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terça-feira, 7 de julho de 2026

AMBIENTE DE CONCÓRDIA - Prof. Renato Dias Martino

 


Na mitologia grega, Eros é o deus do amor, da paixão e do erotismo, responsável por unir os seres e inspirar o desejo. Eros é o personagem usado por Sigmund Freud dentro das formulações psicanalíticas para ilustrar a tendência da pulsão de vida no movimento da libido (substrato da pulsão). “Ocorrendo do interior para o exterior, eclodindo para fora, na ligação com o mundo, com o outro (objeto), e também agindo no mundo interno, na integração das partes do eu” (MARTINO, 2024). Propicia a integração com o outro e entre as partes do eu.

É na ligação afetiva que é gerado o novo. A vida se propaga pelos vínculos. Wilfred Bion nos fez recordar o fato de que “A unidade biológica é o casal” (BION, 1977). A pulsão de vida favorece o processo de simbolização. A palavra símbolo deriva do termo grego symbolon, formado por syn- (junto ou com) e ballein (lançar, atirar ou juntar). A tradução literal é "lançar junto" ou "unir".

Por outro lado, na ausência da libido, quem atua é a pulsão de morte, Thânatos – na mitologia grega, tendência paralela a Eros e cuja função é conduzir ao estado inorgânico. “Como num corpo sem vida que tende a se decompor, a ausência da libido provoca a fragmentação das partes” (MARTINO, 2024). Thânatos separa as pessoas, assim como vem a desintegrar as partes do eu. No funcionamento saudável da mente, as duas tendências trabalham paralelamente num balanceamento harmônico. No entanto, na predominância da pulsão de morte, ou seja, na privação da libido, ocorre o inverso da simbolização: o que se manifesta é a diabolização. O termo diabolizar deriva de diabo, que vem do grego diábolos. Essa palavra é formada pela junção de dois elementos: diá (prefixo que significa "separação") e ballein (um verbo que significa "lançar" ou "jogar").

A pulsão de vida atinge sua forma mais nobre na experiência da concórdia. Porém, o fato de se concordar ou discordar não diz respeito a quem tem a razão ou quem não a tem. “Antes de tudo, falamos sobre a experiência da concórdia, onde con-cor-dar diz respeito a estar junto de coração. Quando não pode existir tal experiência afetiva, arma-se então um eterno debate improdutivo, onde a arrogância impede qualquer que seja a concordância entre aqueles que acham que têm a razão” (MARTINO, 2018). A saber, a razão está subordinada ao coração. Tanto no âmbito das ideias quanto no funcionamento do organismo, no corpo físico. O cérebro precisa do coração para funcionar. Sem irrigação sanguínea o cérebro não pode funcionar, e quem bombeia o sangue no corpo é o coração.

A concórdia é o que rege o ambiente de afinidade onde há respeito quanto ao limite das partes. “Assim como na semântica, a palavra afinidade vem do latim affinis, “vizinho, contíguo”, de finis, “fronteira, limite, fim”” (MARTINO, 2025). Num ambiente de afinidade, as partes são capazes de reconhecer e respeitar seus limites, o que admite duas coisas existirem sem que uma anule a outra, numa fusão (confusão) uma com a outra. A confusão é uma característica peculiar do ambiente pobre em afinidades, onde as pessoas são forçadas a conviver por qualquer outro motivo que não seja a concórdia. Na realidade, ser obrigado a conviver num ambiente privado de afinidade e repleto de discórdia me parece ser uma forma silenciosa de violência à qual o sujeito é submetido sem perceber que está sendo violentado. A influência nociva do ambiente pode vir a ser brutal e por vezes desastrosamente silenciosa, assim como a influência de um ambiente rico em afinidade e nutrido de concórdia pode ser saudável.

Quem trabalha na peixaria vai ficar com cheiro de peixe, mesmo se não vier a tocar em nenhum peixe. Por outro lado, aquele que trabalha na perfumaria, no fim do dia, estará inevitavelmente perfumado. Essa é a influência do ambiente. Aquilo que te circunda te influencia, independentemente de qualquer medida que se possa tomar. Não é necessário participar, basta estar inserido no ambiente e ele já estará agindo.

 

REFERÊNCIAS

BION, W. R. Conversando com Bion: quatro discussões com W. R. Bion (1977): Bion em Nova York e em São Paulo (1980). Rio de Janeiro: Imago, 1992.

