quarta-feira, 22 de março de 2017

COGITAÇÕES A PROPÓSITO DA DEPRESSÃO

A depressão tem sido avaliada, na contemporaneidade, como um problema de saúde pública, e alguns especialistas chegam a considerá-la como aquilo que será o mal do século 21. No entanto, muito tem se afirmado e até mesmo, vem se predizendo sobre essa experiência mental que, na realidade, muito pouco se tem conhecimento.
Numa sociedade de características cada vez mais imediatistas, que visa a satisfação a todo custo, onde o que se vê é a evitação de todo e qualquer desconforto, não será surpresa se houver uma condenação de uma importante experiência psíquica natural do desenvolvimento mental, como sendo patologia, por conta de suas características demoradas e dolorosas.
Ora, além do mais, não é fato digno de espanto que nessa sociedade de qualidades superficiais, uma experiência que demande profundidade possa ser descrita como doença. A palavra depressão tem sido comumente utilizada para designar uma forma de patologia mental, no entanto esse conceito tem aplicações muito mais amplas podendo, até mesmo ser motivo de equívocos, dentro do olhar apressado, característica típica do ser humano contemporâneo. Num olhar impaciente tendemos a julgar e diagnosticar com muita rapidez algo que mereceria mais respeito.
“Do Latim respectus, particípio passado de respicere, “olhar outra vez”. Do re, “de novo”, mais specere, “olhar”: a ideia é de que algo que merece um segundo olhar em geral merece respeito.”. (Martino, 2013).

Afinal, o que estamos chamando de depressão? O conceito de depressão é relativo a um movimento para baixo. Encontramos esse termo na geografia topográfica, descrevendo regiões do terreno que estejam num nível mais profundo. Nas formulações emocionais usa-se esse conceito para descrever o movimento de recolhimento dos investimentos de interesse. A retirada da importância do mundo externo numa introjeção da libido em direção do eu. A origem da palavra vem do latim DEPRESSIO, de DEPRIMERE, significando o ato de apertar firmemente para baixo, na junção de “de” = “para baixo”, + “premere” = “apertar, ou comprimir”. Quando esse termo é aplicado às experiências emocionais, de modo geral, poderíamos dividir a depressão em duas manifestações: 
a) O processo depressivo natural, do qual poderíamos classificar como sendo saudável, que é gerado por conta da situação de luto. Nesse caso, o que ocorre é que frente à perda de algo de muita importância o sujeito se deprime e o mundo externo fica desinteressante, por isso o recolhimento da importância que se atribuía ao mundo externo. Essa experiência pode ser obstruída quando existe um impedimento para que o processo natural de luto possa acontecer de forma saudável. Uma exigência externa que não permita a retirada do interesse do mundo externo. Isso pode gerar um agravamento e até mesmo originar um quadro patológico, se persistir o impedimento. 
b) Um segundo caso seria o estado depressivo patológico configurado na melancolia, assim como nos orienta Sigmund Freud (1856-1939). A melancolia ocorre quando a relação que o sujeito tem com aquilo que se perdeu guarda características narcisistas, onde o eu e aquilo que foi perdido não puderam se separar emocionalmente. Nesse caso existe uma exigência interna que não permite que o sujeito descanse sua mente para que o processo de luto ocorra. Freud publica LUTO E MELANCOLIA em 1917 e contribui com isso, enormemente para o estudo e aprimoramento do atendimento psicoterapêutico do sujeito depressivo. 
“O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante. Em algumas pessoas, as mesmas influências produzem melancolia em vez de luto; por conseguinte, suspeitamos de que essas pessoas possuem uma disposição patológica.”. (Freud, 1917).

