quarta-feira, 14 de agosto de 2013

SOBRE A FUNÇÃO DO PAI

Não acredito que exista uma receita que ensine como ser um bom pai, entretanto, não existe dúvida que é preponderante no desempenho da função paterna grande capacidade de tolerância. Se estivermos falando de experiências emocionais, a definição de limites, sempre enriquecida de carinho é a principal característica dessa função e é exatamente por isso que sua presença se faz tão importante. É através das vivencias com o pai que o sujeito tem chance de desenvolver seus próprios limites sem agredir a si mesmo.
O estabelecimento de limites é característica central da presença emocional paterna. É do pai a função de dizer “não”, por exemplo, quando a mãe faz isso é sempre em nome do pai: “Espera só seu pai chegar!”, entretanto essa definição deve contar com uma boa dose de afeto. A ausência do afeto nessa experiência resulta na criação de um funcionamento cruel com ele mesmo. Formam-se limites preestabelecidos para si próprio, através de mecanismos rígidos de imposição de regras. Isso é gerador de uma série de conflitos psicológicos, podendo até, em alguns casos, se manifestar fisicamente. Em casos extremos o sujeito pode romper com esse modelo e de forma inversa se entregar a formas subversivas, desregradas e sem limites, como o resultado de uma revolta às leis impostas sem afeto.
Ora, não deve ser motivo de surpresa afirmar que o perfil da figura paterna e também da presença materna, sofreram algumas alterações nas últimas décadas. No estudo da psicanálise aprendemos que o ser humano tem duas formas de funcionar mentalmente; uma delas com características egoístas ou narcisistas, que usa normalmente para se defender; e outra forma que, quando mais confiante de si, se dispõe a ligar-se e dedicar-se ao outro. Essas duas formas de funcionar disputam lugar na personalidade do sujeito, contudo, encontram convites sedutores na constituição de uma sociedade consumista. Esses convites têm forçado o sujeito a funcionar muito mais de forma narcisista e isso compromete diretamente as funções básicas, como é o caso da materna e também a paterna. 
A vivencia no desempenho da psicanálise clínica, assim como o exercício da docência no ambiente de ensino, revela que na verdade a realidade que vivemos hoje existe muito pouco espaço para essas funções básicas, pois, são raros os lares que podem contar com a presença da mãe, as crianças são criadas pelas avós ou por babás. A presença paterna, então, é mais rara ainda.
Uma criança é gerada no encontro entre duas pessoas, e só através desse encontro de realidades é que será garantida certa saúde emocional. A privação da experiência dessa incidência de realidades, porém, resulta na formação de sérios conflitos que, sem duvida comprometerão essa criança na forma de se relacionar com ela própria e assim, também com o outro.
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Prof. Renato Dias Martino 
Psicoterapeuta e  Escritor
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segunda-feira, 12 de agosto de 2013

SE TORNAR DESNECESSÁRIO

A proposta de tornar-se desnecessário para o outro merece aqui um olhar atento. Logo de inicio essa reflexão já deve causar algum desconforto, se não for pensada com muito cuidado pode facilmente ser confundida com certo movimento de desprezo, falta de cuidado, ou de ausência afetiva. No entanto, a proposta aqui é a de abrirmos um espaço para reavaliarmos a qualidade dos vínculos estabelecidos na ordem emocional. 
A situação da imaturidade emocional-afetiva, ou mesmo a ocasião de certa fragilidade nessa ordem de funcionamento, pode induzir a uma visão de descrédito quanto à capacidade de amar e isso, sem dúvida pode levar o sujeito a travar vínculos menos saudáveis e de menor qualidade afetiva. Entretanto, através de que elemento poderia manter-se um vínculo que não contasse com afeto? Pois bem, se o vínculo não pode contar com o amor, para que se mantenha ligado pode cultivar então certa condição de dependência, que na verdade é natural no início dos relacinamntos que podem via a desenvolver o amor. Ainda assim, na ocasião da obstrução no processo de maturação-emocional afetiva, a dependência pode via a ser um elemento que mantém pessoas ligadas por muito tempo, se não pela vida toda.

