Mostrando postagens com marcador Depressão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Depressão. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

DO AUTOEROTISMO AO AMOR PELO OUTRO - Prof. Renato Dias Martino


AUTOEROTISMO

Hoje nós temos aí, pessoas com um dom extremamente elevado de diagnosticar as pessoas, de apontar os dedos e trazer com precisão inúmeros dados, mas nós psicanalistas, precisamos ser humildes o suficiente para admitir que a gente não sabe nada e que a gente precisa viver essas experiências junto com o paciente. A questão é o sujeito que só consegue se satisfazer através da masturbação. Então, a gente está falando aí, da impossibilidade de ter passado do autoerotismo para o narcisismo primário. O que é o autoerotismo? É quando o sujeito se satisfaz consigo mesmo, por mais que seja através do corpo do outro, mas ele ainda tem uma autossatisfação, ele não consegue admitir o outro. Ele não inclui o outro. Então, ele não conseguiu fazer essa transição do autoerotismo para o objeto externo, para o outro. Então, ele ainda ficou fixado nisso.

NARCISISMO PRIMÁRIO

Como se dá a passagem do autoerotismo para o narcisismo primário? Então, Freud vai colocar em 1914, SOBRE O NARCISISMO: UMA INTRODUÇÃO, que, para que possa haver o narcisismo primário, precisa ter havido uma ação a mais. Qual é essa ação a mais? É a apresentação do objeto que é a mãe. A mãe precisa entrar na relação, porque se a mãe não entra na relação ele fica preso no autoerotismo. Para a mãe se apresentar e para que o sujeito possa reconhecer esta mãe, ela precisa chegar de mansinho. Aí, vamos resgatar o Winnicott: ela, primeiro, precisa ter sido o ambiente. Quando ela é um ambiente, o bebê vive o autoerotismo, porque ela não é outra pessoa. Então, ele desenvolve, ele vive a experiência do autoerotismo até o ponto que isso possa se desenvolver e ele passe a ser capaz de reconhecer o outro. Este outro passa a ser um espelho para ele. Quando ele passa a ser um espelho para ele, ele começa a viver o narcisismo primário. Então, agora ele admite a entrada do outro, mas um outro que vive exclusivamente para ele. Quando ele não tem este outro que vive exclusivamente para ele, ele fica fixado no autoerotismo como se não existisse qualquer outra pessoa. Porque essa outra pessoa não foi boa o suficiente para que ele pudesse abrir mão daquela configuração autoerótica para se abrir para o outro.

FUNÇÕES

Quando eu falo aqui da função materna, eu estou falando implicitamente da função paterna. Não há como exercer a função materna de maneira suficientemente boa, ou de maneira bem-sucedida, sem a presença atuante da função paterna não tem como.

INTENSO OU DURÁVEL 

Amor intenso não existe! Amor intenso é paixão e na paixão o elemento fundamental é o desejo. Na paixão eu desejo o outro, no amor eu me dedico ao outro. E a dedicação não é intensa, ela é constante. O amor é constância, a paixão é intensidade. Então, quando a gente está falando de um amor saudável, de um amor verdadeiro, a gente está falando de constância, de continuidade. Quando a gente fala de intensidade, nós estamos falando de paixão. Na paixão o sujeito elege o outro como um objeto de desejo e quando ele percebe que o outro não corresponde ao seu desejo, ele já não quer mais o outro. 

GOSTAR OU AMAR

Nós temos a ideia de que amor é um sentimento, nós temos a ideia de que se sente amor. Eu sinto amor! Não! Eu não sinto amor. Amor não é um sentimento, amor é uma capacidade. Nós tendemos a colocar o amor no super relativo do gostar. Eu gosto tanto que eu amo. Não! Amor é independente de gostar. Amor é dedicação, amor é doação. Gostar é para coisas, amar é para pessoas. Quando a gente ama o outro é quando a gente está aberto a se dedicar ao outro. Por quê? Porque a gente está amando a gente mesmo, porque a gente é capaz de amar a gente mesmo, a gente estende esse amor ao outro. E amar a nós mesmos independente de gostar de nós mesmos. Eu posso não estar gostando de mim, mas eu me amo, eu me dedico a mim mesmo. Isso porque aquele que cuidou de mim, aquela que fez a função materna e aquele que fez a função paterna me amava independente de gostar de mim. Uma mãe não gosta do bebê o tempo todo. Bebê é muito difícil de cuidar e eu não posso esperar que eu goste desse bebê para amá-lo. Gostar é quando o outro me traz um benefício, amar é quando eu me dedico ao outro. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.