Depois de Freud, Melanie Klein (1882 — 1960) introduz sua teoria das posições (1935), onde propõe que a mente funciona em duas perspectivas: posição esquizo-paranoide em que a partir de uma tendência a desintegração, a mente provoca uma divisão da realidade; tanto do eu quanto do mundo e a posição depressiva onde ocorre a integração da realidade. Na posição depressiva o sujeito toma consciência da realidade como um todo e com isso sente-se culpado por ter odiado o mesmo objeto que também amava. Essa posição provoca sofrimento, onde leva a sofrer o processo de transformação da culpa em responsabilização. Por conta disso o sujeito pode tentar evitar essa posição a todo custo.
No entanto, evitar sofrer não representa o fim da dor. Entristecer-se é fundamental na tarefa de pensar; aquele que não se encontra capaz disso, ou escapa para euforia, ou mergulha na depressão patológica. O desconforto é o primeiro sinal da transformação do pensamento. O pensar só pode ocorrer quando se inclui a ideia do outro e assim a expansão passa a ser possível. Dessa maneira a dedicação a um processo psicoterapêutico de qualidade é um bom recurso para promoção dessa expansão.
Sem um bom vínculo de confiança as ilusões podem ser percebidas como fatos. Imaginar não é pensar. Quando um quadro de depressão se pronuncia, pode não se tratar necessariamente de uma situação patológica.
Isso pode estar sendo um sinal de uma experiência de luto natural, frente à perda de algo significativo para o sujeito. Algo que muitas vezes, nem o próprio sujeito consegue ter muita consciência. Nessa situação os sinais revelam a evidencia de que existe a necessidade de resguardar-se, por conta de certa fragilidade emocional característica desse processo.
Essa experiência deve ser lenta, levando um tempo diferente em cada caso. Nunca podendo ser estabelecido um período determinado. Quando não se pode respeitar o processo do luto, muito provavelmente a situação pode se agravar. Na tentativa de abreviar o decorrer desse lento processo, a tendência é que se desenvolva um quadro mais severo.
A insistência em se expor às experiências emocionais, quando se está fragilizado emocionalmente, pode trazer sérios danos ao sujeito enlutado e uma depressão grave e patológica pode ser um provável desfecho para isso. A urgência para que o sujeito saia logo do seu processo depressivo, ou ainda, seja arrancado de seu estado deprimido, muitas vezes com administração de fortes medicamentos e técnicas psicoterapêuticas que forcem o sujeito a enfrentar o retorno da vida social é uma prática perigosa entretanto, muito comum na sociedade contemporânea.
Nos tempos atuais parece não existir espaço para experiências que espacem um longo período, assim como os relacionamentos duradouros parecem estar cada dia menos frequentes. Parece haver uma ânsia desmedida pelo consumo assim como o acúmulo de bens e concomitantemente, a necessidade de produção. Experiências psíquicas delongadas, como as do processo depressivo, assim como a constituição de relacionamentos duradouros são nocivas a um modelo de vida baseada no comprometimento com a realidade material.
Essa alucinação da vida de produção e consumo desmedido acarreta a saturação do aparelho sensorial, provocando inúmeras patologias que se manifestam desde a forma mais sutil, no âmbito mental, que compromete diretamente a capacidade de amar, até a manifestação no corpo físico. Em ultima análise, cair em depressão é uma forma extrema de buscar a paz. 


Freud, S. 1917. LUTO E MELANCOLIA, em OBRAS PSICOLÓGICAS COMPLETAS - Edição Standard Brasileira, IMAGO (1969-80). KLEIN, M. 1935. UMA CONTRIBUIÇÃO À PSICOGENESE DOS ESTADOS MANÍACO-DEPRESSIVO. In:____. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945). Rio de Janeiro: Imago Ed., 1996. MARTINO, Renato Dias. O amor e a expansão do pensar: das perspectivas dos vínculos no desenvolvimento da capacidade reflexiva, 1. ed. São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2013.




Prof. Renato Dias Martino 
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domingo, 19 de março de 2017

PSICANÁLISE NÃO É - Prof. Renato Dias Martino


É muito mais fácil você dizer o que não é psicanálise.
É a mesma coisa de você dizer assim: O que é amor?
Eu não sei o que é amor. Mas, eu sei muito bem o que não é amor.
Psicanálise não é medicina! Psicanálise não é psicologia!
Psicanálise é muito mais do que isso.
Psicanálise é ser!
Psicanálise não está dentro da perspectiva simplesmente teórica.
Saber de psicanálise não garante que você seja um psicanalista.
Você pode saber muito de psicanálise e não conseguir ser um psicanalista.
Quando você tiver alguém, um paciente na sua frente você não consegue ser psicanalista mesmo sabendo muito sobre psicanálise.
Porque a psicanálise nasce na prática. Em que prática que ela nasce? Nasce da prática de sua analise pessoal.
Um analista precisa ser impreterivelmente ser analisado. É isso que vai qualificá-lo a ser psicanalista.
Prof. Renato Dias Martino
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sábado, 18 de março de 2017

PALESTRA SOBRE DEPRESSÃO


Depressão – Dia 25 de março de 2017 das 09:00 às 12:00 
no anfiteatro do hospital Ielar. São José do Rio Preto - SP

