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sábado, 28 de março de 2026

O MODELO DA ESPIRAL NO FUNCIONAMENTO MENTAL - Prof. Renato Dias Martino


 A princípio, serve como mais um modelo na prática clínica. É mais do que uma tentativa de teoria ou qualquer coisa nesse sentido, mas está dentro da perspectiva de um modelo na prática clínica, um modelo que auxilia a reflexão dentro da prática clínica. De início, onde é que me pareceu interessante ou começou a me fazer sentido esse modelo? Na minha vivência particular, na vivência no meu funcionamento emocional. Dentro do meu funcionamento emocional, começou a fazer sentido esse tipo de modelo. E aí, a partir de algumas leituras, de alguns estudos, eu comecei a perceber que outros pensadores também estavam usando este modelo. Então, o que a gente estuda bastante é Bion. E o Bion trata bem a muito sutilmente dessa alegoria, desse modelo. E aí, começou a me surgir a vontade de escrever, de estudar, de dissertar um pouco sobre isso. E aí, escrevi um capítulo, do ACOLHIDA. Eu não trouxe aqui impresso porque está no livro. Acho que todo mundo aqui tem o livro. Se não tiver, tem vários exemplares aí, podem pegar se quiser. Está na página 173, o texto que trata desse assunto. Mas a proposta aqui é ir para além desse texto. Então o Bion traz ali a ideia lá do movimento helicoidal. Ele chamou o movimento helicoidal. E ele chamou atenção para esse movimento, para essa, para esse modelo aplicado à proposta da grade, onde ali existem alguns pressupostos, onde as experiências iriam sendo encaixadas ali nos níveis dessa grade. E ele vai dizer que esta grade evoluiria num movimento helicoidal. O que é um movimento helicoidal? De rotação, assim como no helicóptero. A partir desta ideia, foi me surgindo outras manifestações desta configuração. E não ficou só dentro dessa perspectiva helicoidal, mas ela ficou, ela começou a expandir num movimento progressivo, num movimento espiral progressivo. Que que é um movimento espiral progressivo? É um movimento onde existem voltas, ciclos que são dados e que cada ciclo desse vai expandindo um tanto, vai expandindo um grau. Eu vou para além dessa ideia helicoidal e vamos começar a chamar de movimento espiralado. Então, este movimento espiralado, ele está presente dentro da materialidade das coisas, desde uma da configuração maior, né, da configuração macro, da dimensão mais gigantesca possível que o ser humano possa reconhecer até as partículas mais ínfimas. A gente tem, por exemplo, o movimento espiralado nas galáxias. Então, a galáxia, né, o a formação de uma galáxia, a formação de uma configuração espacial, ela se dá em movimentos espiralados. Fotos aí dos satélites da NASA, Hubble, mostram isso com clareza. Se você procurar, por exemplo, uma imagem de uma galáxia no Google, você vai encontrar um movimento espiralado. E na partícula mínima, no micro, por exemplo, o DNA é configurado com uma espiral dupla. Mas não só dentro dessas configurações, caracóis, a gente tem um movimento, por exemplo, de uma ave de rapina. Quando ela está tentando caçar, ela está fazendo um movimento espiralado. O ciclone é um movimento espiralado. Quando você tira o ralinho da pia, vai formar uma espiral. E a gente pode ir para além, porque existe um pensador chamado Fibonacci, italiano, que ele propõe a curva de Fibonacci, que é um uma configuração geométrica que é aplicável a toda figura ou toda construção coerente, ou uma forma que traz um uma beleza harmônica, uma harmonia, ou dentro da geometria ou dentro da um prédio ou de um quadro. Você vai conseguir aplicar a curva de Fibonacci ali. Então, o que que é a curva de Fibonacci? Rapidamente, a curva de Fibonacci é dois primeiros números somados vão gerar um terceiro número e aí os dois próximos números somados vão gerar mais um número e aí vai se construindo quadros num formato espiralado. Então você tem o um e o dois. Você soma o mais o do vai dar o três. E agora você tem então o dois e o três. Somando o dois e o três, você vai ter o cinco. E aí você vai nessa mesma proporção, você vai ter aquilo que a gente vai chamar de proporção áurea, que é uma simetria que traz uma harmonia na estrutura. Mas nós estamos falando de psicanálise, nós não estamos falando de estrutura da natureza, nós não estamos falando de geometria, nós estamos falando do desenvolvimento emocional que vai se desdobrar na capacitação afetiva. Então, me parece que este modelo também está presente no desenvolvimento emocional. Mas de que forma ele está presente? Ele está presente numa dimensão onde até então havia uma impressão de que a vida ela se dava através de uma repetição. A vida ia acontecendo e aquilo ia se repetindo, ia se repetindo, se repetindo. Tanto me parece que esta repetição ela acontece, mas cada vez que se repete tem a chance de evoluir, tem a chance de crescer. Então, na minha experiência emocional, na minha análise pessoal, eu fui percebendo isso e também fui percebendo isso na análise dos meus pacientes e aí fui tentando ajeitar esse modelo para aplicar nessa experiência. E aí começou a me fazer muito sentido resgatar a proposta Kleiniana do que a gente aprendeu a chamar de teoria das posições. Então a gente vai precisar ter a teoria das posições para que a gente possa entender o movimento espiralado. Então vou aqui me prestar fazer um resuminho do que o que a gente aprendeu a chamar de teoria das posições da Melanie Klein. Vamos imaginar uma espiral, um modelo espiral progressivo, mas não como um modelo afunilado, não sendo uma progressão horizontal, mas uma progressão vertical. Imagine então esta espiral que vai crescendo deitada. O eixo é horizontal, mas as voltas são verticais. como na capa do livro ali um como na capa do livro aí se vocês tiverem o livro aí no texto que eu mandei aí digitalizado, eu fiz um modelinho bem explicativo do que eu estou tentando dizer. Existe um eixo e existem voltas que vão contornando este eixo. Então, imagine que esse lápis é um eixo. Então o lápis está na forma horizontal