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quinta-feira, 26 de junho de 2025

RESPEITO PELO PRESENTE - Prof. Renato Dias Martino


OLHAR PARA TRÁS

 

Olhar para trás é sempre prejudicial. Na melhor das hipóteses é inútil, porque aquilo que você guardou, aquilo que você registrou na sua memória não foi o que aconteceu, foi o que você conseguiu registrar do que aconteceu. Então, quando você traz isso de volta, você está trazendo o seu ponto de vista, o seu vértice do que aconteceu. Tudo aquilo do passado que é importante que você reconheça hoje virá até você. Você não vai precisar olhar para trás para buscar. Então, essa é a diferença de resgatar da memória e viver uma recordação. A recordação vem. Você não precisa buscar. Ela vai aparecer à sua frente e você não vai precisar virar para olhar para trás.

 

TROPEÇAR

 

O sujeito que muito olha para trás, ele tropeça no caminho daqui para frente. Não você não aprende com o que aconteceu lá atrás, você aprende sendo capaz de reconhecer a sua ignorância frente à realidade e se colocar como um eterno aprendiz de cada experiência que você viver. Não tem a ver com o que passou. O que passou não tem nada a ver com o que você vai viver daqui para frente, nem com o que você está vivendo agora. Quando o Bion nos orienta a nos desapegarmos dos dados armazenados na memória ele está falando justamente disso

 

SOBRE O PASSADO

 

O sujeito, quando ele está apegado ao passado, ele também tem um benefício, porque ele acredita saber sobre aquilo. Então, ele tem uma certa onisciência sobre aquilo. Ele acredita saber sobre aquilo, mas quando o sujeito vem para o presente, acabou toda essa onisciência, porque ninguém sabe sobre o presente. O presente você pode viver, mas você não sabe. Você só passa a saber quando este presente for passado, aí você sabe sobre ele, ou pelo menos acredita saber sobre ele, porque, na verdade, o que você sabe sobre ele é simplesmente um fragmento que você registrou e não foi o todo da experiência. Então, traz essa sensação de onisciência, mas viver o presente traz uma insegurança terrível.

 

PASSADO E PRESENTE

 

O fator fundamental que faz o sujeito ficar apegado ao passado é a impossibilidade de viver um presente saudável, de viver experiências no presente que sejam realmente bem-sucedidas. Quando ele vive uma experiência bem-sucedida no presente, o passado fica para trás. O sujeito que está apegado ao passado é porque o presente dele está insuportável.

 


segunda-feira, 26 de agosto de 2024

SAÚDE NO VÍNCULO - Prof. Renato Dias Martino




DESEJO

Vamos pensar então, no desejo. O que eu estou chamando de desejo aqui? A expectativa. esperar que o paciente faça isso ou faça aquilo. Esperar que o horário acabe, desejar que alguma coisa aconteça. Quando você deseja que alguma coisa aconteça, você obstrui a coisa real de acontecer. Então, o paciente diz assim: “Olha, vou largar do meu marido. eu não aguento mais aquele cara. ele é um ‘mala’. Ele não tem me tratado mal. Isso aquilo, aquilo outro...” E aí, você registra na memória: “Ela vai se separar do marido”. E aí, na próxima sessão ela chega e fala: “Olha, nós reatamos, conseguimos entrar num acordo, vou dar mais uma chance para ele”. E aí, você falar: “Mas como isso! Eu estava aqui esperando que você iria largado do seu marido. Eu estava esperando aqui que você iria se separar. Você como é que você muda de ideia”. A minha expectativa não conta. É a vida dele. Ele precisa se capacitar para administrar a sua própria vida e o teu papel é de ajudá-lo nesta tarefa de capacitação de cuidar da própria vida.

SABER

E aí, a gente vai para o presente, ou para o saber. Rebaixar a ânsia de saber. Porque, quando a gente fala assim: rebaixe a ânsia de saber, renuncia ao conhecimento, na realidade, nós estamos falando assim ó: renuncia a tendência de tentar encaixar aquilo que está acontecendo naquilo que você supostamente já sabe. O saber é registrar o passado para tentar se prevenir para o futuro. Viver a experiência com o meu paciente sem tentar encaixá-lo naquilo que eu supostamente já sei, eu estou trazendo saúde pro vínculo.

CONCÓRDIA 

Toda a verdade só vai aparecer dentro do um ambiente de concórdia, de concordância. COM + CORDES COM é junto e CORDES é coração. Se não estivermos juntos de coração, não importa quem está com a razão. Vai haver sempre o embate. Agora, se você está junto de coração, importa menos ainda a razão, porque a razão é simplesmente um representante da materialidade das coisas, do saber, do conhecimento, daquilo que não passa de um olhar superficial da realidade. Para que possa emergir a verdade, nós precisamos cultivar um ambiente de concórdia, E aí, se a gente estiver falando então, do setting terapêutico, isso é fundamental. Se o sujeito não estiver em paz, se o sujeito não estiver tranquilo, ele não consegue, de maneira alguma, ser verdadeiro. Ele vai estar se defendendo o tempo todo. E aí, que psicanálise é essa? Psicanálise das defesas? Não! Ele precisa estar em paz, ele precisa estar bem, ele precisa estar seguro e se você estiver investigando o seu paciente, ele vai estar se defendendo das suas Investigações.

ACORDO COM A REALIDADE

O meu compromisso, em primeiro momento é com a realidade. O meu acordo é com a realidade. Antes do paciente me procurar, eu já havia travado um acordo com a realidade. Vou continuar tendo esse acordo com a realidade e cada interpretação, cada palavra, cada atitude que eu tiver, vai ser de acordo com a realidade. Eu vou ser um porta-voz da realidade. A realidade me mostra que o paciente tem o direito de se manter iludido. Ele tem o direito.