MARTINO, R. D. Acolhida em psicoterapia. São José do Rio Preto: Vitrine Literária Editora, 2018.

MARTINO, R. D. Pensando melhor a psicanálise: do saber ao estar sendo. São José do Rio Preto: Vitrine Literária Editora, 2024.

MARTINO, R. D. Esboço de expansão: escolhas, vontade e desejo. Rio de Janeiro: Paula Editorações, 2025.

 








Prof. Renato Dias Martino












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quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

IMATURIDADE, SIMBOLIZAÇÃO, VÍNCULO E ESPERANÇA - Prof. Renato Dias Martino




IMATURIDADE

Nós vivemos numa sociedade de adultos imaturos, adultos imaturos e perigosamente inteligentes. Sujeitos que têm uma inteligência grande, o sujeito que tem um conhecimento muito vasto, mas que são extremamente imaturos emocionalmente e um sujeito imaturo emocionalmente condiz com um sujeito incapaz afetivamente, ou seja, incapaz de amar. Ele não é capaz de se dedicar ao outro, ele não é capaz de considerar o outro, ele não é capaz de respeitar o outro. Porque, apesar de inteligente é imaturo e sendo guardando, fixado uma criança ou inúmeras crianças dentro dele, ele vai priorizar aquilo que o interessa e não aquilo que seja bom para todos.

PRINCÍPIO DO PRAZER 

O Freud propôs que nós funcionamos de duas formas diferentes. No processo primário e no processo secundário. O processo primário é regido pelo princípio do prazer, ou seja, eu busco satisfação imediata o tempo todo e evito desconfortos o tempo todo. Esta é a função do processo primário, no princípio do prazer. Na medida em que o sujeito vai desenvolvendo a sua capacidade de tolerância, ele começa a funcionar também por um outro processo chamado processo secundário, que então é regido pelo princípio da realidade. Ele começa admitir, considerar alguma coisa que já não é só o seu prazer, não é só a sua satisfação, não é só evitar desconfortos, mas é também considerar o mundo externo e a realidade como um todo. Nós estamos falando então, de uma sociedade onde um adulto não é capaz de considerar a realidade como um todo, mas ele simplesmente e tão somente busca a sua satisfação e muitas vezes usando, de maneira inteligente, narrativas dizendo que aquilo ali é para o bem do outro também.

NO ADULTO

Nós funcionamos, mesmo depois de adulto a maioria do tempo, pelo processo primário. Não deixamos de funcionar, no entanto, nós aprendemos a conter os desdobramentos do processo primário e a partir de então, somos capazes de funcionarmos também pelo processo secundário. Na maioria do tempo a gente está buscando afastar desconfortos e buscando satisfação imediata, no entanto, somos capazes, a partir da maturação emocional, de conter este processo para que ele não se manifeste o tempo todo e nesta continência a gente passa a ser capaz de considerar o mundo externo também. Ou seja, o processo primário e o processo secundário vão funcionar concomitantemente. Um não anula o outro. Existe uma cota do sujeito funcionando por um processo e outra cota funcionando por outro processo, mas a maior parte do tempo nós estamos funcionando pelo processo primário, por mais maduro, por assim dize,r que nós possamos ser.

SIMBOLIZAÇÃO 

Como é que o processo psicoterapêutico entra nessa tarefa de transformação da forma que o sujeito funciona? Através da simbolização. Como é que se dá esse trabalho de simbolização? Se dá de uma maneira muito bonita, muito bela, porque o sujeito, a partir do vínculo bem-sucedido com o psicoterapeuta, com o psicanalista, o sujeito, enquanto paciente, ele vai internalizando a relação que ele tem com o analista e a partir dali esta relação que ele tem com analista vai se tornando um modelo que ele vai aos pouquinhos trazendo para a relação com ele mesmo. Então, a forma como ele se relaciona consigo mesmo vai ganhar um novo modelo a partir da relação que ele tem com o analista. Então, em primeiro momento ele vai levar a figura do analista internalizada e na medida em que ele se encontra em algum conflito na sua vida cotidiana, ele provavelmente vai pensar: “o que seria que o meu psicoterapeuta, o meu psicanalista me diria agora, nessa situação?” E na medida em que ele vai conseguindo internalizar e essa simbolização vai se efetivando e vai se consolidando, ele passa a levar esse diálogo na relação com ele próprio, ou seja, ele não pensa mais o que o psicanalista dele diria para ele, mas hoje ele já tem essa forma de funcionar e ele mesmo passa a lidar com seus conflitos de uma forma própria, que leva em conta as experiências que ele teve com o analista.

