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domingo, 15 de dezembro de 2024

O FLUXO DA REALIDADE E A ILUSÃO OBSTRUTORA - Prof. Renato Dias Martino


REGRESSÃO

A mente funciona o tempo todo em transformação e quando ela é impedida de se transformar ela adoece. O processo emocional-afetivo, que está dentro da perspectiva mental é um processo de transformação constante e essa transformação é sempre progressiva, é sempre desenvolvendo-se, é sempre na direção da maturação. Não há transformação emocional e afetiva inversa, regressiva. Por mais que a gente tenha essa palavra “regressão”, amiúde sendo cogitada nas formulações psicanalíticas, é uma grande ilusão. Ninguém regride. A regressão, na verdade, é uma manifestação de um ponto fixado que nunca se desenvolveu, logo, se nunca se desenvolveu, não pode regredir.

ILUSÕES 

A vida emocional, a vida afetiva se desenvolve onde o sujeito não tem um fluxo contínuo do seu acordo com a realidade. Ele se perde nas ilusões impreterivelmente. Não existe vacina para o sujeito não se perder nas ilusões. Ele vai se perder nas ilusões, mas dentro de um desenvolvimento saudável de transformação, ele vai retomar este acordo com a realidade no fluxo do desenvolvimento do seu aparelho emocional e consequentemente, desdobrando-se nas relações afetivas.

O CAMINHO

O que que nós estamos chamando de ilusão? De maneira bem clara, a maneira como desejamos que a realidade seja independente daquilo que realmente está sendo. Isso é ilusão. Quando a gente está aqui cogitando sobre este conceito que é preenchido por uma experiência, dentro da cultura oriental cultura védica, até o budismo deve utilizar deste conceito também, nós temos o Véu de Maya como sendo a ilusão. O sujeito, quando está iludido, ele está envolvido, ou cego pelo Véu de Maya. No cristianismo nós temos uma outra expressão e dentro da filosofia também, que é o Livre Arbítrio. Quando o sujeito está exercendo o seu livre arbítrio ele está iludido. O que é que vai conduzir o sujeito no acordo com a realidade, dentro das formulações orientais? O Dharma. É o caminho de iluminação. E o que é que vai conduzir dentro do cristianismo o sujeito dentro do acordo com a realidade? “Seja feita a vossa vontade”, não a minha.

REALIDADE

Quando nós tratamos aqui de realidade, nós estamos falando daquilo que é fato independente do que a gente gostaria que fosse. Isto é realidade, dentro do que a gente está falando aqui. Esta é uma definição clara do que é realidade. Dentro da religiosidade, das formulações religiosas, também nós temos isso. A Deidade, Deus é isso que a gente chama de realidade dentro dessa nossa filosofia, ou desta formulação psicanalítica. “Ah! Mas eu sou ateu! Eu não acredito em Deus!” No que que o ateu não acredita? Em Deus. Ele não acredita, isso não quer dizer que não exista. “Isso aí que você está chamando de realidade para mim não importa!” Não importa, mas ainda assim, continua existindo. E é muito importante a gente pensar que esta realidade não é tangível cognoscivelmente. Ou seja, não há possibilidade de se conhecer a realidade. O conhecimento não abrange a realidade. Você pode reconhecer a realidade, ou seja, admitir que ela existe, mas não pode conhecê-la.

ACORDO

Se eu não posso conhecer a realidade, se eu não posso abranger a realidade pelo aparato intelectual, ou pelo cognoscivel, por que via eu posso entrar em acordo com a realidade? Através do “estar sendo”. Por que não através do ser? Porque o ser é estático. Porque o ser é cristalizado. Quem é, é alguma coisa pré-estabelecida e dentro da realidade não há nada pré-estabelecido. A realidade é fluxo. Para que você possa estar num acordo com a realidade, isso só vai se dar através do estar sendo. por isso não pode ser conhecida. Porque o conhecimento pressupõe passado. Quem conhece, conhece alguma coisa que registrou no passado. Aquilo que está acontecendo no aqui e agora, no “estar sendo”, não pode ser conhecido.



sexta-feira, 4 de outubro de 2024

DO AUTOEROTISMO AO AMOR PELO OUTRO - Prof. Renato Dias Martino


AUTOEROTISMO

Hoje nós temos aí, pessoas com um dom extremamente elevado de diagnosticar as pessoas, de apontar os dedos e trazer com precisão inúmeros dados, mas nós psicanalistas, precisamos ser humildes o suficiente para admitir que a gente não sabe nada e que a gente precisa viver essas experiências junto com o paciente. A questão é o sujeito que só consegue se satisfazer através da masturbação. Então, a gente está falando aí, da impossibilidade de ter passado do autoerotismo para o narcisismo primário. O que é o autoerotismo? É quando o sujeito se satisfaz consigo mesmo, por mais que seja através do corpo do outro, mas ele ainda tem uma autossatisfação, ele não consegue admitir o outro. Ele não inclui o outro. Então, ele não conseguiu fazer essa transição do autoerotismo para o objeto externo, para o outro. Então, ele ainda ficou fixado nisso.

