quinta-feira, 23 de abril de 2009

Conhece-te a ti mesmo









"O reconhecimento da própria identidade é um processo árduo e em permanente construção, abastecido de crises existenciais, mas evitá-las pode colocar em xeque uma mente saudável"

Por Renato Dias Martino



Na busca por instrumentos que nos possam auxiliar na tarefa de pensarmos o conteúdo psíquico, faces da alma, ou qualquer nome que possamos criar para os aspectos da personalidade (aquilo que transcende o corpo físico), cogitaremos sobre algo dinâmico, algo que se forma como processo e nunca como produto. Sugiro até uma analogia com algo fluido e corrente, como a água que corre num rio. Apesar de tendermos a pensar a personalidade como algo estático ou um produto pronto, ou acabado, e a criticar veementemente qualquer possível falha, não nos esqueçamos que se trata de algo vivo e, portanto, só estará concluído na morte (e ainda assim viverá nas impressões que deixará no mundo). Perceba que, por mais fiel que possa ser o retrato de um rio, ele nunca mais será aquele que fora retratado anteriormente. Os conteúdos psíquicos estão, e é bom que estejam, em constante movimento. Sob o olhar psicanalítico podemos pensar em impulsos internos, em suas tentativas de encontrar no mundo externo o que possa representá- los. Cada experiência que permita o vínculo de um impulso interno (psíquico) com um objeto do mundo externo como representante é, para o eu, um tijolo em sua construção, um passo na busca pela maturidade. Assim, no encontro impulso interno/ representante externo dá-se à capacitação do Ego, ou em outras palavras, o desenvolvimento do que poderíamos chamar de órgão emocional. Assim como no corpo é função do fígado certa tarefa no funcionamento biológico, na alma é função do Ego organizar o que se sente, transformá-lo em pensamento e, finalmente, em palavras comunicáveis ao outro. Essa capacidade do Ego progride conforme a qualidade do vínculo que se pode ter com o real, a realidade ou a verdade sobre o que se vive.

Porém, o desenvolvimento de um processo implica sofrimento. A própria expressão da fala coloquial nos orienta quando diz: “sofrer o processo”. Penso que todo e qualquer movimento de expansão implica em crise e é, em si, uma fase no processo de crescimento da alma, ou qualquer que seja o objeto de observação e estudo. O sofrimento estará presente, mesmo que em uma pequena dimensão, tanto naquele (ou naquilo) que busca crescer, como naquele que impede o desenvolvimento.




Ser ou não ser
Eis a questão; se é mais nobre ao espírito suportar as pedradas da sorte ultrajante ou se opor a um mar de percalços e vencê-los, continuaria Shakespeare. Em outras palavras, ou nos conformarmos com o que somos e/ou temos, ou enfrentamos as diversidades conscientemente. Mas, diante de uma ou outra opção enfrentaremos o mar de percalços, isto é pagaremos “seu preço”, o preço da crise existencial de ter que escolher as conseqüências da decisão tomada.




Somos dotados de uma parte da alma chamada identidade (iden-entidade). Idem, que sugere algo que é sempre igual, ou numa visão mais ampla, aquilo que é como o outro, e entidade, como figuração de algo vivo, algo que existe. Esse é o lugar de nossa origem, da nossa herança e mais profundamente daquilo ao qual o psicólogo suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), discípulo de Sigmund Freud (1856-1939), chamou de inconsciente coletivo, o conjunto de arquétipos que nos liga a toda humanidade. É nossa essência, o que realmente somos, aquilo que podemos evitar, mas não podemos fugir - ou seja, aquilo que explicaria nossa existência. O pensamento que nos antecedeu e que nos tornou pensador.

Se tomarmos esse vértice, podemos pensar a crise existencial como o resultado de conflito entre o que sou e aquilo que gostaria de ser. É como se nosso ‘si mesmo’ se sentisse ameaçado de abandono por não ser bom o bastante. O reconhecimento de partes de nossa identidade é sempre um desequilíbrio do eu, e é em si o processo doloroso da expansão da alma. Existe sempre um medo implícito no processo do desenvolvimento, algo que surgirá, como no primeiro vôo de um pássaro, a liberdade e a insegurança. A dor gerada pelo confronto entre o narcisismo (Freud, 1914) e nossa real capacidade. Nunca somos exatamente o que imaginamos, ou queríamos ser, e isso é o que nos faz lutar pra melhorar. Quanto mais se amplia a visão da alma, maior será a sua capacidade de expandir-se no mundo.

A tarefa de reconhecer-se é, antes de tudo, uma tarefa de tornar-se consciente de nossa própria ignorância

Contudo, todo momento de crise é também caracterizado por uma bifurcação das escolhas. Nesse trecho o caminho abre-se em dois. Um lado é especialmente atrativo por sua acessibilidade, porém se apresenta como círculo e volta sempre no mesmo ponto; o outro lado é sempre mais difícil e sem dúvida menos atrativo, pois exige paciência. Nesse caminho existe uma ponte após a qual nunca mais somos os mesmos. Uma vez cruzada a ponte da maturidade da alma, não mais se retorna. Como coloca o poeta chileno Pablo Neruda em Adioses: “Quem volta jamais partiu”. Para que possamos reconhecer- nos a nós mesmos, ou aquilo que podemos chamar de substância do existir, é necessário um movimento de regressão. Um caminho de volta, porém agora, percorrendo-o em busca de responsabilizar- se pelo cuidado da própria vida, e aí sim não tem volta. Penso em uma seqüência de experiências que nos convida a aproveitar como aprendizado. Nessa direção reconhecemos cada falta existente no eu e iniciamos um trabalho de capacitação para viver com elas.
Mas não é sempre assim, podemos aproveitar a crise para crescermos, ou como um motivo para alimentar uma possível crença de destino para o fracasso. Nesse segundo modelo, no lugar da maturidade do eu, o que se dá é uma fixação regressiva, é como se caminhássemos com a cabeça voltada para trás, fixados num ponto do passado. Reconhecemos o ‘si mesmo’, porém não conseguimos nos responsabilizar por ele, assim, responsabilizamos o outro pelo fracasso do eu.


Sigmund Freud
A lenda grega de Narciso, filho de um ato de estupro do deus-rio Cefiso à ninfa Liríope, é uma ótima ilustração do uso que podemos fazer da experiência do reconhecimento de nossa identidade. Em uma consulta, a mãe ouve do adivinho Tirésias que Narciso teria vida longa desde que jamais contemplasse a própria figura. Sua identidade não poderia ser reconhecida, ele não poderia passar pela crise existencial do reconhecimento do ‘si-mesmo’. Quando o fez, não suportou e morreu contemplando a própria imagem na margem do rio. Narciso não se preparou para o reconhecimento de ‘si-mesmo’. Se tivesse suportado conhecer sua essência, teria dado um enorme passo para sua individuação (Jung, 1916, Psicologia do Inconsciente, ed. Vozes), para o auto-conhecimento.


