sábado, 16 de julho de 2016

A Vontade do Corpo e a Liberdade da Alma

O sonho da liberdade é algo que povoa a mente humana. A busca pelo poder de escolha permeia a vida do ser humano que em suas tentativas de se tornarem livres, muitas vezes provocam situações desastrosas. O sujeito destrói lares, desfaz famílias e abandona incapazes (filhos e pais idosos) por conta de sentir-se preso à alguém do qual não deseja estar ligado. Destrói a natureza com o intuito de desobstruir seu caminho e assim se sentir liberto. O humano chega a cometer crimes e faz tudo isso em nome da busca pela libertação do que se julga estar aprisionado. Me lembro de um caso sobre um jovem que foi veiculado na imprensa local, que tentando libertar-se de si mesmo se entregou à polícia pois não suportava mais ter que roubar para satisfazer seu vício em drogas. De uma maneira ou de outra, das formas mais simples às mais complexas a busca pela liberdade está presente nos esforços do ser humano. No entanto, até que ponto podemos ser realmente livres?
Todo fenômeno tem seu motivo, sendo que cada manifestação natural ocorre por conta de uma linha de causalidade. Um fenômeno da origem a outro e assim forma-se um sistema de causa e efeito constituindo a dimensão dos fenômenos. O termo fenômeno tem sua origem no Latim PHAENOMENON, ou ainda no Grego PHAINOMENON que significa "o que pode ser visto, ou o que aparece aos olhos". Assim sendo, aquilo que é dependente de suas causas não pode ser livre, pois está subordinado ao que causou.
Não existe liberdade na dimensão dos fenômenos da natureza, sendo que no funcionamento de um ecossistema os fenômenos se sucedem de uma maneira sistemática, onde a conexão natural não permite liberdade para que sobrevenha de forma diferente. As ciências ocupam-se de maneira incansável nos estudos das causas que atestam essa impossibilidade de liberdade. Com isso poderíamos afirmar que aquilo que está na ordem da natureza não se discute, apenas se respeita. A natureza trabalha por meio da necessidade, não existindo nessa extensão da realidade, espaço para a liberdade de escolha. Assim funcionam as articulações na dimensão do mundo material. Então, isso nos leva a propor que se existir uma chance para que o homem possa se tornar de alguma forma livre, isso deve ocorrer através do rompimento com a cadeia dos fenômenos, transcendendo de algum modo o nível da materialidade.
Arthur Schopenhauer (1788 —1860) que foi fortemente influenciado pela leitura das Upanishads, comentários sobre os Vedas, que se tornaram conhecidas no mundo ocidental, pela primeira vez, no início do século XIX, através de uma tradução feita do Persa para o Latim introduziu o pensamento indiano e alguns dos conceitos budistas na filosofia, trata desse tema com grande propriedade em sua obra O Livre Arbítrio onde propõe que:

"Considerado exatamente, o conceito de liberdade é negativo. Com isso não fazemos mais do que formular a ausência de qualquer impedimento e de qualquer obstáculo, dado que o obstáculo, sendo manifestação da força, deve indicar uma noção positiva". (Schopenhauer , 1950/1836)

No seu Livre Arbítrio Schopenhauer sugere três tipos de liberdade, com suas respectivas barreiras que por mais que pareçam diversas apresentam sempre um elemento em comum, a 'vontade' que é tratada como conceito central na filosofia de Schopenhauer e que é elemento fundador de grande ambiguidade. A primeira modalidade de liberdade proposta por Schopenhauer é a do agir. Sendo as causas físicas que podem impedir a liberdade, nessa perspectiva o ser humano é livre quando não existem empecilhos materiais que o impeçam suas ações, tendo ele poder de desobstrução de obstáculos da ordem do carnal ou corporal. Configura-se como o modelo mais primitivo de liberdade. Assim, habitualmente dizemos que o sujeito é livre quando age segundo sua vontade.
Na segunda forma de liberdade proposta por Schopenhauer o que se leva em conta é o aspecto intelectual ou do saber. Dentro desse modelo o que ocorre é que só pode ser possível conhecer ou saber dentro de certo limite. Pode-se saber e até mesmo pensar, apenas dentro de uma proporção limitadora. Aqui, mais uma vez a vontade pode interferir naquilo que poderíamos realmente saber. Somente saberemos sobre algo até o ponto em que esse saber possa coincidir com nossa vontade. De outra maneira encontrar-se-á uma resistência que impedirá o reconhecimento desta verdade e limitará o que se poderia saber. Dessa maneira a capacidade de pensar, que tem sua origem do Latim, significando pesar, também deverá ser comprometida já que a vontade pode corromper as medidas tomadas como referências utilizadas nas formulações do pensar.
A terceira modalidade da qual propõe Schopenhauer é aquela que denomina liberdade moral ou ainda a liberdade de 'querer o que se quer'. Essa modalidade me parece ser a mais complexa, já que esbarra na dimensão das necessidades. Isso pois estamos aprisionados em nossas necessidades que se não forem satisfeitas teremos severos prejuízos. Além disso, essa classe de liberdade é afetada pelo fato de o desejo do sujeito estar sempre, indiretamente, impregnado do desejo do outro.
Ora, por mais que reconheçamos certa vontade como sendo genuinamente nossa, ainda assim ela estará impreterivelmente carregada do desejo do outro.

Em seu ensaio de 1917, UMA DIFICULDADE NO CAMINHO DA PSICANÁLISE, Sigmund Freud (1856 - 1939) correlaciona as pulsões inconscientes da psicanálise ao conceito de ‘Vontade’ proposto por Schopenhauer e expande essa ideai.



"Essas duas descobertas – a de que a vida dos nossos instintos sexuais não pode ser inteiramente domada, e a de que os processos mentais são, em si, inconscientes, e só atingem o ego e se submetem ao seu controle por meio de percepções incompletas e de pouca confiança -, essas duas descobertas equivalem, contudo, à afirmação de que o ego não é o senhor da sua própria casa." (Freud, 1917).