DIFERENCIAÇÃO 

A mãe se separou do pai e o menininho de 11 anos, um dia chegou para mãe e falou assim: “Mãe, olha, eu te amo muito, mas o papai é muito mais legal que você”. Na avaliação da criança, o pai é mais legal. Agora, quando a criança não é capaz de amar ainda, porque ela ainda não tem esta capacidade. Uma criança não ama. Crianças não amam! Bebê não ama! Eu não posso exigir de uma criança que ela ame, porque ela ainda não é capaz disso. Ela precisa ser amada, muito amada, muito bem-amada, para que ela possa desenvolver isso. Então, não posso exigir isso da criança. Então, enquanto ela não se torna capaz de amar ela também não é capaz de discernir o que está vindo do outro, se é amor, ou qualquer outra coisa. Mas, a ainda assim, a dedicação é amor e quando ela aprender a amar através dessa dedicação, que hoje ela não consegue reconhecer como amor, ela vai perceber e vai avaliar quem realmente ama. Talvez a criança não seja capaz de diferenciar quem gosta dela e quem a ama, mas isso aí é temporário, é até que ela possa aprender a amar. Aprender a amar através do quê? Através da dedicação que tiveram com ela e não através das pessoas que gostam dela. Porque as pessoas que gostam dela, gostam porque ela pode trazer um benefício. Porque ela é bonitinha, porque ela fala legalzinho, porque ela sabe fazer continha, porque ela faz desenho bonito, isso é gostar, mas isso daí só alimenta um falso eu, porque você vai ficar preso naquilo que você tem que fazer para que o outro possa gostar de você. O amor não! O amor é dedicação. As pessoas que se dedicaram a mim, alimentaram em mim a minha auto-dedicação e hoje eu sou capaz de dedicar a mim mesmo e estender essa dedicação ao outro. Isso é amor! Gostar é outra coisa. O amor se manifesta quando eu não espero nada do outro. Enquanto eu estiver esperando alguma coisa do outro, não é amor. Então, o amor se manifesta quando o sujeito é idoso e quando o sujeito é criança. Por quê? Porque quando ele é criança, ele não pode trazer benefício nenhum para o outro e quando ele é idoso, tanto quanto. Então, a criança pode não estar sendo capaz de reconhecer, ou diferenciar, ou avaliar o que é amor e o que é gostar, mas mesmo que ela não esteja sendo capaz de diferenciar, está acontecendo a nutrição e ela está se alimentando disso e se nutrindo disso.

DEPRESSÃO PÓS 

Depressão é um movimento. O movimento para dentro, para baixo. A depressão pode tanto ser patológica, quanto ser saudável. Todas as duas são desconfortáveis. Então, depressão pós-parto, ela vai acontecer, em alguma medida, em todos os partos, em todos os pós-partos, todo filho que nasce vai gerar na mãe uma certa depressão. Todo sujeito que entra na minha vida, após a entrada desse sujeito na minha vida, vai gerar uma depressão. Por quê? Porque esta entrada do outro vai, de alguma forma sacrificar uma parte do meu narcisismo. Então, o bebê que nasce vai, de alguma forma, suprimir a vida da mãe em alguma medida. A mãe, agora, vai ter que viver para aquela criatura e dizer que você vai lidar com isso de uma maneira: Ah está tudo bem! Não! Não vai lidar com isso, “tudo bem”. Umas estão mais preparadas para isso, outras menos, mas de alguma forma, você vai sentir isso. Ou seja, você, em algum momento, não vai gostar que aquela criança esteja ali, mas você vai amá-la, da mesma forma, mesmo não gostando que ela esteja ali, porque amar é dedicação.

EDUCAR

Você sabe qual que é a semântica da palavra educar? “E” quer dizer fora e “DUCERE” quer dizer colocar. Educar é colocar para fora. Educar é um fator da função paterna, a mãe não educa é o pai que vai preparar para fora. É a função paterna que prepara a criança para que ela possa viver no mundo externo. A mãe não! Quando não tem a função paterna, a mãe tem que carregar esse duro fardo de educar e aí, ela tem que se destituir da sua sensibilidade que é a sua maior virtude para fazer isso.

NÃO DE PAI 

Para o pai, falar um não é uma coisa, para a mãe falar um não é outra. Custa muito para uma mãe falar não. Para o pai é corriqueiro. Então, numa família bem estruturada, o filho pede alguma coisa para mãe e a mãe fala assim: “Vai pedir pro seu pai”. Por quê? Porque para ela custa falar não, mas para ele é simples. “O pai... Não! Não! Não! Não! Não! Já falei que não.” Acabou a conversa! O pai dedicado é o pai que ama, é o pai que se dedica ao filho, é o pai que se dedica à criança. Não é simplesmente aquele que fala não. Não é simplesmente aquele que faz reconhecer o limite, mas é aquele que se dedica. E este pai que é capaz de amar também vai dizer o não e este não é mais um fator da função de dedicação. A dedicação dele inclui o não. Então, o pai que ama não precisa sequer justificar o não, porque o não é uma expressão do amor, da dedicação. Quando ele fala esse não com amor, este não é internalizado como autocuidado e esta criança vai aprendendo a dizer não para ela mesma como um autocuidado e não como uma repressão, como uma castração, ou como qualquer coisa nesse sentido, mas como uma capacidade de respeitar a si mesmo. E a partir daí, ele vai se posicionando e tomando atitudes que incluem esta configuração de limite e amor.

MODELO

O nosso desenvolvimento emocional trabalha através de modelos. Eu preciso de modelos. Modelos que possam me trazer limite e amor. Eu preciso ser amado com limite para que eu possa ver no outro um modelo que eu possa seguir, mas hoje nós estamos extremamente carentes de modelos. Modelos aonde? Dentro de casa. O pai precisa ser um modelo para o menino se tornar um homem. O pai precisa ser um modelo para que a menina possa avaliar qual é o homem que ela vai se envolver. A mãe precisa ser um modelo para menina se tornar uma mulher. A mãe precisa ser um modelo para que o menino possa avaliar a mulher que ele vá se envolver. Mas nós não temos mais isso. O pai não está mais presente. A mãe também não está mais presente. E aí, ou ele desiste de procurar modelos, ou ele busca o modelo externo, o modelo de um ídolo que sabe lá onde é que está. Muitas vezes político, muitas vezes dirigente religioso... Sei lá onde... Um cantor de funk, um artista, ele busca esse modelo onde este modelo não é adequado para que ele possa estruturar a sua própria personalidade.




sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Participação no Podcast Frequência Elevada - Prof. Renato Dias Martino




O QUE É PSICANÁLISE?


Uma definição legal da psicanálise é: Um recurso para se aprender a conviver com aquilo do qual não está de acordo com a minha expectativa. Então, muitas vezes, a gente se depara com a realidade e esta realidade não condiz com o meu desejo, então, a psicanálise é um recurso para que você possa aprender a lidar com esse desconforto que a realidade traz e que não coincide com aquilo que a gente gostaria que fosse.

