sexta-feira, 5 de março de 2010

A MÃE E O BEBÊ

É a mãe quem diz ao bebê o porquê de seu choro. Em sua experiência vivêncial com a criança a mãe suficientemente boa – usando o termo introduzido por Donald Woods Winnicott (1896 - 1971) pediatra e psicanalista inglês, dedicado ao estudo da relação do bebe e sua mãe - percebe e aprende a diferenciar cada choro e como o bebê o expressa. Logo nas primeiras semanas passa a reconhecer a diferença do choro por estar sentindo frio, do choro que possa indicar fome, por exemplo. Isso para o bebê é sentido simplesmente como um intenso desconforto que na medida em que se prolonga por não ser percebido pela mãe e contido pelos cuidados maternos, se intensifica e pode tomar proporções assustadoras para um ser tão despreparado para enfrentar tal privação.
Wilfred R. Bion (1897-1979) – um dos mais importantes autores da psicanálise contemporânea - propõe o termo rêverie para designar esta capacidade da mãe de receber com muito afeto esta manifestação confusa que brota do interior do bebê e desta forma conter e devolver a ele de uma forma organizada e emocionalmente inteligível, em outras palavras, em formas de cuidado e acolhimento. Para Bion desta forma também deve partir a conduta clinica do terapeuta ao receber a dor de seu paciente em analise. Esta ação de maternagem proporciona a essa nova vida que surge, um ambiente seguro que desenvolve a capacidade de pensamento onde permite que o bebê simbolize os impulsos que surgem de dentro (vontade ou necessidade) e vincule com uma força externa acolhedora, protetora e nutridora. A mãe, primeira pessoa que ele conhecerá nesse mundo.

Assim surge a pergunta: Como proporcionar um ambiente seguro se vivemos constantemente sujeitos a desequilíbrios e inseguranças? A resposta não é de forma alguma simples, mas por outro lado está nas simples e pequenas ações cotidianas da vida entre mãe e bebê, assim como as que precedem a chegada do mesmo. Talvez a união saudável e segura do casal possa ser o primeiro passo. Proporcionar um ambiente seguro e amoroso que conte com a presença e a ação da função paterna. É Disso que dependerá o quanto ela (a mãe) será acolhida, protegida e amada enquanto tiver que dar tudo isso sem esperar nada em troca (pelo menos no inicio da vida do bebê).
Uma união infeliz não poderá gerar frutos sadios. É ruim se sentir o motivo da desunião, mas é igualmente negativo sentir-se como a condição para que o casal esteja junto. Wilhelm Stekel (1868 –1940) foi um dicipulo austríaco de Sigmund Freud (1856 –1939) e escreveu brilhantemente em 1963, nas paginas de 
CARTAS PARA UMA MÃE sobre os fatores que estão presentes na formação e desenvolvimento da personalidade infantil e que ao receber uma criança, os pais revivem o próprio nascimento com todas as alegrias e dificuldades. È prudente que estejam preparados para essa revivência para que não confundam-se com os filhos. Quem nunca olhou para suas falhas pode tentar enxerga-las em seus filhos.

Contudo, assim como a falta o excesso também prejudica. No desejo de compensar falhas pode se cair no engano de mimar e superproteger alguém que crescerá insatisfeito com a realidade que por vezes é repleta de frustrações e que viverá sonhando com sua infância maravilhosa, cheia de satisfações e livre de frustrações. Desta forma a habilidade para lidar com a mesma estará limitada. De qualquer forma a chegada de um filho certamente é uma oportunidade para a mãe, de pensar sobre si mesmo e reconstruir a forma como cuida de si mesma. Coloco em forma de verso algumas reflexões:


Quando instinto que protege, ou razão de controlar
Quando nutre o seio bom, ou o mau vai devorar
Quando aprova o que produz, ou se fez arte apanhar
Quando sente o passo firme a hora é do horizonte indicar
Mas se sente abandonada não se deve sufocar
Quem vive aqui a tão pouco pra se culpabilizar
Cuida sempre bem sincera do que tem pra se cuidar
Pois se quer uma certeza; ame, que irá te amar.






