domingo, 2 de maio de 2021

SOBRE A TENTATIVA DE REVERSÃO: No desenvolvimento da vida

 


Até onde é possível perceber, no plano material, a vida segue o fluxo num ciclo onde, a partir de um encontro bem sucedido nasce algo novo. Assim como afirma Wilfred Bion (1897 – 1979): “A unidade biológica é o casal” (BION, 1977), numa tríade do sujeito junto do outro num vínculo profícuo das relações fecundas, que faz gerar o novo. Sem esse encontro nada novo pode nascer, o que pode ocorrer é uma reles repetição, ou ainda uma simples replicação.


Essa nova vida que nasce, quando encontra condições mínimas necessárias, deve crescer em desenvolvimento e se mantém por certo tempo num referencial cronológico até que em certa fase dessa permanência, inicia-se um processo de declínio, onde a vida vai se quebrando, num processo de dissolução até se esgotar.


No vértice místico-religioso nas tradições milenares como da filosofia da Índia, nas escrituras védicas assim como no Budismo, a roda de Samsara significa o fluxo incessante de renascimentos através dos mundos. O ciclo ternário de nascimento, permanência transitória e morte. Dentro da cultura védica, a realidade material é conduzida pelo fluxo, regida pela trimûrti, da qual faz parte as divindades Brahma, com a função de criar, e funciona no modo da paixão (guna raja); Vishnu que é quem mantem e funciona no modo da bondade (guna sattva) e Shiva que se reserva à função de destruir e age pelo modo da ignorância (guna tama).


Quando existe a possibilidade de estar contida num ambiente suficientemente saudável, cada fase pode ser vivida de maneira bem sucedida. Na configuração ambiental saudável no nascimento pode haver um  estabelecido, onde é possível fixar-se em si mesmo, fundando um alicerce profundo e se consolidado, no que servirá de base para as próximas etapas do processo da vida. 


A saúde na atmosfera que circunda a vida também é imperiosa no sucesso do amadurecimento, já que é por conta dela que passa a ser possível conservar condições favoráveis na preservação do acondicionamento adequado para permanecer o maior tempo possível livre de intervenções nocivas. Isso permite continuar o fluxo da vida num desenvolvimento prospero.


Na fase do declínio, o ambiente suficientemente saudável também é imperioso para um suceder paulatino das experiências o mais suave possível, num envelhecer de forma razoavelmente lenta, mas que seja com bem estar e minimamente aconchegante. Por se tratar de uma fase difícil, onde vão surgindo inúmeras limitações, num processo repleto de situações dolorosas, o ambiente tranquilo, de tolerância e benéfico é de fundamental importância.


Na perspectiva do desenvolvimento emocional humano as experiências parecem seguir um fluxo análogo. A saber, o ambiente emocionalmente saudável é aquele que mantém um clima carinhoso, amoroso, afetivo, onde a ternura esteja presente. Isso é propiciado a partir da lealdade nos vínculos que sejam realmente autênticos e espontâneos. Sendo que não podem existir técnicas que tragam a possibilidade de instalação e manutenção desse clima, que não seja deforma natural, simples, sincera e verdadeira. Em outras palavras, é fundamental que o acordo com a realidade seja genuíno. A configuração emocionalmente saudável tem o intuito de propiciar um clima calmo, sereno, num transcorrer tranquilo.


Tanto na configuração material, quanto no desenvolvimento emocional, o processo de maturação segue uma progressão, numa espiral de expansão que não permite reversão. Sendo a maturidade um percurso sem volta, não se pode "desamadurecer".A maturação é um caminho difícil e doloroso, seja ela no âmbito que for e não seria diferente no que se refere à expansão emocional. Os processos psíquicos não possuem a propriedade de reversibilidade, sendo que as tentativas de se reverter os processos psíquicos se caracterizam numa experiência nociva, regida pela onipotência numa produção alucinatória. 


Nesse caminho é imprescindível a ajuda do outro. A vida se propaga através dos vínculos e sem eles ela tende a definhar. 

Por mais que as condições pareçam às mesmas, cada um tem seu tempo para amadurecer. Ainda que fosse possível uma mãe e um pai dedicarem o mesmo cuidado a cada filho, impreterivelmente, cada um apresentará características da personalidade completamente diferentes, um do outro.


