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sábado, 1 de agosto de 2020

DA REAL IMPORTÂNCIA DO SER HUMANO

São inumeráveis os questionamentos sobre nossa real significância frente ao universo. Existe uma grande incerteza sobre o que realmente o ser humano representa perante o mundo. Porém, por conta de certo narcisismo peculiar de nossa espécie, em todo decorrer da história da humanidade, o ser humano parece atribuir a si mesmo uma importância maior do que possa ter as outras espécies de criaturas na natureza.
Isso persiste até nos tempos atuais e não me parece ter sinais de mudança considerável por parte da maioria das pessoas. Mesmo depois da revelação de Charles Robert Darwin (1809 – 1882).
Sigmund Freud (1856 — 1939) em sua obra UMA DIFICULDADE NO CAMINHO DA PSICANÁLISE, propôs o que foram as quebras do narcisismo universal dos homens, que havia sofrido até então, três bruscos golpes através das pesquisas científicas.
Segundo Freud a proposta de Darwin veio como um golpe no narcisismo do homem que se encontra entre o golpe no âmbito cosmológico de Nicolau Copérnico (1473 — 1543), na destruição da ilusão narcisista sobre a suposta posição central da Terra no universo e o golpe de natureza psicológica, onde com a introdução da psicanálise, que deixou evidente o fato sobre o sujeito não ser livre e dono da suas próprias escolhas, já que o domínio do inconsciente é o que comanda as decisões. “O homem não é um ser diferente dos animais, ou superior a eles; ele próprio tem ascendência animal, relacionando-se mais estreitamente com algumas espécies, e mais distanciadamente com outras.” (Freud, 1917)
Essas evidências se mantém vivas ainda hoje, tanto no âmbito físico quanto nas características mentais, na comparação do homem com os outros animais.
Sendo assim, mesmo com grande resistência para a tomada de consciência, fica nítida a configuração onde o ser humano não é mais do que parte da natureza. Dessa forma, não se deve, com efeito, atribuir-se maior valor a si do que a qualquer outra criatura.
Mesmo que tenha desenvolvido ampla racionalidade e grande inteligência, que muitas vezes parece muito mais nociva do que benéfica, tanto para si mesmo quanto para a própria natureza, como um todo. Na realidade, o ser humano vem se revelando uma espécie de criatura muito danosa para a natureza já que na medida em que ganha espaço coloca em risco inúmeras espécies, assim como destrói ecos sistemas, isso incluindo sua própria espécie.
O ser humano não é capaz de reconhecer que depende da natureza e que o contrario não é verdade. A natureza padece do desejo humano. Em prol de realizar seus desejos o sujeito não hesita em destruir o fluxo natural da natureza. Com isso uma triste proposição se revela: a natureza agradece a ausência do humano.
Por mais que amiúde sejamos levados pelo nosso egoísmo a acreditar que somos especiais e que nosso desejo particular deva ser satisfeito, independente das conseqüências que isso possa causar no fluxo da natureza, muitas vezes em detrimento das outras criaturas, na verdade, não temos importância real de forma individual. Fazemos parte do todo e dessa forma, nossa real importância perante o universo só tem sentido quando integrados ao todo.
“Não escolhemos com total liberdade a partir de nossa consciência local, ou ego individual, mas a partir de uma consciência cósmica não local e não comum.” (Amit Goswmy, 2010). Nascemos e morremos no fluxo da natureza, sendo que cada ser humano isolado não tem relevância na configuração do universo. A importância frente ao cosmos começa quando passamos a fazer parte integrante do todo.   
“Bem, vemos o indivíduo nascer e morrer, mas o indivíduo é apenas um fenômeno; não existe senão pelo conhecimento submetido ao princípio de razão, que é o princípio de individuação: nesta ordem de ideias, certamente o indivíduo recebe a vida como um dom: oriundo do nada e despojado do seu dom pela morte, ao nada retorna.” (Schopenhauer, 1819)
O universo está em constante transformação, mudando de forma, se transfigurando. No mundo material, nada é permanente. Assim como nos ensina os Vedas, através da Trimurti (Brahma – que cria, Vishnu – que mantém e Shiva – que destrói), as coisas nascem crescem e desaparecem. Nós humanos somos uma ínfima parte de um fluxo do todo que se transmuta constantemente. Sendo assim, nascer e morrer são coisas que pertencem aos fenômenos, ou do campo da realidade material, que configura as criaturas individuais.
