sábado, 28 de março de 2026

O MODELO DA ESPIRAL NO FUNCIONAMENTO MENTAL - Prof. Renato Dias Martino


 A princípio, serve como mais um modelo na prática clínica. É mais do que uma tentativa de teoria ou qualquer coisa nesse sentido, mas está dentro da perspectiva de um modelo na prática clínica, um modelo que auxilia a reflexão dentro da prática clínica. De início, onde é que me pareceu interessante ou começou a me fazer sentido esse modelo? Na minha vivência particular, na vivência no meu funcionamento emocional. Dentro do meu funcionamento emocional, começou a fazer sentido esse tipo de modelo. E aí, a partir de algumas leituras, de alguns estudos, eu comecei a perceber que outros pensadores também estavam usando este modelo. Então, o que a gente estuda bastante é Bion. E o Bion trata bem a muito sutilmente dessa alegoria, desse modelo. E aí, começou a me surgir a vontade de escrever, de estudar, de dissertar um pouco sobre isso. E aí, escrevi um capítulo, do ACOLHIDA. Eu não trouxe aqui impresso porque está no livro. Acho que todo mundo aqui tem o livro. Se não tiver, tem vários exemplares aí, podem pegar se quiser. Está na página 173, o texto que trata desse assunto. Mas a proposta aqui é ir para além desse texto. Então o Bion traz ali a ideia lá do movimento helicoidal. Ele chamou o movimento helicoidal. E ele chamou atenção para esse movimento, para essa, para esse modelo aplicado à proposta da grade, onde ali existem alguns pressupostos, onde as experiências iriam sendo encaixadas ali nos níveis dessa grade. E ele vai dizer que esta grade evoluiria num movimento helicoidal. O que é um movimento helicoidal? De rotação, assim como no helicóptero. A partir desta ideia, foi me surgindo outras manifestações desta configuração. E não ficou só dentro dessa perspectiva helicoidal, mas ela ficou, ela começou a expandir num movimento progressivo, num movimento espiral progressivo. Que que é um movimento espiral progressivo? É um movimento onde existem voltas, ciclos que são dados e que cada ciclo desse vai expandindo um tanto, vai expandindo um grau. Eu vou para além dessa ideia helicoidal e vamos começar a chamar de movimento espiralado. Então, este movimento espiralado, ele está presente dentro da materialidade das coisas, desde uma da configuração maior, né, da configuração macro, da dimensão mais gigantesca possível que o ser humano possa reconhecer até as partículas mais ínfimas. A gente tem, por exemplo, o movimento espiralado nas galáxias. Então, a galáxia, né, o a formação de uma galáxia, a formação de uma configuração espacial, ela se dá em movimentos espiralados. Fotos aí dos satélites da NASA, Hubble, mostram isso com clareza. Se você procurar, por exemplo, uma imagem de uma galáxia no Google, você vai encontrar um movimento espiralado. E na partícula mínima, no micro, por exemplo, o DNA é configurado com uma espiral dupla. Mas não só dentro dessas configurações, caracóis, a gente tem um movimento, por exemplo, de uma ave de rapina. Quando ela está tentando caçar, ela está fazendo um movimento espiralado. O ciclone é um movimento espiralado. Quando você tira o ralinho da pia, vai formar uma espiral. E a gente pode ir para além, porque existe um pensador chamado Fibonacci, italiano, que ele propõe a curva de Fibonacci, que é um uma configuração geométrica que é aplicável a toda figura ou toda construção coerente, ou uma forma que traz um uma beleza harmônica, uma harmonia, ou dentro da geometria ou dentro da um prédio ou de um quadro. Você vai conseguir aplicar a curva de Fibonacci ali. Então, o que que é a curva de Fibonacci? Rapidamente, a curva de Fibonacci é dois primeiros números somados vão gerar um terceiro número e aí os dois próximos números somados vão gerar mais um número e aí vai se construindo quadros num formato espiralado. Então você tem o um e o dois. Você soma o mais o do vai dar o três. E agora você tem então o dois e o três. Somando o dois e o três, você vai ter o cinco. E aí você vai nessa mesma proporção, você vai ter aquilo que a gente vai chamar de proporção áurea, que é uma simetria que traz uma harmonia na estrutura. Mas nós estamos falando de psicanálise, nós não estamos falando de estrutura da natureza, nós não estamos falando de geometria, nós estamos falando do desenvolvimento emocional que vai se desdobrar na capacitação afetiva. Então, me parece que este modelo também está presente no desenvolvimento emocional. Mas de que forma ele está presente? Ele está presente numa dimensão onde até então havia uma impressão de que a vida ela se dava através de uma repetição. A vida ia acontecendo e aquilo ia se repetindo, ia se repetindo, se repetindo. Tanto me parece que esta repetição ela acontece, mas cada vez que se repete tem a chance de evoluir, tem a chance de crescer. Então, na minha experiência emocional, na minha análise pessoal, eu fui percebendo isso e também fui percebendo isso na análise dos meus pacientes e aí fui tentando ajeitar esse modelo para aplicar nessa experiência. E aí começou a me fazer muito sentido resgatar a proposta Kleiniana do que a gente aprendeu a chamar de teoria das posições. Então a gente vai precisar ter a teoria das posições para que a gente possa entender o movimento espiralado. Então vou aqui me prestar fazer um resuminho do que o que a gente aprendeu a chamar de teoria das posições da Melanie Klein. Vamos imaginar uma espiral, um modelo espiral progressivo, mas não como um modelo afunilado, não sendo uma progressão horizontal, mas uma progressão vertical. Imagine então esta espiral que vai crescendo deitada. O eixo é horizontal, mas as voltas são verticais. como na capa do livro ali um como na capa do livro aí se vocês tiverem o livro aí no texto que eu mandei aí digitalizado, eu fiz um modelinho bem explicativo do que eu estou tentando dizer. Existe um eixo e existem voltas que vão contornando este eixo. Então, imagine que esse lápis é um eixo. Então o lápis está na forma horizontal e as voltas vão acontecendo nessa proporção vertical. Esse eixo horizontal vai ter voltas verticais. Estas voltas verticais vão ter uma peculiaridade. A cada volta vai passar por um ponto mais alto e um ponto mais baixo. Este ponto mais alto vai ser caracterizado por fatores descritos por Melanie Klein como características do que ela chamou de esquizoparanóide. Então, quando a experiência, quando a experiência do sujeito está passando pela volta no ponto superior, ele vai experimentar características do que a Melanie Klein chamou de posição esquizoparanóide. Então, eu vou falar um pouquinho para vocês agora o que é que a Melanie Klein chamou de posição esquizoparanóide. A princípio, Melanie Klein disse assim: "Olha, o bebê vai viver, vai interpolar entre duas posições.” Ora, ele vai experimentar uma posição chamada esquizoparanóide, ora ele vai experimentar uma posição depressiva. Então, vamos reservar a posição depressiva, que é o ponto inferior. Vamos falar então da posição esquizoparanóide, que é a posição que é o ponto superior. Só o bebê vive isso. Não, todos nós vamos viver para o resto da vida. Ora, vamos estar experimentando características esquizoparanóide, ora vamos estar experimentando características depressivas. ESQUIZO quer dizer cindido, cortado, separado e PARANOIDE quer dizer persecutório, perseguidor. Então a posição esquizoparanóide é uma posição onde existe uma cisão do mundo e esta cisão provoca uma sensação de perseguição. Quando estamos no ponto superior da espiral, estamos experimentando características esquizoparanóides. Esta posição superior, ela vai trazer uma sensação de mania, uma sensação de extroversão para fora. A gente vai viver as coisas no mundo externo. A gente vai atribuir as responsabilidades das coisas que a gente vive às coisas do mundo externo. é tudo culpa do outro. Então, características esquizoparanóide estão ligadas à projeção, está no outro. Então, o bebê, tudo que acontece com o bebê, ele atribui a mãe. Mas não é só a mãe, é a mãe dividida em duas, por