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quinta-feira, 16 de julho de 2026

RECORDAÇÃO - Prof. Renato Dias Martino

 


Aquele que é amado não pode ser esquecido. O tempo pode até tentar apagar, mas o coração resgata quem amamos. Re-cor-dar: dar mais uma vez ao coração. Recordar da voz, do sorriso, dos momentos simples que se tornaram eternos. Recordar do cheiro, do jeito, da presença que agora faz tanta falta. Na realidade, o amor deixa marcas que o tempo não consegue levar. A rotina pode mudar, podem vir novas pessoas, pode parecer até mesmo que passou, mas no fundo ainda dói. Dói porque amamos; se não amássemos, não doeria. Quando a gente ama de verdade, uma parte da gente fica com quem se foi. Ninguém que é amado será esquecido. Se transforma em saudade, em recordação. Mesmo que dolorosa, a recordação prova que, se o amor é verdadeiro, nunca acaba.









Prof. Renato Dias Martino




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segunda-feira, 26 de agosto de 2024

SAÚDE NO VÍNCULO - Prof. Renato Dias Martino




DESEJO

Vamos pensar então, no desejo. O que eu estou chamando de desejo aqui? A expectativa. esperar que o paciente faça isso ou faça aquilo. Esperar que o horário acabe, desejar que alguma coisa aconteça. Quando você deseja que alguma coisa aconteça, você obstrui a coisa real de acontecer. Então, o paciente diz assim: “Olha, vou largar do meu marido. eu não aguento mais aquele cara. ele é um ‘mala’. Ele não tem me tratado mal. Isso aquilo, aquilo outro...” E aí, você registra na memória: “Ela vai se separar do marido”. E aí, na próxima sessão ela chega e fala: “Olha, nós reatamos, conseguimos entrar num acordo, vou dar mais uma chance para ele”. E aí, você falar: “Mas como isso! Eu estava aqui esperando que você iria largado do seu marido. Eu estava esperando aqui que você iria se separar. Você como é que você muda de ideia”. A minha expectativa não conta. É a vida dele. Ele precisa se capacitar para administrar a sua própria vida e o teu papel é de ajudá-lo nesta tarefa de capacitação de cuidar da própria vida.

SABER

E aí, a gente vai para o presente, ou para o saber. Rebaixar a ânsia de saber. Porque, quando a gente fala assim: rebaixe a ânsia de saber, renuncia ao conhecimento, na realidade, nós estamos falando assim ó: renuncia a tendência de tentar encaixar aquilo que está acontecendo naquilo que você supostamente já sabe. O saber é registrar o passado para tentar se prevenir para o futuro. Viver a experiência com o meu paciente sem tentar encaixá-lo naquilo que eu supostamente já sei, eu estou trazendo saúde pro vínculo.

CONCÓRDIA 

Toda a verdade só vai aparecer dentro do um ambiente de concórdia, de concordância. COM + CORDES COM é junto e CORDES é coração. Se não estivermos juntos de coração, não importa quem está com a razão. Vai haver sempre o embate. Agora, se você está junto de coração, importa menos ainda a razão, porque a razão é simplesmente um representante da materialidade das coisas, do saber, do conhecimento, daquilo que não passa de um olhar superficial da realidade. Para que possa emergir a verdade, nós precisamos cultivar um ambiente de concórdia, E aí, se a gente estiver falando então, do setting terapêutico, isso é fundamental. Se o sujeito não estiver em paz, se o sujeito não estiver tranquilo, ele não consegue, de maneira alguma, ser verdadeiro. Ele vai estar se defendendo o tempo todo. E aí, que psicanálise é essa? Psicanálise das defesas? Não! Ele precisa estar em paz, ele precisa estar bem, ele precisa estar seguro e se você estiver investigando o seu paciente, ele vai estar se defendendo das suas Investigações.

ACORDO COM A REALIDADE

O meu compromisso, em primeiro momento é com a realidade. O meu acordo é com a realidade. Antes do paciente me procurar, eu já havia travado um acordo com a realidade. Vou continuar tendo esse acordo com a realidade e cada interpretação, cada palavra, cada atitude que eu tiver, vai ser de acordo com a realidade. Eu vou ser um porta-voz da realidade. A realidade me mostra que o paciente tem o direito de se manter iludido. Ele tem o direito.