O desespero humano
Certa vez um sábio oriental falou: Um homem no campo de batalha conquista um exército de mil homens. Um outro conquista a si mesmo - Este é o maior. É nesta perspectiva que o filósofo Kierkegaard (imagem) fala sobre o desespero humano: como um processo de conquista do próprio eu. Para ele, o homem em desespero tem o costume de se considerar uma vítima das circunstâncias, porque o desespero revela a miséria e a grandeza do homem, pois é a oportunidade que ele possui de chegar a ser ele mesmo. O desespero é universal.




As crises são partes de um processo natural de uma mente saudável. Podemos evitar o reconhecimento do ‘si mesmo’, mas não podemos evitar a crise. Se pudermos nos arriscar em uma metáfora, é só com a crise no ovo que o pintinho pode nascer. Se o ovo evita a crise, coloca em risco a vida do pintinho. Nesse modelo, a patologia, então, ocorre quando tentamos evitar a crise. Um modelo que nunca se propõe crescimento, ficando assim exposto aos desequilíbrios do mundo externo e interno, torna-se emocionalmente vulnerável e permanece imaturo em suas escolhas.
Wilfred Ruprecht Bion
(1897 - 1979)
Wilfred Ruprecht Bion (1897 - 1979), que foi o discípulo mais turbulento de Melanie Klein (1882–1960), propõem algo nessa direção quando escreve: “A personalidade desenvolve a onipotência como um substituto a associação da preconcepção, ou concepção, com a realização negativa. Isto implica a adoção da onisciência como um substituto do aprender com a experiência (...).”
Assim como duplas que estão juntas tentando evitar crises dentro de uma relação perversa e falida, o fazemos conosco mesmo. Não abrimos mão de certos conceitos que são inúteis (ou servem para mascarar a verdade) por medo de nos reconhecermos em nossa essência e abrirmos a mente para o novo. É a questão dos paradigmas. Acabamos por obstruir o reconhecimento do eu em nossas reais capacidades e assim adiamos o desempenho das mudanças necessárias em nossas vidas. Sabotamos dessa forma, nossas capacidades.

É só com a crise no ovo que o patinho pode nascer.
Se o ovo evita a crise, coloca em risco a vida do filhote

De qualquer forma esse processo emerge e manifesta-se em forma de comportamento; sentimos que algo errado ocorre em nosso interior e também no externo, pois nossos relacionamentos ficam também comprometidos. Ao evitar-se o conhece-te a ti mesmo (inscrição do portal grego de Delfos), transformam-se as relações em modelos de dependência, nos quais o que se percebe é uma alma comandando dois corpos. Num modelo de vínculo umbilical, depende-se exclusivamente do outro para que se possa desempenhar o pensar. Como na relação mãe/bebê, na qual ela é quem decodifica cada choro da criança, mostrando a ela (que sente apenas um incômodo) que chora por um motivo e não por outro. Nesse modelo as esco- lhas são sempre de relações como espelho. É como se a falta que está sendo negada e escondida do eu aparecesse no outro, naquele que mais importa para o eu. Aqui também é interessante a analogia com o mito de Narciso, que só despertara interesse por uma mulher em sua vida, Eco, a ninfa, que fazendo jus a seu nome tinha uma característica particular em sua fala: só repetia o que ele dizia.
A manifestação do conflito é em si o sintoma (manifestação do ‘sinto mal’). Identificamos que está ocorrendo esse modelo de funcionamento mental por meio do que chamamos popular- mente de auto-estima baixa. Percebemos que es- tamos incomodados, mas não sabemos por quê. É nessa fase do processo que geralmente procu- ra-se (ou pelo menos deveria se procurar) alguma forma de Psicoterapia. O choque do reconheci- mento do eu naquilo que somos e não no que queríamos ser implica certa desvalorização do próprio eu, sentida como baixa auto-estima ou complexo de inferioridade. Isso por que com- paramos o que somos àquilo que desejamos ser; nesse período do processo do desenvolvimento da mente, tudo parece importar mais que o eu.



Ao evitar-se o autoconhecimento,
as relações transformam-se
em modelos de dependência,
em que um comanda e decide pelos dois
Assim, podemos perceber a importância de encontrar na dupla analítica ou na relação terapeuta-paciente um ambiente seguro para se viver e pensar esse tipo de experiência. Existe um tempo para qualquer que seja a maturação e com a mente não é diferente. O medo da mudança pode ser um componente da prudência. Dessa forma, como poderíamos cobrar de um eu imaturo que se responsabilize por si mesmo? O impedimento no curso do desenvolvimento pode ser um indicativo de uma ameaça real, o eu pode não estar maduro o bastante para sua independência. Para percebermos essa capacidade egóica, a idade cronológica é um péssimo referencial, pois aquilo que se deve cuidar não está vinculado a nenhuma noção de tempo ou espaço, além de ser algo genuinamente imaturo por si só. Aqui, a tolerância em perceber-se imaturo é imprescindível. Mas, a tole- rância só é saudável se contar com a fé. Paciência sem esperança é comodismo e trans- forma o que seria um sujeito prudente em um covarde.

Paciência sem esperança é comodismo e transforma o que seria um sujeito prudente em um covarde

 Immanuel Kant (1724-1804),
 filósofo alemão
Na verdade, a tarefa de reconhecer-se a si mesmo é antes de tudo, uma tarefa de torna-se consciente de nossa própria ignorância quanto a nós mesmos - algo extremamente ambíguo. É ao mesmo tempo necessário e impossível, pois não há vida sem experiência, mas nunca nos conheceremos em nossa totalidade. Immanuel Kant (1724-1804), filósofo alemão, propõe-nos que a ‘coisa em si’ nunca poderá ser conhecida e que talvez a vida exija-nos preparação para viver frente às possibilidades. Contamos sempre com a capacidade de imaginação e criatividade para nos reinventarmos a cada dia, criando modos de nos relacionarmos com o mundo.
A própria Psicanálise, assim como toda ciência séria, carece de reconhecer-se a cada pensamento que toma conta de um pensador que nasce. Cresce e desenvolve-se por meio da descoberta de verdades que revelam suas falhas. A crise constantemente será uma chance de crescer e de regredir, sempre ao mesmo tempo. Penso que a necessidade é de nos fortalecermos com instrumentos de reflexão, desenvolvendo nossa capacidade para alavancar nossa vida com a crise. Com o estimulo da criatividade, propormos mudanças constantes em busca da melhor forma de nos instrumentar com aparatos emocionais em prol do crescimento.

Prof. Renato Dias Martino é Escritor e psicoterapeuta. Contato: renatodmartino@ig.com.br




Prof. Renato Dias Martino
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sábado, 7 de fevereiro de 2009

União faz a força

Contribuição na matéria do jornal Diário da Região, 'União faz a força' de Thiago Guimarães.




