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quinta-feira, 16 de julho de 2026

RECORDAÇÃO - Prof. Renato Dias Martino

 


Aquele que é amado não pode ser esquecido. O tempo pode até tentar apagar, mas o coração resgata quem amamos. Re-cor-dar: dar mais uma vez ao coração. Recordar da voz, do sorriso, dos momentos simples que se tornaram eternos. Recordar do cheiro, do jeito, da presença que agora faz tanta falta. Na realidade, o amor deixa marcas que o tempo não consegue levar. A rotina pode mudar, podem vir novas pessoas, pode parecer até mesmo que passou, mas no fundo ainda dói. Dói porque amamos; se não amássemos, não doeria. Quando a gente ama de verdade, uma parte da gente fica com quem se foi. Ninguém que é amado será esquecido. Se transforma em saudade, em recordação. Mesmo que dolorosa, a recordação prova que, se o amor é verdadeiro, nunca acaba.









Prof. Renato Dias Martino




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quinta-feira, 26 de junho de 2025

RESPEITO PELO PRESENTE - Prof. Renato Dias Martino


OLHAR PARA TRÁS

 

Olhar para trás é sempre prejudicial. Na melhor das hipóteses é inútil, porque aquilo que você guardou, aquilo que você registrou na sua memória não foi o que aconteceu, foi o que você conseguiu registrar do que aconteceu. Então, quando você traz isso de volta, você está trazendo o seu ponto de vista, o seu vértice do que aconteceu. Tudo aquilo do passado que é importante que você reconheça hoje virá até você. Você não vai precisar olhar para trás para buscar. Então, essa é a diferença de resgatar da memória e viver uma recordação. A recordação vem. Você não precisa buscar. Ela vai aparecer à sua frente e você não vai precisar virar para olhar para trás.

 

TROPEÇAR

 

O sujeito que muito olha para trás, ele tropeça no caminho daqui para frente. Não você não aprende com o que aconteceu lá atrás, você aprende sendo capaz de reconhecer a sua ignorância frente à realidade e se colocar como um eterno aprendiz de cada experiência que você viver. Não tem a ver com o que passou. O que passou não tem nada a ver com o que você vai viver daqui para frente, nem com o que você está vivendo agora. Quando o Bion nos orienta a nos desapegarmos dos dados armazenados na memória ele está falando justamente disso

 

SOBRE O PASSADO

 

O sujeito, quando ele está apegado ao passado, ele também tem um benefício, porque ele acredita saber sobre aquilo. Então, ele tem uma certa onisciência sobre aquilo. Ele acredita saber sobre aquilo, mas quando o sujeito vem para o presente, acabou toda essa onisciência, porque ninguém sabe sobre o presente. O presente você pode viver, mas você não sabe. Você só passa a saber quando este presente for passado, aí você sabe sobre ele, ou pelo menos acredita saber sobre ele, porque, na verdade, o que você sabe sobre ele é simplesmente um fragmento que você registrou e não foi o todo da experiência. Então, traz essa sensação de onisciência, mas viver o presente traz uma insegurança terrível.

 

PASSADO E PRESENTE

 

O fator fundamental que faz o sujeito ficar apegado ao passado é a impossibilidade de viver um presente saudável, de viver experiências no presente que sejam realmente bem-sucedidas. Quando ele vive uma experiência bem-sucedida no presente, o passado fica para trás. O sujeito que está apegado ao passado é porque o presente dele está insuportável.

 


segunda-feira, 26 de agosto de 2024

SAÚDE NO VÍNCULO - Prof. Renato Dias Martino




DESEJO

Vamos pensar então, no desejo. O que eu estou chamando de desejo aqui? A expectativa. esperar que o paciente faça isso ou faça aquilo. Esperar que o horário acabe, desejar que alguma coisa aconteça. Quando você deseja que alguma coisa aconteça, você obstrui a coisa real de acontecer. Então, o paciente diz assim: “Olha, vou largar do meu marido. eu não aguento mais aquele cara. ele é um ‘mala’. Ele não tem me tratado mal. Isso aquilo, aquilo outro...” E aí, você registra na memória: “Ela vai se separar do marido”. E aí, na próxima sessão ela chega e fala: “Olha, nós reatamos, conseguimos entrar num acordo, vou dar mais uma chance para ele”. E aí, você falar: “Mas como isso! Eu estava aqui esperando que você iria largado do seu marido. Eu estava esperando aqui que você iria se separar. Você como é que você muda de ideia”. A minha expectativa não conta. É a vida dele. Ele precisa se capacitar para administrar a sua própria vida e o teu papel é de ajudá-lo nesta tarefa de capacitação de cuidar da própria vida.