Prof. Renato Dias Martino







quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

SOBRE O PROCESSO DO LUTO E O ESTADO DA MELANCOLIA - Uma Observação Sobre o Pensamento de Freud

Dürer, Melencolia I, 1514
Dois caminhos depois da perda

O tema proposto nesse texto foi muito bem debatido por Sigmund Freud (1856 - 1939) e seus discípulos, porém sinto de extrema utilidade que possamos cogitar alguns aspectos dos caminhos que se pode tomar, quando aquilo que contamos como primordial, nos escapar.
A palavra luto serve-nos para descrever o período que se segue depois da perda de alguém que nos é importante, alguém que de alguma forma é ou foi alvo dos nossos investimentos, alvo dos nossos interesses, ou mesmo, que éramos ligados. A palavra luto serve para descrever a perda de uma pessoa amada, uma posição social ou uma ideia que, se constatou, não viável a realidade. “Sentir o luto” descreve de alguma forma o que deve ser desligado de nós e um processo natural da vida.
Logo ao nascer automaticamente temos que aprender a perder. O próprio momento do parto é para o bebê o fim de um modelo de vida e o início de outro: ele passa de um mundo, aquático para um mundo aéreo (respiração pulmonar) e, de uma alimentação via umbilical para a forma oral. Quando a perda ocorre, nos recolhemos em direção do nosso ego (eu) e nos desinteressamos em certa medida pelas coisas do mundo (externo), nos voltando para dentro de nós mesmos (interno). Esse mecanismo é o que poderíamos chamar de depressão, essa expressão tão usada, para descrever “certos estados mentais”. É esse o fenômeno psíquico que acompanha o período do luto que funciona como o processo de cicatrização de um ferimento.

Como na conduta do caracol do nosso jardim, que se recolhe até que o perigo passe. Desse modo, assim que elaborado o período de luto, ou seja, quando a perda que ocorreu no mundo real (externo) foi também aceita no mundo interno (afetos e emoções), o sujeito inicia um processo de expansão para o mundo externo. Bem como lá no jardim o caracol, depois de algum tempo, põe sua cabeça para fora da casca, tentando retomar seu caminho.
De uma forma esquemática, percebe-se o perigo, admite-se o risco, recolhe-se até que retome a consciência da situação. Um período de reflexão, de como será o mundo sem aquilo que julgava vital e, só depois disso, o sujeito se vê capaz de retomar sua busca por novas ligações afetivas. Mas é fundamental para a maturação deste processo que o “sujeito” reconheça o que perdeu, ou seja, saiba o que se foi e como foi perdido e, também assuma as consequências. Porém, sem que isso implique em interromper suas realizações.
Assim, o ego se mantém íntegro, mesmo depois da perda ou, em outras palavras, a autoestima permaneceu em suas proporções e agora, se vê pronto para buscar novamente algo fora. Contudo, a perda do objeto apresenta outro caminho em paralelo. Pensemos aqui na melancolia.
Sigmund Freud (1856-1939)
Neste estado mental, os processos ocorrem muito semelhantes ao do trabalho do luto, porém com algumas ressalvas de crucial importância.
Na melancolia, também ocorreu à perda; da mesma forma, o sujeito sofre a depressão, como a perda do interesse pelo mundo externo (pessoas e coisas), todavia, diferente do luto, o ego sente-se empobrecido e enfraquecido, como se lhe faltasse um pedaço. Assim, é comprometida a autoestima. Como se disséssemos “sem isto, eu não consigo viver”. Parte do eu parece morrer junto com aquilo que se perdeu no mundo. Freud, em 1917, escreve: “No Luto é o mundo que se torna pobre e vazio, na melancolia, é o próprio ego”. O que parece morrer não é apenas aquilo que se deseja, mas o próprio desejo.
No estado de melancolia, o eu se divide. Uma parte se volta contra a outra, condenando pela perda ou pela incapacidade de viver sem aquilo que se perdeu. Parte do eu se identifica com aquilo que se perdeu. O sujeito melancólico não deixa morrer, na fantasia, aquilo que morreu no real. Desta forma vive aquilo que se perdeu de uma forma narcísica, onde só existe para ele.
Sigmund Freud (1856-1939)
O modelo de relacionamento que pode ter o desfecho melancólico, no caso da perda, nos parece estar caracterizado de forma narcisista. Freud se utilizou do “mito de Narciso”, por trazer em seu modelo grande simbologia. A palavra grega “Narkissos”, que vem do grego “narkes”, significa “entorpecimento / torpor” e ela deu origem à palavra narcótico. Narciso, além disso, é a denominação da flor bela, todavia, inútil, pois morre posteriormente a uma vida breve, estéril e tóxica. 
A Mitologia Grega contava que Narciso era filho do Rio Céfiso e da Ninfa Liríope. A mãe Liríope, que foi fertilizada sendo vítima da insaciável energia sexual de Céfiso, teve uma gravidez penosa e indesejável. Narciso, o filho, nasce tão belo que deixa a mãe assustada. Por esse motivo ela busca o cego Tirésias (vidente), que revela a Ninfa Liríope que Narciso viveria muitos anos com uma condição: de que ele não conhecesse a si mesmo. O mito grego de Narciso só amou a si mesmo e quando amou o outro, o fez através de sua imagem refletida na margem do rio, onde morreu depois de muito adorar sua própria face.
A proposta é que a relação ou o vínculo que se faz com aquilo que se perdeu (segundo o modelo melancólico) é sobre aspectos do “eu” projetados no outro. Uma relação por identificação. Parece-me, nesse caso, a única forma de viver sem o objeto. Uma forma regressiva de estabelecer vínculos, pois é desta forma que o bebê se liga à mãe e irá fazer suas ligações com outras coisas e pessoas, por um bom tempo, ou até mesmo no decorrer de toda a vida, em certa proporção. O bebê não existe sem a mãe ou alguém que cuide dele. Esse objeto de amor é percebido de forma ambivalente.
Por um lado, é idealizado por estar de posse de fatores inerentes à própria existência do sujeito; porém, por outro, mantém um ódio gerado pela inveja daquele que parece ter (ou tem) parte do “eu” (algo que o eu parece não viver sem). Quando o objeto é perdido, recai sobre o “eu” o peso da falta. O que emerge e aparece na consciência é o ódio em forma de culpa e auto-repreensão que, durante a dependência, foi reprimido.
A dificuldade de se deprimir, a impossibilidade ou incapacidade de viver a perda dificulta o processo do luto. Torna-se uma prisão melancólica, o real passa a ser evitado em troca da fantasia. A perda do objeto nos traz a chance de olhar para o vazio, único lugar onde podemos construir.



