sexta-feira, 6 de março de 2026

TOLERÂNCIA E TRANSCENDÊNCIA FÍSICA - Do Corpo que Tenho ao Corpo que Estou - Prof. Renato Dias Martino

 



Então, nós vamos falar aí da relação da tolerância e da configuração do corpo físico, da parte do sujeito que está configurada na materialidade das coisas, naquilo que é possível constatar com os órgãos dos sentidos, aquilo que eu posso ver, aquilo que eu posso cheirar, aquilo que eu posso ouvir, aquilo que eu posso tocar, aquilo que eu posso ouvir. a relação da tolerância com esta instância material da existência.


CAPACIDADE SIMBÓLICA


A simbolização, a capacidade simbólica do sujeito é o que determina a saúde mental desse sujeito. E aí entra um grande equívoco na linguagem popular. Normalmente se atribui ao ego uma característica extremamente narcisista, extremamente nociva. O sujeito que tem um ego proeminente é um sujeito nocivo, quando na realidade é o contrário. O ego é a instância fundamental para que o sujeito seja capaz de renunciar das coisas. Um sujeito que não tem um ego estruturado é um sujeito que não é capaz de renunciar, não é capaz de se dedicar ao outro. O sujeito só pode ser capaz de se dedicar ao outro se ele tiver um ego bem nutrido e bem estruturado.


ESTOU SENDO


No entanto, se o ego estiver desnutrido, eu não estou sendo. Eu estou sendo guiado pelo deveria ser, porque o meu ego está desnutrido. E aí já não é mais o ego que está me guiando, é o meu superego, que é o deveria ser. Para que eu possa estar sendo, eu preciso estar com o meu ego bem estruturado e bem nutrido. E o ego só pode estar bem nutrido através da capacidade de simbolização. E a capacidade de simbolização só pode ser desenvolvida através de vínculos saudáveis com o outro.


DESEMPENHO DO ESTAR SENDO


Quando eu estou desnutrido no meu ego, eu não consigo confiar naquilo que eu estou sendo. Logo, não desempenho aquilo que estou sendo, porque o que está me guiando é o que eu deveria ser. A minha atitude hoje não é passiva da minha confiança. Então tudo que eu faço, eu questiono, eu critico, eu olho para aquilo como algo que eu não deveria ter feito e eu deveria ter feito de outro jeito. Eu deveria fazer de outra forma, eu deveria ser outra coisa, porque aquilo que eu estou sendo não é aprovado por mim mesmo. Logo, eu não estou sendo. Eu deveria ser. Tudo que eu estou sendo é invalidado em nome de algo que eu deveria ter sido.


ESTAR SENDO E AMOR-PRÓPRIO


O estar sendo não pode estar subordinado aquilo que eu gosto. Não pode estar subordinado àquilo que me agrada, porque aquilo que eu estou sendo dificilmente me agrada. Ainda assim, o amor-próprio é confiar em si mesmo, respeitar a si mesmo, amar a si mesmo, independente de não estar sendo aquilo que eu gostaria de ser, porque eu estou sendo aquilo que eu dou conta de ser. E o estar sendo tem muito mais a ver com dar conta, com ser capaz de do que agradar a si mesmo.


COM-FUSÃO


Quando existe a dificuldade de simbolização, acontece a confusão com o outro. O sujeito se funde ao outro. O sujeito não é capaz de reconhecer o limite entre ele e o outro. ele passa a ser uma extensão do outro ou ele passa a obrigar que o outro seja uma extensão dele. E esse tipo de relação é justamente a relação que vai ter o desdobramento da melancolia quando houver a perda de uma das partes.


SIMBOLIZAÇÃO DO VÍNCULO


A simbolização é algo que acontece a partir da tolerância. O sujeito que desenvolve a tolerância, ele é mais capaz de simbolizar e quanto mais ele simbolizar, mais tolerante ele se torna. É muito interessante isso. A simbolização é a internalização de uma experiência, a internalização de um vínculo. Quando a gente fala de simbolização, nós estamos falando acima de tudo da simbolização da experiência, do vínculo e do objeto juntos. Quando o bebê simboliza a mãe, ele não simboliza só a mãe, ele simboliza as experiências que ele teve com essa mãe no vínculo. Ele simboliza a história dele com essa mãe, não é simplesmente a mãe.


O SEIO


Quando em psicanálise a gente fala de seio, a gente não está falando daquele órgão que está na mulher. Nós estamos falando de uma experiência enorme, complexa. Seio não é simplesmente um órgão do corpo físico, mas é uma experiência. A simbolização do seio não é simplesmente simbolizar uma parte do corpo da mãe, mas é simbolizar toda uma experiência que ocorreu desde o nascimento. Uma experiência de nutrição, uma experiência de acolhimento, uma experiência de relação com a mãe num vínculo saudável. Então, seio não é simplesmente uma parte do corpo da mãe, mas é uma experiência complexa que vai ser simbolizada pelo bebê.


SIMBOLIZAÇÃO E MODELO


Todas as outras simbolizações que a gente vai tendo no desdobramento da nossa vida, inclusive na vida adulta, são evoluções, expansões da simbolização que a gente teve em relação à nossa mãe, ao vínculo com a mãe. são características que vão se desdobrando em outras relações que vão seguir este mesmo modelo de simbolização. Esta simbolização não vai acontecer naquilo que contemporaneamente aprendemos a chamar de tempo de qualidade. Não. A simbolização vai acontecer quando tudo estiver propício para isso. Este momento propício não vai escolher o tempo de qualidade para acontecer. Então, a mãe precisa estar com esta criança tempo integral para que ela possa viver e aproveitar dos momentos para a simbolização.


SIMBOLIZAÇÃO E O MOVIMENTO ESPIRALADO


Quando a gente fala da espiral, nós estamos falando que a vida é configurada por ciclos que a cada volta vão se alargando e se estendendo num eixo. Cada volta para que seja bem-sucedida, ela carece impreterivelmente de uma simbolização. Cada volta da espiral equivale a uma simbolização.