ACEITAR

O aceitar ele é passivo. O aceitar, ele te leva para um lugar de comodidade, de comodismo, melhor dizendo. Então, talvez a gente pudesse usar a palavra respeitar, aprender a respeitar a realidade. Porque, aceitar a gente não vai aceitar e se a gente aceitar, a gente entrou num âmbito patológico. Todas as vezes que você aceita alguma coisa é porque você olha para aquilo e perdeu a esperança de qualquer transformação. Entendi! Olha só, eu não tinha pensado para esse lado. Por isso que eu tinha falado até “aceitar”. Realmente, quando a gente aceita algo está tudo certo. Aceito, então já... Pois é. Se acomoda e fica ali. Seria meio que ficar na zona de conforto. Pois é, é isso mesmo.

INCONSCIENTE 

Quais são as principais os principais conceitos da teoria psicanalítica? Assim... A psicanálise foi criada pelo Freud, Sigmund Freud. Foi ele que criou, mesmo? Ele que criou, ele que elaborou esta psicoterapêutica que hoje a gente chama de psicanálise. Os conceitos, o conceito fundamental da psicanálise é o inconsciente, a parte inconsciente da mente, isso é o esteio da psicanálise. A psicanálise está estruturada nisso. Onde você encontrar e inconsciente, você tem um viés psicanalítico.

DIFÍCIL É ADMITIR

Se você me permitir só fazer uma introduçãozinha. Assim, a psicanálise ela criou um ranço vocabulário particular e que traz uma complexidade do leigo entender isso é extremamente nocivo. A psicanálise é algo que precisa ser acessível a qualquer um. Então, entender psicanálise não é difícil, o difícil é admitir aquilo que a psicanálise traz.

ID, EGO E SUPEREGO

Id, ego e superego. Tem como falar para gente, explicar melhor isso para gente? Como que a gente como que a gente consegue entender isso aí? Vou explicar para você rapidamente o que o Freud chamou de segunda tópica, que é o modelo estrutural da mente. A personalidade se estrutura a partir dessas três instâncias. O id é a parte animal do ser humano, é a parte indomada, é aquilo que vem puro como uma vontade, como um instinto de impulsionar o sujeito em direção a as coisas da vida. Básico. Quando age por impulso. Seria dentro desse id? Seria a força do id. O id é puramente fome, é necessidade sexual... O id é aquilo que está numa num limiar do corpo para o psíquico. O superego é uma instância que é censora. O superego é aquilo que traz o “não”. Estabelece um deveria ser e o ego é aquilo que eu “estou sendo”. O ego é isto que eu estou sendo. Agora, todas as vezes que eu falar de ego, eu estou falando para você de algo que é fluxo e constante construção. Id, vontades instintuais, superego, instância censora, que determina o que eu deveria ser e ego aquilo que eu estou sendo. O ego é aquilo que eu estou sendo e o superego é aquilo que eu deveria ser. Então, todas as vezes que eu não... Esse deveria seria o que eu gostaria de ser? O que eu gostaria, o que a sociedade... Quando a gente pensa assim: poxa eu gostaria de ser assim, eu gostaria de fazer tal coisa, mas não consigo fazer... Isso, isso, isso... Isso comandado pelo superego. É um “ideal de eu”. Todas as vezes que você não está confiando no seu ego, que é aquilo que você está sendo, o que vai te guiar é o seu “ideal de eu”. Quando eu estou confiando e quando eu estou reconhecendo e respeitando aquilo que eu estou sendo o espaço do superego na minha vida é muito pequeno. Se aquilo que eu estou sendo me basta aquilo que eu deveria ser não me importa tanto. Se a gente tem muita coisa que deveria ser seria ruim? Se você estabelece muito o que você deveria ser é porque você não está contente com aquilo que você está sendo.

FILOSOFIA

Tem um pouco de filosofia nisso. Ah! com certeza! O Bion que é um psicanalista contemporâneo que eu gosto muito, ele diz assim, que “a psicanálise é a praxes de uma certa filosofia”. A diferença da filosofia e da psicanálise é a aplicabilidade.

CONVECER

Quando a gente fala assim para alguém: “Ah! Você precisa, de repente, você passar por um psicólogo, um psiquiatra, a pessoa fala assim: ah! Eu não estou louco! Ah! eu não preciso disso!” Existe esse tipo de é um preconceito? Existe sim, existe sim, Marlon. Mas, assim ó: a psicanálise que eu acredito é aquela em que o sujeito vai espontaneamente. Que ele percebe que ele precisa e ele vai. Como que a gente consegue convencer uma pessoa de que isso não é ruim, pelo contrário... Se você precisa se você precisar convencer uma pessoa ela já ela não está pronta para isso. Não está preparada. Até porque, eu acredito que tentar convencer alguma a pessoa de alguma coisa é um desrespeito. Não é função da psicanálise convencer ninguém de nada. A psicanálise pode ajudar no tratamento de problemas emocionais e mentais? Recurso por excelência. A psicanálise pode ajudar muito, se o sujeito estiver disponível para isso. Ele precisa estar disponível. Se ele tiver disponível, a psicanálise é um recurso muito bom para isso. Talvez o melhor. Tenho vinte anos de prática da psicanálise e tem história belíssimas para te contar.

