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terça-feira, 19 de maio de 2026

RECONHECER, RESPEITAR E RESPONSABILIZAR-SE - Prof. Renato Dias Martino

 

Cinco conceitos presentes no desenvolvimento emocional afetivo. Desenvolvimento, maturação, ou ainda a possibilidade de reparação do funcionamento emocional-afetivo. Lembrar que eu falo funcionamento emocional-afetivo? Porque, quando a gente fala emocional a gente está falando daquela experiência de algo que está dentro e vai para fora. “Moção” quer dizer movimento e “E” quer dizer para fora. E afetivo é aquilo que implica a relação com o outro. AFACERE. “A” em direção a e “FACERE” é fazer. Fazer alguma coisa em direção a. Então, temos aí, uma emoção que encontra um afeto. Quando a gente está falando de desenvolvimento, maturação emocional-afetiva, ou ainda, reparação emocional-afetiva quando a gente está falando desse tipo de experiência, nessa ordem de experiência, eu preciso impreterivelmente do outro. Não existe a possibilidade de desenvolvimento, de maturação, ou de reparação no funcionamento emocional-afetivo, que não tenha a implicação do outro. Ou seja, o estabelecimento do vínculo. Então, todas as vezes que a gente estiver falando de formulações psicanalíticas, nós temos implicado aquilo que lá em 1963, Bion sugeriu como primeiro elemento de psicanálise. Lá em ELEMENTOS DE PSICANÁLISE. Qual é o primeiro elemento de psicanálise para o Bion? É a relação entre continente e contido. É muito simples isso: algo passa a ser contido e algo que passa a conter. Então, precisa haver isso que aqui nós chamamos de acolhimento. Algo que está propício a acolher e algo que está disposto a ser acolhido. Quando a gente tem esse encontro, passa a ser possível a expansão, a maturação desenvolvimento, ou ainda, a reparação, a restauração, a entrada do outro é preponderante no funcionamento emocional-afetivo. Tanto para as experiências bem-sucedidas, quanto mal sucedidas é o outro que traz a possibilidade do desenvolvimento. É o outro que traz a possibilidade da reparação, mas também é o outro que vem para estragar tudo. Quando eu não cuido morre, quando eu cuido mal cuidado, volta-se contra mim, agora, quando eu cuido bem, cuidado com o amor, com dedicação, com sinceridade, aí vira minha esperança. Então, nós temos aqui uma analogia muito interessante, que é da semente e do solo fértil. Então, todos os elementos que nós vamos ver aqui; um por um, carecem de um olhar dentro dessa analogia da germinação. Da possibilidade de uma semente germinar. Então, nós não vamos estar falando aqui, em nenhum momento, do “deveria ser assim”, tem que ser assim, mas nós vamos olhar para isso, reconhecer isso, como se reconhece uma planta que vai germinando. Ninguém está olhando você precisa fazer isso, tem que fazer assim. Você não tem que, você olha para semente, você não fala para ela: “agora você tem que fazer isso”. Se ela encontrar um solo fértil, vai acontecer, se ela não encontrar, não vai acontecer e o desenvolvimento emocional é assim também. Não tem que ser, vai ser, se houver todo o ambiente saudável e próspero, profícuo o bastante para que isso possa acontecer. Então, alguns elementos que vão se suceder, dentro do desenvolvimento emocional-afetivo, sendo que não existe a possibilidade de sobreposição de um elemento ao outro. Existe um processo que respeita um fluxo e ao mesmo tempo não existe retrocesso. Pode haver sim, uma obstrução. Eu diria até que, na maioria das vezes há uma obstrução, mas retrocesso não. Não existe retrocesso dentro do desenvolvimento emocional-afetivo, por isso que eu sou categórico em dizer que a palavra “regressão”, “regredir”, é completamente inadequada dentro das formulações psicanalíticas. Não existe regressão. Existe fixação, por conta de uma obstrução, mas não regressão. “P 3R T” O primeiro é o “P” – PERCEPÇÃO. Perceber algo no funcionamento emocional afetivo. Este é o ponto de partida o sujeito percebe algo e este algo que ele percebe é impreterivelmente um desconforto. Todo o crescimento, toda experiência, todo e qualquer movimento do aparelho emocional-afetivo, parte de um desconforto. Não existe qualquer experiência emocional-afetiva que não tenha partido do meu desconforto. O Freud chamava isso de libido, pulsão. A libido, quando se movimenta, ela tem