SÍMBOLO E ELEMENTO ALFA


Qual é a diferença do símbolo e do elemento alfa? Que que é o elemento alfa? É a transformação de um elemento bruto que brota do bebê e é projetado na mãe. A mãe, através da função alfa, transforma este elemento bruto, que seria o elemento beta, em elemento alfa, e devolve para o bebê. A partir dessa possibilidade de receber esse elemento alfa, abre-se a possibilidade da simbolização. Então, o elemento alfa precede a simbolização. Sem a função alfa não abre-se a possibilidade da simbolização. A simbolização é um complexo de elementos alfa. São vários elementos alfa que vão se juntando. Aliás, o elemento alfa tem esta característica que o elemento beta não tem, de se agregar um ao outro, de se ligar a um ao outro. E a partir daí vai se criando a possibilidade da simbolização. A simbolização é mais complexa do que a função alfa.


ELABORAÇÃO E SIMBOLIZAÇÃO


A elaboração é um elemento da reparação. Quando eu elaboro, eu estou reparando. Elaborar não é reparar, mas elaborar é um elemento da reparação. Quando eu estou elaborando alguma coisa, eu estou trabalhando esta coisa para que esta coisa possa ser reparada. Elaborar um vínculo é prepará-lo para que ele possa ser reparado no dano que possa ter acontecido, na falha que possa ter acontecido. E esta falha aconteceu justamente na simbolização. Então, a elaboração prepara para a reparação da simbolização. Então, muitas vezes o paciente chega com um problema que vai ser elaborado para reparar uma simbolização que não foi feita adequadamente.


SIMBOLIZAÇÃO E LUTO


A simbolização está diretamente ligada ao processo do luto. Cada elemento do mundo que você perde, cada objeto amado que você perde no mundo, você precisa ter simbolizado isso para viver o luto. Então, a vida toda é baseada numa constante simbolização, porque a vida é perder. Amadurecer é aprender a perder. E se amadurecer é aprender a perder, a simbolização é o que fundamenta a maturidade. Logo, a possibilidade de viver os processos do luto. 


SIMBOLIZAÇÃO E TOLERÂNCIA


Nós temos uma parte do eu que é material e pode ser confirmada com os órgãos dos sentidos e uma parte do eu que não pode ser confirmada pelos órgãos dos sentidos. Se eu não for capaz de simbolizar esta parte que não pode ser confirmada com os órgãos dos sentidos, simplesmente não existe, porque a simbolização depende da capacidade de se relacionar com aquilo que não pode ser confirmado pelos órgãos dos sentidos, que é justamente a questão do sujeito que tem a predominância psicótica da mente. Ele não acredita que ele exista. Ele é uma alucinação. E se ele for uma alucinação, todo o resto do mundo também o é.


PARA ALÉM DO CORPO FÍSICO

duas formas de se reconhecer a existência do sujeito. O sujeito que é um corpo e que tem algo para além desse corpo. E o sujeito que é este algo que está para além do corpo e este algo está no corpo. Não vou definir agora o que que é este porque é algo muito maior, é alguma coisa que transcende a possibilidade do conhecimento, já que não está dentro da perspectiva sensorial. Não estando dentro da perspectiva sensorial, não pode ser conhecido. Então, todas as vezes que você ouve um sujeito dizer assim: "O psicanalista é um conhecedor da alma humana". Não, este é um grande equívoco, porque a alma não pode ser conhecida


DO QUE FOI SIMBOLIZADO


O símbolo não é algo adquirido. O sujeito não simboliza e passa a ter esta simbolização como algo que foi adquirido e é dele. Não. Este símbolo precisa ser constantemente nutrido. nutrido de reencontros, muitas vezes reencontros internos. Muitas vezes o sujeito se reencontra internamente com aquilo que foi simbolizado, mas na realidade o sujeito simboliza o vínculo com o objeto. E aqui falamos objeto tendo como objeto o outro. Ele simboliza o vínculo que ele tem com o outro, não é o outro. Isso é um salto.


O APARATO FISIOLÓGICO


Nós não podemos excluir as falhas que possam acontecer no corpo físico, no aparato fisiológico do sujeito, mas na realidade a maior parte do que a gente chama de déficit de atenção tem a ver com uma impossibilidade de simbolização da mãe, da capacidade de estabelecer um vínculo e simbolizar este vínculo com a mãe. este vínculo que vai servir de modelo para todas as outras simbolizações que vão acontecer e que vão trazer para esse sujeito uma integração necessária para que ele possa ter um bom funcionamento num primeiro momento emocional e que se desdobrará no funcionamento cognitivo, logo na possibilidade de atenção das tarefas que ele possa vir a fazer


DIFICULDADE DE SIMBOLIZAÇÃO


Todas as vezes que eu perceber uma compunção na confirmação sensorial do mundo material, que aí acaba sendo até um pleonasmo, o mundo material só pode ser confirmado com os órgãos dos sentidos, eu estou frente a uma possível dificuldade de simbolização. Quando há simbolização, quando há a capacidade simbólica, a confirmação compulsiva do mundo material diminui. O corpo físico quando precisa ser confirmado o tempo todo, quando eu preciso estar ali o tempo inteiro, ã, novamente olhando e revisitando e confirmando, eu estou ali possivelmente frente a uma dificuldade de simbolizar o vínculo do eu para com o meu eu físico material.


ATRAÇÃO


O sujeito quando se reduz ao corpo físico, ele acaba atraindo pessoas materialistas. Ele acredita que o corpo físico é algo que tem uma importância muito grande e ele vai se aproximar e atrair pessoas que valorizam o corpo físico em detrimento de reconhecer que nós somos muito mais do que simplesmente um corpo físico. E é interessante que esse mesmo sujeito que valoriza o corpo físico exacerbadamente, que atrairá pessoas que também o fazem, depois vão se queixar de serem usadas como um objeto, assim como se faz com um corpo físico.


LEI DA ATRAÇÃO


Como é que seria essa coisa da lei da atração dentro da psicanálise, dentro da visão da psicanálise? Nós tendemos a reconhecer no mundo somente aquilo que foi internalizado. Então, nós procuramos no mundo confirmações daquilo que nós já temos. E aí a gente vai chamar isso de saturação. O nosso aparelho sensorial está saturado e tende a buscar repetições daquilo que já está internalizado. E aí o que acontece é que aquilo que a gente chama de realidade, na verdade são representações do que a gente pôde ter desta realidade. Logo, vamos atrair ou vamos nos aproximar daquilo que está no mundo interno. Não vamos conseguir nos atrair ou nos aproximar de algo que ainda não temos internalizado.


