É espantoso observar afirmações veementes a respeito daquilo que é da ordem do mistério da fé, ou ainda nos estudos científicos em que as comprovações são hipotéticas. Naquilo que está no âmbito do mistério, não cabem certezas. Ainda assim, é comum observar pessoas afirmando com grande certeza formulações que não passam de hipóteses fragilmente ligadas a indícios do que se afirma. Na maioria das vezes, aquele que afirma o faz por ter lido em algum lugar ou ainda porque ouviu alguém dizer. Parece existir uma conveniência em afirmar com certeza aquilo que é da natureza do incerto. Essa conveniência pode estar desde o lucro financeiro até o status de superioridade intelectual daquele que afirma. Grande parte dos cientistas concorda com quem os financia. Isso também acontece no que se refere ao universo mental. Estudiosos da mente humana e profissionais da área vêm desenvolvendo diagnósticos, técnicas, assim como medicamentos baseados em deduções e suposições. Dentro das formulações do que ocorre no campo emocional, é tudo possibilidade e nada pode ser afirmado com certeza. Aquilo que ocorre no âmbito emocional não coincide com o que o aparato cognitivo pode abranger. Aquilo que o sujeito manifesta com seu comportamento está distante do que ocorre no seu funcionamento emocional. Os comportamentos podem vir a ser doutrinados; no entanto, o funcionamento emocional pode ser reparado somente através de vínculos afetivos saudáveis. Enquanto o comportamento está ligado ao cognitivo, o funcionamento emocional está subordinado ao afeto.
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sábado, 29 de novembro de 2025
domingo, 9 de junho de 2019
HUMILDADE NA PRÁTICA CLÍNICA DA PSICOTERAPIA
Alguns elementos são fundamentais para que um processo psicoterapêutico possa se realizar de forma bem-sucedida. Com o intuito de elucidação, Wilfred Ruprecht Bion (1897-1979) elenca determinados elementos fundamentais para sua prática clínica, em sua obra ELEMENTOS DE PSICANÁLISE. A relação possível entre algo que possa dispor-se como continente e outro algo que se disponha a ser contido é o primeiro elemento para Bion. Como já havia apresentado em seu trabalho de 1962, APRENDENDO DA EXPERIÊNCIA, Bion promove uma expansão do pensamento de Melanie Klein (1882 — 1960), na concepção do que ela chamou de identificação projetiva. “Ele é uma representação de um elemento que poderia ser denominado como uma relação dinâmica entre continente e contido.”. (Bion, 1963).
Bion descreve algumas características como condições para que o elemento seja enquadrado nessa ordem, onde deve, antes de tudo, estar a serviço de representação da formulação originalmente usada. Deve também ser possível relacioná-lo com outros elementos e com isso formar um sistema de articulação interdependente, para ser aplicada a experiência com a realidade. São atributos que qualificam o elemento como sendo fundamental num curso profícuo do processo na terapia da mente.
Bion formulou o que chamou de Grade; um instrumento de trabalho com a função de auxiliar na elaboração do material colhido na prática clínica e também na organização dos elementos num sistema.
No entanto, ele coloca que isso do qual propõe é a Grade dele próprio, portanto, seria interessante que cada um pudesse fazer a sua. Na realidade, cada sujeito que esteja se dedicando à prática psicoterapêutica deve desenvolver naturalmente uma espécie de “grade” interna, para reconhecer seus pacientes. Quanto mais conscientemente isso ocorra, tanto melhor será a experiência no processo. Dessa mesma forma, penso ser importante que cada um que esteja se propondo a ocupar a função de psicoterapeuta, possa e deva construir sua própria configuração de elementos que se utilize em sua pratica clínica.
Nesse ensaio tento seguir o mesmo caminho de Bion para propor o elemento da humildade como sendo fundamental no estabelecimento e manutenção do vínculo, no processo psicoterapêutico. A humildade é condição fundamental e se apresenta como elemento psicanalítico a partir de inúmeros fatores que se relacionam entre si, assim como sugerido por Bion na avaliação para tal inclusão. Na realidade, humildade é condição indispensável para qualquer que seja o vínculo estabelecido, enquanto saudável e não poderia ser diferente no âmbito da aliança terapêutica. Ainda assim, não é raro encontrar relatos da ausência desse elemento nos atendimentos psicoterapêuticos. Essa é uma constatação freqüente na descrição sobre atendimentos anteriores de pacientes que me procuram na clínica. Fica muito claro durante o desenvolvimento psicoterapêutico com esses pacientes, que a ausência de humildade fora um fator preponderante para o fracasso do processo. Esse foi um dos grandes motivos que me levou a escrever esse ensaio propondo a humildade como um elemento dessa ordem.
Importante seria deixar claro que, o que chamo aqui de humildade não está relacionado à situação de pobreza ou submissão.