O vínculo de dependência está compreendido na ordem das alienações. Quando cristalizado, pode via atrazer a ilusão prazerosa da resposta, traz a sensação de garantia e saciedade que desmotivam o sujeito de questionar. A certeza é sedutora e envolve o sujeito num micro mundo de impossibilidades. Relações que se mantém obstruidas nessa ordem e não conseguem evoluir alem disso, são limitadas de tal forma que não podem abranger características como a de consideração com o outro, ou respeito mutuo. O outro passa a existir somente para satisfazer e sendo assim não pode ser chamado de outro. A introdução do respeito na experiência do vínculo é o que pode possibilitar a reflexão, prejudicial aos estados cristalizados na dependência. A reflexão coloca em xeque a situação de dependência e propicia a expansão para um modelo mais maduro. 
Ainda assim, o modelo de vínculo da dependência é inevitável e se dispõem como condição imprescindível para que haja a evolução em modelos mais bem elaborados e que possam contar com a capacidade afetiva. De início o bebê não é capaz de amar. Não pode retribuir o amor dedicado da mãe, ele simplesmente é dependente dela e necessita dela para viver. Só aos poucos e sendo irrigado de muito afeto, ele passa a desenvolver a capacidade de retribuir esse amor. 
Dediquemo-nos agora a refletir um pouco sobre necessidade. Aquilo que está na ordem das necessidades básicas, funda um vínculo de dependência. Depende-se daquilo e isso passa a configurar-se assim, como um ponto inquestionável. Não se encontrando nos domínios de nossas escolhas, distante de qualquer questionamento.  A palavra necessidade tem sua origem no Latim NECESSITAS, “compulsão, necessidade de atenção”, de NECESSE, “inevitável, indispensável”, originalmente denotando “sem volta”, composto por NEC, “não” e CEDERE, que quer dizer “recuar, ceder”. 
Assim como do oxigênio somos dependentes e se não inalarmos o suficiente desse elemento do ar, morreremos. Por conta desse modelo de relação, não cabe nessa experiência o gostar ou não gostar, simplesmente se necessita disso. Assim também o bebê não ama a mãe, simplesmente necessita dela e a partir disso pode aprender, ou não a amá-la.
Quando aplicamos esse modelo na perspectiva emocional fica claro que, o estabelecimento de vínculos saudáveis é o que pode trazer recursos para esse desapego das satisfações sensoriais. Sendo assim, abrem-se as possibilidades de ligações, onde aquilo que une o eu ao outro não se encontra simplesmente, ou tão somente no nível da satisfação da necessidade. Se tornar desnecessário é uma chance de permitir que o outro estabeleça um amor verdadeiro e para isso essa experiência deve se encontrar para além do modelo primitivo de vínculo da dependência. 
Quando nos propomos a reconhecer as experiências emocionais-afetivas, percebemos que, para que uma mente possa funcionar bem e de maneira saudável, é fundamental que seja irrigada e muito bem nutrida por vínculos afetivos de qualidade. As relações afetivas saudáveis abrem a possibilidade de reconhecimento da verdade do mundo, da realidade tanto do eu quanto do outro, propiciando um acordo com a realidade. A partir dessa experiência o sujeito se vê mais capacitado para conviver com a dúvida e os questionamentos que são à base da consciência da realidade. Esse pressuposto aqui postulado é necessário para que possamos prosseguir no intuito reflexivo desse texto. Isso equivale dizer que sem essa premissa de que o afeto é fundamental para o bom funcionamento mental, todo o ensaio perde o sentido.
A ação de maternagem suficientemente boa é aquela em que a mãe, gradativamente, vai se fazendo desnecessária conforme o desenvolvimento da criança. Diante da missão realizada e tendo a maturidade do filho como sinal do resultado disso, agora a mãe e o pai, devem iniciar um doloroso processo de tornarem-se dispensáveis. Sendo então desnecessários, poderão agora desfrutar do verdadeiro amor, livre de dependências. O amor quando nutrido da verdade, liberta.
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sexta-feira, 9 de agosto de 2013

O uso do “eu sei”

Por que dizer “eu sei”?
Será porque sabemos realmente?
“Só sei que nada sei”.
Sócrates (496-470 a.C. / 399 a.C.) tornou essa máxima como seu lema e o imortalizou.
Sócrates 
(496-470 a.C. / 399 a.C.) 
Mas, se não conhecemos a nós mesmos, o que
sabemos então?
Estudamos anos a fio certa coisa e um dia nos damos conta que sabemos muito pouco sobre ela. A satisfação que obtemos com a sensação do “saber” é realmente gratificante, mas penso ser útil encará-la como um domingo de descanso em uma semana de
labuta, onde o ponto de interrogação é o norte do desenvolvimento e da expansão. Quando não temos dúvidas, nos acomodamos. As certezas são as maiores ilusões criadas pela mente humana. Contentamo-nos com a certeza quando nos vemos incapazes de continuar a questionar e não porque estamos realmente certos.
Maurice Blanchot (1907-2003)