NARCISISMO PRIMÁRIO

Como se dá a passagem do autoerotismo para o narcisismo primário? Então, Freud vai colocar em 1914, SOBRE O NARCISISMO: UMA INTRODUÇÃO, que, para que possa haver o narcisismo primário, precisa ter havido uma ação a mais. Qual é essa ação a mais? É a apresentação do objeto que é a mãe. A mãe precisa entrar na relação, porque se a mãe não entra na relação ele fica preso no autoerotismo. Para a mãe se apresentar e para que o sujeito possa reconhecer esta mãe, ela precisa chegar de mansinho. Aí, vamos resgatar o Winnicott: ela, primeiro, precisa ter sido o ambiente. Quando ela é um ambiente, o bebê vive o autoerotismo, porque ela não é outra pessoa. Então, ele desenvolve, ele vive a experiência do autoerotismo até o ponto que isso possa se desenvolver e ele passe a ser capaz de reconhecer o outro. Este outro passa a ser um espelho para ele. Quando ele passa a ser um espelho para ele, ele começa a viver o narcisismo primário. Então, agora ele admite a entrada do outro, mas um outro que vive exclusivamente para ele. Quando ele não tem este outro que vive exclusivamente para ele, ele fica fixado no autoerotismo como se não existisse qualquer outra pessoa. Porque essa outra pessoa não foi boa o suficiente para que ele pudesse abrir mão daquela configuração autoerótica para se abrir para o outro.

FUNÇÕES

Quando eu falo aqui da função materna, eu estou falando implicitamente da função paterna. Não há como exercer a função materna de maneira suficientemente boa, ou de maneira bem-sucedida, sem a presença atuante da função paterna não tem como.

INTENSO OU DURÁVEL 

Amor intenso não existe! Amor intenso é paixão e na paixão o elemento fundamental é o desejo. Na paixão eu desejo o outro, no amor eu me dedico ao outro. E a dedicação não é intensa, ela é constante. O amor é constância, a paixão é intensidade. Então, quando a gente está falando de um amor saudável, de um amor verdadeiro, a gente está falando de constância, de continuidade. Quando a gente fala de intensidade, nós estamos falando de paixão. Na paixão o sujeito elege o outro como um objeto de desejo e quando ele percebe que o outro não corresponde ao seu desejo, ele já não quer mais o outro. 

GOSTAR OU AMAR

Nós temos a ideia de que amor é um sentimento, nós temos a ideia de que se sente amor. Eu sinto amor! Não! Eu não sinto amor. Amor não é um sentimento, amor é uma capacidade. Nós tendemos a colocar o amor no super relativo do gostar. Eu gosto tanto que eu amo. Não! Amor é independente de gostar. Amor é dedicação, amor é doação. Gostar é para coisas, amar é para pessoas. Quando a gente ama o outro é quando a gente está aberto a se dedicar ao outro. Por quê? Porque a gente está amando a gente mesmo, porque a gente é capaz de amar a gente mesmo, a gente estende esse amor ao outro. E amar a nós mesmos independente de gostar de nós mesmos. Eu posso não estar gostando de mim, mas eu me amo, eu me dedico a mim mesmo. Isso porque aquele que cuidou de mim, aquela que fez a função materna e aquele que fez a função paterna me amava independente de gostar de mim. Uma mãe não gosta do bebê o tempo todo. Bebê é muito difícil de cuidar e eu não posso esperar que eu goste desse bebê para amá-lo. Gostar é quando o outro me traz um benefício, amar é quando eu me dedico ao outro. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.


