sábado, 23 de abril de 2016

Concordar ou Discordar: Do Princípio de Verdade

Não é necessário um discernimento muito apurado sobre o convívio nas relações para percebermos com clareza o fato de que o ser humano tem certa habilidade especial para ignorar a verdade, muitas vezes passando a vida toda sem se responsabilizar por sua própria realidade. Menos pelo fato de ser essa verdade difícil de se identificar, mais pela incapacidade de conviver, se responsabilizar e tanto mais pela conveniência em se manter afastado dela. Além disso, alguns fatores implicam numa maior frequência de elementos que propiciam e mantém essa tendência a se distanciar da verdade e se manter afastado de sua orientação. Mesmo com todo ônus produzido pelo afastamento que se possa manter da realidade dos fatos. Penso ser conveniente, pois então, discorrer algumas linhas no intuito de refletir sobre esses tais fatores.
Sigmund Freud (1856 -1939)
É tema frequente na literatura psicanalítica a questão da incapacidade de lidar com a verdade e na realidade a grande descoberta de Sigmund Freud (1856 -1939) foi a de que seus pacientes adoeciam justamente por conta de não serem capazes de reconhecer e lidar com fatos relacionados a verdade sobre sua história de vida. O desenvolvimento de conceitos fundamentais para a psicanálise, como é o caso da ideia de repressão, tem seu embasamento nessa ordem de incapacidades. Incapacidades que provocam a divisão do eu que assim dividido passa a desenvolver sintomas para se manter funcionando. Passamos a tratar então, da discórdia entre partes da personalidade.

" Duas forças antagônicas atuavam no doente; de um lado, o esforço refletido para trazer à consciência o que jazia deslembrado no inconsciente; de outro lado a resistência, já nossa conhecida, impedindo a passagem para o consciente do elemento reprimido ou dos derivados deste." (Freud, em CINCO LIÇÕES DE PSICANÁLISE, 1910 [1909]).

Deste modo, a disposição para a escuta atenta e sem julgamento, proposta por Freud revela-se justamente o nobre instrumento na prática da psicanálise, no que chamou de associação livre de ideias. Uma experiência terapêutica nunca antes sugerida e que rendeu à Freud uma série de olhares duvidosos quanto a eficácia. Freud propõe ao paciente, nessa nova técnica, que  não censurasse nada e pronunciasse tudo que viesse a sua mente. A partir dessa proposta, aquilo que seria evitado até então, latente sob o domínio das resistências começa a surgir por entre o conteúdo manifesto na fala do analisando. No entanto, ainda assim o paciente se vê obstruído pelas  resistências que dissimuladas em ponderações críticas quanto à importância daquilo que se deve dizer, dificulta as associações livres. Quanto a isso Freud orienta que:

Sigmund Freud
(1856 -1939)
" Para evitá-la põe-se previamente o doente a par do que pode ocorrer, pedindo-lhe renuncie a qualquer crítica; sem nenhuma seleção deverá expor tudo que lhe vier ao pensamento, mesmo que lhe pareça errôneo, despropositado ou absurdo e, especialmente, se lhe for desagradável a vinda dessas ideias à mente. Pela observância dessa regra garantimo-nos o material que nos conduz ao roteiro do complexo reprimido." (Freud, 1910 [1909]).

Bem, a escuta psicanalítica desprovida de julgamento e críticas torna-se então o expediente de desobstrução das verdades recalcadas e conservadas no escuro da alma, mas que ainda assim mantinham-se ativas e ruidosas, gerando sintomas perturbadores e desconcertantes.
Wilfred Ruprecht Bion
(1897-1979)
Depois de Freud, Wilfred Ruprecht Bion (1897-1979) traz a baila esse mesmo tema quando nos propõe que a arrogância é filha da incapacidade de lidar com a verdade sobre o eu. Uma tentativa de evitar certa mudança catastrófica resultado do reconhecimento da verdade sobre si mesmo. Assim como coloca Freud em UMA DIFICULDADE NO CAMINHO DA PSICANÁLISE (1917), todo esforço das resistencias são erigidos em nome de não admitir o golpe narcísico de que "o ego não é o senhor da sua própria casa". No artigo Sobre Arrogância de 1957 Bion cogita sobre as experiências do pensador que se estrutura para dar conta dos pensamentos que até então não foram pensados. Essa experiência de procura por um sentido sobre a dor psíquica, tanto do paciente quanto do analista, pode então ser conduzida  através do respeito à realidade psíquica e sua verdade, quando existe a capacidade de tolerar frustrações, ou ainda, por outro lado, essa busca pode ser conduzida de modo arrogante quando na incapacidade mínima de tolerar os desconfortos provocados pela tomada de consciência da verdade sobre si mesmo.

" ... o analista que trata de um paciente aparentemente neurótico deve encarar uma resposta terapêutica negativa, concomitante ao aparecimento de alusões dispersas, sem correlação mútuas, à curiosidade, arrogância e estupidez, como um indício de que está diante de uma catástrofe psicológica que terá de enfrentar." (Bion, em Sobre Arrogância, 1957)

Wilfred Ruprecht Bion
(1897-1979)
Bion insiste nas condições de desprendimento das censuras na escuta do analista para que possa perceber de forma serena, desapegando-se dos rumores decorrentes dos fatos armazenados na memória, assim como daqueles gerados pelo desejo na expectativa de confirmação de um suposto conhecimento anterior sobre o paciente. Esse exercício abre caminho para o acolhimento daquilo que vem do analisando.
No entanto, o ser humano é normalmente educado sob a regência de certos princípios de conveniência social que naturalmente provocam discórdia interna das partes do eu, por exigirem cumprimento de tarefas que promovem uma deformação no desenvolvimento da personalidade, que já é naturalmente frágil. Tarefas introduzida sem levar em conta características particulares de cada um. Pressuposições educacionais são introduzidas desde a mais tenra infância, conservado alguns pressupostos sociais dos quais são impedidos de serem repensados por tomarem um formato saturado numa definição de certo/errado e assim, seguem por gerações estimulando e promovendo o desenvolvimento de sintomas, tanto no nível das relações do sujeito em suas vivencias particulares quanto no âmbito social, por conta de uma conveniência do mercado de trabalho e na promoção do consumo desmedido.
Somos submetidos à regras e tarefas que serão vez em quando elogiadas, quando preenchidas e impetuosamente criticadas na falha do cumprimento. Regras que são conduzidas segundo certa razão e que configuram-se na realidade material sem considerar a particularidade de cada um. Bem, esse tipo de cobrança corrobora para o enrijecimento de uma instancia crítica que já existe naturalmente dentro de cada um de nós, da qual Freud denominou superego ou ideal de ego. Freud atribui ao superego à influência crítica dos pais que é transmitida através da voz, e se estendendo para professores, treinadores, líderes religiosos, chegando até a opinião pública. "Um poder dessa espécie, que vigia, que descobre e que critica todas as nossas intenções, existe realmente. Na realidade, existe em cada um de nós em nossa vida normal." (Freud, 1914). Entre o terceiro e o quinto ano de vida se dá a fase do desenvolvimento da libido que Freud chamou de fálica.

"Neste momento do desenvolvimento, Freud chama a atenção para formação do ideal de ego, ou superego (identificações originalmente derivadas das figuras de autoridade parentais), que surgiria como substituto dos desejos edípicos." (Martino, em Primeiros Passos Rumo à Psicanálise, 2012).