Maurice Blanchot (1907-2003) diz:
“La réponse est le malheur de la question” - 
“A resposta é a desgraça da pergunta”. (2002)

A única certeza é a morte.
Logo, buscar incessantemente certezas e garantias é o equivalente a buscarmos a morte: a morte da pesquisa, a morte do amor (sentimento rico em incertezas), a morte da busca da vida.

“Navigare necesse, vivere non est necesse” no latim, “navegar é preciso, viver não é preciso”, frase de Pompeu, general romano (106-48 a.C.), foi dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra, cf. Plutarco, in Vida de Pompeu.
O poeta português Fernando António Nogueira Pessoa (1888 - 1935), ressuscita a ideia com a condição de que: “viver não é necessário,  o que é necessário é criar”.
A criação parte da falta de algo. Criamos aquilo que ainda não existe e, se não existe, logo não sabemos. Quando dizemos: “eu sei”, encerramos a busca. Já sabemos, logo; não há nada a aprender. Muitas vezes, pronunciamos “eu sei” antes mesmo do outro concluir o que quer dizer. É uma maneira de não dar muita atenção
ou de ignorar alguém.
Quando respondemos automaticamente: “eu sei”, o que realmente dizemos é “não estou ouvindo o que você diz”. Assim, tiramos o valor do discurso do outro. É como se parássemos de ouvi-lo por achar que já sabemos tudo o que há para saber.
Sempre que ameaçados, nos vemos impelidos a nos defender.
Pode-se dizer, “eu sei” quando encontrar-se tomado por ansiedade, enquanto se espera a vez de falar. Também quando, simplesmente, não estamos dispostos ou interessados em ouvir. Seja qual for o motivo, essa reação impede que possamos aprender coisas que podem ser importantes.
Em um ato de descrédito em si mesmo e na própria capacidade de aprender, criamos um abismo entre o “eu” e o outro.
O “eu sei” pode servir como uma defesa para aquele que se sente ignorante e envergonhado, por realmente não saber.
Defendendo-se assim, acaba por não aprender.


Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
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sexta-feira, 26 de julho de 2013

O vínculo bem dito das ligações afetivas na perspectiva psicanalítica

Evento será realizado em Brasilia, DF
(Devido a imprevistos, houve mudança no local. Agora será na ALIANÇA FRANCESA, 708 SUL)

segunda-feira, 22 de julho de 2013

SOBRE AS EMOÇÕES

As emoções permeiam a vida mental e sem dúvida, uma mente que está funcionando de maneira saudável depende de emoções positivas para tanto. Já as emoções negativas colocam a mente em alerta e dessa forma, uma mente constantemente sujeitada a essa ordem de emoções, tem o seu funcionamento saudável abalado e assim, seu desenvolvimento é comprometido. 
Se a proposta aqui for falarmos da perspectiva mental, então a saúde física não deve ser mais que um representativo externo dos processos que ocorrem internamente, no nível psíquico. O dito popular, “mente sã, corpo são”, não é uma mera colocação sem sentido, mas é a forma natural das articulações dos arranjos que ocorrem entre as dimensões do “eu”. 
Alguém inundado de emoções negativas não pode ser capaz de reconhecer seu próprio valor (autoestima) e então, dificilmente respeitará seu corpo, para que possa cuidar e dedicar manutenção à saúde física. Além do mais, não é novidade alguma o fato de que inúmeras enfermidades físicas se originam de um grande ressentimento que ficou impossibilitado de ser pensado, por ser extremamente doloroso. Uma mente que for constantemente submetida às emoções negativas, tenderá a criar de forma inconsciente um representante no corpo físico e isso se manifesta como doença.
Emoções são geradas nos processos psíquicos que dependem de uma boa condição de interação entre a realidade interna, que é repleta de ilusões e a aspereza da realidade externa. Certa interação entre aquilo que se deseja que a realidade seja (interno) e aquilo que a realidade realmente é (externo). Quanto melhor for a qualidade de interação entre essas duas dimensões, tanto maior será a chance de se experimentar emoções positivas.
Da mesma forma, emoções negativas são originárias de uma interação mal sucedida entre mundo interno e mundo externo. É importante ressaltar que emoções negativas são mais frequentes que as positivas, pois, a realidade externa é sempre dura e dolorida.