DIFERENCIAÇÃO 

A mãe se separou do pai e o menininho de 11 anos, um dia chegou para mãe e falou assim: “Mãe, olha, eu te amo muito, mas o papai é muito mais legal que você”. Na avaliação da criança, o pai é mais legal. Agora, quando a criança não é capaz de amar ainda, porque ela ainda não tem esta capacidade. Uma criança não ama. Crianças não amam! Bebê não ama! Eu não posso exigir de uma criança que ela ame, porque ela ainda não é capaz disso. Ela precisa ser amada, muito amada, muito bem-amada, para que ela possa desenvolver isso. Então, não posso exigir isso da criança. Então, enquanto ela não se torna capaz de amar ela também não é capaz de discernir o que está vindo do outro, se é amor, ou qualquer outra coisa. Mas, a ainda assim, a dedicação é amor e quando ela aprender a amar através dessa dedicação, que hoje ela não consegue reconhecer como amor, ela vai perceber e vai avaliar quem realmente ama. Talvez a criança não seja capaz de diferenciar quem gosta dela e quem a ama, mas isso aí é temporário, é até que ela possa aprender a amar. Aprender a amar através do quê? Através da dedicação que tiveram com ela e não através das pessoas que gostam dela. Porque as pessoas que gostam dela, gostam porque ela pode trazer um benefício. Porque ela é bonitinha, porque ela fala legalzinho, porque ela sabe fazer continha, porque ela faz desenho bonito, isso é gostar, mas isso daí só alimenta um falso eu, porque você vai ficar preso naquilo que você tem que fazer para que o outro possa gostar de você. O amor não! O amor é dedicação. As pessoas que se dedicaram a mim, alimentaram em mim a minha auto-dedicação e hoje eu sou capaz de dedicar a mim mesmo e estender essa dedicação ao outro. Isso é amor! Gostar é outra coisa. O amor se manifesta quando eu não espero nada do outro. Enquanto eu estiver esperando alguma coisa do outro, não é amor. Então, o amor se manifesta quando o sujeito é idoso e quando o sujeito é criança. Por quê? Porque quando ele é criança, ele não pode trazer benefício nenhum para o outro e quando ele é idoso, tanto quanto. Então, a criança pode não estar sendo capaz de reconhecer, ou diferenciar, ou avaliar o que é amor e o que é gostar, mas mesmo que ela não esteja sendo capaz de diferenciar, está acontecendo a nutrição e ela está se alimentando disso e se nutrindo disso.

DEPRESSÃO PÓS 

Depressão é um movimento. O movimento para dentro, para baixo. A depressão pode tanto ser patológica, quanto ser saudável. Todas as duas são desconfortáveis. Então, depressão pós-parto, ela vai acontecer, em alguma medida, em todos os partos, em todos os pós-partos, todo filho que nasce vai gerar na mãe uma certa depressão. Todo sujeito que entra na minha vida, após a entrada desse sujeito na minha vida, vai gerar uma depressão. Por quê? Porque esta entrada do outro vai, de alguma forma sacrificar uma parte do meu narcisismo. Então, o bebê que nasce vai, de alguma forma, suprimir a vida da mãe em alguma medida. A mãe, agora, vai ter que viver para aquela criatura e dizer que você vai lidar com isso de uma maneira: Ah está tudo bem! Não! Não vai lidar com isso, “tudo bem”. Umas estão mais preparadas para isso, outras menos, mas de alguma forma, você vai sentir isso. Ou seja, você, em algum momento, não vai gostar que aquela criança esteja ali, mas você vai amá-la, da mesma forma, mesmo não gostando que ela esteja ali, porque amar é dedicação.

EDUCAR

Você sabe qual que é a semântica da palavra educar? “E” quer dizer fora e “DUCERE” quer dizer colocar. Educar é colocar para fora. Educar é um fator da função paterna, a mãe não educa é o pai que vai preparar para fora. É a função paterna que prepara a criança para que ela possa viver no mundo externo. A mãe não! Quando não tem a função paterna, a mãe tem que carregar esse duro fardo de educar e aí, ela tem que se destituir da sua sensibilidade que é a sua maior virtude para fazer isso.

NÃO DE PAI 

Para o pai, falar um não é uma coisa, para a mãe falar um não é outra. Custa muito para uma mãe falar não. Para o pai é corriqueiro. Então, numa família bem estruturada, o filho pede alguma coisa para mãe e a mãe fala assim: “Vai pedir pro seu pai”. Por quê? Porque para ela custa falar não, mas para ele é simples. “O pai... Não! Não! Não! Não! Não! Já falei que não.” Acabou a conversa! O pai dedicado é o pai que ama, é o pai que se dedica ao filho, é o pai que se dedica à criança. Não é simplesmente aquele que fala não. Não é simplesmente aquele que faz reconhecer o limite, mas é aquele que se dedica. E este pai que é capaz de amar também vai dizer o não e este não é mais um fator da função de dedicação. A dedicação dele inclui o não. Então, o pai que ama não precisa sequer justificar o não, porque o não é uma expressão do amor, da dedicação. Quando ele fala esse não com amor, este não é internalizado como autocuidado e esta criança vai aprendendo a dizer não para ela mesma como um autocuidado e não como uma repressão, como uma castração, ou como qualquer coisa nesse sentido, mas como uma capacidade de respeitar a si mesmo. E a partir daí, ele vai se posicionando e tomando atitudes que incluem esta configuração de limite e amor.

