Mostrando postagens com marcador ignorância. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ignorância. Mostrar todas as postagens

domingo, 19 de outubro de 2025

RECONHECENDO A REALIDADE - Prof. Renato Dias Martino


O MAIS SAUDÁVEL

 

Eu costumo dizer que o sujeito que procura psicoterapia normalmente é o sujeito mais saudável da família, porque na realidade é o sujeito que conseguiu perceber e reconhecer a verdade, e por conta disso começa a sentir o desconforto desta percepção e deste reconhecimento. Logo, ele procura a psicoterapia para tentar lidar com isso. Então, ele é o sujeito mais saudável, porque todos os outros estão envolvidos com suas ilusões, com suas defesas e se virando com suas defesas. Defesas que os afastam da realidade. Isso fica muito claro, não só dentro desse ambiente emocional e afetivo, mas dentro da sociedade. Quando um sujeito é capaz de reconhecer a realidade e se manifesta quanto essa realidade, ele é apedrejado por todos que estão iludidos e estão muito bem confortáveis na sua ilusão.

 

CAOS ALUCINADO

 

Existe uma conveniência em se manter iludido. Existe uma conveniência em negar a realidade, negar a verdade, porque o sujeito tira um proveito disso. Quanto mais caótico estiver, mais ele vai poder agir ilicitamente, mais ele vai poder agir de maneira insana e tirar proveito disso. Porque se responsabilizar dá trabalho! Reconhecer, aprender a respeitar e se responsabilizar é muito difícil. Não é para qualquer um. A maioria prefere estar inserido num caos alucinado para que ele não precise reconhecer nada, respeitar nada e muito menos se responsabilizar. Isso tanto dentro das famílias quanto na sociedade. Na política isso fica muito claro.

 

DESACORDO

 

Isso é verdade, tanto nos grupos externos quanto no grupo interno. Parte do sujeito reconhece a verdade, reconhece a realidade e as outras partes dele se revoltam contra esta parte e aí se instala o caos interior. Assim como no Mito da Caverna, que o sujeito saiu, viu o mundo externo e voltou e quis contar para os caras lá dentro o que que estava acontecendo lá fora e ele foi ridicularizado. Todo mundo falava: "Do que que você tá falando, cara? Que mundo externo que lá fora?”

 

TIRAR PROVEITO DO CAOS

 

E também nos grupos externos. Na política é isso que acontece. Quando aparece um querendo trazer a verdade, ele é apedrejado. Porque existe todo um sistema caótico, onde existe muita gente tirando proveito disso. Quanto mais caótico, melhor. E essas pessoas que estão tirando proveito disso, acabam tendo um poder muito maior do que o sujeito que porventura venha reconhecer a realidade e se manifeste quanto a isso. Porque o sujeito que está tirando proveito do caos, ele é um sujeito inconsequente. Então ele vai “tudo ou nada” muito facilmente. Enquanto o sujeito está reconhecendo a verdade, ele começa a perceber que ele tem a perder. E aí, é uma briga desleal.

 

OFURÔ DE COCÔ

 

O sujeito está mergulhado num ofurô extremamente luxuoso, só que cheio de cocô. Confortável, quentinho, garantido. Não vai faltar cocô, porque cada um que se aproxima vai jogar um pouco ali dentro. E ele está ali confortavelmente podre, até porque, sair dali vai dar trabalho. Como é que ele vai sair dali? Todo sujo, sem roupa, nu? Como é que ele vai se virar cheirando mal? Então é melhor ele se manter ali.

 

RESPONSABILIDADE

 

A questão fundamental é a capacidade de se responsabilizar. Nós vivemos numa sociedade em que ninguém se responsabiliza por nada. Todos estão procurando um culpado, mas ninguém se responsabiliza por nada. Num ambiente onde as pessoas não são capazes de se responsabilizar, está todo mundo procurando culpado, está todo mundo tentando investigar a situação para ver quem é o culpado, mas ninguém se responsabiliza, porque responsabilidade não é uma escolha, é uma capacidade. Ou o sujeito é capaz, ou o sujeito desenvolveu esta capacidade, ou não. Não tem como você imputar responsabilidade. Responder por alguma coisa é ser capaz de se responsabilizar por aquilo. Se você não é capaz, você vai se sentir culpado.

 

PESQUISA

 

A questão é que a psicanálise não é um método investigativo, não é um método de pesquisa. Ou você é um pesquisador ou você é um acolhedor. Não dá para ser duas coisas ao mesmo tempo, porque um pesquisador tem um projeto de um objeto que ele quer investigar e quer pesquisar. O psicanalista não tem um objeto que ele quer pesquisar. O psicanalista, ele não tem um objetivo de pesquisa. Ou você é acolhedor daquilo que vier, sem expectativa, ou você é um pesquisador de alguma coisa que você pré-estabeleceu. Aí você vai fazer um projeto de pesquisa e este projeto vai ser implementado. A psicanálise não pode estar dentro desta função. O Freud nunca fez isso. O Freud nunca propôs um projeto de pesquisa. Ele escreveu a partir das experiências que ele foi conseguindo na sua clínica.

