico devem emergir e a inveja vem repleta delas. As defesas se pronunciam contra qualquer possibilidade de reconhecimento de separação entre o eu e o objeto, assim como contra qualquer reconhecimento sobre a ligação de dependência que acontece.



“Na primeira infância, surgem ansiedades que obrigam o ego a criar mecanismos de defesa específicos. Neste período se encontram pontos de fixação de distúrbios psicóticos”. Inveja e Gratidão - Melanie Klein, (1957 - p.20)



Essas classes de defesas contra a verdade apresentam-se com grande força, pois o reconhecimento dos movimentos, na direção da separação desperta a percepção da fragilidade do eu, na ausência do objeto. A ausência do outro esvazia e desvaloriza o eu. O resultado desse movimento de reconhecimento do valor do objeto é, em si, gerador de inveja. Logo, dentre as defesas que emergem junto com a inveja, a negação da realidade, leva a desvalorização do objeto de desejo. Dessa forma, afasta-se o desconforto presente no sujeito invejoso. 
Estamos cogitando sobre uma experiência da qual Freud se apoia fortemente em toda sua obra. Freud sugere em seu texto “Uma dificuldade no caminho da Psicanálise”, datado de 1917, certa experiência que propõe a quebra do que chamou de ilusão narcisista.
A ideia freudiana é de um colapso no funcionamento de qualquer estrutura a partir do reconhecimento de qualidades no outro (externo) das quais são vitais ao sujeito. Situação de extrema fragilidade, desencadeadora da inveja. Chegamos então num certo desfecho onde necessidade e desconfiança resultam na impossibilidade de elaboração da própria inveja.

“O analista acabou de dar uma interpretação que trouxe alívio ao paciente e que lhe produziu uma modificação de humor do desespero para a esperança e a confiança. Com certos pacientes, ou com o mesmo paciente outras vezes, essa interpretação propiciadora pode logo tornar-se objeto de uma crítica destrutiva.” Klein (1957, pp.40,41)

Assim como no bebê invejoso, no nível das áreas psicóticas da mente ocorre algo análogo. Ataca-se destrutivamente o vínculo com a realidade, quando é intolerável reconhece-se necessitando do outro. Segundo Klein a inveja é equivalente da pulsão da agressividade presente no bebê. Essa pensadora estuda a inveja como um movimento baseado no ódio. O invejoso é incapaz de reconhecer o quanto necessita do outro, dessa forma, bloqueia o desenvolvimento do ego.
Assim, a incapacidade de elaboração da inveja compromete o desenvolvimento do ego e dificulta a manutenção da autoestima. O ego só se desenvolve de forma saudável em um ambiente seguro e na primeira infância, esse ambiente é a mãe. Assim, como coloca o psicanalista e pediatra Donald Winnicott (1896-1971), é importante que a mãe suficientemente boa seja o ambiente do bebê, enquanto ele se ocupa na difícil tarefa de se “autoconhecer”.

“No desenvolvimento inicial do ser humano, o meio ambiente que se comporta suficientemente bem (que faz uma adaptação ativa suficientemente boa) possibilita a ocorrência do crescimento pessoal. Se o meio ambiente não se comporta suficientemente bem, o indivíduo fica então ocupado em reagir à invasão, e os processos do self são interrompidos.” D. Winnicott (1954)

Os processos que se dão de forma saudável no self correspondem á capacidade de criação simbólica e se estivermos de acordo com certa ideia, onde o ego é constituído por símbolos, o ambiente inadequado coincide com a falha severa no processo de simbolização.

O símbolo é a realidade interna que sustenta o vínculo durante a falta do objeto no nível real/sensório. Dentro deste ponto de vista, a capacidade simbólica do invejoso é extremamente deficitária. O sujeito tomado pela inveja não consegue encontrar satisfação em si mesmo, isso porque a relação que tem com ele mesmo guarda um ambiente hostil, repleto de críticas, condenações, tudo isso regido pela culpa. Sendo tratado assim, o ego passa a ser dependente do outro (externo) para desempenhar suas funções básicas. Na impossibilidade do desenvolvimento do ego, o ideal de ego (superego) é o que comanda o funcionamento mental.
Nas palavras de M. Klein: “o superego invejoso é sentido a perturbar ou aniquilar todas as tentativas de reparação e criatividade.” (Klein.1957 p.128) Entretanto, a capacidade do pensar (simbólico) é função exclusiva do ego.
“O pensar foi dotado de características que tornaram possível para o aparelho mental tolerar uma tensão intensificada de estímulo, enquanto o processo de descarga era adiado.”  É o que Freud escreve nas Formulações sobre os dois Princípios do Funcionamento Mental em 1911.
Cogitamos aqui sobre uma capacidade restringida para o pensamento, também o sonhar é comprometido. O sonho do invejoso é ocupar o lugar do outro, logo o ambiente de rivalidade deve culminar na exclusão ou do eu ou do outro. Nas elaborações oníricas, uma instância crítica na mente (ideal de eu) cobrará pela falta do objeto de desejo, mas também condenará pelo fato da exclusão do outro.
Em 1962, Wilfred Ruprecht Bion (1897-1979) considera, em “Uma Teoria Sobre o Pensar”, que o “aparelho de pensar” se desenvolve através da capacidade do bebê frente à expectativa (preconcepção) de encontrar um seio que o alimente. A partir da ideia do O da experiência, ou seja, a capacidade de suportar o vazio. De tal modo, o aparelho se desenvolve na medida em que possa haver tolerância no encontro da ausência da mãe.
O desenvolvimento mental necessita que ele possa contar com a percepção do não-seio disponível para a satisfação. E, se o bebê não se esquivar (negando a realidade da ausência), o “não-seio”, transforma-se em pensamento e desenvolve-se um aparelho para pensar. A fonte de onde emanam os símbolos. Na perspectiva de Bion assim como dentro da ideia kleiniana, a capacidade de gratidão pelo objeto do qual se dependia é a chave para a transposição do modelo invejoso de vínculo.
Da possibilidade de simbolização dos cuidados maternos é gerado então um modelo de autocontenção. Através do vínculo, admitindo a falta do seio pela simbolização do mesmo, torna-se capaz de reparar aquilo que antes destruiu ou espoliou. Agora, enquanto seu valor real, o sujeito pode ultrapassar o preconceito de desejo chamado inveja e só a partir daí ser capaz de realizar o si mesmo.





Capítulo do livro - MARTINO, Renato Dias. Para Além da Clínica. Renato Dias Martino - 1. Ed. São José do Rio Preto, São Paulo: Editora Inteligência 3, 2011.