PSICÓLOGO, PSIQUIATRA E PSICANALISTA

Psic-logos = psicologia. Psique é a mente é o funcionamento do sujeito que não está no corpo físico. Eu tenho um corpo físico e eu tenho uma coisa além. Eu tenho uma instância além do corpo físico. Isso a gente vai chamar de psique. Logos é conhecimento. É aquele sujeito que é se propõe a conhecer sobre a psique. Este é o psicólogo. Psiquiatra é uma especialidade da medicina que se propõe a medicar um sujeito que tenha uma patologia mental. Ele vai trabalhar essencialmente, com medicamentos. Medicação. Apesar de que, se você me permitir um adendo aqui, hoje existe uma área da psiquiatria que se deslocou do tratamento de doentes mentais, de pessoas que têm problemas psíquicos e precisam de medicação, mas criou-se uma psiquiatria estética. Sabe o que é isso? Não faço ideia. A psiquiatria estética é aquela que se ocupa de recolocar focar o sujeito no convívio social. Então, se o sujeito por exemplo, apresenta algum funcionamento que destoa do que é socialmente aceito, ele começa a se medicar para se formatar novamente para esse convívio social. Na realidade, a gente está falando aqui de um sujeito que está sendo medicado para satisfazer o olhar social e aí a gente pode chamar esse remedinho que dão para ele de “fica quietinho pra gente gostar de você”. Está acontecendo muito em todas as instâncias, né? Não é? E aí, vamos falar da psicanálise. A psicanálise não é psicologia, a psicanálise não é psiquiatria, a psicanálise se presta a criar um ambiente saudável o suficiente para que o sujeito possa permitir que aquilo que esteja incomodando possa emergir para ser tratado para ser cuidado. E a psicanálise não busca saber, como um psicólogo. O psicólogo quer saber, o psicanalista não quer saber. Não é função do psicanalista saber sobre, mas é função do psicanalista “estar sendo” em relação. Uma coisa é o saber sobre você, outra coisa é estar sendo em relação a você. Quando eu estou sendo em relação a você, eu crio um ambiente emocional que propicia um crescimento, uma expansão, uma maturação. A gente precisa viver experiências juntos, experiências que possam propiciar reparação emocional. Estar ali, num ambiente emocional-afetivo sem julgamento, sem crítica, sem bajulação, sem tentativa de convencimento, ou sedução. Isso é terapêutico.

ÉDIPO

A gente falou você falou também aqui sobre o Freud e sobre o complexo de Édipo. Pode explicar um pouquinho para gente, o que é isso? À princípio, quando o Freud apresentou o complexo de Édipo, ele foi execrado pela classe médica, pela classe dos pensadores da época. Porque, ele trouxe assim: o filho quer se apossar da mãe e quer matar o pai. Essa é a história do Édipo. O Édipo foi um sujeito que matou o pai e casou-se com a mãe, na mitologia grega de Sófocles que é o autor do Édipo. Essa é a história e isso é vido por cada um de nós. O bebê quer ficar com a mãe só para ele. Tanto o menino, quanto a menina. Ele quer a mãe para ele. Só para ele. E quando o pai entra, o pai é um intruso e qualquer intruso que possa entrar ali, para estragar aquele paraíso que ele vive, entre ele e a mãe, vai ser, tem que ser exterminado. Não é? Aniquilado! Então, esta é a proposta inicial do Freud. Este é o complexo de Édipo do Freud. Mas, vai muito para além disso. Essa estruturação do Édipo, traz assim, um sujeito um objeto de desejo e um opositor a se conseguir esse objeto de desejo. O que que você faz quando você deseja muito uma coisa e tem alguma coisa que te impede de conseguir esta coisa? Você tenta tirar aquilo que está te atrapalhando. A nossa vida cotidiana é um grande complexo de Édipo.

RELACIONAMENTO TÓXICO 

Como que seria esse relacionamento tóxico que você citou ali? O relacionamento tóxico, o Marlon, ele se configura sempre quando eu me relaciono com o outro, não como sendo outro, como sendo uma outra pessoa, que tem sua autonomia, que tem suas vontades, tem seus desejos, mas eu me relaciono com o outro, como se ele fosse uma extensão do meu desejo. Quando eu não consigo reconhecer o limite entre o eu e o outro. Quando esse limite não é reconhecido, não é respeitado e não há uma responsabilização, se instala uma relação tóxica. Vamos criar um casal aqui? Para gente resolver a situação desse casal, qual seriam os passos? Teria algum passo a passo, teria alguma coisa que eles podem fazer? É assim, para se resolver essa questão um desses dois precisa despertar para aquela situação nociva. Precisa haver um despertar do sujeito e esse despertar é de dentro para fora, não é de fora para dentro. Na psicanálise não acreditamos em qualquer intervenção que venha de fora. Tudo precisa vir de dentro. É por isso que eu disse, precisa ser um ambiente saudável o suficiente para que aquilo que está dentro, possa vir para fora. Essa pessoa precisa conseguir enxergar o que ela está fazendo isso. Cinco passos. Um, perceber que está acontecendo alguma coisa, dois, reconhecer que isso realmente está acontecendo. Perceber é uma coisa, reconhecer é admitir que realmente aquilo está acontecendo. Terceiro passo, aprender a respeitar isso, quarto passo, se responsabilizar por isso que está acontecendo. Quando o sujeito se responsabiliza, começa a transformação e a transformação vai se dar de uma maneira mais bem sucedida, por assim dizer, se ele estiver sendo auxiliado por alguém qualificado. No caso, um psicanalista.