SABER

E aí, a gente vai para o presente, ou para o saber. Rebaixar a ânsia de saber. Porque, quando a gente fala assim: rebaixe a ânsia de saber, renuncia ao conhecimento, na realidade, nós estamos falando assim ó: renuncia a tendência de tentar encaixar aquilo que está acontecendo naquilo que você supostamente já sabe. O saber é registrar o passado para tentar se prevenir para o futuro. Viver a experiência com o meu paciente sem tentar encaixá-lo naquilo que eu supostamente já sei, eu estou trazendo saúde pro vínculo.

CONCÓRDIA 

Toda a verdade só vai aparecer dentro do um ambiente de concórdia, de concordância. COM + CORDES COM é junto e CORDES é coração. Se não estivermos juntos de coração, não importa quem está com a razão. Vai haver sempre o embate. Agora, se você está junto de coração, importa menos ainda a razão, porque a razão é simplesmente um representante da materialidade das coisas, do saber, do conhecimento, daquilo que não passa de um olhar superficial da realidade. Para que possa emergir a verdade, nós precisamos cultivar um ambiente de concórdia, E aí, se a gente estiver falando então, do setting terapêutico, isso é fundamental. Se o sujeito não estiver em paz, se o sujeito não estiver tranquilo, ele não consegue, de maneira alguma, ser verdadeiro. Ele vai estar se defendendo o tempo todo. E aí, que psicanálise é essa? Psicanálise das defesas? Não! Ele precisa estar em paz, ele precisa estar bem, ele precisa estar seguro e se você estiver investigando o seu paciente, ele vai estar se defendendo das suas Investigações.

ACORDO COM A REALIDADE

O meu compromisso, em primeiro momento é com a realidade. O meu acordo é com a realidade. Antes do paciente me procurar, eu já havia travado um acordo com a realidade. Vou continuar tendo esse acordo com a realidade e cada interpretação, cada palavra, cada atitude que eu tiver, vai ser de acordo com a realidade. Eu vou ser um porta-voz da realidade. A realidade me mostra que o paciente tem o direito de se manter iludido. Ele tem o direito.

ATENÇÃO FLUTUANTE 

Nós temos inúmeras formas de aplicabilidade da psicanálise. Nós estamos falando aqui, de uma psicanálise que é uma extensão dos ensinamentos do Freud e o Freud foi claro quando ele disse assim: “Precisamos exercer a atenção livremente flutuante”. Se você está exercendo a atenção flutuante, você não pode, de maneira alguma estar preso em dados armazenados na memória. Agora, existem outras escolas lacanianas, sei lá o que “anas” aí, que usam das formulações que convém a eles usarem. Dentro daquilo que foi o ensinamento freudiano, resgatar a memória é extremamente nocivo para que você possa exercer aquilo que ele orientou enquanto atenção livremente flutuante.

RECORDAR

Quantas relações, quantos vínculos você tem na sua vida que você tem a chance de ser uma pessoa nova a cada encontro? Todo mundo já espera alguma coisa de você. Todo mundo já se lembra aquilo que você sem perceber prometeu que você vai ser. Todo mundo espera que você seja aquilo que eles lembram sobre você e isso obstrui a sua possibilidade de ser uma pessoa nova. O vínculo terapêutico precisa estar livre do resgate dos dados da memória. Eu estou falando de uma forma bem superficial, mas se a gente se aprofundar, a gente vai chegar ao ponto de que, aquilo que a gente se lembra não é verdade, não é realidade, é uma um registro extremamente limitado da realidade, um registro extremamente limitado daquilo que realmente aconteceu. Porque eu não dou conta de registrar de uma maneira abrangente, ou de maneira total. Eu estou subordinado ao estado de humor que eu esteja naquele momento. Esse registro vai estar contaminado com esse estado e depois, quando eu resgatar, eu já tenho outra contaminação, porque eu vou selecionar aquilo que me convém me lembrar. Então, a memória é extremamente nociva para um vínculo saudável. Diferente da recordação. RE-COR-DAR É Recordar! RE, que é de novo, COR, que é coração e DAR, doar novamente ao coração.

