Cinco
conceitos presentes no desenvolvimento emocional afetivo. Desenvolvimento,
maturação, ou ainda a possibilidade de reparação do funcionamento
emocional-afetivo. Lembrar que eu falo funcionamento emocional-afetivo? Porque,
quando a gente fala emocional a gente está falando daquela experiência de algo
que está dentro e vai para fora. “Moção” quer dizer movimento e “E” quer dizer
para fora. E afetivo é aquilo que implica a relação com o outro. AFACERE. “A”
em direção a e “FACERE” é fazer. Fazer alguma coisa em direção a. Então, temos
aí, uma emoção que encontra um afeto. Quando a gente está falando de
desenvolvimento, maturação emocional-afetiva, ou ainda, reparação
emocional-afetiva quando a gente está falando desse tipo de experiência, nessa
ordem de experiência, eu preciso impreterivelmente do outro. Não existe a
possibilidade de desenvolvimento, de maturação, ou de reparação no
funcionamento emocional-afetivo, que não tenha a implicação do outro. Ou seja,
o estabelecimento do vínculo. Então, todas as vezes que a gente estiver falando
de formulações psicanalíticas, nós temos implicado aquilo que lá em 1963, Bion
sugeriu como primeiro elemento de psicanálise. Lá em ELEMENTOS DE PSICANÁLISE.
Qual é o primeiro elemento de psicanálise para o Bion? É a relação entre
continente e contido. É muito simples isso: algo passa a ser contido e algo que
passa a conter. Então, precisa haver isso que aqui nós chamamos de acolhimento.
Algo que está propício a acolher e algo que está disposto a ser acolhido.
Quando a gente tem esse encontro, passa a ser possível a expansão, a maturação
desenvolvimento, ou ainda, a reparação, a restauração, a entrada do outro é
preponderante no funcionamento emocional-afetivo. Tanto para as experiências
bem-sucedidas, quanto mal sucedidas é o outro que traz a possibilidade do
desenvolvimento. É o outro que traz a possibilidade da reparação, mas também é
o outro que vem para estragar tudo. Quando eu não cuido morre, quando eu cuido
mal cuidado, volta-se contra mim, agora, quando eu cuido bem, cuidado com o
amor, com dedicação, com sinceridade, aí vira minha esperança. Então, nós temos
aqui uma analogia muito interessante, que é da semente e do solo fértil. Então,
todos os elementos que nós vamos ver aqui; um por um, carecem de um olhar
dentro dessa analogia da germinação. Da possibilidade de uma semente germinar.
Então, nós não vamos estar falando aqui, em nenhum momento, do “deveria ser
assim”, tem que ser assim, mas nós vamos olhar para isso, reconhecer isso, como
se reconhece uma planta que vai germinando. Ninguém está olhando você precisa
fazer isso, tem que fazer assim. Você não tem que, você olha para semente, você
não fala para ela: “agora você tem que fazer isso”. Se ela encontrar um solo
fértil, vai acontecer, se ela não encontrar, não vai acontecer e o
desenvolvimento emocional é assim também. Não tem que ser, vai ser, se houver
todo o ambiente saudável e próspero, profícuo o bastante para que isso possa
acontecer. Então, alguns elementos que vão se suceder, dentro do
desenvolvimento emocional-afetivo, sendo que não existe a possibilidade de sobreposição
de um elemento ao outro. Existe um processo que respeita um fluxo e ao mesmo
tempo não existe retrocesso. Pode haver sim, uma obstrução. Eu diria até que,
na maioria das vezes há uma obstrução, mas retrocesso não. Não existe
retrocesso dentro do desenvolvimento emocional-afetivo, por isso que eu sou
categórico em dizer que a palavra “regressão”, “regredir”, é completamente
inadequada dentro das formulações psicanalíticas. Não existe regressão. Existe
fixação, por conta de uma obstrução, mas não regressão. “P 3R T” O primeiro é o
“P” – PERCEPÇÃO. Perceber algo no funcionamento emocional afetivo. Este é o
ponto de partida o sujeito percebe algo e este algo que ele percebe é
impreterivelmente um desconforto. Todo o crescimento, toda experiência, todo e
qualquer movimento do aparelho emocional-afetivo, parte de um desconforto. Não
existe qualquer experiência emocional-afetiva que não tenha partido do meu
desconforto. O Freud chamava isso de libido, pulsão. A libido, quando se
movimenta, ela tem a tendência de pulsão e isso é sentido pelo corpo como um
desconforto. Antes do Freud, o Schopenhauer já chamava isso aí de vontade,
vontade de viver. A vontade de viver é um desconforto. Antes do Schopenhauer,
Kant já chamava isso aí de “coisa em si”. A “coisa em si” é desconfortável,
incognoscível, eu não posso conhecer isso, eu só sinto como um desconforto.
