quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

I ENCONTRO DO ATO DE PENSAR: Dos Desencontros do Sexo

Olá pessoal,
Venho convidá-los para participar do I ENCONTRO DO ATO DE PENSAR: Dos Desencontros do Sexo, ministrado pelo renomado Psicoterapeuta e Escritor Renato Dias Martino.
Data: 14 de março de 2015
Horário: 14h às 17h

Em parceria com Centro Cultural Vasco, Blog A cura de Freud e Pensar-sea-si mesmo.
Participe, faça sua inscrição: 
Tel: 17 3011-1496
E-mail: maiconvijarva@gmail.com

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

A Transicionalidade - Prof Renato Dias Martino



Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866
renatodmartino@ig.com.br

http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Dos Desencontros do Sexo

O modelo de vínculo onde a mulher é representada como um objeto que se pode obter e ser usado, padece pela imaturidade emocional da dupla. Maturidade insuficiente essa que torna vulnerável o sujeito e compromete a saúde do vínculo. Tanto homens que imaginam possuir o objeto (mulher) quanto mulheres que se dispõem como objeto passivo de ser possuído, revelam incapacidades emocionais (do eu para si mesmo) que refletem diretamente na inaptidão dos relacionamentos (do eu para o outro).

Várias são as possibilidades e configurações nos relacionamentos onde um se dispõe a ser usado pelo outro para obter algum benefício, sendo provavelmente a forma que permite maior possibilidade de observação e a mais comum àquela que tem a satisfação sexual como objetivo do uso. A articulação que deu à prostituição o apelido de “profissão mais antiga do mundo”, encontra aqui uma justificativa.

Ora, não é novidade alguma o fato de que o homem sente diversos desconfortos físicos que logo se desdobram na dimensão mental, quando privado de sexo.  A partir do ponto de vista biológico, essa privação cria no homem saudável, uma ânsia que é gerada pela necessidade de evacuação do material seminal, continuamente produzido durante sua vida toda. Assim, ele permanece estando naturalmente, na maioria do tempo disponível ao sexo. Por outro lado, a tolerância da mulher parece ser bem maior frente à privação sexual. A mulher ovula uma vez por mês e, pelo menos fisiologicamente estará disponível para o sexo apenas alguns dias durante o mês. Além disso, no período pré-menstrual ocorre uma concentração de hormônios sexuais que são normalmente geradores de inúmeros sintomas como irritabilidade, dor nas mamas e agressividade.
Nessa ocasião a mulher fica extremamente sensível emocionalmente e assim, indisposta para o sexo.

Essa configuração de necessidades orgânicas impulsiona a oferta de mulheres que se propõem a oferecerem-se como objeto sexual, tentando obter lucro com isso e esse mesmo esquema força também homens a procurar esse tipo de oferta. Muitas vezes o desejo dele por sexo faz com que imagine que ela compartilha disso também, enquanto ela o faz por outros motivos dos quais ele desconhece. Ainda assim, ele prefere acreditar que ela também deseja sexo tanto quanto ele, muitas vezes tentando justificar por inúmeras razões improváveis as frequentes situações de indisponibilidades dela. 
Os desencontros da sexualidade entre gêneros muitas vezes propiciam inúmeras frustrações e experiências traumáticas que podem levar à certa intolerância com o sexo oposto e até propiciar a escolha homossexual, onde o tempo de cada indivíduo pode encontrar maior harmonização com do outro.
Fatores orgânicos, assim como influências histórico-sociais, nas características do modelo patriarcal podem estimular a experiência do relacionamento onde um se dispõe como objeto e outro como possuidor, porém, a imaturidade emocional e a saúde dos vínculos são definidoras, independente da época em que se vive, ou ainda quanto a configuração orgânica. O imaturo emocional é essencialmente um egoísta e sendo egoísta seu objetivo imperioso é o de satisfazer a si mesmo independente do que isso possa causar no outro. Por conta disso ele não consegue manter vínculos por muito tempo se não encontrar motivos egoístas resguardando a união.
De qualquer forma, os desencontros da sexualidade humana nos deixam reflexivos quanto à função de ligação, num encontro que promoveria a proliferação da espécie, naturalmente presente nos animais biologicamente mais evoluídos.
Bem, os desencontros na sexualidade humana têm ainda motivos que iniciam muito cedo na vida emocional. Enquanto é natural para o homem ter a chance do contato com o corpo feminino, isso só ocorrerá de maneira esporádica na vida de uma menina, em relação ao corpo masculino. 
O menino tem o primeiro contato com o corpo feminino coincidindo com o primeiro contato que tem com outra pessoa, isso dentro da perspectiva da relação primitiva com a mãe. Além disso, se tiver a sorte de tê-la presente por mais alguns anos, experimentará frequentemente, do toque feminino em suas partes mais intimas, por conta do cuidado que ela dedicará a sua higiene e outras manutenções de maternagem. Se ainda assim não for sua mãe quem cumpre essa função, certamente será outra mulher, como a avó, a babá... Já na experiência da menina, o contato com o corpo masculino é uma ocorrência muito incomum.













