sábado, 1 de abril de 2017

SOBRE O MEDO DE DESEJAR

Das mutações ocorrentes nas emoções e as consequências dessas transformações.

Texto parte da revista Grandes Temas do Conhecimento PSICOLOGIA, especial MEDOS E FOBIAS.


Os desdobramentos dos elementos constituintes da vida mental provocam naturalmente certa instabilidade que demanda de aprendizado em seu manejo para que seja possível manter um bom funcionamento da mente. Uma experiência emocional que possa gerar um componente psíquico pode então se desdobrar em outro elemento que muitas vezes representa seu contrário. Uma mente inundada por insegurança, por exemplo, pode gerar hostilidade. Na descrição da síndrome de Estocolmo, onde o sujeito é submetido a um tempo prolongado de ameaça, ele passa então a apresentar afinidade ou até carinho por seu agressor.
Dessa maneira uma manifestação psíquica gera uma outra como defesa, configurando assim um conjunto, que é tomado como um complexo com certa coerência. Esses elementos componentes articulam-se entre si em várias vinculações, de subordinação ou não, que por conta disso são de difícil compreensão racional. A relação entre desejo e medo é um bom exemplo dessa ordem de reveses sofridos nas experiências emocionais. O medo parece ser um subproduto do desejo, e essa afirmação torna-se fato na medida em que passa a ser possível perceber que aquele que não deseja nada não teme coisa alguma. 
Ainda que seja o medo da morte gerado pelo desejo de viver, a relação entre esses dois elementos da vida psíquica são inseparáveis quando examinados. Dentro dessa perspectiva, o medo estabelece um elemento constitucional do funcionamento mental daquele que está sendo conduzido pela cautela. Sendo assim, a mente que se encontra saudável terá o medo como integrante do instinto de autopreservação que é manifestado pelo desejo de viver. Esse medo deve originar certa ansiedade, reação à percepção do perigo externo. Por se tratar de um instinto, vai para além do campo racional e pode, com isso, nos orientar, alertando, inclusive, para aquilo que se pronuncia pra além do que é percebido pelos órgãos dos sentidos, pra além das aparências. No entanto, existe outra ordem de relações estabelecidas entre medo e desejo, que não se encontram no âmbito saudável.
Em sua TEORIA GERAL DAS NEUROSES, publicada em 1917, Sigmund Freud (1856-1939) propõe dois tipos de ansiedade. “É possível, no princípio, trabalhar o tema da ansiedade, por um tempo considerável, sem absolutamente pensar nos estados neuróticos. De imediato, os senhores me entenderão quando eu descrever essa espécie de ansiedade como ansiedade ‘realística’, em contraste com ansiedade ‘neurótica’.” (Freud, 1917). Enquanto na ansiedade realística o medo é gerado por uma causa externa real e anuncia assim a capacidade da saúde mental, a ansiedade neurótica acontece por conta de uma desordem no curso do desenvolvimento do pensar, que encontra entraves no andamento de seus desdobramentos. 
Freud formou-se em medicina neurológica, mas apesar disso estruturou o que chamamos de psicanálise a partir da percepção de que grande parte dos pacientes que atendia não tinha a origem de suas enfermidades no corpo físico, mesmo que se manifestassem ali. Por meio de exames clínicos, Freud não conseguia diagnósticos no âmbito fisiológico, sendo que a constituição biológica, em suas funções, conservava um funcionamento coeso, no entanto, a dor e o incômodo ainda jaziam presentes na queixa do paciente. Em sua obra AS NEUROPSICOSES DE DEFESA, de 1894, Freud designou a ordem patológica que percebia em seus pacientes, o nome de neurose, e, nesse caso, mais especificamente, histeria de conversão. Algo que advinha da dimensão do psíquico, mas se manifestava no corpo. “Na histeria, a representação incompatível é tornada inócua pela transformação de sua soma de excitação em alguma coisa somática. Para isso, eu gostaria de propor o nome de conversão.” (Freud, 1894). 
Bem, embora essa proposta tenha sido publicada em 1894, quando a psicanálise ainda engatinhava, mesmo hoje essa intuição freudiana nos serve como um excelente instrumento para pensar nos processos que desencadeiam as patologias mentais. Ora, é indiscutível o fato de que a dor, quando surge no corpo, tem maior poder de convencimento, tanto para nós mesmos quanto para o outro. Por outro lado, enquanto a aflição é psíquica, se encontrando na ordem do não sensorial e não podendo contar com os órgãos dos sentidos para confirmá-la, fica então desacreditada. Um conflito interno com a iminência de transbordar os limites emocionais do eu psíquico e manifestar-se no corpo físico. 
Aqui também estamos tratando, antes de tudo, de algo que se configura como extensão do conflito entre um medo e um desejo. Uma ordem de conflitos que pode promover severas perturbações no funcionamento mental com a geração de inúmeros sintomas. Freud, em seu ESBOÇO DE PSICANÁLISE, publicado em 1940, propõe que “Os sintomas das neuroses, poder-se-ia dizer, são, sem exceção, ou uma satisfação substitutiva de algum impulso sexual ou medidas para impedir tal satisfação, e via de regra, são conciliações entre as duas, do tipo que ocorre em consonância com as leis que operam entre contrários, no inconsciente”. Sem poder tornar-se consciente desse conflito que subtrai suas energias sorrateiramente, o sujeito vive certa batalha inconsciente que acaba por revelar-se nos vínculos. Toma certa prática especial nas relações onde passa a odiar como forma de distanciamento e proteção daquilo que de fato deseja tanto.
Desenvolve de tal modo, um quadro obsessivo, se envolvendo crescentemente com aquilo que na realidade foge compulsivamente. Temos assim um quadro do qual Freud denominou de “neurose obsessiva”. Enquanto essa modalidade de neurose projeta-se no mundo externo, a “histeria de conversão”, em contrapartida, faz do sujeito uma vítima de si mesmo. Instigado por certa culpa, pode-se tornar servil àquele do qual mantém grande ódio. Esse sentimento de culpa do paciente histérico, quando em seu maior nível, é que deve sofrer certa conversão do plano psíquico para o nível orgânico. Dessa forma, passa a representar-se numa patologia no corpo, ou seja, uma doença física onde o sujeito pode encontrar certa via para se
autopunir. Essa dor física, por mais que seja penosa, ainda deve ser menor do que a culpa que carrega. Se antes havia descrédito sobre sua enfermidade, agora fisicamente doente, pode convencer o outro, assim como convencer-se a si mesmo, do seu sofrimento.
Freud introduziu a teoria da repressão a partir da observação dessa ordem de experiências: “A teoria da repressão é a pedra angular sobre a qual repousa toda a estrutura da psicanálise.” (Freud, 1914). Das tentativas de vinculação com a realidade externa que tiveram desfechos mal resolvidos, são então geradores do movimento de repressão.
O reprimido, junto com os elementos instintuais, estaria contido no nível inconsciente da mente. “O reprimido está condenado, pelas instâncias censoras do ‘eu’ a viver nas profundezas do inconsciente. Mas, amiúde, tenta emergir na personalidade consciente provocando, assim, os sintomas da neurose.” (Martino, 2012). Segundo Freud, as neuroses estão para as perversões como curso oposto do mesmo caminho, pois, quando uma satisfação da libido primitiva não puder ser atendida, pode suscitar uma fixação perversa de satisfação, que na medida em que é reprimida cria uma formação substituta: o sintoma. “Portanto, os sintomas se formam, em parte, às expensas da sexualidade anormal; a neurose é, por assim dizer, o negativo da perversão.” (Freud, 1905). 
No caso clínico do Homem dos Ratos, publicado em 1909 com o título NOTAS SOBRE UM CASO DE NEUROSE OBSESSIVA, o pai da psicanálise expõe as características da neurose obsessiva comparada à histeria. Propõe que a manifestação da neurose obsessiva possa ser considerada assim como na forma da histeria, no entanto, numa configuração muito mais compreensível por revelar-se de forma externa, enquanto a histeria leva o processo psíquico para uma conversão somática. Porém, os pacientes que apresentam esse quadro, diferentemente dos histéricos, dificilmente procuram psicoterapia, ou, quando o fazem, já se encontram num quadro avançado. Os aspectos fundamentais dos transtornos apresentados pelo Homem dos Ratos “eram medos de que algo pudesse acontecer a duas pessoas de quem ele gostava muito: seu pai e uma dama a quem admirava.” (Freud, 1909). Freud propõe que o neurótico não pode perceber as conexões importantes que estabelece, pois as resistências o enganam pelas forças reprimidas, onde o que se revela é o medo, nunca o desejo.
Depois de ter sido reprimido o desejo, é difícil para o sujeito admitir que tenha de fato desejado, ou que possa voltar a desejar, no entanto nunca deixou de fazê-lo. Isso acontece com o paciente de Freud relatado no caso. Ele negava que os medos relacionados à morte do pai correspondessem a um desejo (agora reprimido) de que o pai morresse.
“Conforme a teoria psicanalítica, eu lhe disse, todo medo correspondia a um desejo primeiro, agora reprimido; por conseguinte, éramos obrigados a acreditar no exato contrário daquilo que ele afirmara. Isto também se ajustaria a uma outra exigência teórica, ou seja, a de que o inconsciente deve ser o exato contrário do consciente.” (Freud, 1909).

