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terça-feira, 25 de março de 2025

ANSIEDADE E ANGÙSTIA - Prof. Renato Dias Martino


TEMPO E ESPAÇO

Angústia quer dizer aperto. Aperto remete a espaço. Espaço apertado. Um aperto no peito é chamado de angústia. Quando a gente fala de ansiedade, nós estamos falando de um conceito que leva a uma experiência relacionada a tempo. Espaço e tempo. Angústia leva a noção de tempo, de um tempo curto, ou de um tempo que não vai ser suficiente para se fazer aquilo que precisa ser feito. Então, o sujeito ansioso é aquele sujeito que tem a impressão de que não dará tempo de fazer qualquer coisa. A ansiedade leva o sujeito para fora, a angústia leva o sujeito para dentro.

DOIS LADOS

Não existe um sujeito que sofre somente de angústia. E não existe um sujeito que sofre somente de ansiedade. O sujeito que tem as ditas crises de ansiedade é o momento onde ele está mais ansioso, mas esta ansiedade logo dará lugar para um sentimento de angústia. Então, o sujeito quando ele deseja alguma coisa ele se sente ansioso. O sujeito quando ele se frustra porque não conseguiu esta coisa ele se sente angustiado. Então, o desejo gera ansiedade e a frustração gera angústia.

DESEJO E FRUSTRAÇÃO

Quando eu não consigo as coisas, eu fico angustiado. Quando eu desejo alguma coisa, quando eu tenho vontade de alguma coisa, eu fico ansioso. Eu me frustrei, sinto um aperto. Eu desejei, tive vontade, eu tenho ansiedade, porque parece que não vai dar tempo, eu quero logo aquilo.

O QUE O OUTRO ESTÁ SENTINDO

A função do psicanalista não é dizer o que o outro está sentindo, mas é propiciar um ambiente seguro saudável o suficiente para que o outro possa se sentir à vontade, seguro o suficiente para trazer aquilo que ele esteja sentindo. Eu não posso dizer o que que o outro está sentindo. Eu não tenho meios para avaliar o que o outro está sentindo. O que eu posso fazer é propiciar um ambiente para que ele se sinta confiante o suficiente para trazer aquilo que ele está sentindo.



domingo, 29 de setembro de 2024

DESAPEGO E VONTADE - Prof. Renato Dias Martino


DESAPEGO


Toda a configuração da prática do desapego, e quando eu falo prática do desapego aqui, nós estamos falando diretamente do intuito da própria psicanálise, porque a psicanálise propõe essa ideia de se desapegar. São inúmeras formas de se dizer isso, uma delas por exemplo está proposta lá em 1917 no LUTO E MELANCOLIA, que é ser capaz de viver o processo do luto e aqui nós estamos chamando de desapego. Então, a proposta do desapego coincide com a proposta psicanalítica. Esta proposta tem um desafio que é a vontade. A vontade que, na medida em que não é satisfeita no seu tempo, na medida que não é cumprida, suprida no seu tempo adequado, vai se desdobrar em desejo. Um sujeito que está saudável, que está funcionando de maneira saudável é aquele que é capaz de se desapegar, é aquele que é capaz de renunciar dos seus desejos e capaz de adiar suas vontades. Isso se configura num fluxo do desenvolvimento emocional e afetivo.


VONTADE


Quando a gente fala de vontade, a gente está falando daquilo que ao mesmo tempo que é a manifestação da vida, também é aquilo que pode obstruir o próprio fluxo da vida. Muitas vezes, a manifestação da vontade atenta contra a própria vida do sujeito. Ele, muitas vezes, está com tanta vontade que ele, por si só, pode se colocar em uma cilada. Um Bom exemplo disso é quando a molecadinha, lá no sítio, arma uma arapuca para pegar passarinho. A arapuca está cheia de milho para que o passarinho possa se alimentar e é justamente a vontade de viver que leva o passarinho buscar o milho. E esta vontade de viver faz com que ele caia na arapuca. Então, a vontade de viver é também aquilo que leva sujeito, muitas vezes, para a própria morte.


DESEJO


Essa ideia do desejo, ela é extremamente polêmica, principalmente dentro de outras escolas aí, por exemplo, dentro da escola lacaniana. Vou ser bem sincero, tenho um conhecimento extremamente limitado das propostas do Lacan, mas me parece que ele trata, os lacanianos tratam da ideia de desejo diferente da forma como nós tratamos aqui. Nós tratamos aqui o desejo como algo que não é necessário, mas que ainda assim, o sujeito quer. Então, quanto mais o sujeito for capaz de se desapegar, renunciar desse desejo, mais ele vai estar de acordo com a realidade, que está configurada naquilo que é necessário.

