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quarta-feira, 30 de julho de 2025

HUMANOS – Diferentes, Desejando Ser Iguais - Prof. Renato Dias Martino



SER HUMANO 

A gente usa a palavra humanidade, muitas vezes, para trazer uma característica de compaixão, de amor de reconhecimento do outro, de respeito das fragilidades do outro. No entanto, quando a gente reconhece um ser humano nas suas características próprias, peculiares, a gente reconhece um animal extremamente nocivo para a natureza, extremamente nocivo para os outros exemplares da mesma espécie, ou seja, dos outros seres humanos. Ao mesmo tempo que a gente usa a palavra humanidade para trazer características nobres, o ser humano é um animal que naturalmente não é nobre. É um animal narcisista, é um animal que tem características extremamente desprezíveis. É o único animal que entrega a sua cria vulnerável aos cuidados de um desconhecido. Nenhum outro animal faz isso.

COMUNISMO 

O Freud coloca isso daí com muita clareza lá no mal-estar nas civilizações. Essa ideia de implementar comunismo é uma falácia. Todos os países que implementaram o comunismo, eles implementaram trazendo o povo para o nível mais baixo possível. E isso foi implementado justamente através de imposições de impostos até que o sujeito possa dar ao governo tudo que ele tem para que ele se iguale a todos e o mandatário vive no luxo. Não dá para implementar isso. O ser humano é narcisista. Não existe comunismo espontâneo. Todo comunismo é uma ditadura. Sem ditadura não existe comunismo. Ah! Mas Jesus Cristo queria a igualdade de todo mundo. Então Jesus Cristo era comunista? Não! Jesus Cristo nunca impôs nada. Todo regime comunista é através de imposição, senão você vai querer ter o seu através daquilo que você trabalhou para isso.

HORDA

Lá em 1921 Freud vai dizer: "O ser humano não é um animal de grupo ele é um animal de horda”. Ele chama a horda a primeira esfera o estrito ambiente familiar. Este é o único grupo que o ser humano naturalmente faz parte. Quando um dos filhotes ali, começa a crescer e ganhar certa autonomia, ele já precisa se desligar da horda para criar outra horda, porque senão este ser humano vai encontrar atritos conflitos ali. Ele vai precisar de uma série de evoluções, de crescimentos em relação à sua nobreza, para que ele consiga continuar ali dentro. Aprender a tolerar um monte de coisas para que ele consiga permanecer ali dentro. Caso contrário ele vai se desligar e criar outra horda. No entanto, o ser humano hoje está se distanciando cada vez mais da sua natureza. Inúmeras características, inclusive essa, ele não está conseguindo sequer configurar a sua horda. A horda que não é uma instituição não foi instituída, foi gerado. A instituição é aquilo que o sujeito cria. A família não foi criada ela foi gerada naturalmente. Muitas vezes, a gente tem esse hábito de chamar família de instituição. Não! Ela não foi instituída, ela foi gerada. 

GRUPO DE TRABALHO

O ser humano está em busca de grupos porque a horda não deu conta. O ser humano que conseguiu ter dentro da horda, cumprida as funções necessárias, ele não vai deixar de buscar grupos, mas ele vai buscar grupos de trabalho, grupos formais e grupos específicos de algum tema que esteja em pauta para crescimento. Não é um grupo emocional não é um grupo afetivo. É claro que a partir da instituição desse grupo de trabalho vão ser criadas relações afetivas, mas não foi isso que ele foi buscar.

DIFERENÇA 

Esse é o grande contrassenso. Esse é o grande paradoxo humano. Ele é muito diferente dos outros da mesma espécie, mas ele morre de medo dessa diferença porque ele deseja demais ser igual ao outro. Ele deseja fugir da sua diferenciação. Ele deseja usar a mesma camiseta que a atriz da novela usou. Ele deseja fazer a mesma tatuagem que o cantor fez. Ele deseja cortar o cabelo como o ator da novela cortou. Ele se padroniza para fugir da realidade de que ele é diferente porque isso causa uma insegurança enorme.

IGUAL 

Para que o sujeito possa reconhecer a si mesmo, aprender a respeitar a si mesmo e se responsabilizar por si mesmo, ele precisa abrir mão, ele precisa se desapegar da tentativa de ser igual ao outro, porque ele não é porque ele nunca vai ser. Não somos iguais. E nós precisamos aprender a respeitar o outro mesmo não sendo igual. Porque respeitar o outro sendo igual é muito fácil. Amar o outro sendo o outro igual é muito fácil. Mas, amar pressupõe diferença. Amar o igual não é amor. Aquele que ama o igual não aprendeu a amar. Ele só vai amar quando ele reconhecer que o outro não é igual.

POSSIBILIDADE 

Quando a gente está falando da diferenciação do ser humano, nós não estamos só falando de um ser humano ser diferente do outro. Nós estamos falando do sujeito ser diferente dele mesmo a cada dia a cada momento. Nós estamos em constante transformação. Nós nos julgamos definidos, mas nós somos processo nós somos possibilidades nós somos transformações o tempo inteiro. Ninguém é nós estamos sendo. E o sujeito que insiste em ser ele vai acabar adoecendo. O sujeito que insiste em obstruir a sua transformação porque conseguiu um status conseguiu um título e agora ele é aquilo ele está adoecendo.

ENVELHECER 

O sujeito, ele é enaltecido quando ele parece não ter mudado. Sabe essa coisa da pessoa te encontrar depois de muitos anos falar: "Nossa! Mas você não muda, né? Você não envelheceu”? E você se sente muito enaltecido. Você não se transformou. Isso é quase que um elogio. Nós não aprendemos a respeitar e nos tornarmos capazes de contemplar o envelhecimento, contemplar a transformação.