Pois bem, a liberdade deve ser uma qualidade da ação e sendo então um atributo não pode ser configurado como substancia. Se pudermos nos utilizar do modelo da gramática diríamos que um adjetivo não pode ser um substantivo. Assim, ação constitui substancia enquanto a liberdade consiste em predicado. Agir com liberdade seria então agir segundo o que se deseja, sendo necessário um desejo precedendo a ação. A liberdade pode ser um adjetivo do agir, mas não pode ser aplicada da mesma forma ao ser. Isso pois o ser é dinâmico e se estrutura a partir do desejo e não podemos escolher o que desejar. Assim, toda ação que é impreterivelmente subordinada à um desejo, como vimos anteriormente, não pode ser livre. Desse modo, somos escravos do nosso desejo. Por mais que apresentemos razões para sermos livres a razão está sempre subordinada à vontade, que por sua vez é o principio universal da natureza, responsável pelos movimentos e transformações no mundo.
Enquanto seres humanos somos formados por um complexo somático, configurado num organismo material considerado fisicamente, sendo essa a parte inferiormente nobre do ser. Isso pois está sujeito à deterioração estando em constante impermanência (conceito muito utilizado no Budismo). Fazendo parte dos fenômenos, está na ordem da transitoriedade, existindo nessa configuração dentro de um tempo determinado. Essa parte do nosso ser pela qual percebemos o mundo exterior, através dos sentidos, é responsável pela função básica do corpo é ter contato com o mundo físico. O corpo somático sofre transformações constantes nunca permanecendo muito tempo da mesma forma e essa característica gera grande dificuldade para o ser humano que tem muito medo dessas mudanças. O corpo nasce, permanece por algum tempo, crescendo e se desenvolvendo, assim passa a produzir efeitos nos fenômenos e então passa a definhar gradativamente até a morte. Nosso corpo material está sujeito ao que na cultura Védica é denominado samsara, no ciclo do mundo objetivo de nascimento, permanência temporária e morte.
Ainda segundo as escrituras dos Vedas, essa dimensão da existência é comandada pela trimûrti, formada pelas divindades Brahma o criador, Vishnu o mantenedor e Shiva o destruidor. A trimûrti configura guna-avataras, as personalidades destinadas a controlar o mundo material. Os três gunas são modos de configuração das energias materiais. O guna sattva ou da paixão fica sob os cuidados de Brahma, o guna rajas ou da bondade é encarregado à Vishnu e o guna tamas ou da ignorância, por sua vez, fica confiado à Shiva. A trimûrti está diretamente ligada ao véu de Maya que configura-se como ilusão mundana, confundindo o transitório com a realidade ultima, que não está disponível aos órgãos dos sentidos, estando então na dimensão do estar sendo. Maya ata o sujeito a este mundo ilusório e não pode existir sem os três gunas, sendo então inerente a eles, operam no nível físico, mental e emocional.
No entanto, além da forma material configurada no corpo físico, também somos alma. Enquanto humanos somos constituídos também por uma parte do ser que não se presta aos atributos materiais como de espaço ou temporariedade. Não está aqui ou lá. Não tem passado, por conta disso não têm memória. A noção de futuro também não se aplica a alma, por conta disso o desejo não é um atributo dessa parte do ser. Sendo que alterações ocorrentes no corpo não podem afetar a alma. Enquanto o corpo se presta às funções carnais e às empregos físicos, a alma tem funções num nível superior que incluem o pensar, o amar, o intuir... 
Essa parte do ser nunca nasceu e nunca morre. Em sânscrito o atma é a alma individual o verdadeiro eu, traduzido como "Eu" em maiúsculo, como características divina da alma individual. Segundo o Advaita Vedanta, uma das três escolas de Vedanta do pensamento monista , o atma é idêntico ao Absoluto, ou Brahman e está além da existência corpórea, livre do samsara e não sujeita à Maya. Vedanta que é a doutrina do não-dualismo puro, isto é, a identidade de Brahman e do Atma.

No Capítulo dois do Bhagavad-Gita, intitulado O Conhecimento Transcendental, Senhor Krsna, a Personalidade Suprema de Deus revela ao guerreiro Arjuna que:

"Para a alma, em tempo algum existe nascimento ou morte. Ela não passou a existir, não passa a existir e nem passará a existir. Ela é não nascida, eterna, sempre-existente e primordial. Ela não morre quando o corpo morre."

na jāyate mriyate vā kadācin nāyaṁ bhūtvā bhavitā vā na bhūyaḥ ajo nityaḥ śāśvato ’yaṁ purāṇo na hanyate hanyamāne śarīre.

Segundo o Kaṭha Upaniṣad existe duas naturezas de almas, a saber, a alma sob a forma de partícula diminuta (aṇu-ātmā) e a Superalma (vibhu-ātmā).

 “Tanto a Superalma [Paramātmā] quanto a alma atômica [jīvātmā], situadas na mesma árvore do corpo, estão dentro do mesmo coração da entidade viva, e somente alguém que esteja livre de todos os desejos e lamentações materiais pode, pela graça do Supremo, compreender as glórias da alma.” (Kaṭha Upaniṣad , 1.2.20)

aṇor aṇīyān mahato mahīyān ātmāsya jantor nihito guhāyām tam akratuḥ paśyati vīta-śoko dhātuḥ prasādān mahimānam ātmanaḥ.

Entre o corpo e a alma encontra-se uma parte intermediária do qual aqui chamaremos de mente. A mente... Concordando assim com Wilfred R. Bion (1897-1979) em sua ideia de pensamento em busca de pensador. Assim como disse Bion em sua palestra dada em Nova Iorque em 1977, transcrita e publicada no Brasil em 1992 pela Editora Imago com o título de Conversando com Bion "È um pensamento errante em busca de algum pensador para se alojar nele." (Bion, 1992/ 1977)

Enquanto o pensador morre o pensamento continua. Bion tem grande influência da cultura oriental, sobretudo na filosofia indiana, pois nasceu na cidade de Muttra, quando seus pais Britânico, se mudaram para lá à serviço do estado inglês que prestava serviços na Índia. Na teoria assim como na prática psicanalítica de Bion ele propôs estar de acordo com ‘O’, na Realidade Última ou ainda o OM que só pode ser vivido e nunca conhecido. Em Bion encontramos a ideia da relação entre continente e contido onde "O pensar passa a existir para dar conta dos pensamentos" (BION, 1994/1967). Com isso fica claro que nada pode ser realmente criado,  porque  a  ideia  já  existe,  sempre existiu sendo necessário que nasça um pensador para pensá-la.