Descrevo aqui com esse termo, o estado de mente onde o sujeito se coloca num acordo com a realidade, bem próximo do significado original na semântica da palavra, do latim humus, “terra”, onde nos encontramos no que há de mais simples e ao mesmo tempo mais nobre, no acordo com a realidade. Desfazendo assim a ilusão de separação entre aqueles que têm sentimentos, percepções, do latim sentire, "sentir", os seres sencintes, que segundo o ensinamento budista, está implicado provavelmente em tudo e de alguma forma em todos os níveis. “Os elementos que acreditamos estarem separados na realidade são um só e a mesma coisa. Assim como na divisão das nações do mundo, somos todos um só povo, mas, ainda assim vivemos com a ilusão de sermos divididos e separados.”. (Martino, 2018).
Essa ideia é cogitada não só no âmbito místico religioso, mas aparece no vértice cientifico filosófico, desde a Grécia antiga quando se procurava um princípio que unificasse todos os fenômenos observáveis no mundo, até nas mais avançadas ciências contemporâneas, como é o caso dos estudos da mecânica quântica, onde se reconhece certa matéria cósmica, “uma substância universal que passaria por todas as transformações, da qual todas as coisas emergiriam para depois a ela retornar" (Heisenberg, 1995). Ao mesmo tempo, não é necessário irmos tão longe para percebermos esse fato. Ora, para todo aquele que atinja o mínimo de maturidade emocional, essa realidade deve ficar cada dia mais clara. Até porque, a humildade é, antes de tudo, um fator da maturidade emocional.
Dentro da simplicidade do ser, nos reconhecemos como uma parte do todo e quando integrados e tolerantes dos desconfortos gerados nesse processo, desenvolvemos a compaixão, nos tornado mais capazes de tratar a si mesmo e consequentemente, ao outro com respeito. Essa experiência propicia a possibilidade de se estar uno a si mesmo e ao todo. Porém, para tanto é necessário uma experiência especial de quebra de narcisismo, onde é fundamental um rebaixamento drástico da arrogância, prepotência e exclusivismo.
Na situação da pratica clínica, quando o sujeito se propõe a receber alguém que sofre com uma dor psíquica, deve ser humilde o suficiente para reconhecer sua limitada capacidade frente a esse sofrimento que tem seu próprio tempo de elaboração independente de qualquer que seja a expectativa projetada no paciente ou no processo.
A humildade do analista também está implicada no fato de que, por mais que tenha se dedicado a estudar teorias, ele é e sempre será completamente ignorante sobre o paciente que se propõe a acolher e ainda que depende deste para que possa se guiar na tarefa de ajudá-lo. Cada caso é “o caso”: quanto à dor psíquica não existe pré-estabelecido.
A humildade também é necessária para reconhecer que qualquer que seja a realização ocorrida através do processo psicoterapêutico é de encargo da dupla e não é um feito do psicoterapeuta. Esse fato fica claro quando reconhecemos que é necessário que o paciente encontre-se aberto e disponível ao processo psicoterapêutico, de outra forma nada pode ser realizado.
Assim, o que quer que seja realizado nesse processo é mérito, ou ainda, responsabilidade da dupla, já que é sempre a partir da função do vínculo. Por um lado é função do vínculo, onde humildemente um aprende a “estar sendo” junto do outro e por outro lado, sendo fator da função do acolhimento que depende da humildade tanto daquele que acolhe quanto do que está sendo acolhido.
BION, W. R. (2004a). ELEMENTOS DE PSICANÁLISE (J. Salomão, trad.; E. H. Sandler e P. C. Sandler, revs.). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1963).
HEISENBERG, W. FÍSICA E FILOSOFIA. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1995.
MARTINO, Renato Dias. ACOLHIDA EM PSICOTERAPIA – 1ª ed. São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2018.
Bion descreve algumas características como condições para que o elemento seja enquadrado nessa ordem, onde deve, antes de tudo, estar a serviço de representação da formulação originalmente usada. Deve também ser possível relacioná-lo com outros elementos e com isso formar um sistema de articulação interdependente, para ser aplicada a experiência com a realidade. São atributos que qualificam o elemento como sendo fundamental num curso profícuo do processo na terapia da mente.
Bion formulou o que chamou de Grade; um instrumento de trabalho com a função de auxiliar na elaboração do material colhido na prática clínica e também na organização dos elementos num sistema.
No entanto, ele coloca que isso do qual propõe é a Grade dele próprio, portanto, seria interessante que cada um pudesse fazer a sua. Na realidade, cada sujeito que esteja se dedicando à prática psicoterapêutica deve desenvolver naturalmente uma espécie de “grade” interna, para reconhecer seus pacientes. Quanto mais conscientemente isso ocorra, tanto melhor será a experiência no processo. Dessa mesma forma, penso ser importante que cada um que esteja se propondo a ocupar a função de psicoterapeuta, possa e deva construir sua própria configuração de elementos que se utilize em sua pratica clínica.