e as voltas vão acontecendo nessa proporção vertical. Esse eixo horizontal vai ter voltas verticais. Estas voltas verticais vão ter uma peculiaridade. A cada volta vai passar por um ponto mais alto e um ponto mais baixo. Este ponto mais alto vai ser caracterizado por fatores descritos por Melanie Klein como características do que ela chamou de esquizoparanóide. Então, quando a experiência, quando a experiência do sujeito está passando pela volta no ponto superior, ele vai experimentar características do que a Melanie Klein chamou de posição esquizoparanóide. Então, eu vou falar um pouquinho para vocês agora o que é que a Melanie Klein chamou de posição esquizoparanóide. A princípio, Melanie Klein disse assim: "Olha, o bebê vai viver, vai interpolar entre duas posições.” Ora, ele vai experimentar uma posição chamada esquizoparanóide, ora ele vai experimentar uma posição depressiva. Então, vamos reservar a posição depressiva, que é o ponto inferior. Vamos falar então da posição esquizoparanóide, que é a posição que é o ponto superior. Só o bebê vive isso. Não, todos nós vamos viver para o resto da vida. Ora, vamos estar experimentando características esquizoparanóide, ora vamos estar experimentando características depressivas. ESQUIZO quer dizer cindido, cortado, separado e PARANOIDE quer dizer persecutório, perseguidor. Então a posição esquizoparanóide é uma posição onde existe uma cisão do mundo e esta cisão provoca uma sensação de perseguição. Quando estamos no ponto superior da espiral, estamos experimentando características esquizoparanóides. Esta posição superior, ela vai trazer uma sensação de mania, uma sensação de extroversão para fora. A gente vai viver as coisas no mundo externo. A gente vai atribuir as responsabilidades das coisas que a gente vive às coisas do mundo externo. é tudo culpa do outro. Então, características esquizoparanóide estão ligadas à projeção, está no outro. Então, o bebê, tudo que acontece com o bebê, ele atribui a mãe. Mas não é só a mãe, é a mãe dividida em duas, por isso que é esquizo. Então, ele tem uma mãe boa, que é aquela mãe que vem, dá o leite, dá o carinho, afaga. E a mãe ruim, que é aquela que não está, que priva, que não tá ali quando ele quer. Sei o bom e sei o mau. Para o bebê não existe uma mãe só. Existem mães, uma boa e uma ruim. E o trabalho, a função desta posição é separar o que é bom do que é ruim. Então, quando nós estamos no ponto alto da espiral, nós separamos o que é bom do que é ruim, o que é certo do que é errado. Nós criamos critérios para julgar. Então, se alguma coisa deu errado na minha vida, é por causa de fulano. Mas se alguma coisa deu certo, eu atribuo a cicrano. Por mais que a gente chame essa posição de esquizo paranoide, né? E esquizo é sentido, né? Essa palavra esquizo é meio estranha e paranoide, uma coisa persecutória, mas esta posição é muito prazerosa, porque eu tenho a chance de me livrar de tudo que é ruim. Eu não tenho responsabilidade com nada, é tudo outro. E por isso eu tenho um comportamento eloquente, muito, eu faço tudo, eu posso tudo, existe uma onipotência, existe uma onisciência, eu sei tudo, eu consigo tudo. Por quê? Porque se eu não consigo é culpa do outro. Então este ponto superior é o ponto da ilusão. O sujeito está impreterivelmente iludido quando ele está no ponto superior da espiral. Na cultura oriental a gente tem a ideia do véu de Maia. Materialidade. Materialidade. A vida social nos obriga ao ponto superior esquizoparanóide da experiência da espiral. Não é nem questão de ser bom ou ruim, é questão de ser necessário, né? Caio colocou, trouxe uma ideia aqui muito importante, gente. Não existe bom ou ruim, porque se a gente tiver aqui elegendo bom e ruim, a gente está na esquizoparanóide. Não tem bom ou ruim, pode ter prazeroso e desprazeroso. E a esquizoparanóide é muito prazerosa. Lá embaixo a gente experimenta outra posição. Nós estamos falando de posição, ou seja, nós estamos experimentando o tempo todo lá em cima e lá embaixo. Lá embaixo a gente vai experimentar o que a Melanie Klein chamou de posição depressiva. Se lá em cima a gente tinha uma característica muito nítida de fragmentação, de divisão, de decomposição, de desintegração, lá embaixo a gente vai ter a integração. Lá embaixo a gente vai começar a enxergar o mundo e o eu como um todo. Não estamos separados. Não existe separação. Existe limite, mas não existe separação. Existe um limite entre uma coisa e outra, mas essa coisa não está separada da outra. Ela tá junta com a outra. Então, o que um faz implica no que o outro vai fazer. Então, a posição esquizoparanóide é confortável, é prazerosa. A posição depressiva é desconfortável, é incômoda, é frustrante e na posição depressiva cai o peso da culpa. Culpa do quê? de ter atribuído ao outro a responsabilidade pelas coisas que na verdade é de minha responsabilidade. Então o bebê, por exemplo, vai começar a perceber que aquela mãe que ele odiava tanto é a mesma mãe que ele tanto idealizava. E aí ele se sente culpado e ele precisa tolerar essa culpa para poder elaborar esta posição depressiva e começar um novo ciclo de subida. A responsabilização é a evolução do sentimento de culpa. Para que eu possa me responsabilizar, eu preciso ter tolerado o sentimento de culpa até que ele possa ser elaborado e expandir para a responsabilização. Se eu não tolero me sentir culpado, eu não vou conseguir aprender a me responsabilizar. A evolução te leva ao Dharma e cada volta, impreterivelmente é um Karma. Então, cada volta tem uma característica de repetição. E o Karma é isso, vai e volta. É uma repetição. Na medida em que eu tomo consciência desta repetição, eu tenho a chance de no próximo, na próxima volta ser diferente. E cada vez que é diferente, eu me aproximo, eu estou no caminho do Dharma, que é o caminho da iluminação, do ponto superior como sendo a posição esquizoparanóide que carece ser elaborada. E quando a gente fala do ponto inferior, que é a posição depressiva, esta posição também carece ser