MODELO

O nosso desenvolvimento emocional trabalha através de modelos. Eu preciso de modelos. Modelos que possam me trazer limite e amor. Eu preciso ser amado com limite para que eu possa ver no outro um modelo que eu possa seguir, mas hoje nós estamos extremamente carentes de modelos. Modelos aonde? Dentro de casa. O pai precisa ser um modelo para o menino se tornar um homem. O pai precisa ser um modelo para que a menina possa avaliar qual é o homem que ela vai se envolver. A mãe precisa ser um modelo para menina se tornar uma mulher. A mãe precisa ser um modelo para que o menino possa avaliar a mulher que ele vá se envolver. Mas nós não temos mais isso. O pai não está mais presente. A mãe também não está mais presente. E aí, ou ele desiste de procurar modelos, ou ele busca o modelo externo, o modelo de um ídolo que sabe lá onde é que está. Muitas vezes político, muitas vezes dirigente religioso... Sei lá onde... Um cantor de funk, um artista, ele busca esse modelo onde este modelo não é adequado para que ele possa estruturar a sua própria personalidade.




quinta-feira, 11 de julho de 2024

O SONHAR E A CESURA - Prof. Renato Dias Martino


SONHO TERAPEUTICO

A mãe sonha o sonho do bebê, até que ele seja capaz de sonhar os seus próprios sonhos. Isso é belíssimo! A mãe sonha o sonho do bebê. Ele não é capaz de sonhar. O psicanalista precisa sonhar o sonho do paciente. Não é sonhar o sonho dele para o paciente, é sonhar o sonho do paciente. Bion chama isso de RÊVERIE. O paciente, muitas vezes, chega obstruído com um “deveria ser”, com uma regra, com normas, com críticas, com exigências, que não permitem que ele sonhe e a partir da vivência com o psicoterapeuta, com o analista, ele começa a desobstruir tudo isso na vida dele e passa a ser capaz de sonhar. É sonhar com ele, não é realizar. É muito importante que a gente seja capaz de pensar isso. O espaço psicoterapêutico não é um espaço de realizar coisas, é um espaço de pensar de sonhar.

RÊVERIE

O Bion traz a ideia do RÊVERIE. O que ele propõe com o rêverie? Rêverie é sonhar. Então, ele diz assim: “o analista sonha o sonho do paciente”. Então, a gente precisa separar a ideia de sonho, com a ideia de sonhar. Sonhar é um processo, sonho é um conteúdo. O sonho é do paciente, agora, o processo é o analista que vai fazer. Precisa haver uma diferenciação dessas duas coisas. O analista reconhece o sonho do paciente e percebe a dificuldade do paciente submeter esse sonho ao processo do sonhar e aí o analista vai entrar para ajudar nesta tarefa. Vai sonhar o sonho do paciente para que o paciente possa entrar no próprio sonho e se tornar protagonista desse sonho e passar a sonhar. Então, uma coisa é o sonho. Este sonho é dele, outra coisa é o processo de sonhar e isso ele está obstruído de fazer.

TRANSFORMAÇÃO 

Toda a transformação funciona de uma maneira processual. Existe um processo para transformação. Nada acontece de uma hora para a outra. Nada pode acontecer de um formato para outro instantaneamente. Tudo, pode ser mais lento, ou pode ser mais rápido. Há ali, um processo e o processo que leva de uma forma para outra forma, nós vamos chamar de “cesura”. A palavra cesura, ela vem da gramática. Uma pausa de uma estrofe para outra. O Bion ainda vai usar a ideia de “mudança catastrófica”. CATA que é virar e estrofe. Virar uma estrofe para outra. É muito usado no teatro grego, onde existia uma parte de uma encenação aí, entrava o couro e depois entrava outro ato, já com tudo mudado. A partir do texto que foi falado pelo couro ali, é esta é a mudança catastrófica. Então, esta fala do couro que tem uma intersecção do primeiro ato para o segundo ato, ou seja, de um ato para outro ato, a gente vai chamar de cesura. Quando a gente fala de dia e de noite a gente precisa falar do entardecer. Este entardecer é a cesura. Eu era uma pessoa ontem e hoje eu sou outra pessoa, mas para aquela pessoa que eu fui ontem e a pessoa que eu sou hoje, houve uma cesura, houve um processo de transformação, que muitas vezes a gente não dá conta de tolerar. A gente prefere não olhar para isso, porque é feio quando a gente está se transformando. A gente não gosta de se transformar. A gente gosta de ser isso, ou aquilo. A gente não tolera a transformação. A transformação é desconfortável, porque quem transforma não sabe no que vai se transformar. A lagarta, quando ela está se transformando em borboleta, ela passa por uma fase horrível. Ela prefere continuar sendo lagarta, porque ela vai ter que ficar presa naquele casulo e é horrível. Vai passar por uma fase extremamente vulnerável. Qualquer bicho vai poder ir lá e comer. Então, esta cesura é muito desconfortável e o processo psicanalítico é pura cesura, a psicoterapia é só cesura. Você está se transformando em outra pessoa por isso é desconfortável e você não sabe que que outra pessoa você vai se tornar isso é desconfortável. O melancólico tem um problema enorme com entardecer. O sujeito que tem uma cota proeminente da melancolia, ele tem um problema seríssimo com o entardecer, ele se desespera conforme o sol vai abaixando. E aí, dá-lhe Rivotril! E o que que acontece? O sujeito toma o medicamento psiquiátrico e se descola da cesura, não vive a cesura e a vida é uma grande cesura. A gente está aqui de passagem, a gente não é, a gente está sendo. Então, a vida é uma grande transformação, é um processo, mas a gente tem uma dificuldade enorme de viver esse processo. É desconfortável! É desconfortável você olhar no espelho e começar a ver que a tua barba está ficando branca, que você está com rugas. E aí, dá-lhe botox, dá-lhe esticar o couro do tamborim.

