quinta-feira, 4 de agosto de 2022

DAS FUNÇÕES BÁSICAS AOS MOVIMENTOS IDEOLÓGICOS

 


A estruturação da personalidade acontece nos primeiros anos da vida. Está diretamente subordinada ao cumprimento bem sucedido da função materna, que a saber, só pode ocorrer quando resguardada pela função paterna suficientemente bem cumprida. Falhas no cumprimento bem sucedido dessas funções básicas têm inúmeros desdobramentos, sendo que na grande maioria dos casos acarretam consequências perturbadoras, turbulentas e inclusive indeléveis.

A privação da função materna pode vir a gerar formações neuróticas com desdobramentos, tanto em conversões no corpo, nas doenças psicossomáticas, quanto na obstrução de ligações e manutenção de vínculos saudáveis. Quando essa privação ocorre numa idade muito precoce, pode vir a ter implicações ainda mais graves, num modelo psicótico e até mesmo autista. No que se refere à falha da função paterna, as consequências estão diretamente ligadas a dificuldade no reconhecimento dos limites, gerando tendências à delinquência, violência e hostilidade, tanto para consigo mesmo, quanto para com o outro. A falha no cumprimento suficiente da função paterna na vida da criança, ainda pode se desdobrar em incapacidades na autonomia financeira, na autoconfiança, assim como conflitos na orientação sexual do adulto.

Outra forma de manifestação dos desdobramentos das falhas no cumprimento suficiente das funções básicas, são percebidas nos movimentos sociais de cunho ideológico, assim como proposto pelo filósofo francês Destutt de Tracy (1754 – 1836). Ou ainda como propõe Karl Marx (1818 – 1883), em seu livro A IDEOLOGIA ALEMÃ, de 1846. Para Marx, a ideologia é uma falsa consciência da realidade, que oculta a realidade. Certa percepção da realidade que toma uma parte como se fosse a totalidade.

Um discurso que dissimula a realidade, mostrando apenas aparências, ocultando a essência, já que são construídas através de percepções sensoriais do mundo externo. Ações coletivas que adotam preceitos que segregam os seres humanos em classes, separando-os por cor, raça, sexo e por aí a fora.

Movimentos sociais ideológicos são originados das dificuldades na elaboração de complexos emocionais e afetivos no âmbito pessoal. Essa dificuldade no desenvolvimento emocional tem um reflexo direto na forma como esse sujeito vê o mundo e reconhece a realidade. Aquele que tenha vivido uma grande privação e ainda assim, tenha sobrevivido, mas não tenha conseguido elaborar essa falta, pode criar a convicção de que ninguém mais no mundo precisa daquilo que lhe faltou. Quando inúmeros indivíduos que compactuam com esse tipo de ideias se unem com outros surge os movimentos sociais ideológicos.

Dificuldades que não tenham sido bem elaboradas no âmbito privado acabam por transbordarem no âmbito público. Uma grande dependência do governo e dos poderes públicos, pode se estabelecer como uma tentativa de compensar uma falha na nutrição primitiva, no vínculo com a mãe, assim como problemas com a polícia, ou mesmo com a justiça, podem derivarem de falha no reconhecimento dos limites, que é fator da função paterna. O que um dia foi o medo infantil da rejeição da mãe e depois do pai, hoje se tornou o medo da rejeição social.

Nesse domínio, esforços são efetuados numa tentativa infecunda de mudar o mundo, mas na realidade, não está sendo capaz de tolerar algo que está dentro de si mesmo. Enquanto uns procuram mudar o mundo, outros buscam aprender com o mundo, como se tornar alguém melhor.






EAGLETON, Terry. Ideologia. São Paulo: Unesp, 1997.

VINCENT, Andrew. Ideologias políticas modernas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.






