sábado, 7 de novembro de 2009

Algumas publicações na revista Psique




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O reconhecimento da própria identidade é um processo árduo e em permanente construção abastecido de crises existenciais mas evitá-las pode colocar em xeque uma mente saudável

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No dia-a-dia estamos cercados por acontecimentos cruéis que por si só já causam sofrimento. Mas fazemos questão de revivê-los seja nos noticários no cinema nas músicas e até no turismo. Afi nal de onde vem a satisfação humana em observar cenas e situações macabras?

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Sexo e Vínculo


Olá amigos leitores!
Compartilho com vocês minha participação na matéria de jornalista Francine Moreno, para o jornal Diário da Região.
Talvez possa ser útil como instrumento de reflexão.
Muito obrigado pela atenção e abraço forte!

* Matéria na integra: site do Diário da Região

Entrevista na integra


Francine - Para os homens de uma sociedade patriarcal como a nossa, a cama quase nunca é ponto de partida para um relacionamento estável. Escolhe transar, como poderia escolher ir ao estádio?

Martino - Acredito que esse modelo de vínculo onde a mulher é algo que se “tem”, ou seja, como se fosse um objeto, está implicada com a maturidade emocional da dupla, tanto daquele que imagina ter o objeto, como daquela que se dispõe a ser o objeto. Talvez o nosso período histórico com seu modelo patriarcal, ressalte mais essa característica, porém, a necessidade da maturidade e saúde dos vínculos sempre existirá independente da época em que se vive.

Francine - Muitas mulheres apostam no interesse do homem pelo sexo como se essa fosse a única - ou a principal - isca capaz de fisgá-lo. Ela erra ao imaginara que sexo pode ser o início de uma relação?

Martino - Não diria que é um erro imaginar, contudo, realizar talvez seja. Quero dizer que o problema não é iniciar um vinculo com (ou por) sexo, mas talvez seja, esperar que ele se mantenha e continue existindo só pelo sexo. O sexo (Eros) se manifesta por impulso, é também uma oportunidade de aproximar-se e talvez ligar-se às pessoas. Mas, para que se efetive o vínculo, alguma coisa precisa ser aprimorada. Algo precisa ser construído, pois um impulso por si só não permanece na realidade, pois é fugaz. No caso do vínculo mantido por impulso, quando o impulso não está se manifestando o vínculo perde o sentido.

Francine - Quais são as causas do "ficar"? Para o medo de relacionamento?

Martino - O “ficar” é um ótimo recurso para certa fase do desenvolvimento emocional onde o medo de relacionamentos é algo muito presente. Contudo, é característica de certa fase, e deve se transformar conforme o desenvolvimento emocional acontece. Quando o “ficar” se caracteriza como modelo exclusivo e cristalizado, sem oportunidade de desenvolvimento num vínculo mais maduro, algo precisa ser pensado com mais cuidado. A saúde do vínculo me parece estar calcada mais na durabilidade e menos na intensidade.

Francine - Como a mulher pode se auto-valorizar para seu amado?

Martino - A auto-valorização é representada pelo limite. A mulher que pode estabelecer certos limites, está sendo capaz de criar recursos na manutenção da auto-estima e isso reflete automaticamente no vínculo do casal.

Francine - Ainda é verdade que para uma relação mais duradoura, o homem geralmente procura alguém que não se interponha aos demais desejos dele e saiba receber o que ele tem a dar?

Martino - Você descreve uma relação onde existe um que mantém e outro que é mantido. É um modelo de vínculo que podemos chamar de perverso, quando impede o crescimento emocional. Contudo, não é exclusivamente do homem para com a mulher, o contrario também acontece com freqüência. Falo de mulheres com característica controladora que escolhem homens submissos.

Francine - O que, então, promove o enamoramento e a paixão de um homem por uma mulher?

Martino - A paixão é o amor sem verdade. É quando estamos amando aquele do qual pouco conhecemos. Nesse caso o que nos atrai é aquilo que parte do nosso desejo e é projetado no outro. O que imaginamos que o outro seja. Assim, quando entra a verdade e passamos a conhecer o outro, a paixão é ameaçada; a partir daí, evolui: se tornando amor, ou regride: culminando no rompimento.

Francine - Se o que ela quer é iniciar um relacionamento, é melhor observar o que o homem quer, não o que ela supõe que ele queira?