ATENÇÃO FLUTUANTE 

Nós temos inúmeras formas de aplicabilidade da psicanálise. Nós estamos falando aqui, de uma psicanálise que é uma extensão dos ensinamentos do Freud e o Freud foi claro quando ele disse assim: “Precisamos exercer a atenção livremente flutuante”. Se você está exercendo a atenção flutuante, você não pode, de maneira alguma estar preso em dados armazenados na memória. Agora, existem outras escolas lacanianas, sei lá o que “anas” aí, que usam das formulações que convém a eles usarem. Dentro daquilo que foi o ensinamento freudiano, resgatar a memória é extremamente nocivo para que você possa exercer aquilo que ele orientou enquanto atenção livremente flutuante.

RECORDAR

Quantas relações, quantos vínculos você tem na sua vida que você tem a chance de ser uma pessoa nova a cada encontro? Todo mundo já espera alguma coisa de você. Todo mundo já se lembra aquilo que você sem perceber prometeu que você vai ser. Todo mundo espera que você seja aquilo que eles lembram sobre você e isso obstrui a sua possibilidade de ser uma pessoa nova. O vínculo terapêutico precisa estar livre do resgate dos dados da memória. Eu estou falando de uma forma bem superficial, mas se a gente se aprofundar, a gente vai chegar ao ponto de que, aquilo que a gente se lembra não é verdade, não é realidade, é uma um registro extremamente limitado da realidade, um registro extremamente limitado daquilo que realmente aconteceu. Porque eu não dou conta de registrar de uma maneira abrangente, ou de maneira total. Eu estou subordinado ao estado de humor que eu esteja naquele momento. Esse registro vai estar contaminado com esse estado e depois, quando eu resgatar, eu já tenho outra contaminação, porque eu vou selecionar aquilo que me convém me lembrar. Então, a memória é extremamente nociva para um vínculo saudável. Diferente da recordação. RE-COR-DAR É Recordar! RE, que é de novo, COR, que é coração e DAR, doar novamente ao coração.

MEMÓRIA IRRIGADA DE AMOR

Não me lembrar das coisas que você me disse vai te dar a chance de você ser real. O meu amor por você não pode estar subordinado às coisas que eu me lembro de você. Talvez esteja subordinado às recordações. Mas existe uma diferença gritante entre memória e recordação. Para que a memória seja recordação, ela precisa estar sendo irrigada de amor. O amor faz com que essa memória ganhe vida e aí ela vai vir espontaneamente. Eu não vou buscá-la. O amor diz respeito à atenção, prestar atenção e quando eu presto atenção é porque eu estou exercendo a capacidade de amar. Quando eu digo: “eu já sei”, eu estou obstruindo a minha capacidade de amar.

SEM MEMÓRIA

Quando o paciente, por exemplo, vem e relata alguma coisa e diz assim: “Ah! Então, aconteceu aquela coisa que eu te falei. Você lembra?” Eu vou dizer: “me conta de novo” Quando ele me conta de novo, ele vai me contar de outra maneira, de outra forma, observando outras características daquilo que antes ele não tinha observado. Porque ele já não é mais o mesmo e hoje ele tem uma capacidade muito maior, uma maturidade muito maior para reconhecer aquilo que ele acreditava que era de uma forma. Se eu digo para ele assim: “sei sim, eu lembro muito bem o que você falou” Pronto! Limitei, obstruir a possibilidade de repensar aquilo e muitas vezes, é importante que eu até explique pro paciente de uma maneira muito clara. Olha: “eu não tenho memória” Eu brinco com meus pacientes assim: “eu tenho Alzheimer, eu esqueço de tudo que você me diz. Vou te dar a chance de me dizer tudo de novo.

MEMÓRIA, DESEJO E COMPREENSÃO

Porque isso coincide com uma orientação do Bion, que diz que um psicanalista precisa renunciar da memória dos dados armazenados na memória, logo estamos falando do passado. Dados armazenados na memória são nocivos na prática clínica. Por que são nocivos na prática clínica? Porque o paciente precisa ter a chance de ser uma pessoa nova a cada encontro e cada vez que o analista resgata dados da memória ele está reclamando que o paciente seja aquilo que ele foi. E nós estamos trabalhando não com aquilo que ele é ou aquilo que ele foi, mas nós estamos trabalhando com aquilo que ele está sendo. Nós estamos trabalhando com um movimento, com a transformação. Quando eu rebaixo o resgate dos dados armazenados na memória, eu estou trazendo saúde ao vínculo. Eu estou trazendo a chance de sermos novas pessoas. Não só o paciente, não só o analista, mas que o vínculo possa se renovar. O futuro diz respeito à expectativa, ao desejo. Quanto mais eu for capaz de rebaixar aquilo que eu espero em relação ao meu paciente, aquilo que eu espero em relação a mim mesmo e aquilo que eu espero em relação ao vínculo, tanto mais esse vínculo vai poder se manifestar de maneira verdadeira. Porque a expectativa daquilo que deveria ser, vai trazer a tendência a ser aquilo que não se está sendo. E o presente está acontecendo no aqui e agora, logo eu não posso saber sobre o presente. Eu só posso saber de alguma coisa que já passou. O conhecimento está subordinado ao registro da memória. Eu só sei de alguma coisa que já passou. Eu não sei aquilo que está acontecendo agora e nem aquilo que virá. Quando eu digo que eu conheço alguma coisa, eu digo que eu conheço baseado naquilo que eu registrei na minha memória, logo isso que eu estou dizendo denuncia a limitação do conhecimento. Porque o conhecimento diz respeito àquilo que já passou e se já passou é limitado, não é realidade.


domingo, 11 de agosto de 2024

MODELOS EPISTEMOLÓGICOS - Prof. Renato Dias Martino



ABRANGÊNCIA SENSORIAL 

Só podemos ter um contato com a realidade dentro da perspectiva do estar sendo. O que a gente chama de conhecimento, na realidade, é uma aproximação. Aquilo que a gente pode constatar com os órgãos dos sentidos está num plano, mas e aquilo que a gente não pode, deixa de existir porque a gente não está enxergando? Deixa de existir porque a gente não consegue constatá-lo pelo aparato sensorial? Não! Não deixa de existir. Então a realidade vai para além da nossa capacidade da nossa abrangência sensorial.