Nesse ensaio tento seguir o mesmo caminho de Bion para propor o elemento da humildade como sendo fundamental no estabelecimento e manutenção do vínculo, no processo psicoterapêutico. A humildade é condição fundamental e se apresenta como elemento psicanalítico a partir de inúmeros fatores que se relacionam entre si, assim como sugerido por Bion na avaliação para tal inclusão. Na realidade, humildade é condição indispensável para qualquer que seja o vínculo estabelecido, enquanto saudável e não poderia ser diferente no âmbito da aliança terapêutica. Ainda assim, não é raro encontrar relatos da ausência desse elemento nos atendimentos psicoterapêuticos. Essa é uma constatação freqüente na descrição sobre atendimentos anteriores de pacientes que me procuram na clínica. Fica muito claro durante o desenvolvimento psicoterapêutico com esses pacientes, que a ausência de humildade fora um fator preponderante para o fracasso do processo. Esse foi um dos grandes motivos que me levou a escrever esse ensaio propondo a humildade como um elemento dessa ordem.
Importante seria deixar claro que, o que chamo aqui de humildade não está relacionado à situação de pobreza ou submissão.
Descrevo aqui com esse termo, o estado de mente onde o sujeito se coloca num acordo com a realidade, bem próximo do significado original na semântica da palavra, do latim humus, “terra”, onde nos encontramos no que há de mais simples e ao mesmo tempo mais nobre, no acordo com a realidade. Desfazendo assim a ilusão de separação entre aqueles que têm sentimentos, percepções, do latim sentire, "sentir", os seres sencintes, que segundo o ensinamento budista, está implicado provavelmente em tudo e de alguma forma em todos os níveis. “Os elementos que acreditamos estarem separados na realidade são um só e a mesma coisa. Assim como na divisão das nações do mundo, somos todos um só povo, mas, ainda assim vivemos com a ilusão de sermos divididos e separados.”. (Martino, 2018).
Essa ideia é cogitada não só no âmbito místico religioso, mas aparece no vértice cientifico filosófico, desde a Grécia antiga quando se procurava um princípio que unificasse todos os fenômenos observáveis no mundo, até nas mais avançadas ciências contemporâneas, como é o caso dos estudos da mecânica quântica, onde se reconhece certa matéria cósmica, “uma substância universal que passaria por todas as transformações, da qual todas as coisas emergiriam para depois a ela retornar" (Heisenberg, 1995). Ao mesmo tempo, não é necessário irmos tão longe para percebermos esse fato. Ora, para todo aquele que atinja o mínimo de maturidade emocional, essa realidade deve ficar cada dia mais clara. Até porque, a humildade é, antes de tudo, um fator da maturidade emocional.
Dentro da simplicidade do ser, nos reconhecemos como uma parte do todo e quando integrados e tolerantes dos desconfortos gerados nesse processo, desenvolvemos a compaixão, nos tornado mais capazes de tratar a si mesmo e consequentemente, ao outro com respeito. Essa experiência propicia a possibilidade de se estar uno a si mesmo e ao todo. Porém, para tanto é necessário uma experiência especial de quebra de narcisismo, onde é fundamental um rebaixamento drástico da arrogância, prepotência e exclusivismo.
Na situação da pratica clínica, quando o sujeito se propõe a receber alguém que sofre com uma dor psíquica, deve ser humilde o suficiente para reconhecer sua limitada capacidade frente a esse sofrimento que tem seu próprio tempo de elaboração independente de qualquer que seja a expectativa projetada no paciente ou no processo.
A humildade do analista também está implicada no fato de que, por mais que tenha se dedicado a estudar teorias, ele é e sempre será completamente ignorante sobre o paciente que se propõe a acolher e ainda que depende deste para que possa se guiar na tarefa de ajudá-lo. Cada caso é “o caso”: quanto à dor psíquica não existe pré-estabelecido.
A humildade também é necessária para reconhecer que qualquer que seja a realização ocorrida através do processo psicoterapêutico é de encargo da dupla e não é um feito do psicoterapeuta. Esse fato fica claro quando reconhecemos que é necessário que o paciente encontre-se aberto e disponível ao processo psicoterapêutico, de outra forma nada pode ser realizado.
Assim, o que quer que seja realizado nesse processo é mérito, ou ainda, responsabilidade da dupla, já que é sempre a partir da função do vínculo. Por um lado é função do vínculo, onde humildemente um aprende a “estar sendo” junto do outro e por outro lado, sendo fator da função do acolhimento que depende da humildade tanto daquele que acolhe quanto do que está sendo acolhido.
BION, W. R. (2004a). ELEMENTOS DE PSICANÁLISE (J. Salomão, trad.; E. H. Sandler e P. C. Sandler, revs.). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1963).
HEISENBERG, W. FÍSICA E FILOSOFIA. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1995.
MARTINO, Renato Dias. ACOLHIDA EM PSICOTERAPIA – 1ª ed. São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2018.