Martino - Justamente, mas, não é uma tarefa fácil. Demanda de tempo e de muito cuidado com o eu e com o outro. Aproximamo-nos do outro, em primeiro momento, por identificação, nos misturamos com ele. Só aos poucos vamos podendo perceber o que é realmente o outro e o que é aquilo que desejamos que o outro fosse.

Francine - Uma mulher capaz de receber o que é verdadeiro em um homem fará com que ele se sinta importante, admirado, validado, um homem pleno do que tem de melhor?

Martino - Esse é um funcionamento vincular que deve se manifestar de ambas as partes.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Representa- te

Renato Dias Martino

De onde vem essa dor?
Angustia ou um buraco?
Um turbilhão, um rotor
Ou simplesmente o vácuo?
Preencher com ilusão?
Dos pés faltando o chão
Eu sei que é tudo em vão
Verdade, vida, amor...
Trocados pela dor
Sem imagem ou representação.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Xeque-mate

Olá querido leitor!
Escrevo agradecendo o carinho de todos que me respondem e contribuem com comentários no blog. Esse é justamente o intuito; de cogitar assuntos e provocar o pensamento. Cada comentário me indica a direção daquilo que escreverei.
Envio aqui uma contribuição minha para a matéria de Francine Moreno, no Jornal Diário da Região desta quinta feira.
Um abraço carinhoso!

Xeque-mate
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Francine Moreno


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Orlandeli/Editoria de Arte




É comum homens e mulheres terem gratidão, até saudade, das escolhas que ocorreram ao longo da vida, quando elas, ainda hoje, são compatíveis com sentimento e razão. Mas quem já não se questionou, lembrando seu passado, sobre como pode envolver-se com certa pessoa ou trabalho? Quem não se arrependeu com a sucessão de decisões erradas que teve a ponto de reconhecer: “Eu já me meti em cada enrascada”? O fato é que arriscar deixa a vida mais interessante, o problema é que nem sempre as decisões são as mais sábias. Um dos elementos que interferem nas decisões, segundo o escritor Aquiles Mosca, é o chamado movimento de manada, que é explicado como a exigência de agir identicamente com o grupo no qual vive. O que a parcela maior fizer comanda as ações individuais. Um dos fatores que integram esta ação é a chamada prova social. Ou seja, homens e mulheres são levados a pensar que se a maioria está operando daquela forma, deve haver uma boa causa, embora esta não seja visível. “Para quem vai investir ou decidir é importante ter calma e um horizonte de tempo”, aconselha.

O que garantem os especialistas é que decidir é tomar partido, é escolher algo e perder outro. E quando o coração diz algo e a cabeça outra coisa, significa que você já tem consciência dos inevitáveis conflitos internos que aparecem nos momentos de se fazerem grandes escolhas. O correto, porém, de acordo com a psicoterapeuta comportamental neurolinguista Marcelle Vecchi, é que homens e mulheres devem manter um certo equilibro entre a razão e a emoção, uma aconselhando a outra até que cheguem a um ponto em comum, ou seja, a um ponto em que tanto para a razão como para a emoção, a decisão é aceita. “Para tomar decisões sábias é fundamental escutarmos nossa consciência”, diz a especialista Marcelle. O que é certo para um, pode não ser para outro. “Deus nos deu um termômetro interno, que é nossa consciência. Se tentar decidir algo ignorando o que a consciência indica, provavelmente perceberei que cometi um erro, e me arrependerei. Todos nós temos a capacidade de consultar nossa consciência para tomar qualquer tipo de decisão, desde as grandes até as pequenas”, explica.

Se ainda não sabe o que quer é preciso não tomar uma decisão só para se livrar do que está pendente. Marcelle sugere que o primeiro passo é saber o quê quer, depois avaliar se o quê quer não prejudica alguém, só depois disso identifique o que será preciso fazer para conseguir seu objetivo. “Não somos obrigados a tomar decisões em momentos de indecisão, não se deixe pressionar pelos outros, o momento certo de tomar uma decisão só nós podemos determinar.” O psicoterapeuta e músico, Renato Dias Martino explica que é melhor errar do que não decidir. “O erro é a única certeza e escolhe melhor aquele que conhece bem de perto o erro. Não conheço outra forma de crescer na realidade que não seja pelo erro”. No mesmo cenário, é importante apostar todas as fichas na decisão.