isso que é esquizo. Então, ele tem uma mãe boa, que é aquela mãe que vem, dá o leite, dá o carinho, afaga. E a mãe ruim, que é aquela que não está, que priva, que não tá ali quando ele quer. Sei o bom e sei o mau. Para o bebê não existe uma mãe só. Existem mães, uma boa e uma ruim. E o trabalho, a função desta posição é separar o que é bom do que é ruim. Então, quando nós estamos no ponto alto da espiral, nós separamos o que é bom do que é ruim, o que é certo do que é errado. Nós criamos critérios para julgar. Então, se alguma coisa deu errado na minha vida, é por causa de fulano. Mas se alguma coisa deu certo, eu atribuo a cicrano. Por mais que a gente chame essa posição de esquizo paranoide, né? E esquizo é sentido, né? Essa palavra esquizo é meio estranha e paranoide, uma coisa persecutória, mas esta posição é muito prazerosa, porque eu tenho a chance de me livrar de tudo que é ruim. Eu não tenho responsabilidade com nada, é tudo outro. E por isso eu tenho um comportamento eloquente, muito, eu faço tudo, eu posso tudo, existe uma onipotência, existe uma onisciência, eu sei tudo, eu consigo tudo. Por quê? Porque se eu não consigo é culpa do outro. Então este ponto superior é o ponto da ilusão. O sujeito está impreterivelmente iludido quando ele está no ponto superior da espiral. Na cultura oriental a gente tem a ideia do véu de Maia. Materialidade. Materialidade. A vida social nos obriga ao ponto superior esquizoparanóide da experiência da espiral. Não é nem questão de ser bom ou ruim, é questão de ser necessário, né? Caio colocou, trouxe uma ideia aqui muito importante, gente. Não existe bom ou ruim, porque se a gente tiver aqui elegendo bom e ruim, a gente está na esquizoparanóide. Não tem bom ou ruim, pode ter prazeroso e desprazeroso. E a esquizoparanóide é muito prazerosa. Lá embaixo a gente experimenta outra posição. Nós estamos falando de posição, ou seja, nós estamos experimentando o tempo todo lá em cima e lá embaixo. Lá embaixo a gente vai experimentar o que a Melanie Klein chamou de posição depressiva. Se lá em cima a gente tinha uma característica muito nítida de fragmentação, de divisão, de decomposição, de desintegração, lá embaixo a gente vai ter a integração. Lá embaixo a gente vai começar a enxergar o mundo e o eu como um todo. Não estamos separados. Não existe separação. Existe limite, mas não existe separação. Existe um limite entre uma coisa e outra, mas essa coisa não está separada da outra. Ela tá junta com a outra. Então, o que um faz implica no que o outro vai fazer. Então, a posição esquizoparanóide é confortável, é prazerosa. A posição depressiva é desconfortável, é incômoda, é frustrante e na posição depressiva cai o peso da culpa. Culpa do quê? de ter atribuído ao outro a responsabilidade pelas coisas que na verdade é de minha responsabilidade. Então o bebê, por exemplo, vai começar a perceber que aquela mãe que ele odiava tanto é a mesma mãe que ele tanto idealizava. E aí ele se sente culpado e ele precisa tolerar essa culpa para poder elaborar esta posição depressiva e começar um novo ciclo de subida. A responsabilização é a evolução do sentimento de culpa. Para que eu possa me responsabilizar, eu preciso ter tolerado o sentimento de culpa até que ele possa ser elaborado e expandir para a responsabilização. Se eu não tolero me sentir culpado, eu não vou conseguir aprender a me responsabilizar. A evolução te leva ao Dharma e cada volta, impreterivelmente é um Karma. Então, cada volta tem uma característica de repetição. E o Karma é isso, vai e volta. É uma repetição. Na medida em que eu tomo consciência desta repetição, eu tenho a chance de no próximo, na próxima volta ser diferente. E cada vez que é diferente, eu me aproximo, eu estou no caminho do Dharma, que é o caminho da iluminação, do ponto superior como sendo a posição esquizoparanóide que carece ser elaborada. E quando a gente fala do ponto inferior, que é a posição depressiva, esta posição também carece ser elaborada. A posição depressiva não é o ponto final da história, ela também carece de ser e elaborada, porque quando o sujeito chega no ponto inferior, ele se sente culpado e se ele se mantiver culpado, ele não elaborou. E aí vai fazer com que o sujeito viva uma experiência de volta em falso, porque ele não deu conta de elaborar e ele vai dar uma volta que vai ser uma circunferência que rodou sem evolução. E o que que vai determinar isso? O acolhimento do outro. Eu só consigo elaborar uma volta da espiral se eu puder contar com o acolhimento do outro. Isso define, não tem como viver experiências de expansão na espiral sem contar com o outro. A pulsão de vida e pulsão de morte vão estar presente nas duas posições. A pulsão de morte na posição esquizoparanóide projetada no mundo externo. E aí aí o Freud vai chamar de pulsão de destruição. Eu me sinto angustiado, eu me sinto ansioso e eu arrumo alguém para culpar. Eu estou angustiado e a culpa é dela. A pulsão de morte estava aqui dentro. A pulsão de morte estava fazendo eu me dividir. Eros liga, tatos desliga. E simboliza, tânatos diaboliza. Então, quando eu sinto esta desintegração interna, isso cria dentro de mim um desconforto tremendo. O medicamento psiquiátrico faz com que o sujeito dê uma volta em falso, literalmente. O que que configura uma volta bem-sucedida na espiral? Aprender com a experiência. Eu aprendi com a experiência. Eu vivi uma experiência completa. E no final desse ciclo eu aprendi alguma coisa. Eu já não sou mais o mesmo. E o medicamento não ensina nada. Você não aprende tomando o Rivotril. Ele te anestesia. Comfortably Numb é a música do Pink Floyd que chama. É verdade. Confortavelmente entorpecido. É isso. Ninguém aprende assim. Quem aprende assim? Você aprende pelo desconforto. Tudo. Droga, álcool, compulsões. Nós estamos condenando isso aqui. Não, não, não, não, não, não. De jeito nenhum. Por quê? Porque aquele, naquele momento o sujeito precisa daquela muleta, então ele vai usar aquilo, tudo bem, cada um tem a sua. Se você tira a muleta, o sujeito cai e não consegue continuar andando. Então vamos usar a muleta, principalmente se ele está em análise, principalmente se ele está caminhando. Criticar a muleta do outro é muito bacana, não é? Mas é esquizoparanóide. O remédio não ensina nada, o álcool não ensina nada, a compulsão por jogos, o tigrinho não ensina nada. Então, para que a volta seja bem-sucedida, ela precisa culminar ou desdobrar-se em aprendizado. Aprendizado teórico, aprendizado do conhecimento, não. Aprendizado emocional e afetivo. Emocional interno, afetivo, vinculação com o outro. A posição depressiva, quando o sujeito não tem a capacidade de tolerar a culpa, pode ser um motivo ideação suicida, porque eu sou culpado, eu não dou conta de me sentir culpado, então vou tirar minha vida como punição desta culpa. Não só suicídio, autossabotagem em qualquer nível. me julgo, me sinto culpado, me condeno e agora passo a me autopunir. E assim como o tribunal, eu posso tanto prisão perpétua como pena capital aí, como a pena de morte. Alguns mecanismos mantém o sujeito na esquizoparanóide, ou seja, no ponto superior. Quais mecanismos? Eu tenho um desencadeamento, costumo dizer. O primeiro é a cisão. Esquizo não é cisão? Esquizo é cisão. Então o primeiro mecanismo de defesa é a cisão. Divide o mundo em dois, em bom e mau, em certo e errado. Negação é porque assim, ó, tem uma parte ali, divide em duas, uma parte não é minha. E normalmente a parte boa é minha, a parte ruim é do outro. Então essa parte ruim não é minha. E aí, se é do outro, tem mais um mecanismo. O próximo mecanismo, projeção, cisão, negação, projeção. Quando eu projeto a coisa ruim no outro, aí eu me sinto o santo, o anjo de candura. O outro que é o pedófilo, o outro que é o perverso, o outro que é o maconheiro, o outro que é o bêbado, o outro que é o louco. E aí, se é tudo outro, eu me sinto purificado. Aí existe uma idealização. Eu começo me auto-idealizar. E a idealização é tanto para o bom quanto para o mau. Eu me