quinta-feira, 11 de novembro de 2021

SOBRE COLHER OU ACOLHER


Dentro da psicanálise do acolhimento, existem alguns pressupostos fundamentais. Um deles é que os elementos carecem estar realmente prontos para serem acolhidos. Precisam brotar espontaneamente. Dessa forma, pensamentos que sejam desconfortáveis ou que sejam evitados pelo paciente, em que ele diga: “Isso eu não gosto de trazer, eu não gosto de lembrar...”, não devem ser tocados. São como fruto que não está pronto para ser colhido. Tentar colher (acolher) o que não está pronto para tal é um ato de violência. Insistir em mexer no que não está no tempo de ser tocado é ato de desrespeito. Na verdade, só gerará mais defesas, tornando o conteúdo cada vez mais inacessível. Se o paciente não trouxer o material de maneira espontânea, esse material não está pronto para ser trabalhado. Se ele, por acaso, sonhou com alguma coisa e esse sonho não puder ser recordado espontaneamente é porque estes elementos que foram esquecidos foram submetidos a uma censura, foram submetidos a defesas e não chegaram a serem acessíveis e se não chegaram até aqui é porque não estão prontos para serem acolhidos ou colhidos. A prática da psicanálise do acolhimento deve ser análoga à um terreno (continente) fértil, onde por trazer confiança, os elementos amadurecem em seu tempo e podem ser acolhidos de forma adequada.



Prof. Renato Dias Martino

Psicoterapeuta e Escritor






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terça-feira, 2 de novembro de 2021

DISPUTA FÁLICA

Pelo menos dentro do âmbito emocional-afetivo num adulto, a disputa é sempre insalubre. Não pode haver saúde nos vínculos enquanto houver disputa. O embate é uma manifestação natural, que deve surgir muito cedo, no funcionamento da criança e por conta disso, é importante que haja a possibilidade de desenvolvimento de recursos propiciadores de elaboração dessa ordem de impulsos opositores.

A disputa é uma característica do período do desenvolvimento da criança, da qual Sigmund Freud (1856 - 1939), denominou fase fálica. Em sua obra A ORGANIZAÇÃO GENITAL INFANTIL (1923), Freud destaca o fato de que nessa fase o formato fálico do pênis chama a atenção das crianças e passa a ser alvo tanto de inveja (dos que “têm” ou dos que têm um maior do que o dos outros) quanto da angústia de que pode ser castrado assim como se suspeita que tenha ocorrido com as meninas (que supostamente não “têm”). Quando o menino que tem grande orgulho da posse de um pênis, vê o genital da menina e percebe a ausência, inunda sua mente de conflitos. “Com isso a perda de seu próprio pênis fica imaginável e a ameaça de castração ganha efeito adiado [Nachtraglichkeit]” (Freud, 1924). Nessa época da vida da criança não existe a capacidade de entender a diferenciação dos órgãos genitais e por conta da característica interna dos órgãos femininos, cria se um atalho no entendimento, por assim dizer, onde uns tem pênis e outros não tem.
“O que está presente, portanto, não é uma primazia dos órgãos genitais, mas uma primazia do falo” (FREUD, 1923) Isso configura um ambiente propicio para disputa de quem é mais poderoso. Nessa fase a criança ainda rivaliza com o pai a exclusividade da atenção materna no que Freud denomina de complexo de Édipo.

Um ambiente que possibilite atividades lúdicas, práticas esportivas, assim como jogos, podem trazer a chance de elaboração e gradual dissolução da tendência natural ao confronto. No entanto, a saúde no vínculo com os pais parece ser a base dessa possibilidade de elaboração. Numa relação saudável, o confronto deve ser dissolvido por conta do respeito desenvolvido em relação ao outro. Respeito que tem seu alicerce no amor, que por sua vez é o desdobramento da capacidade de tolerância as frustrações, o que possibilitará a renúncia desse impulso. Isso é diferente da relação que seja construída sobre o medo.