Capítulo do livro Para Além da Clínica. Renato Dias Martino - 1. ed. São José do Rio Preto, São Paulo: Editora Inteligência 3, 2011.





Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
renatodiasmartino@hotmail.com
Fone: 17-30113866
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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Encontrar a felicidade dentro de si é o sucesso dos relacionamentos

Encontrar a felicidade dentro de si é o sucesso dos relacionamentos
Francine Moreno


Lézio Júnior/Editoria de Arte

Muitas pessoas acham que só podem ser completas e felizes se tiverem um parceiro. Mas considerar que um relacionamento será fonte segura de felicidade é um erro. A felicidade nunca é propriedade da outra pessoa, ou seja, cada um tem força suficiente de ser feliz independente do outro. Aquele que acredita que colocar uma aliança no dedo anelar da mão esquerda é garantia de um final feliz, é justamente quem mais tem chance de se decepcionar e sofrer.

É muito perigoso, de acordo com o psicoterapeuta professor Renato Dias Martino, depositar todas as expectativas. “O casamento pode ser uma fonte de felicidade quando fizer parte de uma construção desse estado de espírito. Nada que é real pode trazer certa fonte inesgotável de felicidade. Uma união feliz só se dá entre pessoas que criam situações felizes.”

A felicidade é da pessoa que a experimenta e nunca está depositada numa outra. A felicidade está relacionada ao bem-estar individual, que se prova em maior ou menor grau e em diversas situações e decorrente de inúmeras situações desencadeadoras. “A felicidade plena é praticamente inafiançável, mas sua ideia é tão envolvente que nos impulsiona a crescer e querer nos relacionar com a finalidade de provar, mesmo que em parte, suas delícias e prazeres”, afirma Ana Monachesi, psicóloga e especialista em sexualidade.

