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domingo, 15 de março de 2026

O QUE É SER HUMANO (?) - Prof. Renato Dias Martino

A origem semântica da palavra “humano” está no latim humanus, relacionado a humus, “terra”. Isso traz a noção das “coisas terrestres”, em oposição ao que é da ordem do “divino”. O termo “humanidade” guarda enorme ambiguidade, chegando a se tornar ambivalente. Manifesta valores duvidosos, hesitantes e até opostos quando nos propomos a refletir atentamente. Muitas vezes, usamos esse conceito para denotar uma atividade benevolente, compadecida e até caridosa ao próximo — e por que não, a nós mesmos? No entanto, a realidade nos revela que o ser humano é uma criatura cruel, se não a criatura mais nociva do planeta. “Na realidade, o ser humano vem se revelando uma espécie de criatura muito danosa para a natureza, já que, à medida que ganha espaço, coloca em risco inúmeras espécies, assim como destrói ecossistemas, incluindo sua própria espécie.” (Martino, 2025) Sendo assim, quando agimos com benevolência e compaixão, parece ser justamente quando renunciamos à humanidade para transcender a um plano mais nobre da existência. Reservado ao meu raso conhecimento das escrituras sagradas, me parece que a frase “Meu reino não é deste mundo”, declarada por Jesus a Pôncio Pilatos (João 18:36), tinha a ver com isso. Ora, me parece que o ser humano tem extrema dificuldade em lidar com atitudes que incluam amor, paz e verdade, evitando-as até as últimas consequências. Os humanos são extremamente apegados à materialidade das coisas, logo, inábeis em lidar com a impermanência das coisas terrenas. Portanto, se concordamos com essa breve explanação, a expressão “se tornar mais humano” está distante — ou mesmo é o avesso — de tudo o que concebemos de mais nobre nessa vida.

Martino. R. D. ESBOÇO DE EXPANSÃO: Escolhas, Vontade e Desejo, 2025.







Prof. Renato Dias Martino

quarta-feira, 30 de julho de 2025

HUMANOS – Diferentes, Desejando Ser Iguais - Prof. Renato Dias Martino



SER HUMANO 

A gente usa a palavra humanidade, muitas vezes, para trazer uma característica de compaixão, de amor de reconhecimento do outro, de respeito das fragilidades do outro. No entanto, quando a gente reconhece um ser humano nas suas características próprias, peculiares, a gente reconhece um animal extremamente nocivo para a natureza, extremamente nocivo para os outros exemplares da mesma espécie, ou seja, dos outros seres humanos. Ao mesmo tempo que a gente usa a palavra humanidade para trazer características nobres, o ser humano é um animal que naturalmente não é nobre. É um animal narcisista, é um animal que tem características extremamente desprezíveis. É o único animal que entrega a sua cria vulnerável aos cuidados de um desconhecido. Nenhum outro animal faz isso.

COMUNISMO 

O Freud coloca isso daí com muita clareza lá no mal-estar nas civilizações. Essa ideia de implementar comunismo é uma falácia. Todos os países que implementaram o comunismo, eles implementaram trazendo o povo para o nível mais baixo possível. E isso foi implementado justamente através de imposições de impostos até que o sujeito possa dar ao governo tudo que ele tem para que ele se iguale a todos e o mandatário vive no luxo. Não dá para implementar isso. O ser humano é narcisista. Não existe comunismo espontâneo. Todo comunismo é uma ditadura. Sem ditadura não existe comunismo. Ah! Mas Jesus Cristo queria a igualdade de todo mundo. Então Jesus Cristo era comunista? Não! Jesus Cristo nunca impôs nada. Todo regime comunista é através de imposição, senão você vai querer ter o seu através daquilo que você trabalhou para isso.

HORDA

Lá em 1921 Freud vai dizer: "O ser humano não é um animal de grupo ele é um animal de horda”. Ele chama a horda a primeira esfera o estrito ambiente familiar. Este é o único grupo que o ser humano naturalmente faz parte. Quando um dos filhotes ali, começa a crescer e ganhar certa autonomia, ele já precisa se desligar da horda para criar outra horda, porque senão este ser humano vai encontrar atritos conflitos ali. Ele vai precisar de uma série de evoluções, de crescimentos em relação à sua nobreza, para que ele consiga continuar ali dentro. Aprender a tolerar um monte de coisas para que ele consiga permanecer ali dentro. Caso contrário ele vai se desligar e criar outra horda. No entanto, o ser humano hoje está se distanciando cada vez mais da sua natureza. Inúmeras características, inclusive essa, ele não está conseguindo sequer configurar a sua horda. A horda que não é uma instituição não foi instituída, foi gerado. A instituição é aquilo que o sujeito cria. A família não foi criada ela foi gerada naturalmente. Muitas vezes, a gente tem esse hábito de chamar família de instituição. Não! Ela não foi instituída, ela foi gerada. 

GRUPO DE TRABALHO

O ser humano está em busca de grupos porque a horda não deu conta. O ser humano que conseguiu ter dentro da horda, cumprida as funções necessárias, ele não vai deixar de buscar grupos, mas ele vai buscar grupos de trabalho, grupos formais e grupos específicos de algum tema que esteja em pauta para crescimento. Não é um grupo emocional não é um grupo afetivo. É claro que a partir da instituição desse grupo de trabalho vão ser criadas relações afetivas, mas não foi isso que ele foi buscar.

DIFERENÇA 

Esse é o grande contrassenso. Esse é o grande paradoxo humano. Ele é muito diferente dos outros da mesma espécie, mas ele morre de medo dessa diferença porque ele deseja demais ser igual ao outro. Ele deseja fugir da sua diferenciação. Ele deseja usar a mesma camiseta que a atriz da novela usou. Ele deseja fazer a mesma tatuagem que o cantor fez. Ele deseja cortar o cabelo como o ator da novela cortou. Ele se padroniza para fugir da realidade de que ele é diferente porque isso causa uma insegurança enorme.

IGUAL 

Para que o sujeito possa reconhecer a si mesmo, aprender a respeitar a si mesmo e se responsabilizar por si mesmo, ele precisa abrir mão, ele precisa se desapegar da tentativa de ser igual ao outro, porque ele não é porque ele nunca vai ser. Não somos iguais. E nós precisamos aprender a respeitar o outro mesmo não sendo igual. Porque respeitar o outro sendo igual é muito fácil. Amar o outro sendo o outro igual é muito fácil. Mas, amar pressupõe diferença. Amar o igual não é amor. Aquele que ama o igual não aprendeu a amar. Ele só vai amar quando ele reconhecer que o outro não é igual.

