segunda-feira, 25 de maio de 2026

MÁGOA: A Água Má - Prof. Renato Dias Martino

 

Não é com frequência que o sujeito se propõe a pensar sobre suas mágoas. Em geral, prefere conservá-las como entraves, ideias cristalizadas e saturadas. A mágoa é filha da decepção, que por sua vez é filha da expectativa. É como uma confusão gerada por um conflito interno que, consequentemente, emerge na ação, numa tentativa de livrar-se de sentimentos desagradáveis. As mágoas sempre estão vinculadas a sentimentos como vergonha, humilhação e exclusão. Dessa forma, a iniciativa de refletir sobre essas ideias é evitada até as últimas consequências.

Alguém magoado é alguém impedido de amar. A mágoa é a “água maldosa” que insiste em represar-se no coração, obstruindo a capacidade de amar. Afetivamente represada, a mente não permite o fluxo natural da vida. Guardar mágoas é insistir num ressentimento e “re-sentir” é sentir novamente algo que já passou, mas que ainda magoa. Cultivar mágoas é não permitir que a ferida cicatrize. Com o ferimento sempre exposto, a pessoa mantém-se presa ao passado, impossibilitada de viver o presente. A raiz dos transtornos no funcionamento emocional, como as neuroses, está justamente no desejo que se perdeu no passado. Um desejo frustrado que se transformou em mágoa e que, por isso, é ressentido constantemente. O que mantém as mágoas é um fator ancorado no passado, portanto distante da realidade, que flui no presente. Como o registro do passado é função da memória, ele pode ser lembrado ou esquecido conforme o desconforto que traz. Tratamos, então, de um dado distante da realidade e inerente às produções da ordem fantasiosa da imaginação, servindo às conveniências do princípio do prazer/desprazer.

Inúmeras enfermidades físicas têm origem em ressentimentos e outras moléstias que não tenham origem emocional podem ser utilizadas a serviço da mágoa, como “troféu” para culpabilizar aquele de quem se guarda rancor. De qualquer forma, aquilo que é ressentido repetidamente tende a criar um representante no corpo, onde pode, de forma mórbida, ser cultivado como símbolo dessa mágoa.

Aquele que cultiva a mágoa consegue um benefício secundário ao manter-se dessa forma: está depositando no outro a frustração que, na verdade, não está sendo capaz de tolerar. Quem não está conseguindo amar e nutrir esse amor pode encontrar na mágoa um modo de manter-se unido ao outro, num vínculo alimentado pela culpa, garantindo, assim, que não será abandonado.

Contudo, não escolhemos ficar ou não magoados. Simplesmente vivemos certas experiências com o outro e conosco, que podem nos deixar marcas em forma de mágoa. Aquilo que, na saúde emocional, é representado pelo laço afetivo, na perspectiva da mágoa torna-se um nó de ressentimentos. Desatar o nó da mágoa não pode ser feito sozinho. A ajuda “desatadora de nós” deve estar presente num vínculo saudável, necessariamente com um outro capaz de criar e manter vínculos profícuos.

Parece claro que aquilo que liberta o nó da mágoa está no possível acordo que se possa estabelecer com a realidade. O pensar, que leva ao acordo com a realidade, só se realiza tendo o outro como referência. Caso contrário, sem parâmetros, induz-se a ideia para onde se deseja, ou evita-se reconhecer o que realmente acontece. Surge, então, a necessidade da introdução do outro — mesmo que seja o outro internalizado no eu. Aquele que pensa sozinho não está, na verdade, pensando, mas, no máximo, imaginando.

Cultivar bons vínculos é o que pode propiciar a reparação do aparato emocional. O cultivo do amor, aliado ao reconhecimento da realidade, forma o fundamento do modelo de vínculo capaz de desintoxicar uma mente envenenada de ideias destrutivas e emperrada nas mágoas. Se é através do vínculo saudável que se desfaz a mágoa, é prudente estar atento àquele que supostamente provocou a decepção — ou, ao menos, àquele com quem não se conseguiu constituir essa qualidade de vínculo. Talvez porque esse suposto provocador de mágoas não seja capaz de respeitar as fragilidades daquele que foi magoado. Manter-se ligado a alguém assim é manter-se exposto a novas mágoas.