DISPUTA 

Todas as vezes que começa a haver ou uma ligação por identificação com o outro, que seja fixada e se prolongue para além sem que se desenvolva em outro tipo de vínculo mais nobre, ou quando existe o desejo do sujeito se tornar igual ao outro, logo vai se instalar uma competitividade, uma disputa, porque dois iguais vão disputar. Não há espaço para dois iguais. Onde há dois iguais, ou porque ele se identificou com o outro, ele força o outro ser igual a ele, ou porque ele quer se tornar igual ao outro, logo vai se instalar um conflito por disputa, por competição. Esse é um dos grandes danos desta experiência de se tentar se tornar igual ao outro ou tentar que o outro se torne igual a ele.

DOIS MODELOS 

Então, existem duas configurações. Existe a configuração da extensão da ligação por identificação, onde o sujeito procura pessoas iguais a ele porque ele não consegue se ligar as pessoas diferentes, existe a configuração onde o sujeito não conseguiu substância na sua essência, reconhecimento nas suas peculiaridades e ele acaba tentando se tornar igual ao outro, buscando características do outro para que ele seja igual ao outro, porque ele não confia na sua essência. Ele não confia naquilo que ele está sendo, ele não confia em si mesmo como referência, então ele procura grupos, ele procura pessoas influentes, líderes para que ele possa agir igual ao outro.

GRUPOS 

Chega a ser assustador o tamanho da aderência do sujeito que nunca teve um acolhimento, que nunca se sentiu integrante de nada, quando ele é acolhido por um certo grupo e ele começa a se identificar com aquilo. Ideologia de gênero, ideologia política, instituições religiosas... O sujeito se sente inseguro, é acolhido por um grupo e aí, ele começa a defender aquelas ideias e procurar argumentos para justificar as ideias do grupo, por mais absurdas que elas sejam.

RECONHECIMENTO 

Como é que se aplaca o desejo de ser igual? A partir de um vínculo bem-sucedido. Quando o sujeito pode ser reconhecido nas suas particularidades, quando ele pode aprender a se autorreconhecer nas suas particularidades, ele não vai ter essa ânsia de se tornar igual ao outro, porque ele foi reconhecido pelos pais nas suas peculiaridades e por ser reconhecido ele é capaz de reconhecer o valor de si mesmo, mesmo não sendo igual ao outro. Quando o sujeito é reconhecido, ele diminui drasticamente esse desejo de ser igual ao outro.

NECESSIDADE E DESEJO 

Muitas vezes, a gente usa a palavra necessidade inadequadamente. Ninguém tem necessidade de ser igual ao outro, nós temos o desejo de ser igual ao outro. Ninguém necessita ser igual ao outro. E o desejo é o desdobramento de algo que faltou por conta do não cumprimento daquilo que, no seu tempo precisava ser cumprido. Não foi cumprido a função de reconhecimento da criança, logo ela desenvolve um desejo de ser igual ao outro, porque começa a usar o outro como referência. Então, não é uma necessidade, é um desejo.

PARTES DO EU 

Não é só, não ser capaz de respeitar a diferença do outro, mas é não ser capaz de respeitar a diferença das partes que constituem a minha personalidade. Eu sou partes diferentes que se constituem num todo. Eu preciso respeitar as diferenças que constituem a mim mesmo, porque senão, eu vou me desintegrar e vou acabar projetando essas partes que são diferentes em pessoas externas. E criando um atrito, criando uma competitividade, um conflito com as pessoas do meu convívio.

IDENTIFICAÇÃO

Chega um momento na vida que o sujeito começa a se perceber diferente dos outros. Porque no início da vida, assim como Freud nos orientou lá no Psicologia das Massas e análise do ego, a identificação é a primeira forma de relação entre duas pessoas. Duas pessoas se relacionam em primeiro momento por identificação, ou seja, acreditando que são iguais, mas num certo momento ela começa a perceber que ela é diferente, diferente do outro, e isso causa uma angústia enorme.

LATÊNCIA 

Na primeira infância, ela vive uma relação por identificação com a mãe. Conforme ela vai se desenvolvendo, ela vai passando pelas fases. O Freud vai nos sugerir a fase oral, a fase anal e a fase fálica. Logo depois da fase fálica, o sujeito vai entrar num período da latência. Neste período da latência, o sujeito começa a criar mecanismos para se agrupar com aqueles que ele imagina ser igual. Turminhas de menino, turminhas de meninas, pelo menos dentro de uma configuração saudável. É isso que vai acontecer. Todos se vestem da mesma forma para que pareçam ser iguais. Todos gostam do mesmo tipo de música. Tudo igual, tudo equalizado para aplacar esta sensação desconfortável de se perceber e se reconhecer diferente do outro.

DIFERENTE DO QUE FOI

 Quando a gente fala de diferenciação, de dificuldade de lidar com as diferenças, a gente tá falando não só do sujeito ter dificuldade de lidar com a diferença do outro, mas a dificuldade do sujeito lidar com a diferença de si mesmo. a diferença das partes que constituem a sua personalidade e a diferença daquilo que ele reconhecia como realidade anteriormente e ele passa a reconhecer agora. Muitas vezes o sujeito tem uma dificuldade enorme de repensar a realidade, de reconhecer a realidade, de conhecer a realidade novamente. Ele se apega àquilo que ele tinha como certeza e não solta disso maneira alguma. Porque ele tem medo de se tornar diferente, diferente daquilo que ele era, diferente daquilo que ele pensava.