A evolução da maturidade emocional depende da capacidade de tolerar o processo de abrir mão das ilusões rumo ao reconhecimento da realidade, onde aprender a viver a ausência é o que fundamenta essa experiência. Maturidade emocional não depende da idade cronológica. A verdade se encontra muito mais na inocência das crianças do que nas dissimulações dos adultos.


REFERÊNCIAS:

BION, W. R. (1992) CONVERSANDO COM BION. Quatro discussões com W. R. Bion (1978) Bion em Nova York e em São Paulo (1977) Rio de janeiro: Imago.









quinta-feira, 29 de abril de 2021

BENEFÍCIO DA PSICANÁLISE NO CONFINAMENTO SOCIAL


O maior benefício que a psicanálise pode trazer parece ser o da capacitação para a tolerar às frustrações, onde passa a ser possível desapegar-se do que se deseja que a realidade seja, para se reconhecer, entrar num acordo, aprender a respeitar e se responsabilizar pelo que a realidade de fato está sendo (no gerúndio, já que tudo está em constante transformação). Isso promove a integração (reintegração) da mente. Falando de maneira simples, muitas vezes nos dividimos e partes do “eu” necessita ir por um caminho e outra parte deseja seguir por outro lado. A dedicação a um processo psicanalítico pode proporcionar uma conciliação das partes da personalidade, promovendo a integração.

Na realidade, a psicanálise só pode se fazer valer efetivamente quando aplicadas dentro do âmbito das relações afetivas. Sendo assim, a partir do vínculo bem sucedido, pode se desenvolver a tolerância aos desconfortos gerados na situação do isolamento. Além disso, o desenvolvimento da capacidade de se viver com o essencial, o que é fundamental nessa situação.




domingo, 4 de abril de 2021

SOBRE O FANTASIAR

 


Assim como ocorre na saúde do corpo físico, também a mente necessita estar suficientemente equilibrada para que possa funcionar de forma saudável. A nutrição, feita por meio de vínculos ricos de amor e que possam estar de acordo com a verdade, assim como constante exercício, promovido pelas reflexões, são fundamentais para que a mente possa desempenhar um bom funcionamento e expandir em suas capacidades. Isso é fundamental, sobretudo, para a capacitação na tolerância às frustrações. Para que a mente possa funcionar bem, propiciando o crescimento na expansão da maturação emocional é fundamental que possa estar integrada o suficiente para tolerar os conflitos inerentes à vida emocional. 


Segundo Melanie Klein (1882 - 1960), a questão fundamental é ser capaz de tolerar a ansiedade gerada no conflito, o suficiente para não tentar evitá-lo. “Equilíbrio não significa evitar conflitos: supõe a tolerância para atravessar emoções penosas e poder lidar com elas.” (Klein, em SOBRE A SAÚDE MENTAL, 1960) Na vida emocional, naturalmente a mente é perturbada por desordens geradas no choque entre as fantasias, que criam uma forma conveniente de se encarar a realidade (como se deseja que fosse) e a realidade como ela verdadeiramente é (independente do que se deseja). 


Em seu ensaio FORMULAÇÕES SOBRE OS DOIS PRINCÍPIOS DO FUNCIONAMENTO MENTAL, Sigmund Freud (1856 – 1939) propôs que nesse processo primário onde a realidade coincide com as expectativas, o que impera é o que chamou de princípio de prazer-desprazer. “Estes processos esforçam-se por alcançar prazer; a atividade psíquica afasta-se de qualquer evento que possa despertar desprazer.” (Freud, 1911) Através das fantasias e das ilusões se configura o funcionamento do bebê em seus primeiros anos de vida, no entanto, conservamos uma cota dessa forma de funcionar vida á fora. “Com a introdução do princípio de realidade, uma das espécies de atividade de pensamento foi separada; ela foi liberada no teste de realidade e permaneceu subordinada somente ao princípio de prazer.” (Freud, 1911).

Freud propõe que a atividade do fantasiar está presente no funcionamento mental infantil e se manifesta nas brincadeiras das crianças, entanto, é conservada como devaneio posteriormente, na vida adulta. Nisso Klein concorda quando escreve que: “Mesmo numa pessoa emocionalmente madura, fantasias e desejos infantis persistem em alguma medida.” (Klein, 1960) Sendo assim, a vida emocional é permeada de conflitos, por maior que seja o nível de maturidade emocional. 