POSSIBILIDADE 

Quando a gente está falando da diferenciação do ser humano, nós não estamos só falando de um ser humano ser diferente do outro. Nós estamos falando do sujeito ser diferente dele mesmo a cada dia a cada momento. Nós estamos em constante transformação. Nós nos julgamos definidos, mas nós somos processo nós somos possibilidades nós somos transformações o tempo inteiro. Ninguém é nós estamos sendo. E o sujeito que insiste em ser ele vai acabar adoecendo. O sujeito que insiste em obstruir a sua transformação porque conseguiu um status conseguiu um título e agora ele é aquilo ele está adoecendo.

ENVELHECER 

O sujeito, ele é enaltecido quando ele parece não ter mudado. Sabe essa coisa da pessoa te encontrar depois de muitos anos falar: "Nossa! Mas você não muda, né? Você não envelheceu”? E você se sente muito enaltecido. Você não se transformou. Isso é quase que um elogio. Nós não aprendemos a respeitar e nos tornarmos capazes de contemplar o envelhecimento, contemplar a transformação.

DISPUTA 

Todas as vezes que começa a haver ou uma ligação por identificação com o outro, que seja fixada e se prolongue para além sem que se desenvolva em outro tipo de vínculo mais nobre, ou quando existe o desejo do sujeito se tornar igual ao outro, logo vai se instalar uma competitividade, uma disputa, porque dois iguais vão disputar. Não há espaço para dois iguais. Onde há dois iguais, ou porque ele se identificou com o outro, ele força o outro ser igual a ele, ou porque ele quer se tornar igual ao outro, logo vai se instalar um conflito por disputa, por competição. Esse é um dos grandes danos desta experiência de se tentar se tornar igual ao outro ou tentar que o outro se torne igual a ele.

DOIS MODELOS 

Então, existem duas configurações. Existe a configuração da extensão da ligação por identificação, onde o sujeito procura pessoas iguais a ele porque ele não consegue se ligar as pessoas diferentes, existe a configuração onde o sujeito não conseguiu substância na sua essência, reconhecimento nas suas peculiaridades e ele acaba tentando se tornar igual ao outro, buscando características do outro para que ele seja igual ao outro, porque ele não confia na sua essência. Ele não confia naquilo que ele está sendo, ele não confia em si mesmo como referência, então ele procura grupos, ele procura pessoas influentes, líderes para que ele possa agir igual ao outro.

GRUPOS 

Chega a ser assustador o tamanho da aderência do sujeito que nunca teve um acolhimento, que nunca se sentiu integrante de nada, quando ele é acolhido por um certo grupo e ele começa a se identificar com aquilo. Ideologia de gênero, ideologia política, instituições religiosas... O sujeito se sente inseguro, é acolhido por um grupo e aí, ele começa a defender aquelas ideias e procurar argumentos para justificar as ideias do grupo, por mais absurdas que elas sejam.

RECONHECIMENTO 

Como é que se aplaca o desejo de ser igual? A partir de um vínculo bem-sucedido. Quando o sujeito pode ser reconhecido nas suas particularidades, quando ele pode aprender a se autorreconhecer nas suas particularidades, ele não vai ter essa ânsia de se tornar igual ao outro, porque ele foi reconhecido pelos pais nas suas peculiaridades e por ser reconhecido ele é capaz de reconhecer o valor de si mesmo, mesmo não sendo igual ao outro. Quando o sujeito é reconhecido, ele diminui drasticamente esse desejo de ser igual ao outro.

NECESSIDADE E DESEJO 

Muitas vezes, a gente usa a palavra necessidade inadequadamente. Ninguém tem necessidade de ser igual ao outro, nós temos o desejo de ser igual ao outro. Ninguém necessita ser igual ao outro. E o desejo é o desdobramento de algo que faltou por conta do não cumprimento daquilo que, no seu tempo precisava ser cumprido. Não foi cumprido a função de reconhecimento da criança, logo ela desenvolve um desejo de ser igual ao outro, porque começa a usar o outro como referência. Então, não é uma necessidade, é um desejo.

PARTES DO EU 

Não é só, não ser capaz de respeitar a diferença do outro, mas é não ser capaz de respeitar a diferença das partes que constituem a minha personalidade. Eu sou partes diferentes que se constituem num todo. Eu preciso respeitar as diferenças que constituem a mim mesmo, porque senão, eu vou me desintegrar e vou acabar projetando essas partes que são diferentes em pessoas externas. E criando um atrito, criando uma competitividade, um conflito com as pessoas do meu convívio.

IDENTIFICAÇÃO

Chega um momento na vida que o sujeito começa a se perceber diferente dos outros. Porque no início da vida, assim como Freud nos orientou lá no Psicologia das Massas e análise do ego, a identificação é a primeira forma de relação entre duas pessoas. Duas pessoas se relacionam em primeiro momento por identificação, ou seja, acreditando que são iguais, mas num certo momento ela começa a perceber que ela é diferente, diferente do outro, e isso causa uma angústia enorme.

LATÊNCIA 

Na primeira infância, ela vive uma relação por identificação com a mãe. Conforme ela vai se desenvolvendo, ela vai passando pelas fases. O Freud vai nos sugerir a fase oral, a fase anal e a fase fálica. Logo depois da fase fálica, o sujeito vai entrar num período da latência. Neste período da latência, o sujeito começa a criar mecanismos para se agrupar com aqueles que ele imagina ser igual. Turminhas de menino, turminhas de meninas, pelo menos dentro de uma configuração saudável. É isso que vai acontecer. Todos se vestem da mesma forma para que pareçam ser iguais. Todos gostam do mesmo tipo de música. Tudo igual, tudo equalizado para aplacar esta sensação desconfortável de se perceber e se reconhecer diferente do outro.

DIFERENTE DO QUE FOI

 Quando a gente fala de diferenciação, de dificuldade de lidar com as diferenças, a gente tá falando não só do sujeito ter dificuldade de lidar com a diferença do outro, mas a dificuldade do sujeito lidar com a diferença de si mesmo. a diferença das partes que constituem a sua personalidade e a diferença daquilo que ele reconhecia como realidade anteriormente e ele passa a reconhecer agora. Muitas vezes o sujeito tem uma dificuldade enorme de repensar a realidade, de reconhecer a realidade, de conhecer a realidade novamente. Ele se apega àquilo que ele tinha como certeza e não solta disso maneira alguma. Porque ele tem medo de se tornar diferente, diferente daquilo que ele era, diferente daquilo que ele pensava.

CORPO FÍSICO 

Esta dificuldade de lidar com a diferença também está implicada na materialidade do corpo físico. O sujeito tem uma dificuldade enorme de lidar com as diferenças quando isto vai ocorrendo na transformação do seu corpo físico. vai envelhecendo, as características do corpo vão mudando e o ser humano tem uma dificuldade tremenda de respeitar as transformações do corpo. Por isso, ele cria técnicas e técnicas e técnicas estéticas para que ele possa conservar o corpo como se estivesse jovem, mas não está.