Prof. Renato Dias Martino

Psicoterapeuta e Escritor




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sexta-feira, 1 de julho de 2022

UMA REFLEXÃO SOBRE A TEORIA DAS FUNÇÕES de Wilfred R. Bion


A teoria que seja proposta dentro do âmbito psicanalítico não pode se configurar de forma saturada, ou seja, não pode se prestar a trazer precisão ou exatidão. Assim como numa análise de alguma especialidade da medicina, o exame deve ser o mais exato possível. Diferente disso, a tarefa das teorias psicanalíticas é a de fornecer recursos para a nomeação de experiências que ocorrem no plano não sensorial. Portanto, carecem de modelos, para nos abordarmos o que se cogita. O modelo não é uma reprodução do que se busca, mas é uma ponte para nos aproximarmos disso. Deste modo, deve ser utilizado como analogia, num "como se fosse", guardando semelhanças e também diferenças e não de forma idêntica ao que se está propondo.
Na teoria das funções, proposta por Wilfred Bion (1897 – 1979) em APRENDENDO DA EXPERIÊNCIA, de 1962, ele traz o que mais tarde iria reconhecer como primeiro elemento de psicanálise na relação entre continente e contido. Para Bion, em 1963, na obra ELEMENTOS DE PSICANÁLISE, algumas características são condições para que um conceito (experiência) seja enquadrado como elemento de psicanálise. Deve estar a serviço da representação na formulação originalmente usada e ainda deve permitir relacioná-lo com outros elementos. Portanto, elemento é algo que pode ser combinado com outros para gerar significado. Com isso, passa a ser possível configurar um sistema interdependente para ser aplicada na experiência com a realidade. 
O primeiro elemento de psicanálise, diz respeito a relação possível entre algo que possa dispor-se como continente e outro algo que se disponha a ser contido. “Ele é uma representação de um elemento que poderia ser denominado como uma relação dinâmica entre continente e contido.”. (Bion, 1963) Essa proposta é uma expansão do pensamento de Melanie Klein (1882 — 1960), na concepção do que ela chamou de identificação projetiva (1946), um mecanismo defensivo frente às angústias esquizoparanoides. No entanto, para Bion, identificação projetiva é a forma mais primitiva de comunicação. Em APRENDENDO DA EXPERIÊNCIA, Bion propõe “função” como sendo experiência mental de certos fatores que funcionam combinados e “fator” como experiência mental que funcionando em conjunto com outros fatores, configuram uma função. Assim como na matemática, aqui também, função representa a relação entre dois conjuntos de elementos, ou ainda, a transformação de um modelo para outro.
Para Bion, a função-alfa acolhe impressões sensoriais e emoções perceptíveis, no que Bion denominou elementos-beta e as transforma em elementos-alfa, então passíveis de se integrar e corresponder aos requisitos de pensamentos oníricos, logo, podendo ser sonhados. Enquanto os elementos-betas não tem a qualidade do que poderíamos chamar de integrabilidade, os elementos-alfa são a menor manifestação do que pode ser combinado com outros, para assim, ganhar significado. Portanto, a experiência emocional só pode se configura como pensamentos oníricos, depois de elaboradas pela função-alfa. 
Immanuel Kant (1724 — 1804)
Conceituando impressões sensoriais de elementos-beta, Bion resgata a ideia do que Immanuel Kant (1724 — 1804) nomeia de noumena e que não se experimentam como fenômenos. São coisas-em-si, no que posteriormente Arthur Schopenhauer (1788 — 1860) chamaria de vontade de viver, ou simplesmente Vontade, ou ainda muito próximo do que Sigmund Freud (1856 - 1939) chamou de pulsão. Sendo assim, elementos-beta não se prestam aos pensamentos oníricos, não podendo ser sonhados ou pensados, mas podem ser usados na identificação projetiva e produzem atuações (ações impensadas). 

