quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Sobre Ser Amigo de Si Mesmo

A procura por tornar-se uma boa companhia pra si mesmo é sem dúvida uma tarefa inesgotável. Entretanto, a questão é: como ser amigo de si mesmo sem nunca ter tido um modelo pra isso? Quando falamos da possibilidade de um dialogo bem sucedido consigo mesmo, isso dependerá diretamente da possibilidade de ter mantido um dialogo saudável com o outro, anteriormente, não sendo provável que aconteça sem essa condição. 
O que acontece é que as pessoas costumam fugir das conversas com elas mesmas, por temerem um dialogo cheio de acusações e críticas pesadas. Isso, pois provavelmente foi só o que tiveram nas conversas com o outro e de tal modo, não encontram experiências de diálogos mais saudáveis na sua história de vida. Por conta disso o que acontece é um empobrecimento na autoconfiança e o dialogo interno se dá através de um clima hostil que tende a gerar transtornos mentais e até patologias graves. 
No processo psicoterapêutico isso fica muito claro, onde, através do vínculo estabelecido entre psicoterapeuta e paciente é possível para esse ultimo criar um modelo de vínculo consigo mesmo. Não se trata de uma proposta de completar o outro, mas fornecer modelos para um dialogo interno que proporciona a integração do eu que vive em conflito consigo mesmo.
Penso ser realmente muito importante desenvolver um dialogo interno que possa ser digno de confiança para nos orientar na busca pelas respostas da vida, mas não acredito que isso possa acontecer sem ter sido precedido pelo vínculo com o outro, como resultado dessa experiência.
Amizades sinceras e irrigadas de afeto servirão de modelos mesmo quando os amigos não estiverem mais juntos, por algum motivo. Isso ocorre através de uma recordação (re - novamente, cor- coração e dar - doar). Não saberemos como acolher a nós mesmo para sentirmo-nos bem sozinhos, sem que antes tenhamos aprendido isso através do acolhimento do outro. Imaginar que seremos capazes de lidar sozinhos com as questões que a vida nos traz faz parte de uma ilusão narcisista. Só aprenderemos a ser uma boa companhia para nós mesmos tendo um bom companheiro para instruir-nos nisso e na ordem natural das coisas isso seria papel dos pais, porém pode ser possível encontrar esse modelo pra além desses vínculos primários. 
Estou de acordo que as respostas estão sempre no mundo interno, entretanto é necessário que exista uma relação com o mundo (externo) para que isso possa se realizar. A psicanálise nos mostrou de forma clara que a personalidade é formada, nutre-se e se desenvolve através dos vínculos bem sucedidos com o outro e por outro lado, padece na medida em que esses vínculos fracassam.
A qualidade do dialogo que podemos travar com nós mesmos depende de um dialogo estabelecido com o outro, sendo que antes disso não teremos recursos de integração do eu o suficiente para essa ordem tão nobre e elevada das experiências psíquicas. Na realidade só iniciamos o processo do pensar a partir da entrada do outro, antes disso o que fazemos é simplesmente imaginar. 






Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866
renatodmartino@ig.com.br
http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com

sábado, 6 de setembro de 2014

O Saudável e o Prazeroso


É incansável a pesquisa na busca por modelos que possam representar as coisas da alma. Penso que não podemos discutir, com propriedade, qualquer outro assunto, se antes não pudermos falar na responsabilização do ser humano por si mesmo e pelo mundo. Discutirmos assuntos como a preservação da natureza, a ética na política, a violência nas ruas (seja da policia ou do crime), é sempre mais produtivos (se é que de outra forma se produz) quando podemos sinceramente nos responsabilizar pelo menos por nós mesmos.
Insisto nisso, pois apesar de sermos animais pensantes e até nos diferenciando dos outros animais por isso, a própria capacidade de pensar ainda é muito pouco eficiente (diria até embrionária) no humano atual. Humanos que na realidade, age muito mais por suas defesas, do que por demandas que puderam ser pensadas (haja vista as atrocidades que hoje já não têm mais hora para passar nas televisões ou redes de comunicação na internet). Sinto extrema dificuldade em falar e escrever sobre esse tema, sem experimentar uma estranha sensação de estar sendo “chato”, por tocar em algo desagradável e que, a maioria das pessoas, prefere não mexer, e quem dirá olhar com cuidado.
Podemos até confundir esse texto com um discurso intelectual, mas o assunto aqui tratado está muito mais próximo de questões emocionais na busca pela maturidade do que de qualquer construção da intelectualidade. Seguindo esse caminho das pedras, penso que nos seria útil distinguir duas ideias que amiúde se confundem e até parecem sinônimos, se não atentos estivermos.
Porém, se pudermos manter certo vértice especial de pensamento, perceberemos que os termos em que, proponho o pensar, proporcionam um encontro antagônico. Quero propor que, nesse ponto de vista, algo prazeroso não é necessariamente e ao mesmo tempo saudável, e, vice-versa. Na verdade, a psicanálise nos mostrou, com muita propriedade, que a mente só pode se expandir na medida em que podemos abrir mão de certos prazeres, em nome do pensamento, até para que possamos perceber o que realmente é saudável pra nós.
Para mantermos esse ponto de vista, teremos que lançar mão do conceito de símbolo ou da capacidade de simbolizar, recurso que é criado na tentativa de preencher o vazio da realidade não sensorial. Quando o real não está ao alcance sensorial, o que sustenta a alma é um pensamento simbólico. Sem o recurso do símbolo, ou seja, sem a capacidade de simbolizar, o que se deseja e parece ser saudável será sempre o que é prazeroso e não existirá aí qualquer chance de diferenciação entre as duas ideias.

