O
acordo com a realidade é o que orienta a saúde emocional. O ato de se alcançar
um acordo com a realidade está subordinado ao reconhecimento, a possibilidade
de se respeitar isso que se reconheceu, para que haja a responsabilização sobre
isso que se aprendeu a respeitar. No acordo com a realidade, é imperiosa a
capacidade de renunciar às ilusões. Ainda assim, me parece impraticável a vida
sem ilusões. Ilusões são prazerosas e nos afastam dos desconfortos implicados
no reconhecimento da realidade. Viver subordinado às ilusões é nocivo, mas uma
vida de desconfortos constantes é tão danosa quanto. Não há como viver bem num
desconforto constante.
Portanto,
por mais que pareça contradição, me parece que alguma ilusão seja útil, até
mesmo para possibilitar a manutenção do acordo com a realidade. Como é difícil
a vida daquele que não consegue mais se iludir!
Tratamos
do que está entre a verdade explícita e a preservação do funcionamento
emocional. A vida sem alguma ilusão pode se tornar intolerável. A lucidez é
desconfortável e frustrante; o Véu de Maya, por vezes, parece proporcionar
certa proteção. Assim como a máscara de um profissional que solda metais o
protege da radiação, muitas vezes a ilusão pode proteger na realização do
trabalho.
Uma
vez que o sujeito tenha sido forçado a encarar a realidade de maneira veemente,
pode vir a perder boa parte da habilidade de se iludir. Uma vez perdida essa
habilidade, não há como se “reiludir”. Como circula na gíria contemporânea: não
tem como “desver”. Ainda assim, existe um recurso que fica entre a ilusão e a
realidade. Falo da esperança que possa orientar a caminhada. A esperança não
está no âmbito do real, porém se encontra dentro do possível.
Dentro
do âmbito emocional, o outro não existe. Tudo aquilo que se possa viver num
relacionamento com o outro é uma extensão daquilo que foi possível viver
consigo mesmo.
Nem mais, nem menos. A forma como o sujeito se relaciona consigo
mesmo transborda e se expande no vínculo que ele estabelece com o outro. Quando
alguém está de mal consigo mesmo, estará de mal com todos à sua volta. Aquele
que não aprendeu a respeitar a si mesmo, na melhor das hipóteses pode vir a ser
educado, mas não conseguirá respeitar o outro. O respeito que se consiga tem
com o outro é sempre uma extensão do respeito consigo mesmo.
O
sujeito não se importará com o que o outro julga sobre ele, até que isso
coincida com o que ele próprio já vinha se julgando. Só levará em consideração
aquilo que confirma a sua autoimagem. Isso não tem a ver com a sua realidade,
mas sim com o que ele imagina que seja. Quando o sujeito confia em si mesmo,
ele se torna capaz de se autoreconhecer e, se o outro falar o contrário, não se
importará e descartará o que o outro diz sobre ele. Contudo, se não estiver
confiando em si próprio, por mais que o outro reconheça suas virtudes, ele não
conseguirá considerar esse reconhecimento e permanecerá preso ao seu
autojulgamento.
A
possível concórdia que se possa ter com o outro depende do ambiente interno de
concórdia, da concórdia consigo mesmo. Se não se está em concórdia consigo
mesmo, não se concordará com ninguém. Logo, para o arrogante, discordar é um
prazer. “A discórdia, assim, não está relacionada com quem supostamente está
com a razão ou quem não a tem, mas com o objetivo de livrar-se da tensão gerada
pela discórdia interna. Portanto, é possível afirmar que o arrogante tem prazer
em discordar.” (Martino, 2018) Alivia-se o conflito interno quando se projeta a
discordância no discurso do outro. Ou ainda, por não concordar consigo mesmo e,
consequentemente, não se sentir confiável, o sujeito aceita passivamente o que
o outro propõe, sem sequer refletir.
Quando
Jesus Cristo propõe “ama o próximo como a ti mesmo”, parece-me que trata
justamente disso. Não há como amar o outro além ou aquém do que se consegue
amar a si próprio. O funcionamento afetivo saudável (amar o outro) é
desdobramento de um funcionamento emocional saudável, no qual o amor-próprio é
o fundamento. Esse é o alicerce da verdadeira ética e o que a diferencia de uma
mera regra moral. “A moral leva o sujeito a tratar o outro com educação, para
que o outro também o trate assim; já a ética é o ato de respeitar o outro,
assim como se respeita a si próprio.” (Martino, 2025) Portanto, o outro não
existe senão como extensão daquilo que conseguimos alcançar na relação que
mantemos conosco.
Toda a
dedicação que se possa ter com o outro parte do cuidado que dedicamos a nós
mesmos. No entanto, não há como aprender a cuidar de si mesmo senão pelo
cuidado que tiveram conosco. É impossível alegrar alguém que esteja descontente
consigo mesmo. Aquele que está descontente consigo mesmo não se alegrará com
nada que venha do outro. Por outro lado, quando a paz interior se torna
possível, tudo ao redor passa a ser a extensão disso.
No
princípio, o “eu” não existe; ele passa a existir através do cuidado dedicado
do outro, que exerce esse cuidado como uma extensão da dedicação para consigo
mesmo. Donald Woods Winnicott (1896-1971) propôs a ideia de que, no início da
vida do bebê, a mãe suficientemente boa não é outra pessoa, mas sim o próprio
ambiente. Winnicott afirma que "não existe essa coisa chamada bebê",
ou seja, um lactente nunca existe sozinho. O bebê é parte integrante de um
ambiente de cuidados sob responsabilidade da mãe, que, para tanto, precisa
estar resguardada pela proteção e provisão do pai. No início da vida, o bebê
não se diferencia do meio ambiente (a mãe). O colo, o cuidado e o ambiente
proporcionado pela mãe são, para o bebê, extensões de si mesmo. Conforme o
desenvolvimento se realiza de maneira bem-sucedida, o bebê passa a existir.
Esse
modelo de extensão nunca deixa de reger nossa vida emocional, mesmo na vida
adulta. Após a internalização do ambiente externo, passamos a dispor de um
ambiente interno que orientará nossa vida emocional. Nesse ponto do
desenvolvimento, o outro deixa de existir e o ambiente interno é o que guia
nosso funcionamento. Passamos a nos relacionar com o outro nos moldes e na
medida do relacionamento com nós mesmos. Na medida em que as configurações
desse ambiente interno e o funcionamento emocional entrem em colapso, existe
chance de reparação. Contando com um ambiente externo que propicie acolhimento
— no mesmo modelo proposto por Winnicott — as reparações tornam-se possíveis. O
processo psicoterapêutico pode ser, por excelência, o recurso para que isso
ocorra.
Martino,
R. D. Acolhida em Psicoterapia, 2018.
Martino,
R. D. Esboço de Expansão: Escolhas, Vontade e Desejo, 2025.
WINNICOTT,
D. W. O Brincar e a Realidade. 1971.
WINNICOTT,
D. W. Os processos de Maturação e o Ambiente Facilitador. 1965.