ESCOLHAS 

Decisão é quando você tem escolha. Você tem opções, atitude, o caminho é um só. Eu posso ficar parado, ou ir. Então, atitude é uma coisa, decisão é outra. Decisão, eu tinha opções, atitude não tem opção, eu só estou esperando o meu momento adequado para agir. Tomar coragem para vir fazer isso. Isso! Coragem! Essa palavra é magnífica. Cor-agem! “Cor” é coração e “agem” é ação. Agir pelo coração. Então, eu preciso estar preparado para agir com o coração e aí, não tem escolha. Que top! E aí, não tem escolha Marlon. E aí, é assim é capacidade, é desenvolvimento. Quanto mais maduro emocionalmente você fica, menos escolha você tem. Você vai e faz. Você vai e faz, porque você percebeu que aquele é o caminho. Eu gosto muito do vértice místico-religioso, das formulações religiosas. Porque, auxilia demais na prática da psicanálise. Deus nos dá o livre arbítrio. Deus nos dá a faculdade da escolha. Mas, para que que ele dá? Ele dá para que a gente possa viver experiências, para reconhecer que, na verdade é a vontade Dele que prevalece e não a tua. Desempenhando o seu livre arbítrio, você está iludido, você está envolvido com as questões materiais e mundanas. Quando você está de acordo com a realidade, você está no caminho Dele. Seja feita a Vossa vontade e não a minha. Isso te conduz para o caminho que é um só. O acordo com a realidade.

LUTO

Qual que é a importância do luto? Para o pessoal aqui, realmente saber. Fundamental! Vamos voltar no Complexo do de Édipo? Vamos! Então, assim óh! Um desdobramento saudável, a criança começa a perceber que a mamãe é do papai e não minha. Isso leva a criança a viver um luto. Todas as vezes que você reconhece e aprende a respeitar aquilo que você perdeu, você vive um luto. Quando a gente não respeita esse processo, a gente vai acumulando lutos não elaborados e é isso que leva o sujeito a cair naquilo que, contemporaneamente a gente chama de depressão.

DEPRESSÃO

Na psicanálise o que seria depressão? Depressão, na realidade, é todo o movimento de introjetar, interno. Quando você se deprime é porque você se entristeceu, porque você se desinteressou do mundo externo, por assim dizer. As coisas do mundo perdem a graça e você se volta para dentro. Isso é saudável. Você precisa viver isso. Cada vez que você vive uma frustração, é importante que você se retire do mundo externo para viver uma elaboração disso que você se desiludiu. Isso vai te levar à um acordo com a realidade. Mas o sujeito pode viver duas situações que vão levar ele a uma depressão patológica, que não é essa que eu estou te dizendo. A primeira é quando ele viveu com aquilo que foi perdido, uma relação nociva, que não tenha sido saudável, quando você viveu uma relação nociva com alguém e você perdeu este alguém, você cai numa depressão patológica. Porque, o que fica são lembranças ruins. A depressão, realmente, é ficar revivendo o passado. Isso mesmo! E aí, você cai nisso que o Freud vai chamar de melancolia. Mas tem uma outra forma de você cair, patologicamente, em depressão. Quando você é impedido de viver os lutos cotidianos da sua vida. Quando você foi perdendo coisas e você não pôde se retirar para viver o luto dessas coisas e teve que continuar trabalhando, continuar sorrindo, continuar fazendo as coisas que você tinha que fazer, porque existia uma demanda social que você precisava cumprir. Você vai acumulando esses lutos e uma hora você não aguenta mais e cai em depressão patológica.

ANSIEDADE

E ansiedade? Ansiedade é gerada por um “deveria ser”. Quando você estabelece alguma coisa que você tem que ser, que você deveria ser e você não está de acordo com aquilo que você está sendo. É aquilo que te cobra, que te exige de ser alguma coisa, de fazer alguma coisa, que muitas vezes não está no seu alcance. E onde tem cobrança, ou exigência não pode ter a saúde nos vínculos. Nem do eu com o outro, nem do eu com ele mesmo. Quando a gente não confia na gente mesmo, a gente abre essa brecha.

CONFIAR

Como que a gente consegue uma confiança na gente mesmo? Autoconfiança só pode se desenvolver a partir da confiança do outro. Quando alguém confia em mim eu consigo ter autoconfiança, é isso? Isso! O Marlon convidou o Professor Renato para o podcast, eu confiei no Marlon, a partir da minha estada aqui você passa a confiar mais em você. Cada um que você convida e confia em você, você vai ficando, cada vez mais autoconfiante. Não adianta vir falar que tem técnica. que tem autoajuda, livro disso, aquilo. Não existe! A autoconfiança é originada da confiança do outro. Não tem outro lugar. O que é confiança? Toda a palavra que tem o radical, no latim e tem “com” no prefixo, quer dizer “junto”. E fiança é fiar. Eu fio com você e você fia comigo. Confiança é vínculo, eu fio daqui e você fia daí. Eu acredito em você, você acredita em mim e isso faz com que a gente cresça.

EXPECTATIVA 

Quando eu posto alguma coisa na rede social, eu não estou querendo um resultado, eu já estou postando o resultado. Então, isso é muito interessante. Quando você faz alguma coisa sem expectativa de resultado, o resultado vem. A expectativa é a mãe da frustração.




terça-feira, 28 de novembro de 2023

COGITAÇÕES SOBRE A DESCRIMINALIZAÇÃO DA PRÁTICA DO ABORTO


Não é intuito aqui de julgar quem praticou o aborto, condenar quem praticou, ou punir. Não é nossa função essa, mas é a função refletir sobre isso.

 

HUMANO INCOERENTE

 

 Muito se fala que essa liberação acontece é porque até doze semanas não é uma vida, até então é alegado, para defender a liberação do aborto. No entanto, é muito interessante que, quando o homem encontra uma bactéria, por exemplo e num outro planeta, esta bactéria é uma vida. Uma bactéria no outro planeta é uma vida, um feto com doze semanas não é vida. Incongruente, isso. Outra questão muito interessante é que, se você, por exemplo, mexer num ninho de tartarugas, ou ainda, se você mexer numa muda de algumas espécies de orquídeas raras, você pode ser preso e uma prisão inafiançável. Mas, mexer numa vida no ventre da mãe pode ser liberado. As incoerências dos seres humanas. O sujeito que o boizinho que ele criou desde bezerrinho estava doente e ele gastou um dinheirão e conseguiu um veterinário que por fim conseguiu curar o seu bezerrinho. E aí, ele ficou contente que seu boizinho estava curado e foi comemorar com a sua família numa churrascaria. Este é o ser humano e as suas incoerências.