a tendência de pulsão e isso é sentido pelo corpo como um desconforto. Antes do Freud, o Schopenhauer já chamava isso aí de vontade, vontade de viver. A vontade de viver é um desconforto. Antes do Schopenhauer, Kant já chamava isso aí de “coisa em si”. A “coisa em si” é desconfortável, incognoscível, eu não posso conhecer isso, eu só sinto como um desconforto. Esse desconforto pode ser sentido como uma insegurança, como um medo, tristeza... Esses desconfortos vão se desdobrar em raiva, hostilidade, inveja e um monte de coisa que a gente vai chamar de indesejável. Por isso, a percepção tem um perigo de obstrução, porque o sujeito sente isso e ele quer acabar com isso. Você sente uma coisa ruim, você quer acabar com aquilo, ali você quer controlar aquilo, você quer cessar aquilo e este é o grande problema. Porque aí, você aborta o processo. Aí você obstruir processo. Muitas vezes, o sujeito percebe alguma coisa, percebe um desconforto no funcionamento-emocional dele e ele corre direto para o psiquiatra, para que ele possa ser medicado, para ele parar de sentir aquilo. Mas é aquilo ali que vai fazer com que ele se desenvolva emocionalmente. O sujeito perde alguma coisa e ao invés dele passar pelo processo do luto, ele sente entretecimento por conta da perda e ele já vai se medica e acabou. Agora, não é só o medicamento. O medicamento, talvez seja a mais complicada de todas, a mais difícil, porque, quem te dá esse medicamento é um doutor. E aí, não tem como discutir com o doutor, né? E obstrui esse processo, abortar o processo, logo de início de percepção. Um outro, de outras formas, você pode com uso de algo drogas, abusos de compras, compulsão de compras, compulsão alimentar, tem um monte de jeitos do sujeito desviar obstruir o processo de desenvolvimento emocional dele no comecinho que é a percepção da dor. Principalmente se ele estiver sozinho, principalmente se ele não puder contar com o primeiro elemento de psicanálise, que é continente<>contido. Principalmente se ele não puder ser acolhido pelo outro, principalmente se essa sementinha não encontrar um solo fértil para germinar. Aí vai abortar... Mas não abortando e conseguindo tolerar o desconforto da percepção, ele passa para a próxima fase do processo, que é o RECONHECIMENTO, que é o primeiro “R” dos 3 erres. “P 3R T” Quando o sujeito admite realmente que ele sente aquilo e que aquilo ali está nele. Eu reconheço isso, eu não só sinto isso, eu não só percebo isso, mas eu reconheço que isso está ali, eu reconheço isso e reconheço que isso está em mim. Porque eu posso pensar que está no outro, eu posso projetar isso no outro. Não, mas eu admito a existência disso e admito que isso está em mim. Aí, também pode ser obstruir, se ele estiver no reconhecimento, ele não pode retroceder. Mas reconheceu não tem como voltar, não tem como deixar de perceber, porque ele já reconheceu. Agora, ele pode obstruir aí, ao invés de reconhecer ele passa a tentar saber sobre isso. Não reconhecer, mas conhecer isso, entender o que é isso, compreender o que é isso, que não está na ordem do cognoscível. Não, você não pode saber o que é isso, se você der um nome para isso, ali naquele momento você aborta o processo. Você precisa tolerar a dúvida, reconhecer isso tolerando a dúvida. Reconhecer não é conhecer, é admitir a existência. Procura o diagnóstico por exemplo, E aí, ele vai no psiquiatra, o psiquiatra vai dar um nome para aquilo. Porque ele tentou cessar aquilo, ele tentou parar aquilo, ele tentou controlar aquilo, que na realidade é o fluxo do desenvolvimento emocional dele. Dolorido, desconfortável. Muitas vezes, é nesse momento que o paciente interrompe a psicoterapia, porque ele reconhece que aquele desconforto está nele, não está no outro e que é da competência dele tratar aquilo. Reconhecendo isso e essa palavra “reconhecer”, ela é sugestiva, né? É polissêmica, né? Ela tem vários sentidos, um deles é “conhecer novamente”. Cada encontro que eu tenho com isso é como se eu não conhecesse. Então. eu conheço novamente cada vez que eu sinto isso. Eu sinto de uma forma diferente e é por isso que o Bion nos orienta: sem memória. O analista precisa não estar se baseando, se apoiando nos conteúdos armazenados na memória sobre o paciente, sobre qualquer coisa, porque cada vez que o paciente chega, é