RECONHECER A PRÓPRIA IGNORÂNCIA

Quanto maior a capacidade de tolerar o desconforto de reconhecer a nossa própria ignorância sobre o mundo, sobre tudo que a gente pode se dedicar a conhecer, tanto maior será a possibilidade de aprender com cada experiência. O que dificulta o sujeito de aprender com a experiência é justamente aquilo que ele acredita que já sabe. Se ele acredita que já sabe, então, ele encerra, ele satura a sua pesquisa quanto à realidade. Por mais que a gente tenha essa capacidade de registrar e armazenar na memória aquilo que a gente sabe, aquele saber adquirido, a nova experiência nunca vai ser igual a experiência anterior.

REALIDADE E PRESENTE 

Reconhecimento da realidade. Esta palavra se adequa muito mais do que o conhecimento. Eu só conheço alguma coisa que já passou. O conhecimento está subordinado ao registro na memória. Acontece alguma coisa, eu tenho conhecimento daquilo e registro na memória, agora eu sei sobre isso e a realidade se configura no tempo presente. O fluxo da realidade está no tempo presente, nunca no passado. Aquilo que está no passado não é realidade. Então, não dá para conhecer a realidade, dá para reconhecer a realidade, dá para admitir que a realidade existe, mas não dá para conhecê-la.

A QUESTÃO DA MEMÓRIA 

A capacidade de registrar alguma coisa, ela já é deficitária, porque você não tem um aparato que abrange tudo que está acontecendo naquele momento. Você registra aquilo parcialmente. Se a capacidade de registrar já é limitada, já é deficitária por si só, quando você vai resgatar, isso que você registrou sofre uma seleção e essa seleção está subordinada à sua condição emocional daquele momento. O seu humor daquele momento. O resgate também vai sofrer este impacto. Quando o sujeito está registrando a memória, ele está, de alguma forma, influenciado não só por emoções, mas também por sensações e tanto as emoções quanto as sensações interferem no processo de registro deste fato que está acontecendo. Então, ele está registrando sob a influência de uma emoção, de uma sensação, de sentimentos. Então, isso tudo vai influenciar o que especificamente ele vai registrar. Não vai conseguir registrar o todo da experiência, ele vai registrar só aquilo que o tiver sensibilizado naquele momento. E até afetos muitas vezes ele é afetado por alguma coisa e este afeto faz com que ele registre isso não como o que está acontecendo, mas como ele imagina que esteja acontecendo. Quando ele vai resgatar esses dados que ele registrou, este resgate vai sofrer mais uma vez a influência de emoções, sentimentos, sensações e afetos. Dependendo da forma como ele está naquele momento que ele está resgatando ele vai selecionar aquilo que ele julga ser importante se lembrar. E mais ainda, quando ele for comunicar isso que ele se lembrou ao outro, ele seleciona mais uma vez e aí, ele vai comunicar não só com todas essas interferências que aconteceram anteriormente, mas ainda com a interferência da intenção que ele tem em comunicar isso para o outro. Isso tudo fica tão nebuloso, tão poluído que eu não posso chamar isso de realidade. A realidade só pode se manifestar no tempo presente, naquilo que a gente está sendo. Assim que aquilo passar, eu já não posso mais chamar isso de realidade.

CONSCIÊNCIA E SENSO COMUM 

O Bion vai usar ali, o senso comum, “common sense”, como um código. A possibilidade de a gente criar um meio de comunicação disso que a gente supostamente sabe. Na verdade, o Bion resgata isso aí do filósofo John Locke, que ele já propôs isso anteriormente e o Bion resgata essa ideia para trazer essa possibilidade de comunicação do que a gente tem como verdade a partir de um senso comum. Que também a gente pode chamar de consciência, a ciência compartilhada. Com + ciência Cria códigos para gente comungar daquilo que supostamente a gente sabe.

PULSÃO EPISTEMOFÍLICA

Lá em 1905, Freud nos TRÊS ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALIDADE, vai levantar a ideia da pulsão epistemofílica. O sujeito tem essa ânsia de saber de maneira instintual. La do grego EPISTEME, “conhecimento” e PHILOS, que é “apreço” ou “atração”. Então, o sujeito tem atração pelo conhecimento, pela exploração. Ele procura. Então, ele nasce com isso. Ele vai dizer que essa tendência de investigação natural do ser humano, ela está ligada... Claro, se a gente está falando em Freud, ele vai dizer que isso está ligada à sexualidade. Ele não busca essa teorização da coisa, mas ele busca esta exploração prática e vivida. Dentro da perspectiva da insegurança. O sujeito vai aguçar o seu instinto epistemofílico a partir da sensação de insegurança. O Freud vai chamar atenção para o momento onde nasce um novo irmãozinho e o sujeito se sente inseguro, imaginando que ele vai deixar de ser amado. Esta experiência aguça a ânsia de saber dele, de conhecer e aí ele começa a explorar cada vez mais as coisas, a partir de experiências de se sentir inseguro. E esse é um problema muito complicado, porque muitas vezes, o sujeito desenvolve uma capacidade grande intelectual, uma capacidade de conhecimento muito grande, através da experiência de não ter se sentido amado, acolhido, ou que não tenha tido atenção dos seus pais. Por conta disso, ele começa a querer saber porque. Por que eu não sou amado? Por que eu não tenho atenção?

O ESTRANHO 

A Melanie Klein vai trazer a ideia da exploração do corpo da mãe. Esse instinto epistemofílico, na realidade, para Melanie Klein, é uma busca por conhecer da onde eu vim, do interior da mãe, da minha origem. A Melanie Klein observou que o bebê tem esse impulso epistemofílico. primeiro a partir dessa coisa de ver, de tocar, de pesquisar o corpo materno e é muito importante que ela possa ter acesso ao corpo materno, para que ela possa desenvolver isso. Porque muitas vezes, ela não tem. E aí, é muito triste. E na realidade, tudo que é estranho gera insegurança. Tudo que a gente percebe como algo que não é comum, gera uma insegurança e a tentativa de conhecer é justamente uma suposta tentativa de controlar isso. Então, quando a gente conhece alguma coisa, a gente está tentando controlar, está tentando dominar isso, porque isso nos gerou insegurança. O instinto epistemofílico vem justamente para aplacar a insegurança frente aquilo que é estranho. Quando o bebê começa a perceber que ele está separado da mãe, que ele não é parte da mãe, ele começa a tentar conhecer isto que é algo separado dele.

