Não pode haver saúde nos vínculos enquanto
houver disputa. A disputa é uma característica peculiar do que Sigmund Freud
chamou de fase fálica em sua obra A Organização Genital Infantil (1923).
Nesse período, ocorre um grande conflito por conta do formato fálico do pênis.
Isso propicia a impressão de que uns “têm” (meninos), mas outros não “têm”
(meninas). Essa falsa impressão pode gerar inveja nas que não “têm” (meninas)
pelos que “têm” (meninos), ou ainda nos que têm um menor em relação aos que têm
um maior. Pode também gerar certa angústia nos que “têm” (meninos), pelo medo
de virem a ser castrados, como suspeitam que ocorreu com quem não “têm”
(meninas).
Bem, abre-se então um ambiente propício para a
disputa. A criança, que já rivaliza com o pai pela exclusividade da mãe — no
que Freud chamou de Complexo de Édipo —, agora se vê envolvida na competição
entre os que "têm" e os que "não têm". Tais experiências
carecem de atividades lúdicas, esportes e jogos para que haja a possibilidade
de sublimação dos confrontos no nível emocional. Com isso, a tensão tende a
mitigar-se, abrindo espaço para o desenvolvimento da capacidade de amar, que
necessita de tolerância e da renúncia de impulsos. Através do reconhecimento
dos pais, as crianças vão aprendendo que cada um tem seu valor de forma
equânime, capacitando-as a respeitar a si mesmas e ao outro, independentemente
do gênero. A criança que é respeitada aprende a respeitar a si mesma e estende
esse respeito aos outros.
Quando o casal cumpre suas respectivas
funções, ocorre a integração na união, o que parece ser cada dia mais raro. Por
outro lado, o casal que disputa entre si obstrui a possibilidade de integração,
e os filhos carregarão as consequências disso. Quando as elaborações
necessárias de cada fase do desenvolvimento ficam obstruídas, ocorre uma
fixação; com a fase fálica não é diferente. Na fixação, busca-se um objeto
substitutivo com a promessa de satisfação daquilo que ficou no passado.
Atualmente, a mulher admirada (pelas mulheres)
parece ser aquela que é independente, financeira e emocionalmente. Aquela que
busca a concretização de seus sonhos individuais, como sua carreira e a posse
de bens materiais, tendo a maior autonomia alcançável. Mesmo que isso custe o
distanciamento dos filhos, que serão, portanto, cuidados por terceiros, afetivamente
estranhos. Qualquer sucesso da mulher, para que possa ser admirado pelas
outras, deve ser independente do homem e não inclui a dedicação à família. Já o
homem admirado hoje é aquele que renuncia a si mesmo e aos seus desejos
individuais em prol dos filhos e da família.
Parece que o sucesso no trabalho fora do lar é
um dos representantes do falo contemporâneo. O sentimento de independência dita
que a mulher não deve precisar do outro. A disputa do falo em busca do troféu
narcisista desestrutura os lares. Com isso, o prejuízo seria menor quando não
há filhos, já que as patologias emocionais nos pequenos são inevitáveis dentro
dessa disputa, que tende a repetir-se nesse modelo de geração para geração. A
sociedade contemporânea parece sofrer de fixação fálica. A rivalidade não
permite nobrezas como o amor e a verdade. Num clima de disputa não se ama, só
se quer ganhar.
Referências:
FREUD, Sigmund. A Organização Genital Infantil (1923). Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
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