uma pessoa nova que tá ali. Ele tem a chance de ser uma pessoa nova e isso passa a ser um modelo para o sujeito tratar a si mesmo, cada vez que ele entra em contato consigo mesmo ele precisa entrar em contato com alguém novo. O vínculo é um vínculo novo. Então, reconhecer. Mas essa palavra ela é muito mais do que conhecer novamente, ela também é ser grato. Ser grato por ter percebido um desconforto. Consegue? Porque, muitas vezes a gente sente um desconforto a gente quer evitar. Aquilo é ruim. Mas como é que eu posso ser grato por algo que é confortável. Pois é! Porque isso daí é a chave da minha libertação, que se eu for capaz de tolerar isso, isso daí vai crescer, vai me tornar uma pessoa melhor. Reconhecer também é ser grato. Bom, se foi possível reconhecimento e não fiquei obstruído no meio do caminho, passamos para a próxima etapa: aprender a RESPEITAR. Eu PERCEBI, admitia a existência, RECONHECI e agora, eu passo a RESPEITAR isso que eu reconheci. Agora, eu posso ficar na etapa anterior, não posso? Reconhecer alguma coisa não garante que eu seja capaz de respeitar isso que eu reconheci. Foi o que a gente falou: o paciente pode obstruir o processo aí. Ele reconheceu, mas não deu conta de respeitar aquilo. Se ele conseguir encontrar a possibilidade de estabelecer a relação continente<>contido, como nos orientou o Bion, passa a ser possível expandir para aprender a respeitar isto que foi reconhecido. Vamos usar o exemplo do medo. Percebi um medo, reconheci esse medo e agora eu passo a respeitar este medo. Ao reconhecer este elemento, ele já não é mais um intruso na minha mente, ele foi reconhecido, ele já não é mais um elemento estranho. Eu já percebo aquilo ali como um integrante do meu processo psíquico, meu processo emocional-afetivo. Não é estranho, mas é meu e se é meu eu preciso aprender a respeitar esta limitação. Se foi possível chegar até aí, é porque a gente teve ali um vínculo bem sucedido. Tivemos aí, uma experiência de acolhimento. Porque, só a experiência de acolhimento pode levar o sujeito a chegar a respeitar isso que ele admitiu a existência e que ele percebeu. Um medo, vamos voltar no medo. Quando ele percebe o medo, reconhece esse medo e passa a respeitar este medo, este medo que um dia foi uma obstrução das experiências dele, das atitudes dele, que estavam sempre povoadas de medo, sempre inundadas de medo, se chegar até o respeito, este medo passa a ser um integrante da prudência. Já não é o medo paralisador, é um medo que traz para ele prudência, autopreservação. Mas ele precisa ter aprendido a tolerar a ponto de respeitar. Aí, já não é obstrutor, protege e faz com que ele consiga viver as experiências dele de uma maneira muito mais saudável. Nem paralisado e nem é inconsequente. Se eu conseguir aprender a respeitar, eu passo para a próxima fase, que é aprender a me RESPONSABILIZAR por isso. Responder por isso. Isso é meu, faz parte de mim e eu me responsabilizo por isso. E não só me responsabilizo por isso, mas eu me responsabilizo por todas as consequências disso na minha vida. Todo esse processo é impossível, é inaplicável sem o vínculo afetivo com o outro, sem que outro possa me ajudar a fazer isso não dá para fazer isso sozinho. Não se faz isso sozinho, é impossível. Por mais que você tenha comprado vinte, trinta livros de autoajuda, que dizem para você que dá para fazer sozinho, não, dá! Quando eu passo a me responsabilizar, abre-se a possibilidade de TRANSFORMAÇÃO. Agora, todo esse processo é vivido com uma incerteza enorme. Cada etapa não tem certeza nenhuma. Não existe certeza nesse processo e a transformação é uma grande insegurança. Porque quando a gente fala que de transformação, essa palavra parece ser muito bonita, mas a transformação quer dizer que você está saindo de uma forma e transformando para outra e você não sabe qual é esta outra. Quando você vê ali a lagarta virando borboleta é muito lindo, né? Você já sabe que a lagarta vai virar borboleta. Mas quando é você que é a lagarta, você não tem qualquer noção de que borboleta que você vai virar. Você pode ser uma lagarta da beronha, né? Sei lá! Ué! Do Besouro Rola Bosta, né? Desculpa brincadeira, mas não é isso? Você não sabe o que que você vai se tornar. E se você vai ser capaz de ser responsabilizar por isso você vai se tornar.