NECESSÁRIO


A vontade é genuinamente do sujeito. O sujeito tem vontade de alguma coisa e isso diz respeito à sua necessidade básica. O desejo diz respeito à interferência, ou a contaminação do que o outro quer. Então, vontade é básica, a vontade se manifesta através do corpo, por conta de necessidades básicas. E aí, o Schopenhauer nos orienta muito bem, lá no MUNDO COMO VONTADE DE REPRESENTAÇÃO. O desejo já é algo que se elegeu um objeto substitutivo para tentar suprir algo que não foi adequadamente suprido no nível da vontade.


REPRIMIDO


Existe um instinto e o instinto está ali, assim como o Freud nos orientou, está ali na barreira entre o somático e o psíquico, entre o somático e o psíquico, entre a carne e a mente. De início é uma manifestação orgânica que nós vamos chamar de instinto. Então, o instinto está ali naquela barreira, o instinto se manifesta pelo corpo, mas já não é mais do corpo. O corpo é o soma, o corpo são manifestações orgânicas. O instinto já transcende o orgânico. Primeiro o instinto. O instinto está ali, na barreira do somático e do psíquico. Este instinto vai se manifestar através da pulsão. A pulsão é algo que acontece por conta da demanda instintiva, ou instintual, melhor dizendo. Esta pulsão vai gerar o que a gente vai chamar de impulso. Então, o impulso é a ação da pulsão. Este impulso vai ser a ação em direção a um possível objeto que possa vir suprir a demanda do instinto. Quando essa satisfação não acontece o impulso retorna. E aí, a gente vai chamar de reprimido. Por quê? Porque não houve a satisfação, não houve o suprimento da demanda do instinto. Retorna este impulso. E aí, a gente vai chamar de impulso reprimido. Este impulso reprimido agora não vai mais se satisfazer com o objeto original, ele vai eleger um outro objeto para satisfazê-lo. Este outro objeto é um objeto de desejo, não mais um objeto de vontade, que seria a demanda do instinto.


NASCE UM DESEJO


Para que se desenvolva o desejo é necessário ter havido a repressão. Reprimiu-se a vontade e agora a vontade já não se satisfaz mais com o objeto original, mas agora, precisa de algo a mais, para ser supostamente satisfeito. Porque não vai ser satisfeito. Desejo nunca se satisfaz, o que se satisfaz é a vontade. O sujeito que deseja, ele quer sempre mais. A vontade se satisfaz até que haja novamente a sua demanda.


AMBIENTE 


Quando o Winnicott propõe a mãe ambiente, ele está propondo a mãe, não como outro, mas como o ambiente. Ela vai dar conta da demanda das necessidades. Ela vai dar conta da demanda da vontade e se ela der conta disso, tanto menor vai ser a geração de desejos. Quando ela não é capaz de suprir essas necessidades, quando ela não está sendo suficientemente boa, ele começa a desenvolver desejos, porque a vontade não foi satisfeita. Então ele começa a vincular aquela vontade à relação com o outro que já não é mais ambiente, mas é realmente um outro. Então ele precisa fazer alguma coisa para que esse outro venha suprir isso. E aí, já não é mais vontade é desejo.


PULSÃO DE VIDA 


Quando Freud propõe pulsão de vida, ele está ali, se baseando na ideia de vontade do Schopenhauer, falando sobre a manifestação do instinto, daquilo que é mais primitivo no ser humano. Então, não tem a ver com desejo. Quando isso não é satisfeito, começa a se desenvolver o desejo que já não é mais básico, mas que já tem uma contaminação de algo a mais do que a satisfação da necessidade básica.


VORACIDADE


A voracidade é uma expressão do desejo. Quando a criança começa desenvolver voracidade é porque ela não foi satisfeita, ou não foi suprida no tempo adequado, aí ela começa a ter vontade para além da conta. E aí, se torna desejo. O Winnicott vai falar assim, que a criança alucina o seio e a mãe encaixa o seio real na alucinação do bebê. Quando essa alucinação que o bebê tem do seio não é suprida no seu tempo, esta alucinação cresce. A vontade não foi satisfeita e começa a crescer, então aquela vontade que gerou uma alucinação x, agora é x elevada a tanto. Aquele seio que vai se encaixar nessa alucinação já não vai mais suprir, porque essa alucinação já virou um desejo.