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quarta-feira, 13 de março de 2019
PSICANÁLISE E AS FORMULAÇÕES RELIGIOSAS - Prof. Renato Dias Martino
Para
aquele que faça uma breve pesquisa sobre a psicanálise, logo encontrará duras
críticas de Sigmund Freud (1856 –1939) a respeito da religião. Freud atribuía á
religião uma reedição das vivências infantis mal sucedidas. Ele apoiava que a
origem da religião está no sentimento de desamparo da criança, que faria, a
partir disso, gerar certa ilusão em massa. Em 1910, Freud publica uma obra
sobre a vida de Leonardo da Vinci e nele propõe que a psicanálise tenha
conseguido revelar a relação direta entre o complexo de Édipo e a crença em
Deus. Freud apóia que a psicanálise “Fez ver que um Deus pessoal nada mais é,
psicologicamente, do que uma exaltação do pai...” e continua afirmando que
“diariamente podemos observar jovens que abandonam suas crenças religiosas logo
que a autoridade paterna se desmorona.”. (Freud, 1910).
Além
dessa ocasião, Freud teve várias iniciativas de criticar duramente a religião,
como é o caso de sua obra O FUTURO DE UMA ILUSÃO de 1927, onde trata a religião
como sendo uma grande quimera. Por alguma razão, Freud enviou um exemplar deste
livro ao seu amigo Romain Rolland (1866 – 1944), que foi um novelista, biógrafo
e músico francês. Freud respeitava muito Rolland, grande estudioso das
formulações religiosas. Rolland concorda com a visão de Freud contida no texto
quanto à religião, no entanto, também lamenta o fato de que seu amigo não
tivesse sido capaz de contemplar adequadamente a verdadeira origem da
religiosidade.
Para Rolland a religiosidade se fundamentaria num certo
sentimento oceânico, configurada numa percepção de eternidade, onde as fronteiras
são desfeitas. Freud escreve em seu MAL ESTAR NAS CIVILIZAÇÕES,de 1930, que não
consegue perceber em si mesmo esse sentimento “oceânico”, mas admite que “Não é
fácil lidar cientificamente com sentimentos”. (Freud, 1930). Freud tinha o
olhar científico como principio de sua pesquisa. “A criação e desenvolvimento
da psicanálise, naquela época, sofria com essa necessidade de atender a certos
critérios científicos, caso contrário correria o risco de ser desacreditada.”.
(Martino, 2018). No entanto, não é novidade o fato de que os critérios rígidos
da ciência comum, muito pouco se aplicam ao que se pode chamar de ciência no
âmbito psicanalítico. Já que o conceito de ciência, na esfera comum é bem
aplicável tão somente aos objetos que são apreensíveis pelos órgãos dos
sentidos, no âmbito material. Assim como nos orienta Wilfred Ruprecht Bion
(1897-1979), “... não é adequado para representar uma abordagem daquelas
realidades com as quais a “ciência psicanalítica” tem que
lidar.”. (Bion, 1970).
Ora, se o
próprio pai da psicanálise atribui à religiosidade uma forma de ilusão em grupo
e a espiritualidade como sendo uma espécie de reprodução do passado não
elaborado, qual seria a real possibilidade de diálogo entre os enunciados
religiosos e as formulações psicanalíticas?
Bem,
Freud tinha em sua historia de vida um fator que o faria sentir uma especial
repulsa quanto à religiosidade. Freud sofrera conflitos quanto a sua posição
religiosa da qual sentia como um rigoroso destino numa carga penosa. “O fato de
ele ser judeu, e todo o ônus que carregaria vida a fora, por conta dessa
condição.”. (Martino, 2015). O fato de Freud ser judeu, o coagiu a se mudar do
lugar onde viveu a maior parte da vida. Idoso e sofrendo muito com um câncer de
palato, fora perseguido pelas tropas alemãs na invasão da Áustria. Refugiou-se,
então na Inglaterra, onde foi acolhido por Marie Bonaparte (1882 - 1962). “Em
março de 1938, acontece a invasão da Áustria pelas tropas alemãs de Adolf
Hitler (1889 - 1945). Freud era judeu e Hitler, tomado por sua intensa
perseguição a esse povo, então, mandou queimar qualquer livro que possuísse a
assinatura do pai da Psicanálise.”. (Martino, 2012). Ainda assim, em Londres,
não conseguiu resistir por muito tempo, morrendo em 23 de setembro de 1939.
Entre inúmeros outros fatores de ordem pessoal, que permearam sua vida, da
infância até a morte, havia um grande receio de Freud que a igreja ameaçasse o
desenvolvimento da psicanálise.
As ideias da sexualidade infantil e do complexo
edípico chocavam a sociedade católica, muito intensa na Viena da época. De
qualquer forma, motivos não faltariam a Freud para justificar sua aversão à
religiosidade.
Então,
estamos diante de um grande desafio. Conformar-se com uma proposta saturada
sobre a realidade nunca foi um atributo da psicanálise. “A psicanálise consiste
numa grande procura. A busca pela verdade sobre si mesmo. Uma verdade da qual
nunca seremos possuidores, mas que tem o nobre propósito de nos guiar. Sendo
assim a verdade é a orientação e não o objetivo.”. (Martino, em PSICANÁLISE DO
ACOLHIMNETO Vol. 1, 2017). Dessa maneira, a pesquisa psicanalítica segue, mesmo
depois de Freud buscando expandir para além do âmbito que tenha sido possível a
ele explorar e no que se refere às formulações religiosas não parece ser diferente.