Testemunhamos, assim, a infindável e inexorável peleja entre o amor e o ódio. Simultaneamente, quando o ódio ocupa o topo da consciência, o amor se mantém encoberto, de forma latente, e vice-versa. Contudo, mesmo estando num estado latente, ainda assim mantém-se muito intenso e definindo “escolhas” na vida do sujeito. Paralisado pela impossibilidade na proibição de integrar amor e ódio, o estado de ambiguidade provoca sintomas de formas diversas configurando um complexo estado transtornado de funcionamento mental. Um complexo que foi gerado por uma experiência peculiar, onde aquilo que um dia constituiu um desejo proibido torna-se exatamente o que desperta o maior desejo, mas agora de forma inconsciente. Esse desejo, por ser inconsciente, amiúde, é impulsionado à ação (atuação) para sua concretização. No entanto, a consolidação tropeça na proibição, gerando assim o medo que se vincula ao objeto desejado. Podemos afirmar com isso que o medo é filho do desejo.
Essa configuração também aparece como base da teoria das posições elaborada por Melanie Klein (1882-1960), em que propõe que, no ego primitivo, presente no início da vida do bebê, existe uma tendência de divisão do seio em objeto bom e objeto mau, como sendo dois objetos separados. Essa seria expressão do conflito inato entre amor e ódio e das ansiedades que dessa experiência decorrem.
“O bebê projeta seus impulsos de amor e os atribui ao seio gratificador (bom), assim como projeta seus impulsos destrutivos e os atribui ao seio frustrador.” (Klein, 1952). Dessa maneira, o seio bom que é desejado é separado do seio mal que é temido, quando na realidade trata-se de um só, um objeto total. Uma experiência que longe de se restringir ao âmbito da primeira infância, configura-se num funcionamento que amiúde experimentamos na vida adulta quando nos colocamos frente a uma decisão (de-cisão) de grande importância. Desejamos um caminho, mas tememos que o outro seja melhor opção. 