SUJEITO DESEJANTE


Então a gente vai partir da ideia do objeto. O que é um objeto? Ser um objeto é ser alguma coisa que alguém deseja. Objeto é algo que é desejado. O bebê precisa ser um objeto desejado. Ele precisa ser alguma coisa que o outro deseja. Um objeto precisa ser desejado para que ele possa se mover. Um vaso é um objeto. Se alguém não desejar esse vaso, ele vai ficar esquecido lá. Então, eu preciso desejar o vaso para que o vaso saia do lugar. Eu desejo o vaso, eu pego o vaso e levo pra minha casa. Quando o sujeito vai se desenvolvendo emocionalmente, ele deixa o lugar de objeto desejado para sujeito desejante ele passa a desejar. A maioria das escolas psicanalíticas acabam a história aí. O sujeito é um sujeito desejante, está ótimo! Não! Não está ótimo. Agora ele precisa se qualificar para ser capaz de renunciar do seu desejo. Aí sim, ele está aberto. Aí sim, ele desobstrui o caminho do acordo com a realidade. Porque a realidade existe independente do seu desejo e se você continuar sendo um sujeito desejante, você não vai conseguir entrar num acordo com a realidade, que existe independente do seu desejo.


RENÚNCIA


No senso comum a gente vincula a ideia de liberdade à possibilidade de satisfazer os desejos, mas na realidade, a verdadeira liberdade é ser capaz de renunciar dos desejos, de não satisfazer os desejos. Ser capaz de tolerar que o seu desejo não vai ser satisfeito. Para quê? Para que você possa investir a sua libido na necessidade básica, na vontade, naquilo que realmente vai te trazer enriquecimento para o fluxo da sua vida. Então, a liberdade não está em satisfazer desejos, mas está em ser capaz de investir naquilo que é necessário.


ESCOLHA


Se a gente estiver falando de vontade, não tem escolha, o caminho é um só. Você pode até adiar, mas não tem como escolher você não tem como escolher se alimentar ou não, mas você pode adiar a alimentação. O desejo tem escolha. Você pode escolher ou não. Eu posso escolher por exemplo até não suprir a minha vontade e tentar realizar o meu desejo. Vou ter um prejuízo com isso, mas o livre arbítrio está ali. Para que eu possa, talvez reconhecer que, quando eu estou satisfazendo o meu desejo, eu tenho prejuízo da minha necessidade básica. E aí, eu aprendo com a experiência e percebo que o caminho é um só não são dois.


QUERER


A semântica da palavra vontade, ela diz respeito a querer. Querer está ligado tanto à vontade, quanto ao desejo. Quem deseja quer alguma coisa e quem tem vontade também quer alguma coisa. Querer é a base, mas esse querer é de desejar ou de ter vontade. Se for de ter vontade é necessidade básica, se for de desejar é alguma coisa que não é necessário.


TOLERAR


A vontade, ou o desejo geram ansiedade. Ansiedade é ânsia, busca. Quando eu sou frustrado nisso que eu fui buscar, eu sinto angústia. Angústia diz respeito à frustração. Quando eu estou falando de adiamento da vontade, ou de renúncia do desejo, nós estamos falando de ser capaz de tolerar a frustração, de ser capaz de tolerar a angústia gerada por não conseguir aquilo que se buscava. Eu preciso me tornar capaz de renunciar, ou adiar. Renunciar se for desejo e adiar se for vontade. Se eu conseguir isso, eu vou conter essa ansiedade e aí, eu inclusive, posso até direcionar para alguma outra coisa mais adequada, ou suprir essa vontade num momento mais adequado.