 

PARADIGMAS

 

Eu não acredito que a lei possa fazer um sujeito melhor. Não acredito que liberar, ou não liberar, o aborto vá fazer pessoas melhores ou piores. O que faz o sujeito melhor, ou pior, são as experiências emocionais-afetivas que ele pode viver. Isso é claro. Agora, quando a gente tem uma instância do governo, uma instância superior, uma instância que tem esta função de administrar as leis de um país que é conivente com o assassinato de crianças no ventre da mãe, aí a gente começa a ter uma configuração muito delicada dentro do âmbito de um caos que vai se instalando e uma permissividade nos estágios de paradigmas que a gente vem assistindo na sociedade se desmoronando. Elementos que são proibidos, que são reprovados, passam a ser tolerados e aos pouquinhos vão sendo negociados, e acabam sendo aceitos. Acabam sendo aprovados por lei. E aí, talvez o próximo passo seja a imposição social disso. A mulher que não abortar, agora vai ser olhada com estranheza pela sociedade. Porque ela permitiu que o filho nascesse e não abortou.

 

ÉTICA, FAMÍLIA E VIDA

 

Levantar a questão da liberação do aborto é, antes de qualquer coisa, um sinal da falência da família. Não existe aborto dentro de uma estruturação saudável da família. Não se cogita viver essa experiência onde há uma mãe suficientemente boa, um pai que seja capaz de cumprir a sua função paterna de maneira saudável, não tem espaço para aborto. Ou seja, onde existe uma família bem estruturada, existe ética. O que que a gente entende como ética? Eu não faço mal para o outro porque eu não faço mal para mim mesmo. Eu faço bem para o outro, eu respeito o outro, porque eu respeito a mim mesmo, eu faço o bem para mim mesmo. Este é o princípio da ética. Mas, faltando a ética, nós ainda temos a chance de nos organizarmos como sociedade pela moral. O que é a moral? Eu não faço mal para o outro, porque eu não quero que o outro faça mal para mim. No entanto, quando a gente vê esse tipo de lei liberando o aborto, a gente está vendo também a falência da moral. E aí, não sobra nada... A família se desestruturou, não posso contar com a ética, as leis se desestruturam, eu não posso contar com a moral... Eu vou contar com o quê?

 

DEPRESSÃO PÓS-ABORTO

 

Uma situação que acontece depois que uma mãe teve o seu bebê que a gente chama de depressão pós-parto. Toda mulher, dentro de uma cota, vai experimentar de certa depressão após o parto. Não só, toda mulher, mas todo ser humano que realiza alguma coisa, sentirá uma depressão pós esta realização. Todas as vezes que você realiza alguma coisa e se responsabiliza por aquilo que você realizou, a sua vida não vai ser mais como era antigamente. Uma mãe nunca mais será como era antigamente. Uma parte dela, uma parte das expectativas, uma parte dos desejos, uma série de elementos que constituíam a sua vida, vão ter que ser renunciados a favor daquela vida que nasce e isso impreterivelmente causa depressão. Existe, então, uma cota de depressão pós-parto em cada mãe e em cada ser humano dentro da perspectiva de filhos que nascem. Não efetivamente o filho biológico que nasceu ali, mas um livro que você escreve, uma realização que você faça... Agora, vocês imaginem como é que deve ser a depressão pós-aborto. Como será a relação dela com ela mesma? Qual é o tamanho do estrago que isso causa no desenvolvimento emocional-afetivo numa mulher e em todas as pessoas que vivem com ela?

 

RENÚNCIA E ABORTO

 

Cada caso é o caso, não é um caso, e precisa ser cuidado e acolhido de maneira cuidadosa, sem comparações, ou tentando generalizá-los. Estamos tratando aqui de uma instância superior que tenta legalizar uma prática de aborto, nós estamos falando aqui de uma configuração social que não é capaz de tolerar desconfortos, que não é capaz de renunciar de desejos e que não é capaz de se responsabilizar por si mesmo. Não é capaz de perceber que, muitas vezes aquele filho que está no ventre desta pessoa pode trazer para ela a possibilidade de crescimento, de aprender com aquela experiência e crescer a partir daquele filho que está nascendo. Mas vê este filho no ventre como uma coisa ruim, que obstruir a sua vida, que vai obstruir a realização dos seus desejos. O filho não é uma vida que está ali sendo gerada e vai nascer, o bebê é uma coisa ruim, que vai obstruir a sua vida. Somos cada vez mais despreparados para renunciarmos dos nossos desejos, para vivermos a vida dentro do seu fluxo natural daquilo que vem e que nos pede a responsabilização.

 

RESPONSABILIDADE DE DOIS

 

Não há como responsabilizar a mulher pelo aborto, porque este filho que está sendo gerado foi fruto do encontro entre um homem e uma mulher e os dois têm responsabilidade para com isso. Existe a responsabilidade de dois naquilo que foi feito em dois.




quinta-feira, 16 de novembro de 2023

INTEGRAÇÃO, DESCONFORTO E TOLERÂNCIA - Prof. Renato Dias Martino



Muitas vezes, quando a gente fala de integração, da personalidade integrada, de da experiência de integração da personalidade, dentro dos processos emocionais e afetivos, a gente tem a impressão de que a gente está falando de um processo que traz uma sensação agradável, quando na realidade é o contrário. Agradável é poder dividir o mundo em bom e mal. Agradável é poder projetar todo o mal em uma coisa e todo o bem em outra coisa. Tudo que é bom numa coisa e tudo que é mal em outra coisa. Acreditar que nós somos puros, enquanto o outro é maléfico. Isto é agradável. Quando a gente integra, quando a gente está integrado, isso impreterivelmente, causa um desconforto. 