ALGORITMO


Nós temos hoje uma coisa chamado algoritmo nas redes sociais que exemplifica muito essa coisa da lei da atração. Quanto mais você se interessa por alguma coisa, mais aquela coisa vai aparecer na sua linha do tempo das redes sociais. E isso é um modelo de lei da atração. Foi você que buscou aquilo a princípio e aquilo começa a vir com abundância. E aí o sujeito começa a olhar aquilo com tanta frequência que ele começa a se irritar. E aí ele diz assim: "Eu vou abandonar as redes sociais". Mas meu amigo, foi você que buscou isso?


REPETIR


O sujeito se queixa de ver novamente a mesma coisa, ver aquilo de novo e eu vi aquilo de novo. Não aguento mais ver aquilo de novo. Mas na verdade o que você não aguenta é ver o novo. Você não dá conta de se abrir para ver que existe muito mais coisas do que aquilo que você está vendo. ou melhor, existem outros vértices daquilo que você está vendo para que você possa reconhecer. Mas o sujeito está fechado. Ele continua olhando para as coisas de um único vértice. Ele não consegue expandir o mínimo possível da consciência em relação às coisas. E aí parece sempre repetitivo mesmo.


PENSAMENTOS


O B propõe que nós somos pensamentos em busca de pensador. Então, nós não somos pensadores. O que está falando aqui são pensamentos que o pensador está pensando. Então, nós não somos o aparelho de televisão. Nós somos um sinal que o aparelho de televisão está transmitindo. Porque senão a gente começa a acreditar que a televisão é que está produzindo os programas. Não, não é a televisão que está produzindo os programas. Se você desligar a televisão, os programas vão continuar acontecendo. Assim, da mesma forma, somos nós.


SIMBOLIZAÇÃO E RENÚNCIA


A simbolização requer desapego, requer renúncia. Ser capaz de simbolizar é um sinal de que você foi capaz de renunciar, de se desapegar. Símbolo é juntar. E você só vai conseguir juntar se for capaz de renunciar. Renunciar do quê? do real material, do real concreto, da materialidade das coisas, da coisificação do mundo. Agora, a diabolização, que é o contrário da simbolização, é a separação, é a divisão. E a divisão pressupõe apego à materialidade, pressupõe a satisfação imediata, pressupõe o afastamento dos desconfortos e das frustrações.


LEMBRANÇA E RECORDAÇÃO


Lembrança é uma coisa, recordação é outra. O sujeito que é apegado às lembranças é porque ele não conseguiu simbolizar. Mas o sujeito que simbolizou, ele vai frequentemente ser inundado de recordações. A recordação é uma lembrança afetiva, saudável. É recordar. Re novo cor que é coração e dar que é doar. doar novamente ao coração. A recordação vem como um resgate, uma forma de revisitar o passado de maneira afetiva e saudável. E nisso eu posso ali reparar alguma falha no vínculo que eu estou recordando. Eu posso resgatar um modelo para que eu possa me utilizar no tempo presente, que é diferente da lembrança. A lembrança é sempre alguma coisa que eu preciso ir lá e puxar, ir lá e buscar. A recordação não se busca, ela vem.


LEMBRANÇAS E O PRESENTE


O sujeito que fica resgatando lembranças, fica buscando lembranças, é porque ele não está dando conta de viver o presente. O passado vem como uma tentativa de apaziguar a ansiedade e as angústias que estão ocorrendo em relação ao que ele está vivendo no presente. Quando o presente começa a ser um ambiente de tempo e espaço saudável, as lembranças vão sendo abandonadas, porque o presente está suprindo tudo aquilo que meu aparato emocional carece. 


RESGATE DA MEMÓRIA


A lembrança é quando o sujeito, por exemplo, está num relacionamento tóxico, preso num relacionamento tóxico, que não acredita que é capaz de se libertar daquilo e ela fica buscando lembranças do relacionamento anterior que ela teve ou sonhando com o próximo relacionamento que ela possa ter. lembrança e expectativa, memória e desejo, porque o presente não está sendo saudável. Mas a recordação é diferente. A recordação é quando num tempo presente você se pega recordando de um momento, de uma experiência agradável que você teve com uma pessoa amada que já não está mais no tempo presente. Essa experiência com essa pessoa pode te sugerir modelos afetivos para que você possa usar hoje.


OBESIDADE


A questão da obesidade é complexa porque inúmeros fatores podem desencadear um processo de ganho de peso exacerbado. Não podemos atribuir somente a uma disfunção ou alguma falha no funcionamento emocional à obesidade. É claro que algumas falhas no processo de simbolização ou em qualquer outro processo que possa acontecer dentro do âmbito emocional pode vir a desdobrar-se num processo de obesidade. Mas nem todo o processo de obesidade tem a ver com o funcionamento emocional. É muito importante que a gente possa ter essa clareza.


COMPULSÃO ALIMENTAR


numa possibilidade de ganho de peso, fora do natural, fora do saudável, que esteja ligada ao processo emocional, a gente poderia levantar algumas hipóteses. A dificuldade de simbolização do seio pode vir a desencadear um processo de obesidade na medida em que a criança não consiga se alimentar de maneira adequada e acabe atribuindo ao seio algo que não é o seio real. É como se ela estivesse o tempo todo buscando um seio que nunca consegue encontrar. Muito provavelmente cada angústia, cada ansiedade vai ser associada à alimentação. E nesse caso pode vir a se desenvolver um quadro de obesidade. aquilo que normalmente seria uma nutrição afetiva, não consegue sair da nutrição material ou concreta do leite, do alimento do corpo para o alimento da alma, por assim dizer, e fica preso à materialidade das coisas. Então fica uma busca perene de algo que está no corpo, mas na realidade o que está empobrecido ou o que está desnutrido é o aparelho psíquico. É uma desnutrição afetiva.


