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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

CRÍTICA, INVEJA E AUTOSSABOTAGEM - Prof. Renato Dias Martino


CRÍTICA E FRUSTRAÇÃO 

A crítica é uma defesa. O sujeito que critica, ele está denunciando a sua incapacidade através da crítica. Ele está denunciando uma frustração, através da crítica e a crítica nunca foi e nunca vai ser construtiva. Onde entrar a crítica vai gerar uma dissimulação. Ninguém. se transforma porque foi criticado. O sujeito aprende a dissimular através da crítica. A maioria, senão todos os críticos de arte, por exemplo, são artistas frustrados. Críticos de música são músicos frustrados, críticos de artes plásticas são artistas plásticos frustrados que não conseguiram se desenvolver na sua carreira e se sentiram aptos para criticar, falar o que que é bonito o que não é, o que é bem-feito o que não é.

FAZER JUNTO

Por trás de cada sujeito que está criticando se esconde uma frustração enorme de não ter conseguido realizar, de não ter tolerado os passos em falso e as falhas que o outro está cometendo, mas está caminhando. Então, cada vez que eu sentir em mim um ímpeto de criticar é interessante que eu possa me conter e pensar um pouquinho: “de onde está vindo aquela crítica?” “Será que não é uma incapacidade minha?” O sujeito que olha para alguma coisa e pretende que esta coisa seja bem realizada, ele não vai criticar a pessoa que está fazendo a coisa, que está realizando a coisa, ele vai até ali se dispor a fazer junto com a pessoa. Então, dizer para o outro que ele tem que fazer ou deixar de fazer é muito fácil, ir lá fazer junto, nem tanto.

ADMIRAÇÃO SEM CAPACIDADE

A crítica está sempre atrelada a inveja. E o que eu estou chamando de inveja aqui? Eu estou chamando de inveja a experiência de admirar alguma coisa da qual não se tem capacidade. Todas as vezes que eu admiro alguma coisa e eu não tenho capacidade daquilo, se configura numa experiência de inveja. Nós temos uma dificuldade muito grande de lidar com esse sentimento que está em cada um de nós. E nós evitamos chamar isso de inveja e evitar dar o nome dessa experiência de inveja vai fazer com que ela acabe passando sem que eu possa pensá-la. Então, todas as vezes que eu estiver desejando alguma coisa sem ser capaz daquilo eu estou invejando aquilo. E aí, é uma chance para que eu possa pensar e pensando esta inveja vai ter a possibilidade de se expandir e se tornar alguma coisa mais nobre, para além da própria inveja.

ACREDITAR EM SI MESMO

O que pode dissolver a inveja é a autoconfiança. É acreditar em si mesmo. O sujeito, ele só inveja o outro porque ele não está acreditando em si mesmo. Ele se julga inferior. E aí, as coisas do outro parecem mais interessantes. A possibilidade de amar a si mesmo, de acreditar em si mesmo, de reconhecer a si mesmo, aprender a respeitar a si mesmo e se responsabilizar por si mesmo, vem do vínculo afetivo saudável que eu possa estabelecer com o outro. Sem isso, sem chance de dissolver a inveja.

DEVERIA SER

A inveja é um desdobramento de uma ação do “deveria ser”, do superego.  O superego cobra alguma coisa, ela não pode entregar aquilo que o superego cobrou, exigiu e ela começa a sentir inveja de quem supostamente consegue entregar isso. E aí, o que acontece? Sentir inveja por conta disso, também tem um desdobramento do próprio superego, de reprovar o fato de você está sentindo inveja. O próprio superego vai te reprovar dizendo assim: “Você é uma invejosa. Você não consegue fazer isso e ainda por cima inveja o outro.” Então, além dela estar sentindo inveja, ela não é capaz de reconhecer, porque existe ali, uma ação do “deveria ser”. Deveria ser assim, deveria ser de outro jeito e o “deveria ser” inclui o deveria ser alguém que não sente inveja.