Respeitando as próprias limitações e fragilidades, pode ser prudente afastar-se de qualquer ligação que se mostre nociva. No entanto, de forma natural, isso é um atributo do instinto de autopreservação, que reconhece a ameaça e tende a afastar-se. Tarefa difícil, pois a mágoa é uma forma de funcionamento mental que encontra, com frequência, convites de colaboradores no mundo.









Prof. Renato Dias Martino

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sábado, 23 de maio de 2026

Resenha do Livro: Esboço de Expansão - Prof. Renato Dias Martino

Autor: Renato Dias Martino

Ano de Publicação: 2025
Subtítulo: Escolhas, Vontade e Desejo

O livro "Esboço de Expansão" propõe uma reflexão profunda sobre os meandros da condição humana, desafiando ilusões consolidadas na sociedade, como a do livre-arbítrio absoluto. Integrando filosofia, espiritualidade e a psicanálise do acolhimento, o autor convida o leitor a compreender a diferença entre "ser" (o permanente) e "estar" (o temporário) por meio da constante transformação do estar sendo.

💡 O Mito do Livre-Arbítrio e as Escolhas Humanas

  • Delírio de vaidade: A crença na total liberdade de escolha é um reflexo do narcisismo humano. Quando uma escolha é bem-sucedida de verdade, ela não foi uma opção, mas o único caminho real.
  • Comando do Inconsciente: Amparado em Freud e Schopenhauer, o livro reitera que o ego não é senhor em sua própria casa. Nossas decisões são coordenadas por forças e necessidades do Id, muito maiores que a nossa consciência local.
  • Vontade versus Desejo: Enquanto a vontade responde às necessidades básicas e à saúde biológica e psíquica, o desejo está sempre impregnado pelo olhar do outro e pela busca compulsiva por aprovação.

🔍 O Amor Verdadeiro e a "Não Escolha"

  • Amor Fati: Resgatando o conceito nietzschiano, amar a realidade significa acolhê-la e doar-se a ela independentemente do desconforto ou de "gostar" dela.
  • Diferença entre Gostar e Amar: Gostar é direcionado a coisas e pessoas que nos trazem benefícios ou prazer. Amar é uma capacidade que visa beneficiar o outro através da abnegação, do cuidado e do desprendimento.
  • Amor-Próprio: Desenvolve-se exclusivamente a partir da experiência de ter sido amado sinceramente por alguém no início da vida. Não tem relação com o narcisismo de gostar de si mesmo.

🧠 Desintegração Psíquica e os Mecanismos de Defesa

  • Origem das neuroses: A tendência à desintegração e fragmentação do eu é uma constante na clínica psicanalítica, estando intimamente ligada à pulsão de morte freudiana.
  • Posição Esquizoparanoide: Utilizando as teorias de Melanie Klein, o autor explica como o bebê cinde a si mesmo e ao mundo em "bom" e "mau" como defesa contra a ansiedade persecutória.
  • Ambiente Continente: O luto e o sofrimento gerados pelo processo de maturação exigem um ambiente saudável de concórdia. Sem esse suporte, a energia psíquica é desperdiçada em defesas rígidas.

🤝 A Importância de Admitir a Ignorância

  • Capacidade Negativa: O livro exalta o conceito de Bion (emprestado do poeta John Keats) sobre a importância de permanecer em dúvidas e mistérios sem o ímpeto de buscar explicações rápidas.
  • Linguagem de Realização: Contrapõe-se à linguagem comum de substituição. É a fala que surge do desapego das memórias e desejos do analista, permitindo a emersão do fato presente e do inconsciente.
  • Onipotência do Salvador: O autor alerta para a falsa caridade daqueles que desejam "salvar" o outro por pura vaidade. Ninguém pode ser ajudado se não admitir que precisa de auxílio.

🎯 Por que ler este livro?

"Esboço de Expansão" encerra a jornada do autor com uma mensagem urgente de humildade. Ele demonstra que a verdadeira grandeza do ser humano não está no acúmulo de bens, títulos ou saberes superficiais, mas sim na coragem de reconhecer sua própria pequenez e fragilidade diante do infinito Universo.


 










Prof. Renato Dias Martino

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