TROFÉU 


O sujeito, quando está com sobrepeso, quando ele está mais gordo do que o saudável, isso quer dizer que está havendo uma obstrução na vontade de viver. Quando você está pleno na sua vontade de viver, o seu corpo está adequado ao fluxo da sua vida. Então, emagrecer dentro da vontade de viver é se adequar ao peso que vai te trazer a possibilidade do fluxo da sua vida. Agora, muitas vezes, o sujeito tem uma configuração mais fofinha, o sujeito tem uma configuração natural mais gordinha, por conta de inúmeros fatores hereditários, inúmero... isso não é, de maneira alguma, nocivo. Mas, o que acontece? Existe um padrão social de beleza e quando esse padrão fala mais alto, o sujeito começa a questionar a sua configuração corpórea para se adequar a este modelo. Aí já não tem a ver com vontade, aí tem a ver com desejo, aí tem a ver com o desejo de se adequar àquilo que é o desejo do outro. Então, eu preciso ser de uma forma ou de outra, para ser desejado pelo outro. Quando estou falando de uma adequação da saúde, nós estamos falando da vontade. E aí, você pode realmente adiar o emagrecimento, mas você não pode renunciar, porque senão você morre. Você vai engordando até morrer, até uma obesidade mórbida. Agora, quando você é fofinha, sempre foi desde menininha, a tua mãe é fofinha, todo mundo da tua família tem, mais ou menos esse estereótipo e você por algum motivo, por alguma experiência malsucedida, não conseguiu reconhecer a si mesmo e se contentar com o seu corpo e começa a estabelecer um ideal de corpo que a sociedade pregou, então, você está desejando ser de outra forma, então isso não é simplesmente adiar o emagrecimento, mas é renunciar a esse emagrecimento. Porque, por mais que você seja fofinha, você está saudável e muitas vezes, qualquer tipo de dieta, ou de exercício excessivo, vai fazer muito mais mal do que continuar sendo fofinha e linda como você é. Uma cilada! Porque, um sujeito que procura uma mulher com o corpo no padrão pré-estabelecido da sociedade, ele não está disposto a se aproximar de uma mulher para amá-la, mas ele quer um troféu para mostrar, para exibir a mulher. Quer se tornar bela para ser desejada pelo outro e o homem quer uma mulher bela para ser desejado pelo outro por ter essa mulher bela. Uma sociedade podre! Uma sociedade nociva, que só pega os desavisados, que só pega os estruturados, que só afeta o sujeito que não está sendo capaz de reconhecer a si mesmo, que não está de bem consigo mesmo.


TEORIA


Nós estamos aqui tentando refletir. Ninguém aqui está tentando colocar uma verdade acabada, ou saturada. Até porque, isso aqui é uma formulação nova, nós estamos formulando agora. Ah! Mas onde é que eu encontro isso, na literatura? Eu não sei! Sinto muito! Vou ficar devendo para vocês. Se não estiver fazendo sentido através da nossa reflexão, passa o vídeo, não precisa assistir. Não tem problema. Agora, se estiver fazendo o sentido, ótimo, vamos pensar juntos. É muito mais interessante que a gente possa, através das nossas experiências, refletir sobre o que a gente está chamando de instinto, sobre o que a gente tá chamando de pulsão, do que a gente tá chamando de desejo, ou de vontade, do que revisar literaturas. É muito importante que a gente possa reconhecer esse desencadeamento que vai do corpo até a alma. Não por uma especulação teórica, ou literária, mas por conta de algo que você reconhece no seu próprio funcionamento. Isso é muito mais importante do que qualquer leitura teórica, seja desde Kant, Schopenhauer, Platão, até Bion. ou qualquer outro contemporâneo.





quarta-feira, 24 de abril de 2024

SEM MEMÓRIA - Prof. Renato Dias Martino



Um psicanalista não pode se utilizar daquilo que ele registrou na memória. Isso é nocivo para o processo psicoterapêutico. Um psicanalista, segundo a orientação de Wilfred Bion, precisa ser sem memória, que ele possa rebaixar ao máximo o seu resgate dos dados que foram armazenados na memória.

LEMBRAR OU RECORDAR

 Precisamos, diferenciar duas experiências. A experiência de resgatar dados da memória e a experiência de recordar. Resgatar dados da memória é uma experiência calculista, é uma experiência que faz com que você tente se lembrar de alguma coisa para justificar algo que você não está conseguindo viver no presente. Recordar é algo que surge, é algo que brota é algo que vem por conta de uma configuração saudável do presente. RE, quer dizer de novo, COR, quer dizer coração e DAR, quer dizer doar. Então, recordar é dar mais uma vez para o coração e isso é saudável, isso é terapêutico. Eu poderia ficar aqui horas tentando te explicar a diferença de uma coisa e de outra, mas você vai precisar viver isso na sua prática, para você perceber que você não resgatou aquilo na memória, você não buscou aquilo para justificar alguma coisa que estava desconfortável no presente, mas aquilo brotou por conta de uma experiência afetiva que aconteceu no presente.