“Elementos-beta: Este termo representa a mais antiga matriz da qual é possível supor que os pensamentos brotam. Eles compartilham qualidades com o objeto inanimado e com o objeto psíquico, sem que haja qualquer forma de distinção entre os dois. Pensamentos são coisas, coisas são pensamentos e elas têm personalidade.” (Bion, 1963)
Elementos-beta, são em última instancia, o que há de mais primitivo no funcionamento mental. No princípio da vida, quando o bebê sente uma necessidade, como fome, frio, dores, ou qualquer que seja o desconforto, isso ocorre sem a menor capacidade de pensar o que lhe acomete, configurando-se, portanto, num medo de aniquilamento.
Sobre isso, Donald Woods Winnicott (1896 - 1971), cogita, em 1963, sobre o medo do colapso (breakdown), terror que se configura num pavor do vazio profundo. No entanto, o bebê tem uma expectativa inata do acolhimento da mãe e isso o faz buscá-la. O amor da mãe se expressa pelo fator rêverie (do francês “devaneio”). Para Bion, rêverie é estado mental aberto a receber tudo que venha do objeto amado, sendo assim, acolhe as identificações projetivas do bebê. “Em suma, rêverie é fator de função-alfa da mãe.” (Bion, 1962) Se a projeção não é aceita pela mãe, o bebê sente que o seu medo da morte é real e reintrojetará não um medo mais tolerável, mas um “terror sem nome”, a ausência de representação.
Em sua obra TRANSFORMAÇÕES, Bion levanta a questão dos elementos de transformação e as invariâncias. Bion propõe a analogia de um pintor que contempla uma certa paisagem para pintá-la. De um lado da experiência está a paisagem e do outro, a tinta na tela. A pintura representa a paisagem. Entre a contemplação da paisagem e a tela pintada existem elementos permaneceram inalterados ao ponto de ser possível reconhecer que aquela tela representa a paisagem em questão. Ainda assim, como o artista vê a paisagem e passa para tela, promove transformações. “Aos elementos responsáveis pelo aspecto inalterado da transformação, chamo invariantes.” (Bion, 1965). Dessa forma, a mãe continente, recebe a imagem do bebê desesperado e através de sua função-alfa, devolve a ele, a imagem de uma mãe acolhendo esse bebê. E ainda, o pai continente, recebe a imagem de uma mãe acolhendo um bebê desesperado e devolve a ela a imagem de um pai protege e provendo uma mãe que acolhe seu bebê. A função-alfa, que a princípio é uma capacidade da mãe, a cada experiência bem sucedida, vai sendo aprendida pelo bebê, que aos poucos se capacita para fazer a transformação de elementos-beta em elementos-alfa, por si próprio. 
Desse modo, os elementos-beta procuram um continente que seja capaz de acolhê-los. A função-alfa, acolhendo impressões sensoriais e experiências emocionais (elementos-beta) as transformam em elementos-alfa, que combinados podem formarem pensamentos oníricos. Conforme a integração de elementos-alfa e à medida em que proliferam, irão formar o que Bion chamou de barreira-de-contato. “Esta, em processo contínuo de formação, indica contato e separação entre elementos conscientes e inconscientes e inicia a diferenciação entre ambos.” (Bion, 1962). A barreira-de-contato funciona como uma membrana e sua estruturação capacita a permeabilidade de transição e a circulação dos elementos mentais entre mundo interno e mundo externo, fantasias e realidade, inconsciente e consciente, sonhando e acordado...
Por outro lado, quando falha o estabelecimento da função-alfa há uma tendência a se formar o que Bion chamou de tela beta, que diferente da barreira de contato, a tela de elementos-beta é obstrutora para a vinculação saudável entre elementos internos e externos. Enquanto a barreira de contato é composta por elementos-alfa a tela-beta é composta por elementos-beta. “Vale lembrar que esses últimos parecem carecer de uma capacidade de ligação entre si.” (Bion, 1962) Facilita a evacuação de desconfortos gerados pelas frustrações não toleradas. Um aglomerado de elementos obstrutores do reconhecimento e ligação com a realidade. “Na parte psicótica, os elementos-beta que seriam evacuados aglomeram-se dando origem à tela beta.”  (Bion, 1963) A tela-beta propicia a geração do que Bion chamou de objetos bizarros, um elemento-beta que já tem marcas do ego e também do superego. Um nódulo de elementos-beta que dificultam a fluência do pensar saudável. 


BION, W. R. O APRENDER COM A EXPERIÊNCIA. 1962 - Rio de Janeiro: Imago, 1991.
__________. ELEMENTOS DE PSICANÁLISE. 1963 (J. Salomão, trad.; E. H. Sandler e P. C. Sandler, revs.). Rio de Janeiro: Imago, 1991.
__________. (1965). TRANSFORMAÇÕES: mudança do aprendizado ao crescimento. Rio de Janeiro: Imago.
KLEIN, M. NOTAS SOBRE ALGUNS MECANISMOS ESQUIZOIDES. 1946 - In: KLEIN, Melanie. Tradução de A. Cardoso. Rio de Janeiro, RJ: Imago.
Winnicott, D. W. (1994). O MEDO DO COLAPSO. In D. W. Winnicott, Explorações psicanalíticas (J. O. de A. Abreu, Trad., pp. 70-76). Porto Alegre: Artes Médicas. (Trabalho original publicado em 1963).








quarta-feira, 1 de junho de 2022

DO QUE É POSSÍVEL ESCOLHER - Prof. Renato Dias Martino

Quando a gente fala da realidade material, nós estamos falando aqui daquilo que pode ser visto, que pode ser tocado. Realidade sensorial, aquela realidade da qual nós podemos tocar, podemos acessar pelos órgãos dos sentidos. Então, esta é a realidade material, esta é a vida material, essa é a materialidade das coisas.

Esta essa dimensão da realidade, dentro da formulação religiosa, a gente tem lá nos Vedas, por exemplo, na cultura védica, a ideia de Maya. O véu de Maya. Uma das traduções ali do sânscrito Maya, quer dizer, aquilo que pode ser medido. Então aquilo que pode ser medido, para a formulação religiosa é ilusão. Ela é simplesmente uma fragmentação do que a gente pode chamar de real. Então, essa é a disposição das escolhas do humano. O ser humano quando escolhe, escolhe a partir da realidade material porque é o que se pode obter, é o que se pode ter. É o que você tem a ilusão de obter. É uma decisão. Você está fragmentando. Quando você decide alguma coisa, você fragmenta, você tira aquilo do todo e isso é esquizoparanóide. Aí vamos buscar a psicanálise ali.
Dentro da perspectiva kleiniana da contribuição da Melanie Klein (1882 — 1960),
 o bebê divide a mãe em duas da mãe boa e a mãe ruim. E aí ele escolhe a mãe boa pra ele. Então, no nosso cotidiano, a gente precisa escolher o que é bom e o que é ruim. Porque a gente não consegue concatenar, a gente não consegue atingir, abranger, melhor dizendo, a realidade como um todo que vai muito pra além desta configuração material. Quando você está de acordo com a realidade, o caminho é um só. Qual realidade? Primeiro de todas e soberana, a realidade de si mesmo, a sua própria realidade. Quando você tá de acordo consigo mesmo, quando você está em acordo com sua limitação, com o seu limite, você começa a se conectar com o todo. Porque aí você consegue reconhecer o limite do outro também. Schopenhauer (1788 — 1860) usa a palavra “negação” da vontade. Na tradução que a gente tem ali da obra do Schopenhauer “negação” da vontade. Mas a gente usa num outro formato.
Negação pra gente aqui é ignorar. Não é negar a vontade, não é ignorar a vontade, mas simplesmente adiar a vontade. Ser capaz de adiar a vontade e renunciar dos desejos.
  Quando eu sou capaz de renunciar dos desejos e adiar a vontade, eu entro num acordo com a realidade. Qual é o remédio pra isso? O ato de fé, a esperança! E o livre arbítrio é um dom divino. Ele dá isso daí. Ele permite que você possa se apegar à realidade material. O livre arbítrio é isso, e se a escolha e se a escolha só está dentro da perspectiva da materialidade então... Por que está dentro da materialidade das coisas? Porque dentro do âmbito emocional afetivo, por exemplo, não tem escolha. Você não escolhe sentir nada. Você não decide gostar de alguém ou deixar de gostar de alguém. Você não decide amadurecer ou não. Você não decide odiar. Essas coisas não estão dentro da perspectiva da escolha ou da decisão. Aquilo existe, a gente precisa tomar consciência disso e se responsabilizar quanto a isso.  Reconhecer isso e passar a se responsabilizar por isso, cada um por si. A mudança é interna, a mudança é de cada um. A transformação é através da desobstrução do reconhecimento da realidade. Da possibilidade de renunciar, aprender a tolerar a frustração a ponto de conseguir renunciar a satisfação sensorial que a materialidade das coisas nos traz.
O cara perguntou pra Jesus Cristo: que eu preciso para ir com você, pra te seguir? Ele fala: meu amigo, larga tudo, mas não traz nem outra muda de roupa. Vem com a roupa do corpo. Por que que ele falou isso aí? Porque seguir Jesus Cristo a entrar num acordo com a realidade. É justamente essa possibilidade de se sustentar com uma imagem internalizada, não é? E com isso dispensar o real concreto. Quando eu tenho um símbolo, aquele símbolo significa um monte de outras coisas. Me lembrou aqui a raposa, lá com o principezinho. Então, olha que bacana, né? O simbólico faz com que você olhe para a realidade material para além da realidade material. A raposa não gostava de trigo, mas a partir do momento da simbolização do principezinho, os campos de trigo passaram a ter importância pra ela. Importância do quê?
De ir lá colher o trigo pra fazer farinha e comer? Não, a importância da contemplação que fazia com que ela recordasse os cabelos dourados do principezinho. Então, não é só a materialidade, é para além disso.

Se a gente está falando de religião, nós estamos falando de religar. Religar. Então, se a gente tá falando de se religar qualquer dogma que vier para fragmentar, para separar, para segregar, está sendo um desserviço dentro disso. Então, religião dentro do meu entendimento é tudo aqui que promove a ligação e a religação, que acontece porque o sujeito se desliga de si mesmo quando ele entra em contato com essa sociedade mundana que faz com que ele separe, segregue... Assim como eu comecei minha fala lá atrás: Dentro da vida cotidiana, você precisa separar, você precisa segregar... Aqui é o lugar de fulano, ali é o lugar de cicrano. A sociedade é classista. Principalmente nos dias de hoje. O grupo LGBT, não seio o que mais..., os negros, os índios, os brancos. Então, existe uma tendência de segregar, de fragmentar. E se a religião tiver a serviço disso, ela está advogando contra a sua o seu próprio fundamento. Então, quando a gente fala de formulações religiosas aqui, nós estamos nos utilizando da religião seja ela qual for. Então, de vez em quando fala da cultura védica, do budismo, do cristianismo.  Mas está aberto aí, se o sujeito tem conhecimento do candomblé, o que vier, vai vir para enriquecer e expandir e integrar. É pra isso que serve, se não for nesse serviço pra nós também não interessa.

E talvez seja desta religião que o Freud (1856 - 1939) estivesse falando ali. Talvez seja desse Deus que o homem criou e não o Deus que criou o homem. Isso é próprio do humano, não tem como sair disso. Nós estamos presos nisso. A tua casa é tua casa. Você precisa tê-la como tua casa, por mais que não seja tua. Porque, como é que você vai fazer? Você vai deixar o portão aberto, a porta aberta a noite a hora que você for dormir? É ilusão? É, mas é teu! Nós estamos presos nisso. Não tem como fugir disso. Ah! Mas a posição esquizoparanóide é uma posição é ruim, não, ela não é ruim, ela faz parte do desenvolvimento. A segregação é parte do crescimento. Mas ela te afasta da realidade. Assim, e se você for perceber em toda configuração existe uma segregação dentro da perspectiva do princípio e uma integração na perspectiva da expansão do crescimento, do ir para além. A própria Bíblia, por exemplo, o antigo, o velho testamento é fragmentário, é esquizoparanóide. É segregador. E aí Jesus Cristo veio, no novo testamento para agregar. O próprio Bion, traz a ideia do ato de fé como o principal norteador do psicanalista que abre mão da sua memória, do seu desejo e da ânsia de compreensão. Qual é a importância disso na prática clínica. Qual é a importância dessa coisa da renúncia, ou da não escolha. Ou do reconhecimento de que nós não escolhemos porcaria alguma. Já que Freud nos mostrou aí que o ego não é dono da sua própria casa. Lá em 1917, em UMA DIFICULDADE NO CAMINHO DA PSICANÁLISE, ele é muito claro quanto a isso. Não é o ego que escolhe. O ego pode no máximo se responsabilizar pela escolha.  Mas escolher é uma faculdade do id e também do superego. Nós estamos no meio dessas duas instâncias aí. Então, como é a intervenção do analista em relação ao seu paciente, a partir dessa nossa reflexão? O uso da ideia de escolha dentro da sessão psicanalítica precisa ser sempre questionado. Porque, quando o paciente tem a convicção a definição de que ele escolheu alguma coisa, ele entrega isso ao seu “deveria ser”, ele entrega isso ao seu superego. Então, se você escolheu isso e se isso e por acaso teve um insucesso, então você é o culpado por isso. Não! Não foi você que escolheu! Você foi em direção daquilo que você dava conta naquele momento. Então você não pode ser condenado por isso. Porque, a grande questão da nossa clínica é justamente isso: não é o fato que o paciente traz. Mas é a exigência, a cobrança, a condenação, que o paciente cria a partir daquele fato que ele traz. É esse o grande dano! Quando você desobstrui esse caminho, o paciente começa a se responsabilizar por aquilo. Não! Eu fiz isso porque é aquilo que eu dei conta de fazer naquele momento. Então, não tem escolha. Então, não foi você que decidiu, meu amigo! E isso pra gente também. Você decidiu, você escolheu o que dizer pro seu paciente? Não, meu amigo. Não tem isso. Se você tiver dentro do teu tripé. Muito bem, meu amigo. Porque, aí você está mais responsável disso tudo. Então, se a gente ainda tiver a crença de que a gente pode escolher, de que a gente pode decidir, então acabou... Então a nossa psicanálise é superegóica. É daquilo que você deveria ser, então a gente tem um critério de “certo ou errado” que a gente vai ter que correr atrás, quando na verdade não é isso. Quando na verdade o que depende é o nosso nível de estar iludido ou estar de acordo com a realidade. E quanto a isso, não tem escolha. Isso depende do dia, depende da forma, depende da configuração do teu background do teu tripé. Do quanto você está podendo contar com a tua análise pessoal, com uma supervisão bem sucedida, com encontros riquíssimos, como esse dessa noite. Então, não tem escolha. Não tem decisão! Vou mais longe. Ah! A decisão só pode acontecer dentro do âmbito material. Mas, será? Vamos ir um pouquinho além? Será que você escolheu a roupa que você está usando agora? Será que você realmente escolheu essa roupa que você está usando hoje? Ou foi uma série de questões, uma série de configurações, de contingências, que te levaram a pegar esta roupa pra colocar hoje? E aí, a gente enche o papo, dizendo assim: eu escolhi! Você escolheu? O que você escolheu?







domingo, 1 de maio de 2022

DO ACORDO COM A REALIDADE

 


Realidade é talvez o termo mais abstrato que se possa encontrar. Isso gera a impressão de que cada sujeito tem sua realidade, sendo que a realidade de um sujeito não é a mesma realidade do outro. No entanto, esse é mais um atalho, tão confortável quanto ilusório, dentre outros, utilizado pelo conhecimento humano, nas tentativas de ampliação do que é possível saber. A realidade é uma só, o que muda e a capacidade de cada um em reconhecê-la.