PRAZER ALIMENTAR


Eu me lembro aqui de uma paciente, há muito tempo atrás, que tinha uma expressão que era jocosa, mas na realidade acontecia de verdade. Ela dizia assim: "Aí eu fiquei nervosa e eu comi só de nervoso". Então cada vez que ela se irritava, cada vez que ela perdia a paciência, ela recorria à satisfação gastronômica, por assim dizer, né? comia exacerbadamente como uma tentativa de apaziguar a sua tensão nervosa. Então, muito provavelmente o que acontecia aí é uma dificuldade de simbolizar o seio da mãe que viria para apaziguar não só com o leite, mas com o afeto da mãe também. E quando essa relação é bem-sucedida, nutre as partes e a simbolização pode acontecer.


RECOMPENSA


Se você comer, você vai ganhar uma recompensa. Essa é uma inadequação na criação dos filhos que pode trazer desdobramentos terríveis, extremamente nocivos, não só com alimentação, mas com qualquer coisa que seja da necessidade de ser feito. Qualquer experiência, qualquer tarefa que seja da necessidade de ser realizada, não deve se oferecer recompensa. Aquela tarefa deve se completar nela mesma. O se alimentar se completa em si mesmo. Oferecer uma recompensa para criança tomar banho é um grande absurdo, porque o banho deve se completar em si mesmo ou estudar ou qualquer outra coisa.


MECANISMO DE DEFESA


Quando o sujeito passa a apresentar algum comportamento inadequado, que que eu estou chamando de inadequado, que foge a naturalidade, que foge a esfera do saudável. Este comportamento é uma manifestação de uma defesa. Ele está se defendendo de algum sentimento que ele não está conseguindo tolerar. Então ele cria uma forma comportamental de agir inadequadamente para se defender esta ordem de sentimentos. Sempre que a gente for olhar para algum comportamento do paciente, a gente precisa respeitar aquilo, porque por trás daquilo tem alguma coisa que precisa ser cuidada. Quando a gente tenta cuidar do comportamento, a gente acaba fechando os olhos para o funcionamento que está inadequado e gerando comportamento.




terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

PSICANÁLISE, FÍSICA QUÂNTICA E AS INCERTEZAS - Prof. Renato Dias Martino

 


Existem inúmeros fatores, dentro da ciência quântica, da física quântica, que concordam com a ciência psicanalítica. E aí, um nome extremamente importante dentro da física quântica é o Werner Heisenberg (1901 — 1976), que ele vai trazer a possibilidade de a gente perceber as coisas com um vértice do princípio da incerteza. Ele percebeu que, quando ele estudava uma partícula quântica. Ou seja, a menor partícula que se pode estudar, que se pode conhecer, ele precisava jogar um foco de luz nesta partícula, para que ele pudesse estudar. Sem luz não tem como você visualizar esta coisa, mas quando ele jogava esse foco de luz nessa partícula, a luz trabalha através de partículas de fóton, essas partículas ao baterem nesta partícula que se tentava ser estudada interferia na possibilidade de estudo. Não tinha como ter uma certeza daquilo, porque todas as vezes que se iluminava isso, isso sofria uma mudança. É claro que não só a partir disso, mas um estudo muito maior, que eu estou tentando sintetizar de uma maneira extremamente grosseira aqui, mas não se pode ter uma precisão de uma partícula quântica por conta da luminosidade que é necessária para estudar, e aí, na psicanálise, isso surge como uma dádiva, porque não é a função do psicanalista, jogar luz no material que o paciente traz. 

A nossa função é justamente o contrário. Nós precisamos trazer a possibilidade de um foco de escuridão, nós precisamos apagar as luzes, para que o paciente possa se iluminar por si só. Não é função do analista iluminar alguma coisa, é função do psicanalista propicia é um ambiente de silêncio e de escuridão, para que o paciente possa iluminar-se por si só, iluminar as suas ideias. A luz não vem do analista, a luz vem do interior do paciente. 

Assim como um físico quântico, o psicanalista precisa, sempre abrir sua atenção, incluindo a possibilidade da incerteza. O Wilfred Ruprecht Bion (1897 - 1979), vai chamar isso daí de “capacidade negativa”, da possibilidade de viver uma incerteza, ou de não se convencer com um saber antecipado. Estar sempre aberto a algo que possa surgir, algo que possa estar ali, que ainda não tenha sido notado. 

O paciente chega na clínica sofrendo da certeza. Ele tem uma certeza e aquela certeza começa a conduzir a vida dele ao ponto de obstruir o fluxo na sua vida. Porque a vida incerta, porque a vida não tem uma saturação, porque a vida é transformação, porque a vida são possibilidades. Nos julgamos definidos, porém somos possibilidades. 

A física quântica contribui dentro nessa perspectiva para as formulações psicanalíticas, quando a gente é capaz de tolerar a incerteza, nós desobstruímos o fluxo da vida e permitimos que as coisas comecem a acontecer a partir das possibilidades. Esta certeza, que o paciente chega trazendo é colocada lá pela Melanie Klein (1882 — 1960) como um mecanismo de defesa da posição esquizoparanóide, naquela posição em que o sujeito cinde a realidade em bom e ruim. Este mecanismo de defesa, é o mecanismo de defesa da onisciência. Então, ele já sabe tudo e a partir do processo psicanalítico, ele vai dissolvendo isso. Ele vai percebendo, porque ele não sabe nada, que ele é um grande ignorante, como todos nós somos, mas aí ele passa a ter consciência desta ignorância e isso é libertador. 

Grande parte dos pacientes, sofrem justamente disso, de ter que saber. Nós vemos aí, sujeitos aí, propondo a física quântica como alguma coisa mágica, que faz com que você consiga tudo que você deseja, que é só você ficar pensando assim, ou assado, te dando ali tarefas ou exercício para que você... Não, a física quântica não é nada disso. Isso aí é um mau uso do que a gente chama de física quântica. Assim como nós temos inúmeros ditos psicanalistas, ou supostos psicanalistas usando a psicanálise no mesmo propósito, prometendo coisas ao outro, prometendo processos mágicos de conseguir o que o outro deseja. 

