segunda-feira, 11 de maio de 2026

O OUTRO NÃO EXISTE - Prof. Renato Dias Martino

 


Dentro do âmbito emocional, o outro não existe. Tudo aquilo que se possa viver num relacionamento com o outro é uma extensão daquilo que foi possível viver consigo mesmo.

Nem mais, nem menos. A forma como o sujeito se relaciona consigo mesmo transborda e se expande no vínculo que ele estabelece com o outro. Quando alguém está de mal consigo mesmo, estará de mal com todos à sua volta. Aquele que não aprendeu a respeitar a si mesmo, na melhor das hipóteses pode vir a ser educado, mas não conseguirá respeitar o outro. O respeito que se consiga tem com o outro é sempre uma extensão do respeito consigo mesmo.
O sujeito não se importará com o que o outro julga sobre ele, até que isso coincida com o que ele próprio já vinha se julgando. Só levará em consideração aquilo que confirma a sua autoimagem. Isso não tem a ver com a sua realidade, mas sim com o que ele imagina que seja. Quando o sujeito confia em si mesmo, ele se torna capaz de se autoreconhecer e, se o outro falar o contrário, não se importará e descartará o que o outro diz sobre ele. Contudo, se não estiver confiando em si próprio, por mais que o outro reconheça suas virtudes, ele não conseguirá considerar esse reconhecimento e permanecerá preso ao seu autojulgamento. 
A possível concórdia que se possa ter com o outro depende do ambiente interno de concórdia, da concórdia consigo mesmo. Se não se está em concórdia consigo mesmo, não se concordará com ninguém. Logo, para o arrogante, discordar é um prazer. “A discórdia, assim, não está relacionada com quem supostamente está com a razão ou quem não a tem, mas com o objetivo de livrar-se da tensão gerada pela discórdia interna. Portanto, é possível afirmar que o arrogante tem prazer em discordar.” (Martino, 2018) Alivia-se o conflito interno quando se projeta a discordância no discurso do outro. Ou ainda, por não concordar consigo mesmo e, consequentemente, não se sentir confiável, o sujeito aceita passivamente o que o outro propõe, sem sequer refletir. 
Quando Jesus Cristo propõe “ama o próximo como a ti mesmo”, parece-me que trata justamente disso. Não há como amar o outro além ou aquém do que se consegue amar a si próprio. O funcionamento afetivo saudável (amar o outro) é desdobramento de um funcionamento emocional saudável, no qual o amor-próprio é o fundamento. Esse é o alicerce da verdadeira ética e o que a diferencia de uma mera regra moral. “A moral leva o sujeito a tratar o outro com educação, para que o outro também o trate assim; já a ética é o ato de respeitar o outro, assim como se respeita a si próprio.” (Martino, 2025) Portanto, o outro não existe senão como extensão daquilo que conseguimos alcançar na relação que mantemos conosco. 
Toda a dedicação que se possa ter com o outro parte do cuidado que dedicamos a nós mesmos. No entanto, não há como aprender a cuidar de si mesmo senão pelo cuidado que tiveram conosco. É impossível alegrar alguém que esteja descontente consigo mesmo. Aquele que está descontente consigo mesmo não se alegrará com nada que venha do outro. Por outro lado, quando a paz interior se torna possível, tudo ao redor passa a ser a extensão disso.
No princípio, o “eu” não existe; ele passa a existir através do cuidado dedicado do outro, que exerce esse cuidado como uma extensão da dedicação para consigo mesmo. Donald Woods Winnicott (1896-1971) propôs a ideia de que, no início da vida do bebê, a mãe suficientemente boa não é outra pessoa, mas sim o próprio ambiente. Winnicott afirma que "não existe essa coisa chamada bebê", ou seja, um lactente nunca existe sozinho. O bebê é parte integrante de um ambiente de cuidados sob responsabilidade da mãe, que, para tanto, precisa estar resguardada pela proteção e provisão do pai. No início da vida, o bebê não se diferencia do meio ambiente (a mãe). O colo, o cuidado e o ambiente proporcionado pela mãe são, para o bebê, extensões de si mesmo. Conforme o desenvolvimento se realiza de maneira bem-sucedida, o bebê passa a existir.

Esse modelo de extensão nunca deixa de reger nossa vida emocional, mesmo na vida adulta. Após a internalização do ambiente externo, passamos a dispor de um ambiente interno que orientará nossa vida emocional. Nesse ponto do desenvolvimento, o outro deixa de existir e o ambiente interno é o que guia nosso funcionamento. Passamos a nos relacionar com o outro nos moldes e na medida do relacionamento com nós mesmos. Na medida em que as configurações desse ambiente interno e o funcionamento emocional entrem em colapso, existe chance de reparação. Contando com um ambiente externo que propicie acolhimento — no mesmo modelo proposto por Winnicott — as reparações tornam-se possíveis. O processo psicoterapêutico pode ser, por excelência, o recurso para que isso ocorra.


Martino, R. D. Acolhida em Psicoterapia, 2018.

Martino, R. D. Esboço de Expansão: Escolhas, Vontade e Desejo, 2025.

WINNICOTT, D. W. O Brincar e a Realidade. 1971.

WINNICOTT, D. W. Os processos de Maturação e o Ambiente Facilitador. 1965.











Prof. Renato Dias Martino

Inscreva-se no canal: https://www.youtube.com/user/viscondeverde/videos


Nenhum comentário: