quarta-feira, 24 de maio de 2017

SOBRE ESCOLHAS E RECOMPENSAS - Prof. Renato Dias Martino

É muito comum vermos frases como “a vida é feita de escolhas” sendo afirmadas de forma filosófica pelos mais variados pensadores. Nós, seres humanos idealizamos a liberdade de escolha, chegando a praticar verdadeiros absurdos por conta de nos sentirmos impedidos de escolher. Enquanto envolvidos na vida material, somos forçados a fazer escolhas diariamente. E, na realidade, é só dentro dessa dimensão que as escolhas realmente podem ocorrer. É possível escolher se as opções estiverem tão somente dentro da materialidade das coisas.
"Escolhas, decisões ou decepções, estão ligadas às superficialidades das coisas materiais, no nível racional, sendo que aquilo que é da ordem do fundamental não pode ser submetido à nossa vontade.”. (Martino, em O LIVRO DO DESAPEGO, 2015).
 Ainda que seja possível escolher na dimensão material, mesmo assim, nossas escolhas esbarram num problema complexo. Como bem nos ensinou Sigmund Freud (1856-1939) "... o ego não é o senhor da sua própria casa.". (Freud, em UMA DIFICULDADE NO CAMINHO DA PSICANÁLISE, 1917).
Freud levanta a questão da parte inconsciente da mente, que é enormemente maior que a parte consciente, com isso revela que nossas escolhas nunca são inteiramente conscientes e na realidade a maior parte delas fazemos sem saber muito bem o porquê.
Segundo Schopenhauer as escolhas são feitas indiferente do que elegemos como motivo consciente. Para o filósofo que influenciou grandemente Freud, a escolha não revela ideias superficiais, mas:
“ela responde ao conjunto de nossos sentimentos, de nossos pensamentos e de nossas aspirações as mais íntimas…”. (Schopenhauer, 1818). Aquilo que realmente motiva o sujeito está distante de seu próprio conhecimento.
Essa ideia já se encontrava no pensamento humano, mesmo antes de Freud, em Arthur Schopenhauer (1788 —1860), filosofo alemão, quando propõe que o ser humano não é livre, mas é sujeito à suas necessidades representadas na vontade de viver. Em seu ensaio SOBRE A LIBERDADE DA VONTADE, Schopenhauer propõe que a liberdade de escolha está subordinada a necessidade e dela é escrava.
Além disso, existe sempre a influência do desejo do outro em nossas escolhas, já que o primeiro e maior desejo do ser humano é o de ser desejado. De tal modo, desenvolve inúmeros recursos para atrair a atenção do outro com o intuito de ser aprovado por ele. De qualquer forma, por mais que o sujeito imagine que suas escolhas tenham sido feitas por sua própria vontade, ainda assim essas escolhas terão grande influencia do desejo do outro.
Uma verdade difícil de conceber, mas ainda assim, evidente a aquele que tem coragem de perceber, é o fato de que para aquilo que realmente importa não existe escolha. A realidade é uma só, independente do nosso desejo, ou de nossas escolhas e só o que podemos fazer é nos tornarmos capazes de reconhecê-la como ela é.
Lembro-me da musica do Renato Russo (1960 — 1996), QUANDO O SOL BATER NA JANELA DO SEU QUARTO: lembra e vê que o caminho é um só. Temos o livre arbítrio e esse é um conceito presente tanto na filosofia quanto nas religiões, no entanto, a realidade ainda é uma só. Ou estamos de acordo com a realidade ou estamos nos mantendo iludidos.
Na realidade, somos obrigados a escolher quando não estamos sendo capazes de nos manter de acordo com a realidade. Desta forma fica obstruída a percepção do caminho que está aberto bem a nossa frente. Somos, amiúde, levados a julgar, estabelecendo o que é bom e o que é ruim.
Num modelo primitivo de perceber o mundo, de forma desintegrada, assim como nos propõe Melanie Klein (1882 — 1960) sobre a posição esquizoparanóide. Segundo Klein, não existe no bebê ao nascer, suficiente capacidade para tolerar as angústias que experimenta e por conta disso o ego é fragmentado. Com o eu dividido, a realidade externa também se decompõe. As experiências de gratificação e frustração são sentidas com grande intensidade pelo bebê.
“Em consequência, o seio materno , tanto quanto é gratificador, também é amado é sentido como ‘bom’; na medida em que for uma fonte de frustração, será odiado e sentido como ‘mau’.”. (Klein, 1952).
Depois de adultos, ainda funcionamos, a maior parte do tempo dessa forma primitiva, assim como fazíamos quando bebês. Elegemos como bom, aquilo que nos traz prazer, ou nos proporciona gratificação, de alguma forma, e elencamos como mau aquilo que nos frustra, ou nos priva de recompensas.
O ser humano tem enorme dificuldade em atingir a maturidade suficiente para que seja possível seguir seu caminho, sem esperar recompensas em troca. A psicanálise assim como a filosofia, nos traz grandes contribuições nesse sentido, entretanto as formulações religiosas já nos alertavam para isso há tempos.
No BHAGAVAD GITA, trecho das mais antigas escrituras da Índia, Sri Krsna elucida ao guerreiro Arjuna sobre a desventura de agir esperando recompensas, que torna o sujeito escravo de um falso-agir. Esse que assim o faz, de forma inversa, acaba por se onerar de prejuízos sempre que age dessa maneira. Diferente daquele que age simplesmente pelo amor à realização da alma, indiferente dos resultados, age conforme a auto-realização.
“Obra praticada com desejo de recompensa, na esperança de receber em troca algo melhor, por vaidade, ganância ou ostentação – esta reveste a índole da cobiça.”. (BHAGAVAD GITA, 17:12).

