domingo, 6 de novembro de 2011

Conflito: medo e desejo


Sigmund Freud (1856-1939) teve sua formação medica em neurologia, e desenvolveu a psicanálise a partir da percepção de que grande parte dos pacientes que ele atendia, não guardava a origem de suas doenças no corpo, ainda que se manifestassem ali. Exames clínicos não apresentavam diagnósticos fisiológicos e o organismo, em suas funções mantinha-se funcionando adequadamente, ainda assim, existia certa dor presente na queixa do paciente.
Sigmund Freud 
(1856-1939)
Entre 1892 e 1899, Freud desenvolveu uma serie de ensaios que juntos formam as Primeiras Contribuições à Teoria das Neuroses e nessa obra designou a ordem patológica que percebia em seus pacientes, o nome de neurose e nesse caso, mais especificamente, histeria de conversão. Algo que existia na dimensão do psíquico, mas se manifestava no corpo.


Ainda hoje essa visão de Freud nos serve como um excelente instrumento para pensar. É indiscutível o fato de que a dor quando aparece no corpo, por ser fisicamente perceptível, convence com maior facilidade, a nós mesmos e também ao outro. Por outro lado, quanto à dor é psíquica, está na ordem do não sensorial, assim, não pode contar com os órgãos dos sentidos para confirmá-la e fica dessa forma, desacreditada.

Dificilmente o funcionário de uma empresa conseguiria convencer seu chefe com a justificativa de que não foi trabalhar por estar angustiado. Mas, quando a manifestação passa a ser somática, ou seja, quando o corpo dá sinais claros de que se está doente, aí sim o outro se convence disso. Entretanto, o serviço prestados por um funcionário angustiado é imensamente mais danoso do que sua ausência temporária.

Ausência essa, necessária para que se possa reconhecer o conflito que ocorre em seu mundo interno. Uma guerra que se trava de forma interna, mas que ameaça transbordar os limites emocionais do eu psíquico e manifestar-se no corpo físico. Naturalmente, certo conflito entre um medo e um desejo. Uma ordem de conflitos que pode promover severas perturbações no funcionamento mental. Isso pelo fato de que o medo é filho do desejo.


Freud em seu “Esboço de psicanálise”, publicado em 1940:


Sigmund Freud 
(1856-1939)

“Os sintomas das neuroses, poder-se-ia dizer, são, sem exceção, ou uma satisfação substitutiva de algum impulso sexual ou medidas para impedir tal satisfação, e via de regra, são conciliações entre as duas, do tipo que ocorre em consonância com as leis que operam entre contrários, no inconsciente.” Pg. 199




Sem poder tornar-se consciente desse conflito, o sujeito vive certa batalha inconsciente que acaba por revelar-se nos vínculos. Onde adota certa prática especial nas relações. Passa a odiar como forma de distanciamento daquilo que na realidade tanto deseja. Apresenta assim um quadro obsessivo, de forma que se envolve cada vez mais com algo que na realidade evita compulsivamente.
Ou, por outro lado, movido pela culpa, torna-se subserviente á aquele do qual odeia tanto. Essa culpa quando em sua ultima consequência, pode sofrer certa conversão no nível orgânico e somatizada passa a representar-se numa patologia no corpo, ou seja, uma doença física. Isso porque o sujeito pode encontrar nessa doença física uma maneira de se auto punir. Agora fisicamente doente pode convencer o outro, assim como convencer-se a si mesmo do seu sofrimento.
Abre-se então a eterna e inexorável batalha entre o amor e o ódio: enquanto um ocupa o topo da consciência, o outro se mantém velado, numa forma latente, mas ainda assim, extremamente ativa e definindo “escolhas” na vida do sujeito. Mobilizado na impossibilidade pela proibição de integrar amor e ódio, o conflito provoca sintomas de inúmeras formas. Um processo gerado por uma vivência especial, onde àquilo que foi proibido de desejar (odiar) se torna justamente o que faz nutrir o maior desejo (ódio) inconsciente. Desejo que por ser inconsciente, amiúde é impulsionado para a ação de efetivação. Entretanto a concretização esbarra na proibição desse mesmo desejo, justamente onde é gerado o medo.