SUPORTAR 

Esse processo de simbolização faz com que o sujeito seja cada vez mais capaz de tolerar desconfortos e menos capaz de aguentar desconfortos. Porque o sujeito quando ele aguenta é porque ele não aprendeu a tolerar. O desdobramento bem-sucedido é na capacidade de tolerar na esperança de que aquilo vai passar. O sujeito que aguenta ele aguenta porque não tem esperança de passar. Ele suporta. Ele carrega o peso o sujeito que tolera, tolera até que passe. 

ESPERANÇA 

O processo de tolerância está diretamente subordinado à esperança. Sem esperança, sem tolerância. Precisa haver a esperança de que algo acontecerá e que possa trazer o alívio daquela situação, senão é aguentar e aguentar não é saudável por quê porque é acumulativo, porque é estressante, porque traz para o sujeito um adoecimento, mesmo que ele não esteja percebendo.


VÍNCULO E ESPERANÇA 

A esperança é algo desenvolvido, impreterivelmente a partir de um vínculo bem-sucedido. Não existe o desenvolvimento de esperança sem que anteriormente possa ter havido um vínculo afetivo saudável.

SIM E DIA

Símbolo é juntar, diábolos é separar. SIM é juntar, DIA é separar. Quando eu sou capaz de simbolizar, eu estou integrando. A partir da minha integração com o outro eu tenho um modelo de integração comigo mesmo. O processo de diabolização, por assim dizer, é o processo de separação de fragmentação. Então, enquanto eu, a partir do processo psicoterapêutico consigo simbolizar, a sociedade me propõe diabolizar por várias vias. Seja pelas ideologias que separam negros de brancos, homossexuais de heterossexuais, de homens de mulheres e outras coisas parecidas, vão separando as coisas e dentro do processo psicoterapêutico, a gente tem a chance de juntar as coisas e a partir de um processo extremamente desconfortável, reconhecer a realidade como um todo.

ESTAR SENDO

A diferenciação básica do ato de fé e da esperança é que o ato de fé diz respeito a algo que está acontecendo naquele momento, no aqui e agora, apesar de eu não conseguir constatar pelos meus órgãos dos sentidos, apesar de não estar dentro da perspectiva do sensorial, ainda sim está acontecendo. Então, isso carece o ato de fé para que eu possa, a partir da minha intuição, perceber isso, reconhecer isso aprender a respeitar isso e me responsabilizar por isso. A esperança diz respeito àquilo que há de vir. Então, por mais que agora a situação esteja me frustrando, ainda assim eu vou tolerar com a esperança de que isso vai se transformar e essa esperança diz respeito à percepção do “estar sendo”, do fluxo da vida e não de um estado cristalizado, engessado que, a partir do “eu sou”, não me permite perceber que a vida é um fluxo.

SOBRE O SABER

Intuição sem que eu possa dar um nome, ela é cega. Um nome que não esteja preenchido de intuição é vazio. No entanto, a partir da nossa vivência psicoterapêutica, a gente percebe que muitas vezes, a intuição não precisa sequer levar um nome para que ela possa ser considerada. Muitas vezes eu não vou encontrar nome para uma experiência vivida e a ainda assim, essa experiência que não foi nomeada é nutridora, é passiva de aprendizado, nos ensina, mesmo sem nome. Priorizar o conhecimento, ainda ficar ligado ao saber, ao conhecer, é limitar a nossa experiência como um todo. Porque o saber é limitado, é limitado e limitante em qualquer esfera, seja numa ciência extremamente rebuscada e tecnológica, ainda assim, esse saber é limitante, porque o saber não inclui o amor. O saber é frio, o saber é racional, o sujeito só vai desenvolver a sua capacidade afetiva a partir do seu desenvolvimento emocional, da sua qualificação afetiva, que venha de um preparo, de uma maturação emocional, que tem a ver com simbolizações e tolerância.