auto-idealizo como o cara purificado na frente da televisão vendo o Datena chamar o pedófilo de monstro. Eu sou o bom, ele é o ruim. Vamos dar uma cadeirada nele. E a partir daí um novo mecanismo que se divide em dois, onipotência e onisciência. Porque tudo isso aqui é ilusão, é mentira. Foi eu que criei tudo isso aqui. E se eu criei tudo isso, eu posso qualquer coisa e eu sei qualquer coisa. Eu controlo tudo isso aqui, foi eu que criei. E aí, abafamento das emoções. Vamos abafar todas as emoções que isso aqui possa tá gerando. E aí se consolida a posição esquizoparanóide. Quando o sujeito chega em análise, ele chega com uma demanda quase que unânime quando o paciente chega. Qual que é? Eu quero, eu preciso desabafar, não é isso? Quando ele começa a desabafar, ele começa a quebrar este ciclo de mecanismos de defesa. O último mecanismo não era o abafamento das emoções. Quando ele começa a desabafar, ele começa a desfazer o quê? Onipotência e onisciência são os primeiros. Porque ele começa a partir do seu desabafo no diálogo com o analista, perceber que ele não pode tudo, perceber que ele não sabe tudo. Eu não falei aquilo porque se eu falasse eu sei que ele ia fazer não sei o quê. Oi, você sabe? Mas como você sabe? Não, porque ele sempre fez. Não, pera aí. Ele sempre fez, mas isso não te dá o a faculdade de saber que agora ele vai fazer igual. E aí quando ele começa a ver que ele não sabe tudo e que ele não pode tudo, a idealização começa a se desfazer. Quando a idealização começa a desfazer, a projeção retorna. Quando a projeção retorna, a negação deixa de fazer sentido. Quando a negação deixa de fazer sentido, pum, integra, desfez-se o ciclo dos mecanismos de defesa que mantinham a posição do esquizoparanóide. Aí ele cai na depressiva. Aí ele começa a sentir culpado. Nossa, caramba, velho. Fui eu. Então, aí se ele puder contar com o acolhimento do outro junto com o outro, aos pouquinhos ele vai elaborando esta culpa e vai se capacitando para se responsabilizar por isso. Várias espirais vão formando uma grande espiral, que é a espiral da vida. Não existe volta em falso se o sujeito estiver se dedicando ao seu trabalho analítico. Por mais que pareça que o sujeito está repetindo, por mais que pareça que ele está fazendo a mesma coisa, existe uma mudança, por mais sutil que possa parecer, por mais irrisória que seja, existe ali uma transformação. Se o sujeito está se dedicando ao trabalho de análise, só ao trabalho de análise, não, se dedicando aos vínculos afetivos saudáveis. E o trabalho de análise é um lugar favorecido para tal. Cada volta da espiral que traz a possibilidade da ampliação da rede de vínculos saudáveis faz com que o sujeito tenha coragem de se afastar de vínculos. tóxicos de vínculos que possam ser nocivos. afastar fisicamente não. Muitas vezes eu não posso. Muitas vezes eu trabalho com o cara tóxico ali. Muitas vezes o cara tóxico é consanguíneo, mora na mesma casa, mas é um afastamento emocional, é um afastamento afetivo. Ele pode ter as mesmas falas, ele pode ter o mesmo comportamento, mas está se transformando o funcionamento. A mudança de comportamento não quer dizer mudança de funcionamento. E a mudança de funcionamento não está subordinada à mudança de comportamento. Você pode mudar o seu comportamento, teu funcionamento continuar o mesmo e você pode mudar o seu funcionamento e o seu comportamento continua o mesmo. Muitas vezes o meu funcionamento emocional é um funcionamento de vitimismo, por exemplo. E o meu comportamento é um comportamento vitimista. Eu posso ter mudado o meu funcionamento vitimista. Eu começo a perceber, eu começo a reconhecer que eu não sou vítima, mas eu ainda estou configurado num vínculo que me faz me comportar como vítima. Por quê? porque o outro está implicado neste comportamento. Eu não tenho como mudar de hoje para amanhã, porque existe ali um contrato social de comportamento e mudar aquele comportamento drasticamente vai afetar todo um sistema. Então, prudentemente eu continuo me comportando como vítima, mas eu já não funciono mais como vítima. Eu já não estou mais projetando na pessoa. Eu já percebi que eu não sou vítima de ninguém. eu já me responsabilizei, mas o outro continua funcionando do mesmo jeito. Prudentemente eu continuo funcionando daquele jeito, porque existe um sistema social que me obriga a me comportar daquela forma, mas funcionando de maneira diferente, eu começo a configurar uma nova estratégia afetiva e logo, logo eu vou me afastar daquele campo que me obriga a continuar funcionando daquele jeito. Mudança de comportamento não garante a mudança de funcionamento. A mudança de funcionamento impreterivelmente vai se desdobrar na mudança de comportamento. Uma volta bem-sucedida da espiral implica em mudança de funcionamento, por mais que o comportamento não tenha mudado. Então o sujeito ainda está fazendo do mesmo jeito, mas ele já não está funcionando mais daquele jeito. Cada ciclo bem-sucedido da espiral implica em aprender com a experiência, implica em vínculo afetivo saudável, implica em transformação ou mudança de funcionamento que não tem a ver com mudança de comportamento. A volta da espiral completa num ciclo pressupõe reconhecer, aprender a respeitar e se responsabilizar. os três Rs. Se eu reconheci, eu vou aprender a respeitar isto que eu admiti que existe. Reconhecer não é conhecer, é admitir que existe, admitir que acontece. E a partir desse admitir que acontece, eu aprendo a respeitar isso que acontece. Depois que eu aprendi a respeitar, eu me responsabilizo por isso. E o ciclo, cada volta da espiral provoca aquilo que o Bion chama de mudança catastrófica. deu uma volta na espiral, nunca mais vai ser igual. Não existe retrocesso nos processos emocionais e afetivos. Não tem volta. A espiral é progressiva. Não existe regresso. Por quê? Porque a espiral, as voltas da espiral, o funcionamento espiralado é um funcionamento de maturação. Cada volta bem-sucedida da espiral resulta em maturidade e não existe “desamadurecer”. Ah, mas o paciente um comportamento regressivo. Pois é, foi o comportamento, não foi o funcionamento. Ele precisou se comportar dessa forma. Isso não quer dizer que ele não está funcionando de outro jeito. Ele pode ter manifestar um comportamento infantilizado, por exemplo, que foi o que ele conseguiu fazer naquele momento. Isso não quer dizer que ele está funcionando assim ainda. E até nessa perspectiva também, professor, eh vivendo em sociedade, né? A sociedade nos obriga muitas vezes a desintegrar, né, a se defender. E há uma diferença entre ali você estar sendo falso e você está sendo um falso consciente justamente para você precisar se defender, porque não tem outra alternativa. Cai, nós precisamos ser falsos em sociedade. É necessário. Não tem, por que a sociedade é uma falsidade. Pois é. Vínculos sociais são constituídos em falsidade. O que você onde você manifesta a verdade é num vínculo afetivo que é diferente no social. No vínculo afetivo você manifesta a verdade. No vínculo social não seja besta de ser verdadeiro, porque você vai se danar. Se quando se manifesta isso no processo psicoterapêutico, abriu uma possibilidade de evolução. Como é que essa possibilidade de evolução? É conseguir que aquela experiência evolua, não que eu seja capaz de me responsabilizar por aquela parte que nunca evoluiu. Não tem como evoluir uma parte que ficou fixado. Ficou fixado, ficou fixado, acabou, cicatrizou e eu vou a partir de então reconhecer que eu tenho essa fixação, aprender a me respeitar por essa fixação e me responsabilizar por essa fixação. Pois é, eu tenho essa parte infantilizada mesmo que não cresceu e agora eu vou aprender a a cuidar daquela parte, me responsabilizar por essa parte e adequar essa parte, proteger essa parte para que essa parte não influencie na minha vida e no fluxo da minha do meu desenvolvimento. Não esgotei o assunto. Tem muita coisa mais para falar sobre isso. Mas a espiral continua. A espiral continua. Parte dois a parte 23, né?

