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segunda-feira, 1 de junho de 2026

COMPAIXÃO OU CONFUSÃO - Prof. Renato Dias Martino


Muitas vezes podemos confundir compaixão com o sentimento de pena, no entanto, estamos tratando de elementos distintos. Aquele que sente pena se coloca em um lugar superior ao daquele que é supostamente digno de dó. Com isso, pode-se gerar mais humilhação e criar um sentimento de inferioridade no outro, já que destaca a adversidade ou a fragilidade. Já a compaixão reconhece que todos somos vulneráveis em alguma medida e de alguma forma.

A palavra compaixão tem origem no latim compassio, de compati (“junto”, mais pati, “sofrer”), ou ainda do grego, pathe (“sentimento”). A incapacidade de compaixão é uma das piores características que um ser humano pode vir a ter. E isso, na melhor das hipóteses, pode se tornar um terreno fértil para o desenvolvimento do sentimento de pena. A inaptidão para a compaixão revela o que há de mais cruel num sujeito. Na verdade, tudo aquilo que constitui o funcionamento emocional e se desdobra nas relações afetivas parte da qualidade da relação que se tem consigo mesmo. Quem não tem compaixão por si mesmo, tratando-se com grosseria e até com hostilidade, perde o essencial, e isso se estende à relação com o outro.

A compaixão é um elemento da psicanálise, dentro da perspectiva do acolhimento. Aquele que procura atendimento em psicanálise é denominado paciente, e o é justamente pelo mesmo significado etimológico. Sendo que no latim pati é “sofrer” e no grego pathe é “sentimento”, paciente é o sujeito do sofrimento ou do sentimento. Porém, o analista precisa estar funcionando emocionalmente de forma saudável, acolhendo a si mesmo, tendo compaixão consigo mesmo; senão, o que vai acontecer é uma confusão. O analista pode se confundir (com-fundir) com o paciente na sua dor. Ainda assim, essa confusão não acontece somente no âmbito da dupla analítica, mas na vida cotidiana ocorre amiúde.










Prof. Renato Dias Martino












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segunda-feira, 13 de outubro de 2025

PARTEIRO DE PENSAMENTOS - Prof. Renato Dias Martino

 

Acolhimento é vínculo; sendo assim, não há como acolher aquele que não esteja disponível a ser acolhido. Uma psicanálise verdadeira tem a função fundamental de acolher aquele que esteja disponível para tanto. O acolhimento é a configuração de certo ambiente emocional confiável o suficiente que propicia a emersão de elementos que necessitam ser reconhecidos. Essa predisposição à psicanálise pode ser chamada de analisabilidade. Pela intuição de Wilfred Bion, podemos cogitar sobre certos pensamentos que se alojaram nesse sujeito e que agora carecem de ser pensados.

Um psicanalista é um parteiro de pensamentos — mas, se o paciente não estiver “gestante”, não há o que se fazer. Um psicanalista real é um parteiro de pensamentos que não são do paciente, mas que estão ali sendo gestados. A função do psicanalista é a de acompanhar e cuidar do nascimento de ideias e insights a partir de elementos que o paciente carrega em seu mundo interno, muitas vezes sem perceber. Assim como um parteiro não gera o bebê, mas cuida do seu nascimento, o psicanalista não impõe verdades: ajuda o paciente a trazer à luz o que já está em gestação.

No entanto, se o paciente não estiver “gestante”, o processo não pode ocorrer. O trabalho psicanalítico deve ser colaborativo: exige entrega mútua, confiança e um compromisso com o desconhecido. O “bebê” — ou seja, o conteúdo gestante no paciente — pode ser frágil, confuso ou até doloroso ao nascer, mas é no acolhimento cuidadoso desse processo que a transformação pode vir a acontecer.

Por outro lado, uma intervenção brusca, desrespeitosa ou mesmo precoce pode vir a provocar um aborto do processo. Lembrando que, diferentemente do parto de um bebê físico, no âmbito do parto de pensamentos não existe cesariana.

 









Prof. Renato Dias Martino

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

MATURIDADE, DÚVIDA E ILUSÃO - Prof. Renato Dias Martino


Quando funcionamos bem no âmbito emocional, torna-se possível exercer plenamente a função afetiva na relação com o outro.


Tolerar desconfortos é a base de um bom funcionamento emocional.

Desenvolvemos a capacidade de tolerância a partir de um vínculo bem-sucedido com o outro, e a possibilidade de estabelecer e manter um vínculo saudável depende dessa mesma capacidade.

O bom funcionamento emocional favorece o desenvolvimento da maturidade nessa esfera, onde certezas são impraticáveis.

Quanto mais desenvolvida for essa maturidade, maior será nossa capacidade de reconhecer, respeitar e nos responsabilizarmos por nossa ignorância em relação à realidade.


A maturidade emocional manifesta-se na capacidade de tolerar a dúvida; a estupidez, na insistência em certezas.

A ignorância é uma condição inerente a cada um de nós; a estupidez é a recusa em admiti-la. Não se pode exigir que alguém reconheça a realidade, nem censurar quem ainda se alimenta de ilusões.

Quanto ao reconhecimento da realidade, não há escolha: ou se está sendo capaz, ou não.

A saber, essa capacidade é transitória, depende do momento, das condições emocionais internas ou ainda das condições do ambiente emocional e afetivo.
Logo, a expressão “estar sendo capaz” é mais adequada do que a afirmação “ser capaz”.

Cada um compreende apenas o que lhe é útil. Não há como se libertar de uma prisão que não se reconhece como tal.

A transformação verdadeira brota do íntimo, quando a vida mescla dor e cuidado.

Quando as ilusões se desfazem e a insegurança emerge, o acolhimento do outro torna-se o sopro essencial para que o sujeito renasça.