Mas, apesar do volume do impulso que impele à ação de consumação do desejo, aquilo que pode realmente apaziguar o conflito se encontra na dimensão do reconhecimento desse desejo e não da prática da ação. O reconhecimento do sentimento é o que induz o pensar e não é novidade o fato de que isso coincide justamente com a capacidade de adiar a ação. Mas ainda assim, o reconhecer é assustador. Isso por se tratar de um movimento interno que leva a abrir mão da satisfação do prazer que se encontra na efetivação da ação. A psicanálise nos ensinou com muita clareza que pensar é desistir da satisfação imediata, que apesar de ser prazerosa, é exatamente a responsável pelo conflito.

A proposta de considerar a dimensão do lado desconhecido da mente deve partir de certa experiência de humildade, na consideração da própria ignorância presente nas dores da alma.




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Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
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quarta-feira, 2 de novembro de 2011

INCAPACIDADE DE SENTIR A FALTA

Então, passamos a existir no mundo a partir de certa condição básica onde nos é possível nos responsabilizar por ele. Sendo capazes de nos responsabilizar por nos mesmos, estamos então qualificados a nos responsabilizar por aquilo que está para além de nós, no mundo externo. E é dessa forma que vamos nos tornado reais, ou pertencentes daquilo que chamamos de realidade.

 

Quando se adquire o status de ser real, inclui-se também a condição de falível, passível de falhas, ou ainda, responsável por faltas. Então percebemos que esse processo que conduz a capacitação da responsabilização e então a realização, está intimamente ligado a experiência da falta. Dentro de certa perspectiva saudável do funcionamento mental, somos conduzidos a identificar as faltas e nos responsabilizar por isso. É essa a função mental que fundamenta a possibilidade de nos tornarmos reais.

Concomitantemente com a tomada de consciência da falta, o “eu” sofre a experiência da integração. Passa e ser mais completo e adquire maior autonomia sobre suas escolhas. Isso por reconhecer-se a si mesmo, também em suas limitações e se propondo, a partir daí, a expansão das habilidades e de suas possibilidades.


Para aquele que se aventurou, mesmo que brevemente nos estudos do desenvolvimento do pensar, não é novidade alguma que o bebê aprende a pensar justamente na ocasião da ausência da mãe. Isso se dá quando o instinto de nutrição na forma primitiva da pulsão, o incomoda e por alguma razão a mãe não pode estar prontamente à disposição. Iniciam-se então tentativas imaginativas ou alucinatórias quanto a essa experiência. O bebê tenta imaginar o que poderia acontecer para que aquele desconforto (gerado pela fome) do qual sua capacidade primitiva ainda não permite compreensão, seja extinto.

Dentro desse ensaio, quando o bebê pode ser capaz de recordar experiências suficientemente boas com a mãe (real), para que seja possível sustentar essa falta, abre-se então a possibilidade daquilo que chamaremos aqui de pensamento simbólico. A falta é assim, sustentada por um símbolo, que servirá de amparo até que o objeto desejado (a mãe real) retorne. A partir de certa experiência que confirma a mãe na realidade, passa-se a tolerar com maior capacidade os períodos de sua ausência.
Logo, a função simbólica é o que qualifica o grau de maturidade emocional, pois é a capacidade de tolerar a falta da mãe da qual se intuiu real. Isso não qualifica apenas para enfrentar a ausência materna na primeira infância, mas serve como um modelo de simbolização que evoluirá na função de tolerar todas as faltas que permearão a vida daquele que busca se tornar real.

Para o psicanalista Wilfred Bion (1897 – 1979), “A incapacidade de tolerar frustração poderá obstruir o desenvolvimento dos pensamentos e da capacidade de pensar” (Bion [1952], 1994, p. 131). Bion apoia que o bebê começa a pensar quando se torna capaz de toleras a falta da mãe.

Wilfred Bion (1897 – 1979)

“se a capacidade de tolerar a frustração for suficiente, o não-seio se transforma em pensamento, e desenvolve-se um aparelho para “pensá-lo” (...) A capacidade de tolerar a frustração, portanto, possibilita que a psique desenvolva o pensamento como um meio através do qual se torna mais tolerável a frustração que for tolerada” (Bion [1952], 1994, p.129).