ATENÇÃO FLUTUANTE 

Nós temos inúmeras formas de aplicabilidade da psicanálise. Nós estamos falando aqui, de uma psicanálise que é uma extensão dos ensinamentos do Freud e o Freud foi claro quando ele disse assim: “Precisamos exercer a atenção livremente flutuante”. Se você está exercendo a atenção flutuante, você não pode, de maneira alguma estar preso em dados armazenados na memória. Agora, existem outras escolas lacanianas, sei lá o que “anas” aí, que usam das formulações que convém a eles usarem. Dentro daquilo que foi o ensinamento freudiano, resgatar a memória é extremamente nocivo para que você possa exercer aquilo que ele orientou enquanto atenção livremente flutuante.

RECORDAR

Quantas relações, quantos vínculos você tem na sua vida que você tem a chance de ser uma pessoa nova a cada encontro? Todo mundo já espera alguma coisa de você. Todo mundo já se lembra aquilo que você sem perceber prometeu que você vai ser. Todo mundo espera que você seja aquilo que eles lembram sobre você e isso obstrui a sua possibilidade de ser uma pessoa nova. O vínculo terapêutico precisa estar livre do resgate dos dados da memória. Eu estou falando de uma forma bem superficial, mas se a gente se aprofundar, a gente vai chegar ao ponto de que, aquilo que a gente se lembra não é verdade, não é realidade, é uma um registro extremamente limitado da realidade, um registro extremamente limitado daquilo que realmente aconteceu. Porque eu não dou conta de registrar de uma maneira abrangente, ou de maneira total. Eu estou subordinado ao estado de humor que eu esteja naquele momento. Esse registro vai estar contaminado com esse estado e depois, quando eu resgatar, eu já tenho outra contaminação, porque eu vou selecionar aquilo que me convém me lembrar. Então, a memória é extremamente nociva para um vínculo saudável. Diferente da recordação. RE-COR-DAR É Recordar! RE, que é de novo, COR, que é coração e DAR, doar novamente ao coração.

MEMÓRIA IRRIGADA DE AMOR

Não me lembrar das coisas que você me disse vai te dar a chance de você ser real. O meu amor por você não pode estar subordinado às coisas que eu me lembro de você. Talvez esteja subordinado às recordações. Mas existe uma diferença gritante entre memória e recordação. Para que a memória seja recordação, ela precisa estar sendo irrigada de amor. O amor faz com que essa memória ganhe vida e aí ela vai vir espontaneamente. Eu não vou buscá-la. O amor diz respeito à atenção, prestar atenção e quando eu presto atenção é porque eu estou exercendo a capacidade de amar. Quando eu digo: “eu já sei”, eu estou obstruindo a minha capacidade de amar.

SEM MEMÓRIA

Quando o paciente, por exemplo, vem e relata alguma coisa e diz assim: “Ah! Então, aconteceu aquela coisa que eu te falei. Você lembra?” Eu vou dizer: “me conta de novo” Quando ele me conta de novo, ele vai me contar de outra maneira, de outra forma, observando outras características daquilo que antes ele não tinha observado. Porque ele já não é mais o mesmo e hoje ele tem uma capacidade muito maior, uma maturidade muito maior para reconhecer aquilo que ele acreditava que era de uma forma. Se eu digo para ele assim: “sei sim, eu lembro muito bem o que você falou” Pronto! Limitei, obstruir a possibilidade de repensar aquilo e muitas vezes, é importante que eu até explique pro paciente de uma maneira muito clara. Olha: “eu não tenho memória” Eu brinco com meus pacientes assim: “eu tenho Alzheimer, eu esqueço de tudo que você me diz. Vou te dar a chance de me dizer tudo de novo.