ACREDITAR EM SI MESMO

É muito simples também a gente fica condenando a instância da mente que a gente chama de superego, mas o superego só vai atuar na medida em que o sujeito não estiver acreditando nele mesmo. Quando o sujeito confia em si mesmo, o superego fica quietinho no canto dele, mas quando ele começa a duvidar de si mesmo, o superego entra em ação como uma medida de segurança para que ele continue caminhando. Então, quando eu não acredito naquilo que eu estou sendo, que é o meu ego, o que vai conduzir, o que vai me guiar, o que vai me impulsionar é o que eu deveria ser, porque senão eu fico parado. Então, o problema não é o superego, o problema é a incapacidade de acreditar em si mesmo. 

INVEJA DE SI MESMO

Eu costumo chamar o superego de “deveria ser”. O superego cria um critério daquilo que o sujeito deveria ser, daquilo que o sujeito deveria fazer. Então, é como se tivesse um avaliador crítico que iria julgá-lo o tempo todo nas coisas que ele está fazendo e como ele está sendo. Muitas vezes, o sujeito, por conta dessa desintegração, ele realiza alguma coisa e o superego invejoso disso que ele fez, começa a desdenhar e dizendo que isso não é bom. Não consegue reconhecer a realização do sujeito como algo bom, por mais que tenha falhas. Muitas vezes, o sujeito que carrega um sentimento de culpa, não uma culpa em si, porque a culpa em si é questionável, mas o sujeito carrega um sentimento de culpa, por conta de algum uma experiência que ele tenha vivido, este sentimento de culpa faz com que ele não se sinta merecedor de realizações na vida. Então, muitas vezes, ele realiza, ele conquista alguma coisa, mas o superego vem e ataca, dizendo que aquilo não presta, ou que ele não é digno de ter aquilo. É um superego invejoso e o superego é uma parte da minha personalidade, logo, eu estou invejando a mim mesmo.

INTEGRADO

O sujeito, quando está integrado, o superego, o ego e o id, fazem parte de um todo. Funcionam, um corroborando com o outro, interligados e interdependentes no funcionamento saudável da mente. Então, um sujeito integrado não inveja a si mesmo, porque o superego está ocupando um lugar que é adequado dentro do funcionamento emocional desse sujeito. O sujeito passa a invejar a si mesmo na medida em que ele carrega algum um sentimento de culpa, na medida em que ele não está acreditando em si mesmo o suficiente para estar integrado.

AUTOSSABOTAGEM  

Muitas vezes, o sujeito, ele escreve bem, ele fala bem, ele tem talentos, ele tem habilidades, mas ele escreve alguma coisa, depois ele lê e ele é capaz de depreciar aquilo que ele leu, dizendo que aquilo é uma porcaria. Ele faz um vídeo para postar na internet, ele assiste aquilo ali, ele fala: “Nossa! Isso aí está muito ruim”. Então, isso é inveja de si mesmo. Ele não é capaz de tolerar as suas falhas o suficiente para que ele possa desenvolver-se naquilo. Ninguém nasceu pronto! Mas quando eu tenho um “deveria ser”, esse “deveria ser” vira um pressuposto que se eu não estiver dentro daquela expectativa do “deveria ser”, aquilo que eu estou fazendo fica invalidado.



quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

ABUSO EMOCIONAL E RECONHECIMENTO DA REALIDADE - Prof. Renato Dias Martino


Dificuldade de reconhecer a realidade, a gente poderia levantar dois grandes motivos. É claro que a gente está abrindo aqui apenas dois, a gente pode ter outros motivos. Mas vamos lá! O primeiro: ter um benefício direto que a ilusão possa estar trazendo para ele que viver na fantasia, ainda possa estar beneficiando e depois a gente pode ver alguns exemplos disso, ou a dificuldade de admitir a realidade. Um é um benefício direto. Eu ganho alguma coisa não reconhecendo a realidade. Eu ganho alguma coisa estando iludido e o outro é: eu não consigo, eu não dou conta desta realidade.