Então poderíamos cogitar a hipótese de que: “aquilo que é saudável caminha mais próximo da ausência do prazer, pois, quando a satisfação do prazer sensorial se faz predominante, muito pouco se produz no pensamento simbólico, que é o que nos liberta do concreto (apreensível pelo sensorial ou órgãos dos sentidos), o que nos faz real e nos permite reconhecer a própria realidade (o que poderíamos chamar de saudável).”









Capítulo do livro Para Além da Clínica.

Renato Dias Martino - 1. ed. São José do Rio Preto, São Paulo: Editora Inteligência 3, 2011.




sábado, 16 de agosto de 2014

Pensando o pensar

Mas sobre qual experiência estamos aqui cogitando, quanto ao “pensar”?
Se existe algum sentido em afirmar que fora do domínio da experiência, não pode existir aprendizado, então temos aqui, como ponto de partida para se entender o processo que compreende o desenvolvimento mental, ou seja, como ocorre a expansão do pensamento.
Nas tentativas de examinar atentamente o que chamamos de “pensar”, estaremos cogitando sobre a capacidade da qual os humanos se gabam perante os outros animais, mesmo, sendo muito pouco habilidosos, no uso deste recurso mental.
Digo isso, apoiado no pressuposto de que esses humanos, que somos nós, ainda fazem a maior parte das suas escolhas, por motivos, dos quais não puderam ser submetidos a um pensamento atido e dedicado. Fazendo isso por necessidades extremamente primárias, onde, na maioria dos casos, o pensamento não tem acesso.
O humano escolhe, sem pensar, onde a urgência se pronuncia. Escolhe sem pensar, onde a necessidade de satisfação imediata não permite tolerar frustrações.

Em um modelo muito primitivo de funcionamento mental, podemos encontrar o modo como os seres humanos contemporâneo fazem suas escolhas. Mesmo assim, tentaremos, aqui, fazer o possível para angariar o máximo de recursos nessa breve tarefa de pensar o “pensar”.

A palavra pensar parte do Latim PENSAREA, que diz respeito a pesar, ou avaliar o peso.

Aquilo que chamamos de “pensamento” faz parte do processo de construção do espaço interno mental. Esse espaço interno mental serve a várias tarefas, entre elas a de dar conta dos conteúdos internos como é o caso das emoções e também conter aspectos colhidos na realidade. Pois bem, mas que tipo de benefício poderia nos trazer o exercício e aprimoramento da habilidade de pensar?
Para Freud (1856-1939), o pensar tem função fundamental no adiamento da ação, resultado do impulso. É o que propõe nas Formulações Sobre os Dois Princípios do Funcionamento Mental, publicado em 1911: 
“o pensar, foi dotado de várias características, entre elas a que torna possível ao aparelho mental tolerar uma tensão intensificada de estímulo, enquanto o processo de descarga era adiado.”

