sábado, 30 de abril de 2011

A RAZÃO DA CRÍTICA

Se concordarmos que a crítica é o representante do maior grau de racionalidade que se pode ter acesso, pois guarda em si um caráter moral, como que se predispondo em um modelo padrão ou idealizado de existir, então proponho nessas linhas, cogitar sobre a ‘razão da crítica’. 
Qual a real utilidade da crítica? A que tipo de demanda essa qualidade de reconhecimento do qual chamamos crítica, está a serviço? A questão é: que tipo de razão se pode obter na prática da crítica?
A proposta desse ensaio é tentar refletir sobre o grau de contribuição que a ação da crítica pode ter no processo de real expansão da capacidade do pensar. E por outro lado, de que forma a prática crítica pode ser justamente o que impede a capacidade de pensar. Em que medida é real a ajuda do olhar crítico, na capacitação do pensar a maior parte possível do nosso pensamento.
Essa cogitação parte da hipótese do contraste que existe entre aquilo que pensamos e aquilo que ainda está na ordem da imaginação. Em outras palavras, aquilo que reconhecemos e aprendemos a nos responsabilizar, em embate com aquilo que até sabemos, mas não somos capazes ainda, de nos responsabilizar.


Por mais que o sujeito revele sobre si, ainda assim guardará uma grande cota de verdades que não é capaz de declarar. Essa cota de verdade não assumida, sempre guardará outra parte mais secreta ainda e por sua vez, ignorada pelo próprio eu.
O ser humano aprendeu que a crítica ajuda a crescer e é muito comum essa ideia. Entretanto, esqueceu que esse tipo de ação é um esconderijo muito seguro das frustrações e incapacidades daquele que critica.  
Quando Sigmund Freud (1856 – 1939) desenvolveu o modelo da Primeira Tópica, nas tentativas de mapeamento da mente humana, ele fez isso propondo uma área mental denominada inconsciente. Nessa instancia da mente está localizada toda a verdade sobre o eu e também sobre o outro, porém, desconhecida do próprio eu. No inconsciente esta tudo aquilo que foge da parte consciente da personalidade. Sobre essa parte da realidade não se tem conhecimento. É dali que brotam pulsões, impulsos e desejos e é também pra lá que são arremessados os desejos que não são aceitos no mundo externo. Não se pode ter consciência dessa parte do eu, mas nem por isso ela deixa de existir. Muito pelo contrario, os elementos inconscientes fortalecem-se conforme a recusa do reconhecimento. Quanto mais se evita reconhecer algum elemento inconsciente, tanto mais ele se revolta contra o próprio eu e criará recursos para emergir. Mas agora, por não estar disposto ao pensamento (consciência) aparece como atuação (ação não pensada).
Estamos falando sobre o que Freud chamou de ‘reprimido’. O pai da psicanálise escreve sobre um afeto, uma necessidade ou, simplesmente, um impulso primitivo que não teve a chance de evoluir, ganhando sentido de ideia e conquistar o status de características conscientes na totalidade da personalidade. Está então, condenado pelas instâncias críticas e censoras do ‘eu’, a viver nas profundezas do inconsciente. Contudo, amiúde, tenta emergir na personalidade consciente provocando, assim, os sintomas da neurose. É antes de tudo, um motivo de frustração, mas que não está acessível á consciência.
Dessa forma, todo aquele que de alguma forma apresentar certa satisfação que corresponda à frustração reprimida, será veementemente criticado. Não obstante, o sujeito que carrega seu reprimido, critica, mas não é capaz de se desligar do criticado. Isso ocorre por razão obvia: se o fizer terá que carregar com ele toda frustração que através da crítica, projeta no outro. Quero propor com isso que, toda condenação esconde uma frustração latente, daquele que condena, revelada na experiência da inveja. 



Se estivemos de acordo até esse ponto, podemos então afirmar que a crítica é sinal claro da incapacidade daquele que critica. 


A crítica é a primeira manifestação do pré-conceito. Não se conhece muito bem sobre a ideia, porém já se tem um conceito pré-estabelecido sobre o que se critica. Uma tentativa de evacuar elementos não pensados naquele que se dispõe a receber a crítica.