Quando escolher é ideal ir fundo, virar a página e não pensar mais nas demais escolhas. “O momento certo de descartar as alternativas e investir todas as fichas em uma decisão é quando essa escolha coincide com nosso sonho. Assim vale a pena e com certeza estaremos no caminho certo.”
Na opinião de Marcelle Vecchi, podemos escolher qual o momento ideal para tomar uma decisão, mas assim que tomada, devem ser excluídas as outras opções, porque elas se tornam passado. “A partir do ponto em que eu escolhi uma opção, é nesta decisão que devo focar minhas energias e meus pensamentos, as outras não existem mais.”

Seja desde já o protagonista de sua vida

O escritor Aquiles Mosca afirma que a forma como as informações nos são apresentadas interfere na nossa atitude e tolerância frente ao risco. Para encontrar um equilíbrio neste caso, segundo a psicoterapeuta comportamental neurolinguista Marcelle Vecchi, a meditação pode ser uma ferramenta preciosa. “A meditação acalma a mente e o corpo, e é uma ferramenta muito útil, pois quando estamos com uma atividade mental e corporal mais equilibrada, os fatos são vistos com mais clareza, o que facilita. Quando estamos agitados, ansiosos, tensos ou nervosos não devemos tomar decisão alguma, pois nossa mente e nosso corpo estão trabalhando numa rotação alta, o que prejudica a análise dos fatos.” O psicoterapeuta e músico Renato Dias Martino confirma que escolha pensada é a real e mais indicada. “Quando não meditamos sobre aquilo que escolhemos, é sinal que não escolhemos, mas fomos escolhidos.”

E na lista de ensinamentos de como ir em frente da melhor forma, Marcelle explica que como nem todas as decisões precisam ser tomadas de uma hora para outra, em alguns casos é possível fazer umas experiências antes do passo definitivo. “Se respeitamos o nosso momento na hora de decidir, sempre podemos fazer experiências para antever os resultados. Lembre-se que não devemos decidir pressionados pelo outro, todos nós temos um tempo que é o ideal, devemos respeitar isso.” Na lista de ferramentas básicas para tomar decisões sábias, a especialista Marcelle afirma que é essencial desenvolver a habilidade de escolher e arcar com as responsabilidades disso. “Deve em primeiro lugar ter metas claras em sua mente, depois deve se desinibir para tomar as decisões que ajudarão nessas metas, acreditando que os erros são inevitáveis e úteis, e se perdoar com facilidade. Dessa forma essa pessoa viverá sendo a protagonista de sua vida”.





quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O lugar do pai

Édipo e a esfinge (Oedipus et Sphinx),
1808, pintura de Jean Auguste Dominique Ingres;
Paris, França.
O lugar do pai

Reanto Dias Martino

O Afastamento da figura paterna na estrutura da família, traz certas conseqüências, que merecem aqui, um olhar mais atento. Tento aqui propor um pensamento que diz respeito muito mais a presença emocional da função paterna do que aquela presença de ordem física. Proponho isso pensando num modelo onde essa figura encontra-se presente em corpo, contudo, ausente de alma.
Freud (1856-1939) utilizou-se do modelo triangular, baseado no mito de Édipo, para demonstrar o mecanismo de interrupção civilizatória na vida sexual da criança, onde os investimentos afetivos se deslocam em busca de melhor adequação quanto ao objeto de amor. A narrativa grega de Sófocles (496 – 406 a.C.) traz a história do herói que vive o terrível destino de se descobrir casado com a própria mãe, sendo ele assassino do próprio pai. Nesse ponto de vista entendemos os conteúdos do mundo interno de uma criança, repleto de fantasias, imaginações que governa a mente daquele que está iniciando-se no doloroso processo do conhecimento do mundo e da realidade.