AMOR-PRÓPRIO E BELEZA FÍSICA
 
O sujeito diz assim: "Vou fazer uma operação plástica para cuidar da minha autoestima, para que eu possa melhorar o meu amor-próprio". Não, meu amigo! Você está equivocado. Amor-próprio é independente da configuração material do seu corpo. Se você não ama a si mesmo, não existe operação plástica, não existe procedimento estético que vai fazer com que você passe a amar a si mesmo. Amar a si mesmo é independente de gostar de si mesmo, é independente de gostar da sua forma física.

IGUALDADE E EQUIDADE 

Igualdade. Tratar todos como iguais. Não, isso é um equívoco. Não somos iguais e não podemos ser tratados como iguais. Precisamos ser tratados com equidade. É tratar cada um na sua peculiaridade. Respeitar cada um em suas características próprias. Respeitando isso. Existe um abismo entre tratar com equidade e obrigar o outro a ser igual. Ninguém é igual. Criar a capacidade de equidade. Tratar o outro com igualdade é mais fácil do que tratar o outro com equidade. Tratar com igualdade é tratar todo mundo do mesmo jeito. Tratar com equidade é reconhecer o outro para respeitar o outro nas suas peculiaridades. E isso é para poucas pessoas.

IGUALDADE E FORÇA

A igualdade traz uma sensação de onipotência, traz uma sensação de força. Um grupo unido porque acredita que são iguais é um grupo forte. E aí, se esse grupo consegue eleger um inimigo externo, ele se torna mais forte ainda.

SEMELHANTE

Afinidade, tanto tem características iguais, quanto características diferentes. Diferente da igualdade que cobra uma característica idêntica do outro. A gente está falando aqui de obrigar o outro a ser igual. E o outro não é igual. O outro é semelhante. O outro é similar. Similar a uma coisa, semelhante a uma coisa, igual é outra. Um bom exemplo disso é a família, os integrantes da família, os integrantes da horda primeva, como diria o Freud, cada integrante da família tem a sua função. Cada integrante da família tem a sua característica diferente do outro. A mãe é diferente do pai, que é diferente do filho. Cada um tem sua característica diferente dentro da família. Todos somos diferentes para cumprir funções distintas, mas precisamos de afinidades. Precisamos estar afinados um com o outro. Precisamos ter concórdia. É importante que uma família esteja junto de coração. Concordes? Isso não é ser igual, é ser semelhante. 

ILUSÃO E IGUALDADE

O iludido tende a odiar o sujeito que é orientado pela verdade. O iludido normalmente tem a ilusão de ser igual aos outros, tem a ilusão da igualdade. E o sujeito que está orientado pela verdade assume a sua diferença em relação ao outro, reconhece as suas diferenças, aprende a respeitar as suas diferenças e se responsabiliza por ser diferente do outro. E este sujeito normalmente é odiado por aqueles que propõem a obrigação de ser igual. Isso é uma violência. O ambiente escolar desde o primeiro estágio, desde o prézinho, é extremamente tóxico nesse sentido. Obriga as crianças a serem iguais. 

ESCOLA

A maior parte das queixas dos professores, dos coordenadores, dos diretores da escola quanto as crianças é justamente quando essas crianças começam a manifestar a sua diferenciação em relação às outras. Ela começa a manifestar a sua diferença em relação às outras e os professores se assustam com isso, porque as crianças precisam ser todas iguais. As crianças precisam aprender o currículo proposto pela escola, todas iguais. As notas, os conceitos aplicados às crianças são todos iguais e elas precisam ser todas iguais. E isso é uma violência, porque ninguém é igual a ninguém. Cada um tem o seu tempo de aprendizado. Cada um se interessa por alguma coisa diferente. Cada um tem afinidade por assuntos diferentes. 

PARTE NEURÓTICA E PARTE PSICÓTICA 

Tanto a parte neurótica, quanto a parte psicótica têm essa tendência a repetição, a tendência a igualdades e uma tendência a igualdades que não admite diferenças. É uma equação, não é uma analogia. Analogia admite diferenças e igualdades. A equação não admite diferenças. Então, no neurótico, esta repetição é uma manifestação do desejo de que tudo seja igual. O neurótico se atrai pelo igual. O psicótico não se atrai pelo igual. Ele só admite o igual. Para o psicótico, o que está dentro e o que está fora é a mesma coisa. Se fora deixar de existir, dentro também deixa de existir. E se dentro existir, ele força que fora exista também. A alucinação é isso. Ele alucina com alguma coisa e ele realmente acredita que aquela coisa existe no mundo externo. E se alguma coisa do mundo externo não estiver presente fisicamente, ele não consegue sustentar internamente.

SOCIEDADE PSICÓTICA

A sociedade te cobra ser fielmente igual àquilo que ela propôs, aquele pressuposto social. Se você não for aquilo que a sociedade te obrigou a ser, você será desaprovado. E isso é uma experiência psicótica. esquizofrênica. Esquizo quer dizer separado, cindido, porque a sociedade tem inúmeras demandas e você precisa cumprir todas. Você precisa agradar gregos e troianos, por assim dizer. Isso faz com que você se torne vários. E esta fragmentação é justamente o que configura a psicose. Não há possibilidade de ser a mesma pessoa em âmbitos diferentes de demandas sociais. 

SOCIEDADE E DISSIMULAÇÃO

 Não há como desempenhar o “verdadeiro eu” no âmbito social. As relações sociais demandam falsidade, demandam dissimulações. E aí, é prudente que você seja cauteloso nesta vivência social. Porque a exacerbação da utilização do “falso eu” acontece em detrimento da saúde do “verdadeiro eu”. O “verdadeiro eu” carece do “falso eu” para protegê-lo. O uso saudável do “falso eu” é na proteção do “verdadeiro eu”. No entanto, uma vida social intensa faz com que você exacerbe, que você aumente, que você potencialize o “falso eu” em detrimento da saúde, do “verdadeiro eu”. Aquilo que está lá dentro acaba ficando empobrecido e sufocado pela casca extremamente enrijecida e grossa. 

ESTEREÓTIPO

A sociedade te cobra cumprir um estereótipo. Que que é estereótipo? É um tipo estéril. É um tipo que não gera nada. É um tipo que só serve para cumprir o seu papel social. Tipo é aquilo que serve de impressão. Antigamente, para fazer um livro, para fazer uma publicação, para fazer uma impressão, você fazia primeiro o tipo e aí, ia batendo aquilo no papel com tinta como um carimbo, onde todas as folhas iam ficando iguais. Então, este é o estereótipo que a sociedade te cobra. E se você não cumprir o estereótipo, se você não for idêntico a todas as outras folhas que foram impressas, você será desaprovado. 

FAZER A DIFERENÇA 

Coragem de ser diferente. Coragem de ser você mesmo. Coragem de não ser igual ao outro. Porque aquele que é igual ao outro nunca vai fazer a diferença. Você abre as redes sociais, todo mundo postando coisas iguais. Hoje a palavra é “trend”, ou seja, o modelo de vídeo que você tem que fazer para que você possa ser notado nas redes sociais. A musiquinha igual, a dancinha igual, a roupinha igual, o sorrisinho igual, a expressão igual, para que você possa ter palminhas, likes.