Inscrições no local, no dia do evento = 1 pacote de fralda adulta G ou GG

sábado, 4 de março de 2017

SOBRE A HISTÓRIA E AS ESTÓRIAS

Cada sujeito que tenha vivido uma experiência em comum com outras pessoas deve guardar na memória elementos dessa ocasião dos quais mais se identificou e isso deve se diferenciar do que outra pessoa que vivera a mesma experiência possa ter arquivado em suas lembranças. Uma pessoa relata um ocorrido de forma bem diferente do que outra pessoa que esteve no mesmo local e momento do ocorrido. Isso, pois a descrição do acontecido depende muito mais da interpretação daquele que vive a experiência do que daquilo que realmente aconteceu.

A memória é falha por selecionar elementos e nunca conseguir registrar o todo da experiência. Por vezes deixando escapar partes cruciais para que pudesse ser possível se perceber a situação de maneira razoavelmente autêntica. Mesmo que a situação tenha sido registrada por aparelhos de alta tecnologia, que consigam grande poder de apreensão e que apresentem grande potencial de definição, ainda assim, inúmeros aspectos, se não, a maior parte deles, ficarão ausente do registro e impossíveis de serem revelados. 

“A fotografia da fonte da verdade talvez seja muito boa, mas, da fonte após turvada pelo fotógrafo e sua máquina; mesmo assim, continua o problema de interpretar a fotografia. A falsificação do registro é maior, por emprestar verossimilhança ao já falsificado.”. (Bion, 1962). 

Ainda que esse fato tenha sido relatado por uma grande quantidade de pessoas, que concordem com a mesma versão, ainda assim temos inúmeros motivos para acreditar que possa existir um pretexto que esteja guiando esse grupo para uma falsa interpretação do que realmente ocorreu e que ainda assim a maior parte dos aspectos legítimos do ocorrido estará ausente da conclusão. Além disso, conforme o tempo passa o relato do que ocorreu pode sofrer modificações, tanto por suscitar novas lembranças, quanto por estar suscetível ao esquecimento de partes do ocorrido. Por conta disso, o registro de fatos ocorridos é sempre duvidoso. No dito popular “quem conta um conto aumenta um ponto” encontramos um representante dessa ordem de reflexões da qual proponho aqui. O que tem de verdadeiramente real num fato relatado, ou mesmo registrado é a questão de ordem.

O tema do registro dos fatos ocorridos é um tema de grande importância para a prática clínica da psicanálise. “O que aconteceu só se mantém através da memória, e a memória é seletiva, traiçoeira em potencial, por fundir-se ao conteúdo impensado da mente, invalidando assim sua fidedignidade com a realidade dos fatos.”. (Martino, 2015).

Aquele que tenha feito uma pequena pesquisa na obra de Wilfred Bion (1897 – 1979), deve ter percebido a característica nociva da memória para o analista em seu trabalho na prática clínica. Na procura pelo fato psíquico em questão no processo psicoterapêutico, aquilo que já passou não deve ser mais objeto de atenção, se tornando então um obstrutor da possibilidade da apreensão do fato presente. Assim como a expectativa do que acontecerá no futuro se configura num elemento danoso para a apreensão do fato presente. Bion propõe que quanto maior for a capacidade de armazenamento de dados na memória, menos o psicoterapeuta será capaz de perceber aquilo que se apresenta no tempo presente; justamente onde se manifesta a realidade.
“Um analista cuja mente for desse tipo é alguém incapaz de aprender, porque está satisfeito.”. (Bion, 1970). Só pode aprender aquele que tem a consciência de sua ignorância e aquilo que supostamente se imagina saber está armazenado na memória. “A tentativa de lembrar ou registrar destrói a capacidade para a observação dos eventos psicanaliticamente significantes e a interrompe.”. (Bion, 1970). Aquilo que foi registrado está distante do que realmente aconteceu.

Na língua portuguesa a palavra estória é muito antiga, servindo para referirem-se às narrativas populares, ficções folclóricas ou ainda às tradições não verdadeiras. A palavra estória aparece em dicionários e no vocabulário ortográfico da Academia Brasileira de Letras, entretanto esse termo não é unanimemente aceito. Guimarães Rosa (1938 - 1967) é um escritor que se utiliza bastante desse termo em suas obras, como uma tentativa de ilustrar invenções e concepções imaginativas da criatividade. 
Guimarães Rosa
(1938 - 1967)
“Precisávamos de imaginar, depressa, alguma outra estória, mais inventada, que íamos falsamente contar, embaindo os demais no engano.”. (Rosa, em Pirlimpsiquice, 1962). Ainda assim, esta expressão tem seu uso condenado por muitos estudiosos, por ser considerada invenção brasileira e sem necessidade de existir. Diferentemente, a palavra história é utilizada quando a intenção é se referir sobre a ciência, como registro factual com base em acontecimentos reais.