A saber, medo não é respeito. O que chamo aqui de respeito tem sua origem na semântica da palavra. “Do Latim respectus, particípio passado de respicere, “olhar outra vez”. Do re, “de novo”, mais specere, “olhar”: a ideia é de que algo que merece um segundo olhar em geral merece respeito.” (Martino, 2013) Numa relação onde os pais sejam capazes de respeitar os filhos, questões referentes a disputa e rivalidades vão gradualmente se dissolvendo e dando lugar para o desenvolvimento da compaixão. A criança que tenha sido respeitada, conseguirá aprender a respeitar a si mesma e será capaz de estender esse respeito aos outros.
Para que os pais possam proporcionar essa configuração é imperioso que no casal haja o cumprimento adequado das funções de cada um. Com isso a harmonia gera a integração na união. Num casal onde haja espaço para disputa entre marido e esposa, não pode haver integração e os filhos carregarão as consequências dessa dificuldade da dupla.

No entanto, lares que podem contar com ambientes de integração parecem ser cada dia mais raros. Isso pelo motivo de que o modelo de mulher admirada (pelo menos, por grande parte das mulheres) na configuração atual da sociedade parece ser aquela que se mostra independente, financeira e emocionalmente. A mulher admirada pelas outras mulheres, em sua maioria, na contemporaneidade parece ser aquela que busca a concretização de seus sonhos individuais, que se engaja em conquistas em sua carreira, de bens materiais procurando cada vez mais sua autonomia. Mesmo que isso custe estar distante dos filhos (quando os tem) a maior parte do tempo. Filhos que são deixando-os aos cuidados de terceiros, como babas ou instituições de cuidado de crianças, que se propõe fazê-lo com infantes de poucos dias de vida. Além disso, parece-me que, quanto mais o sucesso dessa mulher acontecer independente de um homem, tanto mais admirada será, pelas outras mulheres que comunguem desse senso comum dos dias de hoje. Nos atributos passíveis de admiração, não parece estar incluído o da dedicação à família.

Por outro lado, quando o objeto de avaliação é o modelo de homem admirado por esse mesmo público que compartilha desse senso comum, os critérios parecem ser avessos aos atribuídos à mulher alvo de admiração. O homem, para ser admirado dentro desse critério mencionado, deve ser aquele que renuncia a si e aos seus desejos individuais por seus filhos e sua família. Aquele que se revele um provedor por excelência. Parece que o trabalho externo, que não dentro do lar, passou a ser um dos representantes do falo. Um falo que traz o poder de proporcionar o sentimento de independência e a sensação de autonomia para não precisar do outro. Disputam-se quem possui esse poderoso falo, troféu narcisista e desestruturante de lares. O prejuízo seria menor se não houvessem filhos envolvidos na trama de competição de quem é mais independente. No entanto, essa desestruturação vai provocando patologias emocionais nos pequenos, que são impelidos a repetir esse modelo nas novas gerações.

Parece-me que a sociedade contemporânea sofre de uma fixação no desenvolvimento emocional. Certa ancoragem na fase fálica, onde a menina que hoje é a mãe de família, experimenta a triste constatação de que não possui o órgão genital como o dos meninos. Parece fixada na fantasia infantil de que “ele tem e ela não tem”. Presa no “susto” de que, nela o pênis não se desenvolveu, ou ainda, que foi cortado. Numa configuração saudável do desenvolvimento, onde haja uma integração na relação com os pais, a menina vai tomando consciência da importância do genital feminino e sua posição como mulher. Isso leva a dissolução da inveja geradora de rivalidade. No entanto, na situação atual das famílias das quais os pacientes chegam na clínica psicanalítica isso é cada dia mais raro. A menina permanece ligada a modelos primitivos de funcionamento, onde o outro parece sempre ser ou ter algo melhor que o dela, gerando um clima sempre propicia à rivalidade, onde a disputa é a configuração das relações. Ora, num clima de rivalidade não existe lugar para elementos nobres como amor e verdade, imprescindíveis para um funcionamento profícuo da mente. Num clima de disputa, não se ama, o objetivo é ganhar, independente da verdade.

A grande maioria dos casos que chegam à clínica psicanalítica tem um histórico de mães e pais que não conseguiram desempenhar suas funções de forma suficiente. Pai que tentou suprir aquilo que a mãe não deu conta e vice-versa. A incapacidade dos pais em reconhecer e tolerar limites geram severas consequências nos filhos. A criança não pode se responsabilizar pelas incapacidades de seus pais. As experiências mais importantes do desenvolvimento emocional ocorrem nos primeiros anos de vida. Falhas nesse período podem causar marcas profundas e muitas vezes indeléveis.