INCONSCIENTE COLETIVO

Para o Jung, inconsciente coletivo é uma matriz que é inata em cada ser humano. Cada ser humano vai nascer com essa matriz igual a todos. Então, nascemos com um inconsciente coletivo junto com o inconsciente individual. Este inconsciente coletivo é como se fosse espaços abertos, espaços que carecem de ser preenchidos por experiências da vida de cada um. Então, nascemos com um arquétipo de mãe, com arquétipo de pai, com arquétipo de herói, com arquétipo de bruxa e por aí vão se desdobrando arquétipos que vão constituir o que ele chamou de inconsciente coletivo. Neste inconsciente coletivo, todo ser humano é igual. No entanto, assim que ele nasce, ele começa a preencher este inconsciente coletivo de experiências particulares.

ARQUÉTIPOS

Toda cultura tem o herói, toda a cultura tem o líder, toda a cultura tem a mãe, toda a cultura tem o pai. Toda filogênese, por assim dizer, vai apresentar figuras icônicas que são arquétipos do constituinte coletivo inconsciente. Mas cada um vai preencher estes arquétipos conforme as suas experiências. Nós nascemos com uma expectativa inata de mãe, uma expectativa inata de pai, uma expectativa inata de herói, uma expectativa inata de princesa, de bruxa, de rival, de inimigo. Tudo isso já está impresso enquanto arquétipo no sujeito, naquilo que o Jung chamou de inconsciente coletivo.

MANDALA

O Jung vai falar que o inconsciente coletivo se estrutura como uma Mandala. No centro da Mandala tem duas partes, uma chamada ânima e outra chamada ânimus. Então, é uma parte masculina e uma parte feminina. A ânima vai representar o feminino dentro do ser humano, seja ele homem ou mulher, e ânimos, a parte masculina em cada ser humano, seja ele homem ou mulher. E desses dois arquétipos vão se desdobrando outros arquétipos, mãe, pai, herói, rival, inimigo e por aí vai.

INDIVIDUAÇÃO

Individuação para o Jung é justamente o preenchimento destas lacunas arquetípicas com experiências particulares. Conforme ele vai preenchendo isso, vai trazer para o sujeito aquilo que o Jung chamou de individuação. E na individuação, o sujeito passa a se diferenciar dos outros, que a princípio ele poderia ser igual no inconsciente coletivo, ainda carente de experiências.

MATÉRIA CÓSMICA

Segundo Heisenberg, que é um dos pensadores da física quântica, nós somos constituídos da mesma matéria cósmica. Todos nós somos constituídos da mesma matéria, mas somos configurados de maneira diferente. E na realidade, não só nós somos constituídos de uma matéria única, mas também os objetos do mundo. A natureza, a madeira, pedra, o diamante, qualquer coisa é feita da mesma substância, mas configurada de maneira distinta, maneira diferente. É sensato a gente pensar que somos feitos de uma única matéria configurada de maneira diferente.

TODOS SOMOS UM

Quando a gente consegue concordar dentro da perspectiva epistemológica, seja ela qual for o vértice, seja no místico-religioso, seja no estético-artístico, ou seja, no filosófico-científico, quando a gente tem essa possibilidade de concórdia, nós estamos integrados, onde todos somos um só e não necessariamente iguais. Para que a gente possa ser um só enquanto concórdia, nós precisamos nos reconhecermos diferentes. Somos unidos sendo um só. Isso não quer dizer que nós vamos nos confundir um com os outros.



quarta-feira, 20 de novembro de 2024

O EU E O OUTRO - Prof. Renato Dias Martino



O LIMITE DO AMOR

Lá, no SOBRE O NARCISISMO UMA INTRODUÇÃO, o Freud fala sobre o que ele chamou de amor feliz. Eu tenho uma restrição quanto à ideia de feliz. Eu, mais adequadamente, colocaria: o amor real, ou um amor bem-sucedido. Mas, de qualquer forma, o Freud coloca lá que, para que possa ser chamado de amor feliz, a libido do ego precisa coincidir com a libido objetal, ou seja, o quanto o sujeito ama a si mesmo precisa coincidir com o quanto ele ama o outro. Todas as vezes que um uma tendência de interesse sobressair a outra, vai haver uma falta correlacionada. Se eu amar mais o outro do que a mim mesmo, eu não posso chamar isso de amor e se eu amar a mim mesmo mais do que ao outro, tanto quanto. E aí, a gente vai resgatar lá, a formulação religiosa com os dois mandamentos de Jesus Cristo. “Ama a Deus sobre todas as coisas e ama o outro como a ti mesmo”. E aí, é interessante, vale lembrar que, quando a gente lê na Bíblia, “mandamento”, isso não quer dizer que Jesus está mandando você fazer isso. Jesus está mostrando uma regra. Jesus está mostrando uma lei. Jesus está mostrando ali, um princípio. Então, ele está dizendo assim: “não há como amar o outro além do que você ama a si mesmo”. Não tem como. E antes de amar a si mesmo, você precisa estar amando a Deus. Amando a realidade, amando o todo. Porque, senão, isso que você tem com você não é amor, muito menos aquilo que você tem com o outro.

O OUTRO COMO AMBIENTE 

O Winnicott traz o conceito de mãe ambiente. Para o Winnicott, é importante que a mãe seja capaz de, antes de ser uma outra pessoa na vida do bebê, que ela possa ser o ambiente do bebê. Como uma extensão do que o útero foi para o bebê. Então, a mãe é o ambiente do bebê que cuida de toda a psicosfera, por assim dizer, para que ele possa se integrar ao todo. Depois que ele se integrou ao todo, ele está capacitado a reconhecê-la como uma outra pessoa e não simplesmente como o ambiente saudável que o circunda.
O INDIVÍDUO OU A ESPÉCIE 

O ser humano tem essa coisa do indivíduo, do individual, do individualismo. Ele tende, a todo custo preservar a si próprio. O seu desejo, aquilo que ele quer, mas a natureza não está nem aí para o indivíduo. A natureza não está nem aí para o sujeito. A natureza está aí para espécie. Schopenhauer já chamou atenção sobre isso. A natureza tem interesse que a espécie prolifere. Uma formiga não tem a menor importância, o que tem importância é o formigueiro. Ou você está de acordo com o formigueiro, ou você não tem a menor relevância para a natureza. E o ser humano é extremamente incapaz de estar de acordo com o todo, com a natureza. Ele quer saber dele próprio, do umbigo dele e ele, ele, ele, ele e nada mais.



quinta-feira, 28 de março de 2024

MATURIDADE E ESCOLHAS - Prof. Renato Dias Martino


E AS ESCOLHAS?