Não, não é nada disso! Tanto a física, quanto a psicanálise tem um pressuposto muito claro de tolerar a dúvida, tolerar a incerteza, ser capaz de tolerar o desconforto da sua própria ignorância. É justamente isso, ser capaz de renunciar ao desejo do que você gostaria que fosse para que você possa reconhecer a realidade, assim como ela é, e não como você gostaria que ela fosse. O psicanalista lida com o inconsciente. Se existe um conceito, um termo que baliza, ou que, na realidade fundamenta toda psicanálise, este conceito é o inconsciente. 

Se nós estamos falando de inconsciente, dentro da perspectiva psicoterapêutica, nós estamos falando de psicanálise. A descoberta do inconsciente foi a maior descoberta de Sigmund Freud (1856 - 1939), sem sombra de dúvida. Então, se o psicanalista lida com inconsciente, ele não pode lidar com o saber, porque o inconsciente não está disponível ao saber. Pode, na melhor hipótese, ser reconhecido, que diz respeito a admitir que existe e não saber sobre. Quando a gente está falando de psicanálise, quando a gente está falando de física quântica, quando a gente está falando de formulações religiosas, a gente está falando de ser capaz de tolerar a dúvida e não estar focado em um resultado pré-estabelecido. 

De ser capaz de tolerar o fluxo incerto da vida e não buscar a realização de um desejo. Então, tanto o crente que está lá na igreja tentando buscar com aquela estada ali, com aquele contato que ele tem com Deus, um benefício com isso, conseguir o seu lugarzinho no céu. O quanto o paciente que busca psicanálise buscando conseguir aquilo que ele tanto quer, ou realização do seu desejo. Quando os cientistas, que começa a estudar, não por uma descoberta científica, mas confirmar aquilo que ele já sabia, que ele supostamente já sabia. Todos estão equivocados! Um sujeito que não tem uma filosofia nobre, ele vai usar essa psicanálise para um mau propósito. 

Em todas as áreas, desde a medicina, passando pela psicanálise, passando pela ciência quântica, passando pela política, passando pela religião, passando por todas as os vértices aí, do conhecimento humano, nós temos esta configuração. Uma filosofia de péssima qualidade, conduz esse pensamento para o mal propósito.




sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

O ÉDIPO E O SUPEREU - Prof. Renato Dias Martino


Quando a gente fala de Édipo, normalmente a gente tem a ideia de que existe ali, uma triangulação onde duas figuras estão unidas e vem uma terceira para cortar esta relação. Esta colocação é extremamente inadequada. 

CORTE, TRANSFORMAÇÃO E ENRIQUECIMENTO 

A entrada do pai não promove corte algum, ele vai promover um enriquecimento, ele vai vir para trazer uma possibilidade de influência para que esta relação, entre o filho e a mãe possa se enriquecer, possa se transformar. É um ponto de transformação e não de corte. Os lacanianos se apossaram dessa palavra corte, castração e trazem uma um empobrecimento na possibilidade de associação do que se tem como teoria, na prática. A entrada do pai é um fator enriquecedor, que vai possibilitar a desobstrução da relação filho e mãe, para que esta relação possa se transformar em algo adequado. Então, quando a gente está falando de triângulo edípico, nós estamos falando de uma configuração que vem para trazer uma possibilidade de transformação e não de ruptura. O vínculo entre mãe e filho se enriquece com a entrada do pai.

NOVA DIMENSÃO E ADEQUAÇÃO

Todas as configurações triangulares que o sujeito virá experimentar no futuro, vão estar de alguma forma subordinadas à elaboração daquilo que o Freud chamou de complexo de Édipo. O Freud trouxe o mito de Édipo, mas você não precisa do mito de Édipo para que você possa entender a configuração triangular. O próprio triângulo, a própria geometria já é o suficiente para que você possa perceber aí, dois pontos e um terceiro ponto que promove, não um corte, mas uma nova dimensão para esta configuração. O ponto não corta, ele traz uma nova configuração. A entrada da função paterna precisa ser algo enriquecedor para relação. Ele traz a possibilidade de enriquecer o relacionamento que o filho tem com a mãe. Ele traz a possibilidade de se esclarecer as possibilidades vinculares entre filho e mãe. A função paterna real e saudável é aquela que traz a possibilidade de adequação da relação filho e mãe.


PARA KLEIN


Irá ganhar uma nova configuração por conta da função paterna que passa a integrar o mundo emocional-afetivo da criança. Para Melanie Klein, o complexo de Édipo já existia dentro daquilo que ela chamou de um Édipo arcaico, de um proto-superego, por assim dizer. Um período pré-edipico que na fase fálica vai tomar uma configuração exteriorizada, por assim dizer. Como é que se dá esta configuração pré-edipico, no que a gente vai chamar de superego arcaico, dentro da configuração kleiniana? Melanie Klein, dentro daquilo que ela chamou de posição esquizoparanóide, divide o bebê. Vai dividir a realidade em duas, cindindo essa realidade em dois. Uma parte é benevolente, uma parte vem para satisfazer e a outra parte está ligada à privação e é um seio persecutório. Então, seio bom e seio mau. O seio bom é aquele que vem e satisfaz e o seio mau é aquele seio que priva da satisfação. Por mais que o sujeito esteja desfrutando do seio bom, ele está o tempo todo com medo da perseguição do seio mau. Então, se a gente está falando de sei o bom e sei o mau e o sujeito, nós estamos falando então, de uma triangulação. O superego primitivo, ou arcaico é um superego persecutório, é aquele perseguidor, é aquele que que vem ameaçar a paz do bebê com o seio bom. Diferente do superego proposto por Freud na fase fálica que é o herdeiro do complexo de Édipo fálico, que é o superego legislador. É aquele que traz a lei, é aquele que vai trazer o que pode e o que não pode. A princípio, o bebê vai viver um superego persecutório e depois ele vai, através da entrada do pai, transformar esse superego num superego legislador. O sujeito que tem a preponderância, ou a predominância da parte psicótica, não conseguiu essa transformação de superego persecutório para um superego legislador. O superego legislador é aquele que vai ser o fiscalizador, ou o fiscal das neuroses, dos sintomas neuróticos e o superego persecutório é aquele que vai atormentar as alucinações psicóticas.