FANTASIAR, SONHAR, PENSAR

Qual é a diferença entre fantasiar e sonhar. Se a gente for pensar no processo de sonhar, existe a fantasia, o processo onírico e aí, ele está preparado para o pensar. O fantasiar seria um fator da função do sonhar. Então, existe fatores que constituem a função do sonhar, um desses fatores é o fantasiar. O fantasiar é lidar com alguma coisa que não existe, como se existisse. O sonhar já é mais do que isso. O sonhar já é um processo. Eu fantasio e não saio daquilo, quando eu sonho, isso já propõe um processo. E aí, já está em transformação. Quando isso está num processo onírico, isso já está se transformando. Enquanto, quando eu estou fantasiando, aquilo ali está dentro das minhas expectativas, independente do que está acontecendo no mundo externo. o Freud vai propor que, quando ele fala ali, do processo primário para o processo secundário, ele diz assim: “uma cota disso que está dentro do processo secundário ainda se manteve no processo primário, não conseguiu passar para o processo secundário. Ou seja, ainda está dentro do princípio do prazer, ainda está dentro do princípio do prazer/desprazer, ainda está dentro do intuito de satisfações imediatas, ou evitação de frustrações de desconfortos” e esta cota ele chamou de fantasiar. O sujeito que tem a proeminência neurótica, ele tem esta cota do fantasiar e este fantasiar não se submete a processos. Quando esse fantasiar se submete ao processo, ele passa para o nível onírico, que já está sendo transformado e já está sendo preparado para ser pensado. Ou seja, já está dentro daquilo que o Bion vai chamar de função-alfa, transformação.

SONHO E REALIDADE

Para que o sujeito possa realizar o seu sonho, ele precisa ser capaz de tolerar que a realização não coincide com o sonho. A realização é real - me perdoe o pleonasmo - o sonho é ideal. O sonho é uma imaginação, o sonho está no mundo de possibilidades infinitas, a realidade restringe. Então, o sujeito realiza o sonho não como sonhou mas como foi possível realizar.

SONHO, LIMITE E REALIZAÇÃO

Onde está o limite da realização dos sonhos? No outro! É o outro que mostra o limite da possibilidade na realização do sonho. É o outro que mostra esse limite, mas também é o outro que viabiliza a realização. Sem o outro não há realização de nada. Para ser real tem que incluir o outro e não só incluir o outro, mas tem que se doar ao outro. Então, a realização está subordinada à capacidade de amar. Se o sujeito não for capaz de amar, aquilo que ele está fazendo é, na melhor das hipóteses, uma produção. Ele produz alguma coisa, mas não realiza.

PRODUZIR, CONSUMIR OU REALIZAR

Onde está a origem dessa configuração de uma sociedade formada por sujeitos que só produzem e consomem? A dificuldade em confiar em si mesmo! A dificuldade em acreditar em si mesmo, a dificuldade em reconhecer a si próprio. Então, ele vive esperando que o outro acredite nele. Ele vive buscando o emprego, porque ele não acredita nele mesmo. Ele passa anos dentro de uma faculdade, dentro de uma universidade e sai dali procurando um emprego, esperando que o outro acredite nele. Pega o diploma como mais uma prova de que ele pode ser confiável, porque não acredita em si mesmo. E ele sai dali, da faculdade, depois de se dedicar ali, 5, 6, 7, 8, anos aí, incluindo pós-graduações, buscando aprovação do outro. Tentando passar em concursos, tentando passar em testes, porque ele não acredita nele. Esperando que alguém acredite nele. Essa é a sociedade contemporânea. As escolas e muitas vezes, os pais educam os filhos para isso: para buscar um emprego para que ele possa produzir e não realizar. Porque este emprego traz para ele, segurança. Um concurso público te dá segurança. Que segurança? De chegar na velhice, olhar para trás falar: “que que eu fiz na minha vida? O que que eu realizei? Eu trabalhei a minha vida inteira para quê?




quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

PROCESSO DO LUTO - Prof. Renato Dias Martino



Processo do luto, dentro da psicanálise, não é simplesmente aquela experiência que se dá após a perda de alguém querido, mas dentro da psicanálise, o processo do luto é aquilo que vai se dar após o reconhecimento de uma frustração, o reconhecimento de uma falta, o reconhecimento de uma falha, seja no mundo externo, ou seja no mundo interno. Seja em relação ao outro, ou seja, em relação a si mesmo. Então, muitas vezes, o sujeito vai fazer alguma coisa e ele não consegue fazer essa coisa, ele falha em fazer esta coisa, quando ele reconhece que ele falhou, ele vai viver um processo do luto. Eu costumo dizer que o processo do luto, para ser elaborado, ele vai ter três “erres”. O “Reconhecimento”, a possibilidade de aprender a “Respeitar” esse processo do luto e posteriormente a “Responsabilização” por aquilo que decorreu desse processo do luto.

LUTO E MELANCOLIA

O Freud, lá em 1917, publica o LUTO E MELANCOLIA. Ele vai dizer que, quando o sujeito não viveu uma experiência bem sucedida com aquilo que posteriormente foi perdido, ao invés dele passar pelo processo do luto, ele cai num estado de melancolia, ou seja, ele não consegue acreditar que ele possa continuar vivendo depois da perda daquilo.

MELANCÓLICO DESENERGIZADO

O melancólico é um sujeito desenergizado, por assim dizer. A maior parte da sua energia era investida num objeto e quando esse objeto é perdido, essa energia se perde também.

INTERVENÇÃO COM O MELANCÓLICO

O sujeito que está num estado de melancolia vai precisar viver uma experiência interna que possa desobstruir o seu caminho. Não existe intervenção psicanalítica que possa fazer isso por ele. O que a gente pode fazer, no máximo, é propiciar um ambiente saudável que esteja livre de críticas, que esteja livre de seduções, bajulações, que esteja livre de julgamentos, de condenações, para que ele possa se sentir bem o suficiente. Não acredito numa intervenção externa que possa trazer a possibilidade desse desencadeamento.

TOLERÂNCIA À FRUSTRAÇÃO, DESAPEGO E LUTO

Nós temos três conceitos importantíssimos dentro da psicanálise, das formulações emocionais e afetivas. Tolerância à frustração, desapego e luto. Um conceito está interligado ao outro. Para que haja a elaboração do processo de luto, precisa haver desapego, para que haja o desapego, precisa haver tolerância a frustração. É necessário que haja a possibilidade do desenvolvimento da tolerância à frustração, da possibilidade de adiar satisfações e renunciar de desejos, para que possa haver a experiência do desapegar-se, naquilo que o Mestre Eckhart vai chamar de desprendimento, e com isso, possa haver a elaboração do processo de luto.

DOIS CAMINHOS 

Quando o sujeito teve uma experiência bem-sucedida, viveu um vínculo saudável com um objeto que tenha sido perdido, ele consegue viver o processo do luto em relação a isso que foi perdido. Quando a relação com esse objeto que foi perdido foi conflituosa, foi tóxica, de alguma forma, não pode ser bem elaborada, quando existe a perda do objeto, o sujeito cai num estado de melancolia, ou seja, ele não perde só o objeto no mundo externo, mas ele perde algo dentro dele que se confundia com o objeto externo, naquilo que a gente vai chamar de equação simbólica. O que está dentro e o que está fora, são a mesma coisa.

PROCESSO OU ESTADO 

O luto é um processo, é uma transformação. O sujeito que está vivendo o luto, ele está dentro de um processo, ele sofre um processo. A melancolia é um estado, não existe transformação. A melancolia não é um processo. O sujeito, quando cai em melancolia, ele não é capaz de sofrer. Ele não tolera sofrer, por mais que ele esteja sentindo a dor.

DO ANALISTA 

O analista, quando ele está num processo de luto, seria muito importante que ele pudesse se resguardar. Seria muito importante que ele pudesse respeitar este processo do luto e se resguardar, até que ele possa elaborar uma boa cota deste processo e a partir daí voltar a atender. o analista que esteja em melancolia num estado de melancolia então não tem nem o que dizer porque é muito pouco provado ou eu diria impossível que ele possa exercer a sua função.