 

Freud, S. (1996). A ORGANIZAÇÃO GENITAL INFANTIL: umainterpolação na teoria da sexualidade. In J. Strachey(Ed. e Trad.). Edição Standard Brasileira das ObrasPsicológicas Completas de Sigmund Freud(Vol. XIV). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho originalpublicado em 1923).

______. (1924/1976). A DISSOLUÇÃO DO COMPLEXO DE ÉDIPO. In: Strachey (Ed.), ESB XIX). Rio de Janeiro: Imago. (Vol.XIX). Rio de Janeiro: Imago.
______. (1933/1976). CONFERÊNCIA XXXIII, FEMINILIDADE. In: Strachey (Ed.), ESB XXII). Rio de Janeiro: Imago. Freud, S. (1940/1976). A divisão (Vol.XXII). Rio de Janeiro: Imago.

______.(1937/1976). Análise terminável e interminável. In: Strachey (Ed.), ESB (Vol. XXIII). Rio de Janeiro: Imago.
______.(1940/1976). A DIVISÃO DO EGO NO PROCESSO DE DEFESA. In: Strachey (Ed.), ESB XXIII). Rio de Janeiro: Imago. (Vol.XXIII). Rio de Janeiro: Imago.

MARTINO, Renato Dias. O AMOR E A EXPANSÃO DO PENSAR: das perspectivas dos vínculos no desenvolvimento da capacidade reflexiva – 1ª ed. São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2013.




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sexta-feira, 22 de outubro de 2021

FANTASIA DE ONIPOTÊNCIA

 

Quando alguém, por ventura não tenha sido nutrido de amor e não tenha recebido suficiente reconhecimento, numa época em que ainda não conseguia retribuir, pode vir então, a desenvolver recursos defensivos para tentar aplacar essa falha geradora de insegurança. O delírio de grandeza é uma forma de defesa para aplacar o sentimento de insegurança daquele que não esteja conseguindo acreditar em si, por ter sido privado da confiança do outro.

Quando o bebê, que é naturalmente narcisista e carece de grande atenção do outro, não consegue receber esse cuidado de maneira bem sucedida, acaba por estender características narcisistas para fases posteriores, na vida adulta. Tende a desenvolver maneiras substitutivas para alcançar receber olhares de aprovação e exaltação de forma compulsiva.

Desejar resolver o problema do outro pode ser uma característica narcisista. Quando existe esse desejo, pouco tem a ver com compaixão ou altruísmo, mas serve como forma de obter satisfação, através de um sentimento de superioridade. O ímpeto de querer solucionar problemas de outras pessoas parece ser originário de fantasias de onipotência. Fruto da ilusão de que se consegue controlar tudo, ou de que detém o comando sobre tudo, num delírio de grandeza. 

Contudo, isso ocorre, enquanto o outro, de maneira suposta, não tenha a menor capacidade para tanto. Ou seja, um sente que tem a supremacia às custas da inferioridade do outro. Isso comumente é visto nas redes sociais, como uma forma de autopromoção ou ainda exibicionismo. 

No entanto, a realidade parece se configurar de forma bem diferente. Ninguém pode ser ajudado sem que antes se dê conta e admita que precisa de ajuda. Além do mais, aquilo que o julgado salvador imagina ser um problema, pode estar trazendo um benefício oculto para aquele que parece padecer. Sendo assim, não existirá solução até que haja uma mudança interna, onde nada que venha de fora poderá intervir. A não ser um ambiente acolhedor e tolerante do tempo que isso possa demandar.



