Tudo aquilo que precisa ser imposto não é saudável. Impor limites! Quando você impõe limite, isso já está denunciando que esta relação não é saudável. Você precisa pagar impostos ao governo. Não é isso? Este tributo é nocivo, tanto para o governo quanto para o povo. É roubo! É um roubo lícito. Se é que pode existir isso. Tudo aquilo que é imposto denuncia uma relação falida, fadada ao fracasso. O limite saudável é aquele que é reconhecido naturalmente. O limite saudável é aquele que o sujeito é capaz de perceber, reconhecer, respeitar e se responsabilizar.
IMPOSIÇÃO E DESRESPEITO
Um adolescente que não é capaz de reconhecer, respeitar e se responsabilizar pelo limite é porque já houve uma falha lá atrás. Isso precisa acontecer de maneira saudável a partir do vínculo com os pais, que vai sendo estruturado de uma maneira muito saudável quando existe o respeito. Esse limite vai sendo percebido a partir da ética que está sendo nutrida dentro da relação. Quando existe a necessidade de imposição é porque isto está denunciando uma relação tóxica. E se você precisar impor o seu limite para alguém é um sinal de que você na realidade, está precisando se afastar desta pessoa, porque esta pessoa está invadindo algo que te desrespeita. Porque esta pessoa também não está sendo capaz de perceber, reconhecer, respeitar e se responsabilizar pelos seus próprios limites. Com uma criança, ou um adolescente, não é diferente. Agora se lá atrás já faltou, já falhou, aí nós precisamos ver caso a caso, o que é que pode ser feito. Agora, imposição é sempre um desrespeito. Imposição é sempre um ato violento. Não existe imposição saudável. Se foi imposto é porque algo está denunciando aquilo que não está sendo saudável.
AFASTAMENTO E TRANSFORMAÇÃO
Quando existe a dificuldade de reconhecimento, respeito e responsabilização pelo limite, dentro de uma família e isto acontece por conta da falha dos pais em introduzir este reconhecimento nas crianças, e as crianças ou os adolescentes não foram capazes de internalizar isso, aprender reconhecer, respeitar e se responsabilizar pelos limites, precisa haver um distanciamento. Que distanciamento? Um distanciamento físico? Não! Porque, muitas vezes, a criança ou adolescente depende dos pais financeiramente, cuidados e inúmeros outros fatores. Precisa haver um distanciamento afetivo e emocional. esta pessoa precisa perceber que ela pode perder alguma coisa quando ela não respeita os limites só a partir do sentimento da perda só a partir da percepção da eminência da perda que o sujeito começa a mobilizar alguma transformação no nível emocional não existe nenhuma transformação sem que o sujeito perceba que ele pode perder alguma coisa com aquilo A partir dessa percepção de que ele está perdendo alguma coisa ele começa a mobilizar o funcionamento emocional dele para que isso possa trazer uma transformação
RECONHECIMENTO
O filho desrespeita a mãe, o filho começa a abusar dos cuidados da mãe, por exemplo. Então, é importante que essa mãe se retire emocionalmente e afetivamente desses cuidados, até que o filho comece aprender a reconhecer o valor desses cuidados dela. Quando ele começa a reconhecer o valor desse cuidado, ela pode retornar a cuidar dele. É claro que a gente está falando aqui, de uma criança que tem o mínimo de discernimento, porque se ela não tem esse mínimo de discernimento, ela ainda está introjetando o reconhecimento do limite. Se esta mãe estiver sendo suficientemente boa e se ela estiver podendo contar com a função paterna, que é justamente aquilo que vai trazer o reconhecimento do limite. Não existe a possibilidade do reconhecimento do limite sem o cumprimento suficientemente bom da função paterna. É a função paterna que tem o fator do reconhecimento do limite. Se não existe uma figura paterna que esteja exercendo esta função de maneira suficientemente boa, de maneira bem sucedida, não haverá a possibilidade do reconhecimento, do respeito e posteriormente da responsabilização pelos limites.
DISTANCIAMENTO E PROTEÇÃO
Esse distanciamento vai servir para proteger todos, desta agressividade, dessa violência. Vai servir inclusive para proteger a criança dela própria, em relação à mãe. Porque, tudo isso que ela está fazendo enquanto ela desrespeita o limite em relação à mãe vai fazer com que ela posteriormente se sinta culpada, tente se julgar, se condenar e até, muitas vezes, implementar autopunição por conta disso. Então, este afastamento vai criar a possibilidade dessa criança, ou desse adolescente proteger a si mesmo em relação à mãe.