A partir desse vértice de reflexão configura-se um quadro onde a alma parece vagar livre até ser cativa por um certo corpo, forçando então a criação de uma mente. Dai por diante deve haver uma constante peleja, pois aquilo que o corpo busca para se satisfazer não interessa à alma e na realidade só faz por desvaloriza-la. A busca pela nutrição da alma está justamente na renuncia dos prazeres do corpo. Ora, não há maior desventura que uma alma aprisionada pelos anseios do corpo. Enquanto para o corpo parece não haver liberdade, já que se encontra cativo da sua vontade, a alma se dispões livre em seu desempenho.
No entanto, a realidade não é definida pela vontade do humano. A disposição para a expansão dos níveis do ser estaria então na capacitação para desprendimento daquilo que se encontra na dimensão do real concreto num exercício do desapego da materialidade numa renúncia do que satisfaz o corpo, mas empobrece e evidencia a alma. Numa relação afetiva a confirmação sensorial deve, dentro dessa perspectiva ser substituída pelo vínculo simbólico.


Enquanto uns buscam obter cada vez mais, outros procuram aprender a viver com menos.






BION, W. R. Estudos psicanalíticos revisados. Tradução: Wellington M. de Melo Dantas. 3 ed. Rio de Janeiro: Imago, 1994/1967.
_____(1992).Conversando com Bion. Quatro discussões com W. R. Bion (1978). Bion em Nova York e em São Paulo(1980). Rio de janeiro: Imago Editora.
S. Freud, UMA DIFICULDADE NO CAMINHO DA PSICANÁLISE (1917)
Prabhupada, A. C. Bhaktivedanta Swami. O BHAGAVAD-GITA - Como Ele É. Editora: The Bhaktivedanta Book Trust. 1976.
SCHOPENHAUER, A. O Mundo como Vontade e Representação. Rio de Janeiro: Contraponto Editora, 2001/1919. (Tradução de M. F. Sá Correia).
_______________ O Livre arbítrio. São Paulo: Edições e publicações Brasil, 1950/1836. (Tradução de Lohengrin de Oliveira).







domingo, 5 de junho de 2016

Sobre Amores de WhatsApp

O estudo da psicanálise, assim como a pesquisa das mais expansivas áreas do pensamento humano nos ensina que a busca por reconhecer a si mesmo é uma tarefa de alargamento da mente que se realiza impreterivelmente pela ligação com o outro. Através do encontro com o outro revelamos características de nossa personalidade e somente por meio do estabelecimento de um relacionamento com este outro é que passa a ser possível perceber partes do eu que ficariam latentes sem essa experiência afetiva. "Necessitamos da opinião do outro quanto ao que somos. Isso existe naturalmente como necessidade de reconhecimento. Então, o ego carece disso, pois é daí que se nutre a auto-estima." (Martino em O amor e a expansão do pensar, 2013)
Assim, as relações afetivas que procedam no reconhecimento trazem o fundamento da sustentação e desenvolvimento do funcionamento mental. A proposta psicoterapêutica tem justamente esse intuito; o de dispor através do psicoterapeuta, certo vínculo de boa qualidade que possa proporcionar um autorreconhecimento para o paciente que se dedica.
A busca pelo alargamento no desempenho do pensar está diretamente subordinada a às relações afetivas. Por conta disso a experiência de se relacionar afetivamente não está implicada simplesmente em uma questão de satisfação onde se enamora de alguém por atender aos desejos sexuais ou suprir carências superficiais e medos da solidão, mas falamos antes de tudo de uma necessidade fundamental para o bom funcionamento mental. O estabelecimento de boas alianças em vínculos afetivos saudáveis é o que nutre o eu de amor próprio e assim como nos ensina Freud (1856 - 1939) em seu importante texto SOBRE O NARCISISMO: UMA INTRODUÇÃO, "o fato de não ser amado reduz os sentimentos de auto-estima, enquanto que o de ser amado os aumenta."

Há um certo tempo atrás escrevi algumas linhas sobre os modelos de relacionamento adotados pelo ser humano em geral, que diferente dos outros animais, demuda e compõe novas formas a cada tempo. Na ocasião que me propus ensaiar sobre o assunto, foi possível enumerar alguns modelos de aproximação e relacionamento que foram se transformando conforme cada época, tendo como base a sociedade ocidental, da qual tenho maior acesso. Parti então, do modelo característico de uma sociedade patriarcal onde as aproximações e relacionamentos aconteciam por conta de conveniências familiares, onde os pais decidiam com que os filhos iriam se casar. Uma forma utilizada no passado onde os casais eram previamente arranjados pelos pais conforme conveniência familiar, tendo como referencial os bens das partes assim como tradições mantidas pelas linhagens. Esse modelo guardava características de imposição; o que não fez mais que gerar uma revolta culminando numa dissolução da forma autoritária de decisão quanto ao futuro afetivo dos filhos. Assim, essa forma de vinculação aos poucos foi se dissolvendo e dando lugar a outra modalidade de relacionamento que permitia ao sujeito o livre-arbítrio na escolha e que recebe então o nome de namoro.