elaborada. A posição depressiva não é o ponto final da história, ela também carece de ser e elaborada, porque quando o sujeito chega no ponto inferior, ele se sente culpado e se ele se mantiver culpado, ele não elaborou. E aí vai fazer com que o sujeito viva uma experiência de volta em falso, porque ele não deu conta de elaborar e ele vai dar uma volta que vai ser uma circunferência que rodou sem evolução. E o que que vai determinar isso? O acolhimento do outro. Eu só consigo elaborar uma volta da espiral se eu puder contar com o acolhimento do outro. Isso define, não tem como viver experiências de expansão na espiral sem contar com o outro. A pulsão de vida e pulsão de morte vão estar presente nas duas posições. A pulsão de morte na posição esquizoparanóide projetada no mundo externo. E aí aí o Freud vai chamar de pulsão de destruição. Eu me sinto angustiado, eu me sinto ansioso e eu arrumo alguém para culpar. Eu estou angustiado e a culpa é dela. A pulsão de morte estava aqui dentro. A pulsão de morte estava fazendo eu me dividir. Eros liga, tatos desliga. E simboliza, tânatos diaboliza. Então, quando eu sinto esta desintegração interna, isso cria dentro de mim um desconforto tremendo. O medicamento psiquiátrico faz com que o sujeito dê uma volta em falso, literalmente. O que que configura uma volta bem-sucedida na espiral? Aprender com a experiência. Eu aprendi com a experiência. Eu vivi uma experiência completa. E no final desse ciclo eu aprendi alguma coisa. Eu já não sou mais o mesmo. E o medicamento não ensina nada. Você não aprende tomando o Rivotril. Ele te anestesia. Comfortably Numb é a música do Pink Floyd que chama. É verdade. Confortavelmente entorpecido. É isso. Ninguém aprende assim. Quem aprende assim? Você aprende pelo desconforto. Tudo. Droga, álcool, compulsões. Nós estamos condenando isso aqui. Não, não, não, não, não, não. De jeito nenhum. Por quê? Porque aquele, naquele momento o sujeito precisa daquela muleta, então ele vai usar aquilo, tudo bem, cada um tem a sua. Se você tira a muleta, o sujeito cai e não consegue continuar andando. Então vamos usar a muleta, principalmente se ele está em análise, principalmente se ele está caminhando. Criticar a muleta do outro é muito bacana, não é? Mas é esquizoparanóide. O remédio não ensina nada, o álcool não ensina nada, a compulsão por jogos, o tigrinho não ensina nada. Então, para que a volta seja bem-sucedida, ela precisa culminar ou desdobrar-se em aprendizado. Aprendizado teórico, aprendizado do conhecimento, não. Aprendizado emocional e afetivo. Emocional interno, afetivo, vinculação com o outro. A posição depressiva, quando o sujeito não tem a capacidade de tolerar a culpa, pode ser um motivo ideação suicida, porque eu sou culpado, eu não dou conta de me sentir culpado, então vou tirar minha vida como punição desta culpa. Não só suicídio, autossabotagem em qualquer nível. me julgo, me sinto culpado, me condeno e agora passo a me autopunir. E assim como o tribunal, eu posso tanto prisão perpétua como pena capital aí, como a pena de morte. Alguns mecanismos mantém o sujeito na esquizoparanóide, ou seja, no ponto superior. Quais mecanismos? Eu tenho um desencadeamento, costumo dizer. O primeiro é a cisão. Esquizo não é cisão? Esquizo é cisão. Então o primeiro mecanismo de defesa é a cisão. Divide o mundo em dois, em bom e mau, em certo e errado. Negação é porque assim, ó, tem uma parte ali, divide em duas, uma parte não é minha. E normalmente a parte boa é minha, a parte ruim é do outro. Então essa parte ruim não é minha. E aí, se é do outro, tem mais um mecanismo. O próximo mecanismo, projeção, cisão, negação, projeção. Quando eu projeto a coisa ruim no outro, aí eu me sinto o santo, o anjo de candura. O outro que é o pedófilo, o outro que é o perverso, o outro que é o maconheiro, o outro que é o bêbado, o outro que é o louco. E aí, se é tudo outro, eu me sinto purificado. Aí existe uma idealização. Eu começo me auto-idealizar. E a idealização é tanto para o bom quanto para o mau. Eu me auto-idealizo como o cara purificado na frente da televisão vendo o Datena chamar o pedófilo de monstro. Eu sou o bom, ele é o ruim. Vamos dar uma cadeirada nele. E a partir daí um novo mecanismo que se divide em dois, onipotência e onisciência. Porque tudo isso aqui é ilusão, é mentira. Foi eu que criei tudo isso aqui. E se eu criei tudo isso, eu posso qualquer coisa e eu sei qualquer coisa. Eu controlo tudo isso aqui, foi eu que criei. E aí, abafamento das emoções. Vamos abafar todas as emoções que isso aqui possa tá gerando. E aí se consolida a posição esquizoparanóide. Quando o sujeito chega em análise, ele chega com uma demanda quase que unânime quando o paciente chega. Qual que é? Eu quero, eu preciso desabafar, não é isso? Quando ele começa a desabafar, ele começa a quebrar este ciclo de mecanismos de defesa. O último mecanismo não era o abafamento das emoções. Quando ele começa a desabafar, ele começa a desfazer o quê? Onipotência e onisciência são os primeiros. Porque ele começa a partir do seu desabafo no diálogo com o analista, perceber que ele não pode tudo, perceber que ele não sabe tudo. Eu não falei aquilo porque se eu falasse eu sei que ele ia fazer não sei o quê. Oi, você sabe? Mas como você sabe? Não, porque ele sempre fez. Não, pera aí. Ele sempre fez, mas isso não te dá o a faculdade de saber que agora ele vai fazer igual. E aí quando ele começa a ver que ele não sabe tudo e que ele não pode tudo, a idealização começa a se desfazer. Quando a idealização começa a desfazer, a projeção retorna. Quando a projeção retorna, a negação deixa de fazer sentido. Quando a negação deixa de fazer sentido, pum, integra, desfez-se o ciclo dos mecanismos de defesa que mantinham a posição do esquizoparanóide. Aí ele cai na depressiva. Aí ele começa a sentir culpado. Nossa, caramba, velho. Fui eu. Então, aí se ele puder contar com o acolhimento do outro junto com o outro, aos pouquinhos ele vai elaborando esta culpa e vai se capacitando para se