sábado, 2 de outubro de 2021

DA TENDÊNCIA A IDOLATRIA


Não é novidade o fato de que o grupo humano carece de um líder para manter-se unido. Essa espécie de grupo tem a união muito breve no caso de não existir um integrante que possa cumprir a função de líder. Pelo fato de que não se encontra na origem da personalidade humana, um elemento instintivo de agregação é então necessário um líder para juntar e manter unido o grupo dessa ordem de seres. Isso fica muito claro na obra PSICOLOGIA DAS MASSAS E ANÁLISE DO EGO, de Sigmund Freud (1856-1939), quando orientado por Gustave Le Bon (1841 — 1931), propõe que quando um grupo de seres humanos se junta, logo colocam-se sob a influência de um integrante que carrega algumas características peculiares.
Freud afirma que o grupo humano porta-se como se fosse um rebanho submisso e que não poderia manter-se sem um dominador. “Possui tal anseio de obediência, que se submete instintivamente a qualquer um que se indique a si próprio como chefe.” (Freud, 1921) Esse sujeito ora ocupando o lugar de líder deve receber um olhar de prestigio e que amiúde converte-se em idolatria. 
A questão da influencia do líder no grupo humano também é tratada por Wilfred R. Bion (1897-1979), em EXPERIÊNCIAS COMGRUPOS, onde propõe que o grupo humano guarda características do processo primário do funcionamento mental, ou seja, opera impulsivamente, reagindo defensivamente conforme as ansiedades geradas. Dentro dessa configuração, o grupo deve manifestar o que Bion descreveu como três modalidades de suposições básicas, que se estabelecem em relação ao líder. “Existe apenas uma espécie de grupo e uma espécie de homem que se aproximam deste sonho, e são o grupo básico o grupo dominado por uma das três suposições básicas: dependência, acasalamento e fuga ou luta e o homem que é capaz de perder sua identidade no rebanho.” (Bion,1961) 