 






Prof. Renato Dias Martino

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segunda-feira, 18 de agosto de 2025

MATURIDADE, DÚVIDA E ILUSÃO - Prof. Renato Dias Martino


Quando funcionamos bem no âmbito emocional, torna-se possível exercer plenamente a função afetiva na relação com o outro.


Tolerar desconfortos é a base de um bom funcionamento emocional.

Desenvolvemos a capacidade de tolerância a partir de um vínculo bem-sucedido com o outro, e a possibilidade de estabelecer e manter um vínculo saudável depende dessa mesma capacidade.

O bom funcionamento emocional favorece o desenvolvimento da maturidade nessa esfera, onde certezas são impraticáveis.

Quanto mais desenvolvida for essa maturidade, maior será nossa capacidade de reconhecer, respeitar e nos responsabilizarmos por nossa ignorância em relação à realidade.


A maturidade emocional manifesta-se na capacidade de tolerar a dúvida; a estupidez, na insistência em certezas.

A ignorância é uma condição inerente a cada um de nós; a estupidez é a recusa em admiti-la. Não se pode exigir que alguém reconheça a realidade, nem censurar quem ainda se alimenta de ilusões.

Quanto ao reconhecimento da realidade, não há escolha: ou se está sendo capaz, ou não.

A saber, essa capacidade é transitória, depende do momento, das condições emocionais internas ou ainda das condições do ambiente emocional e afetivo.
Logo, a expressão “estar sendo capaz” é mais adequada do que a afirmação “ser capaz”.

Cada um compreende apenas o que lhe é útil. Não há como se libertar de uma prisão que não se reconhece como tal.

A transformação verdadeira brota do íntimo, quando a vida mescla dor e cuidado.

Quando as ilusões se desfazem e a insegurança emerge, o acolhimento do outro torna-se o sopro essencial para que o sujeito renasça.










domingo, 3 de novembro de 2024

SOBRE A VONTADE E A PSICOTERAPIA - Prof. Renato Dias Martino




VONTADE OBSTRUTORA 

Se a gente for levantar aí as nossas aulas, pelo menos aí, nos últimos meses, a gente vai ver que a gente tem falado muito sobre a vontade, sobre a vontade e sobre o desdobramento dessa vontade no desejo. Por que isso é tão importante? Porque é justamente a vontade e o desejo no desdobramento da frustração da vontade que vai ser um fator fundamentalmente obstrutor da nossa prática diária da psicanálise na clínica. Todas as vezes que a nossa vontade sobressair ao reconhecimento da realidade e isso a miúde pode acontecer, este acordo que pode ser travado entre o sujeito e a realidade vai ser comprometido, vai ser poluído. Ou seja, o sujeito deseja alguma coisa, ou ainda a sua vontade está prevalecendo e por conta disso ele tem dificuldade de reconhecer a realidade, tendo dificuldade de reconhecer a realidade ele não é capaz de respeitar esta realidade, não sendo capaz de respeitar essa realidade ele não é capaz de se responsabilizar por si mesmo e pela realidade e aí, estamos obstruídos de um fluxo no vínculo que pode ser estabelecido com o paciente.

ACORDO

O Bion propõe a ideia de “sem memória, sem desejo e sem compreensão”, então ele diz assim quanto menos você resgatar dados da memória, quanto menos você estiver sendo conduzido pelo seu desejo, quanto menos você estiver com ânsia de saber, ou com uma ânsia de tentar encaixar aquilo que está acontecendo no que você já sabia, mais de acordo com a realidade você estará. No entanto, tanto o conhecimento, quanto o resgate dos dados da memória, estão subordinados ao desejo. É o desejo que faz você resgatar as coisas da memória. É o desejo que faz você tentar encaixar aquilo que você está vivendo no já sabido. Então, é muito importante que a gente possa olhar para o desejo como algo que é fundamentalmente obstrutor na prática da clínica. Nos impede de reconhecer a realidade e portanto nos obstrui de entrar num acordo com esta realidade.

