O humano tem uma dificuldade, ou até mesmo a incapacidade comum, de se responsabilizar por suas atitudes — atitudes essas que são desdobramentos da qualidade do seu funcionamento emocional. Na impossibilidade de responsabilização, o sujeito tende a projetar a culpa em pessoas e até em objetos inanimados do mundo externo. Porém, se projetar a culpa de suas falhas em outra pessoa já é uma incoerência, é um absurdo maior ainda atribuir às tecnologias ou às "coisas" aquilo que, na verdade, vem da dificuldade do próprio sujeito.
Atualmente, enfrentamos o desafio do uso abusivo de celulares e telas em geral. Essa tem sido uma queixa usual entre pais em relação aos filhos. Ainda assim, por mais que exista um discurso comum entre inúmeros especialistas condenando o aparelho como se fosse o culpado pelos prejuízos na formação dos jovens, a situação é muito mais complexa. Mesmo que os celulares e as telas tenham vários atrativos que realmente podem hipnotizar o espectador, tratamos aqui da saúde emocional do usuário. No caso das crianças, tratamos, antes de tudo, da saúde emocional daqueles que teriam a função de fornecer um modelo de bom funcionamento emocional. Quando abordamos o tema do abuso, seja ele qual for, falamos fundamentalmente da dificuldade de reconhecer e respeitar limites.
Temos aqui o abismo que existe entre a inteligência na habilidade de usar o instrumento e a maturidade emocional, que orienta o intuito que motiva o uso. A capacidade emocional daquele que utiliza o instrumento é o que orienta seu bom uso. Se não fosse assim, o sujeito que foi esfaqueado deveria processar a Tramontina. O instrumento é inanimado, portanto, neutro; o caráter e a intenção de quem o maneja é que orientam o desfecho.
Wilfred Bion (1897 - 1979) tratou desse assunto recordando a infância, quando os professores usavam uma régua para bater na palma da mão do aluno que não tivesse cumprido regras. Embora a régua não tenha sido feita para punir — mas sim para medir em polegadas e centímetros —, ela "funcionava" para esse propósito secundário e violento. Bion aplica adequadamente esse modelo à psicanálise: um analista pode usar teorias (assim como a régua) não para propiciar ao paciente experiências emocionais reparadoras, mas para infligir dor, menosprezar ou se colocar em uma posição de superioridade.
A teoria é um mero instrumento nas mãos de um sujeito que definirá seu bom uso conforme permitir sua saúde emocional. “A quantidade de teoria não garante a capacidade do psicanalista. A eficiência psicanalítica não está na quantidade de teorias que o psicanalista detém, mas no menor número delas com que atende à eventualidade que se lhe depara.” (Bion, 1962). Numa metáfora simples, um mecânico habilidoso que possua duas ou três ferramentas vale mais do que outro com uma oficina repleta de ferramentas sofisticadas, mas que não é capaz de utilizá-las.
BION, Wilfred R. Aprender da experiência. Tradução de Paulo Dias Corrêa. São Paulo: Blucher, 2021. (Obra original: 1962)
BION, Wilfred R. Seminários de Brasília. Tradução de Elias Mallet da Rocha Barros. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
Hoje temos uma grande oferta de cursos de formação para psicanalistas, muitos deles em um período muito breve. Nesse ensaio, gostaria de trazer alguns aspectos fundamentais que envolvem esse tema. A vasta oferta de cursos de formação traz consigo grande probabilidade de baixa qualidade no que se oferece. No Brasil, a psicanálise é considerada uma ocupação de livre exercício. Não é uma profissão regulamentada por lei específica ou por conselho federal próprio. Segundo a lei brasileira, a prática da psicanálise não depende de um diploma universitário, nem de registro em conselhos como o de Medicina ou Psicologia para ser exercida. Por outro lado, no Brasil abriu-se a possibilidade de cursos superiores na área, como o “Bacharelado em Estudos Teóricos Psicanalíticos e Sociais”, reforçando o caráter acadêmico e teórico e colocando a psicanálise numa posição mais distante da habilitação prática clínica.