 









Prof. Renato Dias Martino

domingo, 15 de março de 2026

O QUE É SER HUMANO (?) - Prof. Renato Dias Martino

A origem semântica da palavra “humano” está no latim humanus, relacionado a humus, “terra”. Isso traz a noção das “coisas terrestres”, em oposição ao que é da ordem do “divino”. O termo “humanidade” guarda enorme ambiguidade, chegando a se tornar ambivalente. Manifesta valores duvidosos, hesitantes e até opostos quando nos propomos a refletir atentamente. Muitas vezes, usamos esse conceito para denotar uma atividade benevolente, compadecida e até caridosa ao próximo — e por que não, a nós mesmos? No entanto, a realidade nos revela que o ser humano é uma criatura cruel, se não a criatura mais nociva do planeta. “Na realidade, o ser humano vem se revelando uma espécie de criatura muito danosa para a natureza, já que, à medida que ganha espaço, coloca em risco inúmeras espécies, assim como destrói ecossistemas, incluindo sua própria espécie.” (Martino, 2025) Sendo assim, quando agimos com benevolência e compaixão, parece ser justamente quando renunciamos à humanidade para transcender a um plano mais nobre da existência. Reservado ao meu raso conhecimento das escrituras sagradas, me parece que a frase “Meu reino não é deste mundo”, declarada por Jesus a Pôncio Pilatos (João 18:36), tinha a ver com isso. Ora, me parece que o ser humano tem extrema dificuldade em lidar com atitudes que incluam amor, paz e verdade, evitando-as até as últimas consequências. Os humanos são extremamente apegados à materialidade das coisas, logo, inábeis em lidar com a impermanência das coisas terrenas. Portanto, se concordamos com essa breve explanação, a expressão “se tornar mais humano” está distante — ou mesmo é o avesso — de tudo o que concebemos de mais nobre nessa vida.

Martino. R. D. ESBOÇO DE EXPANSÃO: Escolhas, Vontade e Desejo, 2025.







Prof. Renato Dias Martino

sexta-feira, 6 de março de 2026

TOLERÂNCIA E TRANSCENDÊNCIA FÍSICA - Do Corpo que Tenho ao Corpo que Estou - Prof. Renato Dias Martino

 



Então, nós vamos falar aí da relação da tolerância e da configuração do corpo físico, da parte do sujeito que está configurada na materialidade das coisas, naquilo que é possível constatar com os órgãos dos sentidos, aquilo que eu posso ver, aquilo que eu posso cheirar, aquilo que eu posso ouvir, aquilo que eu posso tocar, aquilo que eu posso ouvir. a relação da tolerância com esta instância material da existência.


CAPACIDADE SIMBÓLICA


A simbolização, a capacidade simbólica do sujeito é o que determina a saúde mental desse sujeito. E aí entra um grande equívoco na linguagem popular. Normalmente se atribui ao ego uma característica extremamente narcisista, extremamente nociva. O sujeito que tem um ego proeminente é um sujeito nocivo, quando na realidade é o contrário. O ego é a instância fundamental para que o sujeito seja capaz de renunciar das coisas. Um sujeito que não tem um ego estruturado é um sujeito que não é capaz de renunciar, não é capaz de se dedicar ao outro. O sujeito só pode ser capaz de se dedicar ao outro se ele tiver um ego bem nutrido e bem estruturado.


ESTOU SENDO


No entanto, se o ego estiver desnutrido, eu não estou sendo. Eu estou sendo guiado pelo deveria ser, porque o meu ego está desnutrido. E aí já não é mais o ego que está me guiando, é o meu superego, que é o deveria ser. Para que eu possa estar sendo, eu preciso estar com o meu ego bem estruturado e bem nutrido. E o ego só pode estar bem nutrido através da capacidade de simbolização. E a capacidade de simbolização só pode ser desenvolvida através de vínculos saudáveis com o outro.


DESEMPENHO DO ESTAR SENDO


Quando eu estou desnutrido no meu ego, eu não consigo confiar naquilo que eu estou sendo. Logo, não desempenho aquilo que estou sendo, porque o que está me guiando é o que eu deveria ser. A minha atitude hoje não é passiva da minha confiança. Então tudo que eu faço, eu questiono, eu critico, eu olho para aquilo como algo que eu não deveria ter feito e eu deveria ter feito de outro jeito. Eu deveria fazer de outra forma, eu deveria ser outra coisa, porque aquilo que eu estou sendo não é aprovado por mim mesmo. Logo, eu não estou sendo. Eu deveria ser. Tudo que eu estou sendo é invalidado em nome de algo que eu deveria ter sido.


ESTAR SENDO E AMOR-PRÓPRIO


O estar sendo não pode estar subordinado aquilo que eu gosto. Não pode estar subordinado àquilo que me agrada, porque aquilo que eu estou sendo dificilmente me agrada. Ainda assim, o amor-próprio é confiar em si mesmo, respeitar a si mesmo, amar a si mesmo, independente de não estar sendo aquilo que eu gostaria de ser, porque eu estou sendo aquilo que eu dou conta de ser. E o estar sendo tem muito mais a ver com dar conta, com ser capaz de do que agradar a si mesmo.


COM-FUSÃO


Quando existe a dificuldade de simbolização, acontece a confusão com o outro. O sujeito se funde ao outro. O sujeito não é capaz de reconhecer o limite entre ele e o outro. ele passa a ser uma extensão do outro ou ele passa a obrigar que o outro seja uma extensão dele. E esse tipo de relação é justamente a relação que vai ter o desdobramento da melancolia quando houver a perda de uma das partes.


SIMBOLIZAÇÃO DO VÍNCULO


A simbolização é algo que acontece a partir da tolerância. O sujeito que desenvolve a tolerância, ele é mais capaz de simbolizar e quanto mais ele simbolizar, mais tolerante ele se torna. É muito interessante isso. A simbolização é a internalização de uma experiência, a internalização de um vínculo. Quando a gente fala de simbolização, nós estamos falando acima de tudo da simbolização da experiência, do vínculo e do objeto juntos. Quando o bebê simboliza a mãe, ele não simboliza só a mãe, ele simboliza as experiências que ele teve com essa mãe no vínculo. Ele simboliza a história dele com essa mãe, não é simplesmente a mãe.