No entanto, na incapacidade de simbolizar, o sujeito fica preso à confirmação compulsiva da realidade. Isso ocorre por não cofiar na experiência que pode ter com a realidade. Vê-se então, impelido a se certificar repetidamente se ainda existe. Mesmo sendo adulto o sujeito revela uma forma de se vincular com o mundo, com a configuração primitiva de um bebê, que se desespera quando precisa da mãe e não pode confirmar sua presença. Ou ainda pode, em casos mais severos, de maneira psicótica, desistir definitivamente desta mesma realidade. Através de recursos narcisistas, desvaloriza a realidade e se aprisiona dentro de si mesmo.

Talvez por esse motivo o ser humano venha se dedicando tanto a desenvolver recursos para se manter a maior parte do tempo acreditando na ilusão de que nada pode ser perdido realmente. Acreditando nisso, muito pouco ou quase nada se dedica a desenvolver a capacidade de suportar a situação de perda, ou de tolerar faltas.

Desenvolve métodos avançadas para tentar dar conta da criação de meios para que não se sinta a carência de ninguém e não sinta a falta de nada. Através de tecnologias aperfeiçoadas, cria aparelhos que o mantém interligado constantemente com o outro, para que não sinta que está distante, ou esqueça que perdeu.
Na medicina, cria técnicas de cirurgias plásticas cada vez mais eficazes para afastar a verdade de que seu corpo está perdendo a juventude e decaindo com a idade.
Por meio de medicamentos psiquiátricos também simula uma sanidade para afastar a realidade de seu desequilíbrio mental. Isso quando não despreza experiências fundamentais e num funcionamento esquizofrênico desvaloriza aquilo que na realidade nunca pode ter. Desdenha justamente por nunca ter vivido. Vínculos fundamentais como os com a mãe, ou com o pai, perdem o valor. Na realidade essas figuras fundamentais nunca estiveram ali, perder o que (ou quem), então?


Esforçando-se então no intuito de uma tarefa danosa ao funcionamento saudável da mente, ele busca soluções para construir uma pseudo-realidade onde não se perde mais nada e também não se sente mais falta de ninguém.





Bion,W. R. [1952]. Uma teoria sobre o pensar. In: Estudos psicanalíticos revisados – Second thoughts. Rio de Janeiro: Imago, 1994.


Martino, R. D. Para Além da Clínica. São Paulo: Inteligencia 3, 2011.
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terça-feira, 18 de outubro de 2011

DA CULPA À RESPONSABILIZAÇÃO

Questionar sobre as maneiras como nos vinculamos às pessoas e às coisas do mundo não é muito comum na prática da vida cotidiana. O conceito de amor, assim como o de ódio, é onde isso parece sofrer maior privação do pensar. Talvez por gerar um aborrecimento indesejado, que muitas vezes acaba por converter-se em crise. De qualquer forma, tomo a atitude de escrever algumas linhas sobre alguns modelos de vínculo, tendo como princípio o fato de que as crises, quando acolhidas dentro de certo ambiente saudável, são justamente o que permite a expansão do pensamento. 
Quantas vezes nos propomos a refletir sobre nossos vínculos? De que forma estamos ligados ao outro e porque insistimos em continuar dessa forma? Por que não conseguimos nos vincular ao outro, ou ainda, por que nos desligamos tão facilmente?
Quando inundados pela culpa criamos uma forma especial de vínculo. Sentindo-nos culpados, somos defensivamente obrigados a nos refugiar nos domínios do nosso mundo interno. O sentimento da culpa força-nos a nos desfocarmos o olhar que seria dirigido ao mundo externo e sugere a focar-nos a atenções em aspectos internos. Isso com o intuito de restabelecer o bom funcionamento da mente. Toda energia mental é agora concentrada no mundo interior, onde está a culpa. 
Assim como no funcionamento primitivo do bebê em sua primeira infância, onde pouco reconhece do mundo, além dele mesmo, também naquele que carrega uma culpa, a energia psíquica está dirigida para o eu. A partir da experiência da culpa, o ego fica desvalorizado, enfraquecido, desnutrido. Independente da realidade dos fatos, a culpa faz do 'eu' um criminoso, e dessa forma toda e qualquer energia da mente deve se colocar em função e aos cuidados desse ego desnutrido. Logo, o sujeito acometido pela culpa deve reunir características egoístas.
Não é absurdo propor que cada experiência de perda, ou mesmo de ameaça de perda, implica em certa cota de sentimentos de culpa, no questionamento do quanto se conseguiu realmente cuidar do que se foi. Assim, essa forma da mente trabalhar se instala, ocupando o funcionamento mental, muitas vezes, levando a autorrecriminação, e até autopunição. Quanto maior a dependência para com o objeto que é ameaçado pela perda, ou mesmo, o objeto que foi perdido, tanto maior a culpa implicada na experiência. 
Dentro dessa perspectiva, a relação com o mundo externo, nos vínculos com o outro, só pode ser sustentada com o intuito de afastar, ou aplacar o desconforto ocasionado pela culpa, ou ainda, em função do medo da perda. Nada pode ser construído, nada se edifica, pois toda energia centraliza-se no intuito de restabelecer a harmonia do aparelho mental. O objeto externo, nessa situação, já não pode mais ser chamado assim, isso por conta da dependência dele para o funcionamento mental do sujeito. O eu e o outro se confundem, não podendo ser separados. Dessa forma objeto interno e objeto externo se fundem. 
Pelo menos a priori, a culpa tem sua origem na fantasia. Isso quer dizer que não depende da confirmação da realidade para se sustentar. É oriunda de experiências ocorridas no passado que o hoje não pode atestar.
Sigmund Freud
(1856 - 1939)
Assim como coloca Sigmund Freud (1856 - 1939), o administrador da culpa é um agente crítico componente da estrutura mental do qual denominou superego, ou ideal de eu. Esse influente de censura, gera um "deveria ser" e pega emprestado da racionalidade fatos isolados e condena o 'eu' como se essas partes da realidade fossem o todo.