RENÚNCIA E FRUSTRAÇÃO 

A questão de renunciar do desejo está subordinada à capacidade de tolerar a frustração, que é gerada pela incerteza. Quando eu não sou capaz de tolerar a incerteza, eu estou apegado àquilo que eu gostaria de ser. Eu tomo como real aquilo que eu gostaria de ser, ou aquilo que eu gostaria que fosse a realidade e isso é justamente o desejo.

PROJEÇÃO 

Quando o analista está vivendo uma grande dor, por exemplo e de alguma forma ele ainda evita sofrer essa dor. Isso é muito importante! A gente separar, sofrimento de dor. Sofrimento, sugere movimento e dor é algo que você sente. Sofrer a dor é diferente de sentir a dor. Quando você sofre essa dor, essa dor tende a se transformar. Diferente de quando você simplesmente sente essa dor. Quando o analista está com dificuldade de sofrer a dor, ele pode projetar esta dor que ele ora está sentindo no paciente. Quando ele projeta essa dor no paciente, porque o paciente sugeriu algo parecido com essa dor, ele passa a tentar solucionar ou resolver ou ainda amenizar essa dor do paciente então ele projeta, essa dor, no paciente e tenta então resolver a dor do paciente, amenizar a dor do paciente. Quando ele está em dia com a sua análise pessoal, quando ele está integrado, ele consegue tolerar esta dor até que ele possa sofrer esta dor para que haja uma transformação, mas para isso ele precisa ser capaz de renunciar ao seu desejo e adiar das suas vontades.

FUGA

Muitas vezes, quando a gente está sentindo uma dor muito intensa, quando a gente está sentindo uma angústia muito grande, uma ansiedade muito grande, a gente tende a fugir dessa dor, dessa dor psíquica, dessa dor emocional. E tudo bem! Não tem problema, nós vamos fazer isso a miúde, mesmo. Nós vamos fugir dessas dores. No entanto, a gente precisa ter consciência de que fugir de uma dor psíquica é impreterivelmente se iludir. A fuga da dor emocional é a ilusão, que vai gerar alucinação, que vai gerar delírios. Ninguém foge de um processo psíquico, ele se engana estar fugindo.

SENTIMENTO, EMOÇÃO, AFETO E VÍNCULO

Quando a gente fala de emoção, vamos começar pela emoção, eu penso ser muito importante a gente partir da semântica da palavra. “E + MOÇÃO” E, no latim é ex. Corta-se os X, aí quer dizer para fora e MOÇÃO é movimento. Então, movimento para fora, ou seja, algo que está dentro que vai para fora, se projeta no mundo externo. A emoção é impreterivelmente algo que eclode do mundo interno. O sentimento já é algo que você sente independente de externalizar. Eu sinto isso e isso não necessariamente vai gerar uma emoção. É claro que toda emoção é gerada de um sentimento, mas nem todo sentimento gera uma emoção. Sentimento é algo que me faz mobilizar algo internamente e emoção é quando eu externalizo isso. Quando eu coloco para fora, quando eu manifesto isso no mundo externo. E aí, vale acrescentar mais uma experiência que é do afeto. A quer dizer em direção alguma coisa e FACERE quer dizer fazer. Fazer alguma coisa em direção. Então, um sentimento gera uma emoção e esta emoção está buscando um afeto que possa afetá-la. Quando esta emoção encontra um afeto acontece um vínculo.

