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quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

SOBRE A PSICOTERAPIA - Prof. Renato Dias Martino


PSICOTERAPIA OU PSICANÁLISE

A psicanálise é uma teoria a psicanálise é aquilo que o Bion chamou de sistema dedutivo teórico, é uma série de conceitos que precisam ser preenchidos de experiência que interconectados vão formar um sistema. Psicoterapia é aquilo que pode ser realizado através da psicanálise. A análise propicia a psicoterapia. Tem muitos pensadores que tentam diferenciar o processo psicoterapêutico do processo psicanalítico, eu não vejo diferença alguma. Quando você está praticando a psicanálise, você está praticando uma psicoterapia. O que é psicoterapia PSICO é a parte do eu que não está disponível aos órgãos dos sentidos, a parte não sensorial do sujeito e TERAPIA é cuidado. A psicanálise propicia um cuidado com a psique. Tentar diferenciar processo psicoterapêutico do processo psicanalítico é uma perca de tempo, porque nós estamos psicoterapeutas.

PSICOTERAPIA PROFUNDA

Existem profissionais que tentam diferenciar psicoterapia de psicanálise dizendo que a psicoterapia é algo mais superficial e a psicanálise é algo mais profundo. A psicanálise é um método para se aplicar à psicoterapia, o cuidado com a mente a psicoterapia pode ser profunda, a partir da premissa da psicanálise. Se você estiver utilizando do método psicanalítico, a psicoterapia vai ser profunda. 

COMPORTAMENTO OU FUNCIONAMENTO

Nós temos vários modelos de psicoterapias. Algumas trabalham o comportamento, tentam trazer para o sujeito, tarefas ou novos modelos de comportamento e propõem para o sujeito exercitar, fazer exercícios para que ele possa mudar o seu comportamento. Agora, existem outras propostas que trabalham o funcionamento do sujeito. Quando eu trabalho o funcionamento, o comportamento vai se transformar por si só. É uma consequência da transformação do funcionamento. A maturação emocional e afetiva vai trazer como desdobramento. A transformação do comportamento, mas mudar comportamentos não pode trazer maturidade emocional.

ANOTAR

Esse estereótipo de um psicanalista com uma prancheta na mão anotando aquilo que o paciente fala é uma caricatura. O psicanalista real não anota nada que o paciente fale ou faça, porque a anotação é um registro e o psicanalista precisa renunciar da memória. Cada sessão é sem passado e sem futuro. Inclusive o Freud até orientava assim: “Não escreva sobre os casos que você esteja atendendo” Freud nunca notou nada que o paciente estava falando.

CONTINENTE 

A psicanálise, sobretudo a partir das propostas do Bion, do Wilfred Bion, passa a ser um continente para receber conteúdos. Se o paciente não trouxer um conteúdo para ser contido, eu não tenho o que fazer. Tudo aquilo que vai ser feito dentro de uma sessão psicanalítica precisa vir do paciente, eu vou acolher e tentar pensar junto com o paciente, tentar propiciar uma transformação daquele conteúdo, para devolver para o paciente. Se o paciente não trouxer nada, nada eu posso fazer, porque qualquer coisa que eu faça que não tenha sido trazido pelo paciente é meu e o meu eu trato na minha análise.

O NÃO DITO

A gente ouve muito orientações de psicanalistas assim ó: “Você precisa ouvir aquilo que não está sendo dito”. Precisamos ter muito cuidado com isso. Muitas vezes, quando você ouve aquilo que não está sendo dito, na verdade, você está projetando algo teu ali e chamando atenção por algo que não é do paciente. Então, se o paciente ficou em silêncio, sim, o silêncio dele está querendo dizer alguma coisa. Mas o que? Não sei! Enquanto ele não manifestar isso eu não posso fazer suposições através do seu silêncio. Psicanalista não é adivinho, nós não estamos ali para adivinhar as coisas. O paciente fica calado e eu começo a adivinhar o que que é que ele está querendo dizer com o silêncio dele. O paciente cruza as pernas, eu falo: “Ah! Cruzou as pernas porque não sei o que, não sei o que mais”. Não! Isso é dedução e nós trabalhamos com intuição.