PESQUISAR PARA NÃO ATUAR

E se existe alguma função saudável nesta experiência de conhecer, de explorar, de investigar, das crianças, do bebê, isso precisa se desdobrar no adiamento da ação. Ele busca conhecer para que ele seja capaz de adiar a ação motora. Então, através do conhecimento ele cria um arcabouço de dados que vai trazer para ele a possibilidade de não agir sem pensar. Ele vai registrando dados que vão trazer para ele a possibilidade de não atuar.

VÍNCULO K

Lá em 1962, o Bion publica APRENDER COM A EXPERIÊNCIA e ali ele propõe três formas de vínculo. Ele vai propor o “L”, o “H” e o “K”. O “L” é amor, o “H”, ódio e o “K” é o conhecimento. Love, Hate e knowledge. Tem os seus referentes negativos. Menos L, menos H e menos K. O K é justamente oriundo da pulsão epistemofílico. A pulsão de conhecer vai gerar o vínculo K. Eu vou me relacionar, vou me vincular a alguma coisa porque conheci esta coisa.

NÃO SEIO, LOGO PENSO

O Bion traz a ideia de que esse pensamento epistemofílico é anterior ao pensador. Como é que ele justifica isso? Ele vai propor que o bebê tem uma expectativa inata de seio e esta expectativa inata de seio vai gerar uma preconcepção de seio, que vai levá-lo a explorar, a buscar, a querer conhecer isso que ele tem uma expectativa inata. E isso vai gerar o vínculo “K”. Quando manifesta a expectativa inata de seio, gera-se uma preconcepção de seio e ele procura o seio e acha, ele tem uma concepção do seio. E quando essa mesma experiência acontece, manifesta-se a expectativa de seio, ele cria preconcepção do seio e o seio não está, ele desenvolve o pensamento, ele pensa sobre o seio. Não seio, logo penso. Para que eu possa pensar, eu preciso ter uma experiência do “não seio”. A ausência de seio me faz desenvolver o pensar. Para que eu possa aprender a pensar, eu preciso tolerar a ausência do objeto. Para que o bebê seja capaz de pensar a mãe, a mãe precisa estar ausente. Expectativa de seio, que é inata, pré-concepção de seio, encontrou com o seio, concepção do seio. A partir dessa concepção do seio, eu vou experimentar agora a ausência do seio. Expectativa de seio inata, pré-concepção do seio e ausência do seio, pensar. E aí, vou ter a chance de conceitualizar, vou ter um preconceito e a partir dessa experiência renovada, eu vou criar um conceito. O que é o conceito? Saber sobre o seio.

EVOLUÇÃO DOS VÉRTICES

Nós vamos falar de três vértices epistemológicos. Nós vamos falar da ciência e da filosofia, no primeiro vértice, científico-filosófico, nós vamos passar pelo estético-artístico e vamos expandir para o âmbito místico-religioso. Então, são três vértices que, na realidade, não é uma proposta bioniana, na realidade, o Bion resgata isso de outros pensadores, por exemplo de Platão, por exemplo da própria Bíblia que vai trazer e elementos muito próximos disso. E aí, a gente pode ter três configurações aí, de evolução desses três vértices. Então, a gente pode ter em primeiro momento, uma sucessão que vai desde o do mais saturado, que é o científico-filosófico, naquela linguagem unívoca. A ciência precisa ter uma linguagem unívoca que pode ser entendida por todos, por isso é ciência e para isso ela precisa saturar, ela precisa acabar aquele pensamento em si mesmo. Passando pelo estético-artístico, onde a possibilidade se expande na criatividade e na contemplação da beleza e chegando até o místico-religioso, que está no não-sensorial que vai para além do estético-artístico. Então, a gente pode ter este gradiente de evolução, mas a gente também pode começar do estético-artístico, por exemplo. O estético-artístico é aquilo que diz respeito à criação. Talvez o estético-artístico seja o mais primitivo dos vértices epistemológicos, que depois vai passar pelo científico-filosófico, que vai ser a nomeação desta criação e depois vai para o místico-religioso, onde tudo isso é destruído para ir para um mistério, para aquilo que vai para além do conhecimento. Porque que eu falo que o estético artístico talvez seja o mais primitivo? Por que a criação artística parece ser a mais primitiva das linguagens epistemológicas. Porque, por exemplo, uma criança, antes dela falar, ela canta, antes dela ser capaz de verbalizar um discurso, ela é capaz de cantarolar, antes dela aprender a andar, ela dança. Então, parece que o estético-artístico vem antes de qualquer outra coisa. E aí, depois a gente vai falar da nomeação disso, científico-filosófico e depois esse nome vai ser destruído em nome da expansão do mistério da fé, no místico-religioso. Mas a gente pode fazer o inverso também. A gente pode partir da experiência mística, que é algo que é muito mais expansivo, que vem até, antes do próprio ser humano, transformando essa experiência mística em criatividade, em arte, no estético e depois tentando nomear essa experiência artística dentro do âmbito científico-filosófico. Então, nós temos três possibilidades de configuração da evolução dos vértices.

