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sábado, 23 de maio de 2026

Resenha do Livro: Esboço de Expansão - Prof. Renato Dias Martino

Autor: Renato Dias Martino

Ano de Publicação: 2025
Subtítulo: Escolhas, Vontade e Desejo

O livro "Esboço de Expansão" propõe uma reflexão profunda sobre os meandros da condição humana, desafiando ilusões consolidadas na sociedade, como a do livre-arbítrio absoluto. Integrando filosofia, espiritualidade e a psicanálise do acolhimento, o autor convida o leitor a compreender a diferença entre "ser" (o permanente) e "estar" (o temporário) por meio da constante transformação do estar sendo.

💡 O Mito do Livre-Arbítrio e as Escolhas Humanas

  • Delírio de vaidade: A crença na total liberdade de escolha é um reflexo do narcisismo humano. Quando uma escolha é bem-sucedida de verdade, ela não foi uma opção, mas o único caminho real.
  • Comando do Inconsciente: Amparado em Freud e Schopenhauer, o livro reitera que o ego não é senhor em sua própria casa. Nossas decisões são coordenadas por forças e necessidades do Id, muito maiores que a nossa consciência local.
  • Vontade versus Desejo: Enquanto a vontade responde às necessidades básicas e à saúde biológica e psíquica, o desejo está sempre impregnado pelo olhar do outro e pela busca compulsiva por aprovação.

🔍 O Amor Verdadeiro e a "Não Escolha"

  • Amor Fati: Resgatando o conceito nietzschiano, amar a realidade significa acolhê-la e doar-se a ela independentemente do desconforto ou de "gostar" dela.
  • Diferença entre Gostar e Amar: Gostar é direcionado a coisas e pessoas que nos trazem benefícios ou prazer. Amar é uma capacidade que visa beneficiar o outro através da abnegação, do cuidado e do desprendimento.
  • Amor-Próprio: Desenvolve-se exclusivamente a partir da experiência de ter sido amado sinceramente por alguém no início da vida. Não tem relação com o narcisismo de gostar de si mesmo.

🧠 Desintegração Psíquica e os Mecanismos de Defesa

  • Origem das neuroses: A tendência à desintegração e fragmentação do eu é uma constante na clínica psicanalítica, estando intimamente ligada à pulsão de morte freudiana.
  • Posição Esquizoparanoide: Utilizando as teorias de Melanie Klein, o autor explica como o bebê cinde a si mesmo e ao mundo em "bom" e "mau" como defesa contra a ansiedade persecutória.
  • Ambiente Continente: O luto e o sofrimento gerados pelo processo de maturação exigem um ambiente saudável de concórdia. Sem esse suporte, a energia psíquica é desperdiçada em defesas rígidas.

🤝 A Importância de Admitir a Ignorância

  • Capacidade Negativa: O livro exalta o conceito de Bion (emprestado do poeta John Keats) sobre a importância de permanecer em dúvidas e mistérios sem o ímpeto de buscar explicações rápidas.
  • Linguagem de Realização: Contrapõe-se à linguagem comum de substituição. É a fala que surge do desapego das memórias e desejos do analista, permitindo a emersão do fato presente e do inconsciente.
  • Onipotência do Salvador: O autor alerta para a falsa caridade daqueles que desejam "salvar" o outro por pura vaidade. Ninguém pode ser ajudado se não admitir que precisa de auxílio.

🎯 Por que ler este livro?

"Esboço de Expansão" encerra a jornada do autor com uma mensagem urgente de humildade. Ele demonstra que a verdadeira grandeza do ser humano não está no acúmulo de bens, títulos ou saberes superficiais, mas sim na coragem de reconhecer sua própria pequenez e fragilidade diante do infinito Universo.


 










Prof. Renato Dias Martino

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segunda-feira, 11 de maio de 2026

O OUTRO NÃO EXISTE - Prof. Renato Dias Martino

 


Dentro do âmbito emocional, o outro não existe. Tudo aquilo que se possa viver num relacionamento com o outro é uma extensão daquilo que foi possível viver consigo mesmo.