SILÊNCIO  

Quando o sujeito está num ambiente de paz. Quando o sujeito está num ambiente de silêncio, o caos interno começa a emergir, o barulho interno começa a emergir, aparecer e aí que é o grande problema. É por isso que, muitas vezes, o sujeito tem um benefício de estar em ambientes caóticos, perturbadores, barulhentos, porque aí, ele não precisa a se responsabilizar pelo barulho interno, pela bagunça interna. Então, muitas vezes, ele colabora para que o ambiente em volta dele seja perturbador e barulhento para que ele não precise reconhecer a realidade do barulho interno dele. Se o paciente ficar em silêncio, em silêncio eu ficarei. O silêncio dele será muito bem acolhido por mim, sem que eu precise ficar cutucando ele para que ele fale qualquer coisa. Quando ele começar confiar no ambiente, ele começa a trazer aquilo que precisa ser trazido, já que nós somos acolhedores. Então, nós só podemos acolher aquilo que estiver pronto para ser acolhido. Se não estiver pronto para ser acolhido. eu não posso fazer nada. Porque senão, não é acolhimento é captura, é investigação. Eu não investigo nada, eu não sou um investigador, eu só acolho aquilo que estiver pronto para ser acolhido. Quando você persegue alguma coisa, você promove, na verdade, mais defesas do que o sujeito já tinha. Quando você investiga um sujeito, o sujeito tenta fugir desta investigação.

DEDICAÇÃO OU ESFORÇO

Para que haja uma transformação verdadeira é necessário dedicação, mas para transformar, para mudar comportamentos é necessário esforço. Esforço não é dedicação. Esforço é forçar alguma coisa. Dedicação é persistência, é constância naquilo que se propõe fazer.

DISPUTA 

A competitividade é sempre prejudicial a disputa é sempre nociva. Ah! Mas e o esporte? Pois é, o esporte é um recurso para que você possa elaborar esta competitividade, essa disputa, para que essa disputa e essa competitividade não transbordem para a sua vida cotidiana. Porque quando ela transborda pra vida cotidiana, ela passa a ser nociva e nós somos educados para competir. Nós somos educados para disputar. A escola promove isso. A educação dos pais promove isso. Mas isso é nocivo! Uma criança competitiva e ela vai ser competitiva porque isto é um ímpeto da criança, é importante que ela encontre um esporte, ou alguma atividade para que ela possa elaborar isso e não levar pra sua vida adulta, porque nada mais insuportável do que conviver com um adulto que está tentando competir com você o tempo inteiro. Muitas vezes, você está dando um grupo de estudo com a melhor boa intenção e vem um bonitinho lá no meio: “Eu não concordo!” Não é que ele não concorda com a ideia, é que ele está ali com um ímpeto de disputa, de competição. Muitas vezes, para uma palestra com centenas de pessoas ali, para discordar do sujeito que está falando ali em cima. Se você discorda, fica quietinho e leva embora para casa, tua discordância. Isso é impertinente! Então, o esporte é muito importante para quê? Para elaborar a competição. para elaborar a disputa, para que ela não transborde para sua vida cotidiana e com isso atrapalha e obstrua os vínculos afetivos. Do pai disputando com a mãe, do marido disputando com a esposa, do filho disputando com o pai, do pai vai disputando com o filho. Muitas vezes, com criança! Então, a disputa é nociva, ela precisa ser elaborada, você precisa encontrar recursos para elaborá-la. Pelo amor de Deus! Se você estiver educando seu filho para que ele seja competitivo, você está adoecendo esta criança e vai fazer com que ela se torne um adulto insuportável emocionalmente. Ele vai ser ótimo na empresa, ele vai ser ótimo no mundo corporativo, mas afetivamente, vai ser um chato. As pessoas vão gostar dele porque ele é muito bem-sucedido, mas as pessoas não vão amá-lo, porque ele é insuportável.