PUNIÇÃO
Quando eu falo aqui do afastamento da criança, ou do adolescente perceber que ele pode perder alguma coisa com aquilo que ele está desrespeitando, em nenhum momento eu estou falando sobre castigo. Eu não acredito que o castigo possa trazer qualquer transformação saudável. Eu não acredito que a punição possa trazer qualquer transformação real. O castigo, a punição só traz transformação superficial. O sujeito, ele só alimenta o super ego. O castigo só traz para ele mais ódio, mais agressividade e só vai gerar mais dificuldades posteriormente. Qualquer castigo, qualquer punição? Qualquer um! Nenhuma punição faz com que o sujeito possa se transformar de maneira saudável. Um bandido que comete um crime, um político corrupto, ou um assassino que mata alguém e que é punido por conta disso, ele de maneira alguma, se transforma de forma saudável, por ter sido punido. O sujeito, ele sai da cadeia, o político corrupto sai da cadeia, porque foi punido e pratica crimes piores e mais bem elaborados. A questão não é ser punido. Ah, Professor! Então, você acha que o sujeito que comete o crime não pode ser preso? Não! Ele deve ser detido. É lógico que ele deve ser detido! Ele pode causar um mal para o outro. Então, ele não pode ficar em circulação. Mas a questão não é punição, a questão é detê-lo para que ele não faça aquilo novamente. Se bem que no Brasil a coisa é meio esquisita aí. Né? Porque tira o cara da cadeia e ainda dá para ele o título de Presidente da República. Mas deixa isso para lá, outra hora a gente conversa sobre isso. A punição, de maneira alguma pode trazer transformação saudável.
MEDO OU TEMOR
Professor. como é que eu faço para ensinar pros meus filhos o reconhecimento do limite? Reconhecendo o seu próprio limite. Quando você reconhece os seus limites, quando você aprende a respeitar os seus limites e se responsabiliza pelos seus limites o seu filho vai aprender isso através do seu modelo. Respeitar não é ter medo. Respeitar é por conta do amor, é uma extensão do amor. Eu aprendo a respeitar porque eu amo. Eu não aprendo a respeitar porque eu tenho medo. Eu aprendo a respeitar por temor. Temor é diferente de medo. Temer machucar alguém, não ter medo de alguém, porque esse alguém vai me machucar.
RESPEITO OU EDUCAÇÃO
O respeito não pode ser imposto. Respeito não pode ser exigido. Ninguém exige respeito. Respeito é uma atitude que tem a ver com a capacidade do sujeito. Só respeita, o sujeito que é capaz de respeitar, porque muitas vezes, quando você está exigindo o respeito, o que você vai ter é, na melhor das hipóteses, educação. E educação não é respeito. Educação é superficial. Respeito é profundo. Educação é moralidade, respeito é ética. Educação quer dizer: “eu não faço mal para o outro, porque eu não quero que faça mal para mim”. Respeito é: “eu não faço mal para o outro, porque eu não faço mal para mim”. Então, não dá para exigir respeito.
PERMISSIVIDADE E ABUSO
A grande dificuldade do sujeito de reconhecer o limite, aprender a respeitar o limite e se responsabilizar pelo limite é justamente a sua dificuldade de tolerar a frustração do outro. Tolerar que aquilo que ela teve como atitude frustrou o outro. Então, ela não consegue ser a porta-voz dessa frustração. Não foi ela que frustrou, foi a realidade, é a realidade que frustrou, mas foi ela quem foi o porta-voz desta frustração. Ela não tolera ser o porta-voz, ou representante da frustração do outro e aí se torna permissiva e o outro abusa.
DIZER NÃO OU SE AFASTAR
A gente ouve muito essa coisa: “Você precisa aprender a falar não!” “Você precisa aprender a dizer não para o outro, quando o outro está passando dos limites!” Mais importante do que aprender a dizer não para o outro, quando o outro passa dos limites, é ser capaz de se afastar do outro, quando ele passa dos limites. Eu preciso desenvolver a minha capacidade de tolerar frustrações para, me afastar daquele que esteja abusando de mim.
A palavra “forte”,
“fortalecer”, dentro das formulações psicanalíticas, dentro do processo
emocional-afetivo, é muito perigosa.
SOBRE SER FORTE
Cada vez que eu busco me fortalecer, eu estou
cada vez mais distante da minha sensibilidade, da minha fragilidade, que faz
parte da minha realidade. Um sujeito forte é justamente aquele sujeito que
acaba permitindo que o outro passe do limite, porque ele não tem a noção da sua
fragilidade, da fragilidade real de cada um de nós. Então, quando eu acredito
que eu sou forte, eu acabo me colocando em situações que, na realidade, vão me
ferir e que por ter acreditado que eu era forte eu fui ferido. E aí, acontece
no mínimo duas desventuras, uma é eu me decepcionar com outro, porque o outro
me feriu e outra, eu me decepcionar comigo mesmo, porque eu tinha prometido que
eu era forte e eu acabei sendo ferido.