Ora, ainda que estejamos aqui tratando de revisão teórica, minha experiência na prática clínica mostrou com clareza a relação existente entre o medo e o desejo, confirmando assim essa proposta da teoria psicanalítica, que por sua vez também não fora desenvolvida de outro lugar que não fosse as experiências clínicas. Nos casos que em atendi, em que o paciente sofrera de abuso sexual na infância, por mais aterrorizante que tenha sido a experiência, ainda assim sentira algum prazer, pelo fato do estímulo de áreas erógenas, hipersensíveis. Por conta disso, agora, quando adulto, o paciente sente medo de que ele abuse de crianças, pois o registro da experiência prazerosa ficara gravada, e então é revivida de forma reativa, ou seja, de maneira inversa. Acontece que por conta da experiência traumática que viveu, hoje ele deseja, por mais que não deseje desejar, e passa a ter medo do desejo que sente.
Porém, a despeito da força do impulso que arrasta para a ação com o objetivo de realização do desejo, o que na verdade pode acalmar o conflito está na possibilidade de reconhecimento do que se deseja e não da consumação, que geraria mais culpa ainda.
“A ideia é que o desejo é um fluxo muito forte de libido (energia psíquica), e carrega em si muito dos conteúdos impensados e impregnados de um narcisismo prematuro. Assim, um pensamento que tenha nascido dessa forma, prematuro, já agia no funcionamento da mente, mesmo sem ainda poder ser chamado de pensamento” (Martino, 2011).
No relacionamento entre pais (ou cuidadores) e filhos, a relação entre desejo e medo revela-se de grande influência. Isso pelo fato de que a criança passa por um longo período de dependência dos pais ou daquele que cuidou dela. Assim, não seria absurdo afirmar que “a forma como o bebê é desejado (mesmo antes de nascer) definirá certos traços em sua personalidade que perdurarão por muito tempo, se não, por sua vida toda.” (Martino, 2011). Existe nessa experiência o perigo de que satisfações frustradas da vida dos pais sejam oferecidas ao filho com a incumbência de satisfazê-los. Dessa forma, o que um dia fora um desejo nos pais, pode-se tornar um medo nos filhos. “Um medo de frustrar aqueles que cuidaram dele e viver um dolorido sentimento de incompetência.” (Martino, 2011). Bem, o reconhecimento do sentimento é o que pode levar ao pensar, e não é surpresa o fato de que isso coincide com a capacidade de adiar a ação. Sobre isso, Freud escreve em 1911, em sua obra FORMULAÇÕES SOBRE OS DOIS PRINCÍPIOS DO FUNCIONAMENTO MENTAL, que “O pensar foi dotado de características que tornaram possível para o aparelho mental tolerar uma tensão intensificada de estímulo, enquanto o processo de descarga era adiado.” (Freud, 1911). Isso equivale a dizer que o reconhecer é aterrorizante e o medo de reconhecer se faz novamente presente, relacionando-se ao desejo. Trata-se de uma moção interna que leva a abrir mão da satisfação do prazer que se encontra na realização do desejo. A psicanálise nos ensina com muita propriedade sobre o fato de que, para que exista o pensar, é necessário desistir da satisfação imediata, na tolerância quanto às frustrações.
Na proposta de Wilfred Bion (1897 – 1979), um dos mais importantes nomes da psicanálise contemporânea, o desejo do analista, juntamente com a memória e a ânsia por entender, é fator prejudicial para o desenvolvimento da análise, obstruindo o fluxo saudável do processo psicoterapêutico. “No processo de psicoterapia, o desejo do psicoterapeuta de resolver o problema do paciente, ou mesmo de gratificá-lo por algum motivo, ou ainda o desejo de curá-lo, são prejudiciais ao desenvolvimento do tratamento.” (Martino, 2015). Bion refere-se a uma disciplina que aos poucos torna-se natural, conforme o desenvolvimento da maturidade emocional do analista. Para Bion, não é“suficiente ‘esquecer’: é necessário um ato positivo de abstenção de memória e desejo.” (Bion, 1970). No lugar da memória, do desejo e da compreensão e o que entra é o desenvolvimento do “ato de fé” de que a verdade e a realidade última existem, e isso requer capacidade em tolerar frustrações.  
Segundo Bion, se o psicanalista for permissivo com a intromissão de memórias sobre o paciente, dos desejos do analista e da ansiedade de compreensão sobre os fatos a qualquer custo “ele irá prejudicar sua capacidade analítica. Todo aquele que esteja acostumado a lembrar do que os pacientes falam e a ficar querendo seu bem-estar, terá dificuldade de avaliar o dano infligido à intuição analítica, inseparável de toda e qualquer memória e qualquer desejo” (Bion, 1970).

A busca pela realização do desejo, por mais que se mostre prazerosa, é exatamente a responsável pelo conflito. Portanto, todo esforço para apaziguar e assim reduzir a intensidade do desejo deve converter-se na diminuição do medo. Arthur Schopenhauer (1788-1860) que segundo o próprio Freud é o filosofo precursor da psicanálise, nos alerta sobre a Vontade que nos aprisiona. Mesmo não querendo ter vontade, ainda assim ela persiste, se transformando num medo de agir conforme essa mesma vontade. No pensamento de Schopenhauer, a Vontade tem a primazia em relação ao intelecto e à razão humana, que são produtos das manifestações da Vontade, existindo para justificá-la. Segundo Schopenhauer, a vontade é a essência imutável do homem, e sua razão não tem poder para determinar uma mudança no querer da vontade. A vontade tem origem no desconforto e tem seu retorno na mesma dor. Assim, como propõe em O MUNDO COMO VONTADE E REPRESENTAÇÃO, “Tal veemência excessiva do querer é já de per si e diretamente, uma fonte constante de dor. Primeiramente porque qualquer querer, como tal, nasce da necessidade, portanto, da dor.” (Schopenhauer, 1818).
Sendo dessa maneira, toda a busca pela diminuição do desejo converte-se em redução da dor. Sendo que as experiências mais afortunadas são aquelas em que nos sentimos livre das ânsias e desejos desmedidos. Assim como coloca Schopenhauer:
“Por meio da felicidade que então provamos, torna-se-nos possível julgar da beatitude do homem cuja vontade não está, como no êxtase da estética, acalmada apenas por breve instante, mas para sempre, quando está de fato consumado, salvo na derradeira centelha que serve para manter a vida corpórea e que desaparecerá com ela.” (Schopenhauer, 1818).
O desejo está na dimensão material da vida corpórea, que nasce, permanece por algum tempo, crescendo  e se desenvolvendo, produz alguns efeitos nos fenômenos e então passa a definhar, gradativamente, até a morte. Essa parte da existência é de pouca importância para o que é da alma, que por sua vez não se presta aos atributos materiais do espaço ou da temporariedade. Não está aqui ou lá. Não tem passado, nem futuro. O medo de perder é produto do desejo de ter, mas enquanto aquele que deseja ter teme perder, aquele que ama terá pra sempre.
O grande problema é que só se aprende amar na falta do objeto amado. Aquele que ama abre mão do desejo de “ter” o outro em nome do “ser” para o outro. “É então, pela capacidade de tolerar o vazio e desapego do desejo, que se abre a possibilidade para desenvolver a disposição para amar.” (Martino, 2015).
Isso diz respeito a uma constante batalha, pois aquilo que o corpo busca para se satisfazer não interessa à alma e na realidade só faz por desvalorizá-la. Por outro lado, aquilo que nutri a alma está justamente na renúncia dos prazeres do corpo.