EQUAÇÃO OU ANALOGIA 


O termo “equação simbólica” foi criada pela Hanna Segal, inspirada na Melanie Klein. Equação simbólica é quando o objeto coincide com o símbolo, equaciona com o símbolo. Aquilo que está dentro é aquilo que está fora. Quando aquilo que está fora não está presente, aquilo o que tá dentro também não fica presente. Não traz a possibilidade de desenvolver tolerância, porque a ausência de um equaciona a ausência do outro e isso vai para além, num exemplo dentro da clínica. O analista é meu pai! Isto é uma equação simbólica. O analista se torna o pai do sujeito. A analista se torna a mãe do sujeito. Na analogia simbólica é assim: isto que está dentro é como se fosse aquilo que está fora, então não é aquilo que está fora, mas é como se fosse. O analista é como se fosse meu pai. Isso é analogia. O analista é análogo ao meu pai, ele não está numa equação com o meu pai. A analista é como se fosse a minha mãe, ela não é minha mãe equacionada. A parte psicótica da mente funciona por ação simbólica e não por analogia simbólica. A equação simbólica só tem igualdades, a analogia simbólica tem igualdades e também admite diferenças.

BEZERRO DE OURO 

Um exemplo muito interessante de equação simbólica, nas formulações religiosas é a passagem do bezerro de ouro. Quando Moisés sobe a montanha para ter com Deus e o povo fica ali esperando, quando ele volta o povo juntou todo o ouro que tinha, derreteu e fez um bezerro de ouro. Para o povo, Deus tinha que ser materializado em algo valoroso, porque senão eles não conseguiam adorar Deus. Então, existe a necessidade de concretizar alguma coisa para que este elemento concreto e físico possa coincidir com o símbolo interno.



terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

EGO E DESAPEGO - Prof. Renato Dias Martino



O ego, ele é constituído por símbolos e os símbolos são formados através de experiências de desapego. Quando o sujeito é capaz de se desapegar de alguma coisa do mundo material, ele conseguiu uma “expansãozinha” no seu ego. Cada elemento que ele é capaz de dispensar a confirmação sensorial no mundo material, ele ganhou uma nutrição no seu ego. Quando o bebê é capaz de simbolizar a mãe, isso quer dizer que ele pode tolerar a ausência desta mãe material, física, concreta, porque ele consegue ter esta mãe dentro dele, conseguiu internalizar a imagem dessa mãe, logo, o ego dele foi nutrido. Logo, o ego dele começa a ser bem estruturado.

O EGO E O OUTRO

O sujeito que tem um ego bem estruturado, o sujeito que tem um ego nutrido, ele tem a característica da união, da junção, do acolhimento. Primeiro, de si mesmo e depois do outro. O ego é a parte da personalidade que organiza o funcionamento emocional e afetivo. Então, quanto mais bem nutrido o ego do sujeito estiver, mais capaz de se doar ao outro e ele será. Porque ele é capaz de doar-se a si mesmo, de confiar em si mesmo, de acreditar em si mesmo, de amar a si mesmo, de respeitar a si mesmo. Este é o ego. É a capacidade de estar de bem consigo mesmo. É a autoestima e esta autoestima quando bem nutrida se desdobra na estima do outro

EGO INFLADO 

Muitas vezes, quando a gente vê um sujeito manifestando uma característica que não inclui o outro, uma característica que a gente vai chamar de narcisista, isso não quer dizer que o sujeito tem um ego muito grande, quer dizer que o sujeito tem um ego inflado. Ego inflado não é um ego nutrido, ego inflado é um ego oco, que não tem nada dentro. Ego nutrido é um ego consistente. Quando, o sujeito tem um ego consistente, ele é um sujeito que é capaz de se compadecer com o outro. Então, muitas vezes, esse sujeito, o que ele tem muito grande é um superego, é um ideal de eu, é algo que exige que ele seja algo que ele não está sendo. O ego é aquilo que ele está sendo, o superego é aquilo que ele deveria ser e muitas vezes para conseguir aquilo que ele deveria ser, ele passa por cima do outro. Ele tem uma ideia de si mesmo, não por aquilo que ele está sendo, mas por aquilo que ele deveria ser e ele começa a tentar reafirmar isso que ele deveria ser, como se ele estivesse sendo, para o outro, de uma maneira impositora, muitas vezes sendo arrogante, prepotente.