FRAGILIDADE E SENSIBILIDADE
Muito mais importante do que
me tornar forte, é reconhecer a minha fragilidade natural e real, para que eu
possa aprender a respeitá-la. E o sujeito que respeita a sua fragilidade, ele
pode desfrutar da sensibilidade e perceber inclusive as relações nocivas e se
afastar delas.
RECONHECIMENTO E FRAGILIDADE
É muito importante também, a
gente diferenciar fraqueza de fragilidade. Fragilidade, é uma condição natural
do ser humano. Fraqueza é quando o sujeito está de alguma forma debilitado, é
quando o sujeito está, de alguma forma, desnutrido. Então, precisamos estar
nutridos para que a gente possa reconhecer e assumir a nossa fragilidade. Para
então, podermos desfrutar da sensibilidade, que é justamente o que vai nos
orientar no fluxo da vida.
FORÇA E DEFESAS
O que faz um sujeito forte
são, justamente, os mecanismos de defesa. Então, quanto mais forte o sujeito
for, é porque ele está mais cheio de mecanismos de defesa. O sujeito que
acredita ser forte, ele só pode desfrutar desta fortaleza, porque está
extremamente defensivo, cheio de mecanismos de defesa.
DEFESAS NA PSICANÁLISE
No início da formulação da
psicanálise, acreditava-se que o trabalho psicanalítico seria retirar as
defesas do paciente. Ir tirando defesa por defesa do paciente, quando na
realidade, hoje, a psicanálise contemporânea tem muito mais a tarefa, a função
de acolher o sujeito, naquilo que realmente está gerando as defesas, para que
essas defesas, ao perceber uma certa segurança possam ir se dissolvendo.
DEFESA E RESPEITO
Se o sujeito está se
defendendo é porque existe um motivo para tal. E retirar essas defesas sem
cuidar daquilo que está gerando as defesas é uma brutalidade, é uma crueldade.
No modelo biológico, isso fica muito mais fácil de entender. Quando o sujeito
ele está com uma infecção o corpo começa a manifestar alguns sintomas e esses
sintomas são mecanismos de defesa para proteger o corpo contra esta infecção.
Só retirar os sintomas vai agravar a infecção. No entanto, quando essas defesas
começam a ficar muito proeminentes, com uma magnitude muito grande, elas
começam a ser prejudiciais também. Mas isso não quer dizer que você deve
combater as defesas. Isso quer dizer que existe a necessidade de acolher e
cuidar daquilo que está gerando essas defesas. Então, por exemplo, o sujeito
que tem uma infecção, ele desenvolve febre. Então, subir a temperatura do corpo
é uma tentativa de defender o corpo por conta da infecção. Se você toma um
antitérmico e só o antitérmico, ou seja, combatendo aquilo que está sendo
gerado pela infecção, a infecção vai se agravar e o corpo vai ficar mais
desprotegido. Com o aparelho emocional-afetivo é da mesma forma. O analista
precisa ser capaz de acolher aquilo que está gerando as defesas e não retirar
as defesas a força, ou através de qualquer técnica que seja. Isso é importante
na questão do medo, por exemplo. O medo é uma defesa. O medo é um sintoma de
algo que está por trás disso e que precisa ser cuidado. Quando eu proponho
técnicas de enfrentamento do medo, eu coloco isso que está gerando o medo mais
vulnerável do que estava anteriormente.
DO MEDO DE SI MESMO: Prof. Renato Dias Martino
Como é que eu posso ter medo de mim mesmo?
Sigmund Freud (1856 – 1939)
UMA DIFICULDADE DA PSICANÁLISE (Freud,1917)
3 Ferida Narcísica
1° Nicolau Copérnico (1473-1543) – Heliocentrismo -Cosmologia
2° Charles Robert Darwin (1809-1882) - Teoria da Evolução – Biologia
3° Sigmund Freud (1856 – 1939) – O sujeito não é dono de sua própria vontade – Psicanálise
Arthur Schopenhauer (1788 — 1860)
Na mente saudável o medo é integrante do instinto de autopreservação.
Na saúde mental a intuição deve ser a maior referência.
Percepção da realidade que abrange pra além do que é percebido pelos órgãos dos sentidos.
Além das aparências.
Educação para conviver em sociedade.