Nos momentos mais difíceis da vida é que os casais podem se fortalecer e descobrir que são capazes de enxergar a solução dos problemas sem arriscar o relacionamento.
Lézio Júnior
Editoria de Arte



União faz a força
Thiago Guimarães

Nem tudo na vida são flores. Por mais que tenhamos pensamentos positivos e tentemos ser fortes, as dificuldades acontecem a todo momento e podem ser um termômetro para mostrar como será o futuro de um casal. De acordo com a psicóloga Irene Araújo Corrêa, nestes momentos a criatividade, o companheirismo e a amizade da dupla são essenciais para encontrar caminhos. Não adianta gastar energia procurando o culpado ou acusando um ao outro. O importante é encontrar uma solução digna para os problemas que afetam os dois. A psicóloga explica que a maior dificuldade das pessoas nos momentos ruins é abrir mão de alguns padrões. Na maior parte dos casos os parceiros têm medo de deixar para trás comportamentos antigos, existe apego às conquistas anteriores e, principalmente, dificuldade em perceber a adversidade como uma fase que necessita de mudanças. Geralmente, essas mudanças são profundas, definitivas e, muitas vezes, deixam marcas emocionais para toda a vida.
No fracasso algo nos é tirado ou nossa expectativa não estava condizente com a realidade. Na vitória sempre algo positivo é acrescentado. Para que os dois possam encarar de frente os problemas é preciso assumir as escolhas que fizeram. Os dois precisam entender que algumas escolhas não funcionaram bem e constituíram-se em erro ou perderam sua força com o tempo e não são mais interessantes. Na maioria dos casos, é preciso transformar primeiro a si próprio para conseguir efetivar uma mudança. É fundamental assumir sua responsabilidade e trabalhar com afinco para mudar a situação. “Fugir da responsabilidade, não buscar soluções e esperar que os problemas se resolvam sozinhos não são as melhores saídas”, diz.
Na opinião da psicóloga Yara Monachesi, as situações de sofrimento podem fortalecer uma relação se as pessoas se unirem em torno de um objetivo comum, que pode ser a superação da dificuldade. Caso haja um “jogo de empurra”, no qual se responsabiliza o parceiro pela situação, ocorrerá, possivelmente, o desgaste da relação. Se formos pensar, a todo momento, que nossos negócios podem ir por água abaixo ou que nossos entes queridos podem adoecer, será difícil tocar a vida. Por isso, estabelecemos objetivos nos quais acreditamos que sejam coerentes com o desejo de sermos felizes. Quando o sonho se transforma em pesadelo, podemos, contudo, resolver enfrentá-lo, e se contarmos com o apoio e a proximidade de um ente querido, tudo se tornará mais fácil.

Como um pode ajudar o outro
Para encarar as adversidades de frente, no primeiro momento é importante que os dois se reconheçam realmente como um casal. Se existe um vínculo afetivo saudável a superação de problemas tem um forte e poderoso aliado. Isso só pode acontecer se existe entre o casal, um objetivo maior, pois quando não existe uma cumplicidade, certamente eles se apegarão aos fatos e ali encontrarão o fim. Segundo o psicoterapeuta Prof. Renato Dias Martino, com essa cumplicidade o casal realmente define qual é o problema, para que assim possa solucioná-lo. Quando o vínculo não se encontra saudável, ou seja, esteja funcionando de outra forma que não baseado no amor, o que é problema para um, pode não ser para o outro. Aí se forma um ambiente propício para o desenvolvimento da rivalidade. Em momentos onde o outro parceiro não consegue formar uma dupla para resolver os problemas, pode ser um sinal de que, talvez ele não seja um bom modelo de parceiro. “É bom ficar atento porque nestes casos a responsabilidade deve vir de dentro e não por meios externos”, diz. Porém, não podemos esquecer que existem momentos onde é prudente se afastar do outro, até para que se possa solucionar os problemas. Nesse tipo de modelo, a vinculação é tão confusa que é necessário o afastamento para que se ultrapasse a adversidade. Uma vitória ou um fracasso não serão algo acabado. A maior vitória é viver e o momento do fracasso é a ocasião de nos perceber humanos.



Prof. Renato Dias Martino
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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Sonhar ajuda a crescer e equilibrar-se para a vida


Lézio Júnior/Editoria de Arte
Sonhar ajuda a crescer e equilibrar-se para a vida
Cecília Dionizio

Os sonhos assim como o sono são inerentes ao bem-estar mental do ser humano, e tanto um como o outro só fazem equilibrá-lo para a vida. De acordo com a estudiosa do assunto, a psicoterapeuta Maria de Melo, autora do livro “A coragem de crescer”, editora Record, o sonho quando bem utilizado é um canal especial para a alma se manifestar. Porém, Maria alerta que quando se trata de interpretação, é algo muito pessoal e tem a ver com a própria simbologia de cada pessoa. Na obra, a autora fala dos subterfúgios que utilizamos para fugir das questões que nos oprimem e mostra como os sonhos são um caminho de autoconhecimento, contribuindo para a solução de vários problemas e conflitos diários. Ela parte de sua experiência pessoal (e de consultório) para mostrar que o autoconhecimento é a chave da liberdade e que o sonho é o caminho real para conquistá-lo.“Dormir é parte do que o ser humano precisa para se reorganizar para um novo dia”, afirma o professor e psicólogo Valdir Gusmão, pós-graduado em administração estratégica pela universidade de Marília, autor de vários livros. Ao dormir, segundo ele, corpo inicia sua importante missão de reequilibrar os sentidos bioquímicos, biofísicos e biopsíquicos do organismo. “Nossa maquininha precisa de equilíbrio, e é no sono que o encontramos para tornar o dia seguinte bom”, ressalta Gusmão. Num artigo que escreveu sobre o tema, Gusmão explica que o ambiente propício ao sono equipara-se ao de um templo, onde são idolatrados o silêncio, o conforto, o aroma agradável e os objetos de paixão e desejo. Com isto, deixa claro, que para se ter bons sonhos, é importante que o ambiente esteja e seja favorável. Do contrário, sonhos ruins podem derivar deste ambiente.

Já o psicanalista Prof. Renato Dias Martino observa que não raro as pessoas não se recordam de alguns sonhos. Isto porque o aparelho psíquico cria naturalmente certo mecanismo de defesa onde nos esquecemos do sonho ou de parte dele, assim que despertamos. “Isso ocorre porque percebemos nesse sonho ou nesse trecho de sonho alguma verdade muito dolorida ou de nós mesmos. Por isso muitas vezes os sonhos parecem tão desconexos. Ou seja, é uma boa medida para se perceber e conhecer melhor, seja no que diz respeito aos medos, desejos e assim se poderá acessar mais conteúdo dos sonhos”, diz. Para o psicanalista, quando se insiste em lembrar um sonho, é sinal que há um impulso (inconsciente) que requer compreensão. “É uma chance sem igual de se iniciar a jornada do autoconhecimento”, diz. A má notícia é para as pessoas que não sonham nunca, ou seja, não se recordam do que sonham, pois os sonhos ocorrem independentes de ser recordarem ou não. “A pessoa vive uma situação difícil, onde teme aquilo que cria ou imagina. Isso é muito sério, uma vez que somos aquilo que um dia sonhamos. Se não se tem consciência do que se sonha, como poderá realizar?”, questiona o psicanalista Prof. Martino.