Mas, se concordamos aqui, com a ideia de que todo registro do passado sempre guarda uma grande cota de contaminação da visão daquele que relata o ocorrido e ainda, que o relato do que ocorreu no passado sofre inúmeros reveses até que possa chegar numa conclusão, que de fato nunca será realmente conclusiva, então o termo mais inadequado é justamente “história”. Já que o relato do passado só pode ser considerado uma aproximação do que realmente ocorreu e que a maior parte dos elementos que definiriam a fidedignidade do ocorrido fica encoberta pela limitada capacidade de registro. Então, o relato dos eventos factuais está sempre subordinado à interpretação daquele que registra e então tenta relatar.

BION, W.R.(1962). APRENDENDO COM A EXPERIÊNCIA. Rio de Janeiro: Imago,1962.
________ (1970). ATENÇÃO E INTERPRETAÇÃO. Rio de Janeiro, Imago, 2007.
MARTINO, Renato Dias. O LIVRO DO DESAPEGO - 1. ed. -- São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2015.
ROSA. J. G. Pirlimpsiquice, in PRIMEIRAS ESTÓRIAS - Texto integral, Editora Nova Fronteira, Rio de janeiro, 2005/1962.



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sexta-feira, 3 de março de 2017

UMA INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE - Teoria e Prática

UMA INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE - Teoria e Prática
Com Prof. Renato Dias Martino
Dia 18/03 às 14 hs no auditório do hospital Bezerra de Menezes
Rua Major João Batista França (entrada pela rua Ovaldo Aranha)
São José do Rio Preto - SP
Inscrição: R$ 10,00 + 1 Kg de Alimento
Informações pelo fone: 17-30113866 ou 17-9883175

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Coragem e Transformação - Prof. Renato Dias Martino


cor = “coração” + agire  = "agir"
Mais do que um ato de ousadia, a coragem no sentido de agir com o coração.
Agir com o coração para renunciar aquilo que,
na verdade, está fora do nosso limite, não tem haver com nossas capacidades.
A razão esta dizendo que você tem que ir, mas o teu coração está dizendo que não.
Então você precisa ter coragem para renunciar a isso.
Difícil, né? Bonito mais difícil, né?
Porque muitas vezes você tem que bater de frente com o mundo, que é racional.
Qualquer mudança que não seja pelo amor ela é dissimulação.
Essa mudança precisa estar sendo nutrida de afeto.
Porque se não ela é uma dissimulação.
E assim que o outro desviar a visão ela deixa de existir.
Porque é feita por medo.
E a hora que o medo não esta...
o objeto de medo não está presente,
não tem o porquê manter aquilo que foi transformado.
Por que, na realidade, nunca foi transformado.




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terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