Também no capítulo 2 do TAO TE CHING, que é O LIVRO DO CAMINHO E DA VIRTUDE de Lao Tse, ele escreve sobre o “wu wei”, que significa a não-ação e tem o sentido de ação sem intenção. Essa obra é a estrutura central do taoísmo. Lao Tse nasceu na província de Na Hue, na cidade de Guo Yang, no período entre 1324 e 1408 A.C..

“O Homem Sagrado realiza a obra pela não-ação
E pratica o ensinamento através da não-palavra
Os dez mil seres fazem, mas não para se realizar
Iniciam a realização mas não a possuem
Concluem a obra sem se apegar
E justamente por realizarem sem apego
Não passam.”
Lao Tse no TAO TE CHING.

Também na fé cristã é possível encontrar essa mesma ideia. Na devoção da oração do Pai Nosso onde se diz “seja feita a vossa vontade”. Abrimos mão de nossas escolhas para que algo maior nos guie. De qualquer maneira, seja em que perspectiva for, sempre que estivermos cogitando sobre formulações nobres e amadurecidas do pensar, será possível perceber que a escolha é sempre ilusória se aplicada às experiências fundamentais que devem seguir um fluxo natural que não se encontra dentro de nosso domínio.
Portanto, pela predominância inconsciente do funcionamento mental, como nos orienta a psicanálise, não nos permite ter consciência do nosso desejo e isso nos faz incapazes de nos tornarmos donos de nossas escolhas.
Da mesma maneira, na ideia de Schopenhauer, que antecedeu a psicanálise, a vontade imperiosa do corpo não nos permite desejar o que desejamos querer, fazendo que nossa escolha seja sempre tendenciosa. Na perspectiva religiosa, onde a vontade de Deus sobrepõe à do humano, que mesmo gozando do livre arbítrio, fica subordinado à vida material quando recorre a suas escolhas. Ou ainda, na lei da natureza que sobrepõe à escolha humana, que mesmo tentando ousa dominá-la sofre severas consequências. Sendo assim, fica a indagação: o que realmente podemos escolher?