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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Tempo para sonhar


Tempo para sonhar
Camila Moreira

As listas de promessas de final de ano contêm as metas que queremos alcançar no próximo ano. Quase sempre estão inclusos planos como emagrecer, gastar menos dinheiro, ser mais generoso, aproveitar mais a vida e ser mais saudável. Mas assim que chega o novo ano, parece que tudo fica mais difícil de cumprir. Não há tempo para ir à academia, elaborar um cardápio mais ligth, os preços só aumentam, e tudo fica na mesma rotina. Isso acontece ou por causa do esquecimento ou porque não se sabe por onde começar a agir. Segundo o especialista em gerenciamento do tempo e produtividade pessoal e empresarial e autor dos livros A Tríade do Tempo - A Evolução da Produtividade Pessoal (Editora Campus) e Você, Dona do Seu Tempo (Editora Gente), Christian Barbosa, definir metas para nossas vidas é algo muito importante, pois é por meio delas que conseguimos ter um sentido para nossas ações e assim alcançar nossos objetivos. E para alcançar metas a primeira providência é definir os objetivos. Não adianta fazer uma lista com 15 itens, pois isso dificultaria ainda mais a conclusão das tarefas. Barbosa ensina que a primeira coisa é criar um plano de ação com, no máximo, três objetivos e quebrá-los em pedacinhos. Ou seja, para cada um deles criar tarefas com prazo de execução. Por exemplo, se a meta é falar inglês fluentemente, primeiro anote uma data para a matrícula do curso, depois coloque em mente que além das aulas, você irá estudar duas horas diariamente. Levando isso a sério, até o próximo ano qualquer um que cumpra a agenda estará falando e pensando em inglês. No entanto, se o objetivo não for verdadeiro ou se for apenas questão de modismo, ou opinião alheia, não será nunca alcançado. “Saber o que realmente quer é o mais difícil. Se não há o desejo e a vontade dificilmente se chega ao resultado. Temos de fazer uma autoanálise e saber se aquilo que buscamos é o que realmente queremos. E se mesmo assim não descobrir é bom começar a buscar foco, uma dica é tentar imaginar como estaremos daqui a 10 anos. Se nada resolver, a única alternativa é a terapia”, diz Barbosa.

“Os desejos possíveis são os mais reais”, com essa afirmação o psicoterapeuta Prof. Renato Dias Martino explica que o próprio desejo pode se tornar nosso inimigo, isso porque não adianta desejar algo que está fora de alcance. Outra questão que o psicólogo aborda é o respeito com o nosso tempo, pois aceitá-lo é priorizar o desejo, já que muitas vezes a demora em alcançar os objetivos, quando estes acontecem, podem vir com outra cara. “Respeitando o nosso tempo valorizamos aquilo que conseguimos, mesmo que não seja exatamente aquilo que imaginamos no início”, diz o Prof. Martino.

Prof. Renato Dias Martino
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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Amarga vingança

Colaboração no texto de Francine Moreno, 'Amarga vingança'.


Dar o troco
O ato de vingar-se faz parte do instinto e é normal, entretanto, quando feita por impulso quase sempre é acompanhada por arrependimento e paga-se um alto preço pelo ódio.

Lézio Júnior/Editoria de Arte
Amarga vingança
Francine Moreno

Em março do ano passado, Jimmy Wales, fundador da enciclopédia on-line Wikipedia, dispensou a namorada, a canadense Rachel Marsden, por meio da internet. O que ele não aguardava é que a vingança dela viria também pela rede, com a venda das roupas dele pelo site de leilões on-line eBay. Com pouco menos de cinco dias para o término do leilão, a camiseta, com duas manchas brancas, já havia recebido lance de US$ 15 mil. Em matéria de vingança, Rachel Marsden se saiu muito bem. Como muitos dizem sua vingança foi comida friamente. Mas nem sempre é assim. A publicitária Laura (nome fictício), de 34 anos, está aí para provar. Após uma traição do namorado, foi à casa do rapaz enquanto a faxineira estava lá. Abriu os armários e queimou toda a coleção de camisetas de time de futebol do infiel, que dormia em cama alheia há seis meses, em uma fogueira no quintal. Aliviada e com uma alegria imensa foi para casa. Entretanto, em alguns meses percebeu a encrenca em que havia se metido. Além de ganhar um processo e pagar todas as despesas da reforma do quintal, sente até hoje, dois anos após, vergonha e remorso. “Hoje entendo a frase de Carmem Sylva, que diz que a vingança é doce, entretanto à abelha custa-lhe a vida”, revela Laura. A psicoterapeuta comportamental neurolinguista Marcelle Vecchi afirma que esse turbilhão de sentimentos que envolve a vingança é comparável a um vulcão prestes a entrar em ebulição e geralmente está acompanhado da raiva, inveja e orgulho ferido. “Quem deixa seu orgulho se ferir é porque o tem enfraquecido, sujeito às opiniões e ações do outro. São pessoas que se deixam abalar, permitem que os outros exerçam muito poder sobre suas vidas, veem os acontecimentos de forma dramática e imediatista, têm dificuldades de projetar esses fatos no futuro e de analisar a situação de um outro patamar que não seja tão ruim”.

Querer dar o troco é normal e pesquisas já comprovaram que traz prazer mesmo, entretanto, dura apenas um dia. “A vingança é uma ação gerada na ausência de tolerância, logo, aquele que é movido por esse recurso primário vive num funcionamento impensado, agindo por impulso. Sendo assim, convive sempre com um sentimento persecutório, na iminência das consequências dessa vingança”, afirma o professor e psicoterapeuta Renato Dias Martino. Quem se vinga tem dificuldade de compreender a outra parte. Às vezes nem enxerga que ela mesmo pode ter contribuído para a situação. De acordo com Prof. Martino, o processo do pensamento é justamente a entrada do outro nas implicações do desejo do eu. “Na verdade, o vingativo carrega um objeto a ser vingado dentro de si mesmo. Quando a vingança pode ser submetida ao pensamento o que se percebe é que sempre está fundada em equívocos.” Uma explicação psicológica para que a vingança corra nas veias de algumas pessoas, é que ela é um recurso primitivo usado pelo aparelho psíquico com o intuito de livrar-se de sentimentos indesejados, como humilhação, injustiça e susto. Um desejo de dominar a situação. Segundo Freud ilustra em seu “Além do Princípio de Prazer (1920)”, uma situação de vingança. Ele descreve o sentimento da criança quando tem sua garganta examinada pela primeira vez. O médico abre sua garganta com um palito de madeira e olha lá dentro. Freud observa que esse tipo de ‘assustadora experiência’ será tema das próximas brincadeiras, com o coleguinha ou irmãozinho mais novo. “Na impossibilidade de vingar-se do agente da humilhação, escolhe um substituto. São todos sentimentos que em um modo mais aprimorado de funcionamento, são tolerados e posteriormente transformados em pensamento”, afirma Prof. Martino.