O teste da realidade e seus recursos foram criados pelo aparelho psíquico com intuito de, viabilizar o confronto das fantasias com as informações advindas da realidade. Assim, logo percebemos o benefício de expandir essa capacidade. Quero propor que pensar é também capacitar-se no desempenho da vida, no que diz respeito à realização de mundo. É a criação do continente mental que sustenta o processo do pensar, sem que se entregue antes à ação. É quando a percepção, feita através dos órgãos dos sentidos, indica a necessidade de ação, a capacidade de pensar pode, adiar essa ânsia. Isso, até que se perceba com mais acuidade a realidade. 
Como vimos, o significado semântico da palavra nos orienta com grande ilustração e avaliamos pelo pensamento, o peso das ideias. Essa é talvez a primeira das funções do pensamento, ou a mais básica delas. A partir da capacidade em adiar ações inicia-se, uma série de expansões na perspectiva dos processos mentais.
A psicanálise nos mostrou com muita propriedade que só podemos aceitar no mundo real aquilo que já existe no mundo interno, ou seja, dentro de nós. Criamos espaço em nossas mentes e, só depois, conheceremos a realidade.
A capacidade de reconhecimento do mundo interno é o encontro e o reconhecimento de fantasias, medos, desejos apaixonados, ódios e tudo mais que está em nosso mundo interior. São características do incerto, do informe. Nosso mundo interno nunca é bem definido e sempre é pobre de referencias da razão. Por conta disso é um terreno escuro, sombrio e cheio de ameaças. No entanto, só buscando conhecer nosso eu interior é que podemos distingui-lo do que está fora e que chamamos de realidade. O estado emocional do “eu” (dentro) tem menor chance de se abalar em situações e ambientes emocionalmente danosos (fora), isso se estiver se dedicando a um reconhecimento do si mesmo. O pensamento é, por assim dizer, a capacitação do “eu” (compreendendo o mundo interno) na ligação afetiva com o mundo (externo).

Capítulo do livro Para Além da Clínica.

Renato Dias Martino - 1. ed. São José do Rio Preto, São Paulo: Editora Inteligência 3, 2011.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Ainda sobre a verdade


Não há dúvida quanto às consequências desastrosas em se levar uma vida a virar as costas para a verdade, ou sem dispensar uma boa cota de energia na sua busca. Assim como o corpo físico se alimenta de comida a alma é nutrida pela verdade. Entretanto, é gerado um turbilhão de emoções na tentativa de introdução de qualquer que seja a verdade (interna ou externa). Esses conflitos emocionais promovem desassossego no funcionamento mental. Portanto, defensivamente, no intuito de evitar ou mesmo adiar esse desequilíbrio, amiúde, a mente é tentada a se livrar da verdade. Desenvolvendo certa forma de hostilidade, tanto do eu para com o outro, quanto do eu para com o si mesmo. 
Dessa maneira é fundamental que as tentativas de introdução da verdade, na tomada de consciência sobre esse fato, sejam feitas associadas à outros elementos, como os de tolerância, até por que todo aquele que não tolerou a dúvida ficou com meia verdade. Outro elemento fundamental para a tomada de consciência sobre a verdade é o amor. Qualquer que seja a forma de busca pela verdade que não seja com, e pelo amor, logo indica um modelo tóxico. 
Assim como sugere Immanuel Kant (1724 —1804) , filosofo prussiano: verdade sem amor é crueldade. O amor e a
 Immanuel Kant
(1724 —1804)
tolerância resultarão na fé, indispensável na busca pela verdade. Essa busca tem um caminho incerto e cheio de curvas. Aquele que busca compulsivamente pela certeza e não tolera o “erro”, não conhecerá a fé. Sem esperança o sujeito fica impedido de aprender sobre a verdade através das experiências.






Prof. Renato Dias Martino
Fone: 17-30113866
renatodmartino@ig.com.br

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sábado, 19 de julho de 2014

A Importância do Ambiente - Prof Renato Dias Martino



Qual é a importância do ambiente na busca pelo reconhecimento do eu interior?
Total!
Quanto mais o ambiente for ameaçador menos contato com o eu interior eu vou ter.
Faz sentido?
Porque eu vou estar direcionado para o meu eu exterior, para que possa me proteger.
“Engrossando a casca” — com Prof. Renato Dias Martino.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Dicas de filmes - Noé

Um filme épico, que recebeu duras críticas das classes religiosas, por discordância quanto à fidelidade na história bíblica. Contudo, apesar disso, o filme trata-se de uma obra muito bem realizada que proporciona chance de grande reflexão sobre o que o ser humano vem fazendo hoje, com o planeta e ainda, como vem conduzindo seus vínculos na contemporaneidade. 