AUTOSSABOTAGEM

Uma breve pesquisa na obra do Freud, você vai perceber que ele é bem humilde em relação aos processos internos. Então, ele vai dizer assim: “Quando o processo é interno, nós temos muito pouco conhecimento de como isso acontece.” Nós precisamos ter aquilo que o Bion chamou de “ato de fé” para que a gente possa tolerar o tempo necessário para que isso aconteça. E aí a gente vai, esperançosamente, propiciando esse ambiente saudável para o paciente. No entanto, todo esse processo vai acontecendo no tempo do paciente, não no tempo que a gente tem, enquanto expectativa. E esse é o grande problema. Na maioria das vezes, um paciente que esteja de um estado melancólico, ou que a cota melancólica dele esteja sendo proeminente no seu funcionamento emocional e afetivo, ele dificilmente busca ajuda psicoterapêutica. Dificilmente ele vai até o psicoterapeuta. Porque a melancolia traz para ele uma desesperança enorme. Ele não acredita que qualquer coisa do mundo externo possa ajudá-lo a continuar viver que não seja o objeto que foi perdido. Paciente melancólico entende-se, paciente que tenha a cota melancólica proeminente no seu funcionamento. Melancólico todos somos em certa cota. Quando o paciente melancólico, ou paciente que esteja com sua cota melancólica proeminente, procura psicoterapia, o trabalho é muito difícil, porque que ele vai se autossabotar constantemente, porque a melancolia tem a característica peculiar do sentimento de culpa. A perda do objeto deixou um sentimento de culpa no sujeito. E aí, o que acontece? Ele vai viver esse sentimento de culpa, ele vai se julgar por esse sentimento de culpa e ele vai se condenar por esse sentimento de culpa. E muitas vezes, vai se autossabotar mesmo sem perceber que esteja fazendo isso. Mas a sua própria desmotivação para as suas práticas e as suas realizações vão propiciar uma atmosfera de autossabotagem e as coisas dele parece que não andam. Ele dá um passo pra frente e dois para trás por assim dizer.

TOLERÂNCIA

Não pode existir um funcionamento saudável, dentro do âmbito emocional e afetivo, sem poder contar com tolerância às frustrações. A tolerância à frustração é a base de todo o funcionamento saudável da mente. É a base de todo funcionamento afetivo, ou seja, das formas saudáveis de se relacionar com o outro e consigo mesmo. É a partir da tolerância à frustração que se estrutura um bom funcionamento da mente.

LUTO E A DEMANDA DO OUTRO

Todas as vezes que se perde alguma coisa que era muito importante para o sujeito, todas as vezes que se desliga de alguma coisa do mundo externo, que tinha uma importância muito grande para o sujeito, existe um retraimento do interesse do mundo externo. O sujeito se retrai do mundo externo. O mundo externo fica sem graça, passa a não ser interessante, no período do que a gente chama de luto. E é muito importante que isso seja respeitado. Que o sujeito seja respeitado no seu processo da elaboração do luto. Que ele possa realmente se retrair do mundo externo e que não seja cobrado dele que ele volte ao mundo externo, por conta da demanda do outro.

DEPRESSÃO PATOLÓGICA 

A palavra depressão é polissêmica, dentro das formulações emocionais e afetivas. Ela vai desde a catalogação psiquiátrica do psicodiagnóstico depressão, até a expansão, dentro da possibilidade de um movimento introspectivo. Todas as vezes que o sujeito, por exemplo, vive uma perda, ou uma frustração, ele vai entrar num processo depressivo. A tristeza é depressiva. Isso que a gente chama de patologia da depressão, tem duas origens possíveis. A primeira é quando existe realmente, a instalação de um quadro de melancolia. Quando o sujeito não pode viver uma experiência saudável com o objeto que foi perdido, e na perda desse objeto, ele vai se retrair e vai perder a motivação de viver. Agora, existe uma outra possibilidade de um quadro patológico de depressão, que é o luto mal elaborado. O sujeito perdeu um objeto que, ele pode até ter tido um bom relacionamento, mas por conta do ambiente nocivo que ele viva, ele não conseguiu viver o processo do luto. Ele foi impedido de viver e elaborar o processo do luto. Nessas duas possibilidades, ele pode cair numa depressão patológica.

