segunda-feira, 29 de junho de 2026

DA DOR AO VÍCIO - Prof. Renato Dias Martino

 

A mente tende a buscar proteger-se quando acometida de alguma dor. Os mecanismos de defesa da mente geram sintomas que se manifestam na conduta do sujeito. Cada vício, cada compulsão parece ser uma tentativa de se defender de uma dor. Sigmund Freud (1856 - 1939) nos ensina que repetimos ações para evitar aquilo que dói. Existem teorias e técnicas que se propõem a tratar comportamentos compulsivos de forma isolada, o que parece ser ineficaz. Reparar o funcionamento emocional se desdobra na adequação da conduta. Tentar tratar a compulsão sem acolher a dor é, na melhor das hipóteses, inútil.

Muitas vezes, o vício não está ligado direta e necessariamente à ação provocada que se repete, mas aos seus desdobramentos e consequências. Um grande problema dos vícios é quando estão a serviço da autossabotagem. Muitas vezes, o sujeito carrega um sentimento de culpa, e isso o leva a uma cadeia de eventos internos que o conduzirão à autopunição. Julga a si mesmo e condena a si próprio. A partir de então, pode vir a se privar de conquistas, realizações ou mesmo daquilo que seja saudável e virtuoso, condenando-se, por outro lado, ao fracasso.










Prof. Renato Dias Martino












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segunda-feira, 22 de junho de 2026

BAJULAÇÃO - Prof. Renato Dias Martino

 


A dificuldade de acreditar em si mesmo pode se desdobrar de inúmeras formas. Quando o sujeito não se sente capaz de confiar em si mesmo, encontra-se vulnerável e aberto a várias formas tóxicas de vinculação. O amor-próprio, quando em níveis muito baixos, acaba gerando manifestações nocivas nos vínculos. Aquele que não consegue confiar em si mesmo tende a procurar falhas nos outros. Uma expressão disso é a inveja.

Por outro lado, pode se desenvolver, no sujeito que não confia em si mesmo, uma disposição para o enaltecimento e a bajulação. A bajulação tem sempre o intuito de conseguir um benefício oculto, ou mesmo explícito. Quando definitivamente não consegue o que pretendia, o bajulador passa a atacar aquele que antes adulava. Quem bajula espera um benefício especial e, quando não o obtém, passa a criticar. A base do vínculo de bajulação parece estar na incapacidade de acreditar em si mesmo.

A bajulação não é apenas uma característica do indivíduo, mas se manifesta como uma dinâmica da relação. Ela depende de duas ou mais pessoas dispostas a isso. O ditado popular “quando um não quer, dois não brigam” corresponde à realidade. Depende da ação de pelo menos duas pessoas, e não necessariamente de uma só. O bajulador, por não acreditar que possa ser amado sendo sincero, e o bajulado, que se satisfaz com as bajulações por não acreditar que possa reunir em si virtudes admiráveis, unem-se nesse processo.

No entanto, por se tratar de um modelo de vínculo parasítico, tanto o bajulador (parasita) quanto o bajulado (hospedeiro) sofrem enormes prejuízos. Wilfred Bion (1897-1979) afirma: “Por 'parasitário' entendo uma relação em na qual um depende do outro para produzir um terceiro, o que é destrutivo para todos os três” (Bion, 1970). Um fica obstruído de desenvolver o reconhecimento de si mesmo, por imaginar que o outro é sempre melhor que ele. O outro, por sua vez, contentando-se com elogios sobre atributos falsos, fica impedido de reconhecer suas reais características para, então, desenvolvê-las.


Bion, W. Atenção e Interpretação. Rio de Janeiro: Imago. Dias, C. Amaral. 1991 [1970]






Prof. Renato Dias Martino












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