DA AUSENCIA PATERNA - Prováveis consequências

A figura paterna é para a psicanálise freudiana elemento central por configurar-se naquilo que deve estruturar a personalidade do sujeito. 
“Não consigo pensar em nenhuma necessidade da infância tão intensa quanto a da proteção de um pai.” (Freud, em O MAL-ESTAR NAS CIVILIZAÇÕES, 1930). A importância paterna é indiscutível mesmo no senso comum se pensarmos que uma mãe precisa se sentir segura o suficiente para cuidar dos filhos de maneira bem sucedida. 
“Um modelo muito interessante é o da formação da natureza, onde a fêmea prenha busca um local seguro para se aninhar e receber seu filhote. Nesse momento contará com o resguardo do macho que a protegerá das ameaças externas e proverá recursos para que ela se ocupe em assegurar as melhores condições possíveis para o desenvolvimento deste que nasce. Uma fêmea sem esse resguardo nunca poderá cuidar do que precisa ser cuidado.”. (Martino, em PRIMEIROS PASSOS RUMO À PSICANÁLISE, 2012).
Nos grupos de primatas mais evoluídos, como é o caso dos chimpanzés que compartilham de 98 a 99 % de DNA com os humanos, existe uma clara estrutura de liderança do macho mais velho, que oferece proteção às fêmeas e aos machos mais jovens. No entanto, na raça humana o papel do pai nas famílias parece estar sofrendo severa transformação, especialmente nas últimas décadas. Existe uma decadência muito clara da presença paterna nos lares que parece, a cada dia, ameaçada de extinção. Isso fica evidente tanto através da prática clínica quanto na vida cotidiana. Falo aqui deste mesmo humano que vem ameaçando de extinção também o chimpanzé, assim como outras espécies de animais.
A ausência do referencial masculino pode acarretar inúmeros prejuízos que por mais que sejam ignorados pelo olhar social, ainda assim se pronunciam diante de nossos olhos desde a dificuldade de definição da sexualidade até nos casos de delinquência. Essa ausência pode tornar a criança aversiva às orientações dos adultos, tanto de representantes femininos quanto masculinos. Com isso pode se tornar um adulto que não consegue se adaptar às regras básicas de convívio, interpolando as duas posições: ora subserviente, ora revoltado com as regras.
Assim como Melanie Klein (1882 — 1960) bem nos orientou sobre o fato de que, quando a experiência com a realidade não pode ser vivida de maneira bem sucedida o sujeito não consegue integrar os objetos do mundo externo que fica dividido em amável e maldoso. Com isso também a figura paterna ausente fica desintegrada e segundo Klein: “É preciso uma identificação mais completa com o objeto amado e um reconhecimento mais completo de seu valor para que o ego perceba o estado de desintegração a que o reduziu, e continua a reduzir.” (Klein, 1935).
O modelo masculino se faz essencial na formação e estruturação da personalidade da criança e é desse referencial que angariará recursos para elaboração de complexos importantes no funcionamento psíquico. A ausência desse modelo pode dificultar a capacidade de estabelecer parâmetros de relacionamento que podem obstruir a capacidade de vinculação saudável na vida adulta. Ainda que este modelo possa não vir necessariamente do pai biológico é importante que essa outra figura masculina não seja um avô, um tio ou qualquer outro parente consanguíneo, já que a importância dessa figura está ligada aos processos edípicos. Esse homem representará a imago daquele que vem possuir a mãe e com isso libertar a criança do risco do incesto. Assim, essa figura deve encontrar-se num namorado da mãe que seja afetuoso e presente, ou um aspirante de padrasto, por exemplo.
Na elaboração do complexo de Édipo, a ausência desta figura significa que nada se interpõe entre a criança e sua mãe, o objeto desejado, que, sem obstáculos, é toda sua. Essa criança em que sofreu uma severa privação da figura paterna deve ter dificuldades em reconhecer limites e aprender regras de convivência social, já que o pai é o representante desse limite e a mãe configurará naquilo que se deseja.
“O estabelecimento de limites é característica central da presença emocional paterna. É do pai a função de dizer “não”, por exemplo, quando a mãe faz isso é sempre em nome do pai: “Espera só seu pai chegar!”, entretanto essa definição deve contar com uma boa dose de afeto. A ausência do afeto nessa experiência resulta na criação de um funcionamento cruel com ele mesmo.” (Martino, 2013).
Quando esse modelo não pode estar presente, a criança tem grande dificuldade na identificação e definição sexual, ou de gênero. A criança que de início vive uma configuração bissexual buscará na figura paterna uma referencia tanto de identificação (o que eu sou) quanto de escolha pelo par amoroso (quem eu quero ter) da vida adulta. Na prática clínica fica claro que pacientes que apresentam “queixas de impotência sexual, ou quaisquer que sejam as questões que impedem um desenvolvimento saudável de uma vida sexual e até mesmo, certo casos de homossexualidade, em sua maioria, carregam históricos extremamente conturbados, no que diz respeito às vivências de descobertas da vida sexual.”. (Martino, PARA ALÉM DA CLÍNICA, 2011).
Dessa maneira a presença de ambos os pais é o que permitirá que a criança viva de forma mais natural possível os processos de identificação e diferenciação, o que em sua ausência de um deve ocorrer a saturação no papel do outro.  Na ausência do pai, por exemplo, ocorre a saturação da presença da mãe, minimizando e até anulando a personalidade da criança que quando adulto tanto pode se tornar subserviente a todos, quanto tornar-se um narcisista arrogante para compensar o sentimento de inferioridade.
“É de extrema importância que, ao se arriscar nesse abismo chamado bebê, a mãe conte com um alguém (marido/pai) que mantenha a mão seguramente dada. De outra forma existirá sempre um grande risco de se perder nesse abismo. A mãe e o bebê se confundem, e essa importante experiência de discriminação entre um e outro só pode ocorrer com a entrada de mais alguém (o pai) na relação.” (Martino, em PRIMEIROS PASSOS RUMO À PSICANÁLISE, 2012).
Quando trato aqui de presença, ou ausência, quero me referir ao fato de que a necessidade afetiva paterna está muito além da simples presença física. No entanto essa presença do pai, que a princípio, deve ser uma ideia no interior da mãe, e assim, transmitida para o bebê como autoconfiança daquela mãe que se sente segura por poder contar com seu marido, deve ser sucedida do encontro com o pai físico no plano sensorial. O bebê carece de ouvir a vós, sentir o cheiro, sentir o toque daquele que cumpre essa função fundamental na estruturação de sua personalidade. “Não se pode criar uma imagem interna sem um representante no mundo externo.”. (Martino, em PRIMEIROS PASSOS RUMO À PSICANÁLISE, 2012).
No início da vida do bebê ele se relaciona com pessoas e coisas numa forma narcisista de ligação e isso acontece num processo natural da evolução dos vínculos, se repetindo de alguma forma, na vida adulta em cada nova relação travada pelo sujeito. A próxima etapa inclui outra forma de ligação da qual Freud (1856 – 1939) denominou ligação objetal, onde existe a possibilidade de ligar-se ao outro não mais por identificação, mas agora levando em conta também as diferenças. “...onde anteriormente se sentia como uma extensão da mãe, como sendo parte de um só, numa ligação por identificação.” (Martino, em O LIVRO DO DESAPEGO 2015).
A psicanálise nos ensinou que o processo de evolução da ligação por identificação para a ligação objetal deve ocorrer a partir da introdução da função paterna na relação, que até então era entre dois e agora expande-se na perspectiva da tríade, requerendo maior capacidade. Existe então uma quebra de narcisismo, onde se configura impreterivelmente um afastamento entre mãe e a criança que a partir daí deve começar a buscar novas experiências para além do triangulo. “Experiência dolorida de se viver! Mas a mãe dedicada cuidará para que o bebê se magoe o mínimo possível nesse distanciamento e assim possa viver o luto da relação.” (Martino, em O LIVRO DO DESAPEGO 2015).
Contudo, o desempenho dedicado da função paterna inclui a capacidade de tolerar o sentimento de inveja gerado pela atenção da mãe que se concentra na chegada do filho. Ser um pai realmente presente é uma tarefa que demanda grande dedicação. Não é simplesmente prover o que se encontra na ordem material, mas consiste em se colocar presente no apoio e no amparo emocional nessa experiência tão delicado que é a chegada do filho, assim como a manutenção da vida que brota da união do casal.
Bem, não é só a figura paterna que parece estar em decadência nos lares, mas a figura materna também vem se ausentando e a maioria das crianças parece ser hoje criada na melhor das hipóteses por babás, quando não, crianças com menos de seis meses são deixadas, muitas vezes o dia todo e todos os dias, em instituições publicas ou privadas.  ...e assim, continuamos a condenar a criança pela incapacidade do adulto em cuidar de seus próprios filhos.