Supressão das capacidades inerentes ao instintual.
Esse é o animal humano; aquele que mais se distancia de sua própria natureza.
Deixamos de nos importar com nossos medos.Justificativas sociais que nos coloca inadequados.
O outro parece não se afetar.
Firmamos acordos com a civilização dos quais na realidade, estão distantes das capacidades emocionais humanas.
Os maiores medos são aqueles formados essencialmente dos momentos em que se esteve
desamparado e sem qualquer recurso para lidar com isso.
Sozinho, vulnerável emocionalmente e incapaz de acreditar
em si próprio, elege aspectos internos como inimigos de si mesmo.
O Mal-Estar na Civilização (Freud, 1930)
Nenhum inimigo pode nos fazer mais mal do que nós mesmos.
Fragilizado e inseguro, buscará um culpado para a situação de desproteção.
Por não poder contar com ninguém mais, então, condena a si mesmo.
AMOR e SINCERIDADE
A presença saudável de um ambiente acolhedor é justamente
o que pode trazer certa tranquilidade interna para o restabelecimento
do bom funcionamento mental.
Livre de Críticas e Bajulações.
Prof. Renato Dias Martino é psicoterapeuta, atuante na clínica da psicanálise na cidade de São José do Rio Preto, estado de São Paulo. É escritor das obras "Para Além da Clínica" (2011), “Primeiros Passos Rumo à Psicanálise” (2012), “O amor e a Expansão do Pensar: Das perspectivas dos vínculos no desenvolvimento da capacidade reflexiva” (2013) e “O LIVRO DO DESAPEGO” (2017). Entre em contato pelo e-mail prof.renatodiasmartino@gmail.com, ou pelo fone 17 – 30113866 Mais materiais em http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com.br
Das
mutações ocorrentes nas emoções e as consequências dessas transformações.
Texto parte da revista Grandes Temas do Conhecimento PSICOLOGIA, especial
MEDOS E FOBIAS.
Os
desdobramentos dos elementos constituintes da vida mental provocam naturalmente
certa instabilidade que demanda de aprendizado em seu manejo para que seja
possível manter um bom funcionamento da mente. Uma experiência emocional que
possa gerar um componente psíquico pode então se desdobrar em outro elemento
que muitas vezes representa seu contrário. Uma mente inundada por insegurança,
por exemplo, pode gerar hostilidade. Na descrição da síndrome de Estocolmo,
onde o sujeito é submetido a um tempo prolongado de ameaça, ele passa então a
apresentar afinidade ou até carinho por seu agressor.
Dessa maneira uma manifestação psíquica gera uma outra como defesa, configurando assim um conjunto, que é tomado como um complexo com certa coerência. Esses elementos componentes articulam-se entre si em várias vinculações, de subordinação ou não, que por conta disso são de difícil compreensão racional. A relação entre desejo e medo é um bom exemplo dessa ordem de reveses sofridos nas experiências emocionais. O medo parece ser um subproduto do desejo, e essa afirmação torna-se fato na medida em que passa a ser possível perceber que aquele que não deseja nada não teme coisa alguma.
Ainda
que seja o medo da morte gerado pelo desejo de viver, a relação entre esses
dois elementos da vida psíquica são inseparáveis quando examinados. Dentro
dessa perspectiva, o medo estabelece um elemento constitucional do
funcionamento mental daquele que está sendo conduzido pela cautela. Sendo
assim, a mente que se encontra saudável terá o medo como integrante do instinto
de autopreservação que é manifestado pelo desejo de viver. Esse medo deve
originar certa ansiedade, reação à percepção do perigo externo. Por se tratar
de um instinto, vai para além do campo racional e pode, com isso, nos orientar,
alertando, inclusive, para aquilo que se pronuncia pra além do que é percebido
pelos órgãos dos sentidos, pra além das aparências. No entanto, existe outra
ordem de relações estabelecidas entre medo e desejo, que não se encontram no
âmbito saudável.
Em sua TEORIA GERAL DAS NEUROSES, publicada em 1917, Sigmund Freud (1856-1939) propõe dois tipos de ansiedade. “É possível, no princípio, trabalhar o tema da ansiedade, por um tempo considerável, sem absolutamente pensar nos estados neuróticos. De imediato, os senhores me entenderão quando eu descrever essa espécie de ansiedade como ansiedade ‘realística’, em contraste com ansiedade ‘neurótica’.” (Freud, 1917). Enquanto na ansiedade realística o medo é gerado por uma causa externa real e anuncia assim a capacidade da saúde mental, a ansiedade neurótica acontece por conta de uma desordem no curso do desenvolvimento do pensar, que encontra entraves no andamento de seus desdobramentos.
