sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
O ÉDIPO E O SUPEREU - Prof. Renato Dias Martino
quinta-feira, 8 de janeiro de 2026
SOBRE O BENEFÍCIO DE SE ESTAR DOENTE - Prof. Renato Dias Martino
O que
chamamos de personalidade parece ser o resultado de disposições inatas, mas
fundamentalmente das configurações de relacionamentos estabelecidos. Nascemos
com características peculiares, no entanto também vamos sofrendo influências
que irão acentuando ou minimizando esses atributos. Quando Wilfred Bion (1897 –
1979) nos orienta sobre o fato de que "O pensar passa a existir para dar
conta dos pensamentos." (BION, 1962), ele nos sugere que antes mesmo de o
pensador ter nascido já havia um pensamento que o precedeu.
Quando
nasce um bebê, de certa forma, já tem como incumbência suprir certas
expectativas, que já existiam antes de seu nascimento. Portanto, fica claro que
mesmo antes de o sujeito nascer, as configurações vinculares já definiam certas
características de sua personalidade. Os vínculos significativos, que definem
traços fundamentais na estruturação da personalidade, também continuam
influenciando a configuração do funcionamento do sujeito. Por essa perspectiva
a frase bíblica parece ganhar um grande sentido quando propõe: “diga com quem
andas e eu te direi quem tu és.”. (Provérbios 13:20 e 1 Coríntios 15:33.) As
relações influenciam na maneira como funcionamos, tanto de forma saudável
quanto de maneira nociva. Uma vinculação saudável pode propiciar a expansão do
pensar e com isso um bom desenvolvimento da personalidade. Por outro lado, um
vínculo nocivo pode obstruir a ampliação do pensamento dificultando o
desenvolvimento da maturidade emocional e consequentemente prejudicando a
estruturação da personalidade. Isso deve ser tão comprometedor quanto mais
tenra for a idade do sujeito em desenvolvimento.
Muitas
vezes, aquele que se relaciona com um sujeito adoecido ou mesmo fragilizado,
seja fisicamente ou emocionalmente, pode encontrar uma forma de se beneficiar
dessa situação. Amiúde, o diagnóstico dado a uma pessoa é muito conveniente
também a aquele que com ela está vinculado, trazendo certos benefícios ocultos.
Esse benefício pode ser desde ordem financeira, até no âmbito emocional. A isso
poderíamos chamar de “ganho terciário”. Isso pode se estender para além das
patologias, mas deve também ser aplicável às características mais amplas de
cada sujeito.
Referências:
BION,
W. R. [1962]. “Uma teoria sobre o pensar.” In: BION, W. R. Estudos
psicanalíticos revisados. Rio de Janeiro: Imago, 1994. p. 127-137.
FREUD,
S. A teoria geral das neuroses, estado neurótico comum, Conferência XXIV, Parte
III. (1917 [1916-17]). Obras Completas, Vol. XVI.
____.
A questão da análise leiga: conversações com uma pessoa imparcial. (1926).
Obras Completas, Vol. XX.
terça-feira, 23 de dezembro de 2025
DO ESPECTRO POLÍTICO DA DIVISÃO - Prof. Renato Dias Martino
Logo
de início, parece-me importante deixar claro que este texto não se trata de uma
afirmação científica, mas de uma analogia que tenta aproximar uma formulação
psicanalítica de uma configuração política.
É uma
estratégia antiga, não exclusiva do general chines Sun Tzu (544 a.C. – 496
a.C.) em sua obra A Arte da Guerra, mas usada por personalidades como o ditador
romano Júlio César (100 a.C. - 44 a.C.) e o estadista francês Napoleão
Bonaparte (1769
– 1821). Envolve separar inimigos em grupos menores com o intuito de
enfraquecê-los e então dominá-los.
A esquerda propõe que a propriedade privada traz poder ao indivíduo o torna um opressor daquele que não conseguiu o mesmo. Ainda assim, a hostilidade não é gerada pela propriedade, mas sempre existiu bem pior do que é hoje desde os tempos primitivos, quando a propriedade ainda era insignificante.
Referência:
MARTINO, Renato Dias. Pensando melhor a psicanálise: do saber ao estar sendo
sábado, 20 de dezembro de 2025
DA MATURIDADE À INTELIGÊNCIA - Prof. Renato Dias Martino
Há uma diferença enorme entre inteligência e maturidade emocional: uma capacidade não garante a outra. Existem ciladas das quais o inteligente consegue sair, mas o emocionalmente maduro jamais teria entrado. A inteligência sugere ousadia; a maturidade emocional traz prudência.