MEMÓRIA IRRIGADA DE AMOR

Não me lembrar das coisas que você me disse vai te dar a chance de você ser real. O meu amor por você não pode estar subordinado às coisas que eu me lembro de você. Talvez esteja subordinado às recordações. Mas existe uma diferença gritante entre memória e recordação. Para que a memória seja recordação, ela precisa estar sendo irrigada de amor. O amor faz com que essa memória ganhe vida e aí ela vai vir espontaneamente. Eu não vou buscá-la. O amor diz respeito à atenção, prestar atenção e quando eu presto atenção é porque eu estou exercendo a capacidade de amar. Quando eu digo: “eu já sei”, eu estou obstruindo a minha capacidade de amar.

SEM MEMÓRIA

Quando o paciente, por exemplo, vem e relata alguma coisa e diz assim: “Ah! Então, aconteceu aquela coisa que eu te falei. Você lembra?” Eu vou dizer: “me conta de novo” Quando ele me conta de novo, ele vai me contar de outra maneira, de outra forma, observando outras características daquilo que antes ele não tinha observado. Porque ele já não é mais o mesmo e hoje ele tem uma capacidade muito maior, uma maturidade muito maior para reconhecer aquilo que ele acreditava que era de uma forma. Se eu digo para ele assim: “sei sim, eu lembro muito bem o que você falou” Pronto! Limitei, obstruir a possibilidade de repensar aquilo e muitas vezes, é importante que eu até explique pro paciente de uma maneira muito clara. Olha: “eu não tenho memória” Eu brinco com meus pacientes assim: “eu tenho Alzheimer, eu esqueço de tudo que você me diz. Vou te dar a chance de me dizer tudo de novo.

MEMÓRIA, DESEJO E COMPREENSÃO

Porque isso coincide com uma orientação do Bion, que diz que um psicanalista precisa renunciar da memória dos dados armazenados na memória, logo estamos falando do passado. Dados armazenados na memória são nocivos na prática clínica. Por que são nocivos na prática clínica? Porque o paciente precisa ter a chance de ser uma pessoa nova a cada encontro e cada vez que o analista resgata dados da memória ele está reclamando que o paciente seja aquilo que ele foi. E nós estamos trabalhando não com aquilo que ele é ou aquilo que ele foi, mas nós estamos trabalhando com aquilo que ele está sendo. Nós estamos trabalhando com um movimento, com a transformação. Quando eu rebaixo o resgate dos dados armazenados na memória, eu estou trazendo saúde ao vínculo. Eu estou trazendo a chance de sermos novas pessoas. Não só o paciente, não só o analista, mas que o vínculo possa se renovar. O futuro diz respeito à expectativa, ao desejo. Quanto mais eu for capaz de rebaixar aquilo que eu espero em relação ao meu paciente, aquilo que eu espero em relação a mim mesmo e aquilo que eu espero em relação ao vínculo, tanto mais esse vínculo vai poder se manifestar de maneira verdadeira. Porque a expectativa daquilo que deveria ser, vai trazer a tendência a ser aquilo que não se está sendo. E o presente está acontecendo no aqui e agora, logo eu não posso saber sobre o presente. Eu só posso saber de alguma coisa que já passou. O conhecimento está subordinado ao registro da memória. Eu só sei de alguma coisa que já passou. Eu não sei aquilo que está acontecendo agora e nem aquilo que virá. Quando eu digo que eu conheço alguma coisa, eu digo que eu conheço baseado naquilo que eu registrei na minha memória, logo isso que eu estou dizendo denuncia a limitação do conhecimento. Porque o conhecimento diz respeito àquilo que já passou e se já passou é limitado, não é realidade.


terça-feira, 7 de maio de 2024

MEMÒRIA - Prof. Renato Dias Martino



Normalmente, a gente tem a ideia de que um sujeito que tem uma boa memória é um sujeito favorecido, é um sujeito mais bem sucedido, por assim dizer, do que o outro que não tem uma memória muito boa. Na verdade, um sujeito que é capaz de ter uma memória boa quer dizer que ele tem na sua mente, um cabedal enorme de dados armazenados e isso, muitas vezes, não é saudável. O saudável é viver uma vida espontânea, no fluxo contínuo da vida. 

MOTIVO DA MEMÓRIA

A memória, por si só, é mantida por medo de esquecer, por um “deveria ser”. Quando o sujeito tem uma boa memória, tem esta capacidade, porque o resgate daquela memória pode trazer para ele, ou tirá-lo de certa ameaça, ou trazer para ele a aprovação do outro. A memória tem um objetivo claro que é o benefício superficial do sujeito. Não tem a ver com questões profundas. 