A polissemia dos elementos psíquicos confere ao superego uma complexidade especial que parte desde a prudência presente no instinto de autopreservação que barra e censura toda criatura frente à ameaça até o mais alto grau de educação que refinadamente doutrina o sujeito segundo regras racionais pre-estipuladas de maneira categórica. Assim como no 'dever' proposto por Immanuel Kant (1724-1804), próprio do humano e sedimentado na razão. A proposta de Kant é a de elevar o agir à esfera universal numa lei moral válida para todo ser racional. A manifestação do "imperativo categórico", que vai pra além do instinto de autopreservação, numa ação de boa vontade, mas que também não se resolve num agir para conseguir um bem individual (“imperativos hipotéticos”). Segundo Kant, o imperativo categórico ou moral é universal e assim, válido para todo ser que tenha a capacidade racional desenvolvida: 

Immanuel Kant (1724-1804)
“Tal imperativo é categórico. Não se relaciona com a matéria da ação e com o que dela pode resultar, mas com a forma e com o princípio de que ela mesma deriva; e o essencialmente bom da ação reside na disposição que se nutre por ela, seja qual for o resultado. ” (Kant, em Fundamentação da metafísica dos costumes, 2002-1785, segunda seção).

Kant propôs que só a lei traz consigo apreciação de necessidade incondicional a que se deve obediência mesmo que esteja contraria a inclinação. 
No terceiro capítulo de seu texto O EGO E O ID de 1923 é que Freud deixa claro sua visão de ideal de ego e sua relação com o ego num movimento antagônico que ao mesmo tempo que é originário das primitivas escolhas objetais do id, também pronuncia-se numa formação reativa agressiva contra essas mesmas escolhas:

"A sua relação com o ego não se exaure com o preceito: ‘Você deveria ser assim (como o seu pai)’. Ela também compreende a proibição: ‘Você não pode ser assim (como o seu pai), isto é, você não pode fazer tudo o que ele faz; certas coisas são prerrogativas dele.’ Esse aspecto duplo do ideal do ego deriva do fato de que o ideal do ego tem a missão de reprimir o complexo de Édipo; em verdade, é a esse evento revolucionário que ele deve a sua existência." (Freud, 1923)

Dessa maneira, através da introjeção no ego dos primeiros objetos (a mãe e o pai) investidos da libido do id o corre, segundo Freud um processo de dessexualização onde os objetivos sexuais são desviados e dessa forma torna-se possível superar-se o complexo de Édipo e a condenação tanto do crime do incesto quanto do assassinato. No entanto esse processo tem um herdeiro: o superego, que retém características essencialmente severas com a tendência a supervisionar, condenar e punir. 
"O superego – a consciência em ação no ego – pode então tornar-se dura, cruel e inexorável contra o ego que está a seu cargo. O Imperativo Categórico de Kant é, assim, o herdeiro direto do complexo de Édipo." (Freud, 1924)

Enquanto para Freud o superego é estruturado durante a fase fálica, para Melanie Klein (1882 — 1960) apresenta um modelo arcaico dessa instância crítica, iniciando sua formação numa fase pré-edipiana que ainda partiriam de uma predisposição inata antes do encontro com os pais na realidade externa. Para Klein, o superego retira sua força totalmente do sadismo do id, oriundo das energias biológicas. É fácil perceber o poder e a precocidade dessa instancia castradora em crianças de tenra infância.
Melanie Klein
(1882 — 1960)
Reconhecemos esse fato quando percebemos o quanto é difícil receber atenção de bebês em idade muito precoce, quando propomos agrados e gracejos, no entanto quando intervimos com olhares hostis e repreensões a reação é quase que imediata.
Um ideal de conduta é então erguido e mantido pela culpa e pelo medo de errar. "Para o ego, a formação de um ideal seria o fator condicionante da repressão." (Freud, 1914). Todas as possibilidades do sujeito em sua real capacidade passa a ser ameaçada e ameaçado está, assim seu amor próprio. Bem, se o ego, que é a representação do que se está sendo é ameaçado, o que entra em ação é o que se deveria ser, ou seja, o ideal de eu.
Diferentemente do ideal de ego, o conceito de ego ideal diz respeito à uma experiência pré-edípica, de natureza narcisista e instituída dento da dimensão do imaginário. Esse termo é cunhado por Freud em seu celebre texto Sobre o Narcisismo: uma introdução de 1914. Tendo como modelo a idealização da onipotência das figuras parentais o ego ideal é o resultado de toda libido investida no ego, produzindo a ilusória sensação de plenitude, onde não existe lugar para a falta nem para o desejo. Uma experiência fundamental na estruturação primitiva do ego. "Esse ego ideal é agora o alvo do amor de si mesmo (self-love) desfrutado na infância pelo ego real." (Freud, 1914).
Muito perigosa a experiência onde o sujeito já é submetido a exigências, mesmo antes de se viver a ilusão do ego ideal, que seria o alicerce da personalidade. Por conta das cobranças da expectativa social é então, colocada em jogo a realidade naquilo que está dentro do limite no que é possível sem que seja exigido para além da capacidade do eu. Dessa maneira, é estabelecida uma comunicação baseada ora em elogios e enaltecimentos, ora fundado em críticas condenatórias. Isso tendo como claro que o enaltecimento acaba por gerar um ambiente de expectativa. Bem, quando não suprida a expectativa, abre-se ocasião para novas críticas. Assim, ansiando pela aprovação do outro vamos nos distanciando de nós mesmos.
Quanto a ação (atuação) da crítica, esta configura-se numa forma de comunicação primitiva da qual Melanie Klein denominou identificação projetiva. Essa experiência se dá quando o sujeito não é capaz de tolerar certos aspectos dentro de si. Estes elementos então, são cindidos da sua realidade, negados e atribuídos a outro, do qual o sujeito passa a se identificar.
Melanie Klein
(1882 — 1960)
Assim "O objeto torna-se em alguma medida um representante do ego e esses processos são, a meu ver, a base para a identificação por projeção ou “identificação projetiva”."
(Klein, 1952). Um mecanismo que transcende à prática clínica no âmbito dos conteúdos trazidos pelo paciente e tratados pelo psicoterapeuta. A identificação projetiva proposta por Klein configura-se numa forma primitiva e amiúde patológica de relacionamento que está espalhada nos vínculos sociais. Esse mecanismo primitivo muitas vezes se instala como forma de comunicação que parte de educadores e líderes que apesar de ocuparem funções superiores ainda assim, por conta da imaturidade emocional projetam em alunos e subordinados suas frustrações, numa evacuação daquilo que não suportam conter dentro de si.
“O ser humano aprendeu que a crítica ajuda a crescer e é muito comum essa ideia. Entretanto, esqueceu que esse tipo de ação é um esconderijo muito seguro das frustrações e incapacidades daquele que critica.”  (Martino, em ‘O amor e a Expansão do Pensar’, 2013).

De tal modo, o sujeito não acredita em si mesmo e por supostamente se encontrar em uma posição superior então critica o outro. E isso fica bem claro dentro do que nos ensina a psicanálise, ainda dentro da proposta kleiniana de identificação projetiva, quanto ao fato de que enquanto fala do outro, o sujeito conta muito dele mesmo. O perigo se pronuncia na medida em que sem um bom vínculo de confiança as ilusões podem ser percebidas como fatos.
Esse quadro é configurado tendo como premissa que exista um sujeito que a priori, está certo, ou segundo o "imperativo categórico" de Kant, alguém que tem a razão e outro que está errado, fora da razão preestabelecida.
Athur Schopenhauer
(1788 - 1860)
Quanto ao "imperativo categórico", anos depois Athur Schopenhauer (1788 - 1860), que tivera Kant como grande fonte de inspiração no início de seus estudos, questiona então essa suposição propondo que “o conceito de dever , a forma imperativa da ética, só são válidos na moral teológica” e que essa afirmação perde todo o sentido e significação fora dessa perspectiva.
(Schopenhauer, 1995/1841: LVI)
No entanto, concordar ou discordar não está dentro da perspectiva de quem tem a razão ou de quem está equivocado. Antes de tudo, falamos sobre a experiência da concórdia, onde con-cor-dar diz respeito à estar junto de coração. Quando não pode existir tal experiência afetiva, arma-se então um eterno debate improdutivo, onde a arrogância impede qualquer que seja a concordância entre aqueles que acham que têm a razão.