Ora, se isso é verdade então, encontramos uma utilidade para o emprego da crítica. A única justificativa que vislumbramos até agora, para o uso da crítica parece ser a auto-preservação. A crítica é uma boa defesa contra o desconforto emocional gerado no reconhecimento de algo que simboliza uma grande frustração.
Parece-nos claro, nesse ponto da reflexão, que a identificação da crítica, deve conduzir ao afastamento do objeto criticado. De outra forma, existe um objetivo maior e certamente inconsciente em continuar criticando.

Capítulo do Livro - O Amar e o Pensar: Das Perspectivas dos Vínculos no Desenvolvimento da Capacidade Reflexiva, 2013.

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terça-feira, 26 de abril de 2011

O SONHAR (ENQUANTO RECURSO NA EXPANSÃO MENTAL)

Pintura Pierre-Cécile Puvis de Chavannes-
O Sonho, 1883


            Do ponto de vista das religiões vem representado por um aviso de Deus, como aparece no trecho bíblico onde o anjo Gabriel avisa São José, em sonho que sua esposa está grávida de uma criança divina. É também num sonho que um anjo o avisa para fugir para o Egito assim como quando seria seguro retornar à Israel.
Nos contos de fada sugere a transposição para outro mundo, como no Mágico de Oz, onde Dorothy dorme e é remetida para “outro mundo” e partir daí, pessoas do seu convívio das quais ela amava muito, criaram qualidades mágicas e bem específicas assim como um desejo particular muito claro em cada personagem. Depois de saber que com sua chegada uma casa havia caído sobre a Bruxa do Leste, a garotinha calçando os sapatinhos vermelhos da bruxa e com seu cachorrinho Totó, deve agora seguir a estrada de tijolinhos dourados até o Mágico de Oz. Ele trará a salvação realizando o desejo de cada companheiro de Dorothy e será ele também que proverá o veiculo para que ela volte para casa. Contudo no desfecho, o mágico revela-se um homem comum por traz de um aparato tecnológico que ampliava a visão quanto a seu poder.
No conto de Alice no País das Maravilhas ela adormece lendo um livro no jardim de casa e assim inicia uma viagem ao seu interior onde a noção de tempo é sempre interrompida pelo Chapeleiro Maluco que propõe o chá das quatro o tempo todo. A noção de espaço também é algo extremamente inconstante quando Alice aumenta e diminui de tamanho. Nos contos de fadas, assim como nos sonhos, inúmeras são as situações inusitadas que só ganham sentido se submetidas a analise e certa interpretação.
 René Descartes  1596 - 1650
em pintura de Frans Hals
Grandes pensadores como Thomas Edison (1847 – 1931) que inventou e desenvolveu muitos dispositivos de grande importancia para civilização, entre eles a lâmpada incandescente, Francis Crick (1916 – 2004) físico responsável por desenvolver a estrutura da molécula do DNA e René Descartes (1596 – 1650) pai da filosofia moderna, entre outros, tiveram importantes sonhos que antecederam suas grandes idéias que serviram de considerável avanço na cultura e na ciência.
'O Sonho' de Salvador Dalí
Nas artes o sonho também é ricamente ilustrado por nomes importantes. O artista plástico espanhol Salvador Dalí (1904 – 1989) desenvolveu um estilo dentro do movimento surrealista bem proximo da figuração dos sonhos. Suas telas transmitem intensa emoção sem que seja necessario uma coerencia na posição e disposição dos elemento. O movimento do Surrealismo revelou grandes nomes da arte que seguiram essa mesma tendencia.
O musico inglês Paul MacCartney integrante dos Beatles, relata que compões a canção “Yesterday” assim que acordou depois de um sonho. Numa manhã em maio de 1965, Paul despertou com uma melodia na cabeça. Imediatamente ele foi para o piano que havia no seu quarto em Wimpole Street, em Londres, e tocou a música toda, completa, com primeira e segunda parte.
Hypnos - Greek God Hypnos
Igualmente na filosofia o sonho serve de ferramenta importante na cogitação da vida. Filosoficamente a disposição para sonhar pode representar a capacidade de projetar uma possibilidade de futuro. Em um vértice mitologico o sonhar depende de Hipnos, o deus do sono, irmão gêmeo de Thânatos o deus da morte. São filhos de Nyx, deusa da noite e filha do Caos, uma das primeiras criaturas a emergir do vazio, na mitologia grega.
A experiência do sonhar está espalhada pelas culturas e em cada uma dessas dimensões recebe certo sentido. Sendo assim, ignorar ou mesmo desvaloriza essa experiência corresponde ao desprezar de uma dimensão importante da alma humana.
O Pesadelo,
de Henry Fuseli, 1802
Frankfurter Goethe-Museum,
Frankfurt
Apesar dos sonhos serem, em geral, lembrados por elementos que em primeiro momento são vistos como indiferentes no desempenho da vida, num olhar mais atento e cuidadoso, percebe-se o valor que essa experiência pode adquirir no que diz respeito ao domínio do desenvolvimento da personalidade.
A psicanálise atribui ao sonhar um valor imprescindível nos processos psíquicos e do pensar, há muito tempo e até os dias de hoje. Mais do que nunca o sonho é um referencial de desenvolvimento da expansão do pensamento.