O menino descobre que tem um pai e não faz essa descoberta de forma simples e harmoniosa como tendemos pensar ao assistir um bebê no colo do progenitor. A figura do pai está carregada de certa verdade dura para criança. Aquela criança conhece o pai e logo percebe que o amor da mãe não é só para ele. Ou seja, tem que dividir a atenção da mãe com seu pai. Essa experiência é por si só geradora de sentimentos como a raiva daquele que vem destruir um sonho de união exclusiva com a mãe. Esse é para Freud, o ápice do golpe da realidade no narcisismo. Ele descobre isso aos poucos e é interessante que comece o quanto antes, a desenvolver recursos para lidar com essa realidade. Através desse novo ponto de vista da realidade, terá que eleger outra pessoa para que possa viver certas experiências. Experiências das quais está impedido de viver com a mãe, mas que por outro lado, nutrira por muito tempo a fantasia de realizá-lo com ela.
Isso que tento propor aqui, é um ensaio para pensarmos um modelo clássico do que Freud chamou de complexo de Édipo, até aqui, tendo a vida de um sujeito do sexo masculino como foco. Contudo e antes de prosseguirmos, seria prudente nos lembrarmos que, na verdade esse é um modelo que pode ter, e na realidade tem um desfecho diferente tomando-se em conta as experiências familiares de cada ser humano em particular, assim como o modelo familiar que se adota em cada diferente cultura e época.


No caso da menina, a história tem algumas modificações. Com a garotinha, o amor que era, até então, investido na mãe, em certo momento é deslocado para o pai, assim, proporcionando o que poderíamos chamar de melhor adequação do objeto de amor. Ela percebe algumas diferenças entre a mãe e pai, quanto à posição na família, assim como elementos relacionados a gênero. A sexualidade passa a ser percebida de forma mais clara e a menina desiste em certa medida do amor da mãe e passa a se interessar pelo pai. Entretanto, esse amor também lhe propõe certos impedimentos.

O obstáculo (rival) mãe, além do dogma civilizatória no tabu do incesto. Lugar emocional gerador do que Freud denominou superego. O superego ou ideal de ego é um introjetado de imagens e referenciais de interdição da satisfação do prazer. Ou seja, a parte da alma que gera a moral, nos fiscaliza e nos cobra certos pensamentos e condutas. Essa interdição, feita aqui pela mãe, assim como as normas culturais, são elementos provenientes da consciência que é adquirida através do contato com a realidade, mas, caminha lado a lado com elementos do mundo interno que se estruturam como fantasias. O desejo pelo amor do pai – aqui admitido como figura presente –, assim como toda fantasia que o acompanha. A possibilidade de que se viva num ambiente onde o que rege as relações é a sinceridade é o que definirá certas questões que influenciarão as escolhas amorosas dessa criança pela vida toda. Na medida em que esse interesse, investido no pai é correspondido em forma de afeto e carinho, tende a se desvincular de impulsos sexuais (mais adequadamente falando; impulsos genitais), que agora busca outro objeto mais adequado, fora do circulo familiar, socialmente aceito e sem a interrupção da figura da mãe.


Penso que a família (ainda) é o lugar mais seguro pra viver experiências como a descoberta da sexualidade, que são por si só, assustadoras e repletas de ameaças e entraves. Penso que, no período onde a figura paterna pôde nutrir a menina de afeto, existe uma maior chance de desenvolvimento adequado de questões afetivas e emocionais referentes à vida erótica e conseqüentemente, o desenvolvimento físico e biológico pelo resto da vida. Isso se implicarmos aqui, um vértice onde o pensamento pode mudar tudo em nossa vida e reverter até mesmo um quadro clínico de ordem fisiológica, ou em outras palavras, algo que se apresente como manifestação do corpo.
A experiência na psicologia clínica nos mostra, em sua pratica diária que, sujeitos que trazem queixas de impotência sexual, ou qualquer que sejam as questões que impedem um desenvolvimento saudável da vida sexual e até mesmo certos casos de homossexualidade, em sua maioria carregam certo histórico extremamente conturbado no que diz respeito à vivência de descoberta da vida sexual. Existe nesse sujeito certa insuficiência na criação de recursos para lidar com Eros, ou seja, aquilo que une os seres humanos e responde pela proliferação da nossa espécie. Recursos esses que tem sua origem no seio da família e na possibilidade das vivencias edípicas.