Somos seres de passagem na cesura do tempo. A partir duma única substancia nos configuramos, nos mantemos por algum tempo nessa configuração e então nos desconfiguramos. Isso para logo mais tarde nos reconfigurarmos numa nova forma. Esse é o fluxo natural da vida. Dentro da sabedoria budista no Dharma, uma das características da existência do universo é justamente a impermanência, onde tudo se manifesta num estado de eterno movimento de transmutação.
No entanto, normalmente o ser humano está mais ligado aos que chamados fenômenos condicionados que são transitórios. Ora, é justamente quando nos apegamos ao que é impermanente que é gerada as patologias com todas suas moléstias. Assim como nos orienta Wilfred Ruprecht Bion (1897 — 1979)
...E, usualmente, nem aquele que começou a dizer uma frase será o mesmo que irá termina-la. (Bion, 1978)
Cada um de nós se dispõe como que uma célula no corpo material de Deus, ou da natureza, como propõe Spinoza. No livro I da ÉTICA E NO TRATADO SOBRE A RELIGIÃO E O ESTADO, o filósofo holandês Baruch Spinoza (1632 — 1677) propõe sua concepção onde Deus e Natureza são a mesma coisa — Deus sive Natura (Deus ou Natureza).
Para Spinoza, espírito e matéria, são atributos da mesma substância. Nem um de nós é mais importante que o outro, assim como nenhuma célula ocupa papel mais importante do que a outra. Ainda que uma seja um neurônio componente do cérebro e a outra uma célula do tecido da sola do pé. Uma célula sozinha não tem a menor importância para o funcionamento do corpo como um todo. A importância de uma célula só se faz real quando integrada às outras células.
Em psicanálise, os elementos que permanecem cristalizados resistindo às transformações, são geradores de neurose. Essa ordem de elementos forma o que Freud, em seu trabalho A DINÂMICA DA TRANSFERÊNCIA, denominou de transferência. Elementos não elaborados, então, são projetados no outro, que a partir disso, passa a representar uma repetição reeditada de alguma relação vivida anteriormente pelo sujeito. Isso impede que se estabeleça um vínculo novo. Na prática clínica, o paciente atribui características de seu pai, mãe, irmãos, ao analista, como uma compulsão à repetição.
“Assim, a transferência, no tratamento analítico, invariavelmente nos aparece, desde o início, como a arma mais forte da resistência, e podemos concluir que a intensidade e persistência da transferência constituem efeito e expressão da resistência.” (Freud, 1912) A transferência é a tendência de acreditar que a pessoa nova que se conhece, de alguma forma é aquela da qual já havia conhecido antes. Isso obstrui a possibilidade de se estabelecer um vínculo real com a pessoa do analista.
“Sendo a transferência um fenômeno presente nas relações humanas, assim como no tratamento psicanalítico, o sujeito/paciente faz uso como um recurso defensivo para que o material impensado continue inacessível, remontando o passado não pelo recurso do pensamento, mas pela atuação – ação não pensada.” (Martino, 2018)
É evidente o aspecto nocivo e patológico dos elementos que se mantém enrijecidos resistindo às transformações. Característica própria da dimensão material na concretude das coisas. Sendo assim, aquele que se mantém tão somente ligado a essa dimensão está em desacordo com o próprio universo, que está em expansão, eternamente se transmutando. Isso tem implicação direta no apego que o humano tem à realidade sensorial. Apegamos-nos às ilusórias certezas na materialidade das coisas para aplacar a sensação desconfortável de nos percebermos sendo insignificantes. A tentativa de evitar o desconforto gerado pela percepção e o reconhecimento de nossa insignificância perante o mundo é o que nos faz acreditarmos que somos superiores. Por vezes nos vemos apegados ao dinheiro, aos bens materiais, aos títulos, imaginando que isso possa nos tornar mais importantes. Ora, isso nos faz arrogantes e nos afasta cada vez mais da realidade. A nobreza do ser humano não está naquilo que ele possa possuir ou acumular, mas na capacidade de humildemente conseguir viver com o necessário. Um ser humano revela sua grandeza na medida em que reconhece sua pequenez diante do universo.