As emoções negativas podem seguir caminhos diferentes, dependendo da capacidade emocional do sujeito que experimenta tal emoção. Quando se pode contar com certa maturidade emocional (tolerância à frustrações), as emoções negativas podem servir como oportunidade para uma evolução no desenvolvimento, como na tomada de consciência de algo que faz mal ao funcionamento mental. Já numa mente fragilizada de mais, ou mesmo quando muito imatura, a emoção negativa será vivida com severos prejuízos que podem ser percebidos num comprometimento na realização de tarefas básicas do dia a dia. Em casos mais graves, aparecem como dificuldades ou impedimentos na capacidade de estabelecer vínculos afetivos, tanto com o outro quanto no desempenho do amor próprio, podendo culminar até na doença física.

As emoções positivas convivem constantemente com as negativas, povoando nossa mente e está distante do nosso alcance controlar sua frequência. O que me parece ser possível de ser feito, de maneira real é o cultivo de bons vínculos afetivos, para que possamos nos nutrir constantemente do amor do outro. Isso será útil quando o nosso amor próprio estiver enfraquecido e não se encontrar irrigado de pensamentos positivos.
A cultura contemporânea com todos seus recursos das ciências tecnológicas nos trouxe a ilusão do domínio de áreas que na realidade estão longe de serem dominadas. Apesar de algumas teorias psicológicas trazerem a proposta da disciplina, se estivermos aqui falando da dimensão das emoções, o conceito de disciplina não se aplica. A disciplina sufoca a emoção e isso coincide justamente com a emoção negativa. 
Não podemos disciplinar emoções, o que podemos fazer é humildemente respeitá-las e cultivar bons vínculos que nos ajudarão na manutenção dessa ordem de experiências. Aquele que imagina dominar suas emoções com disciplinas, na realidade não faz mais do que esconder de si mesmo, suas maiores fragilidades. Se existe algo que possa dar conta dessa ordem de experiências, isso deve estar no amor, no cultivo dos bons vínculos afetivos e não numa “educação disciplinar”.

Não vejo qualquer maneira de se tratar da questão das emoções com propriedade sem poder contar com a base fundamental do amor na forma do vínculo afetivo. É através do vínculo afetivo de qualidade, que as emoções podem ser vividas de forma saudável. Isso pois, quando nos sentimos amados nos vemos bem integrados e assim podemos tolerar mais as emoções que nos acometem. Contando com a capacidade de tolerar as manifestações das emoções, as consequências delas são sempre mais brandas.





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segunda-feira, 8 de julho de 2013

O real e a idealização (do real)

