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quinta-feira, 3 de julho de 2025

INCAPACIDADE E EXPECTATIVA - Prof. Renato Dias Martino



DIFERENÇA

 

Me parece que não existe nenhum outro animal na natureza que seja tão diferente um do outro como o ser humano. O ser humano é completamente diferente do outro. Por mais que ele seja gêmeo univitelino, ele vai se tornando, conforme ele vai se desenvolvendo, diferente do outro. Não somos iguais. Ninguém é igual e por conta disso precisamos respeitar as diferenças. O amor pressupõe a diferença. Se você ama o igual isso não é amor. O amor é amar o diferente.

 

INCAPACIDADE

 

Você se sentir magoado, você se sentir ressentido, ou decepcionado, por conta de uma incapacidade do outro é uma grande incoerência. Ele não foi capaz! Como é que você vai se sentir magoado por conta de uma incapacidade do outro. Pega esta prateleira de 200 kg e leva para o outro canto da sala e você diz: "Não! Eu não sou capaz disso" e aí, você fica bravo com ele. Nós estamos falando de capacidade. O sujeito não deu conta e quando me magoou com aquilo que o sujeito não deu conta, sou eu que estou expondo a minha incapacidade de reconhecer a realidade.

 

EXPECTATIVA

 

Quando eu estou do lado de alguém que é incapaz daquilo que eu tenho expectativa, a única intervenção que eu posso fazer é meu afastamento. Ou eu aprendo a tolerar esta incapacidade do outro para continuar convivendo com ele, ou eu me afasto. Continuar ali é promover um conflito promover uma possível hostilidade.

 

ACEITAR

 

Aceitar é uma palavra extremamente perigosa dentro das formulações psicanalíticas. Um sujeito que é consciente da sua ignorância, ele pode respeitar esta ignorância e passar a ser um grande aprendiz, aprendendo com cada experiência, ou ele pode aceitar essa ignorância e passar a ser um grande ignorante crônico. Aceitar é uma condição daquele que se conformou com aquilo, mas respeitar é a condição daquele que abre o vértice para a expansão.

 

BUSCA

 

O sujeito integrado não precisa buscar nada. O sujeito que esteja num acordo consigo mesmo e num acordo com a realidade, ele não carece de buscar nada, de procurar nada, porque tudo será desvelado à sua frente. A verdade está aí, debaixo do nariz de cada um. O que a gente precisa é tirar o Véu de Maya, é desobstruir a nossa capacidade de reconhecimento desta realidade, desta verdade que ela estará ali, sem que a gente precise buscar, sem que a gente precise procurar nada. O que é necessário, na realidade, é desobstruir-se para reconhecer, aprender a respeitar e se responsabilizar pela realidade.

 

ANÁLISE DO AUSENTE

 

Quando eu falo de alguma outra pessoa, eu estou falando, na realidade, de mim. Quando um paciente traz características que lhe incomodam na mãe, no marido, ou seja, lá de quem for, ele está falando dele em relação a esta pessoa e é justamente isso que eu tenho que tratar com ele, porque eu não posso tratar dessa pessoa. Essa pessoa não está ali. Muitas vezes, essa pessoa até já morreu. Como é que eu posso tratar do funcionamento dessa pessoa que não está presente? A psicanálise não pode se prestar a tratar de qualquer pessoa que não esteja presente com o analista. O sujeito que se presta a usar a psicanálise para cuidar de alguma coisa que não está presente e disponível a psicanálise ele está presente e disponível à psicanálise, ele está equivocado.


domingo, 22 de setembro de 2024

ADEQUAÇÃO DOS CONCEITOS - Prof. Renato Dias Martino


COMPREENSÃO

Compreensão. De que compreensão nós estamos falando? Muitas vezes o sujeito diz assim: “eu preciso de alguém que me compreenda, preciso me relacionar com alguém que me compreenda.” Sinto muito ser o porta-voz dessa péssima notícia, ou desta informação da realidade, mas você nunca vai encontrar alguém que te compreenda, talvez, na melhor das hipóteses, você encontre alguém que seja capaz de te respeitar, mas te compreender, não. Toda a compreensão é uma aproximação, é muito limitada. Compreender? Não! Ninguém vai te compreender, talvez alguém possa te respeitar. Respeitar é uma coisa, compreender é outra. Então, a gente precisa separar essas duas coisas. Muito mais importante do que estar junto com alguém que te compreenda, é estar junto com alguém que seja capaz de te respeitar, mesmo que não te compreenda, porque se você for esperar alguém te compreender para depois te respeitar, já houve muito desrespeito. O respeito é a base de qualquer relação.