Sigmund Freud (1856-1939)
“No caso do homem, a mãe se torna para ele o primeiro objeto amoroso como resultado do fato de alimentá-lo e de tomar conta dele, permanecendo assim até ser substituída por alguém que se lhe assemelhe ou dela se derive. Também o primeiro objeto de uma mulher tem de ser a mãe; as condições primárias para uma escolha de objeto são, naturalmente, as mesmas para todas as crianças. Ao final do desenvolvimento dela, porém, seu pai – um homem – deveria ter-se tornado seu novo objeto amoroso.” (Freud em SEXUALIDADE FEMININA, 1931)

Entretanto, o contato da menina com seu pai é frequentemente povoado de experiências assustadoras. Que isso se dê em princípio pelo simples fato de ele ser quem dilui o paraíso simbiótico do relacionamento mãe/bebê, desenhando-se de início como uma ameaça, ou como um rival na posse da mãe. A partir dessa experiência inicia-se um conflituoso processo para se construir a intimidade afetiva entre pai e filha. Isso quando ele é presente e dedicado à relação com ela. No entanto quando o pai é ausente e a menina não tem a chance de ter contato com o primeiro homem da sua vida, na segurança dos braços de seu pai, será então muito complicada a inteiração nas próximas experiências dessa ordem. Abre-se um precedente onde se deve contar com a sorte, quanto a quem será o homem do qual terá esse primeiro contato, já que o pai não pode cumprir tal função.
Seja pelo motivo que for, a primeira aproximação é sempre egoísta e o desencontro estará tão presente quanto a possibilidade de ligação, mas a dissolução do egoísmo requer a combinação da tolerância e do limite e tem fundamental importância num bom relacionamento sexual, como extensão de um bom vínculo afetivo.
O grande problema não é iniciar um vínculo com (ou por) sexo, mas talvez seja, esperar que ele se mantenha e continue existindo só pelo sexo. O sexo foi ilustrado por Freud (1856-1939) através do mito de Eros e manifesta-se por impulso como oportunidade de aproximar-se e talvez ligar às pessoas. Mas, para que se efetive o vínculo como saudável, alguns aspectos precisam ser aprimorados. Algo precisa ser construído, pois um impulso por si só não permanece por muito tempo na realidade, é fugaz. No caso do vínculo mantido por impulso sexual, quando o impulso não está se manifestando o vínculo perde o sentido. Isso toma uma dimensão especialmente importante se concordarmos que a saúde dos vínculos está calcada mais na durabilidade e menos na intensidade.

Sendo a paixão uma forma de amor ausente da verdade, quando estamos amando aquele do qual pouco conhecemos, na verdade, somos atraídos por aquilo que desejamos e que é projetado nele. O que imaginamos que ele seja e não o que ele realmente pode ser. Assim, quando entra a verdade e passamos a reconhecer o outro, a paixão é ameaçada. A isso damos o nome popular de crise conjugal. A partir daí, evolui: se tornando amor, ou regride: culminando no rompimento. Essa expansão e os aprimoramentos do vínculo demandam de tempo e de muito cuidado com o eu e com o outro. Aproximamo-nos do outro, em primeiro momento, por identificação, nos misturamos com ele, só aos poucos passa a ser possível perceber quem ele realmente pode ser e o que desejávamos que ele fosse. 