ACORDO COM A REALIDADE

A gente fala de modelo científico-filosófico, estético-artístico e místico-religioso. Qualquer ciência? Qualquer filosofia? Qualquer arte? Qualquer padrão de beleza? Qualquer religião? Não! Não é qualquer! Precisa haver um acordo com a realidade. Precisa haver uma interação com a realidade. Porque, muitas vezes, você tem uma ciência que está intoxicada, comprometida com ilusões com alucinações, com obstruções, menos do que a possibilidade do reconhecimento da realidade. Nós temos inúmeros exemplos aí, de ciências que se dizem ciências, que estão dentro da academia, mas que, na realidade, praticam um desserviço no reconhecimento da realidade. A filosofia, da mesma forma. Pode ser uma filosofia, mas que esteja extremamente contaminada com obstruções do reconhecimento da realidade. A arte, da mesma forma. Você pode pegar, por exemplo, uma música que fala absurdos, que tem uma letra dizendo absurdos. A religião também, está dentro dessa perspectiva. O místico também está dentro dessa perspectiva. O que é o místico? A palavra místico vem de mistério. Isso quer dizer que é necessário o ato de fé. Se você precisa de evidências você já perdeu o místico. O místico é tolerar o mistério sem precisar de buscar evidências. Então, a gente tem aí, teólogos, por exemplo, querendo provar a existência de Krishna no mundo material, provar a existência de Cristo no mundo material. Não é função da religião essa. Não é função do místico isso. O místico é fé. Porque, se você tiver prova material, você não precisa ter fé e aí caiu por água o modelo místico-religioso. Esta religião, esta pseudoteologia não nos interessa.

O BOM, O BELO E O VERDADEIRO

Enquanto psicanalistas aqui, a gente tem esses três modelos, a partir da ideia proposta pelo Bion. Na obra do Bion a gente pode reconhecer pode perceber esses três modelos, de maneira muito clara, mas isso está sendo cogitado na humanidade há muito tempo. Talvez, desde o Mahabarata, desde o Bhagavad Gita, das escrituras védicas, passando pelas escrituras sagradas da Bíblia, outros registros, a gente encontra o Bom, o Belo e o Verdadeiro. Poderíamos chamar de bom aquilo que é filosófico, científico, podemos chamar de Belo aquilo que é estético, artístico e verdadeiro aquilo que está dentro do místico, religioso.

CIENTÍFICO-FILOSÓFICO 

O modelo científico-filosófico. O que a gente está chamando de modelo científico-filosófico? Dentro do modelo científico-filosófico, nós temos uma característica de certa exatidão das palavras. Um cientista tem que tratar das coisas de maneira unívoca, admitindo apenas uma interpretação, um significado, sem muita ambiguidade, sem muita abertura. Porque? Ele precisa que isso seja comunicável a todos. Esta é a vantagem desse modelo, quando você fala de um conceito científico, ou de um conceito filosófico, você trata de alguma coisa que pode ser entendida por todos de maneira unívoca. Este é o benefício, mas tem um grande prejuízo. Qual é o prejuízo? A limitação, a saturação, não permitir grandes expansões.

CIÊNCIA QUÂNTICA

Ainda assim, nós temos a ciência quântica, nós temos a física quântica que se iniciou lá, muito provavelmente pelo Max Planck e dentro da física quântica a gente começa a quebrar este paradigma da saturação. A partir da física quântica a gente começa a perceber que apesar de estarmos tratando de ciência, existe ali, o que o Heisenberg vai chamar de princípio da incerteza. Então, ele vai dizer assim: quando a gente analisa, quando a gente estuda uma partícula, eu não posso ter uma exatidão, porque quando eu vou observar essa partícula, eu preciso jogar uma luz sobre ela, eu preciso jogar uma iluminação. Não dá para examinar essa partícula sem iluminação e quando eu jogo a iluminação nesta partícula, eu comprometo o comportamento dessa partícula, porque a luz trabalha a partir de partículas de fótons e os fótons, ao bater nessa partícula, comprometem a configuração dessa partícula. A partir ali, do estudo do Heisenberg, a gente começa a ter um precedente dentro da ciência, de incertezas. Trouxe até uma frase aqui do Heisenberg, lá no SOBRE O CONTEÚDO INTUITIVO DA CINEMÁTICA QUÂNTICA E MECÂNICA, “É um importante enunciado da mecânica quântica, que revela o fato de que não podemos determinar com precisão e simultaneamente a posição e o momento de uma partícula.”  Então, quando a gente tem um olhar aí, um pouco mais macro a gente pode até assegurar certa precisão, mas quando a gente observa dentro de uma perspectiva micro, isso passa a ser inviável e o próprio Heisenberg vai dizer ali, assim, uma ciência boa precisa estar sendo guiada por uma filosofia boa. “Uma boa física é inadvertidamente prejudicada por uma filosofia ruim”. Então, você pode até ter uma boa ciência, mas se essa ciência estiver sendo guiada por uma filosofia pervertida, será uma ciência pervertida. Então, a qualidade do estudo científico depende da qualidade da filosofia que esteja orientando este estudo.

FUNÇÃO FILOSÓFICA 

A gente pode resgatar o Shopenhauer, dentro da filosofia. Schopenhauer chamou atenção sobre a vontade. Para que eu possa ter um bom reconhecimento da realidade, para que eu possa estabelecer um acordo com a realidade é importante que eu seja capaz de adiar a minha vontade, de rebaixar a minha vontade e aí incluo o desejo também, ser capaz de renunciar ao meu desejo, para que eu possa reconhecer a realidade. Porque a minha vontade, assim como o meu desejo, pode turvar o meu reconhecimento da realidade que existe independente da minha vontade ou do meu desejo. Quando o meu desejo é muito exacerbado, quando a minha vontade está muito grande, eu vou reconhecer essa realidade não como ela está sendo, mas como eu gostaria que ela fosse. a vontade, ou ainda o desejo, contamina o possível reconhecimento da realidade, contaminam o reconhecimento da realidade, ou possível reconhecimento da realidade.

NA PRÁTICA

Vamos então usar o modelo científico-filosófico dentro da configuração da prática clínica. Vamos supor aqui que a gente tem um caso em que a interpretação psicanalítica seria assim: a tolerância quando ausente do reconhecimento do limite converte-se em permissividade. A tolerância é importante, mas ela precisa do limite, porque se o sujeito não reconhece o limite, ela não é simplesmente tolerância, mas ela é um representante da permissividade. Nós podemos transformar essa formulação em matemática. Como? Tolerância menos limite, igual permissividade. Transformamos então esta formulação do âmbito emocional-afetivo nas formulações matemáticas. Um outro exemplo disso? Verdade menos amor, igual crueldade. Outra formulação. O contrário também é verdade. Amor menos verdade, igual paixão. São formulações unívocas. Isso é isso em qualquer lugar. Esta formulação é verdade onde tiver seres humanos. Onde tiver seres humanos se relacionando, isso vai ser verdade. Então, o modelo científico-filosófico cabe muito bem aí. Esse modelo busca certa linguagem unívoca, mas não resolve. O Bion vai colocar lá no ATENÇÃO E INTERPRETAÇÃO: “As matemáticas disponíveis não fornecem formulações adequadas ao analista.”  É um modelo ele vai até certo ponto.

