Era
uma vez um povo que vivia numa terra distante em que um fenômeno muito sinistro
ocorrera, desencadeando uma assustadora sequência de desdobramentos nocivos.
Nesse lugar, os pais de família, por algum motivo, estavam se ausentando do
lar. Essa ausência ocorria muito mais no nível emocional do que no físico.
Muitas vezes, o sujeito que era genitor e carregava o título de pai não era
capaz de exercer a função paterna e, com isso, houve inúmeras consequências.
A
ausência do homem que seria o sujeito do exercício da função paterna gerou na
mulher (que exerceria a função materna) um sentimento de abandono e de
menosprezo. Esses sentimentos geraram revolta na mulher, que passou a se
mobilizar para também se ausentar do lar e se tornar independente. No entanto,
as crianças, que eram naturalmente dependentes dos pais, se tornaram
vulneráveis frente a esse conflito entre os genitores. As crianças foram,
então, abandonadas, muitas vezes dentro de suas próprias casas.
Em
consequência dessa situação, surgiu uma pessoa que despontou como divindade
dessas crianças. Essa pessoa passou a se autointitular “Rainha” se apresentando
num programa matutino diário na televisão aberta. Uma multidão de crianças
estava de prontidão todas as manhãs na frente da televisão, esperando ansiosa
para passar horas assistindo à sua “Rainha”. A “Rainha” se apresentava sempre
com roupas muito curtas, num ambiente de grande sensualidade. Por fazer parte
do contexto de ausência paterna, a “Rainha” passou a desenvolver a ideia do que
chamou de “produção independente”, que consistia em gerar um filho sem estar
vinculada ao homem pai biológico da criança. Talvez numa tentativa de provar
que a função paterna teria se tornado obsoleta e desnecessária. Ela não só
desenvolveu a ideia, mas a levou a cabo e gerou uma filha com um artista famoso
que ela escolheu para tanto.
Bem,
as crianças abandonadas na frente da tela da televisão assistiam a todo esse
“Show” e aprendiam tudo o que lhes ensinava a “Rainha”, que outrora já havia
atuado num filme adulto onde fazia sexo com uma criança. Nesse “Show”,
apresentavam-se várias atrações, como, por exemplo, um grupo de rapazes
cantando músicas de cunho sexual e pornográfico que faziam inundar o
vocabulário dessas crianças. Crianças por vezes muito pequenas, abandonadas,
sem referência de limites, amiúde aprendendo a falar as primeiras palavras, já
cantavam junto com o grupo sentenças “assassinas” como: “nesse raio de suruba
já me passaram a mão na bunda e ainda não comi ninguém”.
O Winnicott
vai trazer essa ideia da apresentação do objeto. Então, a mãe apresenta o pai
para a criança, para o bebê, para o filho. E nessa apresentação ela diz:
"Olha, pode confiar nesse cara que esse cara eu também confio". Ela
apresenta e a criança passa a confiar no pai porque confiava na mãe. E se a mãe
confia no pai, ela também vai confiar nesse pai. A partir daí, ele passa também
poder exercer fatores da função materna. os cuidados dele também vão ser
válidos para a criança. E o contrário também é verdade. O pai também autoriza,
por assim dizer, a mãe a cumprir fatores da função paterna. Quando o pai está
ausente, em nome do pai, a mãe exerce esses fatores, não a função. A mãe não
pode cumprir a função, mas pode cumprir fatores da função. O pai não pode cumprir
a função da mãe, mas pode cumprir fatores da função da mãe.
AUSÊNCIA
DE FATORES
Quando
o pai não conseguiu cumprir a sua função paterna na maior parte dos fatores que
constituem essa função, a mulher, quando adulta vai continuar procurando um
homem que possa cumprir esta função paterna. Ou seja, ela não vai procurar um
sujeito para ser o marido dela, mas vai procurar um sujeito que possa vir a
cumprir a função paterna. E muitas vezes o que acontece é um relacionamento
extraconjugal, porque agora eu encontrei meu pai, eu tenho os fatores da função
paterna comprida, agora eu posso namorar. E com o homem da mesma forma, a mãe não cumpriu a maioria dos fatores da função materna,
ele encontra uma companheira que vai se tornar a mãe dele e aí ele vai criar um
relacionamento extraconjugal para namorar.