CORPO FÍSICO 

Esta dificuldade de lidar com a diferença também está implicada na materialidade do corpo físico. O sujeito tem uma dificuldade enorme de lidar com as diferenças quando isto vai ocorrendo na transformação do seu corpo físico. vai envelhecendo, as características do corpo vão mudando e o ser humano tem uma dificuldade tremenda de respeitar as transformações do corpo. Por isso, ele cria técnicas e técnicas e técnicas estéticas para que ele possa conservar o corpo como se estivesse jovem, mas não está.

AMOR-PRÓPRIO E BELEZA FÍSICA
 
O sujeito diz assim: "Vou fazer uma operação plástica para cuidar da minha autoestima, para que eu possa melhorar o meu amor-próprio". Não, meu amigo! Você está equivocado. Amor-próprio é independente da configuração material do seu corpo. Se você não ama a si mesmo, não existe operação plástica, não existe procedimento estético que vai fazer com que você passe a amar a si mesmo. Amar a si mesmo é independente de gostar de si mesmo, é independente de gostar da sua forma física.

IGUALDADE E EQUIDADE 

Igualdade. Tratar todos como iguais. Não, isso é um equívoco. Não somos iguais e não podemos ser tratados como iguais. Precisamos ser tratados com equidade. É tratar cada um na sua peculiaridade. Respeitar cada um em suas características próprias. Respeitando isso. Existe um abismo entre tratar com equidade e obrigar o outro a ser igual. Ninguém é igual. Criar a capacidade de equidade. Tratar o outro com igualdade é mais fácil do que tratar o outro com equidade. Tratar com igualdade é tratar todo mundo do mesmo jeito. Tratar com equidade é reconhecer o outro para respeitar o outro nas suas peculiaridades. E isso é para poucas pessoas.

IGUALDADE E FORÇA

A igualdade traz uma sensação de onipotência, traz uma sensação de força. Um grupo unido porque acredita que são iguais é um grupo forte. E aí, se esse grupo consegue eleger um inimigo externo, ele se torna mais forte ainda.

SEMELHANTE

Afinidade, tanto tem características iguais, quanto características diferentes. Diferente da igualdade que cobra uma característica idêntica do outro. A gente está falando aqui de obrigar o outro a ser igual. E o outro não é igual. O outro é semelhante. O outro é similar. Similar a uma coisa, semelhante a uma coisa, igual é outra. Um bom exemplo disso é a família, os integrantes da família, os integrantes da horda primeva, como diria o Freud, cada integrante da família tem a sua função. Cada integrante da família tem a sua característica diferente do outro. A mãe é diferente do pai, que é diferente do filho. Cada um tem sua característica diferente dentro da família. Todos somos diferentes para cumprir funções distintas, mas precisamos de afinidades. Precisamos estar afinados um com o outro. Precisamos ter concórdia. É importante que uma família esteja junto de coração. Concordes? Isso não é ser igual, é ser semelhante. 

ILUSÃO E IGUALDADE

O iludido tende a odiar o sujeito que é orientado pela verdade. O iludido normalmente tem a ilusão de ser igual aos outros, tem a ilusão da igualdade. E o sujeito que está orientado pela verdade assume a sua diferença em relação ao outro, reconhece as suas diferenças, aprende a respeitar as suas diferenças e se responsabiliza por ser diferente do outro. E este sujeito normalmente é odiado por aqueles que propõem a obrigação de ser igual. Isso é uma violência. O ambiente escolar desde o primeiro estágio, desde o prézinho, é extremamente tóxico nesse sentido. Obriga as crianças a serem iguais. 

ESCOLA

A maior parte das queixas dos professores, dos coordenadores, dos diretores da escola quanto as crianças é justamente quando essas crianças começam a manifestar a sua diferenciação em relação às outras. Ela começa a manifestar a sua diferença em relação às outras e os professores se assustam com isso, porque as crianças precisam ser todas iguais. As crianças precisam aprender o currículo proposto pela escola, todas iguais. As notas, os conceitos aplicados às crianças são todos iguais e elas precisam ser todas iguais. E isso é uma violência, porque ninguém é igual a ninguém. Cada um tem o seu tempo de aprendizado. Cada um se interessa por alguma coisa diferente. Cada um tem afinidade por assuntos diferentes. 

PARTE NEURÓTICA E PARTE PSICÓTICA 

Tanto a parte neurótica, quanto a parte psicótica têm essa tendência a repetição, a tendência a igualdades e uma tendência a igualdades que não admite diferenças. É uma equação, não é uma analogia. Analogia admite diferenças e igualdades. A equação não admite diferenças. Então, no neurótico, esta repetição é uma manifestação do desejo de que tudo seja igual. O neurótico se atrai pelo igual. O psicótico não se atrai pelo igual. Ele só admite o igual. Para o psicótico, o que está dentro e o que está fora é a mesma coisa. Se fora deixar de existir, dentro também deixa de existir. E se dentro existir, ele força que fora exista também. A alucinação é isso. Ele alucina com alguma coisa e ele realmente acredita que aquela coisa existe no mundo externo. E se alguma coisa do mundo externo não estiver presente fisicamente, ele não consegue sustentar internamente.

SOCIEDADE PSICÓTICA

A sociedade te cobra ser fielmente igual àquilo que ela propôs, aquele pressuposto social. Se você não for aquilo que a sociedade te obrigou a ser, você será desaprovado. E isso é uma experiência psicótica. esquizofrênica. Esquizo quer dizer separado, cindido, porque a sociedade tem inúmeras demandas e você precisa cumprir todas. Você precisa agradar gregos e troianos, por assim dizer. Isso faz com que você se torne vários. E esta fragmentação é justamente o que configura a psicose. Não há possibilidade de ser a mesma pessoa em âmbitos diferentes de demandas sociais. 