O QUE PENSAVA FREUD
Esse fato traz à baila o olhar questionador de Sigmund Freud (1856–1939) quanto ao modelo que via nas universidades da época: “ministradas de forma dogmática e puramente teórica”. E complementa: “... é claro que o psicanalista pode prescindir completamente da universidade sem qualquer prejuízo para si mesmo.” (Freud, 1919) Freud acreditava que deveria se ensinar “algo sobre” a psicanálise na universidade (teoria, conceitos, relações com outras ciências como biologia, mitologia, sociologia etc.), sendo isso útil e benéfico. No entanto, questionava a possibilidade de se aprender “algo da” psicanálise (no sentido profundo, experiencial) na universidade. A questão fundamental é a da institucionalização da psicanálise, seja ela acadêmica (na universidade) ou em qualquer outro formato de instituição. A palavra “instituição” tem na sua origem o significado de “definir, estabelecer”, que vem do latim instituere. Bem, se falamos de uma psicanálise real, esta deve, de maneira adequada, ser constituída e não meramente instituída. A palavra “constituir” vem do latim construere, “construir”, formada por com (“junto”) + struere (“empilhar, montar”). A verdadeira psicanálise é constituída (construída internamente), e não instituída por uma estrutura externa. Em 1919, Freud expressou que a formação do psicanalista não se adequa ao modelo acadêmico, já que a formação de um analista não tem um “começo, meio e fim” como uma graduação tradicional. Além disso, para que alguém se torne psicanalista, é imprescindível que seja, antes, dotado de coragem, responsabilidade e, fundamentalmente, de uma determinada atitude. Pressupõe-se, com isso, que o aspirante a psicanalista seja capaz, através de sua atitude, de corajosamente se responsabilizar pela organização de seus estudos teóricos, sem depender de uma exigência externa vinda de uma instituição que cobre sua produtividade e o teste sobre o que aprendeu nas aulas.
MÉTODO SUPEREGÓICO
O método de ensino acadêmico atual coincide com um modelo superegóico, que tende a levar o sujeito a decorar os conteúdos apenas para se livrar da reprovação. Um método fundamentado num ideal pretendido e preestabelecido num “deveria ser”. Aquele que criou a psicanálise, assim como grandes pensadores posteriores, nos orienta com muita clareza quanto ao tripé psicanalítico constituído pela análise pessoal, pelo estudo teórico constante e pela supervisão de um colega mais experiente. Um psicanalista nasce no divã e não numa sala de aulas. O primeiro passo para aquele que pretende vir a praticar a psicanálise é a dedicação à sua análise pessoal, pois, antes disso, tudo fica deveras obstruído. A teoria psicanalítica não é tão difícil de se compreender quanto é difícil de admitir em seu conteúdo. Isso esbarra diretamente em questões mal elaboradas do sujeito que pretende estudar psicanálise. Sendo assim, tentar estudar psicanálise sem antes ter se dedicado à sua análise pessoal, na melhor das hipóteses, não conseguirá apreender verdadeiramente o que estuda, muitas vezes se desmotivando e desistindo por conta das resistências. Ou, ainda, corre o grande risco de voltar o conteúdo do seu aprendizado contra si mesmo e contra os outros. As experiências vividas na análise pessoal encontrarão, nos estudos teóricos constantes, uma maneira de serem nomeadas. Dessa forma, os conceitos vão se associando às experiências vividas, constituindo um sistema teórico rico de vivências. Na constituição de uma verdadeira psicanálise, isso deve ocorrer respeitando o tempo de cada um, e não exigindo que se cumpra um currículo preestabelecido e institucionalizado. Diferentemente do que se faz numa universidade, que é justamente o oposto: ensina-se a teoria, cobra-se por meio de testes o que foi ensinado e, depois, tenta-se aplicar na prática.
MODELO
Wilfred Bion (1897–1979) propõe, em 1962, a ideia da função alfa, na qual a mãe recebe os conteúdos caóticos e desconexos do bebê — aos quais denominou elementos beta —, os contém, os organiza, irriga-os de afeto e os devolve ao bebê em formato de elementos alfa, agora prontos a serem pensados e ligados aos outros elementos do mundo interno. Quando a mãe exerce a função alfa, ela não está simplesmente dando manutenção ao funcionamento emocional do bebê, mas fornecendo um modelo que será internalizado por ele, o qual aprenderá, com cada experiência afetiva junto da mãe continente, a exercer a função alfa com seus próprios elementos e, posteriormente, se qualificará a fazê-lo com o próximo. Esse mesmo modelo acontece na prática clínica da psicanálise, onde, através das experiências com seu analista, o paciente vai aprendendo com a experiência e, mesmo que não seja sua pretensão inicial, impreterivelmente se qualificará para vir a exercer essa prática, mesmo que não venha a fazê-lo profissionalmente.