IMPORTÂNCIA DO PRESENTE 

 Quando eu realmente me importo com o que está acontecendo aqui e agora, aquilo que passou vai perdendo a importância. Aquilo que passou só ganha importância quando eu não estou sendo capaz de me importar com o presente, com aquilo que está acontecendo agora. Quanto mais eu me preocupo com o futuro, ou me entulho do passado, eu não consigo me ocupar do presente. 

JUSTIFICA O PRESENTE PELO PASSADO

Quando eu não estou conseguindo justificar o presente pelo próprio presente... Aliás, o presente não precisa de justificativa. Quando eu não consigo viver o presente pelo próprio presente, eu começo a tentar resgatar aquilo que passou para trazer álibis condenatórios para pessoa da qual eu estou discutindo. “É, mas, ontem não sei o que.” “É, mas, semana passada não sei o que mais.” Isso quer dizer que eu não estou conseguindo viver o presente, mas eu preciso resgatar alguma coisa que passou para justificar o meu descontentamento.

O BARQUEIRO

Quando a gente está angustiado quando a gente está ansioso a gente tende a resgatar dados da memória, a gente tende a resgatar algo do passado. Um barqueiro fazia o translado das pessoas de um porto para uma ilha. Ele era um barqueiro e fazia isso num ponto turístico. Um casal entrou, num dia de nevoeiro, entrou no barco para ser levado até a ilha e o barqueiro começou a remar olhando para trás. O sujeito que estava sendo transportado perguntou para ele assim: “mas por que que você fica olhando para trás?” Ele falou: “Porque o nevoeiro me obstrui a visão da ilha, então, eu preciso me basear no porto, até que esse nevoeiro possa se dissipar e eu consiga enxergar a ilha.” Então, todas as vezes que a gente tiver obstruído de olhar para frente, a gente vai olhar para trás, mas isso precisa ser temporário. Isso precisa ser só naquele momento, onde eu não tenho outra referência, porque se eu continuar olhando para trás, eu vou tropeçar no meu caminho.

REGRA RÍGIDA

Se eu tomo essa coisa de não resgatar dados da memória como uma regra rígida, que eu preciso ficar me policiando, você sabe o que que vai acontecer? Eu vou resgatar algum dado de memória porque eu sou humano, eu vou ficar preso nisso e não vou conseguir para frente, eu vou ficar me julgando e me cobrando de ter lembrado alguma coisa da memória e não consigo ir para frente. Então, eu lembrei ponto. Tudo bem! Não tem problema. Vamos embora. Vou tentar não lembrar mais.

ANGÚSTIA

Todas as vezes que o sujeito tenta intervir no passado, naquilo que ficou registrado na memória, para mudar aquilo, ou até para se julgar, se condenar por conta de alguma coisa que ficou no passado, isso gera um sentimento de angústia. Então, a angústia é essencialmente gerada por algo que ficou no passado e o sujeito tem o desejo de mudar. 


SINTOMA NEURÓTICO

O passado é justamente o tempo do sintoma neurótico. O sintoma neurótico é, por assim dizer, uma âncora que ficou no passado. Então, o sujeito viveu alguma coisa e não consegue soltar desta ideia e ele fica rememorando esta ideia, não permitindo que essa ideia fique no seu tempo adequado que é naquilo que passou e ele traz aquilo de volta. Quando aquilo vem, ele manifesta o seu sintoma dentro da configuração neurótica, o sujeito que tem a predominância neurótica na mente é aquele que está preso em alguma experiência que aconteceu no passado. Isso obstrui o fluxo do funcionamento emocional afetivo ou o fluxo da mente.

REGISTRO DO PASSADO

Quando a gente fala assim: “eu lembro” de algum fato, na verdade você não lembra do fato, você lembra daquilo que você pôde registrar deste fato. Ninguém é capaz de registrar um fato como um todo, mas você registra aquilo que foi possível obter enquanto panorama do que estava acontecendo. E muitas vezes, a gente julga isso como o todo. Aliás, este é um grande problema da história, com “HI” e dos livros de história. Quem escreveu o livro de história, quem registrou aquilo, na verdade registrou a partir de uma percepção de parte do que aconteceu, de uma ínfima parte do que que aconteceu. Porque, a maior parte do que aconteceu ele não pode registrar. Mas, ainda assim, aquilo é tido como uma verdade. Muitas vezes, o sujeito que tem a predominância neurótica da mente, muitas vezes o sujeito que tem um sintoma neurótico, padece por se condenar, por conta de um registro da memória que, na verdade é um fragmento e não é a totalidade do que aconteceu. E ele está ali, se condenando por alguma coisa que na verdade ele conseguiu registrar apenas um pedacinho do que aconteceu na totalidade.