Mesmo
sendo Freud avesso à essa ordem de formulações, pensadores posteriores ao pai
da psicanálise trouxeram possibilidades de incluir a proposta religiosa como um
rico instrumento de reflexão e expansão de pensamento no universo mental, que
proporcionou à psicanálise grande expansão.
Um belo exemplo disso acontece em
1977, quando Françoise Dolto (1908-1988), importante médica e psicanalista
francesa, publica A PSICANÁLISE DOS EVANGELHOS. Essa obra foi traduzida em nove
línguas e trata de um ensaio que foi criticado tanto por boa parte dos cristãos
e teólogos, quanto por inúmeros psicanalistas, criando grande polêmica na
época, assim como ainda hoje. “Entretanto, ainda assim, a obra de Dolto
revela-se uma bela e rara contribuição da capacidade de utilizar-se da
psicanálise no âmbito do acolhimento e suas implicações para a ampliação da
consciência.”. (Martino, 2015).
Mesmo
antes de Dolto, Wilfred Bion já se utilizava das reflexões religiosas. Em sua
obra TRANSFORMAÇÕES propõe que: “Ainda assim, os enunciados religiosos mais
atendem aos requisitos de transformações em O, que os da matemática.” (Bion,
1965). Um reconhecimento enriquecedor nas articulações psicanalíticas, assim
como acontece com inúmeras outras intuições bionianas. “Com essa colocação, Bion
reconhece que, para falar sobre a dor da alma, nas angústias e ansiedades, a
religião é mais adequada do que formatações racionais.”. (Martino, 2015).
Para
Bion “O” é o símbolo utilizado para representar a realidade última, o elemento
supremo da procura psicanalítica. Bion afirma que não é possível qualquer
avanço na experiência psicanalítica sem que haja um reconhecimento da
existência da realidade última, numa evolução para "estar-uno-a-ela".
Bion ainda propõe que os místicos religiosos possivelmente foram os que
conseguiram se aproximar mais de expressar a experiência da verdade absoluta.
“Sua existência é igualmente fundamental para a ciência e para a religião. De
modo inverso, a abordagem cientifica é tão necessária para a religião como o è
para a ciência, e tão ineficaz quanto, até que ocorra uma transformação K >
O"." (Bion, 1970). Sendo que “K” para Bion é o símbolo daquilo que
pode ser conhecido, diferente de “O” que está na dimensão do incognoscível, no
que só pode se “estar sendo”.
Quanto à
inclusão das formulações religiosas,no que se refere à expansão do
conhecimento, Bion toma como exemplo o físico Isaac Newton (1643 — 1727). Bion
propõe que as preocupações de Newton quanto ao domínio místico religioso, que
foram rejeitadas como sendo um absurdo, mereceriam ser consideradas a origem de
onde suas formulações matemáticas partiram e evoluíram.
Bion se
utiliza de grandes nomes do misticismo religioso como o faz em TRANSFORMAÇÕES
de 1965, onde cita Juan de Yepes (1542 – 1591), pensador que recebeu o nome de
São João da Cruz, em seu poema Noite Escura, para ilustrar seu conceito de
"turbulência psicológica". Com esse termo Bion alude a um estado
mental de grande aflição.
O frade dominicano Mestre Eckhart (1260 -1328) também
é um nome muito cogitado por Bion. “Mestre Eckhart propõe o exercício na busca
pelo desprendimento, que para esse pensador consiste no desapego sobre todas as
coisas transitórias, num retorno em direção a uma realidade essencial.”.
(Martino, 2015). O grande problema é que propostas como as de Mestre
Eckhart, assim como são às formulações religiosas necessitam de elevada
capacidade de tolerância num desprendimento da materialidade das coisas. “Com o
desprendimento, ele é capaz de amor, é humilde e misericordioso, à medida que o
desprendimento implica essas virtudes como sua matriz e sua unidade.” (Eckhart,
em SOBRE O DESPRENDIMENTO).
Um nível de desapego do qual nem todo psicanalista
consegue atingir, mas que ainda assim, tal expansão deve trazer à prática da
psicanálise, imensuráveis possibilidades de ampliação nas articulações. Se isso
deve ser difícil a um psicanalista, que pelo menos à priori estaria num
constante processo de elevação emocional, por conta de suas analises pessoais e
seus atendimentos clínicos, mais ainda em um cientista que lida com
experimentos que incluem muito pouco as relações afetivo-emocionais.
Para que
seja possível desenvolver esse nível de desapego a tolerância à frustração é
requisito fundamental, não só na pratica da psicanálise, mas também nas
formulações teóricas. Isso deve encontrar uma bela ilustração na vida de Jesus
Cristo, já que a base do cristianismo se encontra na disponibilidade à
renúncia. Em Matheus 16 Jesus coloca como condição para segui-lo a renuncia de
si mesmo e então a responsabilização de sua própria cruz. Uma metáfora de
desapego às futilidades na realidade material, que trazem a ilusão de
configurar o verdadeiro eu, mas que não passam de dissimulações do falso eu.
“Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas aquele que tiver
sacrificado a sua vida por minha causa, recobrá-la-á.”. (Matheus 16.25). Ora, o
que mais pode ser a psicanálise que não seja um instrumento de se abrir mão
daquilo que se gostaria que o mundo fosse, pra entrar em contato com aquilo que
o mundo realmente é?
Na
religiosidade oriental temos muitas reflexões importantes para a expansão dessa
ordem de experiências que muito contribuem para a psicanálise. Como é o caso do
BHAGAVAD GITA, sublime Canção do Divino Mestre, fazendo parte das escrituras
que compõem o MAHABHARATA, nos VEDAS, datado muitos anos antes de Cristo, é
provavelmente o mais antigo texto na história da humanidade. “O BHAGAVAD GITA
trata da necessidade fundamental do exercício no desapego, em busca da elevação
na consciência.”. (Martino, 2015). Krsna, que se conforma na Suprema
Personalidade de Deus na ocasião se coloca como cocheiro, orienta o guerreiro
Arjuna quanto a insegurança, que “quem a tudo renuncia, jubiloso, alcança, já
agora, a mais alta paz do espírito; mas quem espera vantagem das suas obras é
escravizado por seus desejos”. Em SABEDORIA DO DESAPEGO, quinto capítulo do
BHAGAVAD GITA, verso XII.
Porém,
toda essa proposta pode sofrer um efeito inverso. Quando um sujeito tem a mente
imatura, muito machucada, ou ainda, deveras adoecida, ele pode usar das
formulações religiosas para se auto-acusar ou fazê-lo com o outro, por exemplo.
Além disso, não pode ser coerente que tanto a proposta da psicanálise quanto a
da religiosidade, na expansão da maturidade emocional e na organização mental,
possa ser conseguida por imposição. “Qualquer que seja a tentativa de
introdução da religiosidade que possa ser feita através de obrigação no
cumprimento já se invalida em si mesma, logo de início. E ainda, algumas
características como as de disputa, crítica ou julgamento são tão inadequadas
quanto a imposição.”. (Martino, 2015). Isso não é diferente quanto a
psicanálise! Imposição, coação e duras críticas, definitivamente não são
elementos de psicanálise. Só fazem por gerar culpa numa “fiel ovelha”, que por
ser passiva e, portanto, bem acomodada nessa confortável posição, nada
realizará tanto em seu próprio desenvolvimento, quanto no âmbito da
espiritualidade. Se assim for, o que pode provocar é tão somente empobrecimento
da personalidade.
Torna-se
importante nessa altura do ensaio esclarecimento sobre o termo religiosidade e
ainda, sobre que experiência atribui-se aqui o nome de religião. “A
autenticidade da religião se encontra não só no seu significado literal do
termo, do latim religio, ‘reverência ou respeito pelo que é sagrado’, mas se
estende para a origem do verbo religare, ‘atar novamente’, de re, novamente,
mais ligare, unir, atar.”. (Martino, 2015). Numa proposta de reatar laços entre
os seres humanos e o divino, a religião que propõe selecionar ou restringir
está distante de cumprir o seu significado real.
Sendo que recusar, rejeitar,
ou ainda menosprezar os que não se enquadrem nos dogmas defendidos pela suposta
religião, anula seu próprio propósito. Portanto, a ideia da religião é a da
integração do estar sendo dentro da rede universal de todos os seres. Essa rede
não pode ser dividida por cor, crenças ou regras culturais, mas se entrelaçam
numa incessante procura universal pela paz. A sociedade está doente quando se
divide por tom de pele, nacionalidade, gênero, orientação sexual...
A grande
argumentação de Freud, assim como dos psicanalistas avessos à espiritualidade é
que seria ela uma ameaça a pesquisa cientifica, no entanto, muito antes da
estruturação da psicanálise, Francis Bacon (1561-1626), o fundador do método
científico moderno afirma que "Um pouco de filosofia inclina a mente
humana para o ateísmo, mas o aprofundamento na filosofia reaproxima a mente
humana da religião”. (Bacon, 1605, em O PROGRESSO DO CONHECIMENTO). Quando
Bion, em ATENÇÃO E INTERPRETAÇÃO propõe a renúncia de memória e desejo ele o
faz buscando um exercício do que chamou de ato de fé.
“Receptividade adquirida
por despojamento de memória e desejo (que é essencial para a operação de “atos
de fé”) é essencial para que a psicanálise e outros procedimentos científicos
operem.”. (Bion, 1970). Além disso, cada dia mais o desenvolvimento da ciência
tem se expandido norteando-a na direção das formulações religiosas, tão
rejeitadas até então, pela própria ciência. Isso vem ocorrendo, sobretudo na
física quântica que teve seu início por volta de 1900, através dos trabalhos do
físico alemão Max Karl Ernst Ludwig Planck (1858 — 1947), corroborado pelos
posteriores estudos do físico dinamarquês Niels Henrick David Bohr (1885 —
1962), do alemão Werner Karl Heisenberg (1901 — 1976) e do austríaco Erwin
Rudolf Josef Alexander Schrödinger (1887 — 1961), em meados de 1920.