SOCIEDADE E DISSIMULAÇÃO

 Não há como desempenhar o “verdadeiro eu” no âmbito social. As relações sociais demandam falsidade, demandam dissimulações. E aí, é prudente que você seja cauteloso nesta vivência social. Porque a exacerbação da utilização do “falso eu” acontece em detrimento da saúde do “verdadeiro eu”. O “verdadeiro eu” carece do “falso eu” para protegê-lo. O uso saudável do “falso eu” é na proteção do “verdadeiro eu”. No entanto, uma vida social intensa faz com que você exacerbe, que você aumente, que você potencialize o “falso eu” em detrimento da saúde, do “verdadeiro eu”. Aquilo que está lá dentro acaba ficando empobrecido e sufocado pela casca extremamente enrijecida e grossa. 

ESTEREÓTIPO

A sociedade te cobra cumprir um estereótipo. Que que é estereótipo? É um tipo estéril. É um tipo que não gera nada. É um tipo que só serve para cumprir o seu papel social. Tipo é aquilo que serve de impressão. Antigamente, para fazer um livro, para fazer uma publicação, para fazer uma impressão, você fazia primeiro o tipo e aí, ia batendo aquilo no papel com tinta como um carimbo, onde todas as folhas iam ficando iguais. Então, este é o estereótipo que a sociedade te cobra. E se você não cumprir o estereótipo, se você não for idêntico a todas as outras folhas que foram impressas, você será desaprovado. 

FAZER A DIFERENÇA 

Coragem de ser diferente. Coragem de ser você mesmo. Coragem de não ser igual ao outro. Porque aquele que é igual ao outro nunca vai fazer a diferença. Você abre as redes sociais, todo mundo postando coisas iguais. Hoje a palavra é “trend”, ou seja, o modelo de vídeo que você tem que fazer para que você possa ser notado nas redes sociais. A musiquinha igual, a dancinha igual, a roupinha igual, o sorrisinho igual, a expressão igual, para que você possa ter palminhas, likes.

INCONSCIENTE COLETIVO

Para o Jung, inconsciente coletivo é uma matriz que é inata em cada ser humano. Cada ser humano vai nascer com essa matriz igual a todos. Então, nascemos com um inconsciente coletivo junto com o inconsciente individual. Este inconsciente coletivo é como se fosse espaços abertos, espaços que carecem de ser preenchidos por experiências da vida de cada um. Então, nascemos com um arquétipo de mãe, com arquétipo de pai, com arquétipo de herói, com arquétipo de bruxa e por aí vão se desdobrando arquétipos que vão constituir o que ele chamou de inconsciente coletivo. Neste inconsciente coletivo, todo ser humano é igual. No entanto, assim que ele nasce, ele começa a preencher este inconsciente coletivo de experiências particulares.

ARQUÉTIPOS

Toda cultura tem o herói, toda a cultura tem o líder, toda a cultura tem a mãe, toda a cultura tem o pai. Toda filogênese, por assim dizer, vai apresentar figuras icônicas que são arquétipos do constituinte coletivo inconsciente. Mas cada um vai preencher estes arquétipos conforme as suas experiências. Nós nascemos com uma expectativa inata de mãe, uma expectativa inata de pai, uma expectativa inata de herói, uma expectativa inata de princesa, de bruxa, de rival, de inimigo. Tudo isso já está impresso enquanto arquétipo no sujeito, naquilo que o Jung chamou de inconsciente coletivo.

MANDALA

O Jung vai falar que o inconsciente coletivo se estrutura como uma Mandala. No centro da Mandala tem duas partes, uma chamada ânima e outra chamada ânimus. Então, é uma parte masculina e uma parte feminina. A ânima vai representar o feminino dentro do ser humano, seja ele homem ou mulher, e ânimos, a parte masculina em cada ser humano, seja ele homem ou mulher. E desses dois arquétipos vão se desdobrando outros arquétipos, mãe, pai, herói, rival, inimigo e por aí vai.

INDIVIDUAÇÃO

Individuação para o Jung é justamente o preenchimento destas lacunas arquetípicas com experiências particulares. Conforme ele vai preenchendo isso, vai trazer para o sujeito aquilo que o Jung chamou de individuação. E na individuação, o sujeito passa a se diferenciar dos outros, que a princípio ele poderia ser igual no inconsciente coletivo, ainda carente de experiências.

MATÉRIA CÓSMICA

Segundo Heisenberg, que é um dos pensadores da física quântica, nós somos constituídos da mesma matéria cósmica. Todos nós somos constituídos da mesma matéria, mas somos configurados de maneira diferente. E na realidade, não só nós somos constituídos de uma matéria única, mas também os objetos do mundo. A natureza, a madeira, pedra, o diamante, qualquer coisa é feita da mesma substância, mas configurada de maneira distinta, maneira diferente. É sensato a gente pensar que somos feitos de uma única matéria configurada de maneira diferente.