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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

O desejo que cega e a fera na jaula em “U”

O desejo que move o humano em direção às coisas é mesmo desejo que cega seus olhos para as mesmas coisas. Se o desejo, quando satisfeito em seu tempo, faz por diluir o próprio desejo, esse mesmo desejo ora submetido à grande privação torna-se perigoso e coloca o sujeito vulnerável.
Numa cruel experiência, pesquisadores puderam revelar o poder destruidor do desejo. Foi colocado um tigre faminto, que havia sido privado de se alimentar por vários dias, numa jaula em formato de “u”. Uma farta peça de carne fresca foi disposta bem em frente ao painel frontal da jaula. Contudo, o suculento pernil de cordeiro teria sido arranjado de uma forma onde a esfomeada criatura não pudesse alcançar. Mas, ainda assim, a parte de carne se encontrava próxima o bastante para que a fera se esmagasse, insistindo em investir repetidas vezes contra a grade,  na tentativa de agarrar o objeto do seu desejo. 
No polo oposto de onde se encontrava a porção de carne existia uma extensa abertura. Nos fundos do confinamento, uma larga abertura dava à grade o formato da letra “u”. Tão sedenta pela refeição a fera não conseguia sequer olhar para traz e perceber que a jaula estava aberta às suas costas. Diferente disso o tigre mantinha-se se esticando, e debilmente insistindo em seu alvo. Sua condição de privação o deixou sem poder tolerar o mínimo necessário para enxergar a saída que está no caminho oposto do seu desejo.
Essa fictícia metáfora sugere a satisfação da necessidade de nutrição representada pela fome do tigre. Ele teria sido obrigado a ficar sem se alimentar por longo período e isso gerou nele uma cegueira para tudo que não fosse seu objeto de desejo. Pensemos então na situação da privação do olhar reconhecedor, na impossibilidade de satisfação da necessidade  de reconhecimento. Enquanto o corpo necessita de alimento a alma precisa de reconhecimento através do amor e da verdade. Quando somos reconhecidos pelo olhar sincero e amoroso do outro, construímos, nesses mesmos moldes a noção de verdadeiro eu, e a alma se nutre disso.
Viver em condição de privação do olhar reconhecedor  tem consequências análogas. Uma alma desnutrida e intolerante se revela incapaz de refletir possibilidades. Incide a intransigência impedindo o olhar para qualquer outra direção.  A arrogância talvez seja a característica mais marcante do empobrecido na alma que mostra especial rigidez nas ideias, sendo que a inflexibilidade impede qualquer chance de aprender com as experiências.






Prof. Renato Dias Martino
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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Reclamação Crônica

Não é difícil encontrar um reclamão, aquele sujeito que nunca está bem com nada, ou em situação alguma. Um sujeito que justifica sua constante reclamação dizendo que, se sua vida não é fácil, a dela pode ser pior ainda. Além de afastar os amigos e as pessoas do seu convívio, parece usar esse mesmo afastamento para nutrir suas justificativas. Entretanto, mesmo com tantas justificativas ele é muito pouco consciente do que realmente incomoda.
Essa condição que poderíamos aqui chamar de  ‘insatisfação crônica’ é na realidade geradora de inúmeros sintomas, mas todos seguindo uma direção não muito distinta entre eles. Essencialmente como se algo o degradasse o tempo todo. A impressão de que a realidade do outro é menos cruel que a sua, pode ser o resultado de uma experiência, na vida do reclamão, onde realmente isso ocorria. A predileção por um dos filhos, por exemplo, pode naturalmente gerar um insatisfeito crônico no filho preterido e essa característica pode persistir por toda sua vida emocional. Na realidade, o reclamão parece sofrer de uma dor ligada a algo que faltou a ele num período da vida onde ele não tinha capacidade de identificar e nem recursos para nomear essa falta. Dessa forma reclama eternamente por algo que não teve e nunca mais terá.
Então ele afasta os amigos, pois tende sempre a culpar o outro pelos infortúnios de sua vida. Ele segue reclamando justamente para tentar evitar sofrer. Isso por que aquilo pelo qual ele reclama já não existe mais, o que permanece é a incapacidade de compreender isso, daí vem a recorrente queixa. Como numa situação de melancolia, onde se chorar a morte daquilo que morreu, assim como Sigmund Freud (1856-1939) escreve em seu texto ‘Luto e Melancolia’:

“No Luto é o mundo que se torna pobre e vazio, na melancolia, é o próprio ego.”  (Freud, 1917)