Esse desconforto pode ser sentido como uma insegurança, como um medo,
tristeza... Esses desconfortos vão se desdobrar em raiva, hostilidade, inveja e
um monte de coisa que a gente vai chamar de indesejável. Por isso, a percepção
tem um perigo de obstrução, porque o sujeito sente isso e ele quer acabar com
isso. Você sente uma coisa ruim, você quer acabar com aquilo, ali você quer
controlar aquilo, você quer cessar aquilo e este é o grande problema. Porque
aí, você aborta o processo. Aí você obstruir processo. Muitas vezes, o sujeito
percebe alguma coisa, percebe um desconforto no funcionamento-emocional dele e
ele corre direto para o psiquiatra, para que ele possa ser medicado, para ele
parar de sentir aquilo. Mas é aquilo ali que vai fazer com que ele se
desenvolva emocionalmente. O sujeito perde alguma coisa e ao invés dele passar
pelo processo do luto, ele sente entretecimento por conta da perda e ele já vai
se medica e acabou. Agora, não é só o medicamento. O medicamento, talvez seja a
mais complicada de todas, a mais difícil, porque, quem te dá esse medicamento é
um doutor. E aí, não tem como discutir com o doutor, né? E obstrui esse
processo, abortar o processo, logo de início de percepção. Um outro, de outras
formas, você pode com uso de algo drogas, abusos de compras, compulsão de
compras, compulsão alimentar, tem um monte de jeitos do sujeito desviar
obstruir o processo de desenvolvimento emocional dele no comecinho que é a
percepção da dor. Principalmente se ele estiver sozinho, principalmente se ele
não puder contar com o primeiro elemento de psicanálise, que é
continente<>contido. Principalmente se ele não puder ser acolhido pelo
outro, principalmente se essa sementinha não encontrar um solo fértil para
germinar. Aí vai abortar... Mas não abortando e conseguindo tolerar o
desconforto da percepção, ele passa para a próxima fase do processo, que é o
RECONHECIMENTO, que é o primeiro “R” dos 3 erres. “P 3R T” Quando o sujeito
admite realmente que ele sente aquilo e que aquilo ali está nele. Eu reconheço
isso, eu não só sinto isso, eu não só percebo isso, mas eu reconheço que isso
está ali, eu reconheço isso e reconheço que isso está em mim. Porque eu posso
pensar que está no outro, eu posso projetar isso no outro. Não, mas eu admito a
existência disso e admito que isso está em mim. Aí, também pode ser obstruir,
se ele estiver no reconhecimento, ele não pode retroceder. Mas reconheceu não
tem como voltar, não tem como deixar de perceber, porque ele já reconheceu.
Agora, ele pode obstruir aí, ao invés de reconhecer ele passa a tentar saber
sobre isso. Não reconhecer, mas conhecer isso, entender o que é isso,
compreender o que é isso, que não está na ordem do cognoscível. Não, você não
pode saber o que é isso, se você der um nome para isso, ali naquele momento
você aborta o processo. Você precisa tolerar a dúvida, reconhecer isso
tolerando a dúvida. Reconhecer não é conhecer, é admitir a existência. Procura
o diagnóstico por exemplo, E aí, ele vai no psiquiatra, o psiquiatra vai dar um
nome para aquilo. Porque ele tentou cessar aquilo, ele tentou parar aquilo, ele
tentou controlar aquilo, que na realidade é o fluxo do desenvolvimento
emocional dele. Dolorido, desconfortável. Muitas vezes, é nesse momento que o
paciente interrompe a psicoterapia, porque ele reconhece que aquele desconforto
está nele, não está no outro e que é da competência dele tratar aquilo.
Reconhecendo isso e essa palavra “reconhecer”, ela é sugestiva, né? É
polissêmica, né? Ela tem vários sentidos, um deles é “conhecer novamente”. Cada
encontro que eu tenho com isso é como se eu não conhecesse. Então. eu conheço
novamente cada vez que eu sinto isso. Eu sinto de uma forma diferente e é por isso
que o Bion nos orienta: sem memória. O analista precisa não estar se baseando,
se apoiando nos conteúdos armazenados na memória sobre o paciente, sobre
qualquer coisa, porque cada vez que o paciente chega, é uma pessoa nova que tá
ali. Ele tem a chance de ser uma pessoa nova e isso passa a ser um modelo para
o sujeito tratar a si mesmo, cada vez que ele entra em contato consigo mesmo
ele precisa entrar em contato com alguém novo. O vínculo é um vínculo novo.