RELAÇÃO FUSIONADA
Quando
existe uma relação fusionada da criança com o pai, da criança com a mãe, acaba
não cabendo outra mulher na vida desse menino, acaba não cabendo outro homem na
vida desta menina. E aí, vai procurar um relacionamento que não vai ser
próspero. Ela procura um relacionamento que venha a fracassar, que tenha tudo
para fracassar, porque não cabe outro homem na vida dela. E o homem da mesma
forma,
PROCURANDO
O PAI
A
mulher que procura um homem casado, porque na realidade ela não quer um homem,
ela quer um pai. Ele é casado, ele é pai e vai passar a ser pai dela. E muitas
vezes esse sujeito acaba cumprindo inúmeros fatores da função paterna,
inclusive dando mesadas para ela, dando manutenção da vida dela, como um pai
faria para uma filha.
Grande
parte dessas patologias que foram desenvolvidas pela psiquiatria, TDAH, déficit
de atenção e todas essas coisas que as crianças estão sendo diagnosticadas, tem
este fundo de, na realidade, essas crianças estarem procurando a mãe. “Cadê a
minha mãe?” E procura num lugar, não está ali, procura no outro lugar, não está
ali. Então, ela não consegue se concentrar em nada, porque na realidade antes
ela precisa ter vivido essa experiência de acolhimento com a mãe. Mas aí você
diz: "Ah, mas a mãe tá ali!" Pois é! E ela olha para mãe e ela não
consegue encontrar a mãe na própria mãe, porque é uma desconhecida, porque
viveu a vida inteira em instituições sendo cuidado por outras pessoas. As
crianças vêm no mundo sem espaço para estar neste mundo. E não é um espaço
físico, é um espaço afetivo.
TEMPO
DE QUALIDADE
Na
linguagem contemporânea se desenvolveu uma ideia de “tempo de qualidade”. No
desenvolvimento da criança não existe “tempo de qualidade”. A mãe precisa estar
junto dele o tempo todo, porque esse tempo de qualidade não vai incluir as
experiências que vão acontecer, independente do tempo, independente do momento.
Uma criança, precisa da mãe para desmamar. Uma criança precisa da mãe para
desfraldar. E não é no tempo de qualidade que isso vai acontecer, é o tempo
todo. A criança não vai escolher o momento que a mãe está disponível para dar o
“tempo de qualidade” para que ela apresente as necessidades desta mãe.
CONEXÃO
COM A MÃE
Na
minha época de criança, a experiência mais horrível que uma criança poderia
viver é se perder no supermercado. A mãe te levava para fazer compra e você se
perdia dela no meio das gôndolas, das prateleiras do supermercado e você
entrava num desespero e começava a chorar desesperadamente até que alguém
pegasse você e falasse no microfone: "Fulana, seu filho está aqui na
recepção". E aí, a tua mãe ia te buscar e você estava aliviado. Hoje as
crianças não têm mais nem referência de quem é a mãe, porque desde pequenininha
foram criados pela tia da creche, pela babá, sabe lá por quem, e não
conseguiram criar esta conexão com a mãe. E para ela tanto faz, se é a mãe ou
se é o tio do supermercado, ela já não tem mais esse desespero de ter perdido a
mãe. Triste isso, né?
FUNÇÕES
Quando
eu falo aqui da função materna, eu estou falando implicitamente da função
paterna. Não há como exercer a função materna de maneira suficientemente boa ou
de maneira bem-sucedida sem a presença atuante da função paterna. Não tem como.
ORIGEM
DO CAOS
As
crianças estão sendo abandonadas. Os exemplares da espécie humana que a gente
está deixando para o mundo são de péssima qualidade, não foram cuidados, não
tiveram atenção, foram abandonados na mão de terceiros e vão se criando
espécimes despreparados e vão criando ideologias e ideias estapafúrdias, ideias
bizarras que vão tomando conta da sociedade. Não foi cuidado e agora se
transforma num adulto que tenta impor a suas ideias psicóticas. E isso tende a
piorar, porque as escolinhas, as creches estão inundadas de crianças. E essas
crianças que estão se tornando adultos, que estão inundando as casas de repouso
e os asilos de idosos, porque não foram cuidadas e não vão cuidar daqueles que
não cuidaram delas.