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quinta-feira, 29 de agosto de 2024
EXPECTATIVAS E TRANSFORMAÇÕES - Prof. Renato Dias Martino
REBAIXAR AS EXPECTATIVAS
É impossível não criar expectativas. Todo mundo vai criar expectativa. A questão é renunciar delas. A questão é rebaixá-las. Elas vêm. Elas vão vir. Não está dentro da perspectiva da escolha, criar ou não expectativa. Mas está dentro da capacidade do sujeito rebaixá-la. Ser capaz de renunciá-la, por conta de uma relação saudável. Uma relação saudável precisa rebaixar ao máximo o nível das expectativas.
EXPECTATIVAS
O que acontece numa relação baseada na expectativa? Não é que não vai criar expectativa. Vamos criar expectativa. Expectativas vão se criar naturalmente, mas uma relação baseada na expectativa, quando o sujeito não é capaz de renunciar as suas expectativas, o que acontece é que, ou o sujeito vive a relação iludido, ou o sujeito passa a exigir que o outro se torne aquilo que ele gostaria que ele fosse. E aí, eu começo a abusar do outro, eu começo a exigir do outro, eu começo a viver uma experiência onde o outro passa o tempo todo sendo oprimido.
RELAÇÃO VERDADEIRA
Toda a relação começa assim. Ela inicia desta forma. Você se aproxima das coisas por algo que você imagina ser e nunca por algo que realmente está sendo. O Freud vai dizer, com muita clareza: “a primeira forma de se relacionar com pessoas e coisas é a relação por identificação”. Então, a gente se aproxima das pessoas e das coisas porque a gente se identifica com aquilo. Porque a gente vê naquilo, alguma coisa que já estava em nós. No entanto, esta relação para ser bem-sucedida, ela precisa evoluir para um outro modelo. Ela inicia através da perspectiva do futuro, mas eu preciso rebaixar, ou renunciar essa expectativa, para começar viver uma relação o mais próximo do real possível.
TRANSFORMAR
A transformação, aquilo que faz com que o sujeito se torne alguma outra coisa, ou deixe de ser aquilo que ele estava sendo, nunca estará subordinada ao querer, ao desejar. Ninguém, se transforma porque quer. O outro não se transforma porque eu quero. Ninguém se transforma através do desejo. A gente se transforma através do fluxo do desenvolvimento da maturação emocional. Esta maturação emocional vai trazendo a possibilidade de desobstrução do caminho, desobstrução das ilusões que a gente vai criando e alimentando. E essa desobstrução vai propiciando a transformação. Eu não mudo porque eu quero, eu não mudo porque o outro quer que eu mude, mas eu mudo porque eu amadureci o suficiente para renunciar aos benefícios que estas ilusões me traziam e passo então a me transformar.
AFASTAMENTO
O afastamento é sempre saudável, na medida em que está havendo um conflito emocional e afetivo. É importante que eu possa ter esse distanciamento. Não é o distanciamento físico, mas é o distanciamento emocional. Muitas vezes, as pessoas podem estar morando no mesmo lugar, podem estar pertinhos um do outro, mas tem a capacidade de se afastar afetivamente, emocionalmente. Para que esse afastamento? Para que o vínculo possa se readequar a um modelo possível. Continuar ligado da mesma forma, não vai permitir a transformação necessária. Ele vai precisar, impreterivelmente de um afastamento. E aí, a gente pode se lembrar lá do conto dos porcos espinhos do Schopenhauer, onde os porcos espinhos se afastavam porque um estava espetando o outro, mas voltava a se aproximar, porque o frio estava forte e um queria aquecer o outro e aos pouquinhos. nesse “afasta e aproxima”, eles foram encontrando um distanciamento adequado para que eles pudessem se aquecer, mas não se espetassem.
quinta-feira, 13 de junho de 2024
PASSADO, FUTURO E PRESENTE - Prof. Renato Dias Martino
Qual é a proposta de se estudar o passado, o futuro e o presente? Essa ideia vem de uma sementinha que o Bion propôs. O Bion propõe, mais especificamente, ali, no ATENÇÃO E INTERPRETAÇÃO, publicado no Brasil em 1970. Ele propõe a ideia de que um psicanalista, para exercer a sua prática clínica, precisa rebaixar o máximo possível, do resgate dos dados armazenados na memória, ele precisa rebaixar o máximo possível da sua expectativa, do seu desejo e que ele seja capaz de tolerar a sua ignorância, logo, rebaixar a ânsia de saber. Que, na realidade, ânsia de encaixar a experiência presente naquilo que ele já sabia, ou naquilo que ele supostamente acreditava saber. Pensar, refletir sobre passado futuro e presente é uma necessidade dentro da manutenção das articulações no manejo da prática clínica. Se ele estiver sendo capaz de rebaixar ao máximo a sua memória, a sua expectativa e a sua ânsia de saber, ele está sendo um psicanalista.
SABER
É importante a gente pensar também que, quando a gente fala de rebaixar a memória e rebaixar a expectativa, a gente está falando, diretamente, da questão do saber, do conhecer. O conhecimento depende do resgate de dados da memória. Quem conhece, conhece alguma coisa porque registrou alguma coisa na memória. E este resgate da memória vai acontecer justamente com uma tentativa de dar conta do futuro. E este resgate, também tem a ver com uma angústia de reconhecer que, aquilo que passou, passou. Não existe mais! Então, uma tentativa de resgatar a memória é deixar vivo aquilo que já morreu. Resgatar os dados da memória é uma defesa quanto a angústia daquilo que passou e que não volta mais e tentar aplicar esses dados no futuro, uma defesa contra o sentimento de ansiedade que é gerado pela perspectiva daquilo que virá.