DESCONFORTO E TOLERÂNCIA

É claro que na medida que você vai vivendo experiências de integração e vivendo experiências com a integração você vai aprendendo a tolerar esse desconforto gerado pela integração e aí talvez você consiga uma experiência de paz de tranquilidade de bem-estar emocional e afetivo. Ele evita a todo custo a integração, justamente por isso, por conta do desconforto.

DA CULPA À RESPONSABILIZAÇÃO

A integração, logo de início, inclui culpa que ele começa a ter consciência de que ele odiou alguém que não merecia ódio e isso gera culpa. Normalmente, a gente tem nas literaturas psicanalíticas: “Amor e Ódio”. Odiado aquele objeto que ele também ama, na realidade odeia o objeto que ele também idealiza, ele atribui toda maravilha, todo o bom do mundo e isso não é amor. O amor é integração. O amor vai acontecer na medida em que ele consiga elaborar a posição esquisito-paranoide, possa experimentar a posição depressiva, na integração. Quando ele sente essa culpa de ter odiado o objeto, a pessoa, ou a mãe que ele tanto idealizava. Porque, na realidade, é uma só. Ele sente culpa, na medida em que ele consiga elaborar esta culpa, consiga tolerar esta culpa ao ponto de elaborá-la, ele vai viver uma experiência de transformação desta culpa, responsabilização. Ele percebe essa culpa, ele reconhece essa culpa, admite que essa culpa existe, ele passa a respeitar esta culpa, respeitar a si mesmo sentindo culpa, passa a se responsabilizar. Quando ele consegue a responsabilização, existe uma transformação e ele passa a crescer, a se expandir, a nutrir-se com as experiências.



DEPRESSÃO INTEGRAÇÃO E DIAGNÓSTICO 


A gente vê diagnósticos de depressão, seguido de administração medicamentosa em pacientes que, muitas vezes, estão experimentando a integração. Quando ele experimenta a integração, ele impreterivelmente, vai viver uma depressão. Ele vai viver uma posição depressiva e esta posição depressiva é muito desconfortável e geradora de dores psíquicas, de angústias, de ansiedades. E quando o sujeito não está conseguindo tolerar esses desconfortos decorrentes da experiência depressiva, muitas vezes, ele pode procurar um psiquiatra que, despreparado, pode administrar medicamentos que irão arrancá-lo dessa experiência de integração, que gera depressão e abortar a experiência que, na realidade, iria trazer pro sujeito a possibilidade de crescimento. E muitas vezes, então, o que a gente vê diagnosticado como depressão patológica, na verdade, era uma experiência de integração que o sujeito estava vivendo.

MEDICAMENTO E DEFESA

O pior mecanismo de defesa é aquele que encontra um medicamento que corrobora com esse mecanismo de defesa. Quando o sujeito está atuando num mecanismo de defesa e ele começa a se medicar com uma substância química psiquiátrica, este mecanismo de defesa pode cristalizar e passar a se engessar como um funcionamento contínuo no sujeito. Então, ele estava apenas se defendendo, por conta de alguma confusão, de algum conflito e assim que este conflito pudesse ser elaborado ele iria dissolver esse mecanismo de defesa, inclusive se estivesse vivendo um processo psicoterapêutico. Na medida em que ele começa a usar um medicamento psiquiátrico, ele corre o risco de não conseguir elaborar isso que precisava ser elaborado e estava gerando a defesa e cristalizar esse mecanismo de defesa como um funcionamento contínuo, na sua vida. 



quarta-feira, 22 de março de 2017

COGITAÇÕES A PROPÓSITO DA DEPRESSÃO

A depressão tem sido avaliada, na contemporaneidade, como um problema de saúde pública, e alguns especialistas chegam a considerá-la como aquilo que será o mal do século 21. No entanto, muito tem se afirmado e até mesmo, vem se predizendo sobre essa experiência mental que, na realidade, muito pouco se tem conhecimento.
Numa sociedade de características cada vez mais imediatistas, que visa a satisfação a todo custo, onde o que se vê é a evitação de todo e qualquer desconforto, não será surpresa se houver uma condenação de uma importante experiência psíquica natural do desenvolvimento mental, como sendo patologia, por conta de suas características demoradas e dolorosas.
Ora, além do mais, não é fato digno de espanto que nessa sociedade de qualidades superficiais, uma experiência que demande profundidade possa ser descrita como doença. A palavra depressão tem sido comumente utilizada para designar uma forma de patologia mental, no entanto esse conceito tem aplicações muito mais amplas podendo, até mesmo ser motivo de equívocos, dentro do olhar apressado, característica típica do ser humano contemporâneo. Num olhar impaciente tendemos a julgar e diagnosticar com muita rapidez algo que mereceria mais respeito. “Do Latim respectus, particípio passado de respicere, “olhar outra vez”. Do re, “de novo”, mais specere, “olhar”: a ideia é de que algo que merece um segundo olhar em geral merece respeito.”. (Martino, 2013).