DESAPEGO DO BENEFÍCIO

Para ser capaz de não ficar resgatando dados da memória, não ficar se lembrando de coisas que, na verdade já passaram e que hoje já não importam mais, eu preciso antes me desapegar me depreender do benefício que me faz ficar lembrando disso tudo. E muitas vezes, fica parecendo até meio estranho perguntar por exemplo para o outro, qual o benefício que ele tem de ficar se lembrando o tempo todo de uma experiência horrível que aconteceu no passado. Benefício de se sentir o “coitadinho”, tem o benefício de se sentir melhor do que o outro, porque conseguiu ultrapassar por aquela experiência. Só que esse benefício vem junto com uma série de ônus também.



terça-feira, 9 de janeiro de 2024

TER OU ESTAR SENDO - Prof. Renato Dias Martino



Suprir uma necessidade básica. Quanto mais bem suprida esta necessidade, mais o sujeito vai estar qualificado para desapegar desta dimensão, que foi necessária por um período da vida. O bebê tem a necessidade de ter. Ele tem a necessidade de sentir que ele obtém a mãe, que a mãe é dele. Quando ele pode viver essa experiência de obter a mãe, de sentir que a mãe é dele, ele aos pouquinhos, vai sendo capaz de desapegar dessa dimensão do “ter” e vai passar para a dimensão do “estar sendo”. Quando ele não consegue esta experiência bem-sucedida, ele, muito provavelmente vai se cristalizar, vai fixar-se nesta dimensão do “ter” e obter as coisas para ele, vai ser uma forma de funcionamento na vida adulta.

SER OU ESTAR SENDO

A dimensão do “ter” e a dimensão do “ser”. É mais importante “ser” do que “ter”. Na realidade, é mais importante “estar sendo”. “Ser” é também uma ilusão de obter. “Eu sou” é uma ilusão. No máximo, eu posso “estar sendo”, porque aquilo que “eu sou” agora, logo mais, eu não serei mais. Então, ser é uma ilusão, a realidade é o “estar sendo”. A vida é fluxo, a existência está dentro da perspectiva do “estar sendo”, nunca do ser.

MATERIALISTA

Quando a criança não pode ter satisfeita a sua demanda de obter, quando ela não pode viver realmente esta ideia de que ela tem, que é dela aquilo e a partir dessa experiência bem-sucedida que ela possa evoluir expandir para perceber que isso, na realidade, é uma ilusão, ela vai ficar fixada neste modelo e a vida dela vai ser configurada no “ter”. As pessoas que têm esta característica materialista, ela tem, na sua maioria, um histórico de não poder ter vivido essa experiência de maneira bem-sucedida, ela passa a obter as coisas a tentar adquirir bens, coisas do mundo concreto, para tentar suprir alguma coisa que, na verdade, nunca vai ser suprido. Nós estamos falando aqui de, desde dinheiro, obter dinheiro, obter títulos, obter o autoconhecimento, obter as pessoas, obter um corpo bonito... Ter, ter e mais ter, tentando suprir o “estar sendo”, que na realidade, fica desprotegido, fica vulnerável. Todas as vezes que o sujeito está é supervalorizando o “ter” ele está deixando vulnerável o “estar sendo”.

COMPULSÃO E VAZIO 

O sujeito vai eleger um objeto do mundo externo, cria uma compulsão em relação a este objeto do mundo externo, que vai trazer para ele uma ilusão de satisfação desta falta, que na realidade, ele precisaria aprender tolerar. Compulsivo em comprar, em fumar, em beber em comer, em sexo, seja lá no que for. Ele vai ficar compulsivo naquilo, numa tentativa inútil de entulhar o seu vazio, porque ele não tolera este vazio. Este vazio, que é fundamental para um bom funcionamento. Nada se constrói que não seja no vazio. Se já tem alguma coisa, você não pode construir nada ali.

COMPULSÃO NO FRACASSO

A pior das compulsões não é do objeto externo, é daquilo que o sujeito, por si só, faz gerar. Então, muitas vezes, o sujeito é compulsivo na angústia, na tristeza, ele é compulsivo na sensação de fracasso. Você, por exemplo, vê um sujeito que é compulsivo no álcool, no uso do álcool e acredita que ele é viciado naquela substância, mas muitas vezes, ele é viciado em se sentir fracassado por ter usado o álcool novamente. Ele tem um sentimento de culpa, ele se julga por aquele sentimento de culpa, ele se condena por aquele sentimento de culpa e esta condenação vem com uma autopunição de estar sempre no papel do fracassado.