Renato Dias Martino
Psicólogo e Psicoterapeuta
renatodmartino@ig.com.br
Fone: 17-30113866

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A arte como simbolização do mundo

A arte como simbolização do mundo
Renato Dias Martino

Dor da palavra
O que seria da minha palavra se minha dor nela não habitasse?
O que seria da minha dor se não encontrasse palavra que a expressasse?
Renato Dias Martino


Na Grécia antiga a arte dramática era encenada nos teatros de arena, propondo certa catarse naquele que assistia. Um golpe no narcisismo do espectador. Como em uma ab-reação que alertasse a platéia, de qualidades da realidade, que no cotidiano pudessem ser de alguma forma ignoradas, ou mesmo perdidas nas tarefas repetitivas do dia a dia.

Um bom início na empreitada de estudarmos a arte enquanto símbolo de mundo, talvez seja pelo vértice epistemológico, onde o intuito é criar ferramenta que nos possibilite o discernimento entre crença e conhecimento.
Um exercício no questionamento daquilo que Immanuel Kant (1724-1804) chama de conhecimento a priori, onde propõe que a "coisa em si" é icognicivel. Questão discutida por ele em sua "Crítica da Razão Pura" (1781). Se assim procede; a realidade é mesmo inacessível e o que podemos obter é simplesmente breve impressão desta, então, que ao menos seja criado algo que possa amenizar a condição finita e desprotegida da existência. Algo que permita estar mais próximo possível da apreensão do real.

Como no material clássico de Sigmund Freud (1856-1939), “O Mal-Estar na Civilização”, onde em 1930 ilustra a tentativa de dar conta dessa angustia. O ser humano desenvolve instrumentos de representação, buscando na realidade aquilo que possa simbolizar as dores da alma.
Considerando três grandes modelos onde estejam compreendidos o cientifico - filosófico e o místico-religioso, a arte se enquadra na categoria dos padrões da epistemologia, enquanto dimensão estética. Certa área da mente rica em imaginação, logo, propícia à simbolização. O aparelho psíquico dispõe-se a certo estado se funcionamento do não-tempo e do não-espaço interior. Contudo, a arte proporciona assim, um encontro com o si-mesmo em áreas conflituosas da mente onde o vínculo com o mundo externo ainda se encontra num modelo muito primitivo.
Conceito de símbolo

Um importante instrumento de reflexão da alma. Filosoficamente, contudo, de maneira prática, podemos chamar de símbolo tudo aquilo compreende a função de sustentar durante a ausência material. Num modelo cientifico - experimental, um time de futebol pode facilmente ser recordado atravez de um simples brasão, por exemplo. No misticismo encontramos amuletos e formas simbólicas que reúnem conceitos extremamente subjetivos, mas que ainda assim permitem-se estarem presente em uma pedra, ou um pedaço de madeira, quem sabe. O afeto dedicado às imagens sagradas é um aspecto muito característico de algumas religiões.

Do ponto de vista psicológico, o símbolo começa a ser estudado com maior atenção, a partir dos estudos de Melanie Klein (1882-1960), pensadora que talvez seja o nome mais importante para o pensamento psicanalítico depois de Freud. Em sua obra “Da importância da formação de símbolos no desenvolvimento do ego” (1930) a autora propõe que a capacidade de simbolizar o seio é o protótipo de vinculo que pendurará na vida emocional. A questão é “o que fica quando o seio não esta?” Desse ponto de vista, cada experiência simbólica com a realidade habilita o “eu” a viver a falta.
Jacques-Marie Émile Lacan (1901-1981) propõe uma tríade interessante onde real, imaginário e simbólico se sucedem. Esse pensador francês valoriza a linguagem enquanto aquilo que estrutura o inconsciente. Lacan usa do ‘nome do pai’ como símbolo da palavra.
Wilfred R. Bion (1897-1979), psicanalista inglês, nascido na Índia, propõe a capacidade de vivermos o “O” da experiência, onde o aparelho psíquico fica livre da satisfação sensorial, sendo sustentado justamente pelo símbolo. Assim, a falta do seio real é o que leva a pensar.
Contudo, quando a falta que se sente é de um seio do qual se tem muito escassas as impressões afetivas, o ambiente se torna assustador e muito pouco fértil a simbolização.