O Bhagavad Gita, que faz parte das escrituras védicas da Índia antiga, trata da busca pelo exercício no desapego para a expansão da consciência. No quinto capítulo é revelada a “Sabedoria do Desapego”, onde Krishna, a Personalidade Suprema de Deus, orienta seu companheiro Arjuna, em um momento de insegurança, que “quem a tudo renuncia, jubiloso, alcança, já agora, a mais alta paz do espírito; mas quem espera vantagem das suas obras é escravizado por seus desejos”. Um texto que transcende a aplicabilidade religiosa se estendendo no âmbito filosófico e também psicanalítico, já que trata da experiência do desprendimento e da capacitação da tolerância às frustrações.
“No Bhagavad Gita é retratado um diálogo simbólico, representando o funcionamento interno de cada um de nós, onde o guerreiro Arjuna representaria o ‘eu humano’ (que em algumas traduções se lê ego), cujo reino foi usurpado, e Krishna estaria representando o “eu divino” plenamente realizado, que convida Arjuna a fazer a sua autorrealização, derrotando seus parentes, que se recusam a devolver seu trono” (Martino, 2015).
Um modelo muito bem aplicável no funcionamento da mente, onde a narração retrata a renúncia dos desejos e, em consequência disso, também os medos. Em contrapartida, manter-se ligado ao desejo é viver de ilusões, já que a realidade não é definida pela vontade do humano. Por conta disso é necessária a capacitação para o desprendimento daquilo que se encontra na dimensão do real concreto, num exercício do desapego da materialidade por meio da renúncia do que satisfaz o corpo, mas empobrece e nos distancia da alma. Numa relação afetiva, a confirmação sensorial deve, dentro dessa perspectiva, ser substituída pelo vínculo simbólico, que dispensa a confirmação compulsiva pelos órgãos dos sentidos. O simbólico vai para além da morte, já que é possível se manter vinculado com aqueles que já morreram.

Bion, W. R. (1970). ATENÇÃO E INTERPRETAÇÃO. Imago, Rio de Janeiro, 1973.
Freud, S. (1894). AS NEUROPSICOSES DE DEFESA. Ed. Imago. Rio de Janeiro.
_____ (1905).TRÊS ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALIDADE. Ed. Imago. Rio de Janeiro.
_____ (1909). NOTAS SOBRE UM CASO DE NEUROSE OBSESSIVA - O HOMEM DOS RATOS. Ed. Imago. Rio de Janeiro.
_____ (1914).A HISTÓRIA DO MOVIMENTO PSICANALÍTICO. Ed. Imago. Rio de Janeiro.
_____(1915). O RECALQUE In: ESCRITOS SOBRE A PSICOLOGIA DO INCONSCIENTE. Ed. Imago. Rio de Janeiro.
_____ (1917). TEORIA GERAL DAS NEUROSES. Ed. Imago. Rio de Janeiro.
_____ (1940).ESBOÇO DE PSICANÁLISE. Ed. Imago. Rio de Janeiro.
Klein, M. (1969). ALGUMAS CONCLUSÕES TEÓRICAS SOBRE A VIDA EMOCIONAL DO BEBÊ. Em M. Klein, P. Heimann, S. Isaacs & J. Riviere (Orgs.), Os progressos da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar. (Original publicado em 1952)
Martino, R. D. O LIVRO DO DESAPEGO - 1. ed. - São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2015.
_______. PRIMEIROS PASSOS RUMO À PSICANÁLISE  - 1. ed. -- São José do Rio Preto, SP : Vitrine Literária Editora, 2012.
_______. PARA ALÉM DA CLÍNICA - 1. ed. São José do RioPreto, São Paulo: Editora Inteligência 3, 2011.
Prabhupada, A. C. Bhaktivedanta Swami. O BHAGAVAD-GITA - Como Ele É. Editora: The Bhaktivedanta Book Trust. 1976.
Schopenhauer, A. O MUNDO COMO VONTADE E COMO REPRESENTAÇÃO, (livro 4), São Paulo: Unesp, 2005 – tradução de Jair Barboza.(Original publicado em 1818)













terça-feira, 28 de março de 2017

ANALISABILIDADE - Prof. Renato Dias Martino

Analisabilidade - Prof. Renato Dias Martino
Muito tem se falado da aplicabilidade da psicologia 
ou da psicanálise em qualquer caso.
Não! Não é isso!
Precisa haver uma coisa chamada analisabilidade. 
O sujeito precisa ter certo nível de analisabilidade.
Sabe o que é isso?
Analisabilidade é grau do sujeito se colocar a disposição de ser analisado.
Se ele não tiver mínimo disso a psicanálise não "pega" nele.
Você vai ficar ali... 
Não gruda, não adianta não vai.
E ai, o que acontece: 
você enquanto psicoterapeuta começa questionar sua capacidade.
Você pode levar o cavalo até o rio, obrigar ele a beber água você não pode.

sábado, 25 de março de 2017

Bate Papo Filosófico

O psicoterapeuta Renato Dias Martino e o sociólogo Luciano Alvarenga, 
fazem uma conversa franca sobre o individuo na contemporaneidade: 
as dores da alma e a ausência de amor.
10 de abril, às 19:30 hs, 
na Associação Paulista Oeste da Igreja Adventista, 
Rua dos Radialistas Riopretenses, n° 650 - 
Nova Redentora (Segunda rua acima do Hotel Sã Paul)
Inscrições R$ 10,00 No dia e local do evento.

quarta-feira, 22 de março de 2017

COGITAÇÕES A PROPÓSITO DA DEPRESSÃO

A depressão tem sido avaliada, na contemporaneidade, como um problema de saúde pública, e alguns especialistas chegam a considerá-la como aquilo que será o mal do século 21. No entanto, muito tem se afirmado e até mesmo, vem se predizendo sobre essa experiência mental que, na realidade, muito pouco se tem conhecimento.
Numa sociedade de características cada vez mais imediatistas, que visa a satisfação a todo custo, onde o que se vê é a evitação de todo e qualquer desconforto, não será surpresa se houver uma condenação de uma importante experiência psíquica natural do desenvolvimento mental, como sendo patologia, por conta de suas características demoradas e dolorosas.
Ora, além do mais, não é fato digno de espanto que nessa sociedade de qualidades superficiais, uma experiência que demande profundidade possa ser descrita como doença. A palavra depressão tem sido comumente utilizada para designar uma forma de patologia mental, no entanto esse conceito tem aplicações muito mais amplas podendo, até mesmo ser motivo de equívocos, dentro do olhar apressado, característica típica do ser humano contemporâneo. Num olhar impaciente tendemos a julgar e diagnosticar com muita rapidez algo que mereceria mais respeito. “Do Latim respectus, particípio passado de respicere, “olhar outra vez”. Do re, “de novo”, mais specere, “olhar”: a ideia é de que algo que merece um segundo olhar em geral merece respeito.”. (Martino, 2013).

