As
melhores ideias raramente triunfam numa democracia, pois costumam ser
impopulares. O que é saudável, via de regra, não é muito prazeroso — e aí surge
o impasse. A massa busca satisfação imediata. Sigmund Freud deixa isso claro em
sua obra Psicologia das Massas e Análise do Ego. “As massas nunca tiveram sede
de verdade. Elas querem ilusões e não vivem sem elas” (Freud, 1921). Uma boa
proposta para um país normalmente envolve sacrifícios imediatos em troca de
benefícios futuros, como ocorre nas reformas estruturais ou em medidas
ambientais drásticas. Esse modelo coincide com o da passagem do processo
primário para o secundário no funcionamento mental, como propôs Freud no texto Formulações sobre os
dois princípios do funcionamento mental. “Um prazer
momentâneo, incerto quanto a seus resultados, é abandonado, mas apenas a fim de
ganhar mais tarde, ao longo do novo caminho, um prazer seguro.” (Freud, 1911)
Os políticos atuam em ciclos eleitorais curtos; logo, oferecer “remédio amargo”
equivale a um suicídio político. Por outro lado, oferecer o “doce prazeroso”
garante votos. Sendo assim, o político tende a não propor ideias que
representem o princípio da realidade, mas acabam fazendo propostas que
coincidam com o princípio do prazer/desprazer.
Não é
preciso ir muito longe nas pesquisas para perceber que, quanto mais popular,
menor costuma ser a qualidade de qualquer coisa. No âmbito estético, artístico
e cultural isso fica evidente. As músicas mais ouvidas hoje são justamente as
que menos carregam mensagens nobres e enriquecedoras. Notícias indicam que mais
da metade das faixas no topo das paradas no Brasil reproduzem discursos
misóginos ou de forte apelo à objetificação e depreciação da mulher. Engana-se
quem pensa que esse fenômeno é exclusivo do Brasil.
Na
gastronomia ocorre algo semelhante. Os alimentos mais consumidos no mundo são
os de pior qualidade nutricional — ao ponto de alguns países terem precisado
proibir certos produtos ou estampar em suas embalagens alertas como “não serve
como alimento humano”. Por que nas eleições seria diferente?
Essa
busca desenfreada pela satisfação imediata não é um mero desvio cultural, mas
um reflexo da nossa própria constituição psíquica. Em 1930 em sua obra O
Mal-Estar na Civilização, Freud propõe que a vida em sociedade exige a renúncia
de impulsos. Vivemos em constante tensão porque nossas necessidades individuais
raramente coincidem com as demandas do grupo. Humanos não são, por natureza,
animais de grupo.
Nossa
biologia e condição emocional parece ter-nos preparado para pequenos grupos
familiares. “Assim como os grandes primatas, também os humanos têm a natureza
de se manter numa espécie muito peculiar de grupo restrito, na sua primeira
esfera familiar” (Martino, 2025). O ser humano se agrupa por conveniência ou
quando se vê obrigado a isso. “Partindo do pressuposto de que o ser humano é
naturalmente narcisista, isso se contrapõe à ideia de que possa trazer, de
forma inata, qualquer sinal de instinto gregário” (Martino, 2025). Obrigar 200
milhões de “animais narcisistas” a concordarem num mesmo projeto de país é uma
grande cilada. O ser humano não é naturalmente cooperativo, mas sim um
sobrevivente dentro de uma selva de dissimulações chamada sociedade. Por isso,
sistemas baseados no “bem comum” são uma grande utopia.
Tendo
como verdade que o grupo natural do humano é a família, também é verdade que,
na família, o regime democrático não é praticável. Vamos imaginar uma família
constituída pelo pai, a mãe e três filhos ainda imaturos emocionalmente. Se
fosse estabelecida a democracia nesse ambiente, as regras seriam sempre as que
priorizam a satisfação prazerosa, e as regras que priorizassem as necessidades
básicas, que dependesse de renúncias seriam prontamente rechaçadas. Se
concordamos que a maior parte da população é formada por pessoas que não têm
maturidade emocional mínima sequer para consumir produtos e conteúdos que sejam
saudáveis, o modelo da democracia na família se aplica perfeitamente à
sociedade.
Durante
seu discurso de aceitação do Prêmio Nobel da Paz, em 11 de dezembro de 1979,
Madre Teresa de Calcutá, ao ser questionada sobre o que as pessoas comuns
poderiam fazer para promover a paz mundial, respondeu: “Vá para casa e ame sua
família.” Numa sociedade em que as famílias parecem cada dia mais raras, essa
resposta soa inquietante.
O
filósofo Sócrates (470 a.C. – 399 a.C.) desaprovava veementemente a democracia.
Sua perspicácia parece mais atual do que nunca. No regime democrático, o
governo é entregue à persuasão e à opinião das massas — que são estúpidas —, em
vez de ser confiado a alguém maduro o suficiente para exercê-lo. Ora, votar sem
maturidade emocional é perigoso. Sócrates comparava a política ao pilotar de um
navio. Para atravessar o mar, quem escolheria um capitão por votação popular ou
sorteio, em vez de um especialista em navegação? Governar exige profundo
discernimento sobre justiça e bem comum, e não apenas a habilidade de convencer
a maioria.
Freud
cunhou a expressão sobre as "três profissões impossíveis": educar,
governar e psicanalisar, em seu texto Análise Terminável e Interminável. Ele as
considerava impossíveis porque o resultado nunca é pleno, havendo sempre um
"resto" que escapa ao intuito do educador, do governante ou do
analista.
Ao
tentar agradar ao povo, abrem-se oportunidades para os demagogos — líderes
carismáticos que manipulam as massas para conquistar poder, mesmo sem
capacidade real de governar. Prometem tudo aquilo que percebem como desejo da
maioria para se eleger. Não é preciso ser historiador para lembrar que o
próprio Sócrates foi condenado à morte por um tribunal democrático ateniense,
sob a acusação de corromper a juventude com suas ideias.
Referências:
FREUD, Sigmund. Formulações
sobre os dois princípios do funcionamento mental. In: FREUD, Sigmund. O caso Schreber,
artigos sobre técnica e outros trabalhos (1911-1913). Tradução
de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, Sigmund. Psicologia das
Massas e Análise do Ego (1921). In: Obras Completas, Rio de Janeiro: Imago,
1976. FREUD, Sigmund. Mal-Estar na Civilização (1930). In: Obras Completas, Rio
de Janeiro: Imago, 1976.
FREUD, Sigmund. Análise
Terminável e Interminável (1937). In: Obras Completas, Rio de Janeiro: Imago,
1976. FREUD, Sigmund. Mal-Estar na Civilização (1930). In: Obras Completas, Rio
de Janeiro: Imago, 1976.
MARTINO, Renato Dias. Esboço
de expansão: escolhas, vontade e desejo. Rio de Janeiro: Paula Editorações,
2025.
PLATÃO. A República. Tradução de Anna Lia Amaral de Almeida Prado. São Paulo:
Martins Fontes, 2006.
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