O conceito de desejo, no Dicionário Aurélio (2002) está definido como ato ou efeito de desejar; vontade de possuir ou de gozar; anseio, aspiração, cobiça ambição; vontade de comer ou beber; apetite sexual. Quando nos propomos a cogitar sobre esse fato,
falamos da inconsequência de Eros (deus do amor), filho de Afrodite (deusa da beleza). O mito de Eros, na primeira fase de sua vida, é mostrado como uma criança pequena, mesmo com o passar dos anos. 
Dentro de sua etimologia, a palavra desejo tem sua origem do latim desidiu, que tem seu inverso em considiu. A palavra sidiu ou ainda siderare quer dizer astro. E enquanto con traz a referência de vínculo, des traz a ideia de desvinculação. Logo, estamos falando de “estar” ou “não estar” ligado aos astros. Ou, ainda, consultar os astros (assim como os gregos faziam por meio do oráculo) ou tomar certo caminho, desconsiderando o que eles têm a nos dizer.
Dessa forma, podemos dizer que fica claro, ao desejarmos algo, que nos tornamos responsáveis por isso e, possivelmente, abandonamos a opinião dos astros quanto a isso. Ora, se a proposta é de falarmos sobre o desejo, então estaremos cogitando sobre certa tensão que indica um fim. Quem deseja, o faz em relação a algo que, por sua vez, trará o fim do desejo. Esse fim está intimamente ligado a um pressuposto de carência. 
Benedito Espinoza
(1632-1677)
Quero dizer que o desejar é resultado do sentimento da falta de algo. Sendo assim, o desejo torna-se uma característica clara do ser humano mortal, que se encontra no polo oposto dos deuses. Para Benedito Espinoza (1632-1677), um dos grandes pensadores do século XVII, dentro da chamada Filosofia Moderna, a imperfeição repousa na perspectiva do humano e o define como tal. O desejo é uma classe de sentimento ou de certo movimento mental que, muitas vezes, mesmo irracional, em sua forma inconsciente, emerge tomando a forma de nossas escolhas. 
A ideia é de que o desejo é um fluxo muito forte de libido (energia psíquica) e carrega em si muito dos conteúdos impensados e impregnados de um narcisismo prematuro. Assim, um pensamento que tenha nascido dessa forma, prematuro, já agia no funcionamento da mente, mesmo sem ainda poder ser chamado de pensamento. Esse fato revela-se importante na medida em que muito perigosa é a ação ausente da reflexão: o agir sem pensar. 
A psicanálise nos mostra, com muita clareza, que o desejo é definido pela sensação de perda de algo que se foi. E se concordamos com essa afirmação, podemos descrever que o objeto de desejo se encontra no passado.
Isso corresponde a dizermos que quem deseja, deseja, pelo menos em certa medida, a repetição de algo que perdeu no passado. E esse sentimento pode tomar maior proporção se nos lembrarmos que, a perda sempre inclui certa culpa de não ter cuidado daquilo que se perdeu. Assim, podemos afirmar que o desejo guarda sempre uma cota de passado, e isso é representado, nas experiências psíquicas, pela memória. Com esta forma de pensar, abre-se então uma condição, que nos permite afirmar que o desejo se encontra impregnado, das forças do mito de Tânatos (o deus grego da morte), dentro de sua perspectiva de pulsão de morte. 
Ele busca sempre o retorno de algo perdido, por mais que se encontre regido pelas graças do mito de Eros (o deus grego do amor) no conceito freudiano de pulsão de vida, em seus impulsos na direção do mundo externo. 
Percebemos, com esse modelo, que memória e desejo estão muito próximos e que a forma como se pode ter certa concepção de memória coincide diretamente no que se tem concebido sobre o desejo. 
Em sua célebre obra “Interpretação dos Sonhos”, de 1900, Sigmund Freud (1856-1939) propõe a ideia de que a memória é o desejo no passado, e, se concordarmos quanto a isso, poderíamos formular que, se a memória é desejo do passado, então o desejo é, também, uma espécie de memória do futuro. De qualquer forma, o desejo então é algo que existe para ser satisfeito. Contudo, ainda assim, só existe enquanto se está frustrado. 
Entretanto, deixemos temporariamente a situação da satisfação de lado, com a proposta de retornar mais tarde, e assim, cuidaremos dessa hipótese com mais atenção e dedicaremos então os olhares para a situação da frustração. Pelo menos a priori, abrem-se dois caminhos: o de enfrentar a tarefa do reconhecimento da realidade ou o que sustenta a fantasia até onde ela possa ser sustentada.


“Eu fiz isso”, diz minha memória.
“Eu não posso ter feito isso,  
diz meu orgulho, 
e permanece inflexível.
“Por fim a memória cede.”
Friedrich Nietzsche (1844-1900) 