Uma forma de suposições básicas predomina a fim de evitar experiências emocionais peculiares das outras duas suposições. “Assim, quando um grupo é impregnado pelas emoções do grupo de dependência os estados emocionais do grupo de luta-fuga e do grupo de acasalamento encontram-se em inatividade temporária.” (Bion, 1961) O líder parece ter a função de movimentaras emoções relacionadas as suposições básicas, no balanceamento das tensões que ocorrem entre a mentalidade de grupo e a autonomia do indivíduo. 
O suposto básico da “dependência” tem seu funcionamento primitivo, a partir da necessidade de segurança, busca proteção num líder com características carismáticas guiando-se por suas propostas. Nesse modelo a idolatria do líder pare ser exacerbada. “Mas o grupo constituído para perpetuar o estado de dependência significa, para o individuo, que ele está sendo ávido em exigir mais que sua parte justa de atenção paterna.” (Bion, 1961) Certa voracidade gera um conflito evidente entre essa forma de suposição básica e as necessidades e obrigações do sujeito enquanto adulto. Ao mesmo tempo em que o grupo idolatra o líder, também exige muito dele, assim como numa relação imatura de uma criança com seus pais.
“Nas outras duas culturas, o embate se dá entre a suposição básica do que é exigido do individuo como adulto e aquilo que este, como adulto, sente-se preparado para dar.” (Bion, 1961) Enquanto regido pelo suposto básico da dependência, o líder ganha a função de salvar o grupo, antes de tudo da possível desintegração, que sempre ronda essa espécie de organização. “De qualquer modo, seu estado de ânimo contrasta com aquele que experimentam quando, havendo jogado todas as suas preocupações sobre o líder, sentam-se e ficam esperando que ele solucione todos os seus problemas.” (Bion, 1961) A grande idolatria criada pelo grupo, quando regido por essa suposição, gera muitas dificuldades e na verdade impede que qualquer membro possa manifestar sua opinião, já que isso denota, aos olhos do grupo, oposição a o líder. 
Já no pressuposto básico de “luta e fuga”, segundo Bion, o grupo manifesta certa ansiedade paranoide. Sendo assim, nesse pressuposto, o líder deve também ter características paranoides e tirânicas. O sentimento persecutório faz com que o grupo se torne altamente defensivo, lutando ou fugindo das situações. “O tipo de liderança que é reconhecido como apropriado é a liderança do homem que mobiliza o grupo para atacar alguém, ou, alternativamente, para liderá-lo na fuga.” (Bion, 1961) Normalmente cria um inimigo externo do qual se atribui todo o mal e contra ele o grupo se mantém unido. Essa forma de suposição já se mostra um tanto mais evoluída que a suposição de dependência. 
No pressuposto básico do “acasalamento” o sentimento de esperança é a fundamentação, onde o grupo anseia pela geração de um elemento salvador que virá socorrê-lo de todas as dificuldades.  Uma “esperança messiânica”, onde um casal ou um par do grupo gerará um filho (elemento) que salvará a todos de qualquer moléstia. “Para que os sentimentos de esperança sejam sustentados, é essencial que o ‘líder’ do grupo, diferentemente dos líderes do grupo de dependência e do grupo de luta-fuga, esteja por nascer.” (Bion, 1961) Nascerá uma pessoa ou mesmo uma ideia que livrará o grupo do ódio, da destrutividade e do desespero. 
A partir dos modelos propostos até aqui, fica claro que a indispensável presença de um sujeito do qual seja atribuído características diferenciadas e mais evoluídas do que as dos outros membros para que um grupo humano possa existir. Sendo assim, a idolatria passa a ser elemento inerente à imposição da vida na sociedade. Do Grego, a palavra idolatria vem da junção de EIDOS = “forma”, mais LATREIA = “adoração”. Um líder religioso, um dirigente político, um artista famoso, uma celebridade, um professor, ou mesmo uma pessoa comum do convívio. Todos são potenciais objetos de projeções de idolatria. Mas, temos aqui um perigo.
A tendência a idolatria pode levar o sujeito que ora idolatra a um nível drástico de subserviência, muitas vezes até mesmo permitindo ser abusado por aquele que seja objeto de idolatria. 
Quando ocorre uma admiração exagerada para com o outro, isso acontece por conta de uma autodesvalorização. A idolatria incide em detrimento do amor próprio. É como se todas as virtudes, a nobreza, assim como todas as características saudáveis e sublimes estivessem reunidas tão somente no objeto de idolatria. No entanto, isso só pode acontecer com o esgotamento do valor de si mesmo, numa auto apreciação desfavorável. É como se o eu se tornasse insignificante perante o outro. Ainda assim, esse processo só deve ocorrer por meio de alucinação. Nenhum ser humano é digno de idolatria. 
A partir da situação de desvalorização de si mesmo, cria-se certa ambivalência. Por conta da auto depreciação, é gerado um ódio latente em relação ao objeto ora idolatrado. Quando se idolatra alguém, isso ocorre conscientemente, no entanto, gera-se um ódio velado. Por tanto, parece não ser possível existir tamanho investimento no outro sem que ocorra um empobrecimento no eu. Freud, descreve duas direções possíveis para a libido(importância): “libido do ego”, importância de si mesmo e “libido objetal” importância do outro. “Quanto mais uma é empregada, mais a outra se esvazia.” (Freud, 1914)Em cada idolatria existe um ódio velado. “A atitude da criança para com o pai é matizada por uma ambivalência peculiar.
O próprio pai constitui um perigo para a criança, talvez por causa do relacionamento anterior dela com a mãe. Assim, ela o teme tanto quanto anseia por ele e o admira.” (FREUD, 1927) A criança tem sentimentos de sentidos opostos em relação a aquele que apresente características de autoridade, onde odeia por ter o poder de dominá-la e admira pelo mesmo motivo. “O violento pai primevo fora sem dúvida o temido e invejado modelo de cada um do grupo de irmãos: e, pelo ato de devorá-lo, realizavam a identificação com ele, cada um deles adquirindo uma parte de sua força.” (FREUD, 1913) 
Na realidade, aquele que ora idealiza o outro com idolatria, o faz como uma consequência de certa incapacidade de reconhecer virtudes em si mesmo. Ou seja, não é a idolatria que consome o amor próprio, mas sim a falta de autoestima que gera a necessidade de idolatrar a outrem. Um ideal de eu é projetado no outro por conta da dificuldade de confiar no que se está sendo. Na formação de um grupo, esse ideal é comungado entre os integrantes, que também compartilham da incapacidade de acreditar em si mesmos. “Interpretamos esse prodígio com a significação de que o indivíduo abandona seu ideal do ego e o substitui pelo ideal do grupo, tal como é corporificado no líder.” (Freud, 1921). Tratamos da incapacidade de pensar por si mesmo. O sucesso no domínio dos governantes está na incapacidade de pensar da nação. Arthur Schopenhauer (1788-1860) trata desse tema em seus escritos, onde descreve o nacionalismo como o resultado de um estado de empobrecimento do amor próprio. 
"Nacionalismo -Todo pobre-diabo que não tem nada no mundo do que possa se orgulhar escolhe a nação a que pertence como último recurso para sentir orgulho: desse modo, ele se restabelece, sente-se grato e pronto para defender (com unhas e dentes) todos os erros e absurdos próprios dessa nação".(Schopenhauer, 1860) 
Assim sendo, a saúde emocional que é nutrida pelos vínculos, fica ameaçada. Onde couber idolatria não há espaço para vínculo saudável. Parece que quanto maior for a falha no cumprimento de funções fundamentais como as maternas e paternas, tanto maior a não integração da personalidade num sujeito coeso. Essa coesão consigo mesmo é o que pode trazer autonomia tornando o sujeito capaz de liderar a si mesmo. Por outro lado quanto maior a desintegração da personalidade, a fragmentação faz com que o sujeito não funcione como um indivíduo, mas como um grupo incapaz de concordância entre si.