Freud formou-se em medicina neurológica, mas apesar disso estruturou o que chamamos de psicanálise a partir da percepção de que grande parte dos pacientes que atendia não tinha a origem de suas enfermidades no corpo físico, mesmo que se manifestassem ali. Por meio de exames clínicos, Freud não conseguia diagnósticos no âmbito fisiológico, sendo que a constituição biológica, em suas funções, conservava um funcionamento coeso, no entanto, a dor e o incômodo ainda jaziam presentes na queixa do paciente. Em sua obra AS NEUROPSICOSES DE DEFESA, de 1894, Freud designou a ordem patológica que percebia em seus pacientes, o nome de neurose, e, nesse caso, mais especificamente, histeria de conversão. Algo que advinha da dimensão do psíquico, mas se manifestava no corpo. “Na histeria, a representação incompatível é tornada inócua pela transformação de sua soma de excitação em alguma coisa somática. Para isso, eu gostaria de propor o nome de conversão.” (Freud, 1894).
Bem, embora essa proposta tenha sido publicada em 1894, quando a psicanálise ainda engatinhava, mesmo hoje essa intuição freudiana nos serve como um excelente instrumento para pensar nos processos que desencadeiam as patologias mentais. Ora, é indiscutível o fato de que a dor, quando surge no corpo, tem maior poder de convencimento, tanto para nós mesmos quanto para o outro. Por outro lado, enquanto a aflição é psíquica, se encontrando na ordem do não sensorial e não podendo contar com os órgãos dos sentidos para confirmá-la, fica então desacreditada. Um conflito interno com a iminência de transbordar os limites emocionais do eu psíquico e manifestar-se no corpo físico.
Aqui
também estamos tratando, antes de tudo, de algo que se configura como extensão
do conflito entre um medo e um desejo. Uma ordem de conflitos que pode promover
severas perturbações no funcionamento mental com a geração de inúmeros
sintomas. Freud, em seu ESBOÇO DE PSICANÁLISE, publicado em 1940, propõe que
“Os sintomas das neuroses, poder-se-ia dizer, são, sem exceção, ou uma
satisfação substitutiva de algum impulso sexual ou medidas para impedir tal
satisfação, e via de regra, são conciliações entre as duas, do tipo que ocorre
em consonância com as leis que operam entre contrários, no inconsciente”. Sem
poder tornar-se consciente desse conflito que subtrai suas energias
sorrateiramente, o sujeito vive certa batalha inconsciente que acaba por
revelar-se nos vínculos. Toma certa prática especial nas relações onde passa a
odiar como forma de distanciamento e proteção daquilo que de fato deseja tanto.
Desenvolve de tal modo, um quadro obsessivo, se envolvendo crescentemente com
aquilo que na realidade foge compulsivamente. Temos assim um quadro do qual
Freud denominou de “neurose obsessiva”. Enquanto essa modalidade de neurose
projeta-se no mundo externo, a “histeria de conversão”, em contrapartida, faz
do sujeito uma vítima de si mesmo. Instigado por certa culpa, pode-se tornar
servil àquele do qual mantém grande ódio. Esse sentimento de culpa do paciente
histérico, quando em seu maior nível, é que deve sofrer certa conversão do
plano psíquico para o nível orgânico. Dessa forma, passa a representar-se numa
patologia no corpo, ou seja, uma doença física onde o sujeito pode encontrar
certa via para se
autopunir.
Essa dor física, por mais que seja penosa, ainda deve ser menor do que a culpa
que carrega. Se antes havia descrédito sobre sua enfermidade, agora fisicamente
doente, pode convencer o outro, assim como convencer-se a si mesmo, do seu
sofrimento.
Freud
introduziu a teoria da repressão a partir da observação dessa ordem de
experiências: “A teoria da repressão é a pedra angular sobre a qual repousa
toda a estrutura da psicanálise.” (Freud, 1914). Das tentativas de vinculação
com a realidade externa que tiveram desfechos mal resolvidos, são então
geradores do movimento de repressão.
O reprimido, junto com os elementos instintuais, estaria contido no nível inconsciente da mente. “O reprimido está condenado, pelas instâncias censoras do ‘eu’ a viver nas profundezas do inconsciente. Mas, amiúde, tenta emergir na personalidade consciente provocando, assim, os sintomas da neurose.” (Martino, 2012). Segundo Freud, as neuroses estão para as perversões como curso oposto do mesmo caminho, pois, quando uma satisfação da libido primitiva não puder ser atendida, pode suscitar uma fixação perversa de satisfação, que na medida em que é reprimida cria uma formação substituta: o sintoma. “Portanto, os sintomas se formam, em parte, às expensas da sexualidade anormal; a neurose é, por assim dizer, o negativo da perversão.” (Freud, 1905).