Todos os
pensadores citados tinham grande respeito para com a espiritualidade, sendo que
alguns deles conservavam profunda fé em Deus. Em uma palestra a respeito de
religião e ciência, em 1947, Max Planck disse que desde sua infância cultiva fé
firme e inabalável no Todo Poderoso e Todo Bondoso e afirmou que a confiança
Nele auxilia nas provações mais difíceis. Plank ainda afirmou que a religião
está junto da ciência natural no combate constante contra a descrença e o
dogmatismo. O pai da física quântica ainda sustenta que “...a palavra de ordem
nesta luta sempre foi e para todo sempre será: em direção a Deus!". Nessa
mesma palestra Plank ainda propõe que a maior prova da concordância entre
religião e ciência natural “... é o fato histórico de que justamente os maiores
cientistas de todos os tempos, homens como Kepler, Newton, Leibniz, estavam
imbuídos de profunda religiosidade." (Plank, 1950). Isso ainda que sob
análise minuciosamente detalhada.
Heisenberg,
que ganhou o Prêmio Nobel de Física de 1932, escreve em seu artigo CONHECIMENTO
DA NATUREZA E VERDADE RELIGIOSA que: "Ainda que eu hoje esteja convencido
da invulnerabilidade da verdade científica em seu campo, nunca me foi possível
simplesmente rejeitar o conteúdo do pensamento religioso como parte de um nível
superior da consciência da humanidade..." (Heisenberg, 1973). O austríaco
Schrödinger era um grande admirador do pensamento de Athur Schopenhauer (1788 -
1860), que por sua vez fora grandemente influenciado pelo budismo e da tradição
védica, na leitura dos VEDAS, e também dos místicos cristãos como Mestre
Eckhart, assim como Bion o foi.
Schrödinger afirmava que o mundo observável é
apenas aparência e isso equivale ao conceito védico de maya.
A
essência da física quântica é a descoberta de que a matéria tem tanto a
propriedade de partícula, enquanto elementos localizados, quanto de ondas,
enquanto agitações variáveis que se difundem de forma progressiva. Isso se
configura numa dualidade onda-partícula. Quando existe a tentativa de mensuração
no nível quântico existe certa mudança, onde a matéria passando de onda de
possibilidade para a forma de partícula real, no que em física quântica se
denomina colapso da função de onda.
Com o
avanço das pesquisas quânticas, que se ocupa de estudar as menores partículas
mensuráveis, o paradigma “religião contra a ciência” tem se dissolvido, onde
uma área do pensamento pouco a pouco, tem se aproximado da outra. Em sua obra
DEUS NÃO ESTÁ MORTO: Evidências Científicas da Existência Divina, Amit Goswami
físico quântico indiano contemporâneo, propõe que a compreensão adequada do
evento “colapso da função de onda” traz a possibilidade de reviver a idéia de
Deus na ciência.
A
hipótese de Deus levantada por Amit Goswami não é a de um imperador todo
poderoso que nos julgará após a morte, sentado num trono lá no céu, mas de uma
consciência cósmica, presente tanto na esfera imanente do nível sensorial,
quanto no transcendente das coisas não sensoriais. Deus é, então, a consciência
não-local sustentado pela nova ciência. Para além do bem e do mal, num não
dualismo, onde os contrários são complementares. A ciência quântica revelou que
os corpos sutis e mesmo os corpos materiais configuram-se como possibilidades
da consciência.
Com isso
a ciência passa a explicar aquilo que as religiões têm tentado afirmar ha muito
tempo. Sem ignorar toda a justificativa das atrocidades advindas das religiões,
que inclusive Freud sofreu, aquele que é capaz de expandir sua mente ao ponto
de perceber o enorme aprendizado contido nas religiões. “É muito provável que
se possa conseguir muita paz de espírito no ambiente religioso, onde os
conceitos, assim como a prática da compaixão, do amor e do perdão, podem ser
trabalhados.”. (Martino, 2015). No entanto, é importante que o sujeito que se
envolva com essa área de desenvolvimento tenha sua mente minimamente
organizada. De outra forma, a busca pela religião pode se tornar uma perigosa
experiência.
Goswami
ainda aproxima o conceito de inconsciente de Freud do que chamou de Deus
quântico. Amit Goswami propõe a ideia de que a hipótese de Deus, o agente da
causação descendente, poderia auxiliar na tarefa de diferenciação entre os
conteúdos inconsciente daquilo que está consciente.
“E,
apesar de Freud ter sido ateu, a psicologia que ele criou, a psicologia do
inconsciente, hoje chamada psicologia profunda, nos oferece evidências
incontrovertidas da causação descendente ou de seu agente, Deus. O poder
causal do
id inconsciente origina-se do poder divino da causação descendente que
preservamos, embora em sentido limitado, mesmo em nosso ego condicionado.”
(Goswami, 2008).
As
escolhas são feitas no inconsciente, não sendo possível conhecer esse processo.