Portanto, menor a capacidade de guiar-se por si mesmo e maior será a tendência de o sujeito buscar líderes para idolatria.




Referências: 

Bion, W. R. (1961). EXPERIÊNCIAS COM GRUPOS. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

FREUD, S. (1913). O TOTEM E TABU, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Ed. Imago, Rio de Janeiro, 1969.Vol. XIII

_________. (1914). SOBRE O NARCISISMO: UMA INTRODUÇÃO ,Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Ed. Imago, Rio de Janeiro, 1969. Vol. XIV.

_________. (1921). PSICOLOGIA DE GRUPO E ANÁLISE DO EGO. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Ed. Imago, Rio de Janeiro, 1969. Vol. XVIII.

SCHOPENHAUER, Arthur. (1860). A ARTE DE INSULTAR, São Paulo: Martins Fontes, 2003.

_________. (1927). O FUTURO DE UMA ILUSÃO, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Ed. Imago, Rio de Janeiro, 1969.  Vol. XXI









 

domingo, 5 de setembro de 2021

CONSIDERAÇÕES SOBRE O SUICÍDIO


A ideação suicida é um componente que naturalmente está presente na mente do ser humano. Sigmund Freud (1856 - 1939) já havia alertado sobre o fato de que certa tendência de autodestruição se encontra presente mesmo em sujeitos que não a levam até a ação. “Mesmo nos casos em que realmente se consuma o suicídio, a propensão a ele terá estado presente desde longa data, com menor intensidade ou sob a forma de uma tendência inconsciente e suprimida.” (Freud, 1901)
Sendo assim, é de suma importância a tomada de consciência dessa tendência de autodestruição, já que é só a partir daí que passa a ser possível a responsabilização. São várias as formas de atentar contra a própria vida e todas elas, lentas ou abruptas, são formas de suicídio. Desde o uso desmedido de substâncias nocivas como açúcar e gordura, a ingestão de álcool e drogas, uso de tabaco, até o suicídio efetivo no atentado direto e fatal no alto aniquilamento. O termo suicídio vem do latim SUICIDIUM, que é a junção de SUI, “de si mesmo”, e CAEDERE, “bater, golpear, matar”. São inumeráveis os motivos que levam um sujeito a efetivar o atentado contra a própria vida. Ainda assim, a incapacidade de tolerar o desconforto da tomada de consciência, para firmar um acordo com a realidade parece estar sempre presente nos casos de consumação do suicídio.
Grande parte dos casos de suicídios tem sua origem na privação de cuidados nas etapas mais precoces do desenvolvimento emocional. Muitas vezes ocorrendo rejeição mesmo antes do nascimento. O pensamento que antecede o sujeito tem importância fundamental na medida em que não encontra chance de reparação. Pensamento de exigências em relação ao bebê que ainda não nasceu, pode comprometer de maneira brutal no destino dessa vida que nasce. “A questão se torna mais complexa ainda quando o que se deseja desse sujeito é que ele nunca tivesse nascido.” (Martino, 2015) Influencias de experiências que precedem o nascimento do sujeito que possa vir a se suicidar.
“Um sujeito que não foi abortado quando bebê poderá ser “abortado” na vida adulta (suicídio); abortar o próprio filho (fazendo o seu próprio aborto) ou abortar outro sujeito (matar).” (Marques, 2020) Isso acontece quando as funções maternas e paternas não foram cumpridas suficientemente, na necessidade de acolhimento e de reconhecimento de limites. “Só ama o outro quem ama a si mesmo; só ama a si mesmo quem foi amado pelo outro.” (Martino, 2015) Na falta da experiência de ter sido amado pelo outro o sujeito não aprendeu a amar-se a si mesmo, ou ainda, pode passar a odiar-se a si mesmo.
Sendo assim, aquele que venha a dar cabo de sua própria vida não conseguiu aprender a amar e respeitar a si próprio. A maior parte dos casos de consumação suicida parece ter um histórico de solidão, desamparo, rejeição, por vezes, sendo fruto de gravidez indesejada. Isso impede que o sujeito consiga encontrar adequação no mundo, trazendo a sensação de se estar deslocado em qualquer lugar que esteja.