"Descritivamente se trata de certo modelo de relacionamento que inclui um período de reconhecimento e avaliação entre as partes do casal, até que se optasse por estarem juntos (ou não) em um compromisso “legal” ou formalizado." (Martino, 2011)

Esse modelo de aproximação e relacionamento denominado namoro é o que funda a família pós-moderna.  No entanto conforme o passar do tempo este modelo também foi gradualmente substituído por um novo padrão de aproximação e ligação agora num formato mais breve, e que seria denominado ‘ficar’. Nesse formato de aproximação a ligação não duraria mais que alguns minutos e por sorte uma hora, ou coisa assim. O grande risco desse tipo de aproximação - penso que a palavra ligação, aqui começa a ficar inadequada, por conta da curta duração - é o fato de ser realizado tendo muito pouco compromisso e responsabilização,  muitas vezes associado ao consumo de álcool e outras drogas, o que promoveria dificuldade na avaliação da realidade dos fatos e desta forma estimulando a superficialidade no contato. Com isso a geração de gravidezes indesejadas e a proliferação de doenças sexualmente transmissíveis passa a ser de uma frequência assustadora.

"O beijo que seria símbolo do amor pós-moderno, agora passa a ser o troféu na superficialidade do encontro denominado ‘ficar’. Troféu desligado de noções como qualidade, mas fica condicionado segundo a quantidade de sujeitos beijados numa só noite de balada." (Martino, 2011)
Ainda no plano da transformação dos modelos de ligação e relacionamento, o formato do 'ficar' em muito pouco tempo foi migrando para um modelo mais superficial ainda, que denominou-se 'pegar'. Ora, se no 'ficar' ainda existia, mesmo que breve, algum tempo de permanência, no modelo do 'pegar' a ação do 'largar' seria de maior facilidade ainda, promovendo assim maior superficialidade.
           
Aqui pretendo retomar o tema, tentando atualizar a maneira como o ser humano em geral vem funcionando dentro do âmbito afetivo. Claro, que ao escrever este tipo de ensaio esse autor conserva consciência de que existe uma cota da sociedade que busca outras formas de relacionamento que podem contar com maior capacidade de compromisso e responsabilização, que não estão incluídas nessa forma generalista de funcionar.
Pois bem, hoje assistimos (ou participamos) de uma nova sena no âmbito das ligações e dos relacionamentos. Não é novidade alguma o fato de que atualmente a grande maioria das pessoas não consegue viver sem um aparelho celular que esteja à mão e que a comunicação entre grande parte das pessoas se resume em breves palavras digitadas ou gravadas em pequenos trechos de áudio enviados à qualquer hora em qualquer lugar onde possa alcançar a rede de sinal dos provedores de telefonia móvel.
Sendo assim, as aproximações e os relacionamentos parecem seguir a mesma tendência.
Me parece que grande parte das aproximações hoje acontecem através das redes sociais virtuais.  Redes de relacionamento como Facebook, ou ainda recursos aplicáveis que se restringem aos aparelhos celulares como Whatsapp, ou ainda o Tinder, um aplicativo de encontros onde o usuário pode conhecer novas pessoas que possuem interesses em comum. Esse último busca as informações como localidade e preferências de um perfil e relaciona com dados de outro. Ora, me parece muito interessante poder  desfrutar de recursos tecnológicos como estes e pelo menos a princípio, não consigo identificar nem um dano provável nesse meio de procura por um par afetivo. No entanto, o que ocorre é que  aquilo que poderia configurar-se no início de um relacionamento saudável, se pudesse evoluir, em grande parte dos casos não passa de troca de mensagens eletrônicas.
De tal modo, o benefício da facilidade se converte em fracasso na expansão do vínculo. A internet é um meio maravilhoso de troca de informações, mas não é o suficiente para a construção de vínculos saudáveis. A impossibilidade de se encontrar de maneira presencial pode criar certo desgaste num vínculo que mal surgiu. Com inúmeras experiências do mal-entendido frequentemente ocorrentes nessa forma limitada de comunicação, por não contar com impressões fundamentais de afetos que só podem ser possíveis de forma presencial o vínculo que se inicia dificilmente resiste por muito tempo.
Na realidade temos sempre, duas forças conflituosas disputando lugar dentro do funcionamento mental. Freud nos ensina com muita propriedade sobre as duas tendências que trabalham nos processos psíquicos e regem nossa interação com o mundo externo onde se encontra o outro e assim interferindo diretamente nos modelos de vínculo afetivo.
"Depois de muito hesitar e vacilar, decidimos presumir a existência de apenas dois instintos básicos, Eros e o instinto destrutivo. (O contraste entre os instintos de autopreservação e a preservação da espécie, assim como o contraste entre o amor do ego e o amor objetal, incidem dentro de Eros.) O objetivo do primeiro desses instintos básicos é estabelecer unidades cada vez maiores e assim preservá-las – em resumo, unir; o objetivo do segundo, pelo contrário, é desfazer conexões e, assim, destruir coisas. No caso do instinto destrutivo, podemos supor que seu objetivo final é levar o que é vivo a um estado inorgânico. Por essa razão, chamá-lo também de instinto de morte."  (Freud em ESBOÇO DE PSICANÁLISE, 1940 [1938])

Dessa maneira, quando a pulsão de morte rege nosso funcionamento somos forçados a nos desligarmos do mundo externo só nos relacionando com o outro de maneira narcisista, ou seja como se fosse aquilo que satisfaça o nosso desejo. A tolerância, quando acontece, é mínima dentro dessa forma de funcionar. Tenho percebido de maneira muito clara que vivemos numa sociedade contemporânea que tende a se configurar-se num formato narcisista e sendo assim os encontros e ligações afetivas se mantém cada vez mais enquanto for conveniente para as partes. A pulsão de vida da qual Freud ilustra com o Deus do amor, Eros vem sendo extremamente frágil, se desfazendo com muita facilidade e atuando de forma cada vez mais breve. Assim, dando lugar para o domínio de Thanatos, o Deus da morte ilustração da pulsão de destruição que funciona como fator de desligamento.
Isso quer dizer que na medida em que ocorram conflitos ou mesmo se o outro se revele sendo ele mesmo e não mais aquilo que o sujeito deseja que ele fosse (uma extensão de seu desejo) as relações se desfazem. "A experiência clínica familiarizou-nos com as pessoas que se comportam de uma maneira notável, como se estivessem enamoradas de si mesmas, e essa perversão recebeu o nome de narcisismo." (Freud, em DOIS VERBETES DE ENCICLOPÉDIA, 1923 [1922]).