Acredita-se que para escolher, se tem liberdade.
Mas, a escolha não passa de um delírio de vaidade. 
Quando a escolha é bem-sucedida de verdade,
não foi uma escolha, mas o único caminho na realidade.
 Quando se está num acordo com o fato, 
não se tem escolha, mas é do 'Todo' a vontade.

DUAS PONTES

Quero propor uma alegoria, quero fazer uma pausa e retornar a essa alegoria no final da explanação. Vamos conjecturar aqui, que vocês vão ganhar, vão conseguir uma coisa que vocês desejam muito. Para conseguir essa coisa que vocês desejam muito, vocês têm que ir em certo lugar o mais rápido possível, o quanto antes, porque se você demorar muito para chegar nesse lugar, pode ser que você não consiga isso que você deseja muito. No caminho para esse lugar, para conseguir isso que você deseja muito, tem um rio muito perigoso. Um rio onde muitas pessoas morreram até, de tão perigoso que é este rio. Para cruzar esse rio você tem a “ponte A” e a “ponte B”. A “ponte A” vai te levar para este lugar, para esse teu objetivo, para você conseguir o que você tanto deseja, está condenada. A estrutura dela, muito provavelmente, não aguenta o peso de uma pessoa. Só que essa ponte te leva para este lugar, que você precisa chegar para conseguir o que você deseja, com muita rapidez. Um caminho curto. E tem uma outra ponte, a “ponte B”, que é uma ponte segura, que aguentaria dez pessoas, tranquilamente. Muito bem estruturada. Só que este caminho iria demorar mais. É um caminho mais longo para chegar até onde você precisa ir para conseguir aquilo que você tanto deseja e pode ser que você não consiga chegar se você pegar este caminho na “ponte B” e você tem que escolher. Qual ponte você pega? Eu vou dar uma pausa nessa história e nós vamos retomar essa história no final da nossa conversa aqui.

A VIDA É FEITA DE ESCOLHAS

Se a gente fizer uma breve pesquisa aí na internet, a gente vai encontrar inúmeras afirmações de que a vida é feita de escolhas. Dentre as pesquisas aqui, eu encontrei esta frase muito interessante de uma pessoa chamada Vitória Demante. A frase dela é assim: “A vida é feita de escolhas e uma hora você é obrigado a escolher o que quer, seja certo ou errado.” A gente idealiza o poder de escolha, a liberdade de escolha. Tem até a ideia de que o poder de escolha faz um sujeito bem-sucedido. Um sujeito bem-sucedido é aquele que tem o poder de escolha, que tem liberdade de escolha. E por outro lado, o sujeito fica muito desconfortável quando ele não pode escolher. Quando ele é obstruído de fazer as suas escolhas. 

IMPEDIDO DE ESCOLHER

A nossa vida cotidiana nos obriga a escolher, a decidir. A escolher, a decidir o que é certo, o que é errado. Esse critério é uma lei. Além disso, o sujeito que tem a liberdade de escolha se sente onipotente. Ele pode tudo! O sujeito que pode escolher pode tudo e quando ele não pode escolher ele se sente inseguro, se sente fracassado. Quando a gente é impedido de escolher, a gente acaba até se enfurecendo, sendo muitas vezes hostil, se revoltando.

ESCOLHA INCONSCIENTE 

Nós estamos falando de psicanálise aqui. Não estamos falando? Qual que foi a primeira e maior descoberta do Freud? O inconsciente. Não é isso? a ideia da instância inconsciente da mente a parte consciente da mente é ínfima é muito pequena como é que a gente pode ser psicanalista e acreditar na escolha lá em 1917, em UMA DIFICULDADE NO CAMINHO DA PSICANÁLISE, o Freud coloca assim o ego não é senhor da própria casa ou seja o “eu” não escolhe, ele simplesmente, sai correndo atrás de justificar aquilo que foi escolhido que não tem consciência e nunca terá.

VONTADE DE VIVER

Antes do Freud trazer a ideia do inconsciente, o Schopenhauer já falava disso. Schopenhauer falava da VONTADE DE VIVER. O que comanda o sujeito, o que rege o sujeito é a vontade de viver. Direciona o sujeito para onde ele for. É o que move o sujeito, é o que orienta o sujeito e a vontade de viver é inconsciente. Eu não sei o porquê, eu não sei o porquê eu estou caminhando para essa direção. Eu só estou caminhando para essa direção, depois a gente sai atrás tentando encontrar justificativas do porquê você está andando para aquele lado. O motivo real não está dentro da consciência do sujeito, não está dentro da possibilidade do sujeito saber.


DESEJO 

Quando o sujeito deseja alguma coisa... E aí, se a gente está falando de desejo a gente está falando daquilo que o sujeito vai escolher. Ele escolheu porque ele deseja aquilo. O sujeito deseja alguma coisa, não porque na realidade, ele quer aquilo, mas porque aquilo foi impedido para ele em certo tempo da vida dele. Ele foi impedido de fazer alguma coisa e agora isso se tornou um desejo para ele. Quando o sujeito deseja alguma coisa, aquilo ali está cheio de “eu não podia isso”, “eu fui impedido disso”. Muitas vezes, uma revolta, tentando conseguir isso daí, para provar para si mesmo que, agora ele pode, ou ainda, conseguir aquilo para ter aprovação do outro. Ele deseja algo, não para ele, mas ele deseja algo para que as pessoas o desejem o desejo. Não é genuinamente do sujeito. O primeiro desejo do da criança é que ela seja desejada pela mãe. Porque, se ela for desejada pela mãe ela está garantida. Ela passa a existir a partir do olhar da mãe. O primeiro e o maior desejo é o de ser desejado e não vai deixar de ser. Esse desejo vai se transformando, mas a essência continua sendo a mesma. Então, o desejo, ou é porque ele foi impedido, ou seja, elemento reprimido, ele foi impedido de alguma coisa e agora ele deseja isso a qualquer custo, se revolta contra essa proibição e agora ele quer ou ele deseja para ter a prova do outro aprovação do outro, ou ele deseja alguma coisa para se isentar de um sentimento de culpa, também. Mas, de qualquer forma não é dele. Não é genuinamente dele esse desejo.

DE GERAÇÃO PARA GERAÇÃO 

Então, o desejo do outro é genuíno? Porque, se o desejo do sujeito é o desejo do outro, então, o desejo do outro é genuíno? Não! Não é! Porque vai passando de geração em geração, uma certa incapacidade de tolerar e desconfortos, ao ponto de renunciar a esse desejo que não era dele e ele vai empurrando de geração para geração. O vô não conseguiu, empurrou para o pai, o pai não conseguiu, empurra para o filho, que empurrará para o neto, até que um, por assim dizer, “mate no peito” e diga: “daqui não vai passar, eu vou renunciar a esse desejo”.