Na obra A PSICOGÊNESE DE UM CASO DE HOMOSSEXUALISMO NUMA MULHER, Freud levanta o episódio da desaprovação do pai quanto a um relacionamento homossexual de uma moça que desesperada por perder seu amor tenta suicídio. No entanto, Freud percebe ainda outro motivo por detrás. A autopunição, por conta do desejo de que os pais morressem.  Freud não acredita que alguém possa encontrar energia mental necessária para o suicídio, “a menos que, em primeiro lugar, agindo assim, esteja ao mesmo tempo matando um objeto com quem se identificou e, em segundo lugar, voltando contra si próprio um desejo de morte antes dirigido contra outrem.” (Freud, 1920)

Na análise do estado de melancolia Freud propõe que nos casos de suicídio, o sujeito passa a “tratar a si mesmo como objeto – se for capaz de dirigir contra si mesmo a hostilidade relacionada a um objeto, e que representa a reação original do ego para com objetos do mundo externo.” (Freud, 1917) Freud, nos mostra com clareza que em casos de melancolia a prática de torturar-se a si mesmo chega a ser prazerosa. “Via de regra, em ambas as desordens, os pacientes ainda conseguem, pelo caminho indireto da autopunição, vingar-se do objeto original e torturar o ente amado através de sua doença, à qual recorrem a fim de evitar a necessidade de expressar abertamente sua hostilidade para com ele.” (Freud, 1917)

Freud chamou a atenção para o fato de que pacientes que estejam atentando contra a própria vida muitas vezes ficam impedidos de serem tratados pela psicanálise. Um tipo de resistência que faz com que o método psicanalítico fique notadamente inadequado. Pessoas em quem o instinto de autopreservação parece ter sido invertido. “Eles parecem visar a nada mais que à autolesão e à autodestruição. É possível também que as pessoas que, de fato, terminam por cometer suicídio pertençam a esse grupo.” (Freud, 1940)
Parece haver certa tendência de grandes quantias do impulso destrutivo voltado para si mesmo. Na maioria dos casos de suicídio, o sujeito fazia uso de drogas ou álcool. Isso acaba por corroborar para que haja um acumulo de experiências emocionais e afetivas malsucedidas. Ocorre sensação de fracasso, automenosprezo e autodepreciação que chega assim que o efeito prazeroso passa. Manter-se numa situação nociva é uma forma de autopunição, conveniente para aquele que se sente culpado.

Para que o processo psicoterapêutico possa ter algum sucesso, parece ser imperiosa a necessidade de que o paciente apresente minimamente certa vontade de viver. Isso diz respeito ao nível de analisabilidade que ele possa estar manifestando. Ou seja, o quanto esse que esteja sendo, ou venha a ser atendido, possa estar disponível a se dedicar ao processo de psicoterapia. Não é necessário ser um psicanalista ou um profissional da saúde mental para se reconhecer que quando existe vontade de viver, por maiores que sejam as dificuldades, há maior chance de superação de problemas. Por outro lado, o inverso também é verdadeiro. Quando falta a vontade de viver, tudo se torna um transtorno. Um pequeno problema, ou ainda, mínima dor, se torna uma gigantesca obstrução, quando falta ao sujeito, vontade de continuar vivo.
“Os pacientes dessa espécie não podem tolerar o restabelecimento mediante o nosso tratamento e lutam contra ele com todas as suas forças. Mas temos de confessar que se trata de caso que ainda não conseguimos explicar completamente.” (Freud, 1940)