Podemos dizer que o sujeito descrito aqui é um melancólico, que não encontra nada de bom no mundo, pois não consegue reconhecer-se como alguém bom. Isso talvez, por nunca ter sido reconhecido pelo outro.
O melancólico não permite que morra, ele não se permite sofrer o luto, contudo amiúde esbarra na realidade da morte e aí reclama. A morte aqui não se caracteriza só na morte de uma pessoa, mas a perda de qualquer coisa na vida. Falo aqui de um modelo de vínculo, do eu para o eu mesmo e do eu para o outro.
Tipos melancólicos como esse estão presentes em todas as esferas da humanidade inclusive no mundo interno de cada um de nós. O humorista cria personagens a partir do reclamão, os contos de fadas (o anão Zangado), os desenhos animados (Smurf zangado)...
Com efeito, um reclamão emerge sempre e logo que se forma um grupo. As maiores vítimas são aquelas que não puderam ter um ambiente seguro, que fosse possível as reclamações reais de suas necessidades afetivas em seu tempo. Falo da fase da criança em que ser reconhecido é uma necessidade básica do desenvolvimento emocional. Aquele da qual o choro não foi acolhido e compreendido passará a vida toda chorando.
Assim como na colocação de freudiana, quando é comprometida a autoestima é como se o melancólico reclamão dissesse: sem isto, eu não consigo viver. Parte do eu parece morrer junto com aquilo que se perdeu no mundo. E a reclamação recorrente é o sinal daquilo que falta no eu e reflete-se no mundo externo. Uma parte do eu da qual o próprio eu não é capaz de se responsabilizar, então passa a ser responsabilidade do outro, que a partir daí passa a ser o alvo da reclamação.
E não importa o que se faça ou o que aconteça de bom, a reclamação persiste, pois o que parece morrer não é apenas aquilo que se deseja, mas, o próprio desejo. Na realidade a reclamação parece ser gerada da própria incapacidade de criar algo agradável.
O reclamão não para pra pensar no outro, ele apenas chora aquilo que não pode ter, ou ser. O reclamão é um narcisista que reclama de tudo que não é espelho. O mito grego de
Narciso só amou a si mesmo; quando amou o outro, o fez na sua imagem refletida na margem do rio, onde morreu depois de muito adorar sua própria face. O vínculo que o reclamão faz com aquilo que se perdeu e que reclama - segundo o modelo melancólico - é muito mais com aspectos do “eu” projetados no outro, do que o outro real. Isso ocorre, pois muito provavelmente esse sujeito reclamão não pode viver seu narcisismo natural em seu tempo e quando bebê foi impossível desfrutar de um curto período, mas, extremamente necessário, onde sente que ele é o centro do universo.




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sábado, 15 de novembro de 2014

Do Desenvolvimento do Amar

Numa visão superficial da obra freudiana, a conceptualização do amor pode ser facilmente mal interpretada. Se não for pesquisado de forma cuidadosa o conceito pode tomar uma proporção um tanto quanto rasa. Isso, pois, é encontrada frequentemente coincidindo com o termo libido, se restringindo no desejo que se sente por alguém, ou algo. Uma tendência do funcionamento mental a se pronunciar em direção ao objeto de desejo, a pulsão de vida descrita por Freud. Eros, o deus do amor na mitologia grega, serve como ilustração. Entretanto, o autor que aqui escreve procura desenvolver um quadro que inclui o amor como sendo certa capacidade que guarda a característica do desenvolvimento.
Ainda que oriunda desse mesmo desejo (libido), entretanto, enquanto amor, não permanece meramente como desejo que se pronuncia em direção a um objeto ou a si mesmo (narcisismo), mas que evolui como inclinação em acolher esse objeto e contê-lo. O ‘amar’: aquela que talvez esteja (assim como a sinceridade) entre as mais sublimes capacidades que um ser humano pode desenvolver, pode nascer do desejo, mas desse estágio deve evoluir. Isso considerando que estamos diante da nomeação de certa experiência que está disposta ao desenvolvimento dentro de uma graduação evolutiva, onde, mediante a um ambiente propicio, tende a expandir-se pra além de sua forma original.
Partindo de suas formas mais toscas e rudes, até tomar configuração mais alargada, mais elevada e por isso desenvolvendo características nobres. Cada evolução dessa experiência confere então uma nova nomeação que adequará a relação entre conceito e experiência.


Na ausência desse desejo do qual Freud chamou de Eros e que aqui elegemos como protótipo de amor e é responsável pela integração das partes, o que se apresenta é a quietude ilustrada na teoria freudiana, por Thânatos, que conduz a dissociação das partes.
Um processo de involução, uma ação defensiva de retirada do amor do objeto e redirecionando-o para si mesmo. Duas tendências: amor do outro e amor do eu, vivendo e convivendo no funcionamento da mente humana, em suas experiências afetivas. O desejo, ora bruto e egoísta, seria aqui um protótipo do que um dia poderia, adequadamente ser chamado de amor. Isso se for irrigado de afeto, dentro de um ambiente acolhedor e podendo se desfazer de sua forma antiga, na proposta de um novo modelo mais evoluído, ungido da capacidade de tolerar frustrações.