MEMÓRIA, DESEJO E COMPREENSÃO

Porque isso coincide com uma orientação do Bion, que diz que um psicanalista precisa renunciar da memória dos dados armazenados na memória, logo estamos falando do passado. Dados armazenados na memória são nocivos na prática clínica. Por que são nocivos na prática clínica? Porque o paciente precisa ter a chance de ser uma pessoa nova a cada encontro e cada vez que o analista resgata dados da memória ele está reclamando que o paciente seja aquilo que ele foi. E nós estamos trabalhando não com aquilo que ele é ou aquilo que ele foi, mas nós estamos trabalhando com aquilo que ele está sendo. Nós estamos trabalhando com um movimento, com a transformação. Quando eu rebaixo o resgate dos dados armazenados na memória, eu estou trazendo saúde ao vínculo. Eu estou trazendo a chance de sermos novas pessoas. Não só o paciente, não só o analista, mas que o vínculo possa se renovar. O futuro diz respeito à expectativa, ao desejo. Quanto mais eu for capaz de rebaixar aquilo que eu espero em relação ao meu paciente, aquilo que eu espero em relação a mim mesmo e aquilo que eu espero em relação ao vínculo, tanto mais esse vínculo vai poder se manifestar de maneira verdadeira. Porque a expectativa daquilo que deveria ser, vai trazer a tendência a ser aquilo que não se está sendo. E o presente está acontecendo no aqui e agora, logo eu não posso saber sobre o presente. Eu só posso saber de alguma coisa que já passou. O conhecimento está subordinado ao registro da memória. Eu só sei de alguma coisa que já passou. Eu não sei aquilo que está acontecendo agora e nem aquilo que virá. Quando eu digo que eu conheço alguma coisa, eu digo que eu conheço baseado naquilo que eu registrei na minha memória, logo isso que eu estou dizendo denuncia a limitação do conhecimento. Porque o conhecimento diz respeito àquilo que já passou e se já passou é limitado, não é realidade.


quarta-feira, 24 de abril de 2024

SEM MEMÓRIA - Prof. Renato Dias Martino



Um psicanalista não pode se utilizar daquilo que ele registrou na memória. Isso é nocivo para o processo psicoterapêutico. Um psicanalista, segundo a orientação de Wilfred Bion, precisa ser sem memória, que ele possa rebaixar ao máximo o seu resgate dos dados que foram armazenados na memória.

LEMBRAR OU RECORDAR

 Precisamos, diferenciar duas experiências. A experiência de resgatar dados da memória e a experiência de recordar. Resgatar dados da memória é uma experiência calculista, é uma experiência que faz com que você tente se lembrar de alguma coisa para justificar algo que você não está conseguindo viver no presente. Recordar é algo que surge, é algo que brota é algo que vem por conta de uma configuração saudável do presente. RE, quer dizer de novo, COR, quer dizer coração e DAR, quer dizer doar. Então, recordar é dar mais uma vez para o coração e isso é saudável, isso é terapêutico. Eu poderia ficar aqui horas tentando te explicar a diferença de uma coisa e de outra, mas você vai precisar viver isso na sua prática, para você perceber que você não resgatou aquilo na memória, você não buscou aquilo para justificar alguma coisa que estava desconfortável no presente, mas aquilo brotou por conta de uma experiência afetiva que aconteceu no presente.

IMPORTÂNCIA DO PRESENTE 

 Quando eu realmente me importo com o que está acontecendo aqui e agora, aquilo que passou vai perdendo a importância. Aquilo que passou só ganha importância quando eu não estou sendo capaz de me importar com o presente, com aquilo que está acontecendo agora. Quanto mais eu me preocupo com o futuro, ou me entulho do passado, eu não consigo me ocupar do presente. 

JUSTIFICA O PRESENTE PELO PASSADO

Quando eu não estou conseguindo justificar o presente pelo próprio presente... Aliás, o presente não precisa de justificativa. Quando eu não consigo viver o presente pelo próprio presente, eu começo a tentar resgatar aquilo que passou para trazer álibis condenatórios para pessoa da qual eu estou discutindo. “É, mas, ontem não sei o que.” “É, mas, semana passada não sei o que mais.” Isso quer dizer que eu não estou conseguindo viver o presente, mas eu preciso resgatar alguma coisa que passou para justificar o meu descontentamento.