O que chamamos de realidade, na verdade, é apenas uma aproximação. O que podemos ter da realidade parece ser, no máximo, um contato eventual e isso dependerá do grau de disponibilidade na tolerância aos desconfortos que essa experiência deve gerar. Não me parece possível ter um discernimento integral, ou ainda, não acredito que seja possível à alguém estar o tempo todo em contato com a realidade. Grande parte do tempo estamos nos guiando por aquilo que aprendemos, situamos como caminho preestabelecido e que não necessariamente enquadra-se na realidade. Isso quando não estamos orientando-nos por ilusões, das quais acreditamos ser realidade.


A realidade não pode ser apreendida pelo aparelho cognitivo. Não se pode conhecer a realidade, ainda que se possa reconhecer e diferenciar aquilo que é real, no que é verdadeiro, daquilo que é falso e esteja sendo mantido pelas ilusões. No entanto, isso depende muito mais da maturidade emocional, na capacidade de tolera frustrações, do que da habilidade intelectual, que se refere ao “saber sobre”. Esse exercício se refere a capacidade de percepção e reconhecimento daquilo que não podemos controlar.

Se o saber não pode dar conta do reconhecimento da realidade, logo, isso não pode ser feito através de dados armazenados na memória. Aquilo que se pode lembrar sobre o passado, não condiz com a realidade que, por sua vez, se manifesta no tempo presente. Sendo assim, da mesma maneira, aquilo que se pode desejar, nas expectativas de futuro, também não coincide com a realidade.

A realidade só pode ser reconhecida na ocasião da falta. O amor é um bom exemplo disso. Se aprende a amar realmente, na ausência do objeto a ser amado. Além do mais, não é possível saber o que é realmente amor, mas o que não é amor fica evidente à aquele que realmente ama a si mesmo. Um relacionamento verdadeiro é aquele que permanece mesmo nas faltas.

Na verdade, o que parece realmente possível ter com a realidade é um acordo e isso se dá no nível emocional/afetivo. A palavra “acordo” tem origem no Latim, accordare, variação do verbo concordare, na junção do prefixo ad, “a, para”, mais cor, “coração”. Sendo assim, a verdade só pode se manifestar através da configuração de um clima de concórdia. O acordo que se possa estabelecer com a realidade só pode ocorrer por meio de renúncias e isso requer tolerância às frustrações.

O primeiro contato que se tem com a realidade é sempre doloroso, perturbador, gerador de desconforto e estranhamento. Muitas vezes, esse contato ocorre por conta de alguma situação de extrema adversidade, já que antes disso acontecer, nada parece levar o sujeito ao reconhecimento da realidade. Ainda assim, depois de se viver experiências catastróficas, abre-se a possibilidade de expansões de proporções nunca antes experimentadas. A realidade, que num primeiro momento pode parecer dura, quando se está sendo capaz de se firmar um acordo com ela, passa a ser a maior aliada no fluxo da vida.


O reconhecimento da realidade só acontece quando já se esgotaram todos os recursos que pudessem manter as ilusões. Evitamos o reconhecimento da realidade, pois a partir de então nos tornamos conscientes da nossa real fragilidade e isso revela nossa verdadeira vulnerabilidade frente ao mundo. Quando passamos a perceber e reconhecer a realidade, isso nos leva a respeitá-la, assim como ela é e isso faz manifestar nossa vã tentativa de controlar, seja lá o que for. A partir do reconhecimento da realidade passamos a nos tornar responsáveis por ela.

Quando se está em acordo com a realidade não existe escolha, já que ela está configurada independente das nossas expectativas. Quando entramos num acordo com a realidade percebemos que o caminho verdadeiro é um só e os outros somente se dispõem enquanto estamos iludidos.







Prof. Renato Dias Martino

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