E nesta consequência estão constantemente experimentando e criando dentro de si sentimentos pobres de conteúdo, que com certeza a prejudicam muito mais que seu alvo de vingança. “Pela sua análise imediatista e impulsiva buscam fazer valer a sua opinião, os vingativos sofrem mais que seus alvos”, afirma Marcelle.Extravase a sua fúria com nobrezaPara que a vingança não faça parte de sua vida, a psicoterapeuta Marcelle Vecchi revela que existem maneiras de extravasar a raiva sem ‘rodar a baiana’, descer do salto e nem ser prejudicado depois. “Primeiro deve-se organizar os fatos para que fiquem claros, isso corresponde a ver a situação por diversos ângulos. Depois, aprender a dividir as responsabilidades, e por fim conversar com a pessoa a fim de esclarecer a situação. Esses são os passos de quem quer resolver a situação de forma mais nobre. Agindo dessa forma, a raiva se dissipa e toma lugar dentro da pessoa. Lembre-se que o mais prejudicado é sempre o vingador e não a vítima.”

Para o professor e psicoterapeuta Renato Dias Martino, o método para acabar com a vontade de punir aquele que te machucou requer dois elementos primordiais em forma de capacidades. Capacidade de conter sentimentos indesejáveis e a capacidade de reconhecimento dos próprios limites. “Por se tratarem de capacidades, estamos falando de algo a se desenvolver. Uma busca lenta e exaustiva, mas a única a nos colocar realmente inseridos no mundo.”

SAIBA MAIS:
Para não se tornar uma pessoa vingativa:::

Aumente sua lente de visão interna e externa, busque aprimorar sua visão emocional::

Desenvolva sua comunicação, se tiver dificuldades faça cursos para aprimorá-la::

Trabalhe sua raiva interna, se não conseguir controlá-la sozinha, procure ajuda profissional::

Desenvolva sua empatia (procure ver situações e pessoas por diversos pontos de vista), desista da premissa de achar que só o seu ponto de vista é o certo::

Cultive dentro de você sentimentos mais nobres, só você pode permitir que esses sentimentos pobres morem em seu interior, expulse-os o quanto antes e abra espaço para que outros apareçam::

Aprenda a dividir as responsabilidades e deixe de culpar só os outros, sempre temos alguma responsabilidade, mesmo que mínima, aprenda a identificá-la::

Perceba se a necessidade de vingança é recorrente, se faz parte de algo que se repete::

Analise ativamente os fatos que envolvem o desencadeador da vingança, sempre exercitando a capacidade de se colocar no lugar do outro::

Só deposite crédito no que chamamos de experiência emocional. Quando se pode viver junto com alguém uma situação de reconhecimento da própria necessidade de vingança e aprender com essa experiência. Para tanto, a psicoterapia talvez seja um lugar seguro.

Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
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segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Mude o jeito de ver a vida

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Mude o jeito de ver a vida
Ariana Pereira

Não há nada ruim que não possa piorar. Esse é o lema dos que carregam consigo uma maneira negativa de ver os fatos. Ainda que haja momentos bons, a pessoa negativa apenas fixa o que de pior acontece, em todas as instâncias e situações. Em alguns casos, essa forma de enxergar a vida pode ser mais do que simplesmente pensamento negativo, pode significar que a pessoa precisa da ajuda de um profissional para livrar-se de vez da lente que foca e aumenta apenas o que há de pior nas situações. Pensar a vida de uma maneira negativa faz com que não apenas algumas situações sejam amargas, mas torna a própria existência pesada e arrastada. Se tudo é visto pela lente que transforma as realidades em ocorrências negativas, a probabilidade de os fatos ruins acontecerem aumenta, de acordo com o psiquiatra e escritor Luiz Alberto Py. “Não é bem uma atração, mas a tendência é de que as coisas fiquem ruins. E ficam mesmo. Essa maneira negativa de olhar a vida faz com que ela fique cada vez pior. É fato que as coisas vão se negativando mesmo. As oportunidades que aparecem não são aproveitadas, há todo um conjunto de dificuldades que se somam. Em geral, isso tem a ver com processo de depressão, gerando um sofrimento desnecessário. É uma forma de ver a vida olhando para as coisas e imaginando o que pode acontecer de ruim, quando poderia se fazer o contrário: buscar o que há de bom seja qual for a experiência”, diz o psiquiatra.

O professor e psicoterapeuta Renato Dias Martino afirma que, para a psicanálise, só se pode aceitar no mundo real aquilo que já existe no mundo interno, ou seja, cria-se espaço na mente e só depois se conhece na realidade. Assim, continua o psicólogo, aquele em que na mente predominam pensamentos negativos está fatalmente exposto a construir um mundo para viver nesse mesmo modelo. “Na verdade percebemos o mundo externo como reflexo de nossas mais profundas ideias. Quero dizer que para aquele que nunca soube muito bem o que é ser amado terá muita dificuldade de perceber-se amando. Aquele que nunca foi amado na realidade não terá dentro de si a ideia do amor. Assim, como vai encontrar amor no mundo de fora?” Prof. Martino diz ainda que o “pensamento” faz parte do processo de construção de espaço interno para os conteúdos da realidade, ou seja, é a capacitação do “eu” (compreendendo o mundo interno) na ligação afetiva com o mundo (externo). De acordo com ele, se o termo “negativo” for pensado como algo prejudicial ou tóxico, então no pensamento negativo é construido um espaço interno repleto de ideias destrutivas.

A cura
Disciplina e força de vontade são os principais ingredientes para aqueles que querem vencer a mania de pensar a vida e as realidades de maneira negativa. Em alguns casos, segundo Py, é necessária a ajuda de um profissional para superar a forma de enxergar a existência. “Há pessoas que precisam, inclusive, de medicação. Mas nenhuma medida mais drástica deve ser tomada sem o auxílio e acompanhamento de um profissional. Casos de pessoas que teimam em ver apenas o lado negativo das situações são complexos, porque, mesmo que queiram mudar a visão que têm das coisas, elas sempre vão focar no que há de pior nessa mudança.”Construir, aos poucos, o pensamento positivo, para o psiquiatra, requer mais esforço racional do que da emoção. “Nunca pense no futuro com emoção, pense no futuro com a razão. É bom sempre pensar no que é possível ser feito. Valorizar os pontos positivos do lugar, das pessoas, das situações. É muito importante utilizar a razão para encontrar os caminhos. As pessoas sempre encontram caminhos que permitem superar as suas dificuldades. Por isso, a importância de pensar racionalmente.

A razão é que resgata, que pode tirar dessas situações aparentemente negativas. “Fazer as pazes com o mundo” é a melhor forma de sair do círculo vicioso de pensar a vida de maneira negativa, na opinião do psicoterapeuta Prof. Renato Dias Martino. Ele assegura que esse é um processo lento e dispendioso, um caminho cheio de curvas que está distante de reduzir-se a uma “receita para recomeçar”. “A proposta é justamente essa: fazer as pazes com o mundo externo. Buscar viver experiências que ensinem a misturar amor e verdade. Talvez pela minha posição, vejo nas psicoterapias vias razoavelmente seguras para a proposta de mudança, porém, a oportunidade pode estar na espiritualidade, religiosidade, no trabalho voluntário, e até em áreas como profissional e realizações artísticas. Contudo, sou forçado a depositar meu descrédito em qualquer processo que não compreenda o outro, o encontro com o outro. Só se aprende a amar, amando alguém”, diz o psicoterapeuta.

Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
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sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Problemas dos outros

Participação na matéria 'Problemas dos outros', de Francine Moreno, publicada no jornal Diário da Região.

A boa alma sempre se mantém sob as dimensões da verdade e do amor. Sempre disponível, é capaz de sentir compaixão pela dor alheia, de entender as necessidades do outro e tentar supri-las de alguma forma, dentro de seus próprios limites. Porém, o excesso de amor ao próximo muitas vezes disfarça um paradoxo: a dificuldade de lidar com os próprios problemas.



Problemas dos outros
Francine Moreno
- A boa alma sempre se mantém sob as dimensões da verdade e do amor. Sempre disponível, é capaz de sentir compaixão pela dor alheia, de entender as necessidades do outro e tentar supri-las de alguma forma, dentro de seus próprios limites. Porém, o excesso de amor ao próximo muitas vezes disfarça um paradoxo: a dificuldade de lidar com os próprios problemas.

Longe de ser um sinal de santidade, pode ser entendida como uma negação das dificuldades pessoais e um desejo exagerado de agradar e chamar a atenção sobre si. “Essa pessoa costuma se perder por não saber lidar com sua própria angústia. O modelo é o da onipotência narcísica, que passa para o outro uma impressão de ideal de maturidade, mas que na realidade é incapaz de perceber as emoções em si mesmo, tornando- se assim dependente do outro para viver seus medos e paixões”, afirma o professor e psicoterapeuta Renato Dias Martino.

Tanto altruísmo também funciona, em alguns casos, como uma estratégia de defesa ou conquista de espaço em ambientes competitivos. “Como todos nós desejamos ser amados, adotar o papel de “bonzinho” de certa forma garante que os outros nos admirem”, afirma a psicoterapeuta Yara Monachesi. O problema é que muitas vezes isso implica não saber dizer não, ter dificuldades em colocar limites, ou deixar-se absorver de tal forma pelas dificuldades alheias que não sobra energia ou tempo para pensar e resolver a própria vida.Seja como for o processo em comum, é inconsciente. Essa extrema dedicação pode também ser uma forma de compensar a autoestima. Há também uma falta de maturidade. “Muitas vezes o desejo de agradar e de fazer-se presente em situações difíceis para o outro é tão grande que a pessoa passa a ser inoportuna, inconveniente, como aquele que telefona diversas vezes no mesmo dia para saber se a enxaqueca da melhor amiga melhorou”, explica Yara Monachesi. Por outro lado, não admitir as próprias dificuldades pode significar que o que está em vigor é o modelo super-mulher ou super-homem, que dá conta de tudo e não precisa de ninguém, o que é impossível. “Para que haja um equilíbrio entre as duas forças, cuidar do outro quando ele de fato necessita e quando nossa ação pode ser eficaz, e cuidar de nós mesmos e deixar que outros nos cuidem quando necessitamos exige muita clareza quanto ao que podemos oferecer e ao que podemos receber”, afirma Yara.Olhar de frente um mecanismo de autoconhecimento e procurar amparo é a ação mais conveniente para renunciar ao comportamento de tratar do outro para não perceber a si mesmo. Nos casos mais extremados, em que o cuidador não consegue interromper esse ciclo e abre mão de suas necessidades básicas e fundamentais para dedicar-se ao outro, é indicada uma psicoterapia que lhe permita redefinir as prioridades e fortalecer-se para poder ter maior clareza quanto aos próprios limites, preservando seu espaço vital.

Professor Martino usa como exemplo o mito de Narciso, que não podia conhecer-se, pois sua origem era extremamente dolorosa, era fruto de um estupro. “Assim, toda tentativa de autoconhecimento é sempre repleta de desconfortos emocionais. Por isso, o psicanalista naturalizado inglês Wilfred Bion, propõe, baseado no filósofo alemão Kant, que a verdade deve ser apresentada sempre com amor, do contrário é crueldade. Desse modo, a procura é de um ambiente que possa contar com muito afeto para que se possa arriscar na dura tarefa do autoconhecimento.”

Prof. Renato Dias Martino

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quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Nada de estresse

Lézio Júnior -
Editoria de Arte


Festas de final de ano, férias dos filhos, balanço profissional e início de projetos são, sem dúvida, causas de estresse. Tenha calma, o final do ano não chegou para desanimar, é hora de agradecer o ano que termina.






Nada de estresse
 Francine Moreno

Agora é para valer. O final do ano chegou. O calendário não mente. Além de um balanço do desempenho físico e psicológico e de metas alcançadas, os familiares já esperam algum tipo de confraternização. É também a temporada de presentes e viagens. Gastos e mais gastos. Um verdadeiro teste de resistência emocional e física. Mas para que os eventos atinjam os seus objetivos e os familiares sintam-se satisfeitos é importante ter jeito e não deixar que os gastos financeiros e excesso de tarefas estraguem seu final de ano. Não se torne uma quase bula dos efeitos colaterais do estresse e da ansiedade, que além de dores musculares, nas articulações e na cabeça, causam úlceras e gastrites, complicações neurológicas e em casos extremos, infarto ou derrame. Tudo decorrente da pressão gerada pela maratona de preocupações.

“O estresse é a causa de grande parte das doenças, já que é um processo que parte de um conflito emocional e na medida em que não encontra possibilidade de elaboração por meio do pensamento (psicoterapias), acaba por se instalar no físico, como doença orgânica”, afirma o professor e psicoterapeuta Renato Dias Martino.

O estresse, conjunto de sinais apresentados no nível psicológico e posteriormente físico, apontando um esgotamento de energia, é resultado de uma série de atividades mentais nocivas, basicamente um funcionamento mental onde a energia é voltada contra si mesmo, resultando assim numa espécie de represamento.

“O exercício da reflexão, ou seja, do pensamento, é a única forma do escoamento que o fluir da energia mental necessita. Contudo, ultimamente a prática do exercício do aparelho de pensar está em desuso e isso acarreta saturação dos órgãos dos sentidos”, complementa Prof. Martino.

Certos tempos de crise, alguns níveis de ansiedade, assim como o estresse saudável são necessários para a produção de idéias, trabalhos, projetos. Esses sintomas só passam a ser considerados exagerados quando atingem a falta de controle, levando o indivíduo a uma quebra significativa de estabilidade emocional e física. Ansiedade excessiva gera medos excessivos, crenças distorcidas, batimento cardíaco acelerado, desconforto emocional e físico, leva a pessoa a tomar as decisões mais inadequadas seguidas de arrependimento e frustrações. “Se pensarmos que isso já é um grau de estresse palpável, podemos dizer que a ansiedade é irmã do estresse”, afirma a psicóloga Renata Montenegro, especialista em estresse pelo Centro Psicológico de Controle do Stress.Mudar hábitos de pensar e agir que sejam disfuncionais, acorrentados a crenças improdutivas e humanamente impossíveis de serem concretizadas é uma oportunidade de crescimento interior, com isso, ganho na qualidade de vida e um final de ano mais prazeroso. “O crescimento interior é algo contínuo, que inclui mudanças recorrentes, empatia, pensamentos racionais, afeto aplicado e, principalmente, conhecimento e manuseamento emocional equilibrado”, afirma Renata Montenegro.