responsabilizar por isso. Várias espirais vão formando uma grande espiral, que é a espiral da vida. Não existe volta em falso se o sujeito estiver se dedicando ao seu trabalho analítico. Por mais que pareça que o sujeito está repetindo, por mais que pareça que ele está fazendo a mesma coisa, existe uma mudança, por mais sutil que possa parecer, por mais irrisória que seja, existe ali uma transformação. Se o sujeito está se dedicando ao trabalho de análise, só ao trabalho de análise, não, se dedicando aos vínculos afetivos saudáveis. E o trabalho de análise é um lugar favorecido para tal. Cada volta da espiral que traz a possibilidade da ampliação da rede de vínculos saudáveis faz com que o sujeito tenha coragem de se afastar de vínculos. tóxicos de vínculos que possam ser nocivos. afastar fisicamente não. Muitas vezes eu não posso. Muitas vezes eu trabalho com o cara tóxico ali. Muitas vezes o cara tóxico é consanguíneo, mora na mesma casa, mas é um afastamento emocional, é um afastamento afetivo. Ele pode ter as mesmas falas, ele pode ter o mesmo comportamento, mas está se transformando o funcionamento. A mudança de comportamento não quer dizer mudança de funcionamento. E a mudança de funcionamento não está subordinada à mudança de comportamento. Você pode mudar o seu comportamento, teu funcionamento continuar o mesmo e você pode mudar o seu funcionamento e o seu comportamento continua o mesmo. Muitas vezes o meu funcionamento emocional é um funcionamento de vitimismo, por exemplo. E o meu comportamento é um comportamento vitimista. Eu posso ter mudado o meu funcionamento vitimista. Eu começo a perceber, eu começo a reconhecer que eu não sou vítima, mas eu ainda estou configurado num vínculo que me faz me comportar como vítima. Por quê? porque o outro está implicado neste comportamento. Eu não tenho como mudar de hoje para amanhã, porque existe ali um contrato social de comportamento e mudar aquele comportamento drasticamente vai afetar todo um sistema. Então, prudentemente eu continuo me comportando como vítima, mas eu já não funciono mais como vítima. Eu já não estou mais projetando na pessoa. Eu já percebi que eu não sou vítima de ninguém. eu já me responsabilizei, mas o outro continua funcionando do mesmo jeito. Prudentemente eu continuo funcionando daquele jeito, porque existe um sistema social que me obriga a me comportar daquela forma, mas funcionando de maneira diferente, eu começo a configurar uma nova estratégia afetiva e logo, logo eu vou me afastar daquele campo que me obriga a continuar funcionando daquele jeito. Mudança de comportamento não garante a mudança de funcionamento. A mudança de funcionamento impreterivelmente vai se desdobrar na mudança de comportamento. Uma volta bem-sucedida da espiral implica em mudança de funcionamento, por mais que o comportamento não tenha mudado. Então o sujeito ainda está fazendo do mesmo jeito, mas ele já não está funcionando mais daquele jeito. Cada ciclo bem-sucedido da espiral implica em aprender com a experiência, implica em vínculo afetivo saudável, implica em transformação ou mudança de funcionamento que não tem a ver com mudança de comportamento. A volta da espiral completa num ciclo pressupõe reconhecer, aprender a respeitar e se responsabilizar. os três Rs. Se eu reconheci, eu vou aprender a respeitar isto que eu admiti que existe. Reconhecer não é conhecer, é admitir que existe, admitir que acontece. E a partir desse admitir que acontece, eu aprendo a respeitar isso que acontece. Depois que eu aprendi a respeitar, eu me responsabilizo por isso. E o ciclo, cada volta da espiral provoca aquilo que o Bion chama de mudança catastrófica. deu uma volta na espiral, nunca mais vai ser igual. Não existe retrocesso nos processos emocionais e afetivos. Não tem volta. A espiral é progressiva. Não existe regresso. Por quê? Porque a espiral, as voltas da espiral, o funcionamento espiralado é um funcionamento de maturação. Cada volta bem-sucedida da espiral resulta em maturidade e não existe “desamadurecer”. Ah, mas o paciente um comportamento regressivo. Pois é, foi o comportamento, não foi o funcionamento. Ele precisou se comportar dessa forma. Isso não quer dizer que ele não está funcionando de outro jeito. Ele pode ter manifestar um comportamento infantilizado, por exemplo, que foi o que ele conseguiu fazer naquele momento. Isso não quer dizer que ele está funcionando assim ainda. E até nessa perspectiva também, professor, eh vivendo em sociedade, né? A sociedade nos obriga muitas vezes a desintegrar, né, a se defender. E há uma diferença entre ali você estar sendo falso e você está sendo um falso consciente justamente para você precisar se defender, porque não tem outra alternativa. Cai, nós precisamos ser falsos em sociedade. É necessário. Não tem, por que a sociedade é uma falsidade. Pois é. Vínculos sociais são constituídos em falsidade. O que você onde você manifesta a verdade é num vínculo afetivo que é diferente no social. No vínculo afetivo você manifesta a verdade. No vínculo social não seja besta de ser verdadeiro, porque você vai se danar. Se quando se manifesta isso no processo psicoterapêutico, abriu uma possibilidade de evolução. Como é que essa possibilidade de evolução? É conseguir que aquela experiência evolua, não que eu seja capaz de me responsabilizar por aquela parte que nunca evoluiu. Não tem como evoluir uma parte que ficou fixado. Ficou fixado, ficou fixado, acabou, cicatrizou e eu vou a partir de então reconhecer que eu tenho essa fixação, aprender a me respeitar por essa fixação e me responsabilizar por essa fixação. Pois é, eu tenho essa parte infantilizada mesmo que não cresceu e agora eu vou aprender a a cuidar daquela parte, me responsabilizar por essa parte e adequar essa parte, proteger essa parte para que essa parte não influencie na minha vida e no fluxo da minha do meu desenvolvimento. Não esgotei o assunto. Tem muita coisa mais para falar sobre isso. Mas a espiral continua. A espiral continua. Parte dois a parte 23, né?