O SEIO


Quando em psicanálise a gente fala de seio, a gente não está falando daquele órgão que está na mulher. Nós estamos falando de uma experiência enorme, complexa. Seio não é simplesmente um órgão do corpo físico, mas é uma experiência. A simbolização do seio não é simplesmente simbolizar uma parte do corpo da mãe, mas é simbolizar toda uma experiência que ocorreu desde o nascimento. Uma experiência de nutrição, uma experiência de acolhimento, uma experiência de relação com a mãe num vínculo saudável. Então, seio não é simplesmente uma parte do corpo da mãe, mas é uma experiência complexa que vai ser simbolizada pelo bebê.


SIMBOLIZAÇÃO E MODELO


Todas as outras simbolizações que a gente vai tendo no desdobramento da nossa vida, inclusive na vida adulta, são evoluções, expansões da simbolização que a gente teve em relação à nossa mãe, ao vínculo com a mãe. são características que vão se desdobrando em outras relações que vão seguir este mesmo modelo de simbolização. Esta simbolização não vai acontecer naquilo que contemporaneamente aprendemos a chamar de tempo de qualidade. Não. A simbolização vai acontecer quando tudo estiver propício para isso. Este momento propício não vai escolher o tempo de qualidade para acontecer. Então, a mãe precisa estar com esta criança tempo integral para que ela possa viver e aproveitar dos momentos para a simbolização.


SIMBOLIZAÇÃO E O MOVIMENTO ESPIRALADO


Quando a gente fala da espiral, nós estamos falando que a vida é configurada por ciclos que a cada volta vão se alargando e se estendendo num eixo. Cada volta para que seja bem-sucedida, ela carece impreterivelmente de uma simbolização. Cada volta da espiral equivale a uma simbolização.


SÍMBOLO E ELEMENTO ALFA


Qual é a diferença do símbolo e do elemento alfa? Que que é o elemento alfa? É a transformação de um elemento bruto que brota do bebê e é projetado na mãe. A mãe, através da função alfa, transforma este elemento bruto, que seria o elemento beta, em elemento alfa, e devolve para o bebê. A partir dessa possibilidade de receber esse elemento alfa, abre-se a possibilidade da simbolização. Então, o elemento alfa precede a simbolização. Sem a função alfa não abre-se a possibilidade da simbolização. A simbolização é um complexo de elementos alfa. São vários elementos alfa que vão se juntando. Aliás, o elemento alfa tem esta característica que o elemento beta não tem, de se agregar um ao outro, de se ligar a um ao outro. E a partir daí vai se criando a possibilidade da simbolização. A simbolização é mais complexa do que a função alfa.


ELABORAÇÃO E SIMBOLIZAÇÃO


A elaboração é um elemento da reparação. Quando eu elaboro, eu estou reparando. Elaborar não é reparar, mas elaborar é um elemento da reparação. Quando eu estou elaborando alguma coisa, eu estou trabalhando esta coisa para que esta coisa possa ser reparada. Elaborar um vínculo é prepará-lo para que ele possa ser reparado no dano que possa ter acontecido, na falha que possa ter acontecido. E esta falha aconteceu justamente na simbolização. Então, a elaboração prepara para a reparação da simbolização. Então, muitas vezes o paciente chega com um problema que vai ser elaborado para reparar uma simbolização que não foi feita adequadamente.


SIMBOLIZAÇÃO E LUTO


A simbolização está diretamente ligada ao processo do luto. Cada elemento do mundo que você perde, cada objeto amado que você perde no mundo, você precisa ter simbolizado isso para viver o luto. Então, a vida toda é baseada numa constante simbolização, porque a vida é perder. Amadurecer é aprender a perder. E se amadurecer é aprender a perder, a simbolização é o que fundamenta a maturidade. Logo, a possibilidade de viver os processos do luto. 


SIMBOLIZAÇÃO E TOLERÂNCIA


Nós temos uma parte do eu que é material e pode ser confirmada com os órgãos dos sentidos e uma parte do eu que não pode ser confirmada pelos órgãos dos sentidos. Se eu não for capaz de simbolizar esta parte que não pode ser confirmada com os órgãos dos sentidos, simplesmente não existe, porque a simbolização depende da capacidade de se relacionar com aquilo que não pode ser confirmado pelos órgãos dos sentidos, que é justamente a questão do sujeito que tem a predominância psicótica da mente. Ele não acredita que ele exista. Ele é uma alucinação. E se ele for uma alucinação, todo o resto do mundo também o é.


PARA ALÉM DO CORPO FÍSICO

duas formas de se reconhecer a existência do sujeito. O sujeito que é um corpo e que tem algo para além desse corpo. E o sujeito que é este algo que está para além do corpo e este algo está no corpo. Não vou definir agora o que que é este porque é algo muito maior, é alguma coisa que transcende a possibilidade do conhecimento, já que não está dentro da perspectiva sensorial. Não estando dentro da perspectiva sensorial, não pode ser conhecido. Então, todas as vezes que você ouve um sujeito dizer assim: "O psicanalista é um conhecedor da alma humana". Não, este é um grande equívoco, porque a alma não pode ser conhecida


DO QUE FOI SIMBOLIZADO


O símbolo não é algo adquirido. O sujeito não simboliza e passa a ter esta simbolização como algo que foi adquirido e é dele. Não. Este símbolo precisa ser constantemente nutrido. nutrido de reencontros, muitas vezes reencontros internos. Muitas vezes o sujeito se reencontra internamente com aquilo que foi simbolizado, mas na realidade o sujeito simboliza o vínculo com o objeto. E aqui falamos objeto tendo como objeto o outro. Ele simboliza o vínculo que ele tem com o outro, não é o outro. Isso é um salto.


O APARATO FISIOLÓGICO


Nós não podemos excluir as falhas que possam acontecer no corpo físico, no aparato fisiológico do sujeito, mas na realidade a maior parte do que a gente chama de déficit de atenção tem a ver com uma impossibilidade de simbolização da mãe, da capacidade de estabelecer um vínculo e simbolizar este vínculo com a mãe. este vínculo que vai servir de modelo para todas as outras simbolizações que vão acontecer e que vão trazer para esse sujeito uma integração necessária para que ele possa ter um bom funcionamento num primeiro momento emocional e que se desdobrará no funcionamento cognitivo, logo na possibilidade de atenção das tarefas que ele possa vir a fazer


DIFICULDADE DE SIMBOLIZAÇÃO


Todas as vezes que eu perceber uma compunção na confirmação sensorial do mundo material, que aí acaba sendo até um pleonasmo, o mundo material só pode ser confirmado com os órgãos dos sentidos, eu estou frente a uma possível dificuldade de simbolização. Quando há simbolização, quando há a capacidade simbólica, a confirmação compulsiva do mundo material diminui. O corpo físico quando precisa ser confirmado o tempo todo, quando eu preciso estar ali o tempo inteiro, ã, novamente olhando e revisitando e confirmando, eu estou ali possivelmente frente a uma dificuldade de simbolizar o vínculo do eu para com o meu eu físico material.