MEDO DE PERDER

A memória está dentro da perspectiva do obter. Eu tenho na memória e se eu tenho na memória, eu também tenho medo de perder. Porque o medo de perder está relacionado ao desejo de ter.

MEMÓRIA FRIA

Para que a memória possa ser bem registrada e possa ser resgatada quando necessário, de maneira ágil, ela não pode estar irrigada de emoções nem de afetos. Um sujeito que tem uma boa memória é um sujeito que não relaciona a esses dados, emoções, ou afetos, sentimentos, para que esses dados sejam armazenados de maneira fria e calculista, para serem resgatados da mesma forma quando necessário for. 

MEMÒRIA E DEFESA

Muitas vezes, o sujeito tem uma boa memória para esconder, para tamponar, por assim dizer para tampar questões afetivas desconfortáveis de serem relembradas um sujeito de boa memória pode estar usando isso para se defender de algo que é muito doloroso para ele.

LEMBRANÇAS ENCOBRIDORAS

Uma rica contribuição do Freud, LEMBRANÇAS ENCOBRIDORAS. Quando o sujeito vive uma experiência extremamente dolorosa e desconfortável, ele tende a registrar alguma outra coisa no lugar daquela experiência. Ele registra um fato que foi relacionado àquilo. Se lembra deste fato, mas não consegue se lembrar daquilo que está por baixo por assim dizer.

MEMÒRIA OU RECORDAÇÃO

Memória e recordação. A memória não pode estar vinculada as emoções porque as emoções desorganizam as emoções propõem transformação e os dados da memória não podem estar em transformação porque quando o sujeito for resgatar já não é mais o mesmo e aí não é memória. Mas, por outro lado, aquilo que está na ordem das recordações são, o tempo todo, transformações. Cada vez que você recorda alguma coisa, você recorda de uma maneira nova, de uma outra forma, porque diz respeito ao vínculo. Por mais que seja de alguma coisa que já passou, você, ao se transformar, você se vincula a aquele dado armazenado na memória de maneira diferente. Por isso é recordação, cada vez que você recorda você dá outra vez para o coração. Re-cor-dar! Então, isso vai se transformando. Isso vai se nutrindo. Isso vai crescendo, se expandindo, ficando cada vez mais nobre. Diferente dos dados da memória que são sempre do mesmo jeito. Não só o resgate do que foi registrado na memória, diz respeito à dificuldade de lidar com aquilo que está acontecendo no presente, mas também o próprio registro do fato. Quando o sujeito tem um conflito, quando o sujeito não é capaz de viver de maneira espontânea aquilo que está acontecendo, ele tende a registrar aquilo na sua memória. Diferente porque, isso espontaneamente vem dentro da perspectiva da recordação, que é diferente de buscar, de resgatar isso, dentro dos dados armazenados na memória.

DE NOVO

Nós temos três palavras que estão associadas de maneira muito bela. Então, a gente tem a palavra recordar, a gente tem a palavra respeito e a gente tem a palavra reconhecimento. As três palavras começam com o prefixo RE, que quer dizer “de novo” e todas elas têm essa conotação de, novamente submeter a um processo de renovação. Recordar, “dar novamente ao coração”, respeito, “prestar atenção novamente” e reconhecimento, “conhecer de novo”.

RECONHECER E GRATIDÃO

A ideia de recordar está ligada ao respeito, está ligada também ao reconhecimento. E a palavra reconhecimento, ela também tem esta polissemia, esses sentidos diversos, que podem ser atribuídos a ela. Por exemplo, reconhecer é conhecer novamente, reconhecer é também uma extensão da gratidão. Quando o sujeito reconhece alguma coisa, ele está sendo grato a aquilo. Para que o sujeito seja capaz de reconhecer, ele precisa ter desenvolvido a capacidade de gratidão.

RECORDAR E TRANSFORMAR

 Quando a gente está falando de emoções, quando a gente está falando de afetos, de sentimentos, a gente não pode ligar isso a certezas, mas sempre há um fluxo, há algo que é incerto, porque está em transformação. Então, a recordação vem como algo que é contínuo, é um processo. O resgate do que está na memória não tem a ver com processo, tem a ver com resgatar algo que foi pré-estabelecido, foi armazenado e agora é resgatado de maneira, quanto mais precisa possível. A recordação é rica, ela se transforma. Cada vez que você amadurece um pouco, você se recorda de algo de maneira diferente. Antes eu me recordava de uma forma, hoje eu me recordo de outra forma e futuramente me recordarei de outra maneira diferente dessas. Então, não pode ter certeza.