DOIS MOTIVOS PARA ESCOLHER

Então, a gente chega num ponto onde dois motivos, ou a vontade que é a necessidade do id, inconsciente, que impulsiona o sujeito para um caminho sem que ele tenha consciência de porque ele está seguindo aquele caminho. Assim como Freud colocou, assim como Schopenhauer falava da VONTADE DE VIVER, que impulsiona o sujeito, ou o desejo que é do outro. É isso que faz o sujeito escolher. Um é da pulão de vida, da VONTADE DE VIVER e a outra é de um desejo reprimido, que foi empurrado para ele, projetado nele e agora ele tem que sair correndo atrás para resolver.

LIVRE ARBÍTRIO

A gente tem o conceito do livre arbítrio. Não é a gente? Tem na filosofia. O próprio Schopenhauer fala do livre arbítrio, Espinoza fala do livre arbítrio. Dentro do vértice místico-religioso, nas formulações religiosas, a gente tem também. Deus dá o livre arbítrio. Não é isso? No entanto, o que é o livre arbítrio? O que é o poder de escolha? É aquilo que vai fazer com que você viva uma experiência para que você possa ter consciência de que você, enquanto escolhendo, estava iludido. O livre arbítrio é uma chance de você viver a experiência de escolher e perceber que, na verdade, ao escolher, você estava iludido. Porque, a escolha não é tua. Se eu não posso escolher, eu também não tenho responsabilidade quanto a isso. É aí que entra o problema. Apesar de você não poder escolher, a responsabilidade é sua. Você precisa responder por aquilo.

AMOR FATI

Aí, entra uma formulação filosófica importante do Nietzsche. Lá no HUMANO DEMASIADO HUMANO, 1878, ele propõe a ideia do AMOR FATI. O que o Nietzsche quer dizer com AMOR FATI? Amar o fato, amar a realidade, independente do desconforto que essa realidade possa trazer. “Minha fórmula para a grandeza no homem é amor fati: nada querer diferente, seja para trás, seja para a frente, seja em toda a eternidade. Não apenas suportar o necessário, menos ainda ocultá-lo – (...) – mas amá-lo...”

AMOR

O que eu estou chamando de amor e o que que o Nietzsche estava querendo propor como amar. Amar não é gostar. Gostar é uma coisa, amar é outra. Amar é doar-se, dedicar-se, mesmo que não goste. Se você perguntar para uma mulher o que que ela espera de um homem, ela vai dizer assim: “que ele goste de mim”, não que ele tenha a capacidade de me amar. Você percebe como que o desejo é de ser desejada e não que alguém se dedique a mim? Porque, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Eu gosto de alguma coisa porque aquela coisa me traz um benefício e eu amo alguma coisa porque eu beneficio essa coisa. Então, amar a realidade é dedicar-se à realidade não é gostar da realidade. Não adianta, porque você não vai gostar da realidade. Quanto mais você tiver clareza da realidade, quanto mais você estiver num acordo com a realidade, menos você vai gostar da realidade e mais você precisa se capacitar para amar esta realidade. E enquanto de acordo com a realidade, não existe escolha, porque a realidade é uma só, porque o caminho é um só, não tem dois. O amor verdadeiro é aquele que diz respeito a doar-se ao outro, a renunciar de desejos, a adiar vontades, a sacrificar-se pelo outro. Não quer dizer desejar o outro, não quer dizer estar fascinado com o outro, não quer dizer se sentir atraído pelo outro. Isso não é amor. Isso é paixão. 

AMAR É UMA ESCOLHA

E aí você vê ali assim na rede social: “amar é uma escolha”. Não, amar não é uma escolha. “Amar é uma decisão” Não, amar não é uma decisão. Amar é uma capacidade e uma capacidade que precisa ser desenvolvida. Se o sujeito não estiver sendo capaz de amar ele não pode amar, mesmo que ele escolha amar. Ninguém escolhe se dedicar a alguém ou não. Ou ele é capaz daquilo ou ele não é.

FORMULAÇÕES RELIGIOSAS

Aí mais uma vez a as formulações religiosas a gente vai encontrar lá: “amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” Aí você vai encontrar em Mateus, 22:37,38,39, vai encontrar em Marcos, 12:30 e Lucas, 10:27. Não sou pastor, não estou aqui pregando. Não é nada disso! É simplesmente, mais uma possibilidade de ilustração, dentro de uma literatura riquíssima que são as escrituras bíblicas. Um modelo. O que que é amar a Deus sobre todas as coisas? É amar a realidade. Então, amar a Deus sobre todas as coisas e o AMOR FATI de Nietzsche, estão ali coincidindo. E o sujeito não precisa acreditar em Deus, ele pode ser ateu. Então, ele pode seguir o AMOR FATI e não o mandamento de Jesus Cristo. Amar aquilo que está fora das suas expectativas, que não depende do seu desejo. Por mais que a gente fale que este é um mandamento de Jesus Cristo, ninguém ama porque mandaram ele amar. Isso é absurdo! Ninguém ama porque escolheu amar, ninguém ama porque decidiu amar, ninguém ama por ser obrigado a. Você pode até fingir que você está amando, mas não é verdadeiro. A capacidade de amar só vai começar a acontecer a partir do momento que você for qualificado para isso. Como é que se qualifica para amar? Como é que o sujeito pode se qualificar para amar? Sendo amado! Não tem como aprender a amar sem ter sido amado. Eu aprendo a amar a partir do amor do outro e o outro faz parte da realidade. O outro faz parte dessa realidade que eu não controlo. Então, quando eu sou amado por esta realidade, que está independente da minha expectativa, eu passo a ter um relacionamento com essa realidade. Eu passo a ser capaz de amar esta realidade. Mas primeiro eu precisei ser amado, para criar um vínculo com essa realidade. Eu sou amado por essa realidade, aprendo a amar a mim mesmo, a partir desse amor que eu tive da realidade e agora eu devolvo esse amor. Eu retribuo esse amor para a realidade. Não é uma moeda de troca, é um processo.

AMAR O OUTRO

Lá em 1914, SOBRE O NARCISISMO UMA INTRODUÇÃO, Freud vai dizer assim: “um verdadeiro amor feliz”... ele vai chamar de amor feliz, talvez ali num erro de tradução, ou ainda numa colocação não muito adequada, porque amor e felicidade são dois conceitos que não estão juntos. Porque, se amor é renúncia ninguém é feliz renunciando, se amor é abrir mão da satisfação, ninguém é feliz insatisfeito. Mas, de qualquer forma, ele coloca lá que o amor feliz é quando a libido do ego corresponde a libido objetal. Ou seja, quando, o quanto eu amo a mim mesmo coincide com quanto eu amo o outro. E Olha que bacana! Se, no primeiro mandamento de Jesus Cristo, “amar a Deus sobre todas as coisas”, coincide com a colocação ali do Nietzsche, do AMOR FATI, amar o outro como a si mesmo, coincide com a colocação do Freud, que um amor feliz seria amar a si mesmo, assim como ama o outro.