ESCOLHAS!
Mas, de que escolha aqui falamos, ora, pois?
Se quando era incapaz de escolher, isso por si só,
já era evidente e impossibilitado me via de escolher,
por conta dessa condição de limitação.
E agora, amadurecido pela vida,
quando me parece possível escolher,
vejo me comandado pela minha intuição,
que me aponta um caminho e me diz que não há outra direção.
Assim, mais uma vez, fico sem escolha, então...
Se a água não escolhe pra onde escorrer
e escorre mesmo sem questionar.
Pode sim ser obstruída e se interromper
e assim pode em mágoa represar.
Porém, ora desobstruída volta a escorrer
mesmo sem ninguém pra lembrar.
(Martino, em O LIVRO DO DESAPEGO, 2015).

BÍBLIA. Português. BÍBLIA ONLINE. Disponível em: . Acesso em: 08 jan. 2017.
Freud, S. (1917). UMA DIFICULDADE NO CAMINHO DA PSICANÁLISE, in Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas - Edição Standard Brasileira, IMAGO (1969-80),
KLEIN, M, (1952/1969). ALGUMAS CONCLUSÕES TEÓRICAS SÔBRE À VIDA EMOCIONAL DO BEBÊ. Em OS PROGESSOS DA PSICANÁLISE. Rio de Janeiro: ZAHAR EDITORES.
LAO-TSÉ. Tao Te Ching. Tradução de Huberto Rohden. São Paulo. Martin Claret. 2003.
MARTINO, R. D. O LIVRO DO DESAPEGO - 1. ed. - São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2015.
SCHOPENHAUER, A. Sobre la liberdad de la voluntad. Alianza Editorial, Madrid, 2002 Traductor: Eugenio Ímaz.
______________ (1818). O Mundo como Vontade e Representação. Rio de Janeiro: Contraponto Editora, 2001. (Tradução de M. F. Sá Correia).
Prabhupada, A. C. Bhaktivedanta Swami. O BHAGAVAD-GITA - Como Ele É. Editora: The Bhaktivedanta Book Trust. 1976.







sábado, 6 de maio de 2017

SOBRE O BENEFICIO DE SE ESTAR DOENTE

O que chamamos de personalidade parece ser o resultado de disposições inatas, mas fundamentalmente das configurações de relacionamentos estabelecidos. Nascemos com características peculiares, no entanto também vamos sofrendo influências que irão acentuando ou minimizando esses atributos. Quando Wilfred Bion (1897 – 1979) nos orienta sobre o fato de que "O pensar passa a existir para dar conta dos pensamentos." (BION, 1962), ele nos sugere que antes mesmo de o pensador ter nascido já havia um pensamento que o precedeu. 
Wilfred Bion
(1897 – 1979)