Russell Crowe é Noé que vive com a esposa Naameh, interpretado por Jennifer Connelly e os filhos Sem (Douglas Booth), Cam (Logan Lerman) e Jafé (Leo McHugh Carroll) numa terra destruída e estéril. Os humanos descendentes de Cain caçam e trucidam uns aos outros, vivem num caos. Um dia, Noé sonha com uma mensagem do Criador e busca encontrar seu avô Matusalém, interpretado por Anthony Hopkins e descobre que ele tem a tarefa de construir uma colossal arca, para abrigará os animais de um dilúvio que extinguirá a vida na terra e acabará com a raça humana.


sábado, 21 de junho de 2014

Grupo de Estudo



Grupo de Estudo

Uma visão introdutória dos conceitos psicanalíticos, num formato acessível ao leigo interessado no assunto. Oportunidade de reflexão para o estudante aspirante a psicoterapeuta. Não obstante o grupo se mostra útil para o psicanalista dedicado a prática clínica, em sua tarefa incessante de releituras da própria psicanálise.

Fone: 17-30113866
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quinta-feira, 12 de junho de 2014

Da ilusão como recurso fundamental

Em 2009 escrevi sobre os motivos que levariam o sujeito a buscar um processo de psicoterapia. Na ocasião propus reflexão à dedicação que se pode ter “a momentos onde a concretude das coisas simplesmente perde o valor”. Levanto a hipótese de que “a humanidade parece enfrentar um período da historia onde a infertilidade (para não dizer esterilidade) na produção do pensamento é algo preocupante”.

 Pretendo novamente trazer a baila tal cogitação. Cinco anos se passaram e a realidade nos mostra que a capacidade de pensar sem dúvida continua sendo certa habilidade muito deficitária no ser humano contemporâneo, que parece agir mais e pensar muito pouco. Sendo assim, a ilusão passa a ser muito mais frequente que a tomada de consciência da realidade.
O ser humano se vê engajado de criar expedientes que possam mantê-lo dentro das ilusões. Vem se especializando cada dia mais na tarefa de criar mecanismos que permitam mantê-lo iludido a maior parte do tempo possível. Na impossibilidade de vinculação saudável, existe então uma tentativa que aposta na substituição de um real suprimento de necessidades básicas por artifícios vazios de experiências realmente nutridoras e escassas de qualidade profícuas, que ofuscam e adiam esse imperativo de satisfação fundamental que ora está impedido de suprir-se.
Ilusões são sedutoras por serem prazerosas e sugerirem um afastamento dos desconfortos, no entanto são pobres e não estão a serviço da nutrição da mente.

Pressupondo-se de certa demanda básica a ser suprida e diante da impossibilidade no suprimento adequado, cria-se então certa ilusão substitutiva dessa necessidade. Foi o caminho da qual a psicanálise nos ensinou.




Bem, é necessário nos lembrarmos de que as ilusões são componentes do ciclo de desenvolvimento mental, entretanto permanecer demasiadamente dentro delas passa a se revelar um risco para o mesmo processo de desenvolvimento. A situação torna-se realmente danosa quando o sujeito aferra-se a isso de maneira tão dependente que fica obrigado a construir um sistema de justificativas racionais para que possa explicar sua permanência nos domínios dessa fantasia. Um subterfúgio por substituição de algo que na realidade nunca poderia ser substituído efetivamente, torna então do sujeito um prisioneiro. Quando uma criança chora por que perdeu a chupeta, sua angustia não diz respeito aquele pedaço de borracha, mas à aquilo que a angustiava antes de conhecer a chupeta.
Contudo, ainda que o exercício do pensar seja recurso fundamental para a expansão de uma mente saudável, proporcionando maior capacidade afetiva, o direito de conservar sua ignorância é reservado a cada ser humano. Até porque o que o leva manter-se ignorante de certa verdade, é o fato de não ter encontrado algo que valesse a pena, na realidade externa, com o outro.







Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
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quarta-feira, 11 de junho de 2014

Dicas de filmes - Pelos Olhos de Maisie (What Maisie Knew, 2012)



Filme baseado no belo romance que é uma das mais importantes obras de Henry James (1843  1916), publicado em 1897.
Esse belo filme retrata a história da bela garotinha de sete anos Maisie, interpretado por Onata Aprile, que em meio ao perturbador divórcio dos pais, tenta sobreviver. 
Henry James (1843  1916)
Por um lado sua mãe, Susanna (Julianne Moore), uma cantora de uma banda de rock, do outro seu pai, Beale (Steve Coogan), um influente negociador de obras de arte; cuidam de suas vidas particulares sem serem capazes de perceber o drama da menina. Entretanto, a menina acaba descobrindo um novo sentido para sua vida e para a palavra "família".