Freud, S. 1930. O MAL-ESTAR NAS CIVILIZAÇÔES, em OBRAS PSICOLÓGICAS COMPLETAS - Edição Standard Brasileira, IMAGO (1969-80)
KLEIN, M. 1935. UMA CONTRIBUIÇÃO À PSICOGENESE DOS ESTADOS MANÍACO-DEPRESSIVO. In:____. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945). Rio de Janeiro: Imago Ed., 1996.
MARTINO, Renato Dias. PARA ALÉM DA CLÍNICA. Renato Dias Martino - 1. ed. São José do Rio Preto, São Paulo: Editora Inteligência 3, 2011.
_____ . PRIMEIROS PASSOS RUMO À PSICANÁLISE, 1. ed. São José do Rio Preto, SP : Vitrine Literária Editora, 2012.
_____O LIVRO DO DESAPEGO, 1. ed. São José do Rio Preto, SP : Vitrine Literária Editora, 2015.




domingo, 29 de janeiro de 2017

Dicas de Filmes - CONFIA EM MIM

O filme traz a história Mariana (Fernanda Machado), uma talentosa cozinheira que desacreditada por sua mãe, quanto ao seu sucesso, tem grande dificuldade em acreditar em si mesma. Mari se apaixona por Caio (Mateus Solano), um rapaz sedutor que a incentiva a realizar seu grande sonho: abrir seu próprio restaurante. No entanto, com isso vive uma grade decepção em sua vida. Um filme intrigante que enfatiza a dificuldade da autoconfiança e suas consequências. Se não confia em si mesmo qualquer outra pessoa pode parecer mais confiável. 