Afinal, o que estamos chamando de depressão? O conceito de depressão é relativo a um movimento para baixo. Encontramos esse termo na geografia topográfica, descrevendo regiões do terreno que estejam num nível mais profundo. Nas formulações emocionais usa-se esse conceito para descrever o movimento de recolhimento dos investimentos de interesse. A retirada da importância do mundo externo numa introjeção da libido em direção do eu. A origem da palavra vem do latim DEPRESSIO, de DEPRIMERE, significando o ato de apertar firmemente para baixo, na junção de “de” = “para baixo”, + “premere” = “apertar, ou comprimir”. Quando esse termo é aplicado às experiências emocionais, de modo geral, poderíamos dividir a depressão em duas manifestações: 
a) O processo depressivo natural, do qual poderíamos classificar como sendo saudável, que é gerado por conta da situação de luto. Nesse caso, o que ocorre é que frente à perda de algo de muita importância o sujeito se deprime e o mundo externo fica desinteressante, por isso o recolhimento da importância que se atribuía ao mundo externo. Essa experiência pode ser obstruída quando existe um impedimento para que o processo natural de luto possa acontecer de forma saudável. Uma exigência externa que não permita a retirada do interesse do mundo externo. Isso pode gerar um agravamento e até mesmo originar um quadro patológico, se persistir o impedimento. 
b) Um segundo caso seria o estado depressivo patológico configurado na melancolia, assim como nos orienta Sigmund Freud (1856-1939). A melancolia ocorre quando a relação que o sujeito tem com aquilo que se perdeu guarda características narcisistas, onde o eu e aquilo que foi perdido não puderam se separar emocionalmente. Nesse caso existe uma exigência interna que não permite que o sujeito descanse sua mente para que o processo de luto ocorra. Freud publica LUTO E MELANCOLIA em 1917 e contribui com isso, enormemente para o estudo e aprimoramento do atendimento psicoterapêutico do sujeito depressivo. 
“O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante. Em algumas pessoas, as mesmas influências produzem melancolia em vez de luto; por conseguinte, suspeitamos de que essas pessoas possuem uma disposição patológica.”. (Freud, 1917).

Depois de Freud, Melanie Klein (1882 — 1960) introduz sua teoria das posições (1935), onde propõe que a mente funciona em duas perspectivas: posição esquizo-paranoide em que a partir de uma tendência a desintegração, a mente provoca uma divisão da realidade; tanto do eu quanto do mundo e a posição depressiva onde ocorre a integração da realidade. Na posição depressiva o sujeito toma consciência da realidade como um todo e com isso sente-se culpado por ter odiado o mesmo objeto que também amava. Essa posição provoca sofrimento, onde leva a sofrer o processo de transformação da culpa em responsabilização. Por conta disso o sujeito pode tentar evitar essa posição a todo custo.
No entanto, evitar sofrer não representa o fim da dor. Entristecer-se é fundamental na tarefa de pensar; aquele que não se encontra capaz disso, ou escapa para euforia, ou mergulha na depressão patológica. O desconforto é o primeiro sinal da transformação do pensamento. O pensar só pode ocorrer quando se inclui a ideia do outro e assim a expansão passa a ser possível. Dessa maneira a dedicação a um processo psicoterapêutico de qualidade é um bom recurso para promoção dessa expansão.
Sem um bom vínculo de confiança as ilusões podem ser percebidas como fatos. Imaginar não é pensar. Quando um quadro de depressão se pronuncia, pode não se tratar necessariamente de uma situação patológica.
Isso pode estar sendo um sinal de uma experiência de luto natural, frente à perda de algo significativo para o sujeito. Algo que muitas vezes, nem o próprio sujeito consegue ter muita consciência. Nessa situação os sinais revelam a evidencia de que existe a necessidade de resguardar-se, por conta de certa fragilidade emocional característica desse processo.
Essa experiência deve ser lenta, levando um tempo diferente em cada caso. Nunca podendo ser estabelecido um período determinado. Quando não se pode respeitar o processo do luto, muito provavelmente a situação pode se agravar. Na tentativa de abreviar o decorrer desse lento processo, a tendência é que se desenvolva um quadro mais severo.
A insistência em se expor às experiências emocionais, quando se está fragilizado emocionalmente, pode trazer sérios danos ao sujeito enlutado e uma depressão grave e patológica pode ser um provável desfecho para isso. A urgência para que o sujeito saia logo do seu processo depressivo, ou ainda, seja arrancado de seu estado deprimido, muitas vezes com administração de fortes medicamentos e técnicas psicoterapêuticas que forcem o sujeito a enfrentar o retorno da vida social é uma prática perigosa entretanto, muito comum na sociedade contemporânea.
Nos tempos atuais parece não existir espaço para experiências que espacem um longo período, assim como os relacionamentos duradouros parecem estar cada dia menos frequentes. Parece haver uma ânsia desmedida pelo consumo assim como o acúmulo de bens e concomitantemente, a necessidade de produção. Experiências psíquicas delongadas, como as do processo depressivo, assim como a constituição de relacionamentos duradouros são nocivas a um modelo de vida baseada no comprometimento com a realidade material.
Essa alucinação da vida de produção e consumo desmedido acarreta a saturação do aparelho sensorial, provocando inúmeras patologias que se manifestam desde a forma mais sutil, no âmbito mental, que compromete diretamente a capacidade de amar, até a manifestação no corpo físico. Em ultima análise, cair em depressão é uma forma extrema de buscar a paz. 

Freud, S. 1917. LUTO E MELANCOLIA, em OBRAS PSICOLÓGICAS COMPLETAS - Edição Standard Brasileira, IMAGO (1969-80). KLEIN, M. 1935. UMA CONTRIBUIÇÃO À PSICOGENESE DOS ESTADOS MANÍACO-DEPRESSIVO. In:____. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945). Rio de Janeiro: Imago Ed., 1996. MARTINO, Renato Dias. O amor e a expansão do pensar: das perspectivas dos vínculos no desenvolvimento da capacidade reflexiva, 1. ed. São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2013.