ATRAÇÃO


O sujeito quando se reduz ao corpo físico, ele acaba atraindo pessoas materialistas. Ele acredita que o corpo físico é algo que tem uma importância muito grande e ele vai se aproximar e atrair pessoas que valorizam o corpo físico em detrimento de reconhecer que nós somos muito mais do que simplesmente um corpo físico. E é interessante que esse mesmo sujeito que valoriza o corpo físico exacerbadamente, que atrairá pessoas que também o fazem, depois vão se queixar de serem usadas como um objeto, assim como se faz com um corpo físico.


LEI DA ATRAÇÃO


Como é que seria essa coisa da lei da atração dentro da psicanálise, dentro da visão da psicanálise? Nós tendemos a reconhecer no mundo somente aquilo que foi internalizado. Então, nós procuramos no mundo confirmações daquilo que nós já temos. E aí a gente vai chamar isso de saturação. O nosso aparelho sensorial está saturado e tende a buscar repetições daquilo que já está internalizado. E aí o que acontece é que aquilo que a gente chama de realidade, na verdade são representações do que a gente pôde ter desta realidade. Logo, vamos atrair ou vamos nos aproximar daquilo que está no mundo interno. Não vamos conseguir nos atrair ou nos aproximar de algo que ainda não temos internalizado.


ALGORITMO


Nós temos hoje uma coisa chamado algoritmo nas redes sociais que exemplifica muito essa coisa da lei da atração. Quanto mais você se interessa por alguma coisa, mais aquela coisa vai aparecer na sua linha do tempo das redes sociais. E isso é um modelo de lei da atração. Foi você que buscou aquilo a princípio e aquilo começa a vir com abundância. E aí o sujeito começa a olhar aquilo com tanta frequência que ele começa a se irritar. E aí ele diz assim: "Eu vou abandonar as redes sociais". Mas meu amigo, foi você que buscou isso?


REPETIR


O sujeito se queixa de ver novamente a mesma coisa, ver aquilo de novo e eu vi aquilo de novo. Não aguento mais ver aquilo de novo. Mas na verdade o que você não aguenta é ver o novo. Você não dá conta de se abrir para ver que existe muito mais coisas do que aquilo que você está vendo. ou melhor, existem outros vértices daquilo que você está vendo para que você possa reconhecer. Mas o sujeito está fechado. Ele continua olhando para as coisas de um único vértice. Ele não consegue expandir o mínimo possível da consciência em relação às coisas. E aí parece sempre repetitivo mesmo.


PENSAMENTOS


O B propõe que nós somos pensamentos em busca de pensador. Então, nós não somos pensadores. O que está falando aqui são pensamentos que o pensador está pensando. Então, nós não somos o aparelho de televisão. Nós somos um sinal que o aparelho de televisão está transmitindo. Porque senão a gente começa a acreditar que a televisão é que está produzindo os programas. Não, não é a televisão que está produzindo os programas. Se você desligar a televisão, os programas vão continuar acontecendo. Assim, da mesma forma, somos nós.


SIMBOLIZAÇÃO E RENÚNCIA


A simbolização requer desapego, requer renúncia. Ser capaz de simbolizar é um sinal de que você foi capaz de renunciar, de se desapegar. Símbolo é juntar. E você só vai conseguir juntar se for capaz de renunciar. Renunciar do quê? do real material, do real concreto, da materialidade das coisas, da coisificação do mundo. Agora, a diabolização, que é o contrário da simbolização, é a separação, é a divisão. E a divisão pressupõe apego à materialidade, pressupõe a satisfação imediata, pressupõe o afastamento dos desconfortos e das frustrações.


LEMBRANÇA E RECORDAÇÃO


Lembrança é uma coisa, recordação é outra. O sujeito que é apegado às lembranças é porque ele não conseguiu simbolizar. Mas o sujeito que simbolizou, ele vai frequentemente ser inundado de recordações. A recordação é uma lembrança afetiva, saudável. É recordar. Re novo cor que é coração e dar que é doar. doar novamente ao coração. A recordação vem como um resgate, uma forma de revisitar o passado de maneira afetiva e saudável. E nisso eu posso ali reparar alguma falha no vínculo que eu estou recordando. Eu posso resgatar um modelo para que eu possa me utilizar no tempo presente, que é diferente da lembrança. A lembrança é sempre alguma coisa que eu preciso ir lá e puxar, ir lá e buscar. A recordação não se busca, ela vem.


LEMBRANÇAS E O PRESENTE


O sujeito que fica resgatando lembranças, fica buscando lembranças, é porque ele não está dando conta de viver o presente. O passado vem como uma tentativa de apaziguar a ansiedade e as angústias que estão ocorrendo em relação ao que ele está vivendo no presente. Quando o presente começa a ser um ambiente de tempo e espaço saudável, as lembranças vão sendo abandonadas, porque o presente está suprindo tudo aquilo que meu aparato emocional carece. 


RESGATE DA MEMÓRIA


A lembrança é quando o sujeito, por exemplo, está num relacionamento tóxico, preso num relacionamento tóxico, que não acredita que é capaz de se libertar daquilo e ela fica buscando lembranças do relacionamento anterior que ela teve ou sonhando com o próximo relacionamento que ela possa ter. lembrança e expectativa, memória e desejo, porque o presente não está sendo saudável. Mas a recordação é diferente. A recordação é quando num tempo presente você se pega recordando de um momento, de uma experiência agradável que você teve com uma pessoa amada que já não está mais no tempo presente. Essa experiência com essa pessoa pode te sugerir modelos afetivos para que você possa usar hoje.


OBESIDADE


A questão da obesidade é complexa porque inúmeros fatores podem desencadear um processo de ganho de peso exacerbado. Não podemos atribuir somente a uma disfunção ou alguma falha no funcionamento emocional à obesidade. É claro que algumas falhas no processo de simbolização ou em qualquer outro processo que possa acontecer dentro do âmbito emocional pode vir a desdobrar-se num processo de obesidade. Mas nem todo o processo de obesidade tem a ver com o funcionamento emocional. É muito importante que a gente possa ter essa clareza.


COMPULSÃO ALIMENTAR


numa possibilidade de ganho de peso, fora do natural, fora do saudável, que esteja ligada ao processo emocional, a gente poderia levantar algumas hipóteses. A dificuldade de simbolização do seio pode vir a desencadear um processo de obesidade na medida em que a criança não consiga se alimentar de maneira adequada e acabe atribuindo ao seio algo que não é o seio real. É como se ela estivesse o tempo todo buscando um seio que nunca consegue encontrar. Muito provavelmente cada angústia, cada ansiedade vai ser associada à alimentação. E nesse caso pode vir a se desenvolver um quadro de obesidade. aquilo que normalmente seria uma nutrição afetiva, não consegue sair da nutrição material ou concreta do leite, do alimento do corpo para o alimento da alma, por assim dizer, e fica preso à materialidade das coisas. Então fica uma busca perene de algo que está no corpo, mas na realidade o que está empobrecido ou o que está desnutrido é o aparelho psíquico. É uma desnutrição afetiva.


PRAZER ALIMENTAR


Eu me lembro aqui de uma paciente, há muito tempo atrás, que tinha uma expressão que era jocosa, mas na realidade acontecia de verdade. Ela dizia assim: "Aí eu fiquei nervosa e eu comi só de nervoso". Então cada vez que ela se irritava, cada vez que ela perdia a paciência, ela recorria à satisfação gastronômica, por assim dizer, né? comia exacerbadamente como uma tentativa de apaziguar a sua tensão nervosa. Então, muito provavelmente o que acontecia aí é uma dificuldade de simbolizar o seio da mãe que viria para apaziguar não só com o leite, mas com o afeto da mãe também. E quando essa relação é bem-sucedida, nutre as partes e a simbolização pode acontecer.