Enquanto a inteligência te qualifica para debater com quem discorda, a maturidade emocional te orienta a não te envolver. A inteligência desenvolve o remédio, mas a maturidade previne a doença. O inteligente sabe o “que”; o emocionalmente maduro percebe o “como”. A inteligência se desenvolve pela ampliação do aparato cognitivo; já a maturidade emocional está ligada à capacidade de amar sinceramente a si mesmo e ao outro. A maturidade emocional diz respeito à relação consigo mesmo, que se expande na relação com o outro. Se ainda não aprendeu a amar-se verdadeiramente, não pode chamar de amor o que tem pelo outro. A inteligência nos leva a conquistar aquilo que desejamos; amadurecemos emocionalmente na medida em que aprendemos a perder. Quem não desenvolveu a capacidade de se tratar com respeito e compaixão, acaba projetando no outro expectativas e idealizações que não são amor, mas medo de abandono e busca por aprovação.
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terça-feira, 16 de dezembro de 2025
SOBRE O PROCESSO DO LUTO - Prof. Renato Dias Martino
A angústia é o aperto no peito que rege o período do luto. Por vezes transforma-se em ansiedade, mas logo retorna à angústia. É como as ondas do mar: vêm e vão, alternando o estado de humor.
Quando perdemos alguém que amamos — mesmo que de forma sutil e temporária —, sentimo-nos culpados, como se não tivéssemos cuidado o suficiente daquele vínculo. Mesmo tendo-nos dedicado, muitas vezes de forma integral, mesmo tendo cuidado da maneira mais amorosa e adequada possível, na hora da perda a tendência é ressaltar as possíveis falhas. Não raro, acreditamos que foram elas as responsáveis pelo desfecho.
O sentimento de culpa divide o sujeito enlutado: uma parte julga e condena a outra. Quando uma parte do eu se volta contra si mesmo, há um enorme dispêndio de energia. A autocondenação deixa a pessoa exausta e, muitas vezes, incapaz de realizar as atividades mais simples do cotidiano. O pior julgamento e a pior prisão acontecem dentro de si mesmo. Ali, o juiz, o réu e o carcereiro são a mesma pessoa.
Ainda assim, a vida segue e se propaga na transformação.
Alguém poderia propor, então, o ato de perdoar-se a si mesmo. Mas, se concordamos que só fazemos aquilo que, naquele momento, temos capacidade de fazer, perdoar o quê, afinal? Não há o que perdoar. Fizemos o que era possível. Ninguém escolhe falhar intencionalmente; quem falha, falha porque, naquela circunstância, não foi capaz. Se fosse capaz, não falharia — mesmo que, teoricamente, escolhesse fazê-lo. Se não fizemos mais ou diferente, é porque não conseguíamos.
Somos humanos e imperfeitos. É fundamental reconhecer nossa limitação, aprender a respeitá-la e assumir responsabilidade pelas consequências. Todos somos falhos; por isso, no cristianismo católico, pedimos a Nossa Senhora que “rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte”. Somos todos pecadores que tentam, dia após dia, tornar-se pessoas melhores.
Quando exigimos de nós mesmos além do nosso limite real, a caminhada fica ainda mais pesada. Enquanto estivermos integrados — reconhecendo, respeitando e assumindo nossas limitações —, conseguimos seguir tentando fazer sempre o melhor possível. Não há como se tornar melhor nos exigindo do que não está sendo e, menos ainda, do que não foi possível. Pior do que se exigir sobre o que “deveríamos ser” é se culpar pelo que “deveríamos ter sido”. Exigir de nós além do humanamente possível é uma cruel ilusão.
Quando existe um vínculo saudável consigo mesmo e com aquele que já não está mais presente fisicamente, esse sentimento de culpa tende a ir se dissolvendo aos poucos. Só com o tempo vamos reconhecendo que fizemos o que era possível fazer. E há um ponto fundamental: só sentimos culpa em relação a alguém que verdadeiramente nos importa.
Aos poucos, as lembranças tristes dão lugar às recordações que o coração guarda com carinho — registros de afeto, de presença, de amor. A tarefa maior é aprender a viver sem a presença física de quem tanto amamos.
No processo do luto, o mundo parece perder a cor e o sentido. Ondas de tristeza vêm e inundam o coração, quase nos afogando em angústia. Depois se amenizam, mas logo outra onda chega.
Nesse momento, são exatamente os vínculos afetivos saudáveis que cultivamos que nos devolvem, pouco a pouco, a ligação com a vida. É o cuidado do outro que apazigua o coração e nos despertar para voltarmos a nos interessar pela vida. Por mais paradoxal que pareça, a experiência nos ensina uma verdade profunda: cada perda significativa é também uma oportunidade de nos tornarmos pessoas melhores.
— Tenho tentado fazer tudo como se fosse a última vez.











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