Prof. Renato Dias Martino 
Psicoterapeuta e Escritor
São José Do Rio Preto - SP
WhatsApp: 17991910375
prof.renatodiasmartino@gmail.com
pensar-seasi-mesmo.blogspot.com.br

domingo, 19 de março de 2017

PSICANÁLISE NÃO É - Prof. Renato Dias Martino


É muito mais fácil você dizer o que não é psicanálise.
É a mesma coisa de você dizer assim: O que é amor?
Eu não sei o que é amor. Mas, eu sei muito bem o que não é amor.
Psicanálise não é medicina! Psicanálise não é psicologia!
Psicanálise é muito mais do que isso.
Psicanálise é ser!
Psicanálise não está dentro da perspectiva simplesmente teórica.
Saber de psicanálise não garante que você seja um psicanalista.
Você pode saber muito de psicanálise e não conseguir ser um psicanalista.
Quando você tiver alguém, um paciente na sua frente você não consegue ser psicanalista mesmo sabendo muito sobre psicanálise.
Porque a psicanálise nasce na prática. Em que prática que ela nasce? Nasce da prática de sua analise pessoal.
Um analista precisa ser impreterivelmente ser analisado. É isso que vai qualificá-lo a ser psicanalista.
Prof. Renato Dias Martino
http://www.pensar-seasi-mesmo.blogspot.com.br/

sábado, 18 de março de 2017

PALESTRA SOBRE DEPRESSÃO


Depressão – Dia 25 de março de 2017 das 09:00 às 12:00 
no anfiteatro do hospital Ielar. São José do Rio Preto - SP

Inscrições no local, no dia do evento = 1 pacote de fralda adulta G ou GG

sábado, 4 de março de 2017

SOBRE A HISTÓRIA E AS ESTÓRIAS

Cada sujeito que tenha vivido uma experiência em comum com outras pessoas deve guardar na memória elementos dessa ocasião dos quais mais se identificou e isso deve se diferenciar do que outra pessoa que vivera a mesma experiência possa ter arquivado em suas lembranças. Uma pessoa relata um ocorrido de forma bem diferente do que outra pessoa que esteve no mesmo local e momento do ocorrido. Isso, pois a descrição do acontecido depende muito mais da interpretação daquele que vive a experiência do que daquilo que realmente aconteceu.
A memória é falha por selecionar elementos e nunca conseguir registrar o todo da experiência. Por vezes deixando escapar partes cruciais para que pudesse ser possível se perceber a situação de maneira razoavelmente autêntica. Mesmo que a situação tenha sido registrada por aparelhos de alta tecnologia, que consigam grande poder de apreensão e que apresentem grande potencial de definição, ainda assim, inúmeros aspectos, se não, a maior parte deles, ficarão ausente do registro e impossíveis de serem revelados. 
“A fotografia da fonte da verdade talvez seja muito boa, mas, da fonte após turvada pelo fotógrafo e sua máquina; mesmo assim, continua o problema de interpretar a fotografia. A falsificação do registro é maior, por emprestar verossimilhança ao já falsificado.”. (Bion, 1962). 
Ainda que esse fato tenha sido relatado por uma grande quantidade de pessoas, que concordem com a mesma versão, ainda assim temos inúmeros motivos para acreditar que possa existir um pretexto que esteja guiando esse grupo para uma falsa interpretação do que realmente ocorreu e que ainda assim a maior parte dos aspectos legítimos do ocorrido estará ausente da conclusão. Além disso, conforme o tempo passa o relato do que ocorreu pode sofrer modificações, tanto por suscitar novas lembranças, quanto por estar suscetível ao esquecimento de partes do ocorrido. Por conta disso, o registro de fatos ocorridos é sempre duvidoso. No dito popular “quem conta um conto aumenta um ponto” encontramos um representante dessa ordem de reflexões da qual proponho aqui. O que tem de verdadeiramente real num fato relatado, ou mesmo registrado é a questão de ordem.
O tema do registro dos fatos ocorridos é um tema de grande importância para a prática clínica da psicanálise. “O que aconteceu só se mantém através da memória, e a memória é seletiva, traiçoeira em potencial, por fundir-se ao conteúdo impensado da mente, invalidando assim sua fidedignidade com a realidade dos fatos.”. (Martino, 2015).
Aquele que tenha feito uma pequena pesquisa na obra de Wilfred Bion (1897 – 1979), deve ter percebido a característica nociva da memória para o analista em seu trabalho na prática clínica. Na procura pelo fato psíquico em questão no processo psicoterapêutico, aquilo que já passou não deve ser mais objeto de atenção, se tornando então um obstrutor da possibilidade da apreensão do fato presente. Assim como a expectativa do que acontecerá no futuro se configura num elemento danoso para a apreensão do fato presente. Bion propõe que quanto maior for a capacidade de armazenamento de dados na memória, menos o psicoterapeuta será capaz de perceber aquilo que se apresenta no tempo presente; justamente onde se manifesta a realidade.
“Um analista cuja mente for desse tipo é alguém incapaz de aprender, porque está satisfeito.”. (Bion, 1970). Só pode aprender aquele que tem a consciência de sua ignorância e aquilo que supostamente se imagina saber está armazenado na memória. “A tentativa de lembrar ou registrar destrói a capacidade para a observação dos eventos psicanaliticamente significantes e a interrompe.”. (Bion, 1970). Aquilo que foi registrado está distante do que realmente aconteceu.
Guimarães Rosa (1938 - 1967)
Na língua portuguesa a palavra estória é muito antiga, servindo para referirem-se às narrativas populares, ficções folclóricas ou ainda às tradições não verdadeiras. A palavra estória aparece em dicionários e no vocabulário ortográfico da Academia Brasileira de Letras, entretanto esse termo não é unanimemente aceito. Guimarães Rosa (1938 - 1967) é um escritor que se utiliza bastante desse termo em suas obras, como uma tentativa de ilustrar invenções e concepções imaginativas da criatividade.
“Precisávamos de imaginar, depressa, alguma outra estória, mais inventada, que íamos falsamente contar, embaindo os demais no engano.”. (Rosa, em Pirlimpsiquice, 1962). Ainda assim, esta expressão tem seu uso condenado por muitos estudiosos, por ser considerada invenção brasileira e sem necessidade de existir. Diferentemente, a palavra história é utilizada quando a intenção é se referir sobre a ciência, como relato do registro factual com base em supostos acontecimentos reais.
Mas, se concordamos aqui, com a ideia de que todo registro do passado sempre guarda uma grande cota de contaminação da visão daquele que relata o ocorrido e ainda, que o relato do que ocorreu no passado sofre inúmeros reveses até que possa chegar numa conclusão, que de fato nunca será realmente conclusiva, então o termo mais inadequado não é "estória",  mas justamente “história”. Já que o relato do passado só pode ser considerado uma aproximação do que realmente ocorreu e que a maior parte dos elementos que definiriam a fidedignidade do ocorrido fica encoberta pela limitada capacidade de registro. Então, o relato dos eventos factuais está sempre subordinado à interpretação daquele que registra e então tenta relatar.