"A verdade nesse nível representa-se na concórdia (com = junto, córdia = coração), num movimento onde duas pessoas possam estar realmente de acordo. Pois, o que realmente nos separa não está no conhecimento, ou mesmo nas articulações racionais, mas encontra-se imperioso na nossa incapacidade de amar." (Martino em O LIVRO DO DESAPEGO, 2015, pg. 27)

Retomando, pois então a proposta psicoterapêutica de Freud e depois dele, Bion, a psicoterapia deve promover a integração (reintegração) da personalidade do paciente, por meio de uma conciliação interna. Esse processo ocorre através da tentativa de apaziguar os conflitos e discordâncias ocorrentes entre as partes do eu, que na presença do psicoterapeuta encontram uma forma de fazerem as pazes. A proposta da busca por um ambiente que proporcione a possibilidade de concórdia, num reconhecimento mútuo da verdade na perspectiva da contínua procura, ainda que saibamos que não seja um bem que se possa adquirir e que nunca vamos localizá-la inteiramente ou definitivamente.
Temos aqui como paciente um termo gerado do Grego, PATHE, no sentido de “sentimento”. Esse termo é de onde se origina a palavra “paixão” ou ainda do Latim PASSIO, “sofrimento". Sendo assim o paciente é o agente da paixão, do sentimento ou ainda do sofrimento. A partir desse conceito chegamos à compaixão que se realiza entre psicoterapeuta e paciente, onde o primeiro se compadece com o sentimento/sofrimento do segundo. "Nenhuma descoberta psicanalítica é possível sem que haja um reconhecimento de sua existência, evolução e um "estar-uno-a-ela". " (Bion, 1970/2007, p.g.44)  Bion nos orienta da necessidade de estarmos integrados à experiência para que haja a real possibilidade da transformação. Mesmo antes de Bion, Schopenhauer já proferia sobre a necessidade de certa inteiração com a realidade das coisas e dos seres, sendo não um esforço sobre-humano mas uma atitude natural como extensão do próprio ser.

Athur Schopenhauer
(1788 - 1860)
"O processo aqui analisado não é sonhado ou apanhado no ar, mas algo bem real e de nenhum modo raro: é o fenômeno diário da compaixão, quer dizer, a participação totalmente imediata, independente de qualquer outra consideração, no sofrimento de um outro e, portanto, no impedimento ou supressão deste sofrimento, como sendo aquilo em que consiste todo contentamento e todo bem-estar e felicidade. Esta compaixão sozinha é a base efetiva de toda a justiça livre e de toda a caridade genuína." (Schopenhauer, 1995/1841).

Mas, a compaixão aqui cogitada não incide simplesmente em se confundir, numa fusão com o outro que sofre. Essa experiência de fantasia de sofrer a dor no lugar do outro nada tem de real e não faz mais que piorar o quadro. Dessa maneira o que realmente ocorre é novamente uma identificação projetiva das dores do sujeito que encontram no outro um receptáculo aberto à projeções. Ao contrario disso, para o exercício da real compaixão deve se desenvolver a consciência de que existe um outro que sofrem, para que se possa ser possível estar junto dele em seu sofrimento.
Na realidade essa atitude de benevolência quando real é então voltada não só para o sofrimento de seus semelhantes, mas para toda e qualquer criatura viva.
Esta experiência do agir bem funda-se não numa imposição a partir da razão como propõe Kant sua teoria ética do dever, e bem por isso Schopenhauer a rejeita. Somente através da real capacidade de se compadecer pelo sofrimento desenvolvida naturalmente, me parece ser possível ao analista real, de fato se aproximar do paciente real e propor um real cuidado com a verdade deste que sofre. Isso sem que seja estabelecido através de regras impostas ou técnicas racionais de educação. Assim abre-se fluentemente a possibilidade de expansão. Ora, bons analistas que oferecem a boa análise é o que faz outros bons analistas. Aprendemos a cuidar de nós mesmos através do cuidado que tiveram conosco, e a partir disso desenvolvemos a capacidade de cuidar do outro.
"Então, para saber quem somos nós, necessitamos transcorrer essa verdade através do olhar do outro. Uma verdade sobre o eu, que só o eu conhece, não pode ser chamada de verdade." (Martino, em 'O Amor e a Expansão do Pensar', 2013).

Bion, W. R. Atenção e Interpretação . Rio de Janeiro: Imago. Dias, C. Amaral. 1991 [1970]
_________ [1958b] “Sobre arrogância.” In: BION, W. R. Estudos psicanalíticos revisados. Rio de Janeiro: Imago, 1994.
Freud. S. Freud, em CINCO LIÇÕES DE PSICANÁLISE (1910 [1909]).
___________SOBRE O NARCISISMO: UMA INTRODUÇÃO (1914)
___________O EGO E O ID (1923)
___________ UMA DIFICULDADE NO CAMINHO DA PSICANÁLISE (1917)
___________O PROBLEMA ECONÔMICO DO MASOQUISMO (1924)
Kant, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. São Paulo: Martin Claret, 2002/1785.
Klein, M. (1952a/1991). Algumas conclusões teóricas relativas à vida emocional do bebê. Em Inveja e Gratidão e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago.
Martino, R. D. Primeiros passos rumo à psicanálise  - 1. ed. -- São José do Rio Preto, SP : Vitrine Literária Editora, 2012.
_______________ O amor e a expansão do pensar : das perspectivas dos vínculos no desenvolvimento da capacidade reflexiva - 1. ed. -- São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2013.
_______________O Livro do Desapego reflexiva - 1. ed. -- São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2015.
Schpenhauer, Arthur. o fundamento da moral. Tradução de Maria Lúcia Mello Oliveira Cacciola. São Paulo: Martins Fontes, 1995 /1841.
_______________ Sobre a Ética. São Paulo: Hedra, 2012/1851.









Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866
renatodiasmartino@hotmail.com 
http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com.br

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Dicas de Filmes: A AMEAÇA, 2015

O filme trata de um tema sério e muito relevante na perspectiva psicanalítica, quando levanta até onde pode chegar uma pessoa severamente comprometida por sua parte psicótica da mente. 
A médica Dra. Katherine (Samantha Morton) junto com seu marido Richard (Michael Shannon), mantém Andy (Charlie Tahan), muito doente, sob rígida supervisão sem poder sair de casa nem receber ninguém. Por conta da visita inesperada de Maryann (Natasha Calis) que se muda para a vizinhança se tornando amiga de Andy, as situação começa a mudar. Quando a mãe de Andy, a Dra. Katherine descobre a amizade dos dois, tenta então expulsar a garota. No entanto, a menina não se convence com a hostilidade da médica e então, em uma de suas visitas secretas, tentando se esconder da mãe de Andy, a menina descobre no porão da casa o segredo terrível da família.