Nem mais, nem menos. A forma como o sujeito se relaciona consigo mesmo transborda e se expande no vínculo que ele estabelece com o outro. Quando alguém está de mal consigo mesmo, estará de mal com todos à sua volta. Aquele que não aprendeu a respeitar a si mesmo, na melhor das hipóteses pode vir a ser educado, mas não conseguirá respeitar o outro. O respeito que se consiga tem com o outro é sempre uma extensão do respeito consigo mesmo.
O sujeito não se importará com o que o outro julga sobre ele, até que isso coincida com o que ele próprio já vinha se julgando. Só levará em consideração aquilo que confirma a sua autoimagem. Isso não tem a ver com a sua realidade, mas sim com o que ele imagina que seja. Quando o sujeito confia em si mesmo, ele se torna capaz de se autoreconhecer e, se o outro falar o contrário, não se importará e descartará o que o outro diz sobre ele. Contudo, se não estiver confiando em si próprio, por mais que o outro reconheça suas virtudes, ele não conseguirá considerar esse reconhecimento e permanecerá preso ao seu autojulgamento. 
A possível concórdia que se possa ter com o outro depende do ambiente interno de concórdia, da concórdia consigo mesmo. Se não se está em concórdia consigo mesmo, não se concordará com ninguém. Logo, para o arrogante, discordar é um prazer. “A discórdia, assim, não está relacionada com quem supostamente está com a razão ou quem não a tem, mas com o objetivo de livrar-se da tensão gerada pela discórdia interna. Portanto, é possível afirmar que o arrogante tem prazer em discordar.” (Martino, 2018) Alivia-se o conflito interno quando se projeta a discordância no discurso do outro. Ou ainda, por não concordar consigo mesmo e, consequentemente, não se sentir confiável, o sujeito aceita passivamente o que o outro propõe, sem sequer refletir. 
Quando Jesus Cristo propõe “ama o próximo como a ti mesmo”, parece-me que trata justamente disso. Não há como amar o outro além ou aquém do que se consegue amar a si próprio. O funcionamento afetivo saudável (amar o outro) é desdobramento de um funcionamento emocional saudável, no qual o amor-próprio é o fundamento. Esse é o alicerce da verdadeira ética e o que a diferencia de uma mera regra moral. “A moral leva o sujeito a tratar o outro com educação, para que o outro também o trate assim; já a ética é o ato de respeitar o outro, assim como se respeita a si próprio.” (Martino, 2025) Portanto, o outro não existe senão como extensão daquilo que conseguimos alcançar na relação que mantemos conosco. 
Toda a dedicação que se possa ter com o outro parte do cuidado que dedicamos a nós mesmos. No entanto, não há como aprender a cuidar de si mesmo senão pelo cuidado que tiveram conosco. É impossível alegrar alguém que esteja descontente consigo mesmo. Aquele que está descontente consigo mesmo não se alegrará com nada que venha do outro. Por outro lado, quando a paz interior se torna possível, tudo ao redor passa a ser a extensão disso.
No princípio, o “eu” não existe; ele passa a existir através do cuidado dedicado do outro, que exerce esse cuidado como uma extensão da dedicação para consigo mesmo. Donald Woods Winnicott (1896-1971) propôs a ideia de que, no início da vida do bebê, a mãe suficientemente boa não é outra pessoa, mas sim o próprio ambiente. Winnicott afirma que "não existe essa coisa chamada bebê", ou seja, um lactente nunca existe sozinho. O bebê é parte integrante de um ambiente de cuidados sob responsabilidade da mãe, que, para tanto, precisa estar resguardada pela proteção e provisão do pai. No início da vida, o bebê não se diferencia do meio ambiente (a mãe). O colo, o cuidado e o ambiente proporcionado pela mãe são, para o bebê, extensões de si mesmo. Conforme o desenvolvimento se realiza de maneira bem-sucedida, o bebê passa a existir.

Esse modelo de extensão nunca deixa de reger nossa vida emocional, mesmo na vida adulta. Após a internalização do ambiente externo, passamos a dispor de um ambiente interno que orientará nossa vida emocional. Nesse ponto do desenvolvimento, o outro deixa de existir e o ambiente interno é o que guia nosso funcionamento. Passamos a nos relacionar com o outro nos moldes e na medida do relacionamento com nós mesmos. Na medida em que as configurações desse ambiente interno e o funcionamento emocional entrem em colapso, existe chance de reparação. Contando com um ambiente externo que propicie acolhimento — no mesmo modelo proposto por Winnicott — as reparações tornam-se possíveis. O processo psicoterapêutico pode ser, por excelência, o recurso para que isso ocorra.


Martino, R. D. Acolhida em Psicoterapia, 2018.

Martino, R. D. Esboço de Expansão: Escolhas, Vontade e Desejo, 2025.

WINNICOTT, D. W. O Brincar e a Realidade. 1971.

WINNICOTT, D. W. Os processos de Maturação e o Ambiente Facilitador. 1965.











Prof. Renato Dias Martino

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