Se no modelo do 'ficar' ou mesmo do 'pegar' ainda existia um contato físico, mesmo que breve, nesse novo modelo não chega a existir sequer a mínima presença física. No entanto, se por acaso inicia-se uma relação presencial ainda assim essa experiência deve enfrentar outro obstáculo. O uso da tecnologia através de aparelhos como os celulares, smartphones e similares, que se mostrava limitador quando não passava de contato virtual perdura impedindo que os casais possam desenvolver a relação. O abuso da tecnologia parece perdurar mesmo depois que a relação presencial possa ter sido estabelecida, evitando que o vínculo se aprofunde. Como que hipnotizados pelo pequeno aparato eletrônico, os casais parecem estarem presentes apenas fisicamente, onde cada um está muito mais inteirado com o que se passa nas redes sociais ou nos conteúdos da internet, do que com a pessoa que está do seu lado.
Então se concordamos que é somente através do encontro com o outro que podemos revelar e reconhecer características fundamentais de nossa própria personalidade, nesse modelo de relacionamento grande partes do eu permanecerão ocultas do próprio eu. O eu se vê de nutrido na auto-estima, que sem reconhecimento tem comprometido o desenvolvimento do funcionamento mental. Numa tentativa de fugir do encontro emocional/afetivo com o outro que impreterivelmente revelaria características do eu. Numa experiência mórbida evita-se o outro e fugindo do outro o sujeito se perde dele mesmo.
Infelizmente as consequências desse tema não se restringem simplesmente ao âmbito dos relacionamentos afetivos entre casais, mas se estendem nas próximas gerações que se originam desses tipos de relacionamento. O que será das crianças que nascem desses "encontros" narcisistas?

FREUD, S. [1914]. Sobre o narcisismo: uma introdução. In Edição standard brasileira das obras psicológicas completas. 1. ed. Trad. Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974.
_________ 1923 [1922]. DOIS VERBETES DE ENCICLOPÉDIA. Idem.
________ 1940 [1938]. ESBOÇO DE PSICANÁLISE. Idem.
Martino, R. D. O amor e a expansão do pensar : das perspectivas dos vínculos no desenvolvimento da capacidade reflexiva - 1. ed. -- São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2013.
http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com.br/2011/01/agora-regra-e-do-ficar.html





sábado, 23 de abril de 2016

Concordar ou Discordar: Do Princípio de Verdade

Não é necessário um discernimento muito apurado sobre o convívio nas relações para percebermos com clareza o fato de que o ser humano tem certa habilidade especial para ignorar a verdade, muitas vezes passando a vida toda sem se responsabilizar por sua própria realidade. Menos pelo fato de ser essa verdade difícil de se identificar, mais pela incapacidade de conviver, se responsabilizar e tanto mais pela conveniência em se manter afastado dela. Além disso, alguns fatores implicam numa maior frequência de elementos que propiciam e mantém essa tendência a se distanciar da verdade e se manter afastado de sua orientação. Mesmo com todo ônus produzido pelo afastamento que se possa manter da realidade dos fatos. Penso ser conveniente, pois então, discorrer algumas linhas no intuito de refletir sobre esses tais fatores.
Sigmund Freud (1856 -1939)
É tema frequente na literatura psicanalítica a questão da incapacidade de lidar com a verdade e na realidade a grande descoberta de Sigmund Freud (1856 -1939) foi a de que seus pacientes adoeciam justamente por conta de não serem capazes de reconhecer e lidar com fatos relacionados a verdade sobre sua história de vida. O desenvolvimento de conceitos fundamentais para a psicanálise, como é o caso da ideia de repressão, tem seu embasamento nessa ordem de incapacidades. Incapacidades que provocam a divisão do eu que assim dividido passa a desenvolver sintomas para se manter funcionando. Passamos a tratar então, da discórdia entre partes da personalidade.

" Duas forças antagônicas atuavam no doente; de um lado, o esforço refletido para trazer à consciência o que jazia deslembrado no inconsciente; de outro lado a resistência, já nossa conhecida, impedindo a passagem para o consciente do elemento reprimido ou dos derivados deste." (Freud, em CINCO LIÇÕES DE PSICANÁLISE, 1910 [1909]).

Deste modo, a disposição para a escuta atenta e sem julgamento, proposta por Freud revela-se justamente o nobre instrumento na prática da psicanálise, no que chamou de associação livre de ideias. Uma experiência terapêutica nunca antes sugerida e que rendeu à Freud uma série de olhares duvidosos quanto a eficácia. Freud propõe ao paciente, nessa nova técnica, que  não censurasse nada e pronunciasse tudo que viesse a sua mente. A partir dessa proposta, aquilo que seria evitado até então, latente sob o domínio das resistências começa a surgir por entre o conteúdo manifesto na fala do analisando. No entanto, ainda assim o paciente se vê obstruído pelas  resistências que dissimuladas em ponderações críticas quanto à importância daquilo que se deve dizer, dificulta as associações livres. Quanto a isso Freud orienta que:

Sigmund Freud
(1856 -1939)
" Para evitá-la põe-se previamente o doente a par do que pode ocorrer, pedindo-lhe renuncie a qualquer crítica; sem nenhuma seleção deverá expor tudo que lhe vier ao pensamento, mesmo que lhe pareça errôneo, despropositado ou absurdo e, especialmente, se lhe for desagradável a vinda dessas ideias à mente. Pela observância dessa regra garantimo-nos o material que nos conduz ao roteiro do complexo reprimido." (Freud, 1910 [1909]).