No caso
clínico do Homem dos Ratos, publicado em 1909 com o título NOTAS SOBRE UM CASO
DE NEUROSE OBSESSIVA, o pai da psicanálise expõe as características da neurose
obsessiva comparada à histeria. Propõe que a manifestação da neurose obsessiva
possa ser considerada assim como na forma da histeria, no entanto, numa
configuração muito mais compreensível por revelar-se de forma externa, enquanto
a histeria leva o processo psíquico para uma conversão somática. Porém, os
pacientes que apresentam esse quadro, diferentemente dos histéricos,
dificilmente procuram psicoterapia, ou, quando o fazem, já se encontram num
quadro avançado. Os aspectos fundamentais dos transtornos apresentados pelo
Homem dos Ratos “eram medos de que algo pudesse acontecer a duas pessoas de
quem ele gostava muito: seu pai e uma dama a quem admirava.” (Freud, 1909).
Freud propõe que o neurótico não pode perceber as conexões importantes que
estabelece, pois as resistências o enganam pelas forças reprimidas, onde o que
se revela é o medo, nunca o desejo.
Depois de ter sido reprimido o desejo, é
difícil para o sujeito admitir que tenha de fato desejado, ou que possa voltar
a desejar, no entanto nunca deixou de fazê-lo. Isso acontece com o paciente de
Freud relatado no caso. Ele negava que os medos relacionados à morte do pai
correspondessem a um desejo (agora reprimido) de que o pai morresse.
“Conforme
a teoria psicanalítica, eu lhe disse, todo medo correspondia a um desejo
primeiro, agora reprimido; por conseguinte, éramos obrigados a acreditar no
exato contrário daquilo que ele afirmara. Isto também se ajustaria a uma outra
exigência teórica, ou seja, a de que o inconsciente deve ser o exato contrário
do consciente.” (Freud, 1909).
Testemunhamos,
assim, a infindável e inexorável peleja entre o amor e o ódio. Simultaneamente,
quando o ódio ocupa o topo da consciência, o amor se mantém encoberto, de forma
latente, e vice-versa. Contudo, mesmo estando num estado latente, ainda assim
mantém-se muito intenso e definindo “escolhas” na vida do sujeito. Paralisado
pela impossibilidade na proibição de integrar amor e ódio, o estado de
ambiguidade provoca sintomas de formas diversas configurando um complexo estado
transtornado de funcionamento mental. Um complexo que foi gerado por uma
experiência peculiar, onde aquilo que um dia constituiu um desejo proibido
torna-se exatamente o que desperta o maior desejo, mas agora de forma
inconsciente. Esse desejo, por ser inconsciente, amiúde, é impulsionado à ação
(atuação) para sua concretização. No entanto, a consolidação tropeça na
proibição, gerando assim o medo que se vincula ao objeto desejado. Podemos
afirmar com isso que o medo é filho do desejo.
Essa
configuração também aparece como base da teoria das posições elaborada por
Melanie Klein (1882-1960), em que propõe que, no ego primitivo, presente no
início da vida do bebê, existe uma tendência de divisão do seio em objeto bom e
objeto mau, como sendo dois objetos separados. Essa seria expressão do conflito
inato entre amor e ódio e das ansiedades que dessa experiência decorrem.
“O bebê projeta seus impulsos de amor e os atribui ao seio gratificador (bom), assim como projeta seus impulsos destrutivos e os atribui ao seio frustrador.” (Klein, 1952). Dessa maneira, o seio bom que é desejado é separado do seio mal que é temido, quando na realidade trata-se de um só, um objeto total. Uma experiência que longe de se restringir ao âmbito da primeira infância, configura-se num funcionamento que amiúde experimentamos na vida adulta quando nos colocamos frente a uma decisão (de-cisão) de grande importância. Desejamos um caminho, mas tememos que o outro seja melhor opção.
Ora,
ainda que estejamos aqui tratando de revisão teórica, minha experiência na
prática clínica mostrou com clareza a relação existente entre o medo e o
desejo, confirmando assim essa proposta da teoria psicanalítica, que por sua
vez também não fora desenvolvida de outro lugar que não fosse as experiências
clínicas. Nos casos que em atendi, em que o paciente sofrera de abuso sexual na
infância, por mais aterrorizante que tenha sido a experiência, ainda assim
sentira algum prazer, pelo fato do estímulo de áreas erógenas, hipersensíveis.