BION, W.R.(1962). APRENDENDO COM A EXPERIÊNCIA. Rio de Janeiro: Imago,1962.
________ (1970). ATENÇÃO E INTERPRETAÇÃO. Rio de Janeiro, Imago, 2007.
MARTINO, Renato Dias. O LIVRO DO DESAPEGO - 1. ed. -- São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2015.
ROSA. J. G. Pirlimpsiquice, in PRIMEIRAS ESTÓRIAS - Texto integral, Editora Nova Fronteira, Rio de janeiro, 2005/1962.





sexta-feira, 3 de março de 2017

UMA INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE - Teoria e Prática

UMA INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE - Teoria e Prática
Com Prof. Renato Dias Martino
Dia 18/03 às 14 hs no auditório do hospital Bezerra de Menezes
Rua Major João Batista França (entrada pela rua Ovaldo Aranha)
São José do Rio Preto - SP
Inscrição: R$ 10,00 + 1 Kg de Alimento
Informações pelo fone: 17-30113866 ou 17-9883175

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Coragem e Transformação - Prof. Renato Dias Martino


cor = “coração” + agire  = "agir"
Mais do que um ato de ousadia, a coragem no sentido de agir com o coração.
Agir com o coração para renunciar aquilo que,
na verdade, está fora do nosso limite, não tem haver com nossas capacidades.
A razão esta dizendo que você tem que ir, mas o teu coração está dizendo que não.
Então você precisa ter coragem para renunciar a isso.
Difícil, né? Bonito mais difícil, né?
Porque muitas vezes você tem que bater de frente com o mundo, que é racional.
Qualquer mudança que não seja pelo amor ela é dissimulação.
Essa mudança precisa estar sendo nutrida de afeto.
Porque se não ela é uma dissimulação.
E assim que o outro desviar a visão ela deixa de existir.
Porque é feita por medo.
E a hora que o medo não esta...
o objeto de medo não está presente,
não tem o porquê manter aquilo que foi transformado.
Por que, na realidade, nunca foi transformado.