E nessa busca, cabe a cada um criar sua receita e escrever seu manual do que é sua própria sensação de felicidade. Segundo Prof. Martino, podemos melhorar nossas uniões responsabilizando-nos por nossa própria tristeza e retirando da mão do outro a tarefa de nos fazer feliz. “É preciso tentar tolerar as tristezas ou intemperanças do outro em prol da união, respeitando a necessidade de cada um em ficar algum tempo sozinho.” Professor Martino diz que para aumentar a felicidade e estimular o mesmo sentimento no parceiro é preciso propor a si mesmo um modo feliz de viver, ou seja, uma vida onde exista espaço para momentos felizes, que serão assim valorizados e cultivados. “Para compartilhar isso com o outro, é necessário que ele também espere isso para si, do contrário, será difícil viver a felicidade ao lado de alguém que não é capaz.”

Matéria na integra: http://www.diarioweb.com.br/novoportal/Noticias/Comportamento/5364,,Encontrar+a+felicidade+dentro+de+si+e+o+sucesso+dos+relacionamentos.aspx

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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

TOLERÂNCIA NA FORMAÇÃO DOS MECANISMOS DA INVEJA


 Sebastián de Covarrubias,
“ A inveja”, gravura, Século XVI

Um rapaz apaixonado trata com a nova namorada um jantar para sábado à noite. Passará para pega-la às 20 horas. Ao chegar pra buscá-la, no dia e horário combinados, o rapaz depara-se com um recado da criada para que aguarde até que a moça termine de se arrumar. O rapaz apaixonado, então, passa a esperar pacientemente. Espera por aproximadamente cinquenta minutos. Nesse período pensamentos e imaginações se movimentam e disputam lugar no interior de sua mente, assim como as cores do semáforo que o jovem assiste mudar inúmeras vezes no cruzamento mais próximo, enquanto aguarda. O moço que construíra expectativas de um “encontro perfeito”, cheio de entusiasmo, se vê agora a quase uma hora esperando. Durante esse tempo cada pensamento criativo de uma noite romântica como, nome de um restaurante preferido, prato predileto, vinho branco e proposta para se estenderem noite adentro, são conflitados pelas imaginações geradas a partir da duvida do amor da moça, que, agora já o faz esperar por uma hora. Ele imagina então: “Como me faz esperar tanto?”, “Como posso me permitir ser desprezado assim?”, “E toda atenção que investi nela?”, e por fim “Me sinto um idiota”.

Melanie Klein (1882 - 1960)
Deixemos o rapaz que já aguarda enfurecido por alguns instantes e pensemos agora em um bebê que começa a perceber a satisfação que traz o seio da mãe. Descobre como é prazeroso o conforto de seu colo e a proteção desta que muitas vezes não pode atendê-lo de imediato. A capacidade de tolerar esse período de espera (momento entre o desejo até a chegada do seio) é na psicanálise – sobre tudo a partir dos estudos de Melanie Klein (Viena, 30 de março de 1882 - Londres, 22 de setembro de 1960) em (Inveja e Gratidão, Estudo das Fontes do inconsciente, Imago, 1974) – um fator decisivo no desenvolvimento dos mecanismos formadores da inveja. É como se o outro (nos exemplos a cima, a mãe - namorada) estivesse de posse de partes do “eu” (bebê-rapaz apaixonado). Deste modo: “como posso viver sem o outro?”. A partir desse vértice, a gênese da inveja estaria nisso que o outro tem e que o “eu” não vive sem. É útil nos lembrarmos que a paixão é amor sem verdade, onde o outro tem a posse do “eu”. “Ele é tudo pra mim, logo sou nada sem ele.”
Voltemos ao paciente rapaz, que agora espera a mais de uma hora a vaidosa moçoila que ainda se encontra em frente ao espelho escovando suas longas e alouradas madeixas. O período de espera pode se tornar um lugar propicio para ataques à imagem idealizada da moça, assim como, da proposta de uma noite romântica. Dessa forma, quando a moça, muito bem vestida, penteada, maquiada e cheirosa, chegar, pode encontrar um rapaz enfurecido e ávido por retribuir vingativamente todo desconforto da longa espera. Da mesma maneira o seio nutridor da mãe pode ser recebido, depois de longa espera, com uma mordida. A idealização é seguida pela destruição do objeto antes adorado.