MOEDA DE TROCA

Se você for grato você vai ter uma vida próspera. Então, eu vou ser grato para ter uma vida próspera. Não é assim! Não é uma moeda de troca. Ser grato é uma capacidade. Quando eu for capaz de ser grato, a minha vida vai começar a prosperar. Uma vida de fartura se inicia com um ato de generosidade, mas eu não posso ser generoso para ter uma vida de fartura. Ser generoso não pode ser uma atitude esperando uma recompensa. Por que, senão, não é nobre, senão, não é real. Eu preciso ser capaz de desenvolver a generosidade e a partir dessa generosidade, da minha atitude generosa, a minha vida começa a ser farta. Mas, por outro lado, eu só vou conseguir ser generoso, se um dia foram generosas comigo. Se não foram generosos comigo, eu não consigo desenvolver a generosidade com o outro. Então, tudo se inicia no colo da mãe. “Ah! ó o clichê da psicanálise”. Pois é! Por isso que a psicanálise faz tanto sentido. A mão que balança o berço move a nação. Uma mãe generosa, configura uma personalidade generosa, que sendo generosa irá configurar, por sua vez, uma vida de fartura. “Ah! Mas é só com a mãe?” Não! Nós somos psicanalistas. Então, a gente tem ali, a possibilidade de configurar um ambiente emocional-afetivo saudável para que possa haver experiências reparadoras nesse nível. Há uma esperança, por mais que eu possa não ter tido isso no seio do lar. Esse é o papel da psicanálise, propor um ambiente reparador dentro do nível emocional e afetivo.

DESINTEGRAÇÃO

A escolha está subordinada à ilusão. Enquanto escolhendo estou iludido. E a ilusão tem a suas consequências e eu preciso arcar com essas consequências, ou então empurrar para próxima geração. Escolher diz respeito a desintegração. DECISÃO! “D” quer dizer cortar e cisão reafirma este corte. Então, cada vez que eu decido, eu estou cindindo, desintegrando. E cada vez que eu renuncio de decidir eu estou integrando, estou integrado e estou me integrando com o todo. Porque é do todo a vontade e não minha. Porque é do todo a escolha e não minha. E como é que eu me conecto com o todo? A partir do meu inconsciente. A partir daquilo que é mais primitivo em mim. A partir da minha vontade de viver. Dentro da formulação religiosa, “seja feita a vossa vontade”. E mais uma vez, não sou o pastor, não estou aqui tentando pregar religião alguma, mas estamos trazendo mais uma ilustração, que é dentro das escrituras bíblicas do cristianismo. Que é extremamente rica.

MATURIDADE E ESCOLHA

Então, a maturidade traz a liberdade de escolha? Não! É o contrário. Quanto mais amadurecido emocionalmente você vai ficando, mais você vai tendo clareza da realidade, que o caminho é um só e não tem escolha. Quanto mais você amadurece emocionalmente, mais integrado você fica com seu instinto de autopreservação, que é a coisa mais primitiva que uma criatura pode ter e este instinto de autopreservação vai te mostrar o caminho que é um só.

PARA O INTOLERANTE

Para o sujeito que não tolera desconfortos, para o sujeito que não aprendeu a tolerar frustrações, ou ainda, para o sujeito que não está sendo capaz de tolerar frustrações é melhor acreditar que ele é livre para escolher. E aí, a realidade é aquilo que eu quero que seja, independente do que ela é na realidade. Se eu decidir que eu sou um cachorro agora, eu vou começar a latir e todo mundo precisa começar a me chamar de cachorro, porque se não me chamar de cachorro, eu vou protestar, vou mandar aprender. Independente da natureza da biologia estar escancarando na minha própria cara que eu sou um ser humano. Eu vou começar a latir e todo mundo vai ter que engolir.

AINDA SOBRE AS DUAS PONTES

Voltando na proposta da alegoria. Então, qual o caminho que eu devo escolher? O da “ponte A”, ou o da “ponte B”. A “ponte A” é uma ponte que está danificada. Muito provavelmente não aguentará o peso de uma pessoa, mas ela é um atalho e te leva mais rápido para o ponto, para você conseguir aquilo que você tanto deseja. A “ponte B” é uma ponte bem estruturado e aguentaria aí umas dez, vinte pessoas, numa boa. Mas você demoraria mais para chegar ao ponto para conseguir aquilo que você deseja e poderia correr o risco de não chegar a tempo. Embaixo da ponte, um rio extremamente perigoso, onde morreram várias pessoas. Qual ponte você escolhe? A “ponte A”? Você pode escolher. Não pode? É tua escolha! É o livre arbítrio! Para conseguir o seu desejo, muito provavelmente você vai escolher a “ponte A”, mas se você for capaz de renunciar o seu desejo. Não é de maneira alguma dizer não vou conseguir isso que eu desejo, mas é ser capaz de ser prudente o suficiente para não arriscar a sua vida, para obter aquilo que você deseja. E se você tiver de acordo com esta realidade que inclui, o instinto de autopreservação, não tem escolha o caminho é um só é a “ponte B”. Segura!

VERDADEIRO EU

Ninguém escolhe como quer ser e então,
passa a ser o que escolheu.
Na melhor das hipóteses,
pode vir a reconhecer
como esteja sendo e assim,
poderá aprender a respeitar
e se responsabilizar pelo verdadeiro eu.