 









Prof. Renato Dias Martino

domingo, 2 de fevereiro de 2025

IMAGINAÇÃO, VINCULO E REVOLTA - Prof. Renato Dias Martino


ANALISABILIDADE

Analisabilidade. O que a gente chama de analisabilidade? Tecnicamente, a gente poderia dizer assim a capacidade do paciente de estabelecer uma transferência positiva, uma cooperação com o analista para o progresso do processo psicoterapêutico. Mas, para isso ele precisa ter tido o mínimo de experiências bem-sucedidas na vida dele. ele porque se ele não teve experiências bem-sucedidas minimamente, ele não tem elementos para projetar no analista como esperança de evolução, de crescimento. Então, ele precisa ter isso. E aí é que entra a ideia de que a psicanálise está aí para todo mundo, mas nem todo mundo está aí para a psicanálise. A gente precisa quebrar essa ideia de que a psicanálise cabe em qualquer situação. Não! Ela não cabe em qualquer situação. Ela cabe na situação onde houver a capacidade do paciente de cooperar com o processo. E para isso ele precisa ter vivido algumas experiências que antecederam aquela experiência da análise.

CONJUNÇÃO CONSTANTE

Muitas vezes, o analista, principalmente o sujeito que está iniciando a sua carreira, pode cair numa cilada no sentido de que, muitas vezes o paciente pode não aderir ao processo. Muitas vezes, o paciente não consegue não tem a capacidade para cooperar com o processo, ou seja, não tem analisabilidade e o aspirante analista, ou aquele que está iniciando a sua carreira, pode começar a questionar a sua capacidade enquanto analista. Mas quando a gente fala de psicanálise, nós estamos falando de vínculo, nós estamos falando das duas partes. Precisa haver uma cooperação mútua. Precisa haver aquilo que o Bion chamou de conjunção constante continente contido para que alguma coisa possa acontecer.

ACOLHIMENTO

O acolhimento é vínculo. Você só pode acolher alguém que esteja disponível a ser acolhido, porque se ele não estiver disponível, isso que você está tendo com ele não é acolhimento. E se ele não estiver disponível a ser acolhido, ele não tem analisabilidade, ele não pode ser submetido à psicoterapia dentro da perspectiva da psicanálise.

PROMESSAS 

É uma capacidade do sujeito. Um sujeito que tem analisabilidade não vai aderir a processos rasos, ou tentativas de promessas milagrosas de cura, ou qualquer coisa nesse sentido. Porque, na verdade, ele está de acordo com a realidade o suficiente para perceber que isso tudo é uma mentira.

VULNERÁVEL

É muito interessante a gente pensar que, aquele sujeito que passa a ser influenciado, ou por instituições religiosas, ou por promessas políticas de benefícios ilusórios, são justamente aquelas pessoas que não tiveram um lar bem estruturado. Esses são vulneráveis a essa influência que venha de religiosos políticos e de instituições que venham trazer ali, promessas fantasiosas.