Prof. Renato Dias Martino
http://www.pensar-seasi-mesmo.blogspot.com.br/

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

DA AUSÊNCIA PATERNA - Prováveis consequências

A figura paterna é para a psicanálise freudiana elemento central por configurar-se naquilo que deve estruturar a personalidade do sujeito. 
“Não consigo pensar em nenhuma necessidade da infância tão intensa quanto a da proteção de um pai.” (Freud, em O MAL-ESTAR NAS CIVILIZAÇÕES, 1930). A importância paterna é indiscutível mesmo no senso comum se pensarmos que uma mãe precisa se sentir segura o suficiente para cuidar dos filhos de maneira bem sucedida. 
“Um modelo muito interessante é o da formação da natureza, onde a fêmea prenha busca um local seguro para se aninhar e receber seu filhote. Nesse momento contará com o resguardo do macho que a protegerá das ameaças externas e proverá recursos para que ela se ocupe em assegurar as melhores condições possíveis para o desenvolvimento deste que nasce. Uma fêmea sem esse resguardo nunca poderá cuidar do que precisa ser cuidado.”. (Martino, em PRIMEIROS PASSOS RUMO À PSICANÁLISE, 2012).
Nos grupos de primatas mais evoluídos, como é o caso dos chimpanzés que compartilham de 98 a 99 % de DNA com os humanos, existe uma clara estrutura de liderança do macho mais velho, que oferece proteção às fêmeas e aos machos mais jovens. No entanto, na raça humana o papel do pai nas famílias parece estar sofrendo severa transformação, especialmente nas últimas décadas. Existe uma decadência muito clara da presença paterna nos lares que parece, a cada dia, ameaçada de extinção. Isso fica evidente tanto através da prática clínica quanto na vida cotidiana. Falo aqui deste mesmo humano que vem ameaçando de extinção também o chimpanzé, assim como outras espécies de animais.
A ausência do referencial masculino pode acarretar inúmeros prejuízos que por mais que sejam ignorados pelo olhar social, ainda assim se pronunciam diante de nossos olhos desde a dificuldade de definição da sexualidade até nos casos de delinquência. Essa ausência pode tornar a criança aversiva às orientações dos adultos, tanto de representantes femininos quanto masculinos. Com isso pode se tornar um adulto que não consegue se adaptar às regras básicas de convívio, interpolando as duas posições: ora subserviente, ora revoltado com as regras.
Assim como Melanie Klein (1882 — 1960) bem nos orientou sobre o fato de que, quando a experiência com a realidade não pode ser vivida de maneira bem sucedida o sujeito não consegue integrar os objetos do mundo externo que fica dividido em amável e maldoso. Com isso também a figura paterna ausente fica desintegrada e segundo Klein: “É preciso uma identificação mais completa com o objeto amado e um reconhecimento mais completo de seu valor para que o ego perceba o estado de desintegração a que o reduziu, e continua a reduzir.” (Klein, 1935).
O modelo masculino se faz essencial na formação e estruturação da personalidade da criança e é desse referencial que angariará recursos para elaboração de complexos importantes no funcionamento psíquico. A ausência desse modelo pode dificultar a capacidade de estabelecer parâmetros de relacionamento que podem obstruir a capacidade de vinculação saudável na vida adulta. Ainda que este modelo possa não vir necessariamente do pai biológico é importante que essa outra figura masculina não seja um avô, um tio ou qualquer outro parente consanguíneo, já que a importância dessa figura está ligada aos processos edípicos. Esse homem representará a imago daquele que vem possuir a mãe e com isso libertar a criança do risco do incesto. Assim, essa figura deve encontrar-se num namorado da mãe que seja afetuoso e presente, ou um aspirante de padrasto, por exemplo.
Na elaboração do complexo de Édipo, a ausência desta figura significa que nada se interpõe entre a criança e sua mãe, o objeto desejado, que, sem obstáculos, é toda sua. Essa criança em que sofreu uma severa privação da figura paterna deve ter dificuldades em reconhecer limites e aprender regras de convivência social, já que o pai é o representante desse limite e a mãe configurará naquilo que se deseja.
“O estabelecimento de limites é característica central da presença emocional paterna. É do pai a função de dizer “não”, por exemplo, quando a mãe faz isso é sempre em nome do pai: “Espera só seu pai chegar!”, entretanto essa definição deve contar com uma boa dose de afeto. A ausência do afeto nessa experiência resulta na criação de um funcionamento cruel com ele mesmo.” (Martino, 2013).
Quando esse modelo não pode estar presente, a criança tem grande dificuldade na identificação e definição sexual, ou de gênero. A criança que de início vive uma configuração bissexual buscará na figura paterna uma referencia tanto de identificação (o que eu sou) quanto de escolha pelo par amoroso (quem eu quero ter) da vida adulta. Na prática clínica fica claro que pacientes que apresentam “queixas de impotência sexual, ou quaisquer que sejam as questões que impedem um desenvolvimento saudável de uma vida sexual e até mesmo, certo casos de homossexualidade, em sua maioria, carregam históricos extremamente conturbados, no que diz respeito às vivências de descobertas da vida sexual.”. (Martino, PARA ALÉM DA CLÍNICA, 2011).
Dessa maneira a presença de ambos os pais é o que permitirá que a criança viva de forma mais natural possível os processos de identificação e diferenciação, o que em sua ausência de um deve ocorrer a saturação no papel do outro.  Na ausência do pai, por exemplo, ocorre a saturação da presença da mãe, minimizando e até anulando a personalidade da criança que quando adulto tanto pode se tornar subserviente a todos, quanto tornar-se um narcisista arrogante para compensar o sentimento de inferioridade.
“É de extrema importância que, ao se arriscar nesse abismo chamado bebê, a mãe conte com um alguém (marido/pai) que mantenha a mão seguramente dada. De outra forma existirá sempre um grande risco de se perder nesse abismo. A mãe e o bebê se confundem, e essa importante experiência de discriminação entre um e outro só pode ocorrer com a entrada de mais alguém (o pai) na relação.” (Martino, em PRIMEIROS PASSOS RUMO À PSICANÁLISE, 2012).
Quando trato aqui de presença, ou ausência, quero me referir ao fato de que a necessidade afetiva paterna está muito além da simples presença física. No entanto essa presença do pai, que a princípio, deve ser uma ideia no interior da mãe, e assim, transmitida para o bebê como autoconfiança daquela mãe que se sente segura por poder contar com seu marido, deve ser sucedida do encontro com o pai físico no plano sensorial. O bebê carece de ouvir a vós, sentir o cheiro, sentir o toque daquele que cumpre essa função fundamental na estruturação de sua personalidade. “Não se pode criar uma imagem interna sem um representante no mundo externo.”. (Martino, em PRIMEIROS PASSOS RUMO À PSICANÁLISE, 2012).
No início da vida do bebê ele se relaciona com pessoas e coisas numa forma narcisista de ligação e isso acontece num processo natural da evolução dos vínculos, se repetindo de alguma forma, na vida adulta em cada nova relação travada pelo sujeito. A próxima etapa inclui outra forma de ligação da qual Freud (1856 – 1939) denominou ligação objetal, onde existe a possibilidade de ligar-se ao outro não mais por identificação, mas agora levando em conta também as diferenças. “...onde anteriormente se sentia como uma extensão da mãe, como sendo parte de um só, numa ligação por identificação.” (Martino, em O LIVRO DO DESAPEGO 2015).
A psicanálise nos ensinou que o processo de evolução da ligação por identificação para a ligação objetal deve ocorrer a partir da introdução da função paterna na relação, que até então era entre dois e agora expande-se na perspectiva da tríade, requerendo maior capacidade. Existe então uma quebra de narcisismo, onde se configura impreterivelmente um afastamento entre mãe e a criança que a partir daí deve começar a buscar novas experiências para além do triangulo. “Experiência dolorida de se viver! Mas a mãe dedicada cuidará para que o bebê se magoe o mínimo possível nesse distanciamento e assim possa viver o luto da relação.” (Martino, em O LIVRO DO DESAPEGO 2015).
Contudo, o desempenho dedicado da função paterna inclui a capacidade de tolerar o sentimento de inveja gerado pela atenção da mãe que se concentra na chegada do filho. Ser um pai realmente presente é uma tarefa que demanda grande dedicação. Não é simplesmente prover o que se encontra na ordem material, mas consiste em se colocar presente no apoio e no amparo emocional nessa experiência tão delicado que é a chegada do filho, assim como a manutenção da vida que brota da união do casal.
Bem, não é só a figura paterna que parece estar em decadência nos lares, mas a figura materna também vem se ausentando e a maioria das crianças parece ser hoje criada na melhor das hipóteses por babás, quando não, crianças com menos de seis meses são deixadas, muitas vezes o dia todo e todos os dias, em instituições publicas ou privadas.  ...e assim, continuamos a condenar a criança pela incapacidade do adulto em cuidar de seus próprios filhos.

Freud, S. 1930. O MAL-ESTAR NAS CIVILIZAÇÔES, em OBRAS PSICOLÓGICAS COMPLETAS - Edição Standard Brasileira, IMAGO (1969-80)
KLEIN, M. 1935. UMA CONTRIBUIÇÃO À PSICOGENESE DOS ESTADOS MANÍACO-DEPRESSIVO. In:____. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945). Rio de Janeiro: Imago Ed., 1996.
MARTINO, Renato Dias. PARA ALÉM DA CLÍNICA. Renato Dias Martino - 1. ed. São José do Rio Preto, São Paulo: Editora Inteligência 3, 2011.
_____ . PRIMEIROS PASSOS RUMO À PSICANÁLISE, 1. ed. São José do Rio Preto, SP : Vitrine Literária Editora, 2012.
_____O LIVRO DO DESAPEGO, 1. ed. São José do Rio Preto, SP : Vitrine Literária Editora, 2015.




Prof. Renato Dias Martino 
Psicoterapeuta e  Escritor
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