TODOS SOMOS UM

Quando a gente consegue concordar dentro da perspectiva epistemológica, seja ela qual for o vértice, seja no místico-religioso, seja no estético-artístico, ou seja, no filosófico-científico, quando a gente tem essa possibilidade de concórdia, nós estamos integrados, onde todos somos um só e não necessariamente iguais. Para que a gente possa ser um só enquanto concórdia, nós precisamos nos reconhecermos diferentes. Somos unidos sendo um só. Isso não quer dizer que nós vamos nos confundir um com os outros.



sexta-feira, 30 de maio de 2025

NEUROSE, PSICOSE, PERVERSÃO E AMOR - Prof. Renato Dias Martino


NEUROSE E PSICOSE

 

A neurose, essencialmente é configurada por um desejo perverso reprimido. Quando se deseja alguma coisa e se é reprimido nesse desejo perverso, isso claro na infância, o sujeito desenvolve um sintoma e esse sintoma é um sintoma neurótico. Existe uma parte do sujeito que não concorda com a realidade. Um pedaço desse sujeito que não concorda com a realidade. E este pedaço gera um sintoma. Esta parte gera um sintoma. Este é o sujeito que tem a predominância neurótica da mente. O psicótico já é o contrário. O psicótico tem só um pedacinho que é ligado na realidade e o resto todo é cindido. Ele não está na realidade. Só um pedacinho mínimo para que ele possa conviver.

 

PERVERSO POLIMORFO

 

O Freud chamava o bebê de perverso polimorfo. Por quê? Porque o bebê se satisfaz de várias maneiras. Com a boca, mamando. Ele se satisfaz evacuando. Perversão é se satisfazer de alguma forma que não seja a cópula. O órgão genital masculino com o órgão genital feminino. Quando a criança é reprimida nesta sua satisfação, que naquele tempo é saudável, ele desenvolve um desejo substitutivo, que vai se configurar num sintoma. Então, todo sintoma neurótico é uma perversão reprimida. O Freud vai dizer assim: "A neurose é o negativo da perversão".

 

SINTOMA NEURÓTICO

 

O bebê não mamou no tempo adequado e desenvolve na vida adulta uma compulsão alimentar que vai levá-lo à obesidade. O desejo perverso que é se satisfazer com a mucosa da boca vai se converter num desejo de comer abusivamente. A necessidade de se nutrir junto com a satisfação sexual da mucosa, que é, a princípio perversa, porque não é uma satisfação dos órgãos sexuais, reprimida vai levar o sujeito a desenvolver um desejo substitutivo com a promessa de que vai trazer essa satisfação que ele precisaria lá atrás. Vai levá-lo a desenvolver um sintoma neurótico e vai gerar a obesidade, vai gerar a compulsão alimentar.

 

O AMAR

 

A maturidade emocional leva o sujeito a renunciar de desejos e se integrar às vontades que são necessidades. Quanto mais maduro emocionalmente o sujeito for, ele vai priorizar as suas necessidades. E esta priorização também inclui a capacidade de adiar estas vontades. Ser capaz de adiar as vontades faz parte da sua maturidade emocional. Ele é capaz de adiar as vontades, renunciar de desejos e com isso ele amplia sua capacidade de se doar que é justamente o amar.



quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

IMATURIDADE, SIMBOLIZAÇÃO, VÍNCULO E ESPERANÇA - Prof. Renato Dias Martino




IMATURIDADE

Nós vivemos numa sociedade de adultos imaturos, adultos imaturos e perigosamente inteligentes. Sujeitos que têm uma inteligência grande, o sujeito que tem um conhecimento muito vasto, mas que são extremamente imaturos emocionalmente e um sujeito imaturo emocionalmente condiz com um sujeito incapaz afetivamente, ou seja, incapaz de amar. Ele não é capaz de se dedicar ao outro, ele não é capaz de considerar o outro, ele não é capaz de respeitar o outro. Porque, apesar de inteligente é imaturo e sendo guardando, fixado uma criança ou inúmeras crianças dentro dele, ele vai priorizar aquilo que o interessa e não aquilo que seja bom para todos.

PRINCÍPIO DO PRAZER 

O Freud propôs que nós funcionamos de duas formas diferentes. No processo primário e no processo secundário. O processo primário é regido pelo princípio do prazer, ou seja, eu busco satisfação imediata o tempo todo e evito desconfortos o tempo todo. Esta é a função do processo primário, no princípio do prazer. Na medida em que o sujeito vai desenvolvendo a sua capacidade de tolerância, ele começa a funcionar também por um outro processo chamado processo secundário, que então é regido pelo princípio da realidade. Ele começa admitir, considerar alguma coisa que já não é só o seu prazer, não é só a sua satisfação, não é só evitar desconfortos, mas é também considerar o mundo externo e a realidade como um todo. Nós estamos falando então, de uma sociedade onde um adulto não é capaz de considerar a realidade como um todo, mas ele simplesmente e tão somente busca a sua satisfação e muitas vezes usando, de maneira inteligente, narrativas dizendo que aquilo ali é para o bem do outro também.

NO ADULTO

Nós funcionamos, mesmo depois de adulto a maioria do tempo, pelo processo primário. Não deixamos de funcionar, no entanto, nós aprendemos a conter os desdobramentos do processo primário e a partir de então, somos capazes de funcionarmos também pelo processo secundário. Na maioria do tempo a gente está buscando afastar desconfortos e buscando satisfação imediata, no entanto, somos capazes, a partir da maturação emocional, de conter este processo para que ele não se manifeste o tempo todo e nesta continência a gente passa a ser capaz de considerar o mundo externo também. Ou seja, o processo primário e o processo secundário vão funcionar concomitantemente. Um não anula o outro. Existe uma cota do sujeito funcionando por um processo e outra cota funcionando por outro processo, mas a maior parte do tempo nós estamos funcionando pelo processo primário, por mais maduro, por assim dize,r que nós possamos ser.