 

CERTEZAS

 

Nós buscamos certezas. Nós buscamos qual é a área do pensamento humano que pode oferecer certezas. A ciência te oferece certezas. A psicanálise não é uma ciência porque não oferece certezas. Quem diz que eu defendo que seja? O que que você chama de ciência? Que ciência que realmente está com a verdade? Que que você anda acreditando? Qual é a conveniência de você acreditar nisso aí que você diz que é ciência? Quem foi que desenvolveu essa ciência? Quem patrocinou esse estudo?

 

IGNORÂNCIA

 

A maior virtude de um psicanalista real é a consciência da sua própria ignorância. Então, nós precisamos, enquanto psicanalistas, continuar sendo psicanalistas mesmo fora do consultório. E este é o princípio deste psicanalista que você continua sendo: a consciência da sua ignorância. Logo, sempre sendo um aprendiz, aprendendo com cada experiência. Não é sair interpretando todo mundo, não é sair dizendo que você é o que sabe tudo, não é sair por aí dizendo que você é o conhecedor da mente humana, ou sair dando conselhos. Isso não é psicanálise. Não é função de um psicanalista dar conselhos para ninguém, mas é função de um psicanalista tolerar a sua ignorância.

 

CONHECIMENTO

 

Muitas vezes a gente consegue certo conhecimento e para conseguir este conhecimento a gente batalhou muito, estudou muito e aí, a gente se apega a esse conhecimento e não quer largar dele. E aí, a gente tenta enfiar este conhecimento em tudo na vida, porque foi tão difícil eu conseguir esse conhecimento. Agora tudo tem que ser isso.

 

ESTUDOS

 

Ah, mas eu estudei muito Freud. Ah, mas eu estudei muito Melanie Klein. Estudei muito Bion. Estudei muito Winnicott. Agora, tudo tem que ser isso, porque eu sou doutor nisso. Eu gastei um dinheirão, gastei um tempo, gastei uma energia enorme nisso e agora, ai de você de falar que não é isso.

 

TÍTULO

 

Muitas vezes o sujeito nunca foi acreditado por ninguém, ninguém confiou nesse sujeito. Ele não confia em si mesmo. E ele entra numa universidade, começa a estudar muito, consegue o título de doutor e agora ele vai se apegar a isso, porque isso vai trazer para ele uma certa segurança de existir com aquilo ele pode se afirmar perante o mundo. E aí, ele tem um convite de se tornar um grande arrogante, porque ele conseguiu ser visto pelo outro a partir do título.

 


sexta-feira, 17 de outubro de 2025

DA DÚVIDA À RESPOSTA - Prof. Renato Dias Martino

 


Enquanto o sujeito busca por respostas, a vida se propaga na dúvida.
A capacidade de tolerar dúvidas é característica da maturação emocional.
Certezas são ilusões confortáveis para aqueles que ainda não aprenderam a respeitar as dúvidas.
Quando é possível tolerar a incerteza inerente ao fluxo da vida, percebemo-nos grandes ignorantes quanto à realidade.
À medida que aprendemos a reconhecer e respeitar o mistério da vida, passa a ser possível nos responsabilizarmos por nossa ignorância —
e isso nos torna inacabáveis aprendizes.
O sujeito que age, sempre seguro daquilo que imagina saber, é constantemente convidado à arrogância.

Aquele que não é consciente de sua ignorância tende a ter atitudes a partir do que imagina ser sabedor, agindo, assim, com estupidez.






Prof. Renato Dias Martino

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

MATURIDADE, DÚVIDA E ILUSÃO - Prof. Renato Dias Martino


Quando funcionamos bem no âmbito emocional, torna-se possível exercer plenamente a função afetiva na relação com o outro.


Tolerar desconfortos é a base de um bom funcionamento emocional.

Desenvolvemos a capacidade de tolerância a partir de um vínculo bem-sucedido com o outro, e a possibilidade de estabelecer e manter um vínculo saudável depende dessa mesma capacidade.

O bom funcionamento emocional favorece o desenvolvimento da maturidade nessa esfera, onde certezas são impraticáveis.

Quanto mais desenvolvida for essa maturidade, maior será nossa capacidade de reconhecer, respeitar e nos responsabilizarmos por nossa ignorância em relação à realidade.


A maturidade emocional manifesta-se na capacidade de tolerar a dúvida; a estupidez, na insistência em certezas.

A ignorância é uma condição inerente a cada um de nós; a estupidez é a recusa em admiti-la. Não se pode exigir que alguém reconheça a realidade, nem censurar quem ainda se alimenta de ilusões.

Quanto ao reconhecimento da realidade, não há escolha: ou se está sendo capaz, ou não.

A saber, essa capacidade é transitória, depende do momento, das condições emocionais internas ou ainda das condições do ambiente emocional e afetivo.
Logo, a expressão “estar sendo capaz” é mais adequada do que a afirmação “ser capaz”.

Cada um compreende apenas o que lhe é útil. Não há como se libertar de uma prisão que não se reconhece como tal.

A transformação verdadeira brota do íntimo, quando a vida mescla dor e cuidado.

Quando as ilusões se desfazem e a insegurança emerge, o acolhimento do outro torna-se o sopro essencial para que o sujeito renasça.