MATERNÁGEM
O modelo freudiano da psicanálise, tem muito mais uma característica paterna, da função paterna, do que materna. Foi a partir das formulações da Melanie Klein que o modelo do analista passou a ganhar atributos da maternágem. Não é que perdeu as características da paternágem, por assim dizer, mas ganhou mais estas características, de holding segundo o Winnicott, de rêverie, ou função-alfa, segundo Bion. Ganhou essas características e o analista passou a trazer elementos da função materna também para o manejo da prática clínica. Dentro dessa perspectiva a proposta de rebaixar a memória, rebaixar o desejo e a compreensão, tem muito a ver também com a prática da maternágem, a prática da mãe. A mãe precisa rebaixar isso. A mãe precisa rebaixar aquilo que ela sabia sobre seu filho, porque o seu filho está em franco desenvolvimento. Porque, o seu bebê está em transformação constante. Cada dia a criança é uma outra pessoa e esta mãe precisa estar mais livre possível das suas expectativas em relação à criança, para que essa criança possa desenvolver de maneira saudável. Reconhecer esta criança a cada encontro, conhecer novamente e respeitar. RESPECTUS - RE = de novo + SPECTUS = prestar atenção, novamente e perceber o desenvolvimento dela.
domingo, 19 de maio de 2024
FUTURO E DESEJO - Prof. Renato Dias Martino
FUTURO E DESEJO
Quando a gente fala de futuro, daquilo que está por vir, isso está relacionado, diretamente ao desejo, a expectativa. Aquilo que se deseja que venha e quanto isso passa a ser nocivo dentro da prática clínica. Não só dentro da prática clínica na psicoterapia, mas na nossa vida cotidiana mesmo. Todas as vezes que a gente alimenta, que a gente estimula a expectativa sobre aquilo que virá, a gente vai, de alguma forma, se desconectar daquilo que está sendo. Dentro da prática clínica isso passa a ser um sacrilégio, mas dentro da nossa vida cotidiana, todas as vezes que estamos estimulando as expectativas, estamos nos desconectando do tempo presente e não estamos sendo capazes de viver as experiências do tempo presente. O problema não é criar expectativas, as expectativas vão surgir, vão ser criadas espontaneamente. Naturalmente, as expectativas vão se criar. O Bion até coloca que o bebê nasce com uma expectativa inata de seio. Não existe a possibilidade de não criar expectativas, mas existe a possibilidade e carecemos de renunciá-las.
RENÚNCIA
Para que o sujeito seja capaz de renunciar de um desejo, ele precisa primeiro reconhecer que ele deseja. Muitas vezes, ele não consegue, sequer reconhecer que ele deseja alguma coisa. E aí, ele se defende por desejar aquilo, ele se defende daquele desejo, e aí, ele se afasta cada vez mais da possibilidade de elaboração. Reconhecer esse desejo, passar a respeitar a si mesmo porque tem este desejo e se responsabilizar por desejar isso. A partir desses três “Rs”, ele passa a ser capaz de um quarto “R”, que é a renúncia.
SINTOMA
O desejo vai acontecer. A tendência a expectativa é inata do ser humano. Ele vai desenvolver desejos. No entanto, o desejo, para ser saudável, ele precisa ser renunciável. O desejo saudável é aquele que o sujeito consegue renunciar. Se ele conseguir renunciar esse desejo é saudável. Se ele não conseguir renunciar, esse desejo é um sintoma.
terça-feira, 12 de março de 2024
LEMBRANÇAS, EXPECTATIVAS E RECONHECIMENTO - Prof. Renato Dias Martino
MEMÓRIA E IMAGINAÇÃO
Aquilo que a gente se lembra, aquilo que que a gente resgata enquanto dados armazenados na memória está muito próximo do daquilo que a gente cria. Muitas vezes, se confundem. A gente tem uma dificuldade muito grande de prestar atenção nas coisas. Quando a gente olha para alguma coisa, quando a gente vive alguma coisa, a maior parte da nossa percepção disso diz respeito a uma tentativa de aproximar isso de algo que a gente já viveu. Então, o que a gente lembra não é o que ocorreu, mas é aquilo que a gente imagina ter ocorrido.
EXPECTATIVAS
A expectativa é a fonte das frustrações. O futuro nunca vai ser da forma como a gente deseja, como a gente espera que seja. O futuro é mistério, o futuro é incerto. E quanto mais a gente conseguir rebaixar as nossas expectativas... Não é, não criar expectativas, não dá para não criar expectativas. A gente vai criar expectativa naturalmente, mas o importante é ser capaz de rebaixar essas expectativas. Não cultivá-las, não incentivá-las. Quanto mais a gente conseguir rebaixar, mais de acordo com a realidade a gente vai estar.
PRESENTE
Aquele que consegue viver o presente é agraciado, porque nós temos uma dificuldade muito grande de viver o presente. Porque o presente não admite o conhecimento. Você não pode conhecer o presente. Você pode, no máximo, vivê-lo, se você tiver de bem consigo mesmo. E isso é desconfortável. Lidar com algo que não pode ser conhecido só pode ser vivido.
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