PARA FREUD

Para o Freud, o superego é um herdeiro do complexo de Édipo e para o Freud o complexo de Édipo acontece na fase fálica. Então, na elaboração do complexo de Édipo na fase fálica, para Freud, aparece o superego para ele. Antes não tinha superego e o que que é o superego para o Freud é a possibilidade de elaboração do complexo de Édipo. As questões edípicas. Ideal de eu. O que então, deveria ser. Então, este superego, ao mesmo tempo vai cobrar que o sujeito tem a mãe só para ele e também, ao mesmo tempo, vai negar e proibir que ele possa ter esta mãe para ele. E quando esse pai não exerce uma função suficientemente boa, isso passa a ser um elemento extremamente perturbador na configuração da estrutura mental do sujeito.

PERSEGUIÇÃO E LEGISLAÇÃO

Um sujeito que tem a predominância da parte psicótica da mente, ele não tem a ligação razoável com o mundo externo, logo, as leis para ele fazem muito pouco sentido. Toda figura de autoridade vai significar perseguição e não legislação. Todas as vezes que houver um contato, tanto com a figura externa de autoridade, quanto com a figura interna de autoridade. Este contato será um contato de perseguição de alguém que vem me sondar com um olhar que fica o tempo todo à espreita. A alucinação do psicótico, a miúde, tem esta figura de perseguidor independente de leis ou não. Não tem a ver com lei, tem a ver com perseguição. Estão me perseguindo! E o superego legislador é mais fácil ainda, porque todo o sintoma neurótico acontece por conta de uma proibição, de uma proibição da civilização. Como é que se desenvolve um sintoma neurótico? O sujeito reprime um desejo perverso, por ser proibido civilizatoriamente, dizendo, e a partir dali, ele elege um substituto, que é permitido pela sociedade e ali ele desenvolve o seu sintoma. Todo o sintoma neurótico perpassa por uma proibição civilizatória social.

PARA BION

O Bion observa um uma outra característica do Édipo. Não restrita a ideia do crime sexual e do parricídio, mas ele vai para além. Ele percebe ali, a forma arrogante que o Édipo lida com a verdade. Quando ele manda buscar o Tirésias e pergunta quem foi que matou Laio. Conforme o Tirésias vai revelando ali a verdade, o Édipo vai se enfurecendo, ficando hostil e lidando com arrogância frente essa verdade. Mesmo dentro do Édipo, fora dessa configuração, se estabelece mais um triângulo. Não mais em relação a Laio e Jocasta, mas agora em relação à verdade e o Tirésias. Então, mais um triângulo aí que não tem a ver com sexualidade. Mas o Édipo gostaria que a realidade fosse uma coisa e o Tirésias traz a verdade que não é aquilo que o Édipo gostaria que fosse. Então dentro da história do Édipo se instala um novo triângulo que é uma extensão do próprio triângulo edípico, onde o Édipo deseja que a realidade seja alguma coisa e o Tirésias diz que a realidade não é aquilo que ele deseja.

MODELO EDÍPICO

Quando a gente fala de triângulo edípico, triangulação do Édipo, do complexo de Édipo, nós não estamos falando somente da ideia sexualizada, mas nós estamos falando aqui, de uma experiência onde há um objeto de desejo e algo a ser respeitado na tentativa de conseguir este objeto de desejo. O sujeito, um objeto de desejo e algo que precisa ser respeitado na direção de conseguir este objeto de desejo. Não somente, sujeito, mãe e pai. Ou sujeito, pai e mãe, mas sujeito algo que ele deseja e algo que barra a realização desse desejo. Então, este é um modelo que vai para além da simples triangulação no desejo da criança obter a mãe exclusivamente para ele e excluir o pai desta relação.


quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

SOBRE O BENEFÍCIO DE SE ESTAR DOENTE - Prof. Renato Dias Martino


O que chamamos de personalidade parece ser o resultado de disposições inatas, mas fundamentalmente das configurações de relacionamentos estabelecidos. Nascemos com características peculiares, no entanto também vamos sofrendo influências que irão acentuando ou minimizando esses atributos. Quando Wilfred Bion (1897 – 1979) nos orienta sobre o fato de que "O pensar passa a existir para dar conta dos pensamentos." (BION, 1962), ele nos sugere que antes mesmo de o pensador ter nascido já havia um pensamento que o precedeu.

Quando nasce um bebê, de certa forma, já tem como incumbência suprir certas expectativas, que já existiam antes de seu nascimento. Portanto, fica claro que mesmo antes de o sujeito nascer, as configurações vinculares já definiam certas características de sua personalidade. Os vínculos significativos, que definem traços fundamentais na estruturação da personalidade, também continuam influenciando a configuração do funcionamento do sujeito. Por essa perspectiva a frase bíblica parece ganhar um grande sentido quando propõe: “diga com quem andas e eu te direi quem tu és.”. (Provérbios 13:20 e 1 Coríntios 15:33.) As relações influenciam na maneira como funcionamos, tanto de forma saudável quanto de maneira nociva. Uma vinculação saudável pode propiciar a expansão do pensar e com isso um bom desenvolvimento da personalidade. Por outro lado, um vínculo nocivo pode obstruir a ampliação do pensamento dificultando o desenvolvimento da maturidade emocional e consequentemente prejudicando a estruturação da personalidade. Isso deve ser tão comprometedor quanto mais tenra for a idade do sujeito em desenvolvimento.

 Sendo de uma maneira ou de outra, essa influência deve ocorrer essencialmente através de modelos. Quando somos amados com sinceridade, por exemplo, aprendemos a amar a nós mesmos e com isso nos qualificamos para amar o próximo. No entanto, enquanto a influência que combina amor e sinceridade é poderosa, proporcionando a expansão e o desenvolvimento, a influência que esteja permeada de ódio tem consequências desastrosas. Alguém que não esteja emocionalmente saudável pode ameaçar a saúde mental daquele que se encontra intimamente ligado. A desorganização na mente de um desorganiza a mente do outro. Sigmund Freud (1856 – 1939) alertou com propriedade sobre o que denominou “lucro secundário” nos pacientes. Para Freud lucro secundário consiste no benefício em continuar doente, ou ainda, as vantagens em sustentar uma suposta doença. Freud percebeu em inúmeros casos que o paciente percebera uma vantagem em continuar doente “e raramente deixa de haver ocasiões em que se comprova que a doença, repetidas vezes, se torna útil e adequada, e adquire, por assim dizer, uma função secundária que reforça novamente sua estabilidade.” (Freud, 1917).