PRÓXIMO PASSO
Depois de iniciar a análise pessoal com um psicanalista com quem consiga estabelecer um vínculo afetivo saudável e de iniciar a dedicação aos estudos teóricos semanais — de preferência em grupo, onde haja um colega mais experiente orientando o percurso —, o sujeito poderá avaliar o momento em que se sinta preparado para atender seus pacientes. Para tanto, é fundamental que possa contar com a supervisão de um colega psicanalista mais experiente, que possa orientá-lo nas questões operacionais do atendimento, como manejo de agenda, horários e honorários. O suposto psicanalista que imagine já ter se formado não está, ainda, sendo psicanalista.
Referências:
BION, Wilfred
R. Aprender da experiência. Tradução de Paulo Dias Corrêa. São Paulo: Blucher,
2021. (Obra original: 1962)
FREUD,
Sigmund. “Sobre o ensino da psicanálise nas universidades” (1918/1919). In:
Obras Completas, v. 19. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
Antes de iniciarmos efetivamente a proposta reflexiva contida neste texto, penso ser importante esclarecer que não se trata de uma incitação ao sentimento de culpa ou algo parecido, mas de uma oportunidade de alerta para o reconhecimento e a responsabilização do que esteja ao alcance da atenção daquele que lê.
A proposta é pensarmos sobre algo que atualmente tem sido normalizado como se não houvesse consequências, enquanto, na minha avaliação, grande parte dos males que assolam a sociedade contemporânea decorre justamente disso.
Grande parte dos humanos tem filhos que são, na prática, criados por terceiros. Geram-nos e os entregam aos cuidados de alguém afetivamente estranho. Talvez seja o único animal na natureza que o faça. Ainda assim, para que haja um desenvolvimento saudável — ao menos no âmbito emocional —, a criança necessita de cuidados maternos atentos, resguardados pela função paterna, no mínimo até os 3 anos de idade. Após esse período, aumentam significativamente suas chances de enfrentar os desafios inerentes à vida social, que se fundamenta em dissimulação e falsidade.
Essa demanda de cuidado não é apenas de ordem física ou fisiológica, mas, antes de tudo, de ordem afetiva. Não se trata de algo que uma profissional possa oferecer, por mais qualificada que seja, mas da presença afetiva da genitora, bem resguardada pelo companheiro que esteja desempenhando bem a função paterna, capaz de acompanhar cada passo do desenvolvimento da criança. Um outro afetivamente estranho não pode ser capaz de vir a ocupar esse lugar.
No entanto, o que se observa na realidade contemporânea é que a criança passa mais tempo acordada com educadores, cuidadores remunerados ou instituições do que com os próprios pais: creches que recebem bebês desde os primeiros meses de vida, escolas em tempo integral, babás rotativas e, mais recentemente, telas ocupando o lugar de “cuidadoras”.
Há, nesse contexto, implicações psíquicas importantes. Em Sobre o narcisismo: uma introdução (1914), Freud descreve o chamado “narcisismo primário”, momento em que a criança necessita se sentir como a coisa mais importante no mundo para a mãe. É dessa experiência — quando bem-sucedida — que se desdobram a autoconfiança, o sentimento de valor próprio e elementos estruturantes da personalidade. Quando os pais projetam na criança seu próprio narcisismo — por meio de enunciados como “você é o mais lindo”, “o mais perfeito”, “o centro do meu mundo” —, não estão simplesmente exagerando: estão, na verdade, oferecendo as bases da autoestima. A criança aprende a amar-se a si mesma, pois foi amada, e, com isso, se qualificará para amar o próximo. Está aí a semente da capacidade futura de investir libido em objetos externos (pessoas, projetos, ideais) sem prejuízo do investimento em si mesma. Se constitui uma auto-importância saudável: não megalomaníaca, mas suficientemente sólida para sustentar o sujeito diante das inevitáveis frustrações da vida.