Ilustração de Gustave Doré (1832 – 1883)
- Divina Comédia, Dante Alighieri (1265 – 1321)


Isso implica diretamente na capacidade de simbolizar. A saber; simbolizar é a capacidade de sentir a presença mesmo na falta, através de uma imagem internalizada. Quando essa capacidade é de alguma forma comprometida, a falta é preenchida por ideias destrutivas.
No desenvolvimento da vida emocional do bebê, a entrada do pai é experimentada por um impacto que é sentido com um novo modelo, o ciúme. Esse novo sentimento inclui mais alguém na relação que até então era entre dois, mãe-bebê. Nesse triângulo é onde ocorre a formação do que Sigmund Freud (1856-1939), utilizando-se do mito de Sófocles, e chamou de Complexo de Édipo, mas que não pretendo me aprofundar nesse texto. 
Édipo e a esfinge (Oedipus et Sphinx),
1808, pintura de Jean Auguste Dominique Ingres;
Paris, França.
Contudo, o ciúme pode ser oportunidade de experiência tanto como uma evolução emocional em direção a realidade, por compreender alguém mais na relação mãe e filho, quanto um risco de regressão a antigos conflitos mais primitivos. Quando a inveja do seio e da satisfação que este traz, é algo de acentuação extrema, a entrada do pai na relação é recebida de uma forma diferente. O que se deseja não é o amor do pai, mas a disputa da posse deste com a mãe. Desta forma, na menina, por exemplo, pode estar se estabelecendo um protótipo de relações subsequentes, onde cada sucesso em direção aos homens passa a ter a importância de um triunfo sobre outra mulher.




Prof° Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
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sábado, 19 de dezembro de 2009

A memória da perda

Já tivemos, em outra oportunidade, a chance de pensarmos sobre a distinção entre o “saudável” e o “prazeroso”.  Contaremos com os argumentos cogitados nessa ocasião para abrirmos o assunto contido no texto aqui presente. Já que falaremos de experiências emocionais de cunho um tanto quanto desconfortáveis, contudo de extrema necessidade se a intenção a priori é a de classificarmos um modelo de desenvolvimento da mente, expansão do pensamento logo, da qualidade do vínculo que se pode ter com pessoas e coisas.


Arthur Schopenhauer 
(1788-1860)
Se partirmos de certo intento onde como propõe o filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) a angústia suscitada pelo medo da morte é a expressão máxima do sofrimento humano, então talvez fosse um tema digno de cogitação aquele cujo objeto parte das emoções geradas conforme a consciência sobre a decadência e a morte. Um saber que da ao humano o título de homo sapiens. O sabedor de sua vulnerabilidade e mortalidade, assim como referente a aquele que ele ama. Certo conhecimento mobiliza o mundo interno e cobra alguma ação psíquica no intuito de diminuir ou amenizar o efeito da descarga libidinal gerada nesse contato com a verdade. Verdade essa referente à incontestável realidade humana ou até mesmo a realidade de todo e qualquer ser vivo. A mesma angústia que ocorre aos deuses, assistindo-nos do Olímpo. Contudo, de forma inversa e velada, talvez os deuses invejem-nos a possibilidade de descansarmos um dia da obrigação do mortal em manter-se vivo, mesmo cônscio da imutabilidade do fato da morte.

Sigmund Freud 
(1856-1939)
De qualquer forma, a geração de ansiedade frente á idéia do desamparo, declínio e morte é um recurso natural do aparelho mental. A introdução dessa realidade no âmbito do funcionamento psíquico não é um processo simples. De forma hipotética, poderíamos aqui levantar algumas possibilidades de desenlace dessa experiência. Uma delas, e a que me parece ser a mais primitiva, é aquela em que o sujeito do conhecimento do real, automaticamente pronuncia a ação física. Ao ser inundado pela angústia, parte logo para ação (no mundo externo) no intuito de aplacar o desconforto gerado. A falta de recursos mentais mais aprimorados e a incapacidade de conter impulsos fazem o bebê espernear e berra quando se sente assim angustiado. Em uma linguagem psicanalítica, nesse caso a pulsão de morte é direcionada para fora do eu (em direção ao outro). Um segundo modelo seria aquele em que o sujeito, ao perceber a ineficácia da ação mecânica em conter os impulsos, o reprime, e submerso na desesperança, desiste da atuação. A partir daí, sob a regência desse modelo de funcionamento a pulsão de morte volta-se para o eu (para dentro). Como na melancolia descrita por Sigmund Freud (1856-1939) em 1917, o sujeito desse funcionamento sente como irremediável o prejuízo dessa realidade pairando sobre o eu. Como se a partir da ciência do real, nada mais despertasse seu interesse a não ser a fantasia (que exclui o próprio real). Estes dois modelos têm a função exclusiva de afastar o desconforto psíquico e estão enquadrados num funcionamento mental do qual Freud denominou em 1911 como principio do prazer-desprazer.