Bem, a escuta psicanalítica desprovida de julgamento e críticas torna-se então o expediente de desobstrução das verdades recalcadas e conservadas no escuro da alma, mas que ainda assim mantinham-se ativas e ruidosas, gerando sintomas perturbadores e desconcertantes.
Wilfred Ruprecht Bion
(1897-1979)
Depois de Freud, Wilfred Ruprecht Bion (1897-1979) traz a baila esse mesmo tema quando nos propõe que a arrogância é filha da incapacidade de lidar com a verdade sobre o eu. Uma tentativa de evitar certa mudança catastrófica resultado do reconhecimento da verdade sobre si mesmo. Assim como coloca Freud em UMA DIFICULDADE NO CAMINHO DA PSICANÁLISE (1917), todo esforço das resistencias são erigidos em nome de não admitir o golpe narcísico de que "o ego não é o senhor da sua própria casa". No artigo Sobre Arrogância de 1957 Bion cogita sobre as experiências do pensador que se estrutura para dar conta dos pensamentos que até então não foram pensados. Essa experiência de procura por um sentido sobre a dor psíquica, tanto do paciente quanto do analista, pode então ser conduzida  através do respeito à realidade psíquica e sua verdade, quando existe a capacidade de tolerar frustrações, ou ainda, por outro lado, essa busca pode ser conduzida de modo arrogante quando na incapacidade mínima de tolerar os desconfortos provocados pela tomada de consciência da verdade sobre si mesmo.

" ... o analista que trata de um paciente aparentemente neurótico deve encarar uma resposta terapêutica negativa, concomitante ao aparecimento de alusões dispersas, sem correlação mútuas, à curiosidade, arrogância e estupidez, como um indício de que está diante de uma catástrofe psicológica que terá de enfrentar." (Bion, em Sobre Arrogância, 1957)

Wilfred Ruprecht Bion
(1897-1979)
Bion insiste nas condições de desprendimento das censuras na escuta do analista para que possa perceber de forma serena, desapegando-se dos rumores decorrentes dos fatos armazenados na memória, assim como daqueles gerados pelo desejo na expectativa de confirmação de um suposto conhecimento anterior sobre o paciente. Esse exercício abre caminho para o acolhimento daquilo que vem do analisando.
No entanto, o ser humano é normalmente educado sob a regência de certos princípios de conveniência social que naturalmente provocam discórdia interna das partes do eu, por exigirem cumprimento de tarefas que promovem uma deformação no desenvolvimento da personalidade, que já é naturalmente frágil. Tarefas introduzida sem levar em conta características particulares de cada um. Pressuposições educacionais são introduzidas desde a mais tenra infância, conservado alguns pressupostos sociais dos quais são impedidos de serem repensados por tomarem um formato saturado numa definição de certo/errado e assim, seguem por gerações estimulando e promovendo o desenvolvimento de sintomas, tanto no nível das relações do sujeito em suas vivencias particulares quanto no âmbito social, por conta de uma conveniência do mercado de trabalho e na promoção do consumo desmedido.
Somos submetidos à regras e tarefas que serão vez em quando elogiadas, quando preenchidas e impetuosamente criticadas na falha do cumprimento. Regras que são conduzidas segundo certa razão e que configuram-se na realidade material sem considerar a particularidade de cada um. Bem, esse tipo de cobrança corrobora para o enrijecimento de uma instancia crítica que já existe naturalmente dentro de cada um de nós, da qual Freud denominou superego ou ideal de ego. Freud atribui ao superego à influência crítica dos pais que é transmitida através da voz, e se estendendo para professores, treinadores, líderes religiosos, chegando até a opinião pública. "Um poder dessa espécie, que vigia, que descobre e que critica todas as nossas intenções, existe realmente. Na realidade, existe em cada um de nós em nossa vida normal." (Freud, 1914). Entre o terceiro e o quinto ano de vida se dá a fase do desenvolvimento da libido que Freud chamou de fálica.

"Neste momento do desenvolvimento, Freud chama a atenção para formação do ideal de ego, ou superego (identificações originalmente derivadas das figuras de autoridade parentais), que surgiria como substituto dos desejos edípicos." (Martino, em Primeiros Passos Rumo à Psicanálise, 2012).

A polissemia dos elementos psíquicos confere ao superego uma complexidade especial que parte desde a prudência presente no instinto de autopreservação que barra e censura toda criatura frente à ameaça até o mais alto grau de educação que refinadamente doutrina o sujeito segundo regras racionais pre-estipuladas de maneira categórica. Assim como no 'dever' proposto por Immanuel Kant (1724-1804), próprio do humano e sedimentado na razão. A proposta de Kant é a de elevar o agir à esfera universal numa lei moral válida para todo ser racional. A manifestação do "imperativo categórico", que vai pra além do instinto de autopreservação, numa ação de boa vontade, mas que também não se resolve num agir para conseguir um bem individual (“imperativos hipotéticos”). Segundo Kant, o imperativo categórico ou moral é universal e assim, válido para todo ser que tenha a capacidade racional desenvolvida: 

Immanuel Kant (1724-1804)
“Tal imperativo é categórico. Não se relaciona com a matéria da ação e com o que dela pode resultar, mas com a forma e com o princípio de que ela mesma deriva; e o essencialmente bom da ação reside na disposição que se nutre por ela, seja qual for o resultado. ” (Kant, em Fundamentação da metafísica dos costumes, 2002-1785, segunda seção).

Kant propôs que só a lei traz consigo apreciação de necessidade incondicional a que se deve obediência mesmo que esteja contraria a inclinação. 
No terceiro capítulo de seu texto O EGO E O ID de 1923 é que Freud deixa claro sua visão de ideal de ego e sua relação com o ego num movimento antagônico que ao mesmo tempo que é originário das primitivas escolhas objetais do id, também pronuncia-se numa formação reativa agressiva contra essas mesmas escolhas:

"A sua relação com o ego não se exaure com o preceito: ‘Você deveria ser assim (como o seu pai)’. Ela também compreende a proibição: ‘Você não pode ser assim (como o seu pai), isto é, você não pode fazer tudo o que ele faz; certas coisas são prerrogativas dele.’ Esse aspecto duplo do ideal do ego deriva do fato de que o ideal do ego tem a missão de reprimir o complexo de Édipo; em verdade, é a esse evento revolucionário que ele deve a sua existência." (Freud, 1923)