Freud também aborda as fases do desenvolvimento libidinal em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). As experiências próprias dessas etapas só podem ser devidamente elaboradas sob os cuidados de quem ama a criança. E aqui revela-se um ponto crucial: não existe “tempo de qualidade”. O desenvolvimento emocional não se organiza segundo recortes artificiais no tempo, mas demanda continuidade. As intercorrências psíquicas não respeitam agendas preestabelecidas. O sofrimento, a angústia de separação, a excitação, a frustração, a necessidade de ser visto — tudo isso emerge de forma imprevisível. O tempo do amadurecimento emocional não coincide com tempo do relógio produtivo.
Mais tarde, Winnicott introduz o conceito de “dependência absoluta”, especialmente em O brincar e a realidade (1971) e em Os processos de maturação e o ambiente facilitador (1965). Nos primeiros meses de vida, o bebê é totalmente dependente da mãe-ambiente para sua sobrevivência física e integração psíquica. Sendo assim, deixá-lo aos cuidados de terceiros afetivamente estranhos passa a ser uma experiência perigosa e de danos emocionais imensuráveis. Trata-se de uma experiência potencialmente disruptiva, cujos efeitos podem se prolongar por toda a vida, manifestando-se como fixações e imaturidades no funcionamento emocional do adulto, desdobrando-se em severas incapacidades afetivas.
Cabe aqui um reconhecimento: há um conflito real entre as necessidades psíquicas do desenvolvimento e as exigências da estrutura econômica contemporânea, que impõe o retorno precoce dos pais ao trabalho. Por outro lado, é muito comum mães que terceirizam os cuidados de seus filhos pequenos por não terem paciência, não tolerarem o desconforto que se inclui no cuidado com crianças ou por qualquer outro motivo que não seja a necessidade de trabalhar fora. Ainda assim, na natureza, quando não há condições mínimas para a preservação e o desenvolvimento da prole, a reprodução tende a não ocorrer. É como se, na natureza, os animais dissessem: “Se não posso oferecer o necessário para que essa vida prospere com integridade, melhor não trazê-la”.
Tratamos aqui de uma perspectiva estrutural. Parece-me que o funcionamento social e econômico atual se orienta na direção oposta às necessidades do desenvolvimento psíquico saudável. Isso gera um círculo vicioso, no qual vão sendo gerados exemplares de péssima qualidade, que configurarão uma sociedade cada dia mais doente. Vivemos em uma cultura de gratificação imediata e uma criança é, por natureza, imprevisível e trabalhosa. Para muitos, o filho passou a ser um "projeto de autorrealização" que, quando começa a dar trabalho, é prontamente terceirizado aos cuidados de outro, para que a vida pessoal do adulto não sofra interrupções. Com isso o alicerce da personalidade é estruturado com falhas severas e o desdobramento é uma sociedade composta por adultos tecnicamente funcionais, contudo emocionalmente desintegrados. Sujeitos habilidosos tecnicamente, inteligentes, capazes de operar máquinas, softwares, planilhas, redes sociais, mercados, conquistar títulos de mestrado e doutorado, mas emocionalmente desintegrados.
Atualmente, os jovens são instruídos a buscar o ensino superior sob uma idealização de títulos acadêmicos, contudo não são preparados para serem mães e pais. No entanto, a probabilidade de seguirem a carreira e exercerem as profissões de seus cursos é significativamente menor do que a de gerarem filhos. Antigamente, as meninas cresciam observando mães cuidando de crianças. Hoje, muitas chegam à maternidade sem nunca terem segurado um bebê. O desconforto da rotina infantil torna-se insuportável porque não houve preparo emocional ou cultural para o sacrifício que a criação exige.
Portanto, parece que estamos constituindo uma legião de indivíduos que operam no modo de falso eu. Um exército tentando preencher fixações infantis, desejando futilidades, consumindo banalidades, funcionando emocionalmente de maneira patológica, o que os leva a se comportar não por atitude própria, mas de forma reativa, já que a base narcísica nunca foi devidamente elaborada. Os pais confiam seus filhos aos cuidados de um outro, afetivamente estranho fazendo com que os próprios filhos se tornem estranhos, sem a menor afinidade com eles. Cria-se, assim, um abismo de conflitos onde deveria haver o aconchego do lar. A implicação disso é a imaturidade generalizada, com adultos instáveis nas relações afetivas. Humanos incapazes de amar.
Referências:
FREUD, S. Sobre o narcisismo: uma introdução. 1914.
FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. 1905.
WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. 1971.
WINNICOTT, D. W. Os processos de maturação e o ambiente facilitador. 1965.