MODELO

Cada psicoterapeuta tem a sua técnica, cada psicoterapeuta tem a sua maneira, a sua metodologia de praticar a psicoterapia. Não só cada psicoterapeuta, mas existem inúmeras teorias de aplicabilidade psicoterapêutica, no entanto, seja a prática que for, seja o método que for, seja a técnica que possa ser usada, na realidade, o que realmente é transformador é o vínculo saudável que se estabelece entre as duas pessoas, psicoterapeuta e paciente. Como é que funciona isso? Você propicia a possibilidade de se estabelecer um vínculo saudável com esse paciente, este vínculo ora estabelecido vai começar a se tornar um modelo de vínculo para que o paciente possa internalizar e aplicar na relação que ele tem consigo mesmo. Muitas vezes, ele não consegue reconhecer a si mesmo. Muitas vezes, ele não consegue respeitar a si mesmo. Muitas vezes, ele não consegue se responsabilizar por si mesmo, mas dentro do vínculo psicoterapeuta/paciente vai haver a possibilidade disso. O psicoterapeuta vai reconhecer esse paciente, vai respeitar este paciente, vai se responsabilizar por esse vínculo com o paciente. E o paciente vai aprendendo isso e internalizando. E ele passa a fazer isso em relação a si mesmo. A partir desse vínculo que ele vai reparando consigo mesmo, ele vai sendo capaz de estender este mesmo modelo nas relações que ele tem com as pessoas. E não só estender este modelo na relação com as pessoas, mas ser capaz de avaliar se a pessoa que ele vem a se relacionar é capaz de manter um vínculo desta qualidade e se afastar das pessoas que definitivamente ele perceba que não são capazes de manter esta qualidade de vínculo saudável.

TRANSFORMAR 

A psicoterapia não promove transformação, ela propicia um ambiente para que a transformação possa acontecer. A transformação vai acontecer por si só, não é a psicoterapia que promove. A psicoterapia propicia um ambiente para desobstruir a possibilidade de transformação. O sujeito não se transforma porque ele está obstruído de um monte de coisas que ele foi criando e colocando no seu caminho e que vão represando a sua possibilidade de fluxo do desenvolvimento. A psicoterapia é um recurso de desobstrução. Então, o que realmente propicia desobstrução é um vínculo saudável, é um vínculo que tenha dedicação e limite, amor e verdade. Dedicação é amor. Acolhimento! O que é acolhimento? É amor com limite. Acolher é algo que carece de limite, mas também carece de dedicação, de doação, de atenção, mas isso tudo dentro do limite. Qual é o limite? O limite da capacidade de ambos. Precisamos respeitar o limite de cada um. O limite do analista e o limite do paciente. O quanto o analista é capaz de se doar. Tem um limite. O quanto o paciente é capaz de se doar. Tem um limite!

DEBRIS

Auto-lapidação! É muito bonito isso. O que é lapidação? É ir retirando as partes que não são tão nobres de si mesmo e se desfazendo daquilo que talvez não seja saudável de si mesmo e ficando só com a essência. Esta questão de auto-lapidação é muito bela. O Bion vai falar dos debris. Ele vai falar dos escombros, dos entulhos que o paciente chega na clínica e você vai ajudando ele a tirar aquilo de cima dele para ver o que é que sobra de verdadeiro. Então, essa questão é muito e interessante, é muito bela, de ir se autou-lapidando daquilo que não é nobre, daquilo que não te ajuda, daquilo que só te obstrui o fluxo da sua própria vida.

SOFRER A DOR

O Bion trata sobre essa questão do sofrer a dor e o sentir a dor lá no ATENÇÃO E INTERPRETAÇÃO, 1970. Então, ele vai dizer que alguns pacientes não são capazes de sofrer a dor. Eles sentem a dor, mas eles não conseguem submeter essa dor ao sofrimento. Ele não consegue viver essa dor, então ele padece da dor. Ele sente aquela dor repetidamente, da mesma forma e ele se lamenta daquela dor. Ele reclama daquela dor, mas ele não consegue sofrer aquela dor. Quando ele coloca esta dor dentro da perspectiva do sofrimento e se propõe a realmente sofrer esta dor... O que é sofrer essa dor? É RECONHECER essa dor como sua, é aprender a RESPEITAR essa dor e é se RESPONSABILIZAR por essa dor. Quando ele consegue esses três “Rs”: reconhecer, respeitar e se responsabilizar, essa dor começa a se transformar em algo nobre, em aprendizado e já não está mais naquela perspectiva da lamentação, do padecimento, mas esse sofrimento leva à transformação. Não é simplesmente... Sofrer a dor não é simplesmente sentir a dor, mas é viver essa dor para que ela possa se transformar. Mas, para isso eu preciso de tolerar essa dor. Quando eu estou padecendo da dor e não estou sofrendo da dor, eu estou a aguentando essa dor, eu não estou tolerando a dor. Quando eu tolero, ela se transforma. Quando eu aguento... E o que é aguentar? É suportar como se suporta um peso. Então, quando eu aguento, quando eu suporto, aquela dor fica represada e não se transforma. E aí, a gente vai chamar em psicanálise isso daí de melancolia, de estado de melancolia. Quando o sujeito submete essa dor ao sofrimento ele passa a viver o processo do desta dor e aí é transformador.