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sábado, 1 de novembro de 2014

Como Fazer Uma Leitura Proveitosa

A leitura de textos introspectivos, como são na sua maioria aqueles das teorias do pensar, requer um cuidado especial. A leitura de escritos dessa ordem, não é como a leitura de um romance, de um jornal, ou mesmo de um manual de instruções. Algumas atitudes são fundamentais para que a leitura dessa ordem de textos seja realmente proveitosa. Por tanto, gostaria de propor, algumas delas nas linhas que aqui seguem. São aspectos que, envolvem uma evolução do desenvolvimento da prática da leitura.
Em primeiro lugar gostaria de propor o aspecto circunstancial como condição fundamental para o que a leitura seja bem sucedida. A experiência deve ter inicio no momento da disposição interna para a leitura, enquanto isso não ocorrer nada poderá ser realizado. Dessa forma, prudente seria, ter sempre a consciência de que muitas vezes é mais interessante aguardar outra ocasião e não insistir em algo de forma forçosa. Se estivermos forçando a leitura, não estaremos aproveitando nada, e muito provavelmente nos pegaremos paginas a frente sem sequer se recordar o que foi lido até ali.
No entanto, a capacidade de tolerar não compreender tudo que esteja sendo lido é fundamental para que a leitura possa fluir. Muitas vezes não compreendemos certa parte do texto que será possível ser compreendida só no final da leitura. Em alguns casos iremos compreender só tempos depois de termos lido, ou mesmo pode ser que nunca seja entendido, mas que nem por isso não foi possível aprender, crescer e expandir o pensamento com o conteúdo do texto.
O segundo é o aspecto importante é o ambiental, que diz respeito a onde será realizada a leitura. Um local arejado, com boa iluminação e o mais livre possível de ruídos estressantes é fundamental para uma boa leitura. Esse aspecto poderá ser descartado quando for possível respeitar o primeiro e assim que os próximos forem cumpridos de forma efetiva. Estando num momento disponível à leitura e buscando desempenhar os seguintes elementos, pouco importará onde esteja lendo. Assim, se encontrará tão integrado em si mesmo e em sua leitura que a localização no espaço físico será de muito rara influência, pois a paz e o silêncio já se encontram interiorizados.
Em seguida temos o terceiro aspecto: o constitucional, que diz respeito ao intuito da leitura. Dificilmente nos engajaremos numa leitura introspectiva, podendo desfrutar de sua essência, sem que haja um bom motivo para isso. Se esse motivo não for de certa forma claro para o leitor, mesmo num ambiente adequado, não haverá disponibilidade de concentração para uma leitura proveitosa. Esse motivo não precisa necessariamente ser claro para o outro, bastando que o leitor sinta como presente sua motivação interna.
O quarto é o aspecto conceitual, aquele que diz respeito à nomeação de experiências. Se o conteúdo do texto estiver deveras distante da possibilidade de vivência subjetiva do leitor, a leitura logo se mostrará entediante e desinteressante. Isso acontece por conta do choque de realidade, onde o conteúdo se configura num absurdo inimaginável. Ora, se aqui falamos de leitura introspectiva, então aquele que não é capaz de olhar para as experiências internas, não poderá se aproveitar de conteúdos dessa espécie.
O aspecto reflexivo é o quinto aspecto importante para uma leitura introspectiva, e diz respeito à possibilidade de transcendência da ideia contida no texto. Um leitor que não for capaz de ir para além do que está escrito, numa analogia com outros temas e outras leituras, não será capaz de se beneficiar de maneira profícua da leitura que agora se dedica.  Fica assim, de forma limitada, preso ao conteúdo de maneira unívoca. Isso empobrece o conteúdo independente do que está escrito, pois não contará com referencias para levantar semelhanças e diferenças, o que enriqueceria a substância do texto.
O aspecto contemplativo é o sexto aspecto e se encontra numa esfera muito nobre, que traz à leitura a possibilidade de certo aproveitamento muito profundo. A contemplação do conteúdo do texto é uma capacidade rara, e que não pode ser aplicada a qualquer texto. Alguns textos trazem uma conotação poético-artistica e permitem que o leitor desloque a leitura da busca cultural numa dimensão contemplativa, tanto do conteúdo quanto da forma de escrita. Porém, a ânsia por compreensão e a busca voraz pelo saber pode dificultar esse aspecto. Quando o que se deseja é entender, muitas vezes, a contemplação se torna impedida.





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