 Enquanto o ganho primário estaria na possibilidade de descarga da libido reprimida, geradora de enorme desconforto e que é aliviado a cada manifestação do sintoma, numa “a fuga para a doença”, o benefício secundário se encontraria nas vantagens sociais e emocionais adquiridas pelo paciente em função de sua suposta doença que perduram mesmo depois das causas terem sido amenizadas, ou mesmo dissolvidas. “Eles se queixam da doença, mas a exploram com todas as suas forças; e se alguém tenta afastá-la deles, defendem-na como a proverbial leoa com seus filhotes.” (Freud em A QUESTÃO DA ANÁLISE LEIGA, 1926). No entanto, não é só o paciente que deve lucrar com o estado de sua enfermidade, mas aquele que convive com ele também pode ter um benefício nisso.

Muitas vezes, aquele que se relaciona com um sujeito adoecido ou mesmo fragilizado, seja fisicamente ou emocionalmente, pode encontrar uma forma de se beneficiar dessa situação. Amiúde, o diagnóstico dado a uma pessoa é muito conveniente também a aquele que com ela está vinculado, trazendo certos benefícios ocultos. Esse benefício pode ser desde ordem financeira, até no âmbito emocional. A isso poderíamos chamar de “ganho terciário”. Isso pode se estender para além das patologias, mas deve também ser aplicável às características mais amplas de cada sujeito.

 Manter-se vinculado a alguém emocionalmente imaturo, por exemplo, pode trazer ao sujeito a impressão de ser muito amadurecido. Assim como, manter-se numa relação com alguém fracassado pode trazer a ilusão ao sujeito, de ser bem-sucedido. Nessa relação parasitária, o sujeito que se sente inferior obviamente também tem o ganho de se manter num estado confortável de comodismo. O fato de o sujeito se impor frente ao outro, infligindo uma forma dominadora de ser, não é um sinal de saúde emocional. Por mais que muitas vezes a arrogância seja idealizada por dar ares de superioridade, por detrás de um prepotente existe sempre um grande inseguro de si mesmo. Muitas vezes o sujeito demonstra uma suposta habilidade em comandar o outro, no entanto, mal consegue conduzir a si mesmo. Dessa maneira, muitas vezes o sujeito mais comprometido com incapacidades emocionais pode se esconder atrás de uma suposta sensatez, que na realidade é amparada por arrogância, dissimulando sua insegurança com prepotência. Esse sujeito dificilmente busca ajuda, até porque não acredita precisar. Muitas vezes aquele que busca psicoterapia é justamente o sujeito emocionalmente mais saudável da família.

 Quando é possível se realizar um bom trabalho no processo psicoterapêutico, o resultado se expande para além do próprio paciente. Para tanto, é fundamental que exista o encontro entre um sujeito que é capaz de perceber sua necessidade de ajuda e um psicoterapeuta que possa contar com um bom nível de maturidade emocional para acolhê-lo. Uma psicoterapia bem-sucedida não favorece exclusivamente o paciente, mas também àqueles que com ele se relacionam.

 

Referências:

BION, W. R. [1962]. “Uma teoria sobre o pensar.” In: BION, W. R. Estudos psicanalíticos revisados. Rio de Janeiro: Imago, 1994. p. 127-137.

FREUD, S. A teoria geral das neuroses, estado neurótico comum, Conferência XXIV, Parte III. (1917 [1916-17]). Obras Completas, Vol. XVI.

____. A questão da análise leiga: conversações com uma pessoa imparcial. (1926). Obras Completas, Vol. XX.

 











Prof. Renato Dias Martino

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

DO ESPECTRO POLÍTICO DA DIVISÃO - Prof. Renato Dias Martino


Logo de início, parece-me importante deixar claro que este texto não se trata de uma afirmação científica, mas de uma analogia que tenta aproximar uma formulação psicanalítica de uma configuração política.

 Sigmund Freud (1856–1939) propõe duas tendências dentro do âmbito do funcionamento mental: uma tende à união, à junção entre as partes num movimento de integração; a outra tende a separar, a dividir o todo em partes dissociadas. Essa ideia Freud desenvolveu especialmente em ALÉM DO PRINCÍPIO DO PRAZER (1920). Segundo Freud, essas duas tendências operam concomitantemente, sem que uma anule a outra. No entanto, pode haver a predominância de uma sobre a outra, causando certo desajuste no funcionamento da entidade em questão. À tendência que busca à união Freud chamou de pulsão de vida e à tendência que busca dividir chamou de pulsão de morte. A pulsão de vida tem a função de ligação. “Ocorrendo do interior para o exterior, eclodindo para fora, na ligação com o mundo, com outro (objeto), e também agindo no mundo interno, na integração das partes do eu” (Martino, 2024). A pulsão de morte se manifesta com a fragmentação da personalidade e da percepção do mundo como um todo. “Um movimento que tende à desvinculação das partes, por decorrência da insuficiência na irrigação da libido” (Martino, 2024).

 Esse modelo, que ocorre no âmbito do funcionamento emocional e passa a reger as relações no campo afetivo, também se manifesta na dimensão dos grupos humanos. Essas duas tendências ficam evidentes quando aplicadas aos espectros políticos do que se denominam direita e esquerda. A direita, no modelo do conservadorismo, defende valores como as tradições, a família, a propriedade privada e a ordem estabelecida. Admite mudanças, mas prudentes, graduais e cautelosas, opondo-se a revoluções ou propostas de reformas radicais. Na direita conservadora parece existir certa resistência a mudanças bruscas e revolucionárias e isso parece estar ligada à autopreservação da pulsão de vida. Para que possa haver um bom funcionamento é imperiosa a necessidade de estabilidade, sendo que as mudanças precisam ser cautelosas e ponderadas. Freud falava da pulsão de vida com a função de conservação e integração, e isso se alinha com a ideia de que estabilidade é essencial para o desenvolvimento sustentável e saudável. Isso pretende a coesão social através do cultivo de valores partilhados.