terça-feira, 1 de agosto de 2023

PSICANÁLISE E RELIGIÃO - Prof. Renato Dias Martino


Quando a gente fala das formulações religiosas, ou da espiritualidade como um elemento que possa corroborar para o sucesso do trabalho psicanalítico, esta proposta precisa ser espontânea, precisa partir de dentro do sujeito. O Sigmund Freud (1856 - 1939) não tinha isso, infelizmente. O Freud não conseguiu ter isso, porque ele foi inundado de preconceitos a respeito da religiosidade. Ele era judeu e ele sofreu demais com isso. Ele padeceu a vida inteira, desde pequenininho até a sua morte. Ele foi forçado a sair de Viena, onde ele viveu quase que a vida toda e ir para Inglaterra fugido, porque Adolf Hitler (1889 –  1945) tinha tomado a Áustria e ele, como judeu teve que sair de lá fugido, depois de ver morrer parentes próximos, familiares. Então não tinha como Freud ter uma boa concepção do que era religiosidade, porque também existia ali, a questão da imposição e religião sendo elementos que coincidiam. No entanto, não é nesse âmbito que nós estamos é buscando aqui, esclarecer ou refletir. Nós estamos falando de algo que parte de dentro. O Freud. lá no MAL-ESTAR DA CIVILIZAÇÕES (1930), fala sobre não conseguir encontrar nele um “sentimento oceânico”. O que que esse “sentimento oceânico”? É de fazer parte do todo. Ele não conseguia sentir isso, mas é disso que nós estamos falando, de conseguir fazer parte do tudo, de ser capaz de se integrar ao todo, de se religar ao todo. Então, religião é religar. Infelizmente o Freud não teve essa chance. Não discordo do Freud quando ele coloca que o sujeito busca a Deus, o Pai Eterno, numa tentativa de reparação da relação conflituosa que teve com o seu pai físico, dentro da perspectiva, em relação familiar. No entanto, Deus está configurado numa dimensão muito mais ampla do que isso. Nós estamos falando aqui, do Deus que criou o homem, não do Deus que o homem criou. Tem uma publicação das cartas que o Freud trocava com Oskar Pfister (1873 - 1956), que era um pastor protestante e ali o próprio Pfister fala para ele que, tendo a posição dele, tão avesso, tão aversivo as formulações religiosas, ou a religião, ele apresentava características de um cristão, muito mais do que vários ditos, supostos cristãos. Ainda assim, o Freud era muito mais cristão sendo quem era, do que muitos pastores e ditos, supostos cristãos aí, que se colocam nesta posição de superioridade, dentro das formulações religiosas. A própria psicanálise é uma configuração de compaixão, de acolhimento e de uma série de elementos que estão dentro da posição do cristão e não só do cristão, mas também se correlaciona aí, com o budismo, com a cultura védica. Athur Schopenhauer (1788 - 1860), trouxe essa possibilidade de integração. Schopenhauer fala bastante da cultura védica, fala bastante do budismo. E não só, mas assim, se a gente for levar em consideração aí a mitologia grega já que a gente tá falando de deuses. Então, o Freud se utiliza disso o tempo inteiro. Dessas formulações. Ou seja, é impossível desagregar qualquer que seja a área do pensamento humano, das formulações religiosas. É uma grande estupidez, o sujeito que ainda tenta fazer essa coisa de separar as formulações religiosas da ciência, ou da tomada de consciência da realidade. Nós temos aí, cientistas famosos, que contribuíram demais para a humanidade e que são extremamente devotos, se não por Jesus Cristo, por Alá. Se não por Alá por Krishna, pelo budismo, ou qualquer outra coisa dentro dessa perspectiva da espiritualidade, ou ainda, das formulações religiosas. Existe uma outra configuração das formulações religiosas, independe de uma crença, independe de uma fé, que vai para além disso. É a formulação religiosa, ou a utilização da religião, como uma forma de carinho. Sabe quando a tua avó vai se despedir de você e pega na tua mão e diz assim: “Fica com Deus, filho”, “Vai com Deus”? Sabe o que é isso? Você pode ser ateu, meu amigo, mas isso, ainda assim, é uma forma genuína de amor puro. É uma forma de ternura, a forma mais bela do amor, sendo colocada sendo manifestada através de uma formulação religiosa. Isso não tem preço, gente! Sendo você ateu, ou não. De que outra forma a sua avó poderia ser tão amorosa com você, que não fosse com um “Vai com Deus”, “Que Deus te proteja”, “Que Deus te abençoe”. A contemplação é um elemento de psicanálise, para aquele que pratica psicanálise do acolhimento. o significado da palavra contemplar traz a ideia de com = junto e templo = local sagrado. Juntos no local sagrado. Então, o paciente e o analista estão numa posição de contemplação. Estão juntos num ambiente sagrado, num ambiente não local. Isso é muito interessante. Que aí a gente já busca ali, um conceito da física quântica. Do Goswami, do Amit Goswami da “realidade não local”, da “consciência não local”. O ambiente não local, porque nós não estamos aqui dentro do mesmo local, mas nós estamos dentro do mesmo ambiente emocional-afetivo sagrado por sua vez. Então, estamos contemplando. O preparo emocional-afetivo é a base para um bom relacionamento com as formulações religiosas. Um sujeito perturbado emocionalmente, vai voltar todas as configurações religiosas contra si mesmo e consequentemente, contra o outro também. Ele vai usar as formulações religiosas para se culpar, para se condenar, para se punir, para uma configuração nociva. Então, a psicanálise e a religiosidade estão juntas nesta perspectiva. O sujeito precisa cuidar do seu funcionamento emocional-afetivo para que ele possa estar integrado dentro das formulações religiosas, ou da espiritualidade. Então, a religiosidade cuida de uma parte, a psicanálise cuida da outra que, ao mesmo tempo, são interdependentes. Ao meu ver, a maior função da religião, ou da espiritualidade é propiciar para que o sujeito, que a gente possa se auto responsabilizar. Ele precisa se responsabilizar por ele e pelos seus vínculos. E quando eu falo aqui de vínculos, eu estou falando de vínculos com as pessoas que estão em volta dele e também com o mundo, com a natureza, com o todo. Assumir a sua responsabilidade. A verdadeira religião, a verdadeira posição espiritual é aquela, a verdadeira espiritualidade é aquela que traz para o sujeito a responsabilidade e um sujeito que é responsável por si e pelos seus vínculos é um sujeito que não permite culpa. Onde existe a capacidade de responsabilização, a culpa não resiste. A culpa só domina o ambiente onde não existe sujeitos que são capazes de ser responsabilizar. A responsabilidade é o que neutraliza, é o que dissolve a culpa. O sujeito intolerante, acaba sendo vulnerável aos charlatões religiosos. Porque o charlatanismo religioso é aquele que traz respostas, quando na realidade, Deus é mistério. Ser capaz de estar dentro das formulações religiosas, ser capaz de estar de acordo com as formulações religiosas, requer tolerância à frustração, requer ser capaz de tolerar a dúvida, tolerar o mistério, tolerar aquilo que não pode ser entendido, não pode ser compreendido. Deus está dentro da perspectiva do incognoscível! Não pode ser conhecido e aí o sujeito que não tem essa tolerância naquilo que Wilfred Ruprecht Bion (1897 - 1979), chamou de “capacidade negativa”... O que acontece? Ele é um alvo muito fácil dos charlatões do charlatanismo religioso, onde o dirigente traz respostas, ao invés de prepará-lo para dúvida. Também dentro da psicanálise, o papel do psicanalista não é dar respostas, mas é propiciar um ambiente fecundo de tolerar a dúvida, de ser capaz de tolerar o desconforto da Incerteza. Assim como propõe a própria física quântica, dentro da formulação do Werner Heisenberg (1901 — 1976), quando propõe o “princípio da incerteza”. Todo o pensamento mais nobre da humanidade, está de acordo com a dúvida, está de acordo com a incerteza. O que faz pensar não são as respostas, são as dúvidas. O Bion usa essa formulação do Maurice Blanchot (1907 - 2003): “A resposta é a desgraça da pergunta”. Você está respondido, não tem mais o que falar, não tem mais o que você pensar, está tudo resolvido e esta é a questão do diagnóstico hoje em dia. O sujeito recebe um diagnóstico psiquiátrico, ele se conforma com aquilo, se entope de medicamentos e acabou. Ele está fadado a aquilo, ele está confortavelmente dentro daquela perspectiva nociva.