SIMBOLIZAÇÃO 

Como é que o processo psicoterapêutico entra nessa tarefa de transformação da forma que o sujeito funciona? Através da simbolização. Como é que se dá esse trabalho de simbolização? Se dá de uma maneira muito bonita, muito bela, porque o sujeito, a partir do vínculo bem-sucedido com o psicoterapeuta, com o psicanalista, o sujeito, enquanto paciente, ele vai internalizando a relação que ele tem com o analista e a partir dali esta relação que ele tem com analista vai se tornando um modelo que ele vai aos pouquinhos trazendo para a relação com ele mesmo. Então, a forma como ele se relaciona consigo mesmo vai ganhar um novo modelo a partir da relação que ele tem com o analista. Então, em primeiro momento ele vai levar a figura do analista internalizada e na medida em que ele se encontra em algum conflito na sua vida cotidiana, ele provavelmente vai pensar: “o que seria que o meu psicoterapeuta, o meu psicanalista me diria agora, nessa situação?” E na medida em que ele vai conseguindo internalizar e essa simbolização vai se efetivando e vai se consolidando, ele passa a levar esse diálogo na relação com ele próprio, ou seja, ele não pensa mais o que o psicanalista dele diria para ele, mas hoje ele já tem essa forma de funcionar e ele mesmo passa a lidar com seus conflitos de uma forma própria, que leva em conta as experiências que ele teve com o analista.

SUPORTAR 

Esse processo de simbolização faz com que o sujeito seja cada vez mais capaz de tolerar desconfortos e menos capaz de aguentar desconfortos. Porque o sujeito quando ele aguenta é porque ele não aprendeu a tolerar. O desdobramento bem-sucedido é na capacidade de tolerar na esperança de que aquilo vai passar. O sujeito que aguenta ele aguenta porque não tem esperança de passar. Ele suporta. Ele carrega o peso o sujeito que tolera, tolera até que passe. 

ESPERANÇA 

O processo de tolerância está diretamente subordinado à esperança. Sem esperança, sem tolerância. Precisa haver a esperança de que algo acontecerá e que possa trazer o alívio daquela situação, senão é aguentar e aguentar não é saudável por quê porque é acumulativo, porque é estressante, porque traz para o sujeito um adoecimento, mesmo que ele não esteja percebendo.


VÍNCULO E ESPERANÇA 

A esperança é algo desenvolvido, impreterivelmente a partir de um vínculo bem-sucedido. Não existe o desenvolvimento de esperança sem que anteriormente possa ter havido um vínculo afetivo saudável.

SIM E DIA

Símbolo é juntar, diábolos é separar. SIM é juntar, DIA é separar. Quando eu sou capaz de simbolizar, eu estou integrando. A partir da minha integração com o outro eu tenho um modelo de integração comigo mesmo. O processo de diabolização, por assim dizer, é o processo de separação de fragmentação. Então, enquanto eu, a partir do processo psicoterapêutico consigo simbolizar, a sociedade me propõe diabolizar por várias vias. Seja pelas ideologias que separam negros de brancos, homossexuais de heterossexuais, de homens de mulheres e outras coisas parecidas, vão separando as coisas e dentro do processo psicoterapêutico, a gente tem a chance de juntar as coisas e a partir de um processo extremamente desconfortável, reconhecer a realidade como um todo.

ESTAR SENDO

A diferenciação básica do ato de fé e da esperança é que o ato de fé diz respeito a algo que está acontecendo naquele momento, no aqui e agora, apesar de eu não conseguir constatar pelos meus órgãos dos sentidos, apesar de não estar dentro da perspectiva do sensorial, ainda sim está acontecendo. Então, isso carece o ato de fé para que eu possa, a partir da minha intuição, perceber isso, reconhecer isso aprender a respeitar isso e me responsabilizar por isso. A esperança diz respeito àquilo que há de vir. Então, por mais que agora a situação esteja me frustrando, ainda assim eu vou tolerar com a esperança de que isso vai se transformar e essa esperança diz respeito à percepção do “estar sendo”, do fluxo da vida e não de um estado cristalizado, engessado que, a partir do “eu sou”, não me permite perceber que a vida é um fluxo.

SOBRE O SABER

Intuição sem que eu possa dar um nome, ela é cega. Um nome que não esteja preenchido de intuição é vazio. No entanto, a partir da nossa vivência psicoterapêutica, a gente percebe que muitas vezes, a intuição não precisa sequer levar um nome para que ela possa ser considerada. Muitas vezes eu não vou encontrar nome para uma experiência vivida e a ainda assim, essa experiência que não foi nomeada é nutridora, é passiva de aprendizado, nos ensina, mesmo sem nome. Priorizar o conhecimento, ainda ficar ligado ao saber, ao conhecer, é limitar a nossa experiência como um todo. Porque o saber é limitado, é limitado e limitante em qualquer esfera, seja numa ciência extremamente rebuscada e tecnológica, ainda assim, esse saber é limitante, porque o saber não inclui o amor. O saber é frio, o saber é racional, o sujeito só vai desenvolver a sua capacidade afetiva a partir do seu desenvolvimento emocional, da sua qualificação afetiva, que venha de um preparo, de uma maturação emocional, que tem a ver com simbolizações e tolerância.

EQUAÇÃO OU ANALOGIA 


O termo “equação simbólica” foi criada pela Hanna Segal, inspirada na Melanie Klein. Equação simbólica é quando o objeto coincide com o símbolo, equaciona com o símbolo. Aquilo que está dentro é aquilo que está fora. Quando aquilo que está fora não está presente, aquilo o que tá dentro também não fica presente. Não traz a possibilidade de desenvolver tolerância, porque a ausência de um equaciona a ausência do outro e isso vai para além, num exemplo dentro da clínica. O analista é meu pai! Isto é uma equação simbólica. O analista se torna o pai do sujeito. A analista se torna a mãe do sujeito. Na analogia simbólica é assim: isto que está dentro é como se fosse aquilo que está fora, então não é aquilo que está fora, mas é como se fosse. O analista é como se fosse meu pai. Isso é analogia. O analista é análogo ao meu pai, ele não está numa equação com o meu pai. A analista é como se fosse a minha mãe, ela não é minha mãe equacionada. A parte psicótica da mente funciona por ação simbólica e não por analogia simbólica. A equação simbólica só tem igualdades, a analogia simbólica tem igualdades e também admite diferenças.