Quando nasce um bebê, de certa forma, já tem como incumbência suprir certas expectativas, que já existiam antes de seu nascimento. Portanto, fica claro que mesmo antes de o sujeito nascer, as configurações vinculares já definiam certas características de sua personalidade. Os vínculos significativos, que definem traços fundamentais na estruturação da personalidade, também continuam influenciando a configuração do funcionamento do sujeito. Por essa perspectiva a frase de nossas avós parece ganhar um grande sentido quando propõe: “diga com quem andas e eu te direi quem tu és.”.
As relações influenciam na maneira como funcionamos, tanto de forma saudável quanto de maneira nociva. Uma vinculação saudável pode propiciar a expansão do pensar e com isso um bom desenvolvimento da personalidade. Por outro lado, um vínculo nocivo pode obstruir a ampliação do pensamento dificultando o desenvolvimento da maturidade emocional e consequentemente prejudicando a estruturação da personalidade. Isso deve ser tão comprometedor quanto mais tenra for a idade do sujeito em desenvolvimento.
Sendo de uma maneira ou de outra, essa influência deve ocorrer essencialmente através de modelos. Quando somos amados com sinceridade, por exemplo, aprendemos a amar a nós mesmos e com isso nos qualificamos para amar o próximo.  No entanto, enquanto a influência que combina amor e sinceridade é poderosa, proporcionando a expansão e o desenvolvimento, a influência que esteja permeada de ódio tem consequências desastrosas. Alguém mentalmente comprometido pode ameaçar a saúde mental daquele que se encontra intimamente ligado. A desorganização na mente de um desorganiza a mente do outro.
Sigmund Freud (1856 – 1939) alertou com propriedade sobre o que denominou “lucro secundário” nos pacientes. Para Freud lucro secundário consiste no benefício em continuar doente, ou ainda, as vantagens em sustentar uma suposta doença. Freud percebeu em inúmeros casos que o paciente percebera uma vantagem em continuar doente “e raramente deixa de haver ocasiões em que se comprova que a doença, repetidas vezes, se torna útil e adequada, e adquire, por assim dizer, uma função secundária que reforça novamente sua estabilidade.”. (Freud, 1917). 
Enquanto o ganho primário estaria na possibilidade de descarga da libido reprimida, geradora de enorme desconforto e que é aliviado a cada manifestação do sintoma, numa ‘a fuga para a doença’, o beneficio secundário se encontraria nas vantagens sociais e emocionais adquiridas pelo paciente em função de sua suposta doença que perduram mesmo depois das causas terem sido amenizadas, ou mesmo dissolvidas. “Eles se queixam da doença, mas a exploram com todas as suas forças; e se alguém tenta afastá-la deles, defendem-na como a proverbial leoa com seus filhotes.” (Freud em A QUESTÃO DA ANÁLISE LEIGA, 1926).
No entanto, não é só o paciente que deve lucrar com o estado de sua enfermidade, mas aquele que convive com ele também pode ter um benefício nisso. Muitas vezes, aquele que se relaciona com um sujeito adoecido ou mesmo fragilizado, seja fisicamente ou emocionalmente, pode encontrar uma forma de se beneficiar dessa situação. Amiúde, o diagnóstico dado a uma pessoa é muito conveniente também a aquele que com ela está vinculado, trazendo certos benefícios ocultos. Esse benefício pode ser desde ordem financeira, até no âmbito emocional. A isso poderíamos chamar de “ganho terciário”. Isso pode se estender para além das patologias, mas deve também ser aplicável às características mais amplas de cada sujeito.
Manter-se vinculado a alguém emocionalmente imaturo, por exemplo, pode trazer ao sujeito a impressão de ser muito amadurecido. Assim como, manter-se numa relação com alguém fracassado pode trazer a ilusão ao sujeito, de ser bem sucedido. Nessa relação parasitária, o sujeito que se sente inferior obviamente também tem o ganho de se manter num estado confortável de comodismo.

O fato de o sujeito se impor frente ao outro, infligindo uma forma dominadora de ser, não é um sinal de saúde emocional. Por mais que muitas vezes a arrogância seja idealizada por dar ares de superioridade, por detrás de um prepotente existe sempre um grande inseguro de si mesmo.
Muitas vezes o sujeito demonstra uma suposta habilidade em comandar o outro, no entanto, mal consegue conduzir a si mesmo. Dessa maneira, muitas vezes o sujeito mais comprometido com incapacidades emocionais pode se esconder atrás de uma suposta sensatez, que na realidade é amparada por arrogância, dissimulando sua insegurança com prepotência. Esse sujeito dificilmente busca ajuda, até porque não acredita precisar. Muitas vezes aquele que busca psicoterapia é justamente o sujeito emocionalmente mais saudável da família.
Quando é possível se realizar um bom trabalho no processo psicoterapêutico, o resultado se expande para além do próprio paciente. Para tanto, é fundamental que exista o encontro entre um sujeito que é capaz de perceber sua necessidade de ajuda e um psicoterapeuta que possa contar com um bom nível de maturidade emocional para acolhe-lo.
Uma psicoterapia bem sucedida não favorece exclusivamente o paciente, mas também a aqueles que com ele se relacionam.
                                                                                          
BION, W. R. [1962]. “Uma teoria sobre o pensar.” In: BION, W. R. Estudos psicanalíticos revisados. Rio de Janeiro: Imago, 1994. p.127- 137.
Freud. S. O TEORIA GERAL DAS NEUROSES, ESTADO NEURÓTICO COMUM, CONFERÊNCIA XXIV, PARTE III. (1917 [1916-17]),Obras Completas, Vol. XVI.
____. A QUESTÃO DA ANÁLISE LEIGA: CONVERSAÇÕES COM UMA PESSOA IMPARCIAL (1926), Obras Completas, Vol. XX.



