domingo, 3 de junho de 2018

CONHECIMENTO E MATURIDADE


Os temas referentes à distância que existe entre o “ter” e o “ser”, ou de forma mais expansiva, do que se pode “ter” e aquilo que se está “sendo”, é recorrente nas reflexões mais nobres do pensar. Nessa mesma dimensão também o saber está incluso, na medida em que aquele que sabe, passa a “ter” o conhecimento, e sendo assim, também se distancia do “ser”, ou do que se está sendo. Se aquilo que é possível se obter não pode garantir o que se está sendo, o saber também não deve atender essa demanda.

Na configuração atual da sociedade a idealização da formação no curso superior tornou-se paradigma. Para que o sujeito receba olhares aprovadores da sociedade é impreterível que tenha ele concluído um curso superior de estudo, para que possa com isso ostentar um título de bacharel ou coisa parecida, em alguma das áreas oferecidas pelas universidades disponíveis. Assim, o sujeito deve cursar e cumprir certos critérios para que com isso seja reconhecido socialmente.

O título adquirido pelo saber é muito bem visto socialmente, por outro lado, aquele que não conseguiu ou não se interessa por isso, acaba por receber olhares duvidosos ou mesmo reprovadores da sociedade. Por mais que sua prática profissional seja de grande importância, ou ainda, por mais que sua habilidade profissional seja refinada, permitindo o exercício de sua profissão com excelência, mesmo assim, sem o diploma de curso superior, o reconhecimento social guardará restrições no reconhecimento.

Slogans como “a educação é a base de tudo”, ou ainda como Nelson Mandela mencionou em 2003, no lançamento da rede Mindset: “A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”, são cada vez mais reverenciadas. No entanto, o conhecimento para o imaturo emocional tem efeitos adversos. O conhecimento, num sujeito imaturo pode ser na melhor das hipóteses inútil, quando não, pode se tornar uma arma perigosa, voltando-se contra ele próprio, assim como ameaçando os outros. 

A saber, a maturidade emocional é desenvolvida através de experiências emocionais bem sucedidas e a fonte nobre por excelência dessa ordem de experiências brota na família bem estruturada. Família onde as funções maternas e paternas estejam sendo cumpridas suficientemente bem. Nesse modelo de ambiente é que o sujeito aprende a estimar a si mesmo, respeitar suas limitações e ganha com isso autoconfiança para que então possa aplicar essas capacidades no vínculo com o outro. Esse é um modelo de aprendizado desenvolvido no seio do lar. Não depende do conhecimento intelectual e está distante da educação, que normalmente é desenvolvida na escola. Que tipo de conhecimento pode ser útil ou saudável em um sujeito que não ama a si mesmo, não se respeita e com isso não tem autoconfiança?

O “saber sobre”, no desenvolvimento intelectual não garante a maturidade emocional que se refere ao desenvolvimento do verdadeiro eu, na habilidade de respeitar e cuidar de si mesmo, assim como do outro, manifestada na capacidade de amar. Um imaturo que se dedique muito aos estudos tornar-se-á um imaturo muito inteligente. Isso fica evidente quando se vê crianças que mal sabem higienizarem-se sozinhas, mas que têm capacidade intelectual tão desenvolvida ao ponto de conseguirem invadir e hackear importantes redes de computadores. 

A maturidade emocional pode abrir caminho para que se desenvolva um conhecimento intelectual de forma saudável, mas a intelectualidade não pode garantir maturidade emocional. Se o conhecimento adquirido através da educação, no desenvolvimento intelectual, garantisse a maturidade, não teríamos corruptos e até psicopatas com um grau de intelectualidade muito alto, conseguindo títulos de mestres e doutores. 

Assim, pronuncia-se uma experiência perigosa quando a arma poderosa que pode mobilizar o mundo, da qual Mandela se referiu, cai nas mãos de um sujeito imaturo. Portanto, a afirmação de que a salvação do futuro está na escola deve ser cuidadosamente repensada.


MANDELA, N. Lighting your way to a better future. Planetarium. University of the Witwatersrand, Johannesburg, South Africa. 16th July 2003.




Prof. Renato Dias Martino











terça-feira, 15 de maio de 2018

O QUE É PSICOTERAPIA?

Psicoterapia é o processo de tratamento voltado para as questões emocionais. Pelo menos a priori é a busca por novas maneiras de relacionar-se com aspectos de si mesmo e em conseqüência disso, com as coisas do mundo externo. A palavra psicoterapia vem da junção de duas outras palavras: psique que vem do grego “psyche”, significando "respiração", "sopro” e seve para representar o "si mesmo", na dimensão da mente, da alma ou ainda do espírito, e terapia, que também vem do grego therapeutikos, e por sua vez diz respeito a quem serve, quem cuida. É um tratamento que propõe promover a saúde, a autonomia e o bem-estar emocional do paciente. Isso ocorre por meio de atividades peculiares, sem que haja a administração de medicamentos.