Prof. Renato Dias Martino acrescenta que a capacidade de pensar faz toda a diferença. Quando essa capacidade fica comprometida todo funcionamento, seja psicológico, biológico ou social, se vê comprometido. Quando o pensar não proporciona um funcionamento eficaz na elaboração dos conflitos emocionais, o indivíduo é impelido à ação. Professor Renato Dias Martino coloca que : “No entanto, não é possível agir o tempo todo e então surge a ansiedade do estresse. Até por que, nem mesmo é prudente esse tipo de comportamento, a não ser no caso da ação que tivera a chance de ser pensada.”

Para evitar problemas maiores, Renata Montenegro adota uma tática simples: o estresse tem cura se for tratado por profissionais competentes e sérios, que sabem exatamente como retirar esse estresse excessivo especificamente. “Assim sua qualidade de vida é restabelecida, bem como a ausência dos sintomas físicos.” Educação social pode afetar qualidade de vida. Um estudo realizado pela Isma-BR (International Stress Management Association) em 2006 com 678 pessoas, com idades entre 25 e 55 anos, economicamente ativas, resultou em 60% dos entrevistados afirmando serem estressados pelo excesso de tarefas no trabalho. A pesquisa também apontou que 25% dos entrevistados acreditam que os gastos adicionais com presentes e festas aumentam seu nível de estresse. “A cada ano, há uma forte tendência em adiantarmos o final do ano. Logo no início do segundo semestre, já percebemos nas lojas uma pressão de consumo para as festas. O poder aquisitivo aumentou, as pessoas compram mais e se endividam mais”, afirma a presidente do Isma-BR, Ana Maria Rossi. Neste mote, Ivan C. Z. Maraschin, diretor do Centro Natural para o Alívio da Dor e Estresse Crônico, afirma que muitas pessoas, por condição genética ou formação familiar e educacional sabem lidar muito mal com os golpes e mudanças que a vida possa oferecer. Pessoas sem tempo para si mesmas, para se divertir, curtir os amigos, meditar, brincar com seus filhos, representam o resultado de uma sociedade em decadência em termos de valores humanos. “É a sociedade inteira que precisa ser curada, e não somente indivíduos que carregam o fardo de um sistema social altamente estressante, baseado na competição, classe social e no sucesso.” Para o especialista, se as bases em que foram construídas a nossa sociedade estão erradas, a possibilidade de termos indivíduos sadios decaiu muito, como é a visão do psiquiatra espanhol Vicente Garrido, que aborda a psicopatização de toda nossa sociedade mundial, que perdeu os valores humanos essenciais e produz cada vez mais indivíduos frios, calculistas e competitivos. “Acredito que o ser humano é essencialmente bom, o problema do estresse está exatamente na maneira de como os indivíduos desta sociedade estão sendo educados. Infelizmente, não é de uma forma humanitária.”
 
Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
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terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Famílias despedaçadas




Orlandeli/Editoria de Arte
Participação na matéria de Francine Moreno, no jornal Diário da Região.


Saiba por que a alienação parental, ou seja, quando o pai ou mãe joga sujo com o filho para afastá-lo do ex-parceiro, causa tantos danos ao desenvolvimento da criança.


Famílias despedaçadas


Francine Moreno


“De pai saí como um mero parente distante”. A declaração melancólica e o sentimento de descontentamento de Luís (nome fictício), 34 anos, foi dada quando se viu privado da convivência dos filhos pelo tribunal de sua ex-companheira Lucia (nome fictício), de 30 anos. Após doze anos de relação estável morando em Rio Preto, o casal se separou e a ex-esposa, que ficou com a guarda dos filhos, Daniela, de 10 anos, Lucas, de seis, e Letícia, de três anos, mudou-se para Goiânia. Entretanto, o direito de Luis, de viver separado apenas de sua ex-cônjuge, mas não dos filhos, não foi aceita por Lucia. A ex-mulher inventou inúmeras histórias contra o ex-marido e programou seus filhos para que depois da separação, eles odiassem o pai. Resultado: dez anos longe dos pequenos.


A história de Luís e sua família é tão grave quanto antiga e habitual. É comum encontrar pai ou mãe que dificulta o contato da criança com o ex-parceiro, fala mal, conta mentiras ou até estimula que a criança sofreu violência para afastá-lo do ex-cônjuge. E as principais conseqüências? O filho permanece anos afastado do pai ou da mãe, tempo suficiente para que os vínculos sejam partidos. A expressão alienação parental, criada em 1985, nos Estados Unidos, pelo psicanalista Richard Gardner, explica a pratica.


É uma velha conhecida da psicanálise e revela como o mal impede o desenvolvimento das relações. “Uma prisão que, repleta de culpas, chantagens, impede o crescimento pessoal, afetando diretamente a formação e o desenvolvimento da própria personalidade”, afirma o psicólogo e psicoterapeuta Prof. Renato Dias Martino. Entretanto, o equilíbrio emocional da criança, é esquecido por aquele que mente e calunia o ex-parceiro. Quando há falsa acusação, esses erros comportamentais, seja do pai ou da mãe, surtem uma porcentagem alta de interferência no desenvolvimento da criança. “Quando se pensa em jogo baixo, envolvendo fatores emocionais, isso inevitavelmente nos remete à construção de vínculos perversos entre pessoas”, afirma Prof. Martino.


Na avaliação dessa situação, é importante pensar como pode ter sido a construção e em que estágio de desenvolvimento pode se encontrar a capacidade de viver relações reais. “Assim, o caso de Luís expõe que quando uma das partes se sente injustiçada, de alguma forma, pode se utilizar de recursos baixos como esse, justamente para aliviar a sensação de estar sendo lesada. Na medida em que se é capaz de estabelecer vínculos mais sadios com o mundo, abre-se mão por meio de certa tolerância, da urgência de se livrar de sentimentos indesejados e se estabelece assim, o que poderíamos descrever como vínculos reais.” Mas então como descobrir os indícios que está sofrendo da alienação parental? A psicóloga Maria de Lourdes Prado cita três casos: quando o pai ou mãe não encontra os filhos em casa no dia de visita, a criança não atende seus telefonemas e quando o filho muda seu comportamento na presença do ex-parceiro.
No âmbito psicológico, para remendar os laços partidos, um pai ou mãe deve se inundar de afeto e sinceridade para que o filho não sofra com a atitude do ex-parceiro. “A verdade é sempre o bálsamo benigno para qualquer que seja a questão psicológica. A verdade é o alimento da alma, e sem ela a alma definha. Um ambiente cheio de amor e verdade é o único meio seguro para lidar com questões sérias como essa”, afirma Prof. Martino.