O BARQUEIRO

Quando a gente está angustiado quando a gente está ansioso a gente tende a resgatar dados da memória, a gente tende a resgatar algo do passado. Um barqueiro fazia o translado das pessoas de um porto para uma ilha. Ele era um barqueiro e fazia isso num ponto turístico. Um casal entrou, num dia de nevoeiro, entrou no barco para ser levado até a ilha e o barqueiro começou a remar olhando para trás. O sujeito que estava sendo transportado perguntou para ele assim: “mas por que que você fica olhando para trás?” Ele falou: “Porque o nevoeiro me obstrui a visão da ilha, então, eu preciso me basear no porto, até que esse nevoeiro possa se dissipar e eu consiga enxergar a ilha.” Então, todas as vezes que a gente tiver obstruído de olhar para frente, a gente vai olhar para trás, mas isso precisa ser temporário. Isso precisa ser só naquele momento, onde eu não tenho outra referência, porque se eu continuar olhando para trás, eu vou tropeçar no meu caminho.

REGRA RÍGIDA

Se eu tomo essa coisa de não resgatar dados da memória como uma regra rígida, que eu preciso ficar me policiando, você sabe o que que vai acontecer? Eu vou resgatar algum dado de memória porque eu sou humano, eu vou ficar preso nisso e não vou conseguir para frente, eu vou ficar me julgando e me cobrando de ter lembrado alguma coisa da memória e não consigo ir para frente. Então, eu lembrei ponto. Tudo bem! Não tem problema. Vamos embora. Vou tentar não lembrar mais.

ANGÚSTIA

Todas as vezes que o sujeito tenta intervir no passado, naquilo que ficou registrado na memória, para mudar aquilo, ou até para se julgar, se condenar por conta de alguma coisa que ficou no passado, isso gera um sentimento de angústia. Então, a angústia é essencialmente gerada por algo que ficou no passado e o sujeito tem o desejo de mudar. 


SINTOMA NEURÓTICO

O passado é justamente o tempo do sintoma neurótico. O sintoma neurótico é, por assim dizer, uma âncora que ficou no passado. Então, o sujeito viveu alguma coisa e não consegue soltar desta ideia e ele fica rememorando esta ideia, não permitindo que essa ideia fique no seu tempo adequado que é naquilo que passou e ele traz aquilo de volta. Quando aquilo vem, ele manifesta o seu sintoma dentro da configuração neurótica, o sujeito que tem a predominância neurótica na mente é aquele que está preso em alguma experiência que aconteceu no passado. Isso obstrui o fluxo do funcionamento emocional afetivo ou o fluxo da mente.

REGISTRO DO PASSADO

Quando a gente fala assim: “eu lembro” de algum fato, na verdade você não lembra do fato, você lembra daquilo que você pôde registrar deste fato. Ninguém é capaz de registrar um fato como um todo, mas você registra aquilo que foi possível obter enquanto panorama do que estava acontecendo. E muitas vezes, a gente julga isso como o todo. Aliás, este é um grande problema da história, com “HI” e dos livros de história. Quem escreveu o livro de história, quem registrou aquilo, na verdade registrou a partir de uma percepção de parte do que aconteceu, de uma ínfima parte do que que aconteceu. Porque, a maior parte do que aconteceu ele não pode registrar. Mas, ainda assim, aquilo é tido como uma verdade. Muitas vezes, o sujeito que tem a predominância neurótica da mente, muitas vezes o sujeito que tem um sintoma neurótico, padece por se condenar, por conta de um registro da memória que, na verdade é um fragmento e não é a totalidade do que aconteceu. E ele está ali, se condenando por alguma coisa que na verdade ele conseguiu registrar apenas um pedacinho do que aconteceu na totalidade.

DESAPEGO DO BENEFÍCIO

Para ser capaz de não ficar resgatando dados da memória, não ficar se lembrando de coisas que, na verdade já passaram e que hoje já não importam mais, eu preciso antes me desapegar me depreender do benefício que me faz ficar lembrando disso tudo. E muitas vezes, fica parecendo até meio estranho perguntar por exemplo para o outro, qual o benefício que ele tem de ficar se lembrando o tempo todo de uma experiência horrível que aconteceu no passado. Benefício de se sentir o “coitadinho”, tem o benefício de se sentir melhor do que o outro, porque conseguiu ultrapassar por aquela experiência. Só que esse benefício vem junto com uma série de ônus também.