Não é função do psicanalista a de persuadir o outro de que vale a pena viver. Convencer o outro não é função do psicanalista. Na verdade, tentativas de convencimento parecem não surtir mínimo sucesso em qualquer situação que seja. Aquele que insiste em tentar convencer alguém está faltando com o respeito.
Por maior que seja o conhecimento sobre a vida do paciente, não é possível ao psicoterapeuta mensurar o peso de continuar vivendo para ele. “Penso que, na medida em que o paciente não se predispõe a ser acolhido, muito pouco ou quase nada pode ser realizado.” (MARTINO, 2018) A vontade de viver parece vir do mundo interno, não pode ser encontrada no mundo externo. Ninguém tem o poder de convencer outra pessoa de que vale a pena viver. 

É inútil a psicoterapia para quem não está disponível para isso. “Acredito que a busca precisa partir de dentro do sujeito, por meio da percepção de certa dor psíquica, e isso não pode ser feito pelo outro.” (MARTINO, 2018) Penso que o paciente só pode ser amparado no caso de perceber que necessita disso. Sendo assim, na medida em que essa necessidade é percebida e então reconhecida é por meio do pedido de ajuda que se inicia o processo de transformação. “Essa ajuda deve estar no outro que seja capaz de acolher. No amparo do outro que proporcionará acolhimento necessário.” (MARTINO, 2018) Deste modo, a ajuda do outro só pode ser possível e útil depois de certa tomada de consciência da situação.

Na realidade, raramente um sujeito que tem convicção da ideação suicida, procura e consegue manter-se num processo psicoterapêutico. No entanto, quando isso, por ventura, ocorre temos um desafio de grande porte. Nesses casos é muito importante poder contar com a capacidade no analista de perceber, reconhecer para avaliar nível de analisabilidade do paciente. Inúmeras resistências podem se erguer para o fracasso do processo, tendo em vista a tendência a se auto-sabotar. As manifestações destas resistências podem se dar desde de certa inibição, na inacessibilidade do material que carece ser tratado, até a arrogância, em ataques hostis em direção ao analista.
Como torna-se impiedosa, uma pessoa que desistiu de viver! Quando o paciente manifesta esse grau de desesperança pode ainda, convidar o analista à desejar viver por ele: “eu não quero viver, se você quer que eu viva, então você que cuide disso”. 

Portanto, é importante que o analista que esteja se propondo atender casos dessa ordem, esteja dando a devida manutenção à estrutura emocional, através de sua análise pessoal. É a partir daí que será possível se manter integrado não cedendo às inúmeras oportunidades de turbulências no decorrer do processo psicoterapêutico.
É de grande relevância, também que tenha a possibilidade de consultar um colega capacitado o suficiente para prestar-lhe supervisão do caso. Além disso, a constante cogitação sobre publicações de estudos a respeito do assunto, o que está acontecendo na ocasião da leitura e reflexão desse material ora manuseado. 


Freud, S. (1969). SOBRE A PSICOPATOLOGIA DA VIDA COTIDIANA. In S. Freud, Edição standard brasileira

das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. VI. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho

original publicado em 1901)

_______. (1969). LUTO E MELANCOLIA. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. VI. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho

original publicado em 1917)

_______. (1969). A PSICOGÊNESE DE UM CASO DE HOMOSSEXUALISMO NUMA MULHER. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. VI. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho

original publicado em 1920)

_______. (1969). ESBOÇO DE PSICANÁLISE. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. VI. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalhooriginal publicado em 1940)

MARQUES, Jessica Kemelly. ACOLHIMENTO VOL II - 1. ed. - São José do Rio Preto: Vitrine Literária Editora, 2020.

MARTINO, Renato Dias. O LIVRO DO DESAPEGO - 1. ed. - São José do Rio Preto: Vitrine Literária Editora, 2015.

MARTINO, Renato Dias. ACOLHIDA EM PSICOTERAPIA - 1. ed. São José do Rio Preto: Vitrine Literária Editora, 2018.



Prof. Renato Dias Martino