Bion, W. R. TRANSFORMAÇÕES - do aprendizado ao crescimento (P. C. Sandler, trad.). Rio de Janeiro: Imago. 2004/1965. 
_________. CONVERSANDO COM BION, Rio de Janeiro, Imago, 1992/1978.
Freud. S. A DINÂMICA DA TRANSFERÊNCIA, Rio de Janeiro, Imago, 1912.
_________. UMA DIFICULDADE NO CAMINHO DA PSICANÁLISE, Rio de Janeiro, Imago, 1917.
Goswmy, A. O ATIVISTA QUANTICO: Princípios da física quântica para transformar o mundo e a nós mesmo - São Paulo. Editora Aleph, 2010.
Martino, D. M. ACOLHIDA EM PSICOTERAPIA – São José do Rio Preto. Vitrine Literária Editora, 2018.

Schopenhauer, A. O MUNDO COMO VONTADE E REPRESENTAÇÃO. Rio de Janeiro: Contraponto Editora, 2001/1819. (Tradução de M. F. Sá Correia).
_______________ O LIVRE ARBÍTRIO. São Paulo: Edições e publicações Brasil, 1950/1836. (Tradução de Lohengrin de Oliveira).
Spinoza. COLEÇÃO OS PENSADORES. São Paulo: Nova Cultural, 1997.
Venerável Mestre Hsing Yün, BUDISMO SIGNIFICADOS PROFUNDOS, Escrituras Editora, 2ª edição revisada e ampliada, São Paulo, dezembro de 2011.







quarta-feira, 3 de junho de 2020

CUIDAR DE SI, CUIDAR DO OUTRO


O que leva alguém a acreditar no real poder de escolha do ser humano tem grande influência na crença de que já nascemos capacitados para inúmeras atitudes. Acreditar que todos conseguem desenvolver as mesmas capacidades, independente das condições em que vivem, isenta o sujeito de se responsabilizar por cada ato da humanidade. É um atalho tão facilitador quanto superficial o de acreditar que aquele que não “vê” a realidade e vive a se envolver nas ilusões, o faz por que escolheu esse modo de viver.
Esse é um grande impasse entre a realidade e a justiça dos homens. Quando, num tribunal, um sujeito é condenado por algum crime que tenha cometido, isso ocorre sem que se considere a história de sua vida, onde não houvera configuração necessária para que houvesse chance de vir a agir diferente do que tenha feito. Já que, o que é possível fazer é tão somente retirar o suposto criminoso do convívio social, para evitar que cometa mais crimes. No entanto, não é possível fornecer ao condenado, condições que permitam que consiga realmente desenvolver suas capacidades. Justamente o que lhe faltou e o que o levou se tornar alguém incapaz de fazer diferente do que fez.
A capacidade de amar é um bom exemplo de um elemento que não é inato do ser humano. Ainda que exista a possibilidade de desenvolvê-la, essa capacidade carece fundamentalmente de modelos para que isso ocorra. Não se aprende a amar por meio de orientações pedagógicas, métodos didáticos ou de doutrinação, mas através de experiências vividas junto de alguém que nos ama. No princípio da vida, a dependência é a configuração do vínculo simbiótico entre mãe e bebê. Lentamente a criança vai aprendendo amar através do amor que a mãe dedica a ela. Sendo assim, poderíamos afirmar que o amor nasce da dependência e vai se desenvolvendo e expandindo.
Num primeiro momento a criança aprende a amar a si mesma pelo amor da mãe e também do pai. Essa experiência inicial parte do que em seu texto SOBRE O NARCISISMO: UMA INTRODUÇÃO, Sigmund Freud (1856 – 1939) chamou de narcisismo primário. Na lenda grega Narciso era um belo jovem que se apaixonara por sua imagem refletida no rio. A criança sente que ela é a coisa mais importante na vida dos pais e essa importância passa a ser internalizada pela própria criança, que passa a ter-se como o que há de mais importante para si mesma. A partir daí, devagar, passa a se qualificar para retribuir esse amor aos pais. Num primeiro momento retribui o amor que recebeu e que foi a base do amor próprio, e posteriormente passa a se qualificar a expandir esse amor a outras pessoas.
Portanto, alguém não pode ser capaz de amar outra pessoa sem antes ter aprendido a amar a si mesmo. O amor que possa vir a ser dedicado ao outro é sempre uma extensão da consideração que se tenha por si próprio. Portanto, a auto-estima sempre deve fundamentar a qualidade dos vínculos. A capacidade de amar o outro tem um pressuposto no amor próprio, entretanto, só pode ser capaz de amar a si mesmo aquele que foi um dia amado pelo outro.
A dedicação de cuidado é um fator da capacidade de amar e sendo assim também é aprendida por meio de modelos. O amor nasce na disposição ao cuidado e se propaga através dessa dedicação. A criança vai aprendendo a cuidar de si mesma a partir do cuidado zeloso dos pais dedicados a ela. Dessa maneira vai aprendendo a cuidar de si mesma, nos moldes de como foi cuidada. Do mesmo modo, esse cuidado dedicado será estendido ao outro. Isso inclui a dedicação ao cuidado dos próprios pais, quando em situação onde eles não estiverem sendo capazes de cuidar bem de si mesmos. Cuida bem do outro aquele que cuida bem de si mesmo.
Nessa altura do texto, o leitor pode estar se perguntando: quer dizer que quem não foi amado na infância não terá mais a chance de desenvolver a capacidade de amar a si mesmo e em consequência disso, ao outro? A resposta é simples, contudo, não tão simples é conseguir a configuração necessária para que seja possível o desenvolvimento da capacidade de amar e de cuidar, num adulto que não tenha sido cuidado e amado suficientemente em sua infância. Naturalmente que existirão outras oportunidades de se encontrar fontes afetivas na vida adulta, no entanto é evidente que a chance é bem menor para aquele que não conseguiu isso no seio do lar, em sua infância.
Um processo de psicoterapia, quando bem sucedido pode ser um bom ambiente para que isso possa acontecer. Para isso é necessário um encontro entre um paciente que esteja realmente disposto a se dedicar a esse doloroso processo e um psicoterapeuta que esteja realmente preparado para tanto.

Freud. S. SOBRE O NARCISISMO: UMA INTRODUÇÃO (1914)









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