JOGO

Muitas vezes, o paciente você traz para ele uma interpretação e ele fala assim: “Ah! Me pegou, heim? Nessa você ganhou!” Não estou aqui competindo com você. Eu estou a favor, estou do teu lado, não estou contra você. Então, a psicoterapia precisa ser uma brincadeira, precisa ser lúdica, assim como propôs Melanie Klein e não um jogo, onde um ganha e outro perde. Não estamos competindo aqui.

INTUIÇÃO

Nós precisamos nos guiar pela intuição. Aí vem a pergunta: “Professor como é que eu posso saber se é intuição ou é uma alucinação? Como é que eu posso saber se essa intuição é realmente um reconhecimento da realidade, ou se eu estou ali imaginando, alucinando alguma coisa?” O que vai definir isso é a possibilidade de criar um vínculo saudável com a realidade. Quando eu estabeleço um vínculo saudável com a realidade, quando eu estabeleço um acordo com a realidade A minha intuição passa a ser a melhor via de reconhecimento das manifestações desta realidade agora quando eu não tenho vínculo com a realidade A minha intuição provavelmente vai ser muito mais referente a coisas que eu estou alucinando ou que eu estou iludido do que um reconhecimento da realidade.

INVESTIGAÇÃO

Quando a gente fala de protopensamento, a gente está falando de um elemento que está entre a ilusão e a realidade. Entre a associação com ilusões alucinações e a possibilidade de passar por aquilo que o Freud chamou de teste de realidade para entrar num acordo com a realidade. O que é que vai definir se o protopensamento vai se associar a Ilusões, ou ele vai tolerar a passagem do teste de realidade é um ambiente acolhedor. O ambiente acolhedor vai fazer com que, espontaneamente o protopensamento se disponha a ser pensado. Não é uma investigação. A investigação não pode fazer isso. Investigar protopensamento vai fazer com que este protopensamento se enfronhe com as Ilusões, seja reprimido. Porque está sendo perseguido, porque está sendo investigado. Então, por mais que a gente tenha esta palavra, “investigação” dentro das formulações psicanalíticas tradicionais, nesta clínica que a gente está conversando aqui, não estamos dispostos a investigar o paciente.



quinta-feira, 8 de agosto de 2024

INVESTIGAR O PASSADO OU PERMITIR O NOVO - Prof. Renato Dias Martino



INVESTIGAR

Apesar desta palavra investigação estar amiúde, nas literaturas psicanalíticas de pensadores consagrados como Freud, Melaine Klein e outros usarem a palavra investigação, não é função de um psicanalista real investigar. Nós precisamos estar abertos para acolher aquilo que o paciente trouxer. A investigação precisa ficar para os investigadores, para a polícia, para qualquer outro profissional, mas o psicanalista não pode se prestar a investigar a vida do paciente. Ele precisa estar aberto para refletir sobre os conteúdos que o paciente trouxer. A investigação abre um campo persecutório, abre um campo onde a perseguição se instala.

O NOVO

Qual é a origem da repetição de padrões na vida do sujeito? Por que que o sujeito remonta o passado constantemente, seja pela lembrança ou seja pelas ações? Porque ele não conseguiu ainda, viver experiências novas que pudessem trazer para ele reparações para que ele pudesse desobstruir o caminho e seguir o fluxo da vida. Na medida em que ele vive experiências saudáveis, isso vai propiciando para ele possibilidades de reparações nesse funcionamento para desobstruir e ele possa continuar a sua vida com experiências novas. A questão não é investigar a vida do paciente para ver por que aquilo está se repetindo, mas é propiciar experiências novas. Essas experiências que vão trazer para ele a possibilidade de se ocupar com o presente, trazer para ele a possibilidade de deixar de se preocupar com o futuro e de remontar o passado através de lembranças dolorosas.