Essa questão se torna de grande importância se estivermos falando em aspectos condizentes com a luta diária, onde exista um trabalho de capacitação emocional, no sentido de aceitar, respeitar, ser sincero e assim, tornar-se capaz de amar o real ou ligar-se afetivamente ao outro. Falo aqui de vínculo. O objeto de desejo nunca é real, isso por que nunca desejamos o objeto real, mas aquilo que esperávamos que fosse, o ideal. 
Na realidade tendemos a desvalorizar o objeto de desejo, assim que se torna real. Isso por que se tornar real limita as qualidades e possibilidades do objeto, o que não ocorre com o ideal. Às vezes, levamos isso a tal consequência, que ela nos conduz a desistir de certo objeto, por não atender nossas expectativas. É como se disséssemos: “se não é como eu desejava não importa pra mim”. Ou seja, a realidade não interessa o que interessa é o que se imaginava ser essa realidade. Assim que o real se revela é logo descartado. Ou, ainda, por outro lado, num ato de violência para com a realidade, podemos forçar o objeto a se tornar aquilo que gostaríamos que fosse. 
Immanuel Kant (1724-1804)
O que conduz essa linha de pensamento é o fato de que na maioria do tempo, somos impulsionados por paixões, ou seja, idealizamos (fantasia) algo e consequentemente passamos a odiar o seu extremo oposto. Esta é uma forma arriscada de se conduzir a vida,já que, de tal modo, não se pode conhecer coisa nenhuma. Deixamos de nos aproximar de certas “coisas” por enxergá-las muito maiores que nós e, a partir do mesmo modelo de funcionamento, evitamos outras por nos julgar muito superiores a elas. Na perspectiva de Immanuel Kant (1724-1804), conduzir escolhas essencialmente pelo desejo é um modo doentio de viver.
Então dispensar o desejo seria a condição sine qua non da prática, daquilo que ele chamou de moral e que pressupõe certa indiferença em relação à satisfação e ao prazer. Na proposta edípica de Freud é justamente a renúncia do desejo do filho pela mãe que o liberta para pensar em si. Na capacidade de viver a posição do terceiro excluído é que se iniciam as realizações no mundo. 
Jacques-Marie Émile Lacan
 (1901-1981)
Jacques-Marie Émile Lacan (1901-1981), psicanalista francês, propõe o Nome-do-Pai como símbolo do corte no desejo pela mãe. O que adéqua o vínculo entre filho e mãe, libertando-o do pesadelo incestuoso. Na apreciação psicanalítica do indiano naturalizado inglês, Wilfred R. Bion (1897-1979), a questão se encontra na perspectiva daquilo que poderia proporcionar definir e sustentar as qualidades dos vínculos que se pode ter com a realidade. 
Bion propõe a cesura do desejo, priorizando o que chamou de “O” da experiência, ou seja, o reencontro com a realidade depois da simbolização. O símbolo permite que se tolere o vazio, e isso coincide com a privação da satisfação imediata do desejo, onde está a chance para que se comece a pensar. 
A presença excessiva de certo desejo por algo, impede que se possa conhecê-lo na realidade ou ainda, paralisa qualquer que seja o esforço na direção de entendê-lo em sua forma integra.
A consequência inevitável desse funcionamento baseado na paixão está justamente na cristalização ou enrijecimento daquilo que limita o que é do eu (como o desejo), daquilo que é do mundo, do não-eu, do outro. Em última instância, da realidade (que dificilmente coincide com o desejo), congela e compromete severamente aquilo que nos leva a experimentar possibilidades, condição indispensável à criatividade.
As experiências são exercícios de fundamental importância, na medida em que nos capacitam de referências e nos permitem distinguir, não só o que poderia ser o mundo externo, mas, consequentemente, o que podemos realmente ser, ou melhor, o que pode ser o eu real. Falo da inexorável luta entre o que é real e o que se deseja que seja, ou até, o que se teme que possa ser (já que o medo é filho do desejo). A questão está na ordem do que se encontra entre o real e o imaginário. 
Um processo de rigidez, nesse nível, é inevitavelmente gerador do que poderíamos denominar de pseudo-sabedoria ou mesmo sabedoria psicótica. Uma classe de informações sobre o mundo que só se pode manter através da imposição. Um saber que deve contar com a defesa de certo escudo chamando arrogância. Enquanto essa pseudo-sabedoria se localiza em certo nível superficial, encontramos um sujeito turrão e teimoso, consequentemente ignorante (ignorante de sua própria ignorância). 
Contudo, é alguém que consegue, a duras penas, algumas realizações no mundo, já que (mesmo chateado com isso) mantém certo vínculo com a realidade. No entanto, se esse modelo de “saberes” passa a ser atribuído a elementos de maior profundidade da personalidade, criam-se características psicóticas na forma de se conduzir a vida. O outro nunca é o outro, mas sempre o que se deseja que fosse. 

Voltemos agora os olhares para a satisfação completa do desejo. Este vértice conduz à morte da busca e nos remete ao estado de inércia. Na satisfação total não existe reflexão, e não é difícil chegar a essa conclusão quando nos lembramos de um bebê que logo adormece, assim que se satisfaz com o seio da mãe. Totalmente satisfeitos, deixamos de pensar, deixamos de existir. Só seguimos em frente se tivermos a consciência do que perdemos. 

Capítulo do livro MARTINO, Renato Dias. Para Além da Clínica.Renato Dias Martino - 1. ed. São José do Rio Preto, São Paulo: Editora Inteligência 3, 2011.

Prof. Renato Dias Martino
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