MATERIALISMO CONTEMPORÂNEO 

Nós vivemos num tempo, onde toda a configuração é formada para que o sujeito não fique sem, para que ele não aprenda conviver sem, para que ele não aprenda a tolerar a ausência. E aí, o que acontece? Quando ele realmente precisa, não está preparado para isso.

RETRIBUIÇÃO

Quando ele vai percebendo que na realidade a mãe não é dele, porque na realidade, ela é um ser autônomo e não tem uma ligação com ele, assim como ele gostaria que tivesse, ele vai expandindo a sua forma de funcionar e passa a ser grato a ela. Reconhecer tudo isso que ela fez por ele e a partir da gratidão ele vai desenvolver a possibilidade de retribuir isso que ele recebeu dela. Então, a retribuição é filha da gratidão.




sábado, 9 de setembro de 2023

ANGÚSTIA E ANSIEDADE - Prof. Renato Dias Martino


Os desconfortos emocionais se dividem em dois modelos. Essencialmente, ansiedades e angústias.

ANGÚSTIA

A angústia é aquele sentimento de aperto, é um sentimento que leva a um embotamento, a um estado depressivo, a um estado deprimente. Então, a angústia é essencialmente, e a palavra que vem do latim já sugere isso, é aperto, estreito. O sujeito que tem a mente angustiada, não consegue pensar, porque não existe espaço. Para pensar é necessária uma mente ampla, expansiva. A angústia está diretamente ligada a noção de espaço, que na realidade é uma criação do humano para apaziguar esta angústia. Quando existe a criação da divisão em pedaços, de espaço é para dar conta desta demanda, porque na realidade, o ser humano tem uma dificuldade enorme de lidar com a ideia do infinito. O infinito é angustiante. Pensar sobre o infinito, reconhecer o infinito gera angústia.

ANSIEDADE

Enquanto a angústia está ligada à noção de espaço, a ansiedade está ligada à noção de tempo. O sujeito ansioso é aquele sujeito que está sempre com pressa. O sujeito ansioso é aquele que sente que não vai dar tempo. O sujeito quando tem ansiedade começa a dividir a vida dele em horas minutos, em dias e anos... Um ansioso é sempre aquele cara que consegue guardar datas, que está o tempo todo olhando no relógio.

ESPAÇO E TEMPO

Quando a gente reconhece o conceito de eterno, a gente se sente ansioso. O mundo existia antes do ser humano, o tempo existia antes do ser humano e vai continuar existindo depois que não houver mais humanos. Para o ser humano, o tempo existe ao seu serviço. Ou seja, ele criou essa divisão de tempo, de anos, de dias, de meses. Não é? Ele criou isso para dar conta da incapacidade de lidar com a ideia do eterno. Então, dois conceitos aí: eterno e infinito. Quando a gente fala de infinito, infinito não é a soma de todos os pedaços, é ausência de pedaço e o eterno não é a soma de todos os tempos né de todos os anos, de todos os séculos, mas é ausência desses conceitos. Angústias, ansiedade, são resultado de desconforto pela introdução de espaço e tempo no funcionamento inconsciente. Porque, nessa dimensão psíquica não se tolera esse tipo de lógica, esse tipo de limitação. Para o inconsciente não existe divisão de tempo. Para um inconsciente não existe divisão de espaço.

CULPA

O angustiado fica embotado, ele fica deprimido e o ansioso é aquele que fica agitado. Enquanto angústia é para dentro a ansiedade é para fora. O sujeito, quando está se sentindo culpado, ele se angustia. O ansioso tende a tentar fazer alguma coisa para apaziguar a sua culpa. Então, ele tem uma atitude. “Vai trabalhar, vai fazer alguma coisa para ver se você se sente menos culpado.” O angustiado já é o contrário, ele já se rende essa culpa. Então ele se autopune, porque ele é culpado e não tem mais nada para ser feito.

DUAS FACES

A angústia gera ansiedade e ansiedade gera angústia. Essas, duas coisas estão sempre juntas. O sujeito pode acordar ansioso e dali a pouco já está angustiado. Tempo e espaço estão sempre juntos. Conceitos juntos, noções que estão juntas. Muitas vezes, o sujeito está ansioso, tentando fazer alguma coisa para tentar apaziguar a sua culpa e em outro momento, ele se rende a aquilo e diz: “Olha, não tem jeito mesmo, eu sou um fracasso e não tem o que ser feito. Porque eu sou culpado mesmo e só me resta me auto por nele.”