A partir da construção dessa conjectura quanto à culpa, podemos dizer então, que enquanto a mente está ocupada em cuidar da culpa, se vê impedida de responsabilizar-se pela realidade. 
A responsabilização, diferente da culpa, é um movimento do ego estruturado e nutrido. Um ego sadável qualifica o sujeito, aquele que se reconhece, aprendeu a respitar a si mesmo, se responsabiliza e assim, se expande em direção ao mundo, em nome da realização. Contudo, aquele que está culpado se encontra impedido  de realizar. 
A realização parte justamente da capacidade de responsabilizar-se por tudo aquilo que foi gerado a partir do encontro com o que está para além do eu (o outro). Essa responsabilização deve contar com o espaço mental que ocupará essa ideia. Uma mente entulhada de culpa não pode conter responsabilização. O sujeito responsável está ocupado em realizar, enquanto que o culpado está preocupado com suas culpas. A pré-ocupação é sempre perigosa e um sinal claro da presença da culpa. Aquele que, intoxicado pela culpa, se pré-ocupa com o futuro (ou mesmo com o passado), está impedido de ocupar-se do presente, único lugar do tempo que pode guardar a realidade.
A responsabilidade é um conceito que está na ordem da ética, enquanto a moral se utiliza da culpa. A verdadeira responsabilidade (assim como outras atitudes éticas) deve ser incorporada quando criança, e isso se dá através da identificação no vínculo com os pais, nunca imposta em um padrão de educação pré-estabelecido. 
Já tivemos a chance de refletir sobre os conceitos de respeito e reconhecimento, e assim parece claro que, quando se é reconhecido pelo outro, abre-se então a possibilidade do auto reconhecimento, e a partir daí então se torna capaz de reconhecer o outro. Tendo como hipótese que o amor é uma capacidade desenvolvida a partir da experiência do reconhecimento, então podemos propor que aquele que não se encontra capaz de amar pode ver na culpa um modo de manter-se ligado ao outro.
A desvalorização ocorrente no ego culpado o faz incapaz de se responsabilizar por si mesmo. Isso pode levá-lo a esconder dele próprio as piores características, justamente por se ver incapaz de se responsabilizar por isso. Contudo, estas mesmas características não deixarão de existir, permanecerão ali, atuando no funcionamento mental, mas agora resguardadas pela culpa, aparecem como se fossem responsabilidade do outro.




Capítulo do livro: O amor e a expansão do pensar : das perspectivas dos vínculos no desenvolvimento da capacidade reflexiva / Renato Dias Martino. - 1. ed. - São José do Rio Preto, SP : Vitrine Literária Editora, 2013.










quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Tolerância Já!

Entrevista de Soraya Pericoco com Prof. Renato Dias Martino

Como você aborda a tolerância dentro do seu livro?