TRÍADE SIMBÓLICA 

Cria-se aí então, uma tríade simbólica e esta tríade que eu vou dizer agora nada tem a ver com a proposta da tríade do Lacan, da Tríade lacaniana da qual eu não tenho conhecimento qualquer. Mas nós estamos falando aqui de uma tríade onde existe um real concreto, um real imaginário e um real simbólico. Então, o real concreto é aquele que engloba apenas e tão somente o corpo físico, o fisiológico. A necessidade física. Então, o bebê tem a necessidade fisiológica do corpo da mãe. O corpo do bebê precisa do corpo da mãe. È uma realidade concreta é uma fome real e concreta que precisa de um seio real e concreto. Esta realidade concreta, esta dimensão concreta vai se desdobrar numa realidade imaginária. O bebê precisa do seio real concreto da mãe, ele encontra esse seio, cria um referencial, uma referência desse seio e na próxima vez que ele precisar desse seio, que ele sentir fome, por exemplo, ele vai imaginar esse seio. Então, eu tive a realidade concreta, passo a ter então uma realidade imaginária. Imaginar o seio que um dia eu experimentei de maneira concreta, física, material. Se essa experiência que eu tive com o seio material, físico, concreto, foi bem-sucedida, a realidade imaginária, o real Imaginário vai abrir espaço para o real simbólico. Ou seja, eu vou conseguir internalizar o seio que eu experimentei de forma concreta, que eu imaginei e agora ele está internalizado, ou seja eu simbolize o seio.

SEIO

Nós usamos a palavra seio, mas a palavra seio é um ícone de qualquer objeto em que se desenvolve uma experiência afetiva. Ser capaz de pensar o objeto que se ama dispensa a confirmação sensorial deste objeto.

REMÉDIO OU VENENO

A substância vai ser um remédio ou um veneno dependendo da dosagem. No filme A VIDA É BELA, o pai mente para o filho o tempo inteiro. Ali mentira foi fundamental para que o filho pudesse tolerar a situação.

DESILUSÃO

Normalmente, a gente tem a ideia de que a função do analista, a função da psicanálise é de desfazer ilusões, de destruir ilusões, quando na verdade, é o contrário. A função da psicanálise a função do psicanalista é aquela de, junto com o paciente, ir, a conta gotas, se desiludindo. Mostrar para o paciente que ele não precisa desfazer das suas ilusões porque alguém está dizendo para ele que aquilo é ilusão. A função da psicanálise é estar junto do paciente até que ele consiga entrar num acordo com a realidade, ser capaz de se desiludir e não destruir Ilusões.

REVOLTA

Quando você tenta desiludir alguém, ele pode se revoltar. E o que que é revoltar? É dar uma volta em falso. É re-voltar. Então, o revoltado é aquele que fica correndo assim como um cachorro atrás do próprio rabo Este é o revoltado porque não tolerou a desilusão como é que trabalha a espiral a espiral trabalha através de voltas que vão se alargando num eixo horizontal Cada Volta o sujeito alarga um tanto e caminha outro tanto no eixo horizontal O que é que vai propiciar a possibilidade de alargamento da volta e expansão no eixo horizontal é justamente o vínculo afetivo se não há vínculo afetivo o sujeito fica na revolta E aí ele dá uma volta em falso quando ele consegue este vínculo afetivo quando ele é acolhido ele consegue expandir uma volta a mais na espiral progressiva

ALUCINAÇÃO CIENTÍFICA 

O sujeito está envolvido e fixado nas imaginações, nas fantasias, porque na verdade não teve uma relação bem-sucedida com a realidade, não conseguiu estabelecer um acordo com a realidade. Então, ele passa a afirmar as suas fantasias como realidade e passa a criar um sistema dedutivo teórico racional para justificar aquela sua ideologia. E é mais maluco ainda quando isso atinge as prateleiras acadêmicas, quando isso vira ciência, quando o sujeito começa a afirmar dentro de estudos científicos que aquela configuração alucinada que ele afirma tem embasamento teórico, porque ele se juntou com mais meia dúzia, sessenta, seiscentos outros iludidos e alucinados que afirmam a mesma coisa, dentro do ambiente acadêmico. Isso se chama “alucinação científica”.

SABER PENSAR

Por isso é importante a gente desenvolver a capacidade de pensar de pesar e não engolir conhecimentos goela baixo que foi dito pelo outro porque o outro é doutor. Que é o que o meio acadêmico faz, estabelece um certo e errado e te obstrui de avaliar o que é falso e verdadeiro. É justamente o que a psicanálise se propõe a se opor. A função da psicanálise é pensar, pesar e não conhecer, saber. Então, quando o sujeito é convidado para dar uma palestra de psicanálise, ele não vai ali para levar conhecimento, ele não vai ali para promover o saber, ele vai ali para pensar junto.

REPENSAR 

O abismo que existe entre saber e pensar. Cada vez que eu penso novamente, cada vez que eu penso melhor alguma coisa, eu coloco em xeque, eu coloco em jogo tudo aquilo que eu imaginava saber. Porque eu estou repensando. Será que é assim mesmo? E é o que a gente faz aqui isso aqui. Não é um espaço do saber, não é um espaço do conhecimento, é um espaço do pensamento.

PENSAMENTO FRIO

Nós vemos aí agora cursos de psicanálise aprovados pelo MEC. Impossível, gente! A não ser que seja essa psicanálise lacaniana, aí talvez, pode ser que seja, porque é acadêmica, porque é intelectualizada, porque vira uma equação, porque vira uma conta matemática, que você soma “lé” com “cré” e dá “ré”. Pensamentos frios calculados.