ABUSO

Eu estou convivendo com uma pessoa dentro de uma relação tóxica. Uma pessoa que está abusando de mim. E quando eu falo abusando aqui, eu não estou falando diretamente de algo manifesto, por exemplo um abuso sexual, um abuso físico e muito menos um abuso moral. Eu estou falando de um abuso emocional, de um abuso afetivo, que acontece sem que o sujeito possa perceber. Ele vai perceber o desdobramento disso. Ele vai perceber o prejuízo, mas ele não percebe o abuso. Então, ele não consegue fazer a associação deste prejuízo, deste dano que está sendo causado com o abuso que é gerador disso. Porque este abuso é sutil. Ele é tratado com desrespeito, mas um desrespeito sutil. Ele é tratado com um descaso, mas com um descaso extremamente silencioso e sutil que nem ele consegue perceber e muitas vezes nem o outro que está abusando. Mas quando ele começa a descrever a relação dele com o outro para o analista, o analista começa a perceber isso e vai, sutilmente também, questionando. “Como é que é essa coisa?” “Essa pessoa te trata assim e tudo bem para você?” Mas aí, o que que acontece? Esta pessoa que está ora abusando dele também traz um benefício em outras esferas. Um benefício que pode ser desde a coisa mais material, que seria um suprimento financeiro, um suprimento de um conforto, até a atitude de dominância que traz para o sujeito uma sensação de segurança de estar do lado de alguém que é tão poderoso. Poderoso emocionalmente. Então, existe um benefício ali. Reconhecer essa realidade é inviável, porque ele perderia todo o benefício que ele está tendo. Assim, dentro do profissional, isso acontece com frequência. Um superior que trata um funcionário com um abuso emocional. Eu não estou falando nem um assédio moral, um abuso manifesto, mas um tipo de relacionamento, um molde, um modelo de relacionamento que muitas vezes seria melhor que ele abusasse moralmente, manifesto que aí o outro seria é capaz de se defender percebendo isso e percebendo o prejuízo dele. Mas, aí a gente precisa respeitar o tempo. Porque isso tende a se expandir e em algum momento vai se revelar. A relação analista e paciente vai trazer para este paciente um modelo de vínculo saudável com respeito com amor com carinho, que vai em algum momento vai acabar sendo um referencial comparativo para aquele relacionamento abusivo que ele está vivendo. Por estar ali naquele relacionamento saudável, ele começa a questionar os outros relacionamentos que não estejam sendo saudáveis. A bajulação é um abuso emocional é um abuso afetivo. Bajular o outro é uma forma de abusar do outro. Enganar o outro. Quem bajula, quem fica elogiando o tempo todo é porque, na realidade está tentando tirar um proveito daquilo. A crítica é o polo oposto. Uma crítica velada tem o intuito de: “estou te criticando construtivamente”. Tudo que o sujeito faz tem ali, um olhar crítico e muitas vezes com um embasamento inteligente para justificar esta crítica. Mas que na realidade, é um abuso emocional.


domingo, 3 de fevereiro de 2019

SOBRE VÍNCULOS SAUDÁVEIS


O vínculo é uma função do funcionamento mental que permite manter duas pessoas unidas, independente do fator físico na confirmação sensorial. “O vínculo é o que pode nos manter ligados naquilo que fisicamente não está (mais) presente.”. (Martino, 2015). Quando é possível se formar um vínculo afetivo com o outro, tem inicio a formação de símbolos, que é a impressão bem sucedida obtida na experiência com o real sensório.
A primeira experiência dessa ordem acontece entre mãe e bebê, onde a ligação umbilical no nível físico é rompida, dando lugar à possibilidade de desenvolvimento do vínculo afetivo. Essa é a primeira etapa de muitas outras que virão dentro do processo de desenvolvimento do vínculo. “Do ‘colo da mãe’ à ‘mãe no coração’”. (Martino, 2015). O desapego necessário para que possa se estabelecer o elo de ligação num vínculo saudável é sempre uma extensão do período de apego que impreterivelmente deve ter ocorrido entre aqueles que se vinculam.
Toda saúde mental está subordinada aos vínculos, sendo que “o nível de organização mental não pode ser mensurado de outra maneira que não seja através da capacidade de criação e manutenção dos vínculos afetivos.”. (Martino, 2018). Um sujeito que não esteja conseguindo ligar-se e manter-se ligado afetivamente de forma saudável, carece de ajuda psicológica, na medida em que consiga reconhecer esse fato.