Prof. Renato Dias Martino - No livro “Para Além da Clínica”, uso o conceito de tolerância como um dos recursos fundamentais para pensar o conceito de “verdade”. A capacidade de tolerar a dúvida é justamente o que pode nos direcionar para a verdade. Quero propor que quando não se é capaz de tolerar, acabamos chamando de verdade algo que está bem distante disso. S. Freud (1856-1939) traz uma importante colaboração quando nos sugere que a tolerância é a base da capacidade de pensar. Para que exista pensamento é necessário que se possa tolerar o impulso que parte do nosso mundo interno.


Como estão relacionados a intolerância, o imediatismo e o consumismo?



Prof. Renato Dias Martino - Se pudermos partir de uma tentativa filosófica, poderíamos dizer que, a intolerância é filha do desejo e quando ela não pode ser educada pela esperança é uma grande candidata a converter-se em consumismo. Os convites para nos tornarmos intolerantes estão por todos os lados, não obstante, as oportunidades para desenvolvermos a tolerância são raras. Porém, não podemos deixar de lado a aplicação negativa da tolerância. A tolerância passa a ser nociva ao bom funcionamento mental quando não pode contar com a esperança. Um sujeito tolerante, mas ausente de esperança é alguém acomodado. A intolerância, quando surge numa mente saudável, pode ser um bom sinal. Uma notícia de que algo ameaçador está ocorrendo e que seria prudente se defender.

Você acredita que as pessoas estão mais dispostas ao autoconhecimento e ao desenvolvimento humano?


Prof. Renato Dias Martino - Não, não acredito nisso. Essa disposição é muito rara no ser humano atual. Gabamo-nos de sermos animais pensantes, mas na verdade, ainda usamos muito pouco dessa capacidade. Na maioria do tempo agimos muito mais que pensamos e só refletimos sobre nossas ações mais tarde. Ainda teremos que nos dedicar muito para o exercício da autorreflexão para chegarmos a uma real evolução nessa direção.

Outra questão que considerar relevante relacionado a tolerância?


Prof. Renato Dias Martino - A tolerância assim como todos os conceitos que nomeiam nossos sentimentos e experiências emocionais, tem seu lugar adequado dentro do funcionamento mental, por tanto através do autoconhecimento cada um desses conceitos deve encontar sua melhor adequação, sem seu uso indiscriminado.

Prof. Renato Dias Martino
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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

SOBRE TORNAR-SE A SI MESMO

Para que haja um bom funcionamento do organismo, o corpo deve contar com o sistema imunológico que combate possíveis microrganismos invasores. Essa organização de defesas, além disso, é responsável pela manutenção de purificação do organismo. Na retirada de células mortas para a renovação das estruturas orgânicas e também afastar células alteradas, que nascem anormais e se não forem extintas, podem gerar tumores.


Assim como ocorre nos organismos, também uma mente saudável deve contar com recursos defensivos prontos a atenderem as demandas em prol de um funcionamento adequado. É próprio do funcionamento mental, o movimento de auto-preservação. E aquilo que constitui a “verdade do eu” não está excluída dessa perspectiva. Quero apoiar que por conta de certo pressuposto de fragilidade, o questionamento das próprias verdades é algo muito raro no funcionamento mental do humano. Ainda que o próprio funcionamento mental dependa fundamentalmente disso para viver experiência de expansão e então poder ser chamado de saudável.


No decorrer da vida emocional o sujeito evita até as ultimas consequências examinar com cuidado aquilo que se tem como verdade. Evita-se questionar o próprio saber, naquilo que se acredita realmente ser. Evitamos todo tempo refletir se somos realmente aquilo que imaginamos ser e de que forma estamos sendo. Evitamos analisar sobre aquilo que sentimos. Dificilmente questionamos se aquilo que chamamos de medo, inveja, ou amor, ainda faz sentido como tal. Muitas vezes chegamos a evitar até questionar o que realmente temos.Evitamos pensar se aquilo que chamamos de “meu”, mesmo depois de certa reflexão, ainda se confirma na realidade. Apenas crescemos, nos tornamos adultos e agora passamos a acreditar que já “sabemos de tudo”, crendo que nos conhecemos a nos mesmos completamente.