RECOMPENSA


Se você comer, você vai ganhar uma recompensa. Essa é uma inadequação na criação dos filhos que pode trazer desdobramentos terríveis, extremamente nocivos, não só com alimentação, mas com qualquer coisa que seja da necessidade de ser feito. Qualquer experiência, qualquer tarefa que seja da necessidade de ser realizada, não deve se oferecer recompensa. Aquela tarefa deve se completar nela mesma. O se alimentar se completa em si mesmo. Oferecer uma recompensa para criança tomar banho é um grande absurdo, porque o banho deve se completar em si mesmo ou estudar ou qualquer outra coisa.


MECANISMO DE DEFESA


Quando o sujeito passa a apresentar algum comportamento inadequado, que que eu estou chamando de inadequado, que foge a naturalidade, que foge a esfera do saudável. Este comportamento é uma manifestação de uma defesa. Ele está se defendendo de algum sentimento que ele não está conseguindo tolerar. Então ele cria uma forma comportamental de agir inadequadamente para se defender esta ordem de sentimentos. Sempre que a gente for olhar para algum comportamento do paciente, a gente precisa respeitar aquilo, porque por trás daquilo tem alguma coisa que precisa ser cuidada. Quando a gente tenta cuidar do comportamento, a gente acaba fechando os olhos para o funcionamento que está inadequado e gerando comportamento.




terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

PSICANÁLISE, FÍSICA QUÂNTICA E AS INCERTEZAS - Prof. Renato Dias Martino

 


Existem inúmeros fatores, dentro da ciência quântica, da física quântica, que concordam com a ciência psicanalítica. E aí, um nome extremamente importante dentro da física quântica é o Werner Heisenberg (1901 — 1976), que ele vai trazer a possibilidade de a gente perceber as coisas com um vértice do princípio da incerteza. Ele percebeu que, quando ele estudava uma partícula quântica. Ou seja, a menor partícula que se pode estudar, que se pode conhecer, ele precisava jogar um foco de luz nesta partícula, para que ele pudesse estudar. Sem luz não tem como você visualizar esta coisa, mas quando ele jogava esse foco de luz nessa partícula, a luz trabalha através de partículas de fóton, essas partículas ao baterem nesta partícula que se tentava ser estudada interferia na possibilidade de estudo. Não tinha como ter uma certeza daquilo, porque todas as vezes que se iluminava isso, isso sofria uma mudança. É claro que não só a partir disso, mas um estudo muito maior, que eu estou tentando sintetizar de uma maneira extremamente grosseira aqui, mas não se pode ter uma precisão de uma partícula quântica por conta da luminosidade que é necessária para estudar, e aí, na psicanálise, isso surge como uma dádiva, porque não é a função do psicanalista, jogar luz no material que o paciente traz. 

A nossa função é justamente o contrário. Nós precisamos trazer a possibilidade de um foco de escuridão, nós precisamos apagar as luzes, para que o paciente possa se iluminar por si só. Não é função do analista iluminar alguma coisa, é função do psicanalista propicia é um ambiente de silêncio e de escuridão, para que o paciente possa iluminar-se por si só, iluminar as suas ideias. A luz não vem do analista, a luz vem do interior do paciente. 

Assim como um físico quântico, o psicanalista precisa, sempre abrir sua atenção, incluindo a possibilidade da incerteza. O Wilfred Ruprecht Bion (1897 - 1979), vai chamar isso daí de “capacidade negativa”, da possibilidade de viver uma incerteza, ou de não se convencer com um saber antecipado. Estar sempre aberto a algo que possa surgir, algo que possa estar ali, que ainda não tenha sido notado. 

O paciente chega na clínica sofrendo da certeza. Ele tem uma certeza e aquela certeza começa a conduzir a vida dele ao ponto de obstruir o fluxo na sua vida. Porque a vida incerta, porque a vida não tem uma saturação, porque a vida é transformação, porque a vida são possibilidades. Nos julgamos definidos, porém somos possibilidades. 

A física quântica contribui dentro nessa perspectiva para as formulações psicanalíticas, quando a gente é capaz de tolerar a incerteza, nós desobstruímos o fluxo da vida e permitimos que as coisas comecem a acontecer a partir das possibilidades. Esta certeza, que o paciente chega trazendo é colocada lá pela Melanie Klein (1882 — 1960) como um mecanismo de defesa da posição esquizoparanóide, naquela posição em que o sujeito cinde a realidade em bom e ruim. Este mecanismo de defesa, é o mecanismo de defesa da onisciência. Então, ele já sabe tudo e a partir do processo psicanalítico, ele vai dissolvendo isso. Ele vai percebendo, porque ele não sabe nada, que ele é um grande ignorante, como todos nós somos, mas aí ele passa a ter consciência desta ignorância e isso é libertador. 

Grande parte dos pacientes, sofrem justamente disso, de ter que saber. Nós vemos aí, sujeitos aí, propondo a física quântica como alguma coisa mágica, que faz com que você consiga tudo que você deseja, que é só você ficar pensando assim, ou assado, te dando ali tarefas ou exercício para que você... Não, a física quântica não é nada disso. Isso aí é um mau uso do que a gente chama de física quântica. Assim como nós temos inúmeros ditos psicanalistas, ou supostos psicanalistas usando a psicanálise no mesmo propósito, prometendo coisas ao outro, prometendo processos mágicos de conseguir o que o outro deseja. 

Não, não é nada disso! Tanto a física, quanto a psicanálise tem um pressuposto muito claro de tolerar a dúvida, tolerar a incerteza, ser capaz de tolerar o desconforto da sua própria ignorância. É justamente isso, ser capaz de renunciar ao desejo do que você gostaria que fosse para que você possa reconhecer a realidade, assim como ela é, e não como você gostaria que ela fosse. O psicanalista lida com o inconsciente. Se existe um conceito, um termo que baliza, ou que, na realidade fundamenta toda psicanálise, este conceito é o inconsciente. 

Se nós estamos falando de inconsciente, dentro da perspectiva psicoterapêutica, nós estamos falando de psicanálise. A descoberta do inconsciente foi a maior descoberta de Sigmund Freud (1856 - 1939), sem sombra de dúvida. Então, se o psicanalista lida com inconsciente, ele não pode lidar com o saber, porque o inconsciente não está disponível ao saber. Pode, na melhor hipótese, ser reconhecido, que diz respeito a admitir que existe e não saber sobre. Quando a gente está falando de psicanálise, quando a gente está falando de física quântica, quando a gente está falando de formulações religiosas, a gente está falando de ser capaz de tolerar a dúvida e não estar focado em um resultado pré-estabelecido. 

De ser capaz de tolerar o fluxo incerto da vida e não buscar a realização de um desejo. Então, tanto o crente que está lá na igreja tentando buscar com aquela estada ali, com aquele contato que ele tem com Deus, um benefício com isso, conseguir o seu lugarzinho no céu. O quanto o paciente que busca psicanálise buscando conseguir aquilo que ele tanto quer, ou realização do seu desejo. Quando os cientistas, que começa a estudar, não por uma descoberta científica, mas confirmar aquilo que ele já sabia, que ele supostamente já sabia. Todos estão equivocados! Um sujeito que não tem uma filosofia nobre, ele vai usar essa psicanálise para um mau propósito. 

Em todas as áreas, desde a medicina, passando pela psicanálise, passando pela ciência quântica, passando pela política, passando pela religião, passando por todas as os vértices aí, do conhecimento humano, nós temos esta configuração. Uma filosofia de péssima qualidade, conduz esse pensamento para o mal propósito.




sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

O ÉDIPO E O SUPEREU - Prof. Renato Dias Martino


Quando a gente fala de Édipo, normalmente a gente tem a ideia de que existe ali, uma triangulação onde duas figuras estão unidas e vem uma terceira para cortar esta relação. Esta colocação é extremamente inadequada. 