A fantasia, que a princípio é o substrato que posteriormente se transformará em pensamentos, no caso de suportar passar pelo teste de realidade, podem manter-se fixadas no principio do prazer, gerando confusão mental. São cotas de elementos que não tolerando a frustração, resistem ao processo de maturação emocional. Não amadurecemos de maneira voluntária. Na realidade, evitamos até as ultimas consequências o processo de maturação emocional e isso tem um motivo claro: amadurecer dói.

“O ponto central parece ser a natureza dolorosa da mudança em direção à maturação.” (Bion, 1970) 

Para que o processo de maturação emocional possa ocorrer de maneira fluente e natural, onde as tentativas de evitar o contato a realidade sejam minimamente frequentes é necessária a instalação de um ambiente saudável.


Este ambiente deve ser continente o suficiente para que as fantasias sejam transformadas de maneira o mais suave possível em formas mais claras de se reconhecer a realidade. O ambiente quando saudável é configurado pela concórdia e propicia a expansão da maturidade emocional. Por outro lado, um ambiente emocional repleto de conflitos e exigências, dificulta esse processo, muitas vezes interrompendo as possibilidades.

Quando o ambiente em que o sujeito esteja inserido está cheio de conflitos, ele deve investir grande parte da energia que o processo de maturação carece, em se defender, dificultando, ou mesmo obstruindo a maturação. 


Bion. W. R. ATENÇÃO E INTERPRETAÇÃO, (1970), Capítulo 5

Freud. S. FORMULAÇÕES SOBRE OS DOIS PRINCÍPIOS DO FUNCIONAMENTO MENTAL, (1911) Vol. XII

Klein. M. SOBRE A SAÚDE MENTAL, (1960)




terça-feira, 9 de março de 2021

SOBRE ADMITIR A IGNORÂNCIA


A ciência tradicional (ciência, do latim scientia, que significa conhecimento) fundamenta-se nas previsões para o domínio dos fenômenos que possam ser observados. A partir de um conjunto de informações armazenada se catalogadas, são produzidas teorias e leis. Essa modalidade de ciência é fundamental para as articulações da configuração material da realidade, onde sem ela estaríamos mais vulneráveis do que já estamos frente aos frequentes percalços. Ainda assim, nem mesmo a ciência mais avançada tem a resposta que possa resolver os problemas que nos deparamos, mesmo no nível material. Isso é verdade, já que as variantes das possibilidades são muito maiores do que aquelas possíveis de serem previstas por terem sido calculadas e catalogadas. 


A realidade abrange muito mais além do que a esfera material, nos fenômenos observáveis. "A consciência é a mera superfície de nossa mente, da qual, como da terra, não conhecemos o interior, mas apenas a crosta" (Schopenhauer, 1818). Acreditar que a verdade é configurada por aquilo que se pode confirmar pelos órgãos dos sentidos é uma grande estupidez humana.


Aprendemos desde muito cedo sobre o poder atribuído ao conhecimento e da ciência, sendo que o ser humano se sente extremamente importante e passa a ser respeitado conforme acumula saberes. Por outro lado, quanto maior a ignorância sobre as coisas, mais inseguro o sujeito se sente e assim, se vê desmerecido pelos outros. Na maior parte das situações, o que realmente motiva o sujeito na busca pelo conhecimento não é a curiosidade ou o intuito de realmente saber, mas sim se livrar do desconforto por se sentir ignorante e todo o prejuízo que isso acarreta frente ao outro. Isso pode fazer com que se apegue à saberes superficiais e os defenda com veemência. Muitas vezes o sujeito se contenta com um título de graduação, mesmo que não tenha bom conhecimento sobre aquilo do qual tenha se graduado. 


Reconhecer que a realidade abrange para muito mais além do que nossa limitada capacidade de entendimento possa atingir gera grande insegurança. Requer enorme tolerância às frustrações e muita humildade, admitir a verdade de que somos grandes ignorantes sobre a realidade, que envolve muito mais do que a simples configuração material.


Em Hamlet, tragédia repleta de dúvidas e incertezas, William Shakespeare (1564 — 1616) levanta essa questão. No Ato I - Cena V, o príncipe Hamlet, tenta ocultar de Horácio e Marcelo o que realmente aconteceu com o fantasma de seu pai, mas acaba por contar o que sucedeu, com a condição de que não revelassem a ninguém. Diz Hamlet: “Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a sua filosofia". O príncipe de Shakespeare traz à baila a questão de que existem muito mais coisas no mundo do que a superficial razão humana possa abranger e então explicar.  