Afinal, o que estamos chamando de depressão? O conceito de depressão é relativo a um movimento para baixo. Encontramos esse termo na geografia topográfica, descrevendo regiões do terreno que estejam num nível mais profundo. Nas formulações emocionais usa-se esse conceito para descrever o movimento de recolhimento dos investimentos de interesse. A retirada da importância do mundo externo numa introjeção da libido em direção do eu. A origem da palavra vem do latim DEPRESSIO, de DEPRIMERE, significando o ato de apertar firmemente para baixo, na junção de “de” = “para baixo”, + “premere” = “apertar, ou comprimir”. Quando esse termo é aplicado às experiências emocionais, de modo geral, poderíamos dividir a depressão em duas manifestações: 
a) O processo depressivo natural, do qual poderíamos classificar como sendo saudável, que é gerado por conta da situação de luto. Nesse caso, o que ocorre é que frente à perda de algo de muita importância o sujeito se deprime e o mundo externo fica desinteressante, por isso o recolhimento da importância que se atribuía ao mundo externo. Essa experiência pode ser obstruída quando existe um impedimento para que o processo natural de luto possa acontecer de forma saudável. Uma exigência externa que não permita a retirada do interesse do mundo externo. Isso pode gerar um agravamento e até mesmo originar um quadro patológico, se persistir o impedimento. 
b) Um segundo caso seria o estado depressivo patológico configurado na melancolia, assim como nos orienta Sigmund Freud (1856-1939). A melancolia ocorre quando a relação que o sujeito tem com aquilo que se perdeu guarda características narcisistas, onde o eu e aquilo que foi perdido não puderam se separar emocionalmente. Nesse caso existe uma exigência interna que não permite que o sujeito descanse sua mente para que o processo de luto ocorra. Freud publica LUTO E MELANCOLIA em 1917 e contribui com isso, enormemente para o estudo e aprimoramento do atendimento psicoterapêutico do sujeito depressivo. 
“O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante. Em algumas pessoas, as mesmas influências produzem melancolia em vez de luto; por conseguinte, suspeitamos de que essas pessoas possuem uma disposição patológica.”. (Freud, 1917).

Depois de Freud, Melanie Klein (1882 — 1960) introduz sua teoria das posições (1935), onde propõe que a mente funciona em duas perspectivas: posição esquizo-paranoide em que a partir de uma tendência a desintegração, a mente provoca uma divisão da realidade; tanto do eu quanto do mundo e a posição depressiva onde ocorre a integração da realidade. Na posição depressiva o sujeito toma consciência da realidade como um todo e com isso sente-se culpado por ter odiado o mesmo objeto que também amava. Essa posição provoca sofrimento, onde leva a sofrer o processo de transformação da culpa em responsabilização. Por conta disso o sujeito pode tentar evitar essa posição a todo custo.
No entanto, evitar sofrer não representa o fim da dor. Entristecer-se é fundamental na tarefa de pensar; aquele que não se encontra capaz disso, ou escapa para euforia, ou mergulha na depressão patológica. O desconforto é o primeiro sinal da transformação do pensamento. O pensar só pode ocorrer quando se inclui a ideia do outro e assim a expansão passa a ser possível. Dessa maneira a dedicação a um processo psicoterapêutico de qualidade é um bom recurso para promoção dessa expansão.
Sem um bom vínculo de confiança as ilusões podem ser percebidas como fatos. Imaginar não é pensar. Quando um quadro de depressão se pronuncia, pode não se tratar necessariamente de uma situação patológica.
Isso pode estar sendo um sinal de uma experiência de luto natural, frente à perda de algo significativo para o sujeito. Algo que muitas vezes, nem o próprio sujeito consegue ter muita consciência. Nessa situação os sinais revelam a evidencia de que existe a necessidade de resguardar-se, por conta de certa fragilidade emocional característica desse processo.
Essa experiência deve ser lenta, levando um tempo diferente em cada caso. Nunca podendo ser estabelecido um período determinado. Quando não se pode respeitar o processo do luto, muito provavelmente a situação pode se agravar. Na tentativa de abreviar o decorrer desse lento processo, a tendência é que se desenvolva um quadro mais severo.
A insistência em se expor às experiências emocionais, quando se está fragilizado emocionalmente, pode trazer sérios danos ao sujeito enlutado e uma depressão grave e patológica pode ser um provável desfecho para isso. A urgência para que o sujeito saia logo do seu processo depressivo, ou ainda, seja arrancado de seu estado deprimido, muitas vezes com administração de fortes medicamentos e técnicas psicoterapêuticas que forcem o sujeito a enfrentar o retorno da vida social é uma prática perigosa entretanto, muito comum na sociedade contemporânea.
Nos tempos atuais parece não existir espaço para experiências que espacem um longo período, assim como os relacionamentos duradouros parecem estar cada dia menos frequentes. Parece haver uma ânsia desmedida pelo consumo assim como o acúmulo de bens e concomitantemente, a necessidade de produção. Experiências psíquicas delongadas, como as do processo depressivo, assim como a constituição de relacionamentos duradouros são nocivas a um modelo de vida baseada no comprometimento com a realidade material.
Essa alucinação da vida de produção e consumo desmedido acarreta a saturação do aparelho sensorial, provocando inúmeras patologias que se manifestam desde a forma mais sutil, no âmbito mental, que compromete diretamente a capacidade de amar, até a manifestação no corpo físico. Em ultima análise, cair em depressão é uma forma extrema de buscar a paz. 

Freud, S. 1917. LUTO E MELANCOLIA, em OBRAS PSICOLÓGICAS COMPLETAS - Edição Standard Brasileira, IMAGO (1969-80). KLEIN, M. 1935. UMA CONTRIBUIÇÃO À PSICOGENESE DOS ESTADOS MANÍACO-DEPRESSIVO. In:____. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945). Rio de Janeiro: Imago Ed., 1996. MARTINO, Renato Dias. O amor e a expansão do pensar: das perspectivas dos vínculos no desenvolvimento da capacidade reflexiva, 1. ed. São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2013.



Prof. Renato Dias Martino 
Psicoterapeuta e Escritor
São José Do Rio Preto - SP
WhatsApp: 17991910375
prof.renatodiasmartino@gmail.com
pensar-seasi-mesmo.blogspot.com.br