DO IMAGINAR AO PENSAR

a gente não pode esquecer que a imaginação a ilusão é um protop pensamento sem a ilusão não pode haver pensamento é a partir da ilusão que o sujeito pode vir a pensar primeiro ele se ilude depois ele pensa o sujeito que foi cerceado em sua ilusão o sujeito que foi tolhido que foi privado das suas imaginações é um sujeito que não aprendeu a pensar

ILUSÃO CRISTALIZADA 

Se a gente pudesse pensar no que definiria uma ilusão saudável ou uma ilusão tóxica, uma ilusão que não fosse saudável, o aspecto fundamental para essa definição é a cristalização, a impossibilidade de transformação. Quando, a ilusão está disponível a ser transformada ela é saudável. Quando ela está cristalizada engessada ela é nociva.

RACIONALIDADE

Vai pela razão! Seja racional! Muitas vezes, isso traz uma conotação de que se o sujeito for pela razão, ou for racional, ele vai conseguir uma decisão acertada e é justamente isso. Ele vai conseguir uma decisão acertada. Mas isso não quer dizer que ele esteja de acordo com a realidade, porque muitas vezes a ilusão pode fazer com que o sujeito crie um sistema dedutivo teórico racional que vai justificar aquela ilusão. Não é porque ele tem razões que ele não esteja iludido. Muitas vezes, o sujeito que está com a razão pode estar muito mais iludido do que o outro que talvez não esteja com a razão. A racionalidade não garante o acordo com a realidade.

DECISÃO OU ATITUDE 

Tomar uma decisão é uma coisa, tomar uma atitude é outra. Decisão quer dizer cindir do todo. A decisão, quando ela é tomada, ela é tomada excluindo o todo. De-cisão = separação! Atitude é uma ação. Decidir é uma coisa, avaliar e tomar uma atitude é outra. Quando você está de acordo com a realidade, você não precisa decidir nada, é só você avaliar a realidade e tomar uma atitude conforme esta avaliação. Decidir, ou tomar atitude. Tomar atitude a partir da avaliação é para quem está de acordo com a realidade, decisão é para aquele que está parcialmente desejando alguma coisa.

ADULTO ILUDIDO

O adulto que está iludido e insistindo nas suas ilusões, muitas vezes criando racionalidades racionalizando para justificar as suas ilusões é um sujeito que não pode viver essas ilusões no tempo adequado. Ou seja, na sua infância. Por que que ele não pôde? Porque ele não foi resguardado pelo pai, pela mãe, pela família, que pudesse trazer para ele, um espaço lúdico para que ele vivesse essa ilusão. Então ele carrega essa ilusão para a vida adulta e inadequadamente ele tenta implantar esta ilusão nos lugares mais sensíveis.

A BOLHA

A gente vê bastante hoje no discurso popular a ideia da bolha e a bolha, ela é um modelo muito interessante, porque ela protege o sujeito, mas, ao mesmo tempo, ela aprisiona o sujeito. Ele está aprisionado dentro da bolha que supostamente o protege. Mas a bolha o protege ilusoriamente, porque a película da bolha é extremamente vulnerável. Qualquer coisa fura. O sujeito, quando está dentro da bolha, ele não tem consciência de que ele está dentro da bolha, ele acredita que o universo é a bolha. O universo de Ilusões que ele vive é a bolha. E ele ignora aquilo que existe para além da bolha. Agora, a função do psicanalista não é estourar a bolha, é acolher o sujeito que percebeu que existe uma vida fora da bolha. O psicanalista precisa ser capaz de transitar dentro e fora da bolha.

ASFIXIA 

Quanto mais a bolha protege, mais perigosa ela se torna. Porque fica intransponível, a película. Quanto mais ela te proteger, menos ela permite a troca interna e externa e um sujeito que está dentro de uma bolha com uma película espessa, ele corre o risco de ser asfixiado.



sábado, 1 de janeiro de 2022

A REPETIÇÃO E A EXPANÇÃO NO MOVIMENTO EM ESPIRAL

 