Quando constatada tal condição, o lesado também pode recorrer a profissionais especializados neste tipo de problema como mediadores, psicólogos de família, além de pessoal da área jurídica (família/mediação) e outros, devidamente preparados e com métodos e técnicas que podem facilitar este processo que vive o casal. “Tal assessoria pode economizar dinheiro, e o mais importante, desgastes e estresse no relacionamento, com conseqüências desfavoráveis principalmente para os filhos”, afirma o psicólogo da Famerp, Nelson Iguimar Valério.Sinceridade pode salvar as relaçõesA sinceridade é algo muito interessante, pois transcende a racionalidade. Já a mentira, como o próprio ditado diz, tem perna curta. Então, o pai ou mãe que manipula afastar o ex-parceiro dos filhos pode “estar cavando seu próprio túmulo”, como um outro ditado diz.
Com o tempo as crianças crescem e começam a entender o que ocorre ao redor delas. De acordo com o psicólogo e psicoterapeuta Prof. Renato Dias Martino, quando isso acontece é um ótimo sinal. Uma notícia de que houve um reconhecimento da violência psicológica e inicia-se aí uma luta no sentido da renúncia do vinculo perverso. Entretanto, infelizmente, na maioria dos casos a dependência se instala de uma forma tão simbiótica que dificulta certa tomada de consciência da situação e a submissão afetiva é remontada de forma patológica por muitos anos. “A dissolução do vínculo primário é naturalmente a tarefa mais pesada e dolorosa das transformações emocionais e com o agravante da manipulação; libertar-se disso torna-se um verdadeiro ato heróico para consigo mesmo.” Por outro lado, professor Martino afirma que nunca é tarde para se propor uma vinculação regida pela sinceridade. Nenhum mal resiste à tentativa da introdução da verdade, quando é feita com afeto. “O quanto antes a proposta da verdade surgir, tanto antes a transformação do vínculo acontecerá.”


Cuidados O ideal quando um casal com filhos decide se separar é que haja respeito, responsabilidade, diálogo e principalmente manutenção dos limites aos filhos de maneira conjunta. “Os casais em processo de separação devem buscar ajuda para que possam se orientar melhor. É uma nova realidade que precisará se desenvolver, para que todos possam se reposicionar e seguir em frente, minimizando desgastes”, afirma a psicóloga Irene Araújo Corrêa.

Prof. Renato Dias Martino
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quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Quem é Narciso

Quem é Narciso
Por Renato Dias Martino


A parte narcisista da mente é um bom exemplo de idéias que perduram no tempo, assim como substancia do existir.
Reflexões sobre o mito de todos nós.
Narciso (1594-1596),  por Caravaggio


È curioso como algumas idéias perduram no tempo e assim como substancia do existir, ainda hoje se mostram tão atuais. Mais interessante ainda são aquelas que além de perdurarem, ainda evoluem, sugerindo até certo misticismo como conotação de ‘previsão do futuro’ daquele que propõe pensarmos sobre essa ideia. Pensamentos que encontram espaço para expansão em áreas como cultura ou mesmo no conhecimento cientifico. São exemplos de pensamentos que em sua história, encontram pensadores propostos à transcendência da idéia inicial e através de discussão e certas atenções cuidadosas puderam proporcionar evolução de tal pensamento. É o caso de Narciso (em grego Νάρκισσος) na mitologia grega, famoso por ser um rapaz extremamente belo tanto quanto orgulhoso. O mito de Narciso é uma bela e triste tragédia escrita a muitos anos, reescrita inúmeras vezes e ainda hoje se mantém extremamente viva nos servindo de modelo especial na proposta de simbolização, criação de sentido e conhecimento das vicissitudes da alma humana. Algumas versões do seu mito sobreviveram como a de Ovídeo, em Metamorfoses, escrita em torno do ano 14, e a de Pausânias, no Guia para a Grécia (9.31.7). A saga desse mito é muito triste e realmente tocante á aquele que se propõe conhecê-la. Conta o mito que sendo filho de um ato de violência do deus-rio Cefiso á ninfa Lirípe, Narciso tem do vidente Tirésias a previsão de que teria vida longa, desde que jamais contemplasse a própria imagem, ou seja, que não conhecesse a si mesmo. Destino particularmente complicado para aquele que se vive na Grecia, onde a lei fundamental é ‘conheça te a ti mesmo’.Em 1914 Sigmund Freud (1856-1939) publica “Sobre o Narcisismo Uma Introdução”, usando do mito de Narciso como modelo no estudo do aparelho psíquico. Freud apoiado em alguns pensadores, chama de narcisismo, a fase do desenvolvimento mental onde se inicia o reconhecimento daquilo que existe além do eu, nessa etapa com a condição de que seja um espelho. Mais que uma fase do desenvolvimento, um estado de ampliação do pensamento, que na medida em que encontra conflitos severos em seu inicio se instalam como funcionamento mental. Narcisismo está para a mente também como uma defesa, um recolhimento em direção ao mundo interno, que ocorre (ou deveria ocorrer) diante da perda de algo importante, no mundo externo. Um processo que Freud, mais tarde, em 1917, descreve ocorrendo ante a situação de forma saudável no luto e de maneira patológica na melancolia. Na patologia, o sujeito que sente a falta no mundo externo, é incapaz de se colocar direcionado para o mundo interno sem ali se perder. Assim como o mito que ao deparar-se com sua imagem refletida no rio, ali permanece como que apaixonado por si mesmo. Nesse mesmo local morre e onde está seu corpo cresce uma flor venenosa. A cogitação se encontra na inteiração das duas direções que o amor pode tomar, a saber; para o eu ou para o outro.
Há um Narciso em cada um de nós, e que só poderá ser salvo do destino do mito se, através da busca do conhecimento do “EU” ou a busca daquilo que C. G. Jung (1875-1961) chamou de individuação, nos propusemos nos libertarmos do modelo que depende exclusivamente do outro para reconhecermos coisas que na realidade estão dentro de nós mesmos. Tarefa que é freqüentemente adiada com o auxilio da tecnologia e outros recursos que revela um sujeito encapsulado hermeticamente sem chance de troca num encontro com o outro, mas perdido dentro de si mesmo. No obstáculo de olhar pra si mesmo, fica-se justamente distante do outro real, vendo ali um pedaço evitável de si mesmo. Como se disséssemos: ‘O outro só existe na medida em que desejo que exista’.
A dificuldade de contato com o mundo interno e em conseqüência com a realidade que existe no externo propõe obstáculos que surgem em nome da conservação da posição narcisista de cada um de nós. Como sair deste cárcere narcísico? No exercício e aprimoramento da maior peculiaridade do animal humano; a habilidade de pensar. Isso diz respeito a passar de estagio primário de guiarmos pelo reflexo de nós mesmos e refletirmos (como coloca brilhantemente o psicanalista Wilfred Ruprecht Bion (1897 - 1979) em direção a verdade e a vida. Experiência que, em cada esquina nos propõe um novo desafio, nos desequilibrando e nos tirando a certeza onipotente do narcisismo. O mito de Narciso que na Grécia era encenado nos teatros de arena. Num exercício de profundo pensamento proporcionava certa catarse, ou seja, um movimento interno naquele que assistia. Hoje está exposto no jornal da tarde, revelando não apenas o mito que perdurou, mas também a incapacidade de pensarmos sobre ele. Cada um de nós, seres humanos, que sem poder ter tido chance e um ambiente seguro para pensar certas paixões e ódios, sentimos o impulso guiar-nos até a ação, como única alternativa.

Prof. Renato Dias Martino

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