Freud mesmo nos alertou para o fato de que "o ego não é o senhor da sua
própria casa”. (Freud, 1917). Sendo que a consciência cósmica, Deus, que se
encontra no nível mais próximo de nossa própria natureza, ou seja, o id
inconsciente, justamente o que escolhe por nós. Portanto, quanto
maior e mais harmonioso possa ser o intercâmbio entre o inconsciente e o
"eu" consciente, tanto mais próximo estaremos da realidade ultima,
por tanto de Deus. Isso, já que as escolhas serão manifestadas pelo pensamento
e é só o ego que pode fazê-lo. Bion denominou barreira de contato, o limite
entre interno e externo, inconsciente e consciente. A barreira de contato
estabelece a cesura, numa espécie de contorno que separa e une ao mesmo tempo.
“Esta, em processo contínuo de formação, indica contato e separação entre
elementos conscientes e inconscientes e inicia a diferenciação entre ambos.”.
(Bion, 1962). Isso fornece a sensação de integração com o todo e essa
experiência só pode ocorrer no nível do “estar sendo” e nunca pelo “saber
sobre”. Isso, pois, a realidade em sua plenitude não pode ser conhecida, assim
como o próprio Bion escreve: “A convicção de se saber ou vir a saber a respeito
da realidade é falaz por não ser ela algo de que se possa saber.” (Bion, 1965).
A realidade
parece se configurar num todo, onde as partes separadas levam à grande
possibilidade de visão turva, que conduz à ilusão. Para que seja possível
analisar e saber sobre algo, é imperioso dividir o que se estuda o
desvinculando do todo. Assim, quando estudamos uma era, é necessário racionar o
tempo nesse período estipulado, enquanto a realidade configura-se na no eterno.
Da mesma forma dividimos o espaço no perímetro estudado, que na realidade está
na dimensão do infinito.
Ora, se
Deus é real e está representado na realidade última, então a inteiração com a
consciência cósmica só pode ocorrer quando “sendo em relação à ela”, e nunca o
conhecendo-a. “Sendo assim, é preciso criar uma dinâmica entre essas duas
dimensões, onde seja possível passar do ser (integração com o todo) para o
saber (desintegração do todo) e do saber para o ser numa mudança de vértice
adequada a cada fase da experiência de aprendizado.”. (Martino, 2017). Fica
evidente que para que se possa atingir essa concepção de Deus é fundamental que
se desenvolva a capacidade de ir para além do saber, passando para o vértice do
estar sendo. Um exercício que demanda de tolerância à frustração no desapego do
lugar comum da racionalidade.
Ainda que
não estejamos aqui atribuindo à psicanálise o titulo de ciência no âmbito
usual, pois inclui o pressuposto do inconsciente, que não está disponível aos
órgãos dos sentidos, temos um equivalente na ciência quântica a proposta de
Princípio da Incerteza, enunciado pelo físico Werner Heisenberg. O grande problema
encontrado por Heisenberg que o fez determinar esse princípio é o fato de que
para se saber a posição de uma partícula é preciso incidir sobre ele um raio de
luz. No entanto, o choque do raio de luz é devastadoramente perturbador na
tentativa de medição. Por isso, há uma incerteza inseparável de toda medição em
escala microscópica e a incerteza passa a ser inseparável da natureza dos
corpos quânticos. Além disso, tanto na proporção micro quanto na proporção
macro a mensuração é sempre inacessível, a não ser dentro da limitada
capacidade humana. Sendo assim, o princípio da incerteza dos físicos quânticos
é análogo ao inconsciente. “Quando nos propomos a pensar o conceito de
inconsciente isso é sempre representado como incerteza e dúvida.”. (Martino, 2015).
Dentro da perspectiva religiosa a fé é a única maneira de se entrar em contato
com o Divino. Se for possível ter certeza de algo, isso não carecerá de fé. Nem
religião, nem ciência, e muito menos a psicanálise, podem trazer certezas. Na
realidade, me parece que a única forma de se obter certezas é através das
ilusões.
“Dentro
desse vértice do pensamento é possível reunir a espiritualidade em seus
mistérios da fé, o princípio da incerteza das ciências quânticas e a dúvida
constituinte dos processos inconscientes pro¬posta pela psicanálise, nos
exercícios de capacitação à tolerância às frustrações para o desapego proposto
nesse trabalho.”. (Martino, 2015).
De
qualquer forma, é necessária certa mudança de vértice para que a religiosidade
possa fazer parte das áreas mais nobres do pensamento humano. Uma transformação
onde o sujeito passa da posição de um crente que pede o tempo todo ao Senhor
Deus, que deve então, atendê-lo em suas necessidades, para o lugar do devoto
responsável por si mesmo, grato e pronto para ser um instrumento da paz de
Deus. Na realidade, Deus já nos proporcionou tudo que é necessário para uma
vida humilde e digna para aquele que é capaz de viver com o
suficiente. Sendo que quanto aos problemas criados pelos humanos em
seu suposto livre-arbítrio, cabe aos humanos resolvê-los.
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Prof. Renato Dias Martino
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