Por conta disso, agora, quando adulto, o paciente sente medo de que ele abuse
de crianças, pois o registro da experiência prazerosa ficara gravada, e então é
revivida de forma reativa, ou seja, de maneira inversa. Acontece que por conta
da experiência traumática que viveu, hoje ele deseja, por mais que não deseje
desejar, e passa a ter medo do desejo que sente.
Porém, a despeito da força do impulso que arrasta para a ação com o objetivo de realização do desejo, o que na verdade pode acalmar o conflito está na possibilidade de reconhecimento do que se deseja e não da consumação, que geraria mais culpa ainda. “A ideia é que o desejo é um fluxo muito forte de libido (energia psíquica), e carrega em si muito dos conteúdos impensados e impregnados de um narcisismo prematuro. Assim, um pensamento que tenha nascido dessa forma, prematuro, já agia no funcionamento da mente, mesmo sem ainda poder ser chamado de pensamento” (Martino, 2011). No relacionamento entre pais (ou cuidadores) e filhos, a relação entre desejo e medo revela-se de grande influência. Isso pelo fato de que a criança passa por um longo período de dependência dos pais ou daquele que cuidou dela. Assim, não seria absurdo afirmar que “a forma como o bebê é desejado (mesmo antes de nascer) definirá certos traços em sua personalidade que perdurarão por muito tempo, se não, por sua vida toda.” (Martino, 2011). Existe nessa experiência o perigo de que satisfações frustradas da vida dos pais sejam oferecidas ao filho com a incumbência de satisfazê-los. Dessa forma, o que um dia fora um desejo nos pais, pode-se tornar um medo nos filhos. “Um medo de frustrar aqueles que cuidaram dele e viver um dolorido sentimento de incompetência.” (Martino, 2011). Bem, o reconhecimento do sentimento é o que pode levar ao pensar, e não é surpresa o fato de que isso coincide com a capacidade de adiar a ação. Sobre isso, Freud escreve em 1911, em sua obra FORMULAÇÕES SOBRE OS DOIS PRINCÍPIOS DO FUNCIONAMENTO MENTAL, que “O pensar foi dotado de características que tornaram possível para o aparelho mental tolerar uma tensão intensificada de estímulo, enquanto o processo de descarga era adiado.” (Freud, 1911). Isso equivale a dizer que o reconhecer é aterrorizante e o medo de reconhecer se faz novamente presente, relacionando-se ao desejo. Trata-se de uma moção interna que leva a abrir mão da satisfação do prazer que se encontra na realização do desejo. A psicanálise nos ensina com muita propriedade sobre o fato de que, para que exista o pensar, é necessário desistir da satisfação imediata, na tolerância quanto às frustrações.
Na proposta de Wilfred Bion (1897 – 1979), um dos mais importantes nomes da psicanálise contemporânea, o desejo do analista, juntamente com a memória e a ânsia por entender, é fator prejudicial para o desenvolvimento da análise, obstruindo o fluxo saudável do processo psicoterapêutico. “No processo de psicoterapia, o desejo do psicoterapeuta de resolver o problema do paciente, ou mesmo de gratificá-lo por algum motivo, ou ainda o desejo de curá-lo, são prejudiciais ao desenvolvimento do tratamento.” (Martino, 2015). Bion refere-se a uma disciplina que aos poucos torna-se natural, conforme o desenvolvimento da maturidade emocional do analista. Para Bion, não é“suficiente ‘esquecer’: é necessário um ato positivo de abstenção de memória e desejo.” (Bion, 1970). No lugar da memória, do desejo e da compreensão e o que entra é o desenvolvimento do “ato de fé” de que a verdade e a realidade última existem, e isso requer capacidade em tolerar frustrações.
Segundo Bion, se o psicanalista for permissivo com a intromissão de memórias sobre o paciente, dos desejos do analista e da ansiedade de compreensão sobre os fatos a qualquer custo “ele irá
prejudicar sua capacidade analítica. Todo aquele que esteja acostumado a
lembrar do que os pacientes falam e a ficar querendo seu bem-estar, terá
dificuldade de avaliar o dano infligido à intuição analítica, inseparável de
toda e qualquer memória e qualquer desejo” (Bion, 1970).