LUTO E RESPEITO

Nós vivemos numa contemporaneidade que não respeita o período do luto, que não respeita a elaboração do processo do luto. Nós vivemos num tempo onde o luto é encarado como doença. O sujeito, quando vive uma perda e se retrai, por conta dessa perda, é sugerido a ele, que ele tome medicamentos para que ele não viva o luto, que ele não viva a depressão incluída no luto. Desde os parentes, da família, até os amigos e se estendendo à vida profissional. Todo mundo tem uma ânsia enorme para que esse sujeito saia logo desse estado de luto e isso é muito perigoso, porque muitas vezes, ele acaba interrompendo o processo necessário do luto para atender o desejo do outro. “Não fica triste, não! Não fica assim, não! Toma um medicamento antidepressivo. Vamos tomar ‘uma’, para esquecer a tristeza!” Na realidade, ele precisa viver aquele processo. Aquele processo é necessário para que ele possa elaborar aquele luto e retomar a sua vida agora de forma saudável.


quinta-feira, 16 de novembro de 2023

INTEGRAÇÃO, DESCONFORTO E TOLERÂNCIA - Prof. Renato Dias Martino



Muitas vezes, quando a gente fala de integração, da personalidade integrada, de da experiência de integração da personalidade, dentro dos processos emocionais e afetivos, a gente tem a impressão de que a gente está falando de um processo que traz uma sensação agradável, quando na realidade é o contrário. Agradável é poder dividir o mundo em bom e mal. Agradável é poder projetar todo o mal em uma coisa e todo o bem em outra coisa. Tudo que é bom numa coisa e tudo que é mal em outra coisa. Acreditar que nós somos puros, enquanto o outro é maléfico. Isto é agradável. Quando a gente integra, quando a gente está integrado, isso impreterivelmente, causa um desconforto. 

DESCONFORTO E TOLERÂNCIA

É claro que na medida que você vai vivendo experiências de integração e vivendo experiências com a integração você vai aprendendo a tolerar esse desconforto gerado pela integração e aí talvez você consiga uma experiência de paz de tranquilidade de bem-estar emocional e afetivo. Ele evita a todo custo a integração, justamente por isso, por conta do desconforto.

DA CULPA À RESPONSABILIZAÇÃO

A integração, logo de início, inclui culpa que ele começa a ter consciência de que ele odiou alguém que não merecia ódio e isso gera culpa. Normalmente, a gente tem nas literaturas psicanalíticas: “Amor e Ódio”. Odiado aquele objeto que ele também ama, na realidade odeia o objeto que ele também idealiza, ele atribui toda maravilha, todo o bom do mundo e isso não é amor. O amor é integração. O amor vai acontecer na medida em que ele consiga elaborar a posição esquisito-paranoide, possa experimentar a posição depressiva, na integração. Quando ele sente essa culpa de ter odiado o objeto, a pessoa, ou a mãe que ele tanto idealizava. Porque, na realidade, é uma só. Ele sente culpa, na medida em que ele consiga elaborar esta culpa, consiga tolerar esta culpa ao ponto de elaborá-la, ele vai viver uma experiência de transformação desta culpa, responsabilização. Ele percebe essa culpa, ele reconhece essa culpa, admite que essa culpa existe, ele passa a respeitar esta culpa, respeitar a si mesmo sentindo culpa, passa a se responsabilizar. Quando ele consegue a responsabilização, existe uma transformação e ele passa a crescer, a se expandir, a nutrir-se com as experiências.



DEPRESSÃO INTEGRAÇÃO E DIAGNÓSTICO 


A gente vê diagnósticos de depressão, seguido de administração medicamentosa em pacientes que, muitas vezes, estão experimentando a integração. Quando ele experimenta a integração, ele impreterivelmente, vai viver uma depressão. Ele vai viver uma posição depressiva e esta posição depressiva é muito desconfortável e geradora de dores psíquicas, de angústias, de ansiedades. E quando o sujeito não está conseguindo tolerar esses desconfortos decorrentes da experiência depressiva, muitas vezes, ele pode procurar um psiquiatra que, despreparado, pode administrar medicamentos que irão arrancá-lo dessa experiência de integração, que gera depressão e abortar a experiência que, na realidade, iria trazer pro sujeito a possibilidade de crescimento. E muitas vezes, então, o que a gente vê diagnosticado como depressão patológica, na verdade, era uma experiência de integração que o sujeito estava vivendo.

MEDICAMENTO E DEFESA

O pior mecanismo de defesa é aquele que encontra um medicamento que corrobora com esse mecanismo de defesa. Quando o sujeito está atuando num mecanismo de defesa e ele começa a se medicar com uma substância química psiquiátrica, este mecanismo de defesa pode cristalizar e passar a se engessar como um funcionamento contínuo no sujeito. Então, ele estava apenas se defendendo, por conta de alguma confusão, de algum conflito e assim que este conflito pudesse ser elaborado ele iria dissolver esse mecanismo de defesa, inclusive se estivesse vivendo um processo psicoterapêutico. Na medida em que ele começa a usar um medicamento psiquiátrico, ele corre o risco de não conseguir elaborar isso que precisava ser elaborado e estava gerando a defesa e cristalizar esse mecanismo de defesa como um funcionamento contínuo, na sua vida.