MELANCOLIA 

A melancolia é o quadro. Um quadro de melancolia pode gerar ansiedades a angústias. O melancólico é um sujeito essencialmente angustiado, é um sujeito que desistiu, mas ele pode ter episódios de ansiedade, que a gente vai chamar de mania. O Freud vai chamar isso de mania. Então, a mania é a tentativa desesperada de fazer alguma coisa para se livrar daquele sentimento de embotamento, de angústia, que a melancolia traz. O quadro de melancolia, que é a incapacidade de lidar com a perda, vai trazer episódios de angústia e episódios de ansiedade. Essencialmente, de angústia essencialmente, de embotamento, mas com algumas experiências externas de mania, que são movidas pela ansiedade.


terça-feira, 4 de outubro de 2022

INVESTIMENTO NA REALIDADE

Quando tratamos da saúde emocional, estamos cogitando sobre o fator norteador do desenvolvimento humano como um todo, já que dela depende a autonomia do funcionamento integral de cada um de nós. Um sujeito que se desenvolve emocionalmente, consequentemente se torna capaz de administrar todas as outras dimensões da sua vida, desenvolvendo autonomia, inclusive para se capacitar a auxiliar o próximo. Por outro lado, aquele que não desenvolve a maturação saudável no âmbito emocional, tende a continuar subordinado aos cuidados do outro. Portanto, aquele que não se desenvolve emocionalmente, também não consegue se desenvolver afetivamente, já que só se torna capaz de amar o outro, aquele que não depende dele para viver. 

A saúde emocional-afetiva está diretamente relacionada a administração no investimento de energia, ou do interesse e isso está subordinado à capacidade de continência emocional. Uma das características dessa ordem de saúde é o nível do acordo que se possa entrar com a realidade e a realidade se manifesta somente no tempo presente. Sendo assim, saúde emocional coincide com a possibilidade de manter as energias investidas no aqui, no agora.   

A manifestação da intolerância as frustações é um sinal de que o funcionamento emocional não está saudável, ou ainda, indica imaturidade dessa ordem de funcionamento. Essa intolerância ocorre justamente em relação ao presente, cheio de incertezas e não disponível ao conhecimento. Ocupar-se do presente requer tolerância. Já na situação da intolerância, o sujeito desloca seu interesse para o passado, nos registros da memória, assim como no futuro, na projeção da expectativa.
Sentimentos intensos de ansiedade e angústias são características desse quadro. Esses sentimentos também fazem parte de um funcionamento saudável, assim como da maturidade emocional, no entanto, aparecem extremamente intensos, espaçosos e muitas vezes predominantes, no funcionamento que não seja saudável, ou mesmo, quando imaturo. 

O sentimento de ansiedade se relaciona com a energia investida em algo do tempo futuro. Incapaz de tolerar aquilo que ocorre no presente, o sujeito se apega às expectativas, se preocupando com aquilo que ainda não ocorreu e que nem se sabe se realmente ocorrerá. A preocupação com o futuro impede o sujeito de se ocupar com o presente, adequadamente. Já a angústia tem a ver com a energia investida naquilo que está no passado. Incapaz de tolerar aquilo que está acontecendo no presente o sujeito foge para os dados armazenados na memória, apegando-se a eles. No entanto, acaba por criar uma emboscada para si mesmo, já que amiúde, passa a se culpar, se condenando e com isso tendendo a se punir por aquilo que supostamente ocorreu. Priva-se das alegrias no presente, assim como, se perde nas preocupações, temendo a perda no futuro. 

Sendo que nas duas situações o objeto de investimento é ilusão. Falsas realidades mantidas pelo investimento de energia, na incapacidade de lidar com o presente. Ainda assim, toda energia investida, seja no passado ou no futuro, é assim desperdiçada. O que implica diretamente na diminuição da energia necessária para o desempenho das experiências no tempo presente. 

No entanto, não se escolhe onde se investir energia. O que pode ser possível, na melhor das hipóteses, é desenvolver a tolerância aos desconfortos e nisso, o processo psicoterapêutico é um meio por excelência para o desenvolvimento de recursos para tanto.






Prof. Renato Dias Martino

Psicoterapeuta e Escritor







Alameda Franca n° 80, Jardim Rosena,

São José Do Rio Preto – SP

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