Existem várias modalidades de psicoterapias, que podem se utilizar de muitas abordagens teóricas diferentes. Nessas inúmeras formas, podem ser utilizados preceitos que vão desde as configurações mais superficiais, que tem o intuito de tratar comportamentos supostamente inadequados, através de fins palpáveis, de maneira operacional, definidos e observáveis, até abordagens que tratam o problema como um todo, por meio dos elementos físico, mental, emocional e espiritual num sistema complexo e profundo, incluindo tanto a causa da doença como os sintomas apresentados.

Nas formas mais profundas de psicoterapia a proposta é de tratar transtornos ou disfunções de uma parte da constituição do sujeito que não está disponível aos cinco sentidos e por conta disso inclui uma serie de obstáculos em sua prática. Não pode contar com exames sensoriais que possam revelar com clareza aquilo que precisa ser tratado. Por não estar disponível ao entendimento habitual e estar assim inacessível à lógica cotidiana, a psicoterapia tende a ser malvista pelo sujeito muito apegado a materialidade das coisas. 

O primeiro registro de um modelo de psicoterapia foi proposto por Sigmund Freud (1856 – 1939). Nunca antes, na história da humanidade houve essa espécie de proposta; onde duas pessoas se encontrassem para falarem sobre a dor psíquica, buscando a verdade dos fatos. Em seus Estudos sobre a histeria (1893-1895), Freud escreve sobre o caso da senhorita Anna O, onde ainda fazia uso do método catártico que tinha a hipnose como principal instrumento.
Porém, com o decorrer de seus estudos e de sua prática clínica, abandonou essa técnica se utilizando então de um método que propunha uma conversa livre onde os pontos importantes emergiam conforme a necessidade de pensá-los.

Por mais que possa ser confundida e até mesmo em algumas publicações, encontrada com o nome de aconselhamento, dar conselho não pode ser psicoterapêutico, principalmente dentro da perspectiva psicanalítica. Quando o que se busca é a expansão da maturidade emocional, o recurso mais importante, num processo psicoterapêutico é o ato de acolher. É a partir daí que os conteúdos impensados emergirão para que possam ser elaborados no seu tempo. No caso do aconselhamento, o suposto psicoterapeuta se julgando mais experiente, deve indicar o caminho que não pode estar de acordo com a realidade do paciente, pois este vive uma experiência particular. “Por mais que o conselheiro pareça saber do que fala, estará inevitavelmente distante da experiência vivida, que é sempre particular a cada sujeito de sua própria experiência.”. (Martino, 2013). O psicoterapeuta que tenta aconselhar, normalmente o faz por não ser capaz de tolerar e acompanhar o paciente, respeitando seu tempo no processo lento do aprender com a experiência. Muitos dizem o que se deve fazer, ou deixar de fazer, poucos se propõem a fazer junto.

Uma sessão de psicoterapia não deve parecer uma aula de como se resolver problemas emocionais. A pretensão pedagógica é nociva à esse processo que deve propiciar oportunidades na configuração de um ambiente confiável o bastante para se experimentar experiências emocionais reparadoras. “Aquilo que se sabe não pode garantir um bom desempenho de um analista, mas aquilo que ele realmente está sendo pode proporcionar o enriquecimento e a expansão do ambiente emocional.”. (Martino, 2015). De que adianta tanto conhecimento, quando não se consegue ser a mínima parte do que se supõe saber? 
“Na formação de um psicanalista a instrução teórica não pode ter valor sem que esteja sendo administrada junto com a análise pessoal do aspirante a analista. A experiência do ser, então, é mais importante do que a experiência do saber.”. (Martino, 2015).  As teorias ou as técnicas utilizadas para isso importam muito menos comparadas com a capacidade do psicoterapeuta, no campo de sua maturidade emocional. 

Na verdade, a teoria que se possa usar como base da psicoterapia, não passa de um instrumento. E assim como uma faca, que serve a cortar o alimento, também pode servir para ferir. Muitas vezes o trabalho do psicoterapeuta se dá num âmbito não verbal, onde o acolhimento e a possibilidade de elaboração dos elementos psíquicos acontecem menos pelas palavras e mais pelos gestos. A palavra é a fonte do equívoco. Assim como nos orienta Wilfred Bion, em seu trabalho Atenção e Interpretação: “Às vezes, a função do discurso é comunicar a experiência emocional para outrem; às vezes, a função é comunicar a experiência emocional de modo errôneo.” (Bion, 1970).