 A direita ainda defende o Estado mínimo, onde a intervenção do governo na economia e na vida dos cidadãos é mínima. Com isso, o Estado tem funções essenciais como segurança, justiça, defesa e relações exteriores, já que, com a estrutura familiar bem estruturada, a liberdade individual e a livre iniciativa geram mais eficiência e desenvolvimento. Um sujeito que pode crescer numa família bem estruturada terá sua personalidade bem estruturada por conta do modelo bem-sucedido. Essa integração faz com que o sujeito se sinta parte integrante do todo, reduzindo sua insegurança frente aos desafios, e isso coincide com as características da função da pulsão de vida. Aponta-se, portanto, que pelo menos esses preceitos destacados aqui estão de acordo com a predominância dessa tendência pulsional. Cada ser humano é único e deve ser respeitado independentemente da cor, raça ou gênero. Isso coincide com um princípio fundamental e universal dos direitos humanos. Quanto mais autonomia para cada cidadão, menor a carga do Estado, que deve cuidar do essencial.

 Já as pautas defendidas pela ideologia política da esquerda estão predominantemente orientadas pela divisão, onde os temas do racismo, feminismo e a causa do trabalhador sinalizam essa separação. A “luta de classes” é um termo central na proposta teórica de Karl Marx (1818–1883), nome mais importante na formulação da esquerda. No marxismo, a luta de classes é o conflito entre diferentes grupos sociais, especialmente burguesia e proletariado, que, segundo Marx, é gerado por conta de interesses econômicos antagônicos. Sendo assim, não me parece absurdo afirmar que o espectro da esquerda parece ser preponderantemente regido pela pulsão de morte. A justificativa para isso está na abordagem da esquerda, no progressismo, sobre a desigualdades estruturais, opressões e injustiças sociais. Ao erguer as bandeiras contra o racismo, o sexismo e a desigualdade de classes, mesmo quando alega apenas ‘denunciar’ divisões já existentes, a esquerda converte a diferença em antagonismo insolúvel e toda identidade em bandeira de combate permanente — produzindo, na prática, uma fragmentação social muito maior do que a integração que supostamente diz buscar. Ora, ao destacar diferenças entre grupos, a esquerda acaba por dividir a sociedade em campos opostos.

 Além disso, a esquerda ganha enorme força em sua militância, já que tem a aderência de pessoas que se sentem excluídas, rejeitadas e oprimidas, o que fortalece as pautas defendidas. Ou seja, um público que se sente dividido do todo, apartado da sociedade. Bem, aquele que não teve a menor condição de conseguir sua propriedade privada é um grande sugestionável a lutar contra esse direito. Alguém que não teve uma família tradicional ou bem estruturada e, ainda assim, conseguiu sobreviver, pode vir a ser convencido de que isso deve ser combatido.

 O movimento de esquerda usa a tática de “dividir para conquistar” (no latim, divide et impera) ao enfatizar divisões sociais, como classe, raça e gênero, para criar conflitos e, assim, alcançar apoio político e obter e manter o controle.

É uma estratégia antiga, não exclusiva do general chines Sun Tzu (544 a.C. – 496 a.C.) em sua obra A Arte da Guerra, mas usada por personalidades como o ditador romano Júlio César (100 a.C. - 44 a.C.) e o estadista francês Napoleão Bonaparte (1769 – 1821). Envolve separar inimigos em grupos menores com o intuito de enfraquecê-los e então dominá-los.

 Diferente da direita conservadora, a esquerda defende um Estado forte e soberano que dá manutenção à vida do cidadão. Esse movimento consiste em quebrar concentrações de poder em entidades menores que não conseguem se opor efetivamente a quem as controla. “Tudo no Estado, nada contra o Estado, e nada fora do Estado”, assim como na célebre frase de Benito Mussolini (1883–1945). Essa proposta foi adotada, com variações de retórica, por grande parte dos regimes socialistas do século XX — o que revela a convergência prática entre extremos que se dizem opostos. O fascismo não é o oposto do socialismo, mas parece ser seu irmão invejoso que trocou o internacionalismo pela nação. A frase serve ainda para ilustrar a esquerda atual que insiste na narrativa de que o fascismo é uma característica da direita contemporânea.

 A psicanálise nos ensina que o ser humano é narcisista por natureza, portanto, não há como fundamentar realmente, um regime onde se pregue a igualdade social. A partilha saudável é aquela que é espontânea. A partilha, quando imposta, perde sua nobreza. Quando se obriga a partilhar frustra-se o próprio movimento libidinal que a tornaria possível. Converte o dom em mágoa e o receptor em dependente incapaz e raivoso. Pregar igualdade imposta ignora a natureza egoísta, levando a resistências e falhas. A partilha espontânea (como em caridades ou comunidades voluntárias) parece mais alinhada com a pulsão de vida, pois surge de vínculos reais, não de coerção. Isso explica por que tentativas de "igualdade forçada" muitas vezes geram novas desigualdades. Isso fica claro nas elites partidárias em regimes socialistas.

 “Os comunistas acreditam ter descoberto o caminho para nos livrar de nossos males. Segundo eles, o homem é inteiramente bom e bem disposto para com o seu próximo, mas a instituição da propriedade privada corrompeu-lhe a natureza.” (Freud, 1930) 

A esquerda propõe que a propriedade privada traz poder ao indivíduo o torna um opressor daquele que não conseguiu o mesmo. Ainda assim, a hostilidade não é gerada pela propriedade, mas sempre existiu bem pior do que é hoje desde os tempos primitivos, quando a propriedade ainda era insignificante.

 Em última instancia, como a personalidade, quando dominada pela pulsão de morte, caminha para a dissolução ou para o domínio tirânico de um supereu, que se manifesta num “deveria ser” sádico, um povo dividido tem sua autonomia drasticamente reduzida e, fragilizado, deve também padecer. O povo fragilizado e fragmentado tende à anarquia autodestrutiva ou a subordinação a um poder que prometa, falsamente, reunificá-lo.

 

Referência:

 FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1930.

MARTINO, Renato Dias. Pensando melhor a psicanálise: do saber ao estar sendo