FICHA TÉCNICA
Roteiro: Fabio Danesi
Gênero: Suspense
Duração: 1h 25min
Ano de lançamento: 2014




Prof. Renato Dias Martino
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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O AMOR ‘LÍQUIDO’ NA PÓS-MODERNIDADE

Reportágem de Harlen Félix, para o jornal Diário da Região: Domingo, 08.01.17

W. Orlandeli
Um dos críticos ferrenhos do capitalismo na pós-modernidade, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925 - 2017) é responsável pelas reflexões mais realistas sobre as relações humanas na atualidade. Em sua obra, ele cunhou o termo ‘líquido’ para expressar a fragilidade e insegurança que prevalecem sobre as relações em diferentes níveis, dos vínculos amorosos aos familiares. Em livros como Amor Líquido (2004), Vidas Desperdiçadas (2005) e Medo Líquido (2008), Bauman mostra como o consumismo e as redes sociais têm contribuído para tornar os relacionamentos descartáveis e gerar níveis de insegurança que aumentam a cada dia.

Zygmunt Bauman
(1925 - 2017)
Para o sociólogo polonês, os seres humanos estão dando mais importância a relacionamentos em ‘rede’, que podem ser desmanchados a qualquer momento. E, desta forma, estabelecendo cada vez mais um contato apenas virtual, as pessoas desaprenderam a manter relacionamentos a longo prazo.



Liquidação humana
Para o psicoterapeuta, escritor e professor universitário Renato Dias Martino, a sociedade vive um ciclo vicioso tão severo que é difícil ter esperança em reverter essa situação no âmbito social. Os recursos disponíveis hoje podem, no máximo, estabelecer uma mudança no campo individual.

Segundo o psicoterapeuta, grande parte das crianças que nascem hoje não foram desejadas. Assim, nascem sem ter espaço na vida dos pais. “Nos primeiros anos de vida, a criança precisa viver junto da mãe. A falta dessa relação gera prejuízos severos. Sem uma mãe dedicada e um pai presente, qualquer relação dessa pessoa será prejudicada”, comenta.

Para Martino, as pessoas não nascem sabendo amar. “O amor é algo construído. Só se aprende a dar atenção ao outro quando se recebe atenção. E a maioria das pessoas só recebeu atenção quando havia uma recompensa. Um sociedade pautada pelo amor líquido é uma sociedade formada por pessoas em liquidação. Está todo mundo barato e exposto”, diz.



Por outro lado, ele ressalta que a internet não pode ser demonizada por conta dos problemas que pautam as relações humanas. “Há uma piada que diz que um sujeito que foi esfaqueado processou a Tramontina. Vivemos em um ciclo vicioso que é difícil ser identificado pelas pessoas”, comenta.


Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866
prof.renatodiasmartino@gmail.com 

sábado, 17 de dezembro de 2016

SOBRE AS DIFICULDADES NA REALIZAÇÃO

A questão que determina se um sujeito está sendo bem sucedido ou não, está ligada à obstrução do fluxo de realizações. O termo realização aqui referido diz respeito ao ato de realizar, ou seja, tornar real. E é justamente através das realizações que é possível a alguém fazer parte da realidade. Um sujeito que não realiza estará sempre inseguro quanto à sua própria realidade. Logo de início é importante lembrar que para que seja efetivada a realização é imperativa a inclusão do outro, isso, pois é ele que confirmará se isso é mesmo real. “Realizamos um sonho, impreterivelmente, no encontro com o outro.” (Martino. 2015).
E ainda, quando menciono aqui realizações, não estou alocando o conceito no nível material, mas cogito sobre as realizações que estão num plano da constituição emocional e afetiva. Até por que o autor que aqui escreve não acredita no valor daquilo que possa existir no plano material sem guardar um significado afetivo que o preencha de sentido e possa dar-lhe vida.
Num primeiro momento poderíamos levantar a questão de que o sujeito que não é capaz de tolerar perder pode escolher não realizar nada. Aquele que teme perder, pode não querer arriscar e quem não arrisca não pode ser bem sucedido. Isso deve configurar-se como consequência da incapacidade no desenvolvimento do autorreconhecimento. A capacidade de autorreconhecimento só pode ser desenvolvida a partir do reconhecimento vindo do outro. Somos o resultado de elementos inatos transformados pelo contato externo. 