Dessa maneira, através da introjeção no ego dos primeiros objetos (a mãe e o pai) investidos da libido do id o corre, segundo Freud um processo de dessexualização onde os objetivos sexuais são desviados e dessa forma torna-se possível superar-se o complexo de Édipo e a condenação tanto do crime do incesto quanto do assassinato. No entanto esse processo tem um herdeiro: o superego, que retém características essencialmente severas com a tendência a supervisionar, condenar e punir. 
"O superego – a consciência em ação no ego – pode então tornar-se dura, cruel e inexorável contra o ego que está a seu cargo. O Imperativo Categórico de Kant é, assim, o herdeiro direto do complexo de Édipo." (Freud, 1924)

Enquanto para Freud o superego é estruturado durante a fase fálica, para Melanie Klein (1882 — 1960) apresenta um modelo arcaico dessa instância crítica, iniciando sua formação numa fase pré-edipiana que ainda partiriam de uma predisposição inata antes do encontro com os pais na realidade externa. Para Klein, o superego retira sua força totalmente do sadismo do id, oriundo das energias biológicas. É fácil perceber o poder e a precocidade dessa instancia castradora em crianças de tenra infância.
Melanie Klein
(1882 — 1960)
Reconhecemos esse fato quando percebemos o quanto é difícil receber atenção de bebês em idade muito precoce, quando propomos agrados e gracejos, no entanto quando intervimos com olhares hostis e repreensões a reação é quase que imediata.
Um ideal de conduta é então erguido e mantido pela culpa e pelo medo de errar. "Para o ego, a formação de um ideal seria o fator condicionante da repressão." (Freud, 1914). Todas as possibilidades do sujeito em sua real capacidade passa a ser ameaçada e ameaçado está, assim seu amor próprio. Bem, se o ego, que é a representação do que se está sendo é ameaçado, o que entra em ação é o que se deveria ser, ou seja, o ideal de eu.
Diferentemente do ideal de ego, o conceito de ego ideal diz respeito à uma experiência pré-edípica, de natureza narcisista e instituída dento da dimensão do imaginário. Esse termo é cunhado por Freud em seu celebre texto Sobre o Narcisismo: uma introdução de 1914. Tendo como modelo a idealização da onipotência das figuras parentais o ego ideal é o resultado de toda libido investida no ego, produzindo a ilusória sensação de plenitude, onde não existe lugar para a falta nem para o desejo. Uma experiência fundamental na estruturação primitiva do ego. "Esse ego ideal é agora o alvo do amor de si mesmo (self-love) desfrutado na infância pelo ego real." (Freud, 1914).
Muito perigosa a experiência onde o sujeito já é submetido a exigências, mesmo antes de se viver a ilusão do ego ideal, que seria o alicerce da personalidade. Por conta das cobranças da expectativa social é então, colocada em jogo a realidade naquilo que está dentro do limite no que é possível sem que seja exigido para além da capacidade do eu. Dessa maneira, é estabelecida uma comunicação baseada ora em elogios e enaltecimentos, ora fundado em críticas condenatórias. Isso tendo como claro que o enaltecimento acaba por gerar um ambiente de expectativa. Bem, quando não suprida a expectativa, abre-se ocasião para novas críticas. Assim, ansiando pela aprovação do outro vamos nos distanciando de nós mesmos.
Quanto a ação (atuação) da crítica, esta configura-se numa forma de comunicação primitiva da qual Melanie Klein denominou identificação projetiva. Essa experiência se dá quando o sujeito não é capaz de tolerar certos aspectos dentro de si. Estes elementos então, são cindidos da sua realidade, negados e atribuídos a outro, do qual o sujeito passa a se identificar.
Melanie Klein
(1882 — 1960)
Assim "O objeto torna-se em alguma medida um representante do ego e esses processos são, a meu ver, a base para a identificação por projeção ou “identificação projetiva”."
(Klein, 1952). Um mecanismo que transcende à prática clínica no âmbito dos conteúdos trazidos pelo paciente e tratados pelo psicoterapeuta. A identificação projetiva proposta por Klein configura-se numa forma primitiva e amiúde patológica de relacionamento que está espalhada nos vínculos sociais. Esse mecanismo primitivo muitas vezes se instala como forma de comunicação que parte de educadores e líderes que apesar de ocuparem funções superiores ainda assim, por conta da imaturidade emocional projetam em alunos e subordinados suas frustrações, numa evacuação daquilo que não suportam conter dentro de si.
“O ser humano aprendeu que a crítica ajuda a crescer e é muito comum essa ideia. Entretanto, esqueceu que esse tipo de ação é um esconderijo muito seguro das frustrações e incapacidades daquele que critica.”  (Martino, em ‘O amor e a Expansão do Pensar’, 2013).

De tal modo, o sujeito não acredita em si mesmo e por supostamente se encontrar em uma posição superior então critica o outro. E isso fica bem claro dentro do que nos ensina a psicanálise, ainda dentro da proposta kleiniana de identificação projetiva, quanto ao fato de que enquanto fala do outro, o sujeito conta muito dele mesmo. O perigo se pronuncia na medida em que sem um bom vínculo de confiança as ilusões podem ser percebidas como fatos.
Esse quadro é configurado tendo como premissa que exista um sujeito que a priori, está certo, ou segundo o "imperativo categórico" de Kant, alguém que tem a razão e outro que está errado, fora da razão preestabelecida.
Athur Schopenhauer
(1788 - 1860)
Quanto ao "imperativo categórico", anos depois Athur Schopenhauer (1788 - 1860), que tivera Kant como grande fonte de inspiração no início de seus estudos, questiona então essa suposição propondo que “o conceito de dever , a forma imperativa da ética, só são válidos na moral teológica” e que essa afirmação perde todo o sentido e significação fora dessa perspectiva.
(Schopenhauer, 1995/1841: LVI)
No entanto, concordar ou discordar não está dentro da perspectiva de quem tem a razão ou de quem está equivocado. Antes de tudo, falamos sobre a experiência da concórdia, onde con-cor-dar diz respeito à estar junto de coração. Quando não pode existir tal experiência afetiva, arma-se então um eterno debate improdutivo, onde a arrogância impede qualquer que seja a concordância entre aqueles que acham que têm a razão.