A arte no simbolizar

O artista nos prova que a paisagem existe mesmo que não conheçamos a paisagem em-si, ou seja, nos reporta ao ambiente retratado, mesmo sem termos conhecido o ambiente real da paisagem. A Partir daí inicia-se certo processo. A realidade é percebida gerando a duvida, então, o imaginário é o que entra em funcionamento. Nesse ponto do processo (do imaginário), movimentos lúdicos são experimentados, sempre repletos de amor, ódio e consequentemente a fuga para o real. Dentro desta perspectiva Bion aprecia o espaço mental, tal como num processo de digestão daquilo que se obtém nas pesquisas feitas no mundo real. Assim, com a ajuda de um ambiente saudável, alguma hipóteses dentre aquelas ludicamente experimentadas, agora abre a possibilidade para a simbolização, através de um representante na realidade. Assim como no sonho também na arte, abre-se certo caminho nobre de acesso aos conteúdos inconsciente. Por funcionamento através da capacidade criativa, ilustram em sua representação os movimentos internos de fantasias.
Arte e o eu real

Em 1910 Freud publica “Leonardo Da Vinci e Uma Lembrança Da Sua Infância” e nessa importante obra analisa o artista através dos documentos de registro e também através de suas obras. Através de seu quadro ‘Sant’ Ana com Dois Outros’ analisa as duas mães fundidas num corpo só, formando um abutre com o manto que as envolve, ave sombria que aparecera num sonho de Leonardo di ser Piero da Vinci (1452-1519) colocando as penas de calda em sua boca. Essa questão é retomada em 1939 por Carl Gustav Jung (1875-1961), importante colaborador na construção do pensamento psicanalítico, em seu “O Espírito Na Arte e Na Ciência”, onde transcende o modelo cientifico propondo o vértice mitológico na analise. A arte de Da Vinci revela aspectos importantes de seus conflitos emocionais e verdades internas.
De qualquer modo, o modelo estético-artistico apresenta dessa forma, como revelação do mundo do verdadeiro eu, ou nas palavras de Donald Woods Winnicott (1979/1983), pediatra e psicanalista pós-kleiniano, temos aqui uma possibilidade de contato com o verdadeiro self que vive nos quartos dos fundos do falso self, construindo a partir da necessidade de sermos desejados pelo outro, alinhavando a idéia em concordância com Lacan que propõe que “o homem é o desejo do outro”.
Arte e sublimação

Freud (1910, p. 72) propõe o conceito de sublimação como capacidade de substituição de objetivos imediatos por outros desprovidos do caráter sexual, através do aprimoramento e valorização das realizações. A arte não é só simples instrumento ilustrativo dos processos internos, ela tem a propriedade de conduzir o espectador a um “estado de espírito” muito próximo da vivencia emocional da qual experimentou o artista. O artista constrói um ambiente emocional que envolve aquele espectador aberto à linguagem artística usada. Quantas vezes não nos pegamos segurando um “nó na garganta” ao ouvirmos uma canção, sem sabermos explicar o porquê do sentimento de tristeza que abita nosso peito?
A arte nos permite viver nossa “memória sonho”, como propõe Walter Trinca (1997), onde a sensorialidade perde o valor. Não podemos provar cientificamente quantos metros existe entre a cerca e a casa pintadas na tela, mas ficamos satisfeitos ao contemplá-la. O espaço e o tempo são freqüentemente inutilizados. Na arte, existe a relação estética do “sempre” eternizada na obra. Dispensamos a coisa em si que nos propõe Kant e nos encantamos pela representação da qual nos diz Freud.

Referencias:

Bion, Wilfred, Ruprecht. Transformações - mudança do aprendizado ao crescimento. Rio de Janeiro, Imago, 1983, trad. C.H.P. Affonso, M.R.A. Junqueira, L.C.U. Junqueira Fo.
(1970) Atenção e interpretação. Rio de Janeiro, Imago, 1973.
(1992). Cogitations. (Edited by F. Bion). London: Karnac Books.
Freud, S. Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas - Edição Standard Brasileira, IMAGO (1969-80)
Jung, C. Espírito Na Arte e Na Ciência, Petrópolis, Vozes, 1939.
KLEIN, Melanie, (1930) A importância da formação de símbolos no desenvolvimento do ego. in Contribuições à psicanálise. São Paulo, Mestre Jou, 1981.
Trinca, W. O espaço do homem novo. São Paulo, Papirus, 1997.
WINNICOTT, Donald, Da pediatria à psicanálise. São Paulo, Francisco Alves, 1982.
O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre, Artes Médicas, 1983.

Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Músico
Fone: 17-30113866
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segunda-feira, 5 de outubro de 2009

III semana psicologia 2009