P


quinta-feira, 4 de maio de 2017

Convite para o lançamento do livro PSICANÁLISE DO ACOLHIMENTO vol. 1

O GEPA - Grupo de Estudo Psicanálise do Acolhimento faz um 
convite para o lançamento do livro PSICANÁLISE DO ACOLHIMENTO vol. 1
Apresentando 14 autores com importantes temas da psicanálise.
Local: OBA - Obra Assistencial da Basilica - 
R. Floriano Peixoto, 1200 - Boa Vista, São José do Rio Preto, SP
Informações pelo fone 17 30113866
Dia 20 de maio de 2017 às 16:00 hs.
Venha prestigiar e traga um litro de leite para obra de caridade!

domingo, 23 de abril de 2017

SOBRE O BULLYING: Entrevista para a Revisra Bem-Estar, do jornal Diário da Região de São José do Rio Preto - SP.

Juliana Ribeiro - A série da Netflix, 13ReasonsWhy, teve estreia dia 31/03 e já tem record de audiência. É uma série que retrata como o bullying na adolescência pode causar grandes estragos. No Brasil não há um levantamento sobre o tema, mas diversos estudos em outros países apontam o crescimento da depressão entre os jovens. Podemos dizer que esse aumento está relacionado ao bullying sofrido nas escolas e quais outros fatores?

Prof. Renato Dias Martino - Na maioria dos casos o sujeito que sofre grande desrespeito, violência ou qualquer que seja a agressão no ambiente escolar, já tem um histórico de relacionamento malsucedido, dessa mesma qualidade, em casa. Na realidade tudo aquilo que ocorre fora de casa consiste em uma extensão das experiências ocorridas no seio do lar. Isso tanto em relação às experiências saudáveis quanto às vivencias malsucedidas.

Juliana Ribeiro - Quais as consequência negativas que o bullying pode trazer na vida de um jovem?
Prof. Renato Dias Martino - A mente tende a repetir as experiências malsucedidas, como uma nova tentativa de elaboração. Sigmund Freud (1856 – 1939), em seu texto RECORDAR, REPETIR E ELABORAR de 1914, nos alerta que tendemos a repetir em forma ação impensada, tudo aquilo que é desconfortável de se recordar. “Ele o reproduz não como lembrança, mas como ação; repete-o, sem, naturalmente, saber que o está repetindo.”. (Freud, 1914). De tal modo, a violência que, muito provavelmente já ocorria no lar, deve se repetir na escola e da mesma maneira, acaba se desdobrando vida a fora. Manifestando-se na vida adulta, como assedio moral e psicológico no ambiente de trabalho. Na realidade, a violência pode ser percebida desde o berçário até os ambientes de casas de repouso de idosos, independente da idade cronológica.
Essa ordem de experiência pode se repetir através de dois modelos principais: a) a primeira, onde a criança repete a hostilidade consigo mesmo, culpando-se pelo fracasso de sua vida. Dessa maneira retraindo-se das experiências externas não conseguindo mais confiar no outro. b) Num segundo modelo, de forma inversa, onde o sujeito que sofreu a violência desenvolve características semelhantes as do que o agrediu, se tornando tão violento quanto.
Poderíamos também pensar naquela criança que hoje é agredida e que foi privado da presença paterna.  Aquele que o defenderia e assim traria um modelo para que se desenvolvesse um recurso de autodefesa. Também ausência paterna poderia ser geradora da falta de limite no que agora se coloca na posição de agressor. 

Juliana Ribeiro - Adolescentes que praticam bullying, praticam de forma consciente?