O LUTO E O NOVO

O luto é justamente isso: ser capaz de deixar passar. Ser capaz de permitir que a coisa passe. É passar pela coisa para que a coisa passe. Isso é elaborar o processo do luto. Isso é sofrer o processo do luto. Quando eu tento investigar a vida do sujeito, eu não estou permitindo que o fluxo aconteça e eu acabo não conseguindo aprender com a experiência, porque eu fico preso no passado. Ancorado naquilo que passou.



quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

INVESTIGAÇÃO, CONFUSÃO E COMPAIXÃO - Prof. Renato Dias Martino



Na literatura psicanalítica vamos encontrar a palavra investigação amiúde. Vamos encontrar a palavra investigação em Freud, em Melanie Klein, em Winnicott, em Bion... Não é função do psicanalista, que esteja praticando a psicanálise do acolhimento, a investigação.

INVESTIGAÇÃO

Não somos investigadores, não temos a função de investigar a vida do paciente. Não temos a função de investigar o funcionamento do nosso paciente. Isso é uma falácia, não funciona. Nós somos acolhedores. Não vamos escarafunchar a vida do paciente. Tudo aquilo que a gente precisa, emergiu espontaneamente por conta de um ambiente livre de críticas e bajulações. A nossa função é criar um ambiente saudável o suficiente para que, aquilo que precisa ser repensado, aquilo que precisa ser acolhido, possa emergir espontaneamente. Não é nossa função, ficar penetrando no funcionamento do paciente. Isso é um desrespeito. Corajosamente, estou aqui, novamente, tentando repensar elementos que são frequentes na literatura psicanalítica. O analista que fica procurando nas redes sociais a vivência dos pacientes por exemplo. Esse é um absurdo! Investigando o Facebook do sujeito, investigando o Instagram dele. Mas, não precisa fazer isso, pode ser, por exemplo, na própria sessão. Ficar com curiosidades para saber mais sobre aquilo que o paciente está falando. Não é função do analista a curiosidade. Eu estou ali para conter. Eu sou um facilitador para que o paciente possa se sentir à vontade o suficiente e permitir que os elementos possam emergir durante a análise e aí eu vou acolher. Você investiga um crime e eu não estou ali frente a um criminoso. A ideia de investigação é persecutória. O analista investigador é aquele sujeito que está ali, de uma maneira perseguidora. Está procurando qualquer coisa que o paciente fale e que possa contradizer alguma outra coisa que ele disse, para que eu possa pegá-lo e apontar. Não! Não é isso.

PERDIDO NA FLORESTA

Eu costumo comparar o processo psicoterapêutico com um sujeito que está perdido na floresta. A função do analista é estar junto com ele, perdido na floresta, não é mostrar o caminho para sair da floresta. Seu analista que é capaz de subir na árvore para olhar longe na floresta, para ver e te falar lá embaixo: “Olha, ali tem um rio ó... Lá tem uma estrada...” Ele não vai dizer: “Ó! O caminho é por aqui.” Mas ele vai te dar um panorama daquilo que está acontecendo na floresta. Porque, o caminho para sair da floresta do psicanalista não é o mesmo caminho de sair da floresta do paciente. Você está perdido na floresta sozinho é uma coisa e você está perdido na floresta junto com o seu analista é outra coisa.

COMPAIXÃO OU CONFUSÃO 

A compaixão é um elemento fundamental de um psicanalista, dentro da perspectiva do acolhimento. Com-paixão – “com”, quer dizer junto e “paixão”, nesse sentido, quer dizer sofrimento, sentimento. Este termo paixão é o mesmo que dá origem à palavra paciente. Paciente é o sujeito do sofrimento, o sujeito do sentimento, que será acolhido pelo analista. Então, o analista precisa estar junto do paciente no seu sofrimento. Isso é compaixão. Estar junto do outro no sofrimento. Para que isso possa acontecer, o analista precisa estar muito bem com o seu funcionamento e muito bem consigo mesmo. Acolhendo a si mesmo, tendo compaixão consigo mesmo, porque senão, o que vai acontecer é uma confusão. O analista se confundir com o paciente na sua dor. Confundir a sua dor com a dor do paciente não é compaixão, é confusão. E aí, você não pode ajudar seu paciente, porque você está confundido com ele.