Trailer

quinta-feira, 17 de março de 2016

Encontro Filosófico - Da Arte à Capacidade Contemplativa na Prática da Psicanálise

Encontro Filosófico
Da Arte à Capacidade Contemplativa na Prática da Psicanálise
Com Prof. Renato Dias Martino
Uma oportunidade de reflexão sobre o conceito de contemplação na busca pela expansão daquilo que está compreendido na capacidade afetivo/emocional. Uma experiência da ampliação da capacidade de estar de acordo com a realidade do eu e com a realidade última, numa integração com a natureza das coisas. A proposta da reflexão procura levar o conceito de contemplação até a perspectiva do desempenho na prática psicanalítica, onde se revela como elemento de expansão das possibilidades. 
Dia 02 de abril de 2016, às 16:00
Local: Loja Nirvana
Rua Saldanha Marinho nº 2111, esquina com a rua Raul de Carvalho, em frente à UNIRP.
Bairro Boa Vista
Inscrições no local, apenas 20 vagas
Investimento: 30,00
Fone para contato (17) 3231-3413
WhatsApp 98160-8559
Com certificado

domingo, 13 de março de 2016

Mudanças, Pressa e Crítica - Prof. Renato Dias Martino



Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866
renatodiasmartino@hotmail.com  

http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com.br

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Da Arte à Capacidade Contemplativa na Prática da Psicanálise

Esse ensaio é uma proposta de reflexão sobre o conceito de contemplação na busca pela expansão daquilo que está compreendido na capacidade afetivo/emocional. O conceito de contemplação, que é foco dessa reflexão, indica uma manifestação da ampliação da capacidade de estar de acordo com a realidade do eu, e sendo assim é sinal da possibilidade do acordo com a realidade última, numa integração com a natureza das coisas.
Também na perspectiva do desempenho da prática psicanalítica a contemplação aparece como elemento de expansão. Quando nos propomos a refletir sobre a contemplação estamos diante de uma experiência perfeitamente adequada à aplicabilidade psicoterapêutica da psicanálise. Assim como numa obra de arte, que  mesmo retratando uma situação triste, ainda assim existe certa beleza a ser contemplada. Do mesmo modo que uma música triste pode despertar emoções dignas de contemplação. Também uma sessão de psicanálise, por mais que seja triste e dolorosa deve ser bela e adequada à contemplação.
Entretanto, a experiência da contemplação enfrenta normalmente, no mundo contemporâneo, uma serie de ameaças, que vão desde a escassez de tempo pela demanda financeira, até a ridicularização feita por aqueles que zombando do contemplador, se acham superiores estando sempre tão ocupados com 'sabe-se lá o que'. Assim, por conta dos afazeres, na pendência da materialidade, onde o sujeito se vê obrigado a correr como um louco a angariar dinheiro para dar conta de inúmeras cotas que na realidade muito pouco é capaz de questionar se realmente necessita ou no mínimo, indagar se isso ainda faz sentido na sua vida, o sujeito muitas vezes nem pode reconhecer a importância ou mesmo o que significa a capacidade de contemplação.
Na dimensão da psicanálise a proposta da capacitação contemplativa configura-se então num campo mais delicado ainda. A busca pela cientifização, que poderia sugerir um ar de credibilidade pode fazer com que o conceito de contemplação pareça não confiável ou mesmo uma perda de tempo na prática psicanalítica. A pressa no diagnostico, assim como a urgência na suposta solução breve dos problemas de ordem emocional fazem gerar teorias e metodologias psicológicas que se distanciam muito da proposta contemplativa. De qualquer forma, a busca por cultivar experiências como as de meditação e contemplação acaba por se tronar uma tarefa quase impossível para aquele que vive num mundo como o nosso, onde tudo deve acontecer muito rápido, assim como o sinal que movimenta a internet. Ora, com pressa não se contempla nada. Vivemos num tempo onde a tolerância às frustrações parece não ser algo muito desenvolvido e a paciência parece rara. Assim como coloca o psicanalista Walter Trinca "Todo o planeta parece estar mergulhado na poeira de um vendaval que obscurece os valores sagrados do espírito, semeando incompreensão, confusão e destruição." (Trinca, 1997). Assim, esse ensaio tem o intuito de atentar para a necessidade de buscarmos a paz interior no desenvolvimento de meios mais serenos de se viver, que se desdobrem às práticas cotidianas desde às experiências afetivas até a prática profissional, seja ela qual for.
A contemplação está presente em inúmeras áreas do pensamento humano, desde as formas mais primitivas até os modelos mais nobres e evoluídos. Apesar disso, para que esse conceito seja genuíno é imprescindível que possa contar com a inocência no encontro com o que há de mais brando na naturalidade do ser.  Quando um bebê em sua total ingenuidade, olha fixo nos olhos da mãe dedicada e possuída por seu instinto materno a amamentá-lo, realiza-se então de forma recíproca, a experiência da contemplação. Na plena candura de completa simplicidade, ele se vê nos olhos dela como se numa extensão de si mesmo e ela o contempla como a dádiva que concebeu, admirando no rosto dele a realização de sua geração. Num momento de conexão com o todo no mundo é que a contemplação se  realiza, sendo assim uma propriedade de Eros. Numa experiência de ligação de profundo amor e dependência, assim como quando estamos integrado à natureza das coisas, plenos em nossa existência. Quando livres de interferências defensivas e desobstruídos de padrões pré-estipulados, podemos contemplar os atributos da mãe natureza assim como o bebê puro o faz junto da mãe dedicada.
Mestre Patanjali
Nos dicionários encontramos definições como as de 'aplicação demorada e absorta da vista e do espírito', 'meditação profunda' e 'consideração, deferência'. (Dicionário Aurélio Básico da Língua Portuguesa). A constituição da palavra forma-se por Com, referente à junto, mais Templum que diz respeito à área sagrada. Dessa maneira podemos propor que ao contemplarmos estamos unidos num ambiente sagrado, independente da localização física que nos encontremos. A religiosidade tem um representante muito presente na prática contemplativa. Na filosofia védica a contemplação (Dhyana) aparece no ensinamento de Patanjali em seus Aforismos do Yoga, o texto clássico sobre a teoria e prática do Yoga tradicional baseado no Bhagavad Gita, livro sagrado da Índia, onde, num magnífico diálogo mito-poético,  Sri Ksna, a personalidade suprema de Deus, orienta seu devoto Arjuna. O conceito de contemplação está localizado como o sétimo tipo de treinamento (anga) dentre oito pressupostos do Mestre Patanjali, que sintetizou nos Sutras a essência da tradição do Yoga.
Mestre Padmasambhava
Também no budismo encontramos a busca da contemplação no aprendizado do Dzogchen (rdzogs-chen = grande perfeição) que consiste num sistema avançado de prática Mahayana que conduz à iluminação. Faz parte principalmente dos conhecimentos Nyingma, primeira escola do budismo a se desenvolver no Tibete, por volta do século VII/VIII DC, através do Mestre Padmasambhava, conhecido como Guru Rinpoche, o segundo Buda. A meditação (pensamento) a concentração (centro) e contemplação são aspectos da prática do zen budismo que colocados em um triângulo, a contemplação estará no ápice do triângulo com a meditação e a concentração formando a base.
 Santa Teresa de Ávila ( 1515 — 1582)
No cristianismo a contemplação aparece como certo pensamento purificado, direcionado à realização da presença de Deus. Elemento fundamental do misticismo em autores como  Santa Teresa de Ávila ( 1515 — 1582), Mestre Eckhart (1260 – 1328) e São João da Cruz (1542-1591), um dos maiores expoentes da poesia mística, que propõem passar da prática da oração discursiva, onde se ora através da verbalização, para a forma contemplativa da oração, que é solitária e silenciosa.
Sendo a atitude contemplativa equivalente ao amor, não é possível alcançar essa experiência sem que exista uma dedicação à purificação do afeto e entrega na relação que seja digna dessa ordem de experiências. A capacidade afetiva começa ser contaminada desde a mais tenra infância, quando começamos a ter de abandonar o que realmente somos para passar a ser aquilo que esperam que nos tornemos.
Mestre Eckhart (1260 – 1328)
Contaminação essa que contribui para uma visão dualista de mundo, obstruindo a possibilidade de desenvolvimento da contemplação, que necessita de integração.
Apesar disso, a intenção dessa abordagem do tema da contemplação não é a de um discurso do idealizado, numa quase inalcançável prática contemplativa, restrita aos monges e mestres privados da vida do cotidiano das cidades e confinado em seus mosteiros, mas a proposta aqui está na possibilidade diária de momentos de despojamento das materialidades e entrega num olhar poético para as coisas simples da vida. Ainda, a contemplação aqui cogitada não diz respeito ao empenho intelectual, mas a uma atitude lúdica de reencontro consigo mesmo, onde a compreensão racional não consegue alcançar.
Sigmund Freud (1856 - 1939)
Assim como em seu belo texto Escritores Criativos e Devaneio , Sigmund Freud (1856 - 1939) afirma que: "Afinal, os próprios escritores criativos gostam de diminuir a distância entre a sua classe e o homem comum, assegurando-nos com muita frequência de que todos, no íntimo, somos poetas, e de que só com o último homem morrerá o último poeta." (Freud, 1908)
Na psicanálise amiúde encontramos o conceito de contemplação como sendo uma capacidade que incide na extensão da relação consigo mesmo, no resultado da expansão da maturidade emocional. A contemplação da qual proponho reflexão aqui está na ordem do reconhecimento de si mesmo através do reconhecimento do belo no mundo.
Melanie Klein (1882 —1960)
No seu artigo Sobre a Identificação (1955/1969), Melanie Klein (1882 —1960), se utiliza da estória " If I Were You " (em português: Se eu fosse você) de autoria do romancista francês Julian Green  (1900 —1998), que foi um escritor religiosos de orientação católica, para descrever uma forma muito especial de contemplação.
Julian Green  (1900 —1998)
"Sempre que ele deava, de olhos fixos, a noite envolvente, tinha a sensação de ser suavemente erguido acima do mundo... Era quase como se, pelo simples esforço de perscrutar o espaço, se abrisse nele uma espécie de abismo, correspondendo às profundezas atordoadoras em que sua imaginação mergulhava." Isso significa, penso eu, que Fabian contempla simultaneamente a distância e o seu próprio íntimo; ao introjetar o céu e as estrelas, projeta igualmente no céu e nas estrelas os seus amados objetos internos e as partes boas de si mesmo." (Klein, 1955/1969, p.g.21)
Klein interpreta ainda que a insistente contemplação do personagem Fabian para com as estrelas seria uma tentativa de recuperar seus objetos bons, que sente perdidos ou distantes. Para tanto a que se disponibilizar a mente para que seja possível atingir o desapego das futilidades que obstruem a chance contemplativa, acessível a todo aquele que humildemente se coloca a disposição dessa experiência.
"É preciso  quebrar a  casca  se  quisermos  extrair  o  que  contém.  Pois se você quer  o cerne,  é preciso romper  o invólucro.  Assim,  se você  quer descobrir  a  nudez  da  natureza,  é  necessário  destruir  seus  símbolos e quanto  mais  você  penetrar dentro",  tanto  mais  próximo  estará  da essência: Quando chegar ao Uno, que reúne e concentra em si todas as coisas, aí você deve permanecer". (Eckhart,1941).
O bebê encontra-se puro, totalmente entregue a mãe dedicada e isso permite a eles viverem uma relação de entrega total numa experiência mutua de contemplação. No entanto momentos de contemplação, nem sempre são possíveis. Mesmo na relação mãe/bebê, assim como Melanie Klein ainda nos ensina, em sua obra “Inveja e Gratidão” de 1957, esses momentos de integração são intercalados por experiências de não integração numa intensa impossibilidade de harmonia vincular. A contemplação pura em que o bebê recebe a mãe acontece quando seu aparato sensorial está disponível e se coloca de forma aberta e arranjada, já que a quantidade de fatos armazenados na memória do bebê é mínima.
Bem, conforme a maior frequência de experiências bem sucedidas com a mãe, que resultem em acolhimento, vão sendo registrados símbolos de paz e tranquilidade, referentes aquilo que foi vivido com ela. Isso se dá num reconhecimento de sua bondade e dedicação à ele e assim também se amplia a capacidade de contemplação e com isso desenvolve-se o desejo de retribuição. Porém, quando o objeto de desejo do bebê (a mãe) se mostra inacessível, a inveja se intensifica e a capacidade de contemplação fica comprometida. Dessa maneira, fica claro que a capacidade de contemplação está diretamente ligada às capacidades de gratidão. Disponibilizar o aparato sensorial para a contemplação é ser capaz de desapegar-se das experiências sensoriais anteriores e dirigir uma novo apreciação daquilo que se contempla, num olhar com bons olhos.
"Reconhecer tanto por ser grato, quanto como no desenvolvimento da capacidade de se desvencilhar de dados armazenados na memória e propor-se a conhecer novamente. A mãe/continente reconhece o bebê em cada encontro, grata pelo presente que recebeu da vida. O bebê aos poucos vai reconhecendo a bondade da mãe e, grato, tenta retribuir. Com a autoconfiança, resultado do autoreconhecimento aprendido na relação com a mãe - por ter sido reconhecido por ela - o bebê posteriormente poderá expandir-se num bom vínculo com o mundo, para além do vínculo primitivo com a mãe, onde o pai ainda é uma expectativa sem experiência externa." (Martino, 2015, pg.78)
A partir da realidade física, desenvolve-se a capacidade sensorial que então abre a possibilidades da ampliação da realidade com suas características superficiais para a expansão na pneumática supra sensível à realidade simbólica, que permite a capacidade de contemplação na realidade ultima do 'estar sendo'. Aquilo que se mantém dentro da perspectiva da contemplação não pode compor-se simplesmente dos dados armazenados na memória, através da captação dos órgãos dos sentidos, mas se encontra para além disso, na possibilidade da recordação.  "A recordação, diferente da memória, que necessita ser caçada e capturada, emana espontaneamente, ungida de afeto, num dar novamente ao coração."  (Martino, 2015, pg.92). Num movimento de ver com o coração, a contemplação parte da capacidade afetiva e isso pouco tem haver com padrões pré-estipulados, justamente o que poderia fazer parte dos compartimentos da memória. A capacidade contemplativa está diretamente ligada à capacidade de simbolização e o símbolo é criado a partir de referenciais afetivamente saudáveis. Assim como a raposa de Antoine de Saint-Exupéry (1900 - 1944)  no “Pequeno Príncipe”, aprende a contemplar os campos de trigo, que antes não importava a ela, por recordarem o principezinho que havia partido.

“Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim não vale nada. Os campos de trigo não me lembram de coisa algu¬ma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos doura-dos. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará com que eu me lembre de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...” (Saint-Exupéry, 1943).

A imagem de uma mulher idosa por exemplo, pode ser muito mais adequada à contemplação do que uma jovem maquiada e muito bem arrumada. Isso pois a contemplação acontece independente das características de valor palpável, mas se estabelece através de algo que transcende a materialidade das coisas. A estética contemplativa se encontra num nível independente de julgamento e próximo do silencio interior.
Wilfred Bion (1897 - 1979) 
Ainda na psicanálise, Wilfred Bion (1897 - 1979) propõe no seu seminário realizado em Paris, em 1978, impresso em 1986, na Revue dePsychotherapie Psychanalytique de Groupe, que:
"Não podemos nos dar o luxo de botar de lado as conjecturas imaginativas, com o argumento de que elas não são científicas — você poderia também jogar fora a semente de uma planta, com a justificativa de que não é um carvalho ou um lírio, mas apenas lixo. Isso se aplica a tudo que ocorre no consultório. Mas eu digo que valeria a pena considerá-lo não o seu consultório; e, sim, o seu ateliê. Que espécie de artista é você? Um ceramista? Um pintor? Músico? Escritor? Na minha experiência, um número enorme de analistas não sabe que tipo de artistas são." (Bion, 1986)
Assim como coloca em sua obra As Transformações, de 1965, Bion inclui numa só categoria todas as manifestações do pensamento humano possíveis de evolução para a contemplação, também a psicanálise deve se enquadrar nessa classe, na expansão da mente em direção à realidade ultima.
Wilfred Bion (1897 - 1979) 
"Ao usar os elementos concretos de transformação (isto é, o tema estimulando o artista), de uma lado da cadeia de eventos, e a pintura terminada, do outro, eu o fiz, trazendo um modelo para parte do todo - a que se passa na mente do artista. A esfera do psicanalista está entre o ponto em que recebe as impressões sensíveis e aquele em que expressa a transformação que ocorre." (Bion, 1965/1991, p.g. 56)
Bion privilegia o silêncio, que assim como no artista permite a intuição contemplativa, simultaneamente união e admiração silenciosa da contemplação. Bion denominou At-One-Ment (estar-uno-a), a experiência do acordo com ser compassivo, termo que é derivada do termo religioso atonement, que por sua vez significa redenção, reconciliação, concórdia. A possibilidade de estar-uno-a, assim como coloca Bion, no capitulo Realidade Sensorial e Psíquica, de sua obra Atenção e Interpretação, é fundamental para que seja possível passar do nível do saber "K", para o nível do ser "O".
"Nenhuma descoberta psicanalítica é possível sem que haja um reconhecimento de sua existência, evolução e um "estar-uno-a-ela". Os místicos religiosos provavelmente foram aqueles que chegaram mais perto de conseguir expressar a experiência da verdade absoluta. Sua existência é igualmente fundamental para a ciência e para a religião. De modo inverso, a abordagem cientifica é tão necessária para a religião como oo è para a ciência, e tão ineficaz quanto, até que ocorra uma transformação K > O"." (Bion, 1970/2007, p.g.44)  
Bion se utiliza do termo At-One-Ment no sentido da compaixão, a comunhão possível entre a mente do analista e a do paciente, propiciando a presença da realidade última. Porém, para se atingir esse estado de contemplação é necessário restaurar o equilíbrio numa reparação dos danos causados pela saturação dos órgãos dos sentidos, que com intensidade aguçados, não permitem a possibilidade de transcendência da apreensão. A reintegração das partes da personalidade carece de reconciliação consigo mesmo para tornar-se inteiro novamente. A busca de um esvaziamento da mente, numa diminuição drástica da memória, do desejo e ânsia pela compreensão se dispondo a um novo olhar curioso, respeitosamente interessado e contemplativo sobre aquilo que se observa.
A contemplação acontece sempre no tempo presente, assim,  não pode se realizar no passado, muito menos no futuro. "Podemos considerar as memórias como possessões; diz-se que os desejos - embora situados "na" mente da mesma forma que as memórias, e, portanto, sendo igualmente "possessões" - "possuem" a mente."  (Bion, 1970, p.g. 47). Esse estado de não saturação da mente é representado por Bion pela noção de “capacidade negativa”, na possibilidade de permanecer num estado de dúvidas e incertezas, sem apressar-se nas formações de significados.
John Keats (1795 - 1821)
O termo aparece em 1970 no livro Atenção e Interpretação, e foi extraído por ele de uma carta escrita pelo poeta inglês John Keats (1795 - 1821). Para Bion a capacidade negativa deve ser utilizada como um modelo de abordagem para seus trabalhos. Se as pré-concepções do analista já estiverem saturadas com o que se deve, ou se deseja encontrar, ele não tem como entrar em contato com a experiência do momento presente, para que a mesma possa estar de acordo com a realidade. Para Bion, "A receptividade alcançada pela desnudação de memória e desejo (que é essencial à operação de "ato de fé") é essencial para a operação de psicanálise e outros procedimentos científicos." (Bion, 1970/2007, p.g. 40)
Em Cogitações (1960- 1992), Bion revê o que propôs como conceito de função alfa, adicionando a necessidade do analista ‘sonhar’ o sonho do analisando. A partir dessa proposta a  função revêrie permitiria a contemplação estética e reflexiva da experiência emocional na sessão psicanalítica. Contudo, para que isso seja possível é necessário que ocorra profunda concórdia entre o analista e o analisando, estando ambos suficientemente entregues à essa experiência emocional.
Bion não se poupou de resgatar sua origem indiana com todos ensinamentos meditativos e contemplativos, nos passa tempos de Sri Krsna contados a ele por sua babá indiana, sua querida Ayah, nos ensinamentos do Bhagavad Gita, a "Canção de Deus", assim como, mais tarde, buscou nos místicos São João da Cruz, Jan Ruysbroeck (1293 - 1381), que rebateu o formalismo intelectualista de sua época, Isaac Luria (1534-1572), emblemático medieval da Cabala, e Mestre Eckhart, na sua busca pelo desprendimento.
Entretanto, por maior que seja o grau de maturidade e o alcance de evolução na expansão da consciência, inúmeros fatores, além desses, devem contribuir para que essa prática contemplativa se torne acessível e então seja possível a entrega à essa ordem de experiências. Uma mente conturbada não pode ser capaz de contemplação. O sentimento de culpa não elaborado pode ser um fator obstrutivo do desenvolvimento dessa ordem de capacidades. Quando inundado pela culpa e sem capacidade de se responsabilizar pelo fato do qual se sente culpado, o sujeito pode julgar-se não merecedor daquilo que muitas vezes o rodeia. Dessa maneira, o que seria digno de contemplação passa despercebido e assim fica desprezado do olhar do possível contemplador. No entanto, não pode haver culpa no que está acima de todas as divisões.
Immanuel Kant (1724 - 1804)
A contemplação daquilo que é belo, antes de tudo, deve ser o resultado de um vínculo bem sucedido entre sujeito contemplador e objeto contemplado (onde os dois podem ocupar as duas funções ao mesmo tempo, na experiência), deve estar despojada do interesse de formar um conhecimento definido, portanto, livre de julgamento determinante. Immanuel Kant (1724 - 1804) nos sugere que, “Quando se julgam objetos (…) segundo conceitos toda a representação da beleza é perdida. Logo, não pode haver uma regra segundo a qual alguém devesse ser coagido a reconhecer algo como o belo” (Kant, 1790/1995). Esse importante filósofo ainda nos orienta, em sua “Analítica do Belo” que:
"Para considerar algo bom, preciso sempre saber que tipo de coisa o objeto deve ser, isto é, ter um conceito do mesmo. Para encontrar nele beleza, não o necessito. Flores, desenhos livres, linhas entrelaçadas sem intenção sob o nome de folhagem não significam nada, não dependem de nenhum conceito determinado e contudo aprazem. A complacência no belo tem que depender da reflexão sobre um objeto, que conduz a um conceito qualquer (sem determinar qual), e desta maneira distingue-se também do agradável, que assenta inteiramente na sensação." (Kant, 2005, p. 52)
Artur Schopenhauer ( 1788 — 1860)
Ainda no âmbito filosófico, em Athur Schopenhauer (1788 - 1860), encontramos a contemplação como fundamento. Schopenhauer que tem a base de sua proposta filosófica na leitura dos Upanishads, que são comentários sobre as escrituras sagradas da Índia, os Vedas (texto do qual o Bhagavad Gita faz parte) e o Vedānta ("o fim do Veda"). A palavra Upanishads deriva dos termos sânscritos upa, que quer dizer "perto", ni, que significa "embaixo" e então chad, referente à "sentar", compondo assim, o conceito do ato de sentar-se próximo ao mestre espiritual, para ouvi-lo.
A inspiração de Schopenhauer para a contemplação deriva, além do estudo dos Upanishads, também das leituras de Platão e de Kant, que fundamentariam a elaboração e a compreensão de seu próprio pensamento. Apesar de buscar em Kant os conceitos de nôumeno ou da coisa-em-si, que constitui o incognoscível, inacessível ao conhecimento e o fenômeno (do Grego Phainomenon, “o que é visto, o que surge aos olhos”), que representa o empírico, na aparência das coisas, para o filósofo Shopenhauer a coisa-em-si é vista como vontade, que  antecipa-se aos fenômenos e assim pode, então ser atingida por meio da contemplação estética. Assim, também, em relação a Platão, a vontade é a ideia si mesmo e antecipando as percepções sensíveis, sendo arte, por exemplo, um meio para contemplação das ideias.
" Esta transição possível, porém, sempre excepcional, do conhecimento comum de coisas individuais, ao conhecimento da ideia, ocorre de modo repentino, ao arrancar-se o conhecimento ao serviço da vontade, por cessar precisamente o sujeito de ser meramente individual, tornando-se agora sujeito puro do conhecimento, destituído de vontade, não mais se ocupando, conforme o princípio de razão, das relações; mas repousando e sendo absorvido na contemplação firme do objeto oferecido fora de quaisquer conexões com outros." (Schopenhauer, em O Mundo Como Vontade e Representação, Livro III, #34).
A arte, em Schopenhauer pode ser capaz de reportar as ideias eternas, sendo acessadas por meio da contemplação, agindo independente do principio da razão, que busca seu valor nas materialidades das coisas práticas da vida. Para Schopenhauer, através da arte é possível uma superação da dualidade sujeito-objeto. Pela capacidade de contemplação profunda da experiência estética, a distinção entre o si mesmo e o objeto contemplado passam a constituir uma unidade: o cerne comum que é compartilhado.
"Como vontade, fora da representação e de todas as suas formas, ela é uma e a mesma, no objeto contemplado, e no indivíduo que, elevando-se por esta contemplação, se torna consciente de si como puro sujeito; estes dois por isto não são em si diferenciáveis, pois em si são a vontade que se conhece a si mesma, e é somente do modo pelo qual este conhecimento se lhe constitui, i.e. somente no fenômeno, graças à sua forma, o princípio de razão, multiplicidade e diversidade." (Schopenhauer, em O Mundo Como Vontade e Representação, Livro III, #34).
Essa experiência descrita pelo filósofo, que segundo Freud, mais contribuiu para a estruturação do pensamento psicanalítico, é representada de forma bela na relação entre o bebê fixo no olhar da mãe dedicada. Schopenhauer ainda distingui o homem comum do gênio, justamente na disponibilização do gênio para o olhar contemplativo enquanto o homem comum busca na investigação e dedução seu encontro com as coisas do mundo. O humano comum, para Schopenhauer busca o conhecimento através de uma lanterna que ilumina o caminho, mas gênio tem o sol que revela o mundo, trazendo a marca da intuição, da contemplação.
"...e a essência do gênio consiste justamente na capacidade predominante para tal contemplação: como esta requer um esquecimento completo da própria pessoa e de suas relações; assim a genialidade nada mais é do que a mais perfeita objetividade, i.e. orientação objetiva do espírito, contraposta à subjetiva, dirigida à própria pessoa, i.e. à vontade." (Schopenhauer, em O Mundo Como Vontade e Representação, Livro III, #36).
No entanto, a grande dificuldade encontra-se em grande parte no fato de que a possibilidade de desenvolvimento da capacidade contemplativa está distante das atividades do cotidiano da maioria das pessoas. Se dispor à essa ordem de experiências representa uma parada catastrófica numa quebra do ritmo desenfreado do cotidiano, que está focado na busca pela materialidade das coisas. Por conta disso é sentida à princípio como desagradável, na maioria das vezes. Nessa questão a religiosidade pode surgir como um recurso eficaz na busca pela paz interior. Assim como no verso 33 do Bhagavad Gita, onde Arjuna diz:“Kṛṣṇa, esse Yoga que foi ensinado por você como igualdade; eu não vejo a existência firme dessa igualdade devido à inconstância da mente”. E  no verso seguinte diz: “Pois a mente é inconstante, atormentadora, poderosa, obstinada, ó Kṛṣṇa! Eu considero o controle da mente tão difícil como o controle do vento”. Kṛṣṇa, então responde ao guerreiro, no verso 35: “Sem dúvida Arjuna, a mente é inconstante e difícil de ser controlada. Porém, ó Arjuna,a través da repetição e do desapego, ela é disciplinada”.
A contemplação está simbolicamente ligada ao olhar; olhar com bons olhos, sendo que seu inverso se encontra na inveja que leva a olhar com maus olhos, no termo popular do mau olhado. Pelo fato de que a contemplação está associada ao olhar, assim como, olhar alguma coisa com atenção e cuidado, quando nos encontramos num movimento de ciclo vicioso, em busca de adquirir e acumular bens materiais, o olhar não estabelece contato contemplativo e não pode cria envolvimento, simplesmente não vê. O ato de contemplação refere-se a capacidade de respeitar e a etimologia da palavra nos orienta quando propõe que o termo vem do "Latim respectus, particípio passado de respicere, “olhar outra vez”. Do re, “de novo”, mais specere, “olhar”: a ideia é de que algo que merece um segundo olhar em geral merece respeito." (Martino, 2013, p.g. 57). Na supervalorização do "ter" olhar o mundo com respeito se torna incomum e infrequente e finalmente impraticável. Da mesma maneira, nosso mundo interno fica privado desse olhar e tende a definhar, ausente de amor, respeito e atenção. Isso pois, o olhar que dirigimos ao mundo externo reflete a forma como olhamos para nós mesmos.
Em outra oportunidade pude ensaiar sobre a reflexão de 'Como
Fazer Uma Leitura Proveitosa' e então propus que:
"A contemplação do conteúdo do texto é uma capacidade rara, e que não pode ser aplicada a qualquer texto. Alguns textos trazem uma conotação poético-artistica e permitem que o leitor desloque a leitura da busca cultural numa dimensão contemplativa, tanto do conteúdo quanto da forma de escrita. Porém, a ânsia por compreensão e a busca voraz pelo saber pode dificultar esse aspecto. Quando o que se deseja é entender, muitas vezes, a contemplação se torna impedida." (Martino, 2014)
Sigmund Freud (1856 - 1939)