RESPONSABILIDADE

Um exemplo claro de sentir a dor, de padecer da dor e não sofrer da dor: eu sinto essa dor dentro de uma perspectiva de angústia, de ansiedade, de medo, de insegurança e eu atribuo ao outro a responsabilidade disso. “Foi você que me deixou inseguro!” “Quando você faz isso eu fico assim!” “Foi você que provocou isso!” E aí, eu brigo com o outro, porque eu não sou capaz de reconhecer que essa dor é minha, que é uma insegurança minha, que eu não estou sendo capaz de reconhecer isso como meu, não estou sendo capaz de respeitar isso como meu e não estou sendo capaz de me responsabilizar por isso. Então, eu coloco no colo do outro e digo: “É você quem faz isso acontecer comigo!” E aí, o que acontece? Quando o sujeito sente a dor e padece da dor e não é capaz de sofrer a dor ele prejudica todo mundo que está em volta dele. Todo mundo se sente culpado por aquilo. Quando, na realidade, é o sujeito que precisa se responsabilizar por isso.

CULPA

Qual é o antídoto para dissolver a culpa? É a capacidade de se responsabilizar. Não existe outra coisa! Mas, qual é o benefício do sujeito manter a culpa, se manter se sentindo culpado? É justamente atribuir ao outro esta culpa. “A culpa é minha, eu coloco em quem eu quiser!” Manter a culpa tem um benefício. Reconhecer, aprender a respeitar e se responsabilizar pelo fato é muito trabalhoso. Requer uma dedicação enorme. Requer uma capacidade de frustração muito grande. Não é para qualquer um. É muito mais fácil eu jogar para o outro. É muito mais fácil eu armar um caos, sair brigando com todo mundo, gritando, esbravejando, do que me responsabilizar por isso, do que cuidar disso na minha análise pessoal.

REALIDADE

Nós temos a tendência de enxergar no mundo aquilo que coincide com a nossa vontade. A gente imagina alguma coisa e procura no mundo isso que a gente imaginou. A possibilidade de reconhecer as coisas reais do mundo é muito difícil para o ser humano. Ele só consegue fazer isso a partir de um encontro bem sucedido com o mundo externo. O bebê precisa encontrar com a mãe generosa, com a mãe suficientemente boa, porque a mãe é a primeira noção de mundo externo. Quando ele não consegue encontrar esta mãe generosa, essa mãe benevolente, essa mãe suficientemente boa, ele vai guardar uma dificuldade enorme de reconhecer as coisas do mundo externo, as coisas reais e vai priorizar aquilo que ele imagina e não aquilo que realmente é.

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

Tenho minhas restrições ali com o Saramago, porque era ateu, mas tudo bem, respeito, não tem problema, mas ele tem obras geniais e uma das obras geniais dele é o Ensaio Sobre a Cegueira, que depois virou um filme tão bacana quanto o livro. Então, muitas vezes, o paciente chega na clínica vivendo uma experiência muito parecida com esta obra. Ele é o único que está sendo capaz de ver, de enxergar, simbolicamente é claro, num ambiente onde está todo mundo cego. E ele chega desesperado por causa disso e muitas vezes, ele acreditando que o mal dele é enxergar. Porque está todo mundo cego e adaptado à cegueira, só que pendurado nele. Muitas vezes, na maioria das vezes o sujeito que procura terapia é o sujeito mais saudável emocionalmente da família.

REPARAÇÃO

Quando a criança é pequena, existe maior possibilidade dele conseguir reparar esta relação com o mundo externo. Conforme ele vai crescendo, conforme ele vai se desenvolvendo, vai se tornando cada vez mais difícil, porque esta interação quando vai passando o tempo, vai criando maiores obstruções maiores ilusões e ilusões muitas vezes, intransponíveis, que não podem ser ultrapassadas na barreira que separa o sujeito do outro. Então, quanto mais terra for a possibilidade de reparação, tanto mais ela pode ser bem-sucedida.