CORTE, TRANSFORMAÇÃO E ENRIQUECIMENTO 

A entrada do pai não promove corte algum, ele vai promover um enriquecimento, ele vai vir para trazer uma possibilidade de influência para que esta relação, entre o filho e a mãe possa se enriquecer, possa se transformar. É um ponto de transformação e não de corte. Os lacanianos se apossaram dessa palavra corte, castração e trazem uma um empobrecimento na possibilidade de associação do que se tem como teoria, na prática. A entrada do pai é um fator enriquecedor, que vai possibilitar a desobstrução da relação filho e mãe, para que esta relação possa se transformar em algo adequado. Então, quando a gente está falando de triângulo edípico, nós estamos falando de uma configuração que vem para trazer uma possibilidade de transformação e não de ruptura. O vínculo entre mãe e filho se enriquece com a entrada do pai.

NOVA DIMENSÃO E ADEQUAÇÃO

Todas as configurações triangulares que o sujeito virá experimentar no futuro, vão estar de alguma forma subordinadas à elaboração daquilo que o Freud chamou de complexo de Édipo. O Freud trouxe o mito de Édipo, mas você não precisa do mito de Édipo para que você possa entender a configuração triangular. O próprio triângulo, a própria geometria já é o suficiente para que você possa perceber aí, dois pontos e um terceiro ponto que promove, não um corte, mas uma nova dimensão para esta configuração. O ponto não corta, ele traz uma nova configuração. A entrada da função paterna precisa ser algo enriquecedor para relação. Ele traz a possibilidade de enriquecer o relacionamento que o filho tem com a mãe. Ele traz a possibilidade de se esclarecer as possibilidades vinculares entre filho e mãe. A função paterna real e saudável é aquela que traz a possibilidade de adequação da relação filho e mãe.


PARA KLEIN


Irá ganhar uma nova configuração por conta da função paterna que passa a integrar o mundo emocional-afetivo da criança. Para Melanie Klein, o complexo de Édipo já existia dentro daquilo que ela chamou de um Édipo arcaico, de um proto-superego, por assim dizer. Um período pré-edipico que na fase fálica vai tomar uma configuração exteriorizada, por assim dizer. Como é que se dá esta configuração pré-edipico, no que a gente vai chamar de superego arcaico, dentro da configuração kleiniana? Melanie Klein, dentro daquilo que ela chamou de posição esquizoparanóide, divide o bebê. Vai dividir a realidade em duas, cindindo essa realidade em dois. Uma parte é benevolente, uma parte vem para satisfazer e a outra parte está ligada à privação e é um seio persecutório. Então, seio bom e seio mau. O seio bom é aquele que vem e satisfaz e o seio mau é aquele seio que priva da satisfação. Por mais que o sujeito esteja desfrutando do seio bom, ele está o tempo todo com medo da perseguição do seio mau. Então, se a gente está falando de sei o bom e sei o mau e o sujeito, nós estamos falando então, de uma triangulação. O superego primitivo, ou arcaico é um superego persecutório, é aquele perseguidor, é aquele que que vem ameaçar a paz do bebê com o seio bom. Diferente do superego proposto por Freud na fase fálica que é o herdeiro do complexo de Édipo fálico, que é o superego legislador. É aquele que traz a lei, é aquele que vai trazer o que pode e o que não pode. A princípio, o bebê vai viver um superego persecutório e depois ele vai, através da entrada do pai, transformar esse superego num superego legislador. O sujeito que tem a preponderância, ou a predominância da parte psicótica, não conseguiu essa transformação de superego persecutório para um superego legislador. O superego legislador é aquele que vai ser o fiscalizador, ou o fiscal das neuroses, dos sintomas neuróticos e o superego persecutório é aquele que vai atormentar as alucinações psicóticas.

PARA FREUD

Para o Freud, o superego é um herdeiro do complexo de Édipo e para o Freud o complexo de Édipo acontece na fase fálica. Então, na elaboração do complexo de Édipo na fase fálica, para Freud, aparece o superego para ele. Antes não tinha superego e o que que é o superego para o Freud é a possibilidade de elaboração do complexo de Édipo. As questões edípicas. Ideal de eu. O que então, deveria ser. Então, este superego, ao mesmo tempo vai cobrar que o sujeito tem a mãe só para ele e também, ao mesmo tempo, vai negar e proibir que ele possa ter esta mãe para ele. E quando esse pai não exerce uma função suficientemente boa, isso passa a ser um elemento extremamente perturbador na configuração da estrutura mental do sujeito.

PERSEGUIÇÃO E LEGISLAÇÃO

Um sujeito que tem a predominância da parte psicótica da mente, ele não tem a ligação razoável com o mundo externo, logo, as leis para ele fazem muito pouco sentido. Toda figura de autoridade vai significar perseguição e não legislação. Todas as vezes que houver um contato, tanto com a figura externa de autoridade, quanto com a figura interna de autoridade. Este contato será um contato de perseguição de alguém que vem me sondar com um olhar que fica o tempo todo à espreita. A alucinação do psicótico, a miúde, tem esta figura de perseguidor independente de leis ou não. Não tem a ver com lei, tem a ver com perseguição. Estão me perseguindo! E o superego legislador é mais fácil ainda, porque todo o sintoma neurótico acontece por conta de uma proibição, de uma proibição da civilização. Como é que se desenvolve um sintoma neurótico? O sujeito reprime um desejo perverso, por ser proibido civilizatoriamente, dizendo, e a partir dali, ele elege um substituto, que é permitido pela sociedade e ali ele desenvolve o seu sintoma. Todo o sintoma neurótico perpassa por uma proibição civilizatória social.

PARA BION

O Bion observa um uma outra característica do Édipo. Não restrita a ideia do crime sexual e do parricídio, mas ele vai para além. Ele percebe ali, a forma arrogante que o Édipo lida com a verdade. Quando ele manda buscar o Tirésias e pergunta quem foi que matou Laio. Conforme o Tirésias vai revelando ali a verdade, o Édipo vai se enfurecendo, ficando hostil e lidando com arrogância frente essa verdade. Mesmo dentro do Édipo, fora dessa configuração, se estabelece mais um triângulo. Não mais em relação a Laio e Jocasta, mas agora em relação à verdade e o Tirésias. Então, mais um triângulo aí que não tem a ver com sexualidade. Mas o Édipo gostaria que a realidade fosse uma coisa e o Tirésias traz a verdade que não é aquilo que o Édipo gostaria que fosse. Então dentro da história do Édipo se instala um novo triângulo que é uma extensão do próprio triângulo edípico, onde o Édipo deseja que a realidade seja alguma coisa e o Tirésias diz que a realidade não é aquilo que ele deseja.

MODELO EDÍPICO

Quando a gente fala de triângulo edípico, triangulação do Édipo, do complexo de Édipo, nós não estamos falando somente da ideia sexualizada, mas nós estamos falando aqui, de uma experiência onde há um objeto de desejo e algo a ser respeitado na tentativa de conseguir este objeto de desejo. O sujeito, um objeto de desejo e algo que precisa ser respeitado na direção de conseguir este objeto de desejo. Não somente, sujeito, mãe e pai. Ou sujeito, pai e mãe, mas sujeito algo que ele deseja e algo que barra a realização desse desejo. Então, este é um modelo que vai para além da simples triangulação no desejo da criança obter a mãe exclusivamente para ele e excluir o pai desta relação.