Na ânsia por entender o conteúdo faz com que predomine a mentalidade estritamente cientifica que se vê então, obstruída e dificulta o desenvolvimento da capacidade contemplativa. Os textos de Freud, assim como de outros pensadores, transcendem o vértice científico e expandem-se na possibilidade contemplativa. Isso por conta do teor belo de suas colocações, que são de cunho emocional e sempre resgatando elementos como amor e verdade, enriquecidas por obras poéticas de outros pensadores. O pai da psicanálise, em carta de 06 de dezembro de 1906, ao seu discípulo Carl Gustav Jung, chega a escrever que: "Poder-se-ia dizer que a cura é essencialmente efetuada pelo amor." (Freud, 1906). Ainda assim, Freud em seu "Mal Estar na Civilização", (1930)  revelou: "Não consigo descobrir em mim esse sentimento ‘oceânico’". Bem, para Freud o sentimento de inclusão nunca fora muito presente em sua vida, isso pelo fato de ser ele judeu.
"Quando em 1873, ingressei na universidade, experimentei desapontamentos consideráveis. Antes de tudo, verifiquei que se esperava que eu me sentisse inferior e estranho porque era judeu. Recusei-me de maneira absoluta a fazer a primeira dessas coisas. Jamais fui capaz de compreender por que devo sentir-me envergonhado da minha ascendência ou, como as pessoas começavam a dizer, da minha ‘raça’." (Freud em Um Estudo Autobiográfico, 1925 [1924])
Além disso, Freud sempre se sentiu afastado da classe medico científica e a criação da psicanálise, em grande parte, partiu desse sentimento de inadequação proposta simplista de que o mal estaria no corpo físico.