INSTINTO DE AUTOPRESERVAÇÃO 

Expandindo mais a matemática, nós temos aí, nesta formulação nesta função, nós temos o fator de instinto de autopreservação. Quando eu incluo o instinto de autopreservação, eu vou percebendo o limite e a permissividade vai diminuindo. A diminuição da permissividade está subordinada ao acordo com um instinto de autopreservação. Um sujeito que não respeita o seu instinto de autopreservação, muito provavelmente vai passar dos limites. Ou vai permitir que o outro abuse dele, ou vai passar do limite, abusando do outro. Neste âmbito, a regra social, ou aquilo que o Kant chamou de Imperativo Categórico, não resolve a questão, ou aquilo que a gente vai chamar em psicanálise de superego, de ideal de eu, não resolve a questão. Eu preciso acessar, eu preciso estar de acordo com alguma coisa muito mais primitiva, que está na ordem dos instintos. Só isso vai poder resolver o respeito, o reconhecimento do limite, que vai permitir que eu possa perceber o momento que passa, o abuso tanto comigo quanto com o outro.

ESTÉTICO-ARTÍSTICO

Vamos pensar o modelo estético artístico, na linguagem poética, imagética, na abertura polissêmica, nas metáforas. Mas isso tudo é muito perigoso, porque muitas vezes, eu posso tomar como verdade uma poesia alucinada, uma alucinação do sujeito. A utilização do vértice estético-artístico carece muito mais do contexto, do que do texto. Se você estiver analisando o texto de maneira muito precisa, você não consegue se utilizar deste modelo. Precisa inserir este modelo no contexto. O psicanalista precisa ter uma cota artística muito manifesta para que ele possa exercer a sua função de maneira bem-sucedida. Expressão estético-artística parece ser a manifestação mais primitiva das três e aí a gente já falou sobre isso. Uma criança, antes de falar ela canta, antes dela andar ela dança, antes de escrever ela desenha.

MÍSTICO-RELIGIOSO

Você precisa rebaixar os cinco sentidos para que você possa acessar o âmbito místico-religioso. Enquanto você estiver apegado aos seus cinco sentidos, você não consegue se utilizar do modelo místico-religioso. Isso faz com que esse modelo seja o mais difícil. Esse modelo é, sem dúvida o modelo que as pessoas têm maior dificuldade, porque precisa do ato de fé e se o sujeito não tiver o ato de fé, ele não vai conseguir acessar este modelo. O próprio Freud teve grande dificuldade com isso, porque ele não conseguia encontrar nele aquilo que o Rolland, o amigo dele propôs enquanto Sentimento Oceânico. E ele foi humilde o suficiente para dizer: “eu não sinto em mim. Então, não posso falar sobre isso”. Ou seja, Freud pôde ir até certo ponto. Depois do Freud vieram outros que puderam expandir para além daquilo, sem deixar de ser psicanálise. Você precisa ter vivido, você precisa ter experimentado. Requer uma tolerância muito grande. O sujeito, ele pode, na melhor das hipóteses, a partir de um estudo sobre isso, nomear experiências que ele já tenha vivido. Mas qual é esta religiosidade? Qual é esse misticismo? É aquele em que o sujeito fica pedindo as coisas para Deus? É aquele em que o sujeito se utiliza da Bíblia como um catálogo da Natura que ele só abre para fazer pedido? Não! Não é esse. É aquele em que o sujeito se coloca à disposição para que ele possa ser um instrumento de Deus, um instrumento de algo maior, um instrumento da realidade. Então, nós precisamos ser os instrumentos da realidade, aquele que é o porta-voz da realidade, ou representante da realidade. Então, nós estamos aqui para representar a realidade através de um acordo que nós fizemos com ela. A fé pressupõe o rebaixamento da minha vontade. É “seja feita a vossa vontade”, não a minha. E quando rebaixo a minha vontade, eu tenho maior acesso à realidade, eu tenho maior acesso ao reconhecimento da realidade. Por quê? Porque a luz é da realidade, não minha. Então, eu não posso conhecer a realidade. Para que eu conheça a realidade, eu preciso jogar luz na realidade, assim como na física quântica, mas para reconhecer a realidade eu não preciso jogar luz, eu preciso na realidade, rebaixar a minha luz, para que a realidade possa manifestar a sua própria luz. Na clínica isso fica muito evidente, eu não vou iluminar o paciente. Quando eu rebaixo a minha vontade, o meu desejo, aquilo que eu supostamente sei, ou aquilo que eu tenho como dados armazenados na memória, eu rebaixo a minha luz e passo a reconhecer a luz que vem do paciente.

REBAIXAMENTO DA VONTADE E RENÚNCIA DO DESEJO

a proposta da filosofia do Schopenhauer é de rebaixar a vontade e o Bion, depois vai falar: “sem desejo”. Esta proposta está presente muito antes de qualquer colocação filosófica ou psicanalítica, o próprio cristianismo tem dentro dessa perspectiva o Pai Nosso, “seja feito à vossa vontade”. No budismo não é diferente, nas escrituras védicas também não é diferente. O estudo da mecânica quântica, hoje também traz essa ideia do Princípio da Incerteza. Então, a verdade não pode estar subordinada àquilo que eu gostaria que fosse, mas aquilo que ela realmente está sendo.