Um terceiro modelo e o que nos interessa sobre medida nesse momento, é justamente aquele que faz pensar. O que implica para Freud (1911), a entrada do principio da realidade. O que permite adiar certas ações através da contenção do impulso que assim ganha à chance de transformar-se em pensamento simbólico. A capacidade mental em tolerar desconfortos é que proporciona o que chamaríamos de continência psíquica e definirá o norte dessa experiência com o real. Contudo, conter emoções desse calibre, de maneira saudável, exige essencialmente criatividade. A consciência do nascimento e morte obriga a criação de um espaço entre esses dois fatos. Justamente a subseqüência de um processo do qual aprendemos chamar de “vida”.



Gradiente evolutiva

Se depois de pensarmos nesses modelos de formação psíquica, estamos de acordo, e até aqui nos faz certo sentido em comum, podemos então desenvolver a idéia de uma escala evolutiva do pensar. Uma escala onde podemos até tentar eleger um ponto de partida, contudo, assim como seu apogeu, ele nunca coincidirá com idéias acabadas ou saturadas em sua dimensão. Estamos falando do percurso seguido pelo elemento mais primitivo da mente rumo ao seu desenvolvimento, ou mais adequadamente falando, sua expansão. Um impulso gerador de fantasias no contato com a consciência da perda. Podemos sugerir talvez, a sensação gerada pelo contato com aquilo que se é capaz de chamar de realidade, como ponto de partida e a formação da idéia simbólica (a saber, a capacidade de tolerar a ausência do real sensorial), como pretensão de objetivo a se alcançar. Parece-me que isso definirá algumas experiências que se possa viver com a memória da perda e ainda o que isso pode representar. Algo como prejuízo na estrutura do ego (personalidade), ou no extremo oposto, vitória e superação de limites e consequentemente fortalecimento e expansão do eu?

Joseph Breuer 
(1842-1925)
De qualquer forma, a ideia ou o pensamento simbólico, se manifesta na capacidade de relatar em palavras a história da própria vida, já que transformar fatos em palavra exige certa habilidade simbólica. Foi a partir desse modelo que Freud abandonou o método catártico da hipnose. Em 1891, Freud publica “Contribuições à Concepção das Afasias”, obra que firmar, categoricamente, o rompimento com as hipóteses sobre os “estados hipinóides” e o método catártico de Joseph Breuer (1842-1925). O pai da psicanálise começou a perceber e a partir dessa percepção passou a criar instrumentos para identificar no discurso de seus pacientes a parte da mente que exigia cuidado.


Assim, podemos mensurar a dimensão da importância da memória da perda assim como a necessidade de nos tornarmos consciente dela para o bom funcionamento mental. Cada iminência de perda remete á experiências de sensação de desamparo ocorrida num tempo onde o acolhimento, sensação de segurança, ou de se sentir contido num ambiente saudável, eram a única maneira e justamente, o que definiria a sensação de estar vivo. A confusão do que é a morte da abstração e o que é a morte efetiva.

Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Relação Destrutiva




Contribuição para o jornal Diário da Região.
Matéria de Francine Moreno sobre relações destrutivas.



Entrevista



Francine Moreno - Como se resume um relacionamento perigoso?


Prof. Renato Dias Martino - Um relacionamento perigoso pode ser aquele, em que existe um contrato não verbal de dependência. Onde um impede o outro de crescer, porém, sem que isso seja percebido com nitidez.


Francine - Como reconhecer uma pessoa destrutiva?


