
O reconhecimento da própria identidade é um processo árduo e em permanente construção abastecido de crises existenciais mas evitá-las pode colocar em xeque uma mente saudável
Psicanálise, Filosofia e Artes. (Pensante psicanálise enquanto práxis de uma certa filosofia). renatodmartino@ig.com.br renatodiasmartino@hotmail.com


De onde vem essa dor?
Angustia ou um buraco?
Um turbilhão, um rotor
Ou simplesmente o vácuo?
Preencher com ilusão?
Dos pés faltando o chão
Eu sei que é tudo em vão
Verdade, vida, amor...
Trocados pela dor
Sem imagem ou representação.


Reanto Dias Martino
O Afastamento da figura paterna na estrutura da família, traz certas conseqüências, que merecem aqui, um olhar mais atento. Tento aqui propor um pensamento que diz respeito muito mais a presença emocional da função paterna do que aquela presença de ordem física. Proponho isso pensando num modelo onde essa figura encontra-se presente em corpo, contudo, ausente de alma.
Freud (1856-1939) utilizou-se do modelo triangular, baseado no mito de Édipo, para demonstrar o mecanismo de interrupção civilizatória na vida sexual da criança, onde os investimentos afetivos se deslocam em busca de melhor adequação quanto ao objeto de amor. A narrativa grega de Sófocles (496 – 406 a.C.) traz a história do herói que vive o terrível destino de se descobrir casado com a própria mãe, sendo ele assassino do próprio pai. Nesse ponto de vista entendemos os conteúdos do mundo interno de uma criança, repleto de fantasias, imaginações que governa a mente daquele que está iniciando-se no doloroso processo do conhecimento do mundo e da realidade.
O menino descobre que tem um pai e não faz essa descoberta de forma simples e harmoniosa como tendemos pensar ao assistir um bebê no colo do progenitor. A figura do pai está carregada de certa verdade dura para criança. Aquela criança conhece o pai e logo percebe que o amor da mãe não é só para ele. Ou seja, tem que dividir a atenção da mãe com seu pai. Essa experiência é por si só geradora de sentimentos como a raiva daquele que vem destruir um sonho de união exclusiva com a mãe. Esse é para Freud, o ápice do golpe da realidade no narcisismo. Ele descobre isso aos poucos e é interessante que comece o quanto antes, a desenvolver recursos para lidar com essa realidade. Através desse novo ponto de vista da realidade, terá que eleger outra pessoa para que possa viver certas experiências. Experiências das quais está impedido de viver com a mãe, mas que por outro lado, nutrira por muito tempo a fantasia de realizá-lo com ela.
Isso que tento propor aqui, é um ensaio para pensarmos um modelo clássico do que Freud chamou de complexo de Édipo, até aqui, tendo a vida de um sujeito do sexo masculino como foco. Contudo e antes de prosseguirmos, seria prudente nos lembrarmos que, na verdade esse é um modelo que pode ter, e na realidade tem um desfecho diferente tomando-se em conta as experiências familiares de cada ser humano em particular, assim como o modelo familiar que se adota em cada diferente cultura e época.
Penso que a família (ainda) é o lugar mais seguro pra viver experiências como a descoberta da sexualidade, que são por si só, assustadoras e repletas de ameaças e entraves. Penso que, no período onde a figura paterna pôde nutrir a menina de afeto, existe uma maior chance de desenvolvimento adequado de questões afetivas e emocionais referentes à vida erótica e conseqüentemente, o desenvolvimento físico e biológico pelo resto da vida. Isso se implicarmos aqui, um vértice onde o pensamento pode mudar tudo em nossa vida e reverter até mesmo um quadro clínico de ordem fisiológica, ou em outras palavras, algo que se apresente como manifestação do corpo.
A arte como simbolização do mundo
Arte e o eu real