CONCÓRDIA 

Nós precisamos da concordância dos três vértices. Um vértice não pode disputar com o outro, precisa haver um senso, uma concórdia entre os três vértices. esta concórdia vai fazer com que eu possa reconhecer a realidade de maneira polêmica.



terça-feira, 7 de maio de 2024

MEMÒRIA - Prof. Renato Dias Martino



Normalmente, a gente tem a ideia de que um sujeito que tem uma boa memória é um sujeito favorecido, é um sujeito mais bem sucedido, por assim dizer, do que o outro que não tem uma memória muito boa. Na verdade, um sujeito que é capaz de ter uma memória boa quer dizer que ele tem na sua mente, um cabedal enorme de dados armazenados e isso, muitas vezes, não é saudável. O saudável é viver uma vida espontânea, no fluxo contínuo da vida. 

MOTIVO DA MEMÓRIA

A memória, por si só, é mantida por medo de esquecer, por um “deveria ser”. Quando o sujeito tem uma boa memória, tem esta capacidade, porque o resgate daquela memória pode trazer para ele, ou tirá-lo de certa ameaça, ou trazer para ele a aprovação do outro. A memória tem um objetivo claro que é o benefício superficial do sujeito. Não tem a ver com questões profundas. 

MEDO DE PERDER

A memória está dentro da perspectiva do obter. Eu tenho na memória e se eu tenho na memória, eu também tenho medo de perder. Porque o medo de perder está relacionado ao desejo de ter.

MEMÓRIA FRIA

Para que a memória possa ser bem registrada e possa ser resgatada quando necessário, de maneira ágil, ela não pode estar irrigada de emoções nem de afetos. Um sujeito que tem uma boa memória é um sujeito que não relaciona a esses dados, emoções, ou afetos, sentimentos, para que esses dados sejam armazenados de maneira fria e calculista, para serem resgatados da mesma forma quando necessário for. 

MEMÒRIA E DEFESA

Muitas vezes, o sujeito tem uma boa memória para esconder, para tamponar, por assim dizer para tampar questões afetivas desconfortáveis de serem relembradas um sujeito de boa memória pode estar usando isso para se defender de algo que é muito doloroso para ele.

LEMBRANÇAS ENCOBRIDORAS

Uma rica contribuição do Freud, LEMBRANÇAS ENCOBRIDORAS. Quando o sujeito vive uma experiência extremamente dolorosa e desconfortável, ele tende a registrar alguma outra coisa no lugar daquela experiência. Ele registra um fato que foi relacionado àquilo. Se lembra deste fato, mas não consegue se lembrar daquilo que está por baixo por assim dizer.

MEMÒRIA OU RECORDAÇÃO

Memória e recordação. A memória não pode estar vinculada as emoções porque as emoções desorganizam as emoções propõem transformação e os dados da memória não podem estar em transformação porque quando o sujeito for resgatar já não é mais o mesmo e aí não é memória. Mas, por outro lado, aquilo que está na ordem das recordações são, o tempo todo, transformações. Cada vez que você recorda alguma coisa, você recorda de uma maneira nova, de uma outra forma, porque diz respeito ao vínculo. Por mais que seja de alguma coisa que já passou, você, ao se transformar, você se vincula a aquele dado armazenado na memória de maneira diferente. Por isso é recordação, cada vez que você recorda você dá outra vez para o coração. Re-cor-dar! Então, isso vai se transformando. Isso vai se nutrindo. Isso vai crescendo, se expandindo, ficando cada vez mais nobre. Diferente dos dados da memória que são sempre do mesmo jeito. Não só o resgate do que foi registrado na memória, diz respeito à dificuldade de lidar com aquilo que está acontecendo no presente, mas também o próprio registro do fato. Quando o sujeito tem um conflito, quando o sujeito não é capaz de viver de maneira espontânea aquilo que está acontecendo, ele tende a registrar aquilo na sua memória. Diferente porque, isso espontaneamente vem dentro da perspectiva da recordação, que é diferente de buscar, de resgatar isso, dentro dos dados armazenados na memória.

DE NOVO

Nós temos três palavras que estão associadas de maneira muito bela. Então, a gente tem a palavra recordar, a gente tem a palavra respeito e a gente tem a palavra reconhecimento. As três palavras começam com o prefixo RE, que quer dizer “de novo” e todas elas têm essa conotação de, novamente submeter a um processo de renovação. Recordar, “dar novamente ao coração”, respeito, “prestar atenção novamente” e reconhecimento, “conhecer de novo”.

RECONHECER E GRATIDÃO

A ideia de recordar está ligada ao respeito, está ligada também ao reconhecimento. E a palavra reconhecimento, ela também tem esta polissemia, esses sentidos diversos, que podem ser atribuídos a ela. Por exemplo, reconhecer é conhecer novamente, reconhecer é também uma extensão da gratidão. Quando o sujeito reconhece alguma coisa, ele está sendo grato a aquilo. Para que o sujeito seja capaz de reconhecer, ele precisa ter desenvolvido a capacidade de gratidão.

RECORDAR E TRANSFORMAR

 Quando a gente está falando de emoções, quando a gente está falando de afetos, de sentimentos, a gente não pode ligar isso a certezas, mas sempre há um fluxo, há algo que é incerto, porque está em transformação. Então, a recordação vem como algo que é contínuo, é um processo. O resgate do que está na memória não tem a ver com processo, tem a ver com resgatar algo que foi pré-estabelecido, foi armazenado e agora é resgatado de maneira, quanto mais precisa possível. A recordação é rica, ela se transforma. Cada vez que você amadurece um pouco, você se recorda de algo de maneira diferente. Antes eu me recordava de uma forma, hoje eu me recordo de outra forma e futuramente me recordarei de outra maneira diferente dessas. Então, não pode ter certeza.



quarta-feira, 24 de abril de 2024

SEM MEMÓRIA - Prof. Renato Dias Martino



Um psicanalista não pode se utilizar daquilo que ele registrou na memória. Isso é nocivo para o processo psicoterapêutico. Um psicanalista, segundo a orientação de Wilfred Bion, precisa ser sem memória, que ele possa rebaixar ao máximo o seu resgate dos dados que foram armazenados na memória.