Prof. Martino - Pessoas destrutivas não respeitam a si mesmas, nem o outro. Isso em muitos casos é claro e visível através do comportamento, não obstante, muitas vezes só se pode perceber certas características destrutivas por meio do convívio.


Francine - Diz o ditado que a mulher deve olhar como o homem trata a mãe dele para saber como será tratada. É verdade?


Prof. Martino - Pode ser um bom início para se conhecer o funcionamento vincular daquele da qual se esta se envolvendo, apesar disso, o vínculo estabelecido entre duas pessoas deve ser singular e independente das experiências anteriores. Penso que, só alguém que é capaz de reconhecer seus próprios limites conseguirá ser respeitada e amada como merece.


Francine - Devemos nos preocupar com os problemas que o parceiro (a) teve nos seus antigos relacionamentos?


Prof. Martino - A pré-ocupação é sempre perigosa. Aquele que se pré-ocupa com o passado ou com o futuro, pode ver-se impedido de ocupar-se do presente.


Francine - Mesmo mulheres e homens inteligentes e seguros não estão imunes a relações destrutivas? Por quê?


Prof. Martino – Se existe alguma imunidade ela só pode depender da maturidade emocional, isso equivale à capacidade de conhecer-se e respeitar-se a si mesmo. Costumo dizer que a inteligência diz respeito ao 'saber' e a maturidade diz respeito ao 'ser'. Quem aprendeu respeitar-se a si mesmo não permitirá que outro o desrespeite.


Francine - Há homens e mulheres mais vulneráveis a relacionamentos perigosos?


Prof. Martino - Creio que a vulnerabilidade esteja relacionada à imaturidade emocional, onde os vínculos ainda são estabelecidos em modelos primitivos. Dessa forma o relacionamento fica exposto a formas perversas de ligação, onde não existe espaço para evolução ou crescimento, só á disposição para repetições.


Francine - E porque alguns sempre buscam esse tipo de relacionamento?


Prof. Martino – Talvez por que sejam mais cômodos. É justamente o comodismo o maior atrativo desse modelo de relacionamento. O medo de ser abandonado aliado a um sonho de viver um vínculo de dependência, como aquele em que se vive na primeira infância. Onde não se é responsável por si mesmo. Existe sempre um ganho, mesmo que inconsciente, nesse tipo de relação.


Francine - Há como se precaver destas relações destrutivas?


Prof. Martino – Sem duvida que sim. Para começar, a tarefa é propor-nos desfazer certa relação destrutiva com nós mesmos. Falo daquilo que chamamos de funcionamento autodestrutivo. É só através desse tipo de funcionamento que o outro encontra lugar para se instalar e ocupar um lugar nesse modelo de relacionamento. Na verdade, muitas vezes, no estudo de casos dessa espécie, o que se revela é que o sujeito destrutivo entra para dividir a culpa pela destruição que de alguma forma já ocorria.


Francine - Como diferenciar as preocupações legítimas de amigos e familiares das cismas e antipatias?


Prof. Martino – Antes que o outro (amigos e familiares) compreenda a forma perversa de relação, de certa forma, quem está vinculado já percebe. E na realidade, mesmo que o relacionamento esteja aparentemente numa forma inadequada, sempre existe uma força inconsciente que insiste em manter a ligação perigosa. Assim, quando amigos e familiares tentam avisar, intrometendo-se na relação, podem estar interferindo em algo bem mais complexo do que imaginam.


Francine - Quando a relação é perigosa e destrutiva a única maneira é sair?


Prof. Martino – Sim, sempre!
Penso que, evoluir os modelos de relacionamento demanda sair do modelo antigo. Isso não implica necessariamente em romper com a pessoa que se esta ligada, mas sim, com o tipo de vínculo que se tem com ela. Contudo, existem casos onde o rompimento pode ser o único recurso para se preservar as partes.


Francine - Como podemos ajudar uma pessoa que está em relacionamento assim?


Prof. Martino – Só podemos ajudar aquele que pede ajuda. De outra forma nada pode ser feito. No caso do pedido efetuado, penso que a melhor forma é conduzi-lo a um profissional.
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Link para a matéria, site do jornal.
http://www.diarioweb.com.br/novoportal/Noticias/Comportamento/2385,,Relacao+destrutiva.aspx



Prof. Renato Dias Martino
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