Se uma criança não arrisca seus primeiros passos nunca aprenderá andar. Nesse caso o olhar crítico do outro é um elemento fundamental para o fracasso da experiência. Uma criança que se desenvolve sob os cuidados de um adulto que a critica frequentemente, terá grande dificuldade em desenvolver sua autoconfiança. O reconhecimento de cada passo, por mais imperfeito que possa parecer, é o que servirá de esteio para o próximo passo. Por outro lado, o olhar crítico, é tóxico nas fases tenras do desenvolvimento de qualquer que seja a capacidade.
No entanto, a questão é bem mais profunda e demanda de uma análise mais cuidadosa, já que na realidade o maior impedimento para a realização parece estar dentro de nós mesmos, ainda que seja a partir do resultado de um vínculo nocivo com o outro. Na impossibilidade de receber a continência suficientemente boa, através de um ambiente acolhedor, a predominância da tendência desitegrativa pode proporcionar a severa fragmentação do eu. Na desintegração da personalidade, uma parte se volta contra a outra impedindo a possibilidade de realização.
Isso acontece quando uma parte consegue algum sucesso; a partir daí logo a outra passa a depreciar desvalorizando a realização e impedindo que se possa alegrar-se como sucesso. O grande problema encontra-se no fato de que é possível proteger-se de um oponente externo, mas nada pode se fazer quanto ao inimigo interno. A pior prisão é dentro de si mesmo.
O complexo de sintomas que formam o transtorno alimentar classificado pela psiquiatria como bulimia, funciona dessa maneira. Essa desordem do funcionamento mental é caracterizada por períodos de compulsão alimentar seguidos por indução de vômito. Uma parte do eu busca satisfação de intenso prazer, obtido pela grande ingestão de comida e outra parte se opõe a essa satisfação, forçando o vomito numa tentativa de desfazer o estado de satisfação no prazer alcançado. Uma condição interna de destrutividade contra si mesmo, como se uma parte invejasse o sucesso da outra. Sigmund Freud (1856 - 1939) em seu texto ALGUNS TIPOS DE CARÁTER ENCONTRADOS NO TRABALHO PSICANALÍTICO, descreve uma ordem de pessoas neuróticas que parecem se sentirem fracassadas justamente quando são bem sucedidas.

“É como se elas não aguentassem a sua felicidade, pois não há como questionar a relação causal entre o sucesso e a doença.” (Freud, 1916). Por conte disso o sujeito envolve-se com futilidades deixando o essencial de lado, até por que a futilidade é mais atraente do que o essencial.
Esse funcionamento parece ter sido gerado a partir de um tipo de vínculo onde a culpa permeava a relação.
O sujeito não consegue ser bem sucedido, pois se culpa pelo seu contentamento enquanto o outro esteja sofrendo. Por um dia ter sido oprimido pelo outro e então dirigido sentimentos de ódio a ele, agora não se sente merecedor de alegrias num mecanismo de autopunição, por se sentir culpado.
A autopunição pode chegar ao seu nível máximo no suicídio e sobre isso Freud escreve em seu texto A PSICOGÊNESE DE UM CASO DE HOMOSSEXUALISMO NUMA MULHER, que: “é provável que ninguém encontre a energia mental necessária para matar-se, a menos que, em primeiro lugar, agindo assim, esteja ao mesmo tempo matando um objeto com quem se identificou e, em segundo lugar, voltando contra si próprio um desejo de morte antes dirigido contra outrem.” (Freud, 1920).
Através das reflexões conseguidas até aqui, fica claro que a busca pelo estabelecimento de vínculos que sejam ricos em sinceridade e amor é o que pode trazer a possibilidade de reparação do funcionamento que tenha sido perturbado por relações toxicas. Sem a possibilidade de se estabelecer um bom vínculo de confiança as ilusões podem passar a ser percebidas como fatos da realidade.



FREUD, S. 1920, A PSICOGÊNESE DE UM CASO DE HOMOSSEXUALISMO NUMA MULHER. In: Edição Standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud, vol.XI. Rio de Janeiro, Imago, 1996.
________1916, ALGUNS TIPOS DE CARÁTER ENCONTRADOS NO TRABALHO PSICANALÍTICO. In: Edição Standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud, vol.XI. Rio de Janeiro, Imago, 1996.]
MARTINO, R. D. O LIVRO DO DESAPEGO - 1. ed. -- São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2015.





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