EQUÍVOCO 

Nós, enquanto psicanalistas, precisamos adequar as palavras às experiências de maneira cuidadosa. Nós precisamos nomear experiências de maneira adequada, porque o equívoco é obstrutor no trabalho da psicanálise. Muitas vezes, a gente usa uma palavra querendo dizer outra, mas essa palavra usada vai ser obstrutora no fluxo do pensamento, já que o pensamento se estrutura através de palavras. Então, quando você diz assim: você precisa me compreender. Não, eu não posso te compreender. Não há possibilidade de compreender uma pessoa, porque uma pessoa é um fluxo. O sujeito está sendo, ele não é. E aquilo que está sendo não pode ser compreendido. Eu não posso saber sobre alguma coisa que está em transformação constante. Aquilo que eu sei agora, daqui a dez minutos já não sei mais. Então, não posso te compreender, mas eu posso te respeitar. É função do psicanalista, o respeito. O respeitar o outro para que o outro seja capaz de aprender a respeitar a si mesmo e estender esse respeito às outras pessoas. Então, esta adequação da palavra a experiência é fundamental dentro da clínica psicanalítica. Então, a gente precisa ter um cuidado enorme quanto as palavras que a gente está dizendo. Ah! Eu não quis dizer isso! Não foi isso que eu quis dizer! Pois é! Você não quis dizer, mas foi isso que você disse. E aí, você está alimentando o equívoco. Sabe o que é equívoco? EQU quer dizer igual e VOCUS quer dizer palavra. Então, se você está usando a mesma palavra para alguma experiência que não é adequada.

ACEITAR

A palavra aceitar dentro da clínica psicanalítica é quase um sacrilégio. Aceitar? Quem aceita o que? Aceitar, talvez assim, na expressão de: você aceita um café? Ah! Eu aceito. Aí sim! Agora, eu aceito você? Não! Ninguém aceita ninguém. Eu aceito a mim mesmo? Não! Eu não aceito a mim mesmo, mas eu me respeito. Eu respeito o outro. Respeitar não é aceitar. Se você aceita, você entra na zona de conforto, você entra numa zona mórbida de pulsão de morte. Então, deixa assim mesmo. Eu aceito assim e aí eu obstruo a possibilidade de transformação, porque eu aceito. Então, são palavras que a gente precisa ter um cuidado redobrado na medida em que elas estão configurando o discurso dentro da clínica psicanalítica.

ESFORÇO

Um outro exemplo disso é o esforço. Esforço não é saudável, talvez a dedicação. Dedicação não é esforço. Se você precisa se esforçar é porque a coisa não está sendo espontânea, é porque não está sendo natural e a gente vai precisar olhar para isso de uma maneira mais cuidadosa. Agora, dedicação é saudável, dedicação é muito saudável. Dedicação não é esforço, a dedicação não requer esforço. Você pode usar até a palavra sacrifício. Sacrifício não é esforço. Sacrifício é o SACRO-OFÍCIO. Você se sacrifica sem se esforçar, porque você se dedica. São várias palavras que a gente vem usando de maneira coloquial, de forma inadequada e que dentro da clínica, continuar fazendo isso vai fazer com que o sujeito estimule um vocabulário que alimenta o “ideal de eu”, alimenta o superego.

VALORIZAR

Você tem que valorizar! Não, você não tem que valorizar. Eu preciso de alguém que me valorize. Não! Eu não preciso de ninguém que me valorize, porque eu já tenho o meu valor. Eu preciso de alguém, talvez que seja capaz de reconhecer o valor que eu já tenho. Ah! Você tem que valorizar a natureza! Não! Eu não tenho que valorizar a natureza. A natureza tem o seu próprio valor. Eu preciso me tornar capaz de reconhecer o valor que a natureza tem. Não sou eu que atribuo o valor às coisas. As coisas já têm o seu valor. Ah, professor, você está sendo chato com isso! Pois é! Mas a clínica psicanalítica carece disso. Porque senão a gente constrói um texto enorme com equívocos, com palavras que não são adequadas às experiências.