A vida parece se realizar em ciclos. Sucessão de repetições, que em uma configuração saudável, torna-se possível, a cada volta, evoluir em transformações expansivas. Como no modelo da espiral, a vida da ares de evolução. “O modelo da espiral que povoa as formações materiais no âmbito sensorial pode também ser muito bem aplicado à expansão emocional, onde cada volta traria a possibilidade de ampliação no nível circular e de acréscimo no rosqueamento da espiral.” (Martino, 2018) Porém, sofrer o processo de transformações, no nível emocional é gerador de desconforto.
Por conta disso, podemos 
nos prender e nos perder em estereótipos de repetição e neles nos fixar. Incapazes de sofrer o processo natural da vida, tendemos a repetir modelos estereotipados de funcionamento mental, ações e comportamentos. O comportamento nocivo que se repete é uma forma de evitar o sofrimento. Ainda que o sujeito evite sofrer a dor, ela ocorrerá impreterivelmente, já que obstruir esse processo também gera dor. Wilfred R. Bion (1897 - 1979), levanta a questão em ATENÇÃO E INTERPRETAÇÃO, sobre pessoas que apresentam intolerância a dor, “que elas sentem a dor, mas não a sofrem; assim, não é possível dizer que elas descobrem a dor.”. (Bion, 1970). 
Isso parece ocorrer por conta da dificuldade de tolerar a insegurança gerada pela transformação. “O termo ‘transformação’ desorienta, a menos que se reconheçam limitações da implicação de ‘forma’.” (Bion, 1965) Isso acontece naquele que esteja sendo incapaz de acreditar em si mesmo, muito machucado, fragilizado ou ainda, doente. 
Repetimos ações para não lembrarmos daquilo que dói. Assim como nos norteou Sigmund Freud (1856 – 1939), em sua obra RECORDAR, REPETIR E ELABORAR. “Freud alerta para o fato de que o paciente tende a repetir em forma de atuação (ação impensada) tudo aquilo que é desconfortável de se recordar.” (Martino, 2018) É a base do que Freud chamou de atuação (acts it out), onde o sujeito não consegue recordar o que esqueceu por ter reprimido, entretanto manifesta através da atuação, ou seja, atua-o.
“Ele o reproduz não como lembrança, mas como ação; repete-o, sem, naturalmente, saber que o está repetindo.” (Freud,1914) A ação motora é o acesso direto de descarga de energia psíquica, diminuindo a tensão desconfortável gerada pelo elemento não elaborada. 
Ainda que se possa ter certa consciência de que se esteja conhecendo alguém novo, existe certa tendência a usar nessa nova situação, formas antigas de se vincular, das quais já se usava antes com outras pessoas.
Freud denominou esse fenômeno de transferência. “Ao aspecto transferencial importante, na transformação, Freud descreve, na tendência “a repetir, como experiência presente, o reprimido”, ao invés de recordá-la, como fragmento passado.” (Bion, 1965) É uma tentativa de controle e com isso um ato de desrespeito. Tentar controlar é uma forma de desrespeitar. Certa insegurança frente ao desconhecido. A prisão na repetição estereotipada causa grande fadiga mental.
Existe um grande dispêndio de energia a cada vez que se repete. Isso ocorre, pois a realidade se configura mutante, onde tudo se transforma o tempo todo. A ordem do universo é a expansão. “Aprendemos que o paciente repete ao invés de recordar e repete sob as condições da resistência.” (Freud,1914) E o sujeito insiste em fazer igual, enquanto cada novo dia é sempre diferente do anterior. Ninguém “é”; estamos “sendo”. 
No entanto, a repetição, por si só, não é necessariamente uma experiência que representa um desacordo com a realidade. A capacidade de se manter repetições saudáveis é de fundamental importância para a saúde mental. Certa rotina que orienta. Rotina, do francês ROUTINE, “caminho batido, sentido costumeiro”, ou ainda, de ROUTE, “rota”. A possibilidade de encontrar uma rota para o arranjo ou um reajuste na capacidade de pensar saudável. Uma bússola norteadora na organização do pensar.
Existe um motivo importante para se manter a regularidade do horário fixo das sessões. A repetição ocorrente nos horários fixos semanais é de cunho terapêutico. Muitas vezes, o paciente que nos procura na clínica psicanalítica, se encontra sem referências para que possa organizar sua vida e a rotina do horário fixo na análise é um dos fatores de organização mental.
  Assim como a proposta dos mantras orientais. Mantra, do sânscrito Man, mente e Tra, proteção, "instrumento para conduzir a mente". 
Além disso, mesmo a repetição de ações não pensadas (acts it out) nunca acontece totalmente em vão. A cada vez que repetimos certa ação impensada abre-se uma nova chance de tomarmos consciência daquilo que força a repetição. No movimento espiralado cada volta é uma nova oportunidade de se dar conta do que anteriormente não tenha sido possível. Uma forma de tomar consciência e conseguir ampliação à cada volta da espiral. Para conseguir fazer diferente é necessário reconhecer o que está se repetindo. Esse reconhecimento não pode acontecer sem a ajuda do outro.
Quando o sujeito que procura psicoterapia está realmente predisposto ao trabalho psicoterapêutico, ou seja, com um bom nível de analisabilidade é possível ao analista perceber, transformações, mesmo que mínimas. “Por mais que pareça não sair do lugar, por retornar sempre para algo muito próximo do ponto de partida, dando ares de não realizar transformações muito importantes.” (Martino, 2018) Através de um olhar tolerante e acolhedor, é provável perceber expansões, mesmo que sejam pequenas. A verdadeira transformação acontece espontaneamente, livre de expectativas. 
Aquilo que realmente motiva o sujeito está distante de seu próprio conhecimento. Dessa forma, não há modos de se intervir de maneira objetiva para promover mudanças no nível emocional. Quando se tenta intervir desta maneira o que se promove é a geração de defesas que podem até parecerem transformações, mas não passam de dissimulação para se obter um resultado que nada condiz com um acordo com a realidade. A verdadeira transformação não pode acontecer por meio de imposição. Ninguém escolhe mudar, isso ocorrerá na medida em que o sujeito esteja maduro o suficiente para tanto.
O que realmente determina nossas escolhas está distante do nosso conhecimento. A maturação emocional ocorrerá assim que for possível reparar o funcionamento mental e isso ocorrerá mediante à uma experiência de acolhimento. O despertar vem da dor, mas a expansão depende do acolhimento.


BION, Wilfred Ruprecht. AS TRANSFORMAÇÕES. Rio de Janeiro, Imago, 1965.

___________________. ATENÇÃO E INTERPRETAÇÃO. Imago, Rio de Janeiro, 1970.

FREUD, Sigmund. RECORDAR, REPETIR E ELA¬BORAR, 1914, EDIÇÃO BRASILEIRA DAS OBRAS PSICO-LÓGICAS COMPLETAS – Edição Standard Brasileira, Imago (1969-80)

MARTINO, Renato Dias. ACOLHIDA EM PSICOTERAPIA – 1ª ed. São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2018.

 


Prof. Renato Dias Martino

Psicoterapeuta e Escritor



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