Ainda assim, relações verdadeiras são raras, já que vivemos implicados em instituições sociais e a base dessas organizações é a dissimulação. Os relacionamentos verdadeiros são comparáveis a um garimpo, onde a pedra preciosa encontra-se entre inúmeras outras. Isso não é bom ou ruim, simplesmente é assim. Penso não ser possível a estruturação da formação grupal de outra maneira. Para que uma sociedade mantenha a ordem é imperativo que o sujeito esconda seus sentimentos e emoções. Quando expomos alguma emoção mais intima, logo somos julgados com olhares desaprovadores.
O sujeito mais sociabilizado parece ser aquele que consegue melhor esconder suas características verdadeiras e expõe aquilo que o outro normalmente espera dele. A saber, dificilmente o primeiro fator coincide com o segundo.
“Na história da evolução dos vínculos afetivos, o ser humano, definitivamente, ainda se encontra engatinhando, e a capacidade de amar ainda é algo muito primitivo no funcionamento mental do humano atual.”. (Martino, 2013).
Por conta disso é naturalmente muito difícil conseguirmos nos aprofundar nas relações e então experimentarmos vínculos onde seja possível desempenhar o verdadeiro eu, com o mínimo possível de dissimulações.
Ao contrário disso, enquanto vivendo em sociedade, normalmente os vínculos acabam por acumularem características efêmeras, onde a conveniência, a recompensa e os benefícios egoístas são condições fundamentais para que se mantenha. Domina nessa dimensão a descartabilidade. Sendo assim, após o uso, o vínculo social é normalmente excluído, até porque nunca passou de dissimulação conveniente.
“O perigo se pronuncia na medida em que, sem um bom vínculo de confiança, as ilusões podem ser percebidas como fatos.”. (Martino, 2018).
Por outro lado, para que um vínculo possa estar sendo saudável, deve configurar-se entre pessoas que estejam sendo capazes de exercer seu verdadeiro eu, o mais livre possível de disfarces. Dessa maneira, a necessidade de se tornar aquilo que o outro deseja é completamente inadequada nessa ordem de vinculações. Nesse contexto, enaltecimentos e bajulações, são danosos a um vínculo benéfico. O enaltecimento é “um alimento que, apesar de ser extremamente prazeroso, é extremamente pobre em nutrientes da manutenção da auto-estima.”. (Martino, 2013). Também críticas e julgamentos são nocivos ao estabelecimento e desenvolvimento do vínculo saudável. “O crítico se fortalece criticando o outro. Isso porque despeja o peso de sua incapacidade no objeto da crítica.”. (Martino, 2013).
O vínculo saudável sobrevive necessariamente sendo nutrido de reconhecimento sincero e afetuoso das partes. O reconhecimento depende da capacidade de percepção da realidade dos fatos. “Distante do enaltecimento do elogio, que se encontra na ordem do idealizado, muito afastado do real.”. (2013). Uma relação em que são permitidas cobranças e exigências, não pode ser chamada de saudável.
Vínculos saudáveis se formam e se mantém de maneira natural e espontânea. Sempre permeados de tolerância quanto ao tempo de desenvolvimento das capacidades. O respeito é o que fundamenta os vínculos que estejam sendo saudáveis, onde cada novo dia é uma oportunidade de conhecer o outro e a si mesmo novamente.
São relações que tem sempre pouca intensidade de impulsos, onde explosões de prazer e de hostilidade são muito pouco frequentes e com mínima magnitude.
Entretanto, o vínculo ganha com isso grande durabilidade, num cultivo tolerante e compassivo de afeto e sinceridade.










MARTINO, Renato Dias. O AMOR E A EXPANSÃO DO PENSAR: das perspectivas dos vínculos no desenvolvimento da capacidade reflexiva – 1ª ed. São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2013.
______ O LIVRO DO DESAPEGO – 1ª ed. São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2015.
______ ACOLHIDA EM PSICOTERAPIA  – 1ª ed. São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2018.




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