"Fui compelido, além disso, durante meus primeiros anos de universidade, a fazer a descoberta de que as peculiaridades e limitações de meus dons me negavam todo sucesso em muitos dos campos da ciência nos quais minha jovem ansiedade me fizera mergulhar." (1925 [1924])
Romain Rolland (1866 — 1944)
No entanto, no mesmo texto Freud segue dizendo sobre o 'sentimento oceânico', que, "Segundo minha própria experiência, não consegui convencer-me da natureza primária desse sentimento; isso, porém, não me dá o direito de negar que ele de fato ocorra em outras pessoas".  Trata-se de um sentimento de comunhão ou identidade com a natureza que seu amigo Romain Rolland (1866 — 1944) novelista, biógrafo e músico francês, conceitua "como uma sensação de ‘eternidade’, um sentimento de algo ilimitado, sem fronteiras – ‘oceânico’, por assim dizer". Rolland escreveu “A vida de Ramakrishna”(1929), biografia do místico Indiano Ramakrishna Paramahansa (1836-1886), um dos mais importantes líderes religiosos da Índia, muito respeitado e tido como um mensageiro de Deus. Rolland  descreve esse sentimento, segundo relata Freud, como puramente subjetivo, e não um artigo de fé e que não traz garantia de imortalidade, mas compõe a fonte da energia religiosa de que se apoderam as diversas Igrejas e sistemas religiosos. Esse 'sentimento oceânico’ representa a condição do desenvolvimento da capacidade contemplativa aqui cogitada.
Ora, Freud tinha a pretensão de compreender os sentimentos pelo olhar científico. A criação e desenvolvimento da psicanálise, naquela época, sofria com essa necessidade de atender à certos critérios científicos, caso contrario correria o risco de ser desacreditada. Freud ainda reconhece que "Não é fácil lidar cientificamente com sentimentos. Pode-se tentar descrever os seus sinais fisiológicos." (Freud, 1930). Dessa forma a concepção freudiana da religião não ultrapassa o plano da realidade psíquica, carecendo então de outros pensadores, como Bion, trazer uma oportunidade de expansão para que a psicanálise pudesse receber contribuições das formulações religiosas. Ainda assim, mesmo que Freud relatasse sua dificuldade em reconhecer certa condição dessa espécie em si mesmo, a criação e desenvolvimento da psicanálise nunca poderia ter sido realizada sem uma grande capacidade contemplativa da natureza psíquica.
"Mas, se quisesse relatar meus próprios sonhos, a consequência inevitável é que eu teria de revelar ao público maior número de aspectos íntimos de minha vida mental do que gostaria, ou do que é normalmente necessário para qualquer escritor que seja um homem de ciência e não um poeta." (Freud, 1900)
Além do mais, Freud era um grande apreciador da poesia e admirador de poetas como  Shakespeare e Goethe, se utilizando amiúde desses gênios da escrita contemplativa para ilustrar suas teorizações psicanalíticas. Na realidade, a dificuldade da experiência da contemplação no âmbito oceânico, me parece ser um problema na ordem do discurso e Bion nos orienta em sua obra As Transformações quanto à dificuldade que temos nessa  articulação, quando propõe que:
"É mais fácil aceitar como verdadeiro que alguém não pode entender música ou não pode entender pintura do que aceitar a existência de uma dificuldade semelhante quando se considera o discurso. Mas, às vezes, penso que é assim: o próprio meio do discurso não é compreendido." (Bion, 1965/2004, p.g. 78).
Assim, a palavra não deve ser confundida com a coisa-em-se, assim como nos ensina Kant, já que como nos orienta Bion, ainda em Transformações:
"A palavra falada parece importante apenas por ser invisível e intangível; a imagem visual, de modo similar, é importanteo por ser inaudível. Toda palavra representa aquilo que não é – uma não-coisa; que deve ser discriminada do nada." (Bion, 1965)
São João da Cruz propõem a condição de maturidade emocional e espiritual, que dispensa as certezas, das quais a ciência nos oferece, para que se esteja preparado para passar da oração discursiva, para a configuração contemplativa da oração, que então, seria solitária e silenciosa. Numa transformação das configurações dos elementos da mente o desapego de tudo que até então ocupava os sentidos. Despojar-se da ponderação do intelecto na racionalidade das coisas, em direção da paz interior, na quietação e descanso. Nessa perspectiva os atos e exercícios intelectuais são obstrutores da atenção dedicada e amorosa em Deus.


São João da Cruz (1542-1591)


Entrei-me adonde não soube
e quedei-me não sabendo,
toda ciência transcendendo.
Noite Escura - São João da Cruz





Para São João da Cruz, a princípio a contemplação acontece de forma sutil, quase imperceptível. Para esse importante místico amplamente citado por Bion, a passagem da oração discursiva, para a oração contemplativa só pode acontecer após um longo período do que chamou de "noite passiva dos sentidos".
Assim fica claro que a maturidade emocional é a condição fundamental para que a capacidade contemplativa se expresse de modo pleno. Porém, é importante lembrar que maturidade não constitui-se em termos de idade cronológica, logo, em qualquer idade é possível desenvolver recursos para vivenciar momentos de qualidade contemplativa, instantes de profunda integração e harmonia na universalidade do sentimento. Esta universalidade subjetiva realiza uma espécie de senso comum, numa comunhão de sentimentos que aproxima a humanidade.

Bion, W. Atenção e Interpretação . Rio de Janeiro: Imago. Dias, C. Amaral. 1991 [1970]
______ (Seminário realizado em Paris, 10 de julho de 1978, Transcrição de Francesca Bion, 1999, Tradução de Wellington Dantas (SBPRJ), Abril de 2000.
______ (2004). Transformações: Do aprendizado ao crescimento. 2ª. ed. Trad. S. C. Paulo. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1965. Título original: Transformations: change from learning to growth.)
BORRIELO, L. et all. Dicionário de mística. São Paulo: Paulus/Loyola, 2003.
Cousineau, Phil (Fevereiro de 2011) além do perdão: Reflexões sobre a Expiação. Huston Smith (prefácio). Jossey-Bass.
Freud, S. (1900). A Interpretação de Sonhos. In Freud, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Trad. Salomão, J.; Rio de Janeiro: Imago, 1990.
______ Escritores Criativos e Devaneio (1908). In Freud, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Trad. Salomão, J.; Rio de Janeiro: Imago, 1990.
______ (1930). Mal Estar na Civilização. In Freud, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Trad. Salomão, J.; Rio de Janeiro: Imago, 1990.
______Um Estudo Autobiográfico (1925 [1924]). In Freud, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Trad. Salomão, J.; Rio de Janeiro: Imago, 1990.
FREUD, Sigmund; JUNG, Carl G.. A correspondência completa de Sigmund Freud e Carl G. Jung. 2a Ed. Revisada org. William McGuire ; trads. Leonardo Froes, Eudoro Augusto Macieira de Souza. Rio de Janeiro : Imago, 1993.
Kant, I. (1995). Crítica da faculdade do juízo. Brasil: Forense Universitária. (Trabalho original publicado em 1790)
KANT, Immanuel. Critica da faculdade de juízo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005.
KLEIN. M. Inveja e Gratidão. Rio de Janeiro: Imago Edi¬tora, 1957.
______TEMAS DE PSICANÁLISE APLICADA, Tavistock Publications Limited, de Londres (1955/1969), Tradução de ÁLVARO CABRAL.
MARTINO, Renato Dias. O Livro do Desapego,  1. ed. São José do Rio Preto, SP : Vitrine Literária Editora, 2015.
_____ . O Amor e a Expansão do Pensar : das perspectivas dos vínculos no desenvolvimento da capacidade reflexiva , 1. ed. São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2013.
______ Como Fazer Uma Leitura Proveitosa, 01 de novembro de 2014, link: http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com.br/2014/11/como-fazer-uma-leitura-proveitosa.html
R.B. Blakney, Meister Eckhart, a Modern Translation. Sermão - Bem-aventurados os pobres - (N.Y.: 1941).
SCIADINI, Frei Patrício. (org.). São João da Cruz: Doutor da Igreja. Obras Completas. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.
______. Pensamentos de São João da Cruz. São Paulo: Paulinas, 1981.
Schopenhauer, Arthur. O Mundo como Vontade e Representação, Rio de Janeiro: Editora contraponto, 2001.
Saint-Exupéry, 1963, O Pequeno Príncipe, Rio de Janeiro: Ed. AGIR.
TILAK, Swami. Néctar do Guita. Editora mandiran, Brasília, s/d. YUTANG, Lin. A Sabedoria da China e da Índia. Pongetti, RJ, 1945. pp. 59-110. BESANT, Annie. Sugestões para o estudo do Bhagavad-Gita. Pensamento, SP, 1995.
TRINCA, W. O espaço do homem novo. São Paulo, Papirus,1997.







Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866
renatodiasmartino@hotmail.com  

http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com.br