ESTAR SENDO E DEVERIA SER

A gente tem o hábito de condenar o superego, condenar o ideal de eu. Ah, mas o meu superego é muito rígido, ele exige demais de mim. “Ah, mas meu ideal de eu é muito exigente, ele é muito severo!” Na realidade, o que está acontecendo é que você não está sendo capaz de acreditar em você mesmo. Você não está sendo capaz de acreditar naquilo que você está sendo. Então, o que vai te guiar é aquilo que você deveria ser, logo o ideal de eu, superego. Então, o vilão da história não é o superego. Ele está ali, para tentar administrar alguma coisa que você, enquanto estando sendo, não está dando conta de administrar. Todas as vezes que você não estiver acreditando em você mesmo, quem vai tomar conta do da sua vida é o “deveria ser”, é a exigência é a cobrança.

EGO E SOLIDÃO

Quando o sujeito é capaz de ficar sozinho, ele tolera a solidão, ele se qualifica para conviver com o outro de forma saudável. Quando o sujeito não tolera a solidão, não tolera ficar sozinho, ele está fadado a se tornar uma pessoa solitária, mesmo na presença dos outros. Então, o que qualifica o sujeito a conviver com as pessoas, a estar junto com as pessoas é a capacidade de estar sozinho consigo mesmo. O sujeito, muitas vezes, não tolera a sua própria companhia, ele não é uma boa companhia para si mesmo. Desesperadamente, precisa de alguém do lado dele e muitas vezes, esse alguém está do lado dele, não está do lado dele, na realidade. Está ali, fisicamente, mas emocionalmente e afetivamente, não está.

FUNÇÃO DE AMAR

É do Ego a função de amar. Só aprende a amar o outro aquele que ama a si mesmo e o amor que se tem para consigo mesmo coincide com um ego bem estruturado e bem nutrido. Sem um ego bem estruturado e bem nutrido o sujeito não é capaz de amar o outro. A definição mais próxima do que é ego, é a parte da personalidade que aprendeu com o amor do outro como é amar a si mesmo. O outro me amou, eu aprendi a me amar. A partir desse amor próprio, eu posso estender para o outro, eu posso me doar ao outro.

AMOR E EGOÍSMO

Lá em SOBRE O NARCISISMO: UMA INTRODUÇÃO, de 1914, o Freud coloca: “Um egoísmo forte constitui uma proteção contra o adoecer.”. Por que que ele fala isso? Porque, muitas vezes, você está implicado ali, envolvido num vínculo tóxico e você precisa de um egoísmo forte para te proteger desse vínculo tóxico. O Freud continua: “mas num último recurso devemos começar a amar a fim de não adoecermos.” Ou seja, depois de conseguir se distanciar desse vínculo, nós precisamos voltar a o exercício do amar, de se dedicar ao outro. E aí, ele continua: “estamos destinados a cair doentes se em consequência da frustração, formos incapazes de amar.” Categoricamente, o Freud coloca que, aquele sujeito que não está sendo capaz de amar, está fadado a cair doente emocionalmente e afetivamente.

VÍNCULO SAUDÁVEL 

Um vínculo saudável, um vínculo bem nutrido, um vínculo bem estruturado, impreterivelmente, precisa contar com dois elementos. Com amor e com sinceridade. Este amor é a doação e esta sinceridade é o limite para esta doação. Então, esses dois elementos juntos constituem a possibilidade de se estabelecer um vínculo saudável. A capacidade de renunciar a si mesmo pelo outro, mas dentro da sinceridade que vai trazer o limite do que isso é possível. Aí se estabelece um vínculo saudável.

EGOÍSTA FERIDO

Muitas vezes, o sujeito que manifesta características egoístas, na realidade, é um sujeito que está com o ego machucado, fragilizado, ou ainda, que este ego é um ego imaturo, que não conseguiu amadurecer. Quando o sujeito está manifestando características egoístas é porque o ego dele está precisando de cuidado. Mas quando se trata de um adulto, isso começa a se confundir, porque muitas vezes, ele não é capaz de pedir ajuda para isso. E aí, ele se manifesta de uma maneira arrogante, prepotente para se defender da sensação de ser alguém menor que o outro.

CORAGEM E AJUDA

Talvez a atitude mais corajosa que possa existir dentro do âmbito emocional e afetivo seja pedir ajuda ao outro. Muitas vezes, ele não tem coragem disso. “Cor + agem”. COR coração e AGEM ação. Ele não consegue agir pelo coração. Porque a razão dele diz assim: “Você não pode ficar pedindo ajuda. Você não pode dar o braço a torcer que você não consegue fazer as coisas sozinho.” E aí, ele se torna um sujeito arrogante e não age pelo coração.