BEZERRO DE OURO 

Um exemplo muito interessante de equação simbólica, nas formulações religiosas é a passagem do bezerro de ouro. Quando Moisés sobe a montanha para ter com Deus e o povo fica ali esperando, quando ele volta o povo juntou todo o ouro que tinha, derreteu e fez um bezerro de ouro. Para o povo, Deus tinha que ser materializado em algo valoroso, porque senão eles não conseguiam adorar Deus. Então, existe a necessidade de concretizar alguma coisa para que este elemento concreto e físico possa coincidir com o símbolo interno.



domingo, 1 de dezembro de 2024

NEUROSE, PSICOSE E INCLUSÃO - Prof. Renato Dias Martino



COTAS

Talvez a maior contribuição do Freud para a psicoterapêutica, ou pelo menos dentro da configuração teórica, que vai se desdobrar na prática é que todos nós, em alguma medida somos neuróticos. Por mais que a gente possa estar ali, numa manifestação saudável, ainda assim, nós temos cotas consideráveis de um funcionamento neurótico. E o Bion vai para além. Ele vai dizer assim: “Todos nós somos psicóticos em alguma medida”. Temos partes psicóticas da mente. Então, seria mais adequado a gente falar: “O sujeito que tem a sua parte psicótica proeminente, dominante”. O sujeito que tem sua parte neurótica dominante, ou o sujeito que tem sua parte saudável dominante, ou preponderante. Então, em primeiro momento, seria importante que a gente pudesse ter essa noção de cotas, noção de proporção.

REALIDADE 

Quando a gente está falando de uma configuração neurótica, a gente está falando de uma de um funcionamento onde o sujeito reprime uma parte fantasiosa, reprime uma parte que não está em consonância com a realidade, que não está em concordância com a realidade, para que ele possa viver um relacionamento com a realidade, com as outras pessoas. Então, ele reprime uma parte para conviver com as pessoas. Então, a maior parte dele está convivendo com as pessoas e para que ele possa conviver com as pessoas de uma maneira harmônica ele precisa reprimir uma parte que é absurda, por assim dizer, que é baseada em ilusões, em alucinações, fantasias. O Psicótico é o contrário. O Psicótico tem uma pequena parte que se relaciona com o mundo externo, porque a maior parte dele está cindida do mundo externo e da realidade. Está baseada em ilusões e alucinações. Então, o sujeito que tem a predominância, ou a preponderância do funcionamento psicótico da mente dele, tem a maior parte deste funcionamento cindido da realidade, desconectado da realidade. Ele guarda, na melhor das hipóteses, uma pequena parte que ainda faz com que ele consiga, minimamente se comunicar com o mundo externo.

NEURÓTICO E PSICÓTICO

A maior parte do neurótico está conectada com o mundo externo, com as pessoas, mas existe uma parte que está ali, reprimida e essa parte é estruturada com ilusões, com alucinações. O funcionamento psicótico, ele não tem a ver com o aparato neurológico. O sujeito pode ter um aparato neurológico, pode ter um aparelho neurológico intacto. Ele faz exames neurológicos, não aparece nada, mas ainda assim, ele funciona psiquicamente de forma psicótica.

VÍNCULO 

Quando a gente vai refinando os psicodiagnósticos, a gente vai, automaticamente, concomitantemente, afastando os vínculos. Quanto mais eu vou criando nomes e refinados para diagnosticar o sujeito, mais eu vou me afastando afetivamente deste sujeito. Quanto maior a minha capacidade de acolher o sujeito, quanto maior for a minha capacidade de criar um vínculo saudável com o sujeito, menor é a necessidade de ficar investigando para saber o que é que ele tem. Pouco importa o que ele tem. Se é autismo, se é unha encravada, ou se é caspa. Pouco importa! A minha função é criar um vínculo saudável com esta pessoa que me procurou e até onde é possível isso. Até onde eu estou preparado para isso e até onde esta pessoa está disponível a isso.

A CAMA DE PROCUSTO

A cama de Procusto é um conto grego. Uma pousada de um sujeito chamado Procusto. Então, o sujeito chegava na pensão do Procusto, o Procusto colocava ele numa cama e se a cama fosse menor que o sujeito, ele cortava o pé do sujeito, que sobrava do sujeito ele cortava e se a cama fosse maior que o sujeito, ele esticava o sujeito até o sujeito ficar do tamanho da cama. Então, hoje, dentro do âmbito emocional-afetivo, nós vivemos este Mito de Procusto. A maioria das psicoterapeuticas se dedica a encaixar o sujeito num estereótipo designado pela sociedade. Para que ele possa ter um bom convívio na sociedade ele precisa se adequar a isso que é expectativa social. Então, nós vamos ali, através de terapêuticas de doutrinação, readequação comportamental, isso associado à administração medicamentosa, até que ele consiga atingir uma formatação social aceitável.