Prof. Renato Dias Martino - O conceito de consciência é um conceito muito complexo. Nunca é possível saber o que realmente é consciente ou não, quando avaliando o outro. No entanto, me parece que se tornar consciente dos seus atos é o que liberta o sujeito da ação repetitiva. Essa regra não deve se aplicar ao sujeito onde exista uma perversão grave, ou mesmo uma psicopatia, que o levaria agir de forma sádica, violento conscientemente, pelo prazer de fazê-lo.

Juliana Ribeiro - Qual a responsabilidade da escola?

Prof. Renato Dias Martino - Não acredito na responsabilização da escola por questões que deveriam ser cuidadas no seio da família. Nenhuma escola pode proporcionar aquilo que faltou no lar. É claro que existem medidas para que se possa tomar para amenizar a violência dentro da escola, mas casos em que possa ter havido uma real reparação do dano, por conta de uma intervenção da escola, são raros.

Juliana Ribeiro - A importância da atuação familiar?
Prof. Renato Dias Martino - Total! A responsabilidade é toda da família, por mais que vivendo em nosso tempo, isso possa ter sido terceirizado muito cedo para creches, escolas, faculdades, chegando às casas de repouso para idosos. Assim como na planta, a raiz tem função de base, onde todas as substancias que nutrem a vida são oriundas dali, também a família tem função análoga, na vida humana. Esse problema tem origem no lar e só a partir do lar é que pode se reparar qualquer dano. 

Juliana Ribeiro  - Na era digital esse jovens estão se sentindo ainda mais só?
Prof. Renato Dias Martino - Não vejo dessa forma. É muito conveniente culparmos os computadores pela solidão originada do despreparo e do egoísmo dos pais. O advento da internet poderia ser um veiculo de enorme expansão da consciência se pudéssemos contar com mais respeito, companheirismo e responsabilização por si mesmo e por aquilo que criamos.

Juliana Ribeiro - Quais são os sinais de alerta que os pais podem ficar atentos?

Prof. Renato Dias Martino - Os sinais são evidentes, o grande problema é a incapacidade dos pais em percebê-los e reconhecê-los, por estarem tão ocupados tentando correr desesperadamente, atrás de sabe-se lá o que; talvez seus próprios umbigos. Existe uma conveniência em não perceber os sinais do sofrimento dos filhos, pois uma vez reconhecidos inicia-se um processo de ter de se responsabilizar por isso. A grande dificuldade em se enxergar a realidade é a conveniência em se manter cego.

Juliana Ribeiro - Para esses jovens, que estão cada vez mais inseguros e, no momento se sentem sozinhos, sem poder confiar em ninguém. Como fazê-los se abrir de forma natural?

Prof. Renato Dias Martino - Essa insegurança é fruto do despreparo dos pais em proporcionar um ambiente que possa trazer o mínimo de estrutura para esses jovens. Falo de um lar que possa contar com a presença dedicada dos pais, onde respeito, afeto e sinceridade sejam atributos fundamentais. Um convívio cotidiano de paz e harmonia. Isso tudo nada tem haver com condições financeiras, já que é possível viver isso dentro de um lar que seja muito humilde. Só através da construção de um ambiente saudável, por se mostrar realmente confiável, pode haver uma real abertura.

Juliana Ribeiro - Há quem acredite que por ser vítima de bullying deve praticar o ato com outras pessoas. Como fazer com que isso não se transforme em um ciclo vicioso?

Prof. Renato Dias Martino - Uma vez instalado o trauma pela violência é muito difícil se desenvolver recursos para se reverter. Nessa experiência a questão da prevenção deve implicar num dispêndio bem menor do que a tentativa de remediar. Ainda assim, a busca por reparação dessa ordem de traumas sempre se encontra no acolhimento vindo da família, aliado ao um processo psicoterapêutico de qualidade.

Juliana Ribeiro - Dá para superar o bullying e sair fortalecido emocionalmente? 

Prof. Renato Dias Martino - Na medida em que se possa contar com um ambiente acolhedor, existe grande esperança de superação. Ainda que cada caso deva ser avaliado separadamente, conforme suas complexidades e particularidades, a disposição de um ambiente acolhedor e livre de julgamento tem sempre poder curativo.