Wilfred Bion (1897 – 1987) propõe o conceito de “capacidade negativa” em sua obra ATENÇÃO E INTERPRETAÇÃO, como a possibilidade de se permanecer num estado de dúvidas, admitindo as incertezas, sem se apressar na tentativa de explicação ou formação de significados. Esse termo foi extraído por Bion de uma carta escrita pelo poeta inglês John Keats (1795-1821) aos seus irmãos Georgee Thomas Keats. Tolerar a própria ignorância frente à realidade é a premissa dessa capacidade fundamental na prática da clínica psicanalítica. A partir da capacidade de se tolerar o vazio passa a ser possível conter os elementos desconhecidos e acolher aquilo que é trazido pelo paciente. Keats cogita na carta sobre a Capacidade Negativa como certo atributo fundamental na configuração do que chamou de “Homem de Realizações”, “... isto é, quando o homem é capaz de ser entre incertezas, Mistérios, dúvidas, sem qualquer irritação que o faça sair em busca dos fatos & da razão” (Keats, 1952) O poeta atribui essa capacidade a Shakespeare em que avaliava possuir em tão alto grau. 


Bion já havia esboçado a ideia de “Linguagem de Realização”, capacidade do “Homem de Realizações” em APRENDENDO COM A EXPERIÊNCIA (1962), retomando em 1970. Um analista de realização é aquele que tenha a equanimidade de lidar com incertezas, para estar qualificado para se comunicar através da “Linguagem de Realizações”. Em algumas traduções podemos encontrar o termo “Language Achievement” como linguagem de êxito, ou ainda linguagem de consecução, no entanto, penso que a melhor maneira de expressar o que pude aperceber dos escritos de Bion ainda é linguagem de realização. Segundo a proposta de Bion, a linguagem comum ou o que chamou de “linguagem de substituição” não é adequada na prática da psicanálise. Isso, pois linguagem de substituição tem a configuração saturada impedindo a possibilidade dinâmica da expansão e obstruindo a chance de transformação. Enquanto a linguagem de substituição passa a exercer as funções da ação, a linguagem de realização serve como preparação para a mesma. 


A formulação da capacidade negativa está muito próxima da recomendação de Sigmund Freud (1856 – 1939) para que o analista não concentre atenção ou selecione qualquer material que lhe é apresentado pelo paciente, para com isso não correr o risco de negligenciar de outros conteúdos importantes. Freud recomenda que não se dirija atenção a nada específico, mantendo o que denominou de “atenção uniformemente suspensa” frente ao conteúdo trazido pelo paciente. Por ter consciência de que, na maioria do material trazido pelo paciente, só se consegue um significado posteriormente, Freud alerta que, “Ao efetuar a seleção, se seguir suas expectativas, estará arriscado a nunca descobrir nada além do que já sabe; e, se seguir as inclinações, certamente falsificará o que possa perceber.” (Freud, 1912) Ora, se o inconsciente é a parte desconhecida do eu, só pode ser possível reconhecê-la mediante a capacidade de tolerar a ignorância.


Esse exercício de admitir a ignorância no reconhecimento da realidade como algo desconhecido deve ocorrer a partir da renúncia do desejo do que se espera que a realidade seja, o que está sempre ligado à memória, que também deve ser renunciada em seu conteúdo armazenado. Assim como na recomendação de Freud ao psicanalista praticante: “Ele deve simplesmente escutar e não se preocupar se está se lembrando de alguma coisa.” (Freud, 1912) Essa tarefa, nada simples é que pode nos fazer permanentes principiantes, fazendo de cada experiência uma oportunidade de aprendizado.


BION, W.R. (1962). APRENDENDO COM A EXPERIÊNCIA. Rio de Janeiro: Imago,1962. 

________. (1970). ATTENTION AND INTERPRETATION. In: Seven servants: four works by Wilfred R. Bion. New York: Jason Aronson, 1977.

FREUD, S. RECOMENDAÇÕES AOS MÉDICOS QUE EXERCEM A PSICANÁLISE (1912) In: Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996, Vol. XII

KEATS, J. LETTERS. Editado por M. B. Forman .4ª ed. Londres: Oxford University Press,1952

Schopenhauer, A. (1818). O mundo como vontade e como representação (J. Barboza, Trad.). São Paulo: Unesp. (2005)