"A verdade nesse nível representa-se na concórdia (com = junto, córdia = coração), num movimento onde duas pessoas possam estar realmente de acordo. Pois, o que realmente nos separa não está no conhecimento, ou mesmo nas articulações racionais, mas encontra-se imperioso na nossa incapacidade de amar." (Martino em O LIVRO DO DESAPEGO, 2015, pg. 27)

Retomando, pois então a proposta psicoterapêutica de Freud e depois dele, Bion, a psicoterapia deve promover a integração (reintegração) da personalidade do paciente, por meio de uma conciliação interna. Esse processo ocorre através da tentativa de apaziguar os conflitos e discordâncias ocorrentes entre as partes do eu, que na presença do psicoterapeuta encontram uma forma de fazerem as pazes. A proposta da busca por um ambiente que proporcione a possibilidade de concórdia, num reconhecimento mútuo da verdade na perspectiva da contínua procura, ainda que saibamos que não seja um bem que se possa adquirir e que nunca vamos localizá-la inteiramente ou definitivamente.
Temos aqui como paciente um termo gerado do Grego, PATHE, no sentido de “sentimento”. Esse termo é de onde se origina a palavra “paixão” ou ainda do Latim PASSIO, “sofrimento". Sendo assim o paciente é o agente da paixão, do sentimento ou ainda do sofrimento. A partir desse conceito chegamos à compaixão que se realiza entre psicoterapeuta e paciente, onde o primeiro se compadece com o sentimento/sofrimento do segundo. "Nenhuma descoberta psicanalítica é possível sem que haja um reconhecimento de sua existência, evolução e um "estar-uno-a-ela". " (Bion, 1970/2007, p.g.44)  Bion nos orienta da necessidade de estarmos integrados à experiência para que haja a real possibilidade da transformação. Mesmo antes de Bion, Schopenhauer já proferia sobre a necessidade de certa inteiração com a realidade das coisas e dos seres, sendo não um esforço sobre-humano mas uma atitude natural como extensão do próprio ser.

Athur Schopenhauer
(1788 - 1860)
"O processo aqui analisado não é sonhado ou apanhado no ar, mas algo bem real e de nenhum modo raro: é o fenômeno diário da compaixão, quer dizer, a participação totalmente imediata, independente de qualquer outra consideração, no sofrimento de um outro e, portanto, no impedimento ou supressão deste sofrimento, como sendo aquilo em que consiste todo contentamento e todo bem-estar e felicidade. Esta compaixão sozinha é a base efetiva de toda a justiça livre e de toda a caridade genuína." (Schopenhauer, 1995/1841).

Mas, a compaixão aqui cogitada não incide simplesmente em se confundir, numa fusão com o outro que sofre. Essa experiência de fantasia de sofrer a dor no lugar do outro nada tem de real e não faz mais que piorar o quadro. Dessa maneira o que realmente ocorre é novamente uma identificação projetiva das dores do sujeito que encontram no outro um receptáculo aberto à projeções. Ao contrario disso, para o exercício da real compaixão deve se desenvolver a consciência de que existe um outro que sofrem, para que se possa ser possível estar junto dele em seu sofrimento.
Na realidade essa atitude de benevolência quando real é então voltada não só para o sofrimento de seus semelhantes, mas para toda e qualquer criatura viva.
Esta experiência do agir bem funda-se não numa imposição a partir da razão como propõe Kant sua teoria ética do dever, e bem por isso Schopenhauer a rejeita. Somente através da real capacidade de se compadecer pelo sofrimento desenvolvida naturalmente, me parece ser possível ao analista real, de fato se aproximar do paciente real e propor um real cuidado com a verdade deste que sofre. Isso sem que seja estabelecido através de regras impostas ou técnicas racionais de educação. Assim abre-se fluentemente a possibilidade de expansão. Ora, bons analistas que oferecem a boa análise é o que faz outros bons analistas. Aprendemos a cuidar de nós mesmos através do cuidado que tiveram conosco, e a partir disso desenvolvemos a capacidade de cuidar do outro.
"Então, para saber quem somos nós, necessitamos transcorrer essa verdade através do olhar do outro. Uma verdade sobre o eu, que só o eu conhece, não pode ser chamada de verdade." (Martino, em 'O Amor e a Expansão do Pensar', 2013).

Bion, W. R. Atenção e Interpretação . Rio de Janeiro: Imago. Dias, C. Amaral. 1991 [1970]
_________ [1958b] “Sobre arrogância.” In: BION, W. R. Estudos psicanalíticos revisados. Rio de Janeiro: Imago, 1994.
Freud. S. Freud, em CINCO LIÇÕES DE PSICANÁLISE (1910 [1909]).
___________SOBRE O NARCISISMO: UMA INTRODUÇÃO (1914)
___________O EGO E O ID (1923)
___________ UMA DIFICULDADE NO CAMINHO DA PSICANÁLISE (1917)
___________O PROBLEMA ECONÔMICO DO MASOQUISMO (1924)
Kant, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. São Paulo: Martin Claret, 2002/1785.
Klein, M. (1952a/1991). Algumas conclusões teóricas relativas à vida emocional do bebê. Em Inveja e Gratidão e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago.
Martino, R. D. Primeiros passos rumo à psicanálise  - 1. ed. -- São José do Rio Preto, SP : Vitrine Literária Editora, 2012.
_______________ O amor e a expansão do pensar : das perspectivas dos vínculos no desenvolvimento da capacidade reflexiva - 1. ed. -- São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2013.
_______________O Livro do Desapego reflexiva - 1. ed. -- São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2015.
Schpenhauer, Arthur. o fundamento da moral. Tradução de Maria Lúcia Mello Oliveira Cacciola. São Paulo: Martins Fontes, 1995 /1841.
_______________ Sobre a Ética. São Paulo: Hedra, 2012/1851.









Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
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