Nisso que chamamos aqui de funcionamento mental existe um conflito constante. Certa disputa inexorável entre dois princípios da qual propusera Sigmund Freud (1856-1939) em seu texto “Formulações sobre os dois Princípios do Funcionamento Mental”publicado em 1911. De um lado um modelo primitivo de funcionamento, apoiado na noção de que o “eu” e o “tudo” coincidem, Freud denomina esse modelo de processo primário.Por outro lado Freud descreveu outro funcionamento que busca ligação com aquilo que existe além do eu, denominado por Freud de processo secundário. Na primeira infância é vivida a primeira experiência de passagem de um modelo de funcionar para o outro. Entretanto, essa passagem só pode ocorrer se o bebê pode contar com um ambiente suficientemente bom, onde possa se sentir seguro para acreditar naquilo que está para além dele mesmo. Se pudermos sugerir aqui a teoria de Wilfred Ruprecht Bion (1897 —1979), contando com um ambiente continente formado por invariâncias proporcionado pela mãe, o bebê que em sua primeira etapa da vida é simplesmente conteúdo de pura transformação, pode ser contido e ganhar forma para si mesmo (1963). Nessa mesma configuração a mente trabalha o tempo todo na tarefa de passear entre os dois processos, hora buscando a expansão no vínculo com o outro, hora recolhendo-se defensivamente.
É interessante termos a mão o pressuposto de que a parte inconsciente da mente é imensamente maior do que essa parte ínfima da qual podemos chamar de consciente. Isso nos permite afirmar que mesmo sendo o processo secundário a função mais evoluída dos processos mentais, apenas uma parte da mente funciona assim. Na maioria do tempo, o aparelho psíquico funciona pelo processo primário, onde o pensamento mágico impera. Justamente a forma de “pensar” que está disponível a um bebê em seus primeiros anos de vida.


Dessa forma, aquilo que chamamos de “eu” tem grande ligação com aquilo que desejamos ser e liga-se em grau inferior com aquilo que realmente somos. Daí vem a dificuldade em questionar as próprias verdades. E é antes de tudo um modo de preservar aquilo que já se tem, contudo é também um sinal de descrédito a própria capacidade de expansão do pensamento. Isso ganha maior importância na medida em que se percebe que assim que nascemos, logo iniciamos um processo inevitável de esquecermos quem realmente somos, para nos tornarmos aquilo que o outro deseja. E no decorrer da vida podemos levar isso a tal consequência, que acabamos por abandonar nosso eu verdadeiro em troca de assumirmos um falso eu, criado em prol da aprovação do outro.


Wilfred Ruprecht Bion
(1897 —1979)
       “Em uma idade precoce, nós já aprendemos não só a não ser nós mesmos, mas quem devemos ser”. Bion (1978-80, p.g. 76)


O ser humano é sem dúvidas, uma espécie de animal extremamente inteligente aprende com muita facilidade. Aprendemos truques para sobreviver, aprendemos a identificar muito cedo o desejo do outro e passamos a desempenhar truques com o intuito de sermos aprovados. Contudo, nessa tarefa de aprender e executar truques, abandonamos a capacidade de intuir, que é algo fundamental para o funcionamento saudável da mente.
Essa experiência leva ao distanciamento do eu verdadeiro que guarda nossa essência, nossa identidade. Abandonando a manutenção dessa parte do eu, vamos nos tornando desconhecidos de nós mesmos. Esquecemos nosso desejos não reconhecemos nossos medos e dessa forma, passamos pela vida sem nos preocupar em reconhecer quem somos. Não nos ocupamos em criar um vínculo saudável com o “si mesmo” e então empobrecemos o verdadeiro eu. Daí por diante, não suportamos a nossa própria companhia. Desse modo não toleraremos ficar sozinhos, por mais breve período que seja. Acabamos assim, nos vendo cercados de gente que nos trata tão mal quanto nós mesmos nos tratamos. Talvez por não percebermos que poderemos nos livrar de todos que nos rodeiam, menos de nós mesmos.