A busca
pela realização do desejo, por mais que se mostre prazerosa, é exatamente a
responsável pelo conflito. Portanto, todo esforço para apaziguar e assim
reduzir a intensidade do desejo deve converter-se na diminuição do medo. Arthur
Schopenhauer (1788-1860) que segundo o próprio Freud é o filosofo precursor da
psicanálise, nos alerta sobre a Vontade que nos aprisiona. Mesmo não querendo
ter vontade, ainda assim ela persiste, se transformando num medo de agir
conforme essa mesma vontade. No pensamento de Schopenhauer, a Vontade tem a
primazia em relação ao intelecto e à razão humana, que são produtos das
manifestações da Vontade, existindo para justificá-la. Segundo Schopenhauer, a
vontade é a essência imutável do homem, e sua razão não tem poder para determinar
uma mudança no querer da vontade. A vontade tem origem no desconforto e tem seu
retorno na mesma dor. Assim, como propõe em O MUNDO COMO VONTADE E
REPRESENTAÇÃO, “Tal veemência excessiva do querer é já de per si e diretamente,
uma fonte constante de dor. Primeiramente porque qualquer querer, como tal,
nasce da necessidade, portanto, da dor.” (Schopenhauer, 1818).
Sendo
dessa maneira, toda a busca pela diminuição do desejo converte-se em redução da
dor. Sendo que as experiências mais afortunadas são aquelas em que nos sentimos
livre das ânsias e desejos desmedidos. Assim como coloca Schopenhauer:
“Por
meio da felicidade que então provamos, torna-se-nos possível julgar da
beatitude do homem cuja vontade não está, como no êxtase da estética, acalmada
apenas por breve instante, mas para sempre, quando está de fato consumado,
salvo na derradeira centelha que serve para manter a vida corpórea e que
desaparecerá com ela.” (Schopenhauer, 1818).
O
desejo está na dimensão material da vida corpórea, que nasce, permanece por
algum tempo, crescendo e se
desenvolvendo, produz alguns efeitos nos fenômenos e então passa a definhar,
gradativamente, até a morte. Essa parte da existência é de pouca importância
para o que é da alma, que por sua vez não se presta aos atributos materiais do
espaço ou da temporariedade. Não está aqui ou lá. Não tem passado, nem futuro.
O medo de perder é produto do desejo de ter, mas enquanto aquele que deseja ter
teme perder, aquele que ama terá pra sempre.
O grande problema é que só se aprende
amar na falta do objeto amado. Aquele que ama abre mão do desejo de “ter” o
outro em nome do “ser” para o outro. “É então, pela capacidade de tolerar o
vazio e desapego do desejo, que se abre a possibilidade para desenvolver a
disposição para amar.” (Martino, 2015).
Isso
diz respeito a uma constante batalha, pois aquilo que o corpo busca para se
satisfazer não interessa à alma e na realidade só faz por desvalorizá-la. Por
outro lado, aquilo que nutri a alma está justamente na renúncia dos prazeres do
corpo.
O
Bhagavad Gita, que faz parte das escrituras védicas da Índia antiga, trata da
busca pelo exercício no desapego para a expansão da consciência. No quinto
capítulo é revelada a “Sabedoria do Desapego”, onde Krishna, a Personalidade
Suprema de Deus, orienta seu companheiro Arjuna, em um momento de insegurança,
que “quem a tudo renuncia, jubiloso, alcança, já agora, a mais alta paz do
espírito; mas quem espera vantagem das suas obras é escravizado por seus
desejos”. Um texto que transcende a aplicabilidade religiosa se estendendo no
âmbito filosófico e também psicanalítico, já que trata da experiência do
desprendimento e da capacitação da tolerância às frustrações.
“No
Bhagavad Gita é retratado um diálogo simbólico, representando o funcionamento
interno de cada um de nós, onde o guerreiro Arjuna representaria o ‘eu humano’
(que em algumas traduções se lê ego), cujo reino foi usurpado, e Krishna
estaria representando o “eu divino” plenamente realizado, que convida Arjuna a
fazer a sua autorrealização, derrotando seus parentes, que se recusam a
devolver seu trono” (Martino, 2015).
Um
modelo muito bem aplicável no funcionamento da mente, onde a narração retrata a
renúncia dos desejos e, em consequência disso, também os medos. Em
contrapartida, manter-se ligado ao desejo é viver de ilusões, já que a
realidade não é definida pela vontade do humano. Por conta disso é necessária a
capacitação para o desprendimento daquilo que se encontra na dimensão do real
concreto, num exercício do desapego da materialidade por meio da renúncia do
que satisfaz o corpo, mas empobrece e nos distancia da alma. Numa relação
afetiva, a confirmação sensorial deve, dentro dessa perspectiva, ser
substituída pelo vínculo simbólico, que dispensa a confirmação compulsiva pelos
órgãos dos sentidos. O simbólico vai para além da morte, já que é possível se
manter vinculado com aqueles que já morreram.
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