LEMBRAR OU RECORDAR

 Precisamos, diferenciar duas experiências. A experiência de resgatar dados da memória e a experiência de recordar. Resgatar dados da memória é uma experiência calculista, é uma experiência que faz com que você tente se lembrar de alguma coisa para justificar algo que você não está conseguindo viver no presente. Recordar é algo que surge, é algo que brota é algo que vem por conta de uma configuração saudável do presente. RE, quer dizer de novo, COR, quer dizer coração e DAR, quer dizer doar. Então, recordar é dar mais uma vez para o coração e isso é saudável, isso é terapêutico. Eu poderia ficar aqui horas tentando te explicar a diferença de uma coisa e de outra, mas você vai precisar viver isso na sua prática, para você perceber que você não resgatou aquilo na memória, você não buscou aquilo para justificar alguma coisa que estava desconfortável no presente, mas aquilo brotou por conta de uma experiência afetiva que aconteceu no presente.

IMPORTÂNCIA DO PRESENTE 

 Quando eu realmente me importo com o que está acontecendo aqui e agora, aquilo que passou vai perdendo a importância. Aquilo que passou só ganha importância quando eu não estou sendo capaz de me importar com o presente, com aquilo que está acontecendo agora. Quanto mais eu me preocupo com o futuro, ou me entulho do passado, eu não consigo me ocupar do presente. 

JUSTIFICA O PRESENTE PELO PASSADO

Quando eu não estou conseguindo justificar o presente pelo próprio presente... Aliás, o presente não precisa de justificativa. Quando eu não consigo viver o presente pelo próprio presente, eu começo a tentar resgatar aquilo que passou para trazer álibis condenatórios para pessoa da qual eu estou discutindo. “É, mas, ontem não sei o que.” “É, mas, semana passada não sei o que mais.” Isso quer dizer que eu não estou conseguindo viver o presente, mas eu preciso resgatar alguma coisa que passou para justificar o meu descontentamento.

O BARQUEIRO

Quando a gente está angustiado quando a gente está ansioso a gente tende a resgatar dados da memória, a gente tende a resgatar algo do passado. Um barqueiro fazia o translado das pessoas de um porto para uma ilha. Ele era um barqueiro e fazia isso num ponto turístico. Um casal entrou, num dia de nevoeiro, entrou no barco para ser levado até a ilha e o barqueiro começou a remar olhando para trás. O sujeito que estava sendo transportado perguntou para ele assim: “mas por que que você fica olhando para trás?” Ele falou: “Porque o nevoeiro me obstrui a visão da ilha, então, eu preciso me basear no porto, até que esse nevoeiro possa se dissipar e eu consiga enxergar a ilha.” Então, todas as vezes que a gente tiver obstruído de olhar para frente, a gente vai olhar para trás, mas isso precisa ser temporário. Isso precisa ser só naquele momento, onde eu não tenho outra referência, porque se eu continuar olhando para trás, eu vou tropeçar no meu caminho.

REGRA RÍGIDA

Se eu tomo essa coisa de não resgatar dados da memória como uma regra rígida, que eu preciso ficar me policiando, você sabe o que que vai acontecer? Eu vou resgatar algum dado de memória porque eu sou humano, eu vou ficar preso nisso e não vou conseguir para frente, eu vou ficar me julgando e me cobrando de ter lembrado alguma coisa da memória e não consigo ir para frente. Então, eu lembrei ponto. Tudo bem! Não tem problema. Vamos embora. Vou tentar não lembrar mais.

ANGÚSTIA

Todas as vezes que o sujeito tenta intervir no passado, naquilo que ficou registrado na memória, para mudar aquilo, ou até para se julgar, se condenar por conta de alguma coisa que ficou no passado, isso gera um sentimento de angústia. Então, a angústia é essencialmente gerada por algo que ficou no passado e o sujeito tem o desejo de mudar. 


SINTOMA NEURÓTICO

O passado é justamente o tempo do sintoma neurótico. O sintoma neurótico é, por assim dizer, uma âncora que ficou no passado. Então, o sujeito viveu alguma coisa e não consegue soltar desta ideia e ele fica rememorando esta ideia, não permitindo que essa ideia fique no seu tempo adequado que é naquilo que passou e ele traz aquilo de volta. Quando aquilo vem, ele manifesta o seu sintoma dentro da configuração neurótica, o sujeito que tem a predominância neurótica na mente é aquele que está preso em alguma experiência que aconteceu no passado. Isso obstrui o fluxo do funcionamento emocional afetivo ou o fluxo da mente.

REGISTRO DO PASSADO

Quando a gente fala assim: “eu lembro” de algum fato, na verdade você não lembra do fato, você lembra daquilo que você pôde registrar deste fato. Ninguém é capaz de registrar um fato como um todo, mas você registra aquilo que foi possível obter enquanto panorama do que estava acontecendo. E muitas vezes, a gente julga isso como o todo. Aliás, este é um grande problema da história, com “HI” e dos livros de história. Quem escreveu o livro de história, quem registrou aquilo, na verdade registrou a partir de uma percepção de parte do que aconteceu, de uma ínfima parte do que que aconteceu. Porque, a maior parte do que aconteceu ele não pode registrar. Mas, ainda assim, aquilo é tido como uma verdade. Muitas vezes, o sujeito que tem a predominância neurótica da mente, muitas vezes o sujeito que tem um sintoma neurótico, padece por se condenar, por conta de um registro da memória que, na verdade é um fragmento e não é a totalidade do que aconteceu. E ele está ali, se condenando por alguma coisa que na verdade ele conseguiu registrar apenas um pedacinho do que aconteceu na totalidade.

DESAPEGO DO BENEFÍCIO

Para ser capaz de não ficar resgatando dados da memória, não ficar se lembrando de coisas que, na verdade já passaram e que hoje já não importam mais, eu preciso antes me desapegar me depreender do benefício que me faz ficar lembrando disso tudo. E muitas vezes, fica parecendo até meio estranho perguntar por exemplo para o outro, qual o benefício que ele tem de ficar se lembrando o tempo todo de uma experiência horrível que aconteceu no passado. Benefício de se sentir o “coitadinho”, tem o benefício de se sentir melhor do que o outro, porque conseguiu ultrapassar por aquela experiência. Só que esse benefício vem junto com uma série de ônus também.