INCLUSÃO

Hoje, a gente fala muito de inclusão. O que eles chamam de inclusão hoje? A inclusão hoje precisa anteriormente passar por uma exclusão. Então, primeiro você precisa ser diagnosticado. Apartado do dito sujeito normal. Depois de rotulado, hoje é o termo laudado, aí você é reinserido na escola, no trabalho, ou na sociedade, com este laudo, com este rótulo e a partir daí você pode ser incluído. Mas primeiro você precisou ser submetido por uma diferenciação. Na realidade você não foi incluído, você vai passar para o resto da vida carregando um rótulo, um laudo que foi colocado em você e que, muitas vezes você vai encontrar um benefício em ter aquilo e vai ser muito difícil você conseguir superar aquilo ali.

DOR PSÍQUICA 

O medicamento psiquiátrico obstrui a possibilidade do acordo com a realidade. “Ah! Mas esse o sujeito está muito agitado, ou ele está muito deprimido!” Pois é, ele vai precisar viver experiências para aprender a conviver com aquilo. Aprender a lidar com aquilo que está acometendo a mente dele, ou o aparelho emocional dele. Enquanto administrando substâncias químicas psiquiátricas, isso vai ficar obstruído e eu vou deixar claro isso. Agora, eu não posso dizer para ele para de tomar isso. Eu não tenho essa função. Se para ele, ainda está fazendo sentido, ótimo. E vamos cuidar deste paciente até quando fizer sentido para ele vir. É claro que o sujeito, quando ele está num processo psicoterapêutico e por algum motivo ele é acometido ali, de uma ansiedade aguda, de uma angústia aguda, muitas vezes ele pode procurar um psiquiatra. O psiquiatra vai prescrever para ele medicamentos e quando ele passa a tomar esse medicamento, ele, muito provavelmente, vai começar a se desinteressar pela psicoterapia. Por quê? Porque a psicoterapia funciona através da dor psíquica. Não existe psicoterapia se não houver dor psíquica. E se o sujeito está se medicando e a dor psíquica dele está rebaixando, a psicoterapia passa a não ser tão interessante assim.

OS 3 Rs

Eu sou até meio repetitivo nisso. Dei até um curso sobre isso, mas isso é fundamental, que são os três Rs, que é ser capaz junto com o paciente, reconhecer a sua limitação. Admitir a sua limitação e reconhecer não é conhecer é admitir que existe, independente de saber o que é. O segundo passo é o segundo R, que é aprender a respeitar esta limitação que se admitiu que existe. Respeitar independente de saber o que é. E o terceiro e mais difícil dos três Rs, a responsabilização por isso que se reconheceu, admitiu-se que existe, aprendeu a respeitar e agora precisamos nos responsabilizar por isso. Esta responsabilização inclui uma nova configuração emocional e afetiva, ambiental. Eu não posso mais me manter em ambientes emocionais, em psicosfera que também não sejam capazes de respeitar a minha limitação.


quinta-feira, 4 de abril de 2024

BENEFÍCIO NO SINTOMA - Prof. Renato Dias Martino


O sujeito que tem uma dificuldade no funcionamento emocional afetivo, o sujeito que muitas vezes busca psicoterapia, manifesta um problema, ele manifesta um sintoma neurótico, ou um sintoma muitas vezes até psicótico, que na verdade, é alimentado pelas pessoas que convivem com ele. As pessoas têm um interesse que ele continue funcionando daquela forma e a memória é um elemento presente nisso que eu estou dizendo. Muitas vezes, o sujeito não consegue permitir a transformação dele próprio, porque as pessoas esperam que ele continue sendo a mesma pessoa e não permitem que ele se transforme. Cada característica que ele apresenta de transformação de si mesmo é seguido por uma reprovação do outro. E aí, ele começa a ficar com medo dessa transformação e muitas vezes obstrui essa transformação de acontecer.

GANHO PRIMÁRIO E SECUNDÁRIO

Os benefícios de uma neurose, ou os benefícios de uma psicose não são só do sujeito que apresenta aquelas características, mas também são das pessoas que convivem com ele. Cada sintoma que o sujeito apresenta, não é só um malefício, mas tem por trás um benefício. E na verdade, não só um, mas vários. O próprio Freud falou do benefício primário que é a vazão da pulsão que estava ali reprimida e o benefício secundário que passar a ser visto pelo outro por conta daquele sintoma.

BENEFÍCIO DO OUTRO

Como o sujeito se sente saudável quando ele convive com alguém supostamente doente emocionalmente! Então, ele se sente o saudável e fala assim: “Esse daí tem problema.” “Esse aí precisa de terapia.” “Eu sou o saudável, eu não preciso.” Conviver com alguém, atribuindo a ele um problema psicológico é extremamente conveniente para aquele que não é capaz de se responsabilizar pelos seus problemas.

CORAGEM DO MAIS SAUDÁVEL 

A maioria das pessoas que procuram psicoterapia, são justamente as pessoas mais saudáveis da casa, da família. São justamente essas pessoas que tiveram a coragem de buscar ajuda, enquanto os outros estão extremamente implicados em seus sintomas e muito bem articulados com eles.

CHANTAGEM EMOCIONAL  

Uma pessoa fica o tempo todo condenando a outra por algo que aconteceu no ano passado, há cinco anos atrás, há dez anos atrás. Ela passa uma vida justificando a sua incapacidade de estabelecer um vínculo saudável com essa pessoa, por algo que aconteceu há muito tempo atrás e fica ali torturando, incitando remorso nessa pessoa, para conseguir um benefício com isso. Sendo que hoje aquilo já não existe mais. O sujeito que não está sendo capaz de amar pode encontrar na culpa um elemento que garanta que ele não vai ser abandonado. Ele não conseguia que o outro se dedicasse a ele pelo amor e agora, a partir de um evento que ele pode condenar o outro e incitar o remorso, ele começa a conseguir que o outro faça as coisas para ele.