A psicanálise é por excelência uma ferramenta apropriada para isso, sobretudo a psicanálise dos pensadores que vieram depois de Melanie Klein (1882 – 1960), como Wilfred Bion (1897 – 1979) e Donald Winnicott (1896 - 1971). Eles trazem uma proposta de psicoterapia incluindo o formato de continência num ambiente emocional que abriga os elementos projetados pelo paciente, que devem sofrer certa transformação a partir dessa vivência.
“Nessa classe de experiências a possibilidade de acolhimento passa a ser fundamental, na medida em que proporciona ambiente saudável para que haja a transformação e maturação dos elementos mentais.” (Martino, 2015). 
Portanto, o que realmente pode ser terapêutico é o vínculo de carinho e sinceridade, que proporcione o acolhimento necessário para que possa haver experiências emocionais saudáveis. No caso da aplicação da psicanálise for suficiente para que isso se realize ela se revela um bom método. No entanto, isso depende fundamentalmente da capacidade do sujeito que aplica esse método. “Nesse aspecto a psicanálise converge em um modelo que transcende a teoria e se pronuncia numa dimensão onde não existirá técnica que possa suprir a incapacidade no acolhimento.” (Martino, 2015).

Winnicott propõe o holding, e Bion propõe a rêverie, que parecem ter a mesma finalidade. A integração da personalidade numa forma total, que até então se encontrava não integrada. Da mesma forma, reintegrar quando se encontra desintegrada. “No holding, assim como na rêverie, o analista/mãe tenta se isentar ao máximo de atitudes autoritárias, sem o desejo de que paciente siga uma determinada direção.” (Martino, 2015). A partir dessa integração interna é possível se estabelecer a integração entre aquilo que é do mundo externo e o que é do si mesmo, já que essa separação não passa de uma ilusão. Assim como no corpo físico, o interno e o externo não estão separados de forma definitiva, já que o tecido é poroso, no mundo mental isso também é verdade. A realidade ultima é configurada como um todo.
Dessa maneira, para que o sujeito seja capacitado para ser um psicoterapeuta e assim cuidar do outro é impreterível que ele dê manutenção constante ao cuidado de si mesmo. Um psicoterapeuta que ofereça boa qualidade no que se propõe, o faz por ter sido instruído nisso através de sua análise pessoal. Esse processo é que tratará de suas próprias dores e confusões mentais, proporcionando o reconhecimento de seus limites, o que permitirá o reconhecimento do limite do outro (seu paciente).

BION, Wilfred R. Atenção e interpretação, tradução de Paulo Cesar Sandler. - 2. ed. 1970 - Rio de Janeiro: Imago, 2006.
______________. Conferências brasileiras 1 – São Paulo, 1973. Rio de Janeiro: Imago,1975.
FREUD, S. Estudos sobre a histeria (1893-1895), volume II. In Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: Edição standart brasileira, Rio de Janeiro, Imago, 1996.
MARTINO, Renato Dias. O amor e a expansão do pensar: das perspectivas dos vínculos no desenvolvimento da capacidade reflexiva , 1. ed. São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2013.
___________________. O Livro do Desapego, 1. ed. São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2015.





Prof. Renato Dias Martino
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sábado, 12 de maio de 2018

SOMOS TÃO EDUCADOS QUE PERDEMOS O RESPEITO - Grupo de Estudos



SOMOS TÃO EDUCADOS QUE PERDEMOS O RESPEITO - Prof. Renato Dias Martino

Respeito – reconhecimento
Respectus – re = de novo + spectus = espectador
Dirigir a atenção novamente
EDUCAÇÃO
Apalavra educar deriva do Latim educare,  ligada a educere, que é um verbo composto do prefixo ex,  relativo a fora, mais ducere, referente a conduzir, ou levar.
Significa literalmente “conduzir para fora”.

“O falso self pode ser conve¬nientemente sintônico com a socie¬dade, mas a falta do self verdadeiro produz uma instabilidade que quanto mais a sociedade é levada a acreditar que o falso self é o verdadeiro self, mais evidente se torna.”  Winnicott, (1950-55).

Contemplação
Interpretorréia
Importância

Sigmund Freud (Freiberg in Mähren, 6 de maio de 1856 — Londres, 23 de setembro de 1939).
Wilfred Ruprecht Bion (Mathura, 1897 — Oxford, 1979).
Donald Woods Winnicott (Plymouth, 7 de abril de 1896 — 28 de janeiro, 1971).
Immanuel Kant (Königsberg, 22 de abril de 1724 — Königsberg, 12 de fevereiro de 1804)

Jung. C G; Psicologia do inconsciente, tradução de Maria Luiza Appy. Petrópolis, Vozes, 1980.
Winnicott, D. W. (1950-55). A agressividade em relação ao desenvolvimento emocional. In: Winnicott, D. W. Da pediatria à psicanálise: obras escolhidas. Rio de Janeiro: Imago, 2000.
Sigmund Freud, “O Mal-Estar na Civilização” (1930).

Texto sobre o vídeo: http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com.br/2011/12/somos-tao-educados-que-perdemos-o.html

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