Então, reconhecer. Mas essa palavra ela é muito mais do que conhecer novamente,
ela também é ser grato. Ser grato por ter percebido um desconforto. Consegue?
Porque, muitas vezes a gente sente um desconforto a gente quer evitar. Aquilo é
ruim. Mas como é que eu posso ser grato por algo que é confortável. Pois é!
Porque isso daí é a chave da minha libertação, que se eu for capaz de tolerar
isso, isso daí vai crescer, vai me tornar uma pessoa melhor. Reconhecer também
é ser grato. Bom, se foi possível reconhecimento e não fiquei obstruído no meio
do caminho, passamos para a próxima etapa: aprender a RESPEITAR. Eu PERCEBI,
admitia a existência, RECONHECI e agora, eu passo a RESPEITAR isso que eu
reconheci. Agora, eu posso ficar na etapa anterior, não posso? Reconhecer
alguma coisa não garante que eu seja capaz de respeitar isso que eu reconheci.
Foi o que a gente falou: o paciente pode obstruir o processo aí. Ele
reconheceu, mas não deu conta de respeitar aquilo. Se ele conseguir encontrar a
possibilidade de estabelecer a relação continente<>contido, como nos orientou
o Bion, passa a ser possível expandir para aprender a respeitar isto que foi
reconhecido. Vamos usar o exemplo do medo. Percebi um medo, reconheci esse medo
e agora eu passo a respeitar este medo. Ao reconhecer este elemento, ele já não
é mais um intruso na minha mente, ele foi reconhecido, ele já não é mais um
elemento estranho. Eu já percebo aquilo ali como um integrante do meu processo
psíquico, meu processo emocional-afetivo. Não é estranho, mas é meu e se é meu
eu preciso aprender a respeitar esta limitação. Se foi possível chegar até aí,
é porque a gente teve ali um vínculo bem sucedido. Tivemos aí, uma experiência
de acolhimento. Porque, só a experiência de acolhimento pode levar o sujeito a
chegar a respeitar isso que ele admitiu a existência e que ele percebeu. Um
medo, vamos voltar no medo. Quando ele percebe o medo, reconhece esse medo e
passa a respeitar este medo, este medo que um dia foi uma obstrução das
experiências dele, das atitudes dele, que estavam sempre povoadas de medo, sempre
inundadas de medo, se chegar até o respeito, este medo passa a ser um
integrante da prudência. Já não é o medo paralisador, é um medo que traz para
ele prudência, autopreservação. Mas ele precisa ter aprendido a tolerar a ponto
de respeitar. Aí, já não é obstrutor, protege e faz com que ele consiga viver
as experiências dele de uma maneira muito mais saudável. Nem paralisado e nem é
inconsequente. Se eu conseguir aprender a respeitar, eu passo para a próxima
fase, que é aprender a me RESPONSABILIZAR por isso. Responder por isso. Isso é
meu, faz parte de mim e eu me responsabilizo por isso. E não só me
responsabilizo por isso, mas eu me responsabilizo por todas as consequências
disso na minha vida. Todo esse processo é impossível, é inaplicável sem o
vínculo afetivo com o outro, sem que outro possa me ajudar a fazer isso não dá
para fazer isso sozinho. Não se faz isso sozinho, é impossível. Por mais que
você tenha comprado vinte, trinta livros de autoajuda, que dizem para você que
dá para fazer sozinho, não, dá! Quando eu passo a me responsabilizar, abre-se a
possibilidade de TRANSFORMAÇÃO. Agora, todo esse processo é vivido com uma
incerteza enorme. Cada etapa não tem certeza nenhuma. Não existe certeza nesse
processo e a transformação é uma grande insegurança. Porque quando a gente fala
que de transformação, essa palavra parece ser muito bonita, mas a transformação
quer dizer que você está saindo de uma forma e transformando para outra e você
não sabe qual é esta outra. Quando você vê ali a lagarta virando borboleta é
muito lindo, né? Você já sabe que a lagarta vai virar borboleta. Mas quando é
você que é a lagarta, você não tem qualquer noção de que borboleta que você vai
virar. Você pode ser uma lagarta da beronha, né? Sei lá! Ué! Do Besouro Rola
Bosta, né? Desculpa brincadeira, mas não é isso? Você não sabe o que que você
vai se tornar. E se você vai ser capaz de ser responsabilizar por isso você vai
se tornar.
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