Juliana Ribeiro - Por que quem sofre qualquer tipo de humilhação tem tanta dificuldade de falar, de buscar ajuda? Essas pessoas chegam acreditar que são o que os outros dizem e por isso não merecem ser ouvidas?



Prof. Renato Dias Martino - Depois de ser hostilizado o sujeito tende a se fechar para as novas experiências, e vive uma grande dificuldade em confiar no outro. Isso ocorre, pois cada nova relação que se apresente virá carregada de desconfianças. O sujeito sempre guardará suspeita (imaginária) de que em algum momento, igualmente será hostilizado, de algum jeito. Isso pose se revelar-se na personalidade do sujeito, na melhor das hipóteses, como um grande acanhamento, mas também pode torná-lo uma “eterna vitima” das circunstâncias.  




Prof. Renato Dias Martino
Fone: 17- 991910375

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Prof. Renato Dias Martino - bullying - BEM ESTAR AO VIVO - Diário da Região

No Brasil, aproximadamente um em cada dez estudantes é vítima frequente de bullying nas escolas. São adolescentes que sofrem agressões físicas ou psicológicas, que são alvo de piadas e boatos maldosos, excluídos propositalmente pelos colegas que não são chamados para festas ou reuniões. Esse é o assunto do programa Bem-Estar ao Vivo de hoje, que vai ao ar às 14h30, ao vivo pelo Facebook do Diário da Região. Os convidados do dia são o psicoterapeuta Renato Dias Martinoo e a psicóloga Karina Rodrigues.

Prof. Renato Dias Martino
Contato: 17-30113866

quinta-feira, 13 de abril de 2017

LEALDADE

O ser humano não nasce sabendo amar, mas aprende a amar através do amor do outro. A lealdade, por sua vez, é uma extensão da capacidade nobre do amar. Portanto, necessita de modelos para se desenvolver. Não se aprende a ser leal através de ensinamentos teóricos. Essa nobre capacidade só pode ocorrer em personalidades em que a maturidade emocional tenha atingido um bom nível.
A saber, quando falo de maturidade emocional não me refiro a referenciais cronológicos, pois, uma criança de pouca idade pode, muito bem, desenvolver uma maturidade emocional bem mais evoluída do que muitos adultos. Isso dependerá da maneira como tenham sido conduzidas as suas experiências afetivas, ou seja, o quanto o sujeito possa ter se sentido amado, e se foi possível confiar na lealdade daquele que cuidou dele numa época em que não era capaz de cuidar de si mesmo.

Para o desenvolvimento da lealdade, é impreterível que se possa ter desenvolvido a capacidade de tolerar frustrações. O sujeito deve ter crescido na disposição para renunciar muitos de seus desejos narcisistas, que naturalmente fazem parte da mente imatura, para ser capaz de se tornar leal. Contudo, ainda que um sujeito tenha desenvolvido sua capacidade de lealdade, ainda assim terá que cuidar dessa habilidade constantemente, haja visto que em nós humanos, existem tendências narcisistas que atuam o tempo todo e que nos convidam a desistir das práticas nobres frente a inseguranças eventuais.

A lealdade é filha da confiança e assim sendo é uma função dos vínculos. Ser leal é sempre em relação a alguém em que se confia. Na realidade, a lealdade é condição fundamental para se definir um vínculo saudável. No entanto, a lealdade quando não correspondida se invalida em sua função e se transforma em mero conceito vazio de conteúdo. “A con-fiança que significa fiança compartilhada, mantida pelas partes, nutrida pela fé e assim geradora da fidelidade. O fio que permite, depois do conhecer, ausentar-se para que assim no regresso seja possível o reconhecer.” (Martino em O amore a Expansão do Pensar, 2013).



MARTINO, Renato Dias. O amor e a expansão do pensar : das perspectivas dos vínculos no desenvolvimento da capacidade reflexiva , 1. ed. São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2013.