BION, W.R. (1992). CONVERSANDO COM BION. Quatro discussões com W. R. Bion (1978). Bion em Nova York e em São Paulo (1980). Rio de janeiro: Imago.
__________ (1965). TRANSFORMAÇÕES. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

FREUD, Sigmund. EDIÇÃO BRASILEIRA DAS OBRAS PSICOLÓGICAS COMPLETAS - Edição Standard Brasileira, IMAGO (1969-80)




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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O FUNCIONAMENTO MENTAL DO TORCEDOR

Aspectos da mente grupal na perspectiva individual

Não é novidade alguma, pelo menos para aquele que se arrisca na tarefa de estudar as vicissitudes da mente, que o esporte é um excelente instrumento de elaboração de inúmeras experiências psicológicas. Impulsos de rivalidade, naturais da mente humana, encontram um bom recurso para serem elaborados e sublimados por meio de atividades esportivas, ou mesmo na torcida, para um esportista, uma equipe, ou um time.
Sentimentos e emoções referentes à competitividade e à disputa estão presentes no desenvolvimento mental do ser humano e buscam no mundo uma representação simbólica dessa ordem de experiências. Quando impulsos dessa ordem não encontram representação em recursos como o do esporte, podem se manifestarem como agressão e violência.
Quero propor que existe uma necessidade básica de se vivenciar experiência dessa ordem e o esporte parece ser um meio saudável para isso. Um sujeito que não encontrou um meio saudável para viver sua rivalidade, certamente o fará em algum lugar impróprio e de forma inadequada.
Tentará viver isso no ambiente de trabalho, em seu casamento, ou mesmo de forma interna, quando o sujeito se divide em dois e passa a competir com ele próprio, não conseguindo tomar seu caminho e segui-lo para se desenvolver em sua vida.
Contudo, o sujeito que guarda em si uma cota muito grande de impulsos competitivos não elaborados, pode encontrar na sua equipe esportiva, ou ainda em sua torcida, um ambiente que o transforma, ou revela certas características das quais fora desse contexto estariam latentes. Escondidas por de traz de certa polidez social, velada por normas civilizatórias necessárias para um bom convívio.
Certas características presentes no sujeito em situação de isolamento, ou seja, sozinho, se transformam quando ele está em grupo. Como uma indefesa sardinha que isolada estaria extremamente vulnerável, mas que em grupo sente-se protegida por confundir o predador que se afasta, pois, vê o cardume como se fosse uma enorme criatura, o sujeito também se sente protegido no resguardo grupal.
Sentimentos e emoções que são impedidos de serem revelados na vida polida pela civilização, encontram nas equipes e torcidas, um ambiente seguro para se manifestarem. É como se as diferenças individuais se dissolvessem enquanto o sujeito se encontra protegido pelo grupo. Isso toma uma proporção tão grande que muitas vezes, mesmo solitário na frente de seu aparelho de televisão, o sujeito se sente tão integrado a torcida que seus desejos e emoções se mantêm ligados a toda a nação torcedora como um só anseio.
Assim, em grupo as normas de conduta já não são as mesmas que aquelas de que o sujeito tivera que responsabilizar-se quando solitário. Sigmund Freud (1856-1939), o pai da psicanálise, publica em 1921 seu ensaio “Psicologia das Massas e Análise do Ego” e introduz a necessidade de se refletir sobre o assunto.



Sigmund Freud (1856-1939)
“Partimos do fato fundamental de que o indivíduo num grupo está sujeito, através da influência deste, ao que com freqüência constitui profunda alteração em sua atividade mental. Sua submissão à emoção torna-se extraordinariamente intensificada, enquanto que sua capacidade intelectual é acentuadamente reduzida, com ambos os processos evidentemente dirigindo-se para uma aproximação com os outros indivíduos do grupo; e esse resultado só pode ser alcançado pela remoção daquelas inibições aos instintos que são peculiares a cada indivíduo, e pela resignação deste àquelas expressões de inclinações que são especialmente suas.” (Freud 1921. P.g. 35).


Freud revela com muita propriedade que a vida grupal pode trazer importantes benefícios ao sujeito, o fortalecendo e o defendendo de inúmeras ameaças, contudo, essa mesma experiência grupal compromete severamente a capacidade intelectual assim como a capacidade de pensar por si mesmo. O sujeito mais educado quando distante do grupo, incluso no ambiente grupal (e como vimos o torcedor que acompanha pela televisão, não é diferente) pode se tornar um bruto, perdendo grande parte de sua fineza.

Isso acontece porque aquele que se encontra no ambiente grupal se vê forçado a abandonar sua verdade individual e compartilhar da verdade grupal. Verdades essas que muitas vezes não coincidem. Assim, nessa experiência reside um fato de grande importância, pois o ambiente grupal traz também a chance de responsabilizar o grupo por certos impulsos do sujeito, dos quais sozinho não teria coragem de fazê-lo.

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