Janela para o profundo

No estudo da psicologia humana, o sonho talvez seja a representação mais fiel daquilo que chamamos de mundo interno. Em suas interpretações revelam-se instrumentos que permitem acesso a um lugar interior, onde estão os maiores desejos e também os maiores medos do ser humano.


Sigmund Freud (1856-1939)


Em 1900, Sigmund Freud (1856-1939) publica um dos maiores livros da literatura mundial, ‘A Interpretação dos Sonhos’, dando assim início ao estudo cientifico dessa ordem de fenômenos ocorrentes na mente humana. Nessa obra ele propõe que o conteúdo do sonho seja um modo de “realização de desejos”. É regido pelo que Freud chamou de processo primário onde o eu equivale a noção do todo no mundo, e por funcionar atravez do que denominou principio do prazer o objetivo exclusivo é o de afastar desconfortos, sem levar em conta a realidade. Esse foi o primeiro olhar para uma idéia que se espandiu e evoluiu para um pensamento rico em instrumentos para o pensamento psicanalitico.
Freud chamava o sonho de ‘via regia’ para o inconsciente. É através do sonho que se pode obter certo referencial do inconsciente de forma mais clara. Por conta disso, no sonho, aspectos ligados a tempo e espaço, são sempre de difícil definição, já que essas são características particulares dos fenômenos do consciente. Dessa forma, o lado nobre das ruas de Viena propõe uma bela metáfora para pensarmos o sonho. O mais sublime dos instrumentos na tarefa de se perceber o movimento interno naquilo que chamamos espaço mental.

Obstáculos da interpretação

Na tarefa de se interpretar o sonho encontram-se inúmeros obstáculos e forças contrarias que confundem a compreensão e dificultam o trabalho de reconhecimento dos conteúdos oníricos (o aspecto onírico será mais bem estudado mais a frente, nos próximos tópicos). Em psicanálise, essa classe de fenômenos de impedimento recebe o nome de resistência. Contudo a resistência não ocorre só na interpretação dos sonhos, mas em qualquer que seja a tentativa de se introduzir a interpretação psicanalítica. Podemos ponderar que a resistência está presente em qualquer que seja a experiência de confronto entre aspectos das realidades interna e realidade externa.
Isso por conta do despreparo natural do aparelho mental de nós, seres humanos, na capacidade de tolerar desconfortos emocionais. Frustrações são recorrentes na empreitada de se perceber e se conhecer a si mesmo. Dessa forma, o próprio aparelho psíquico cria certos mecanismos de defesa que fazem com que nos esqueçamos do sonho ou de parte dele. Isso ocorre assim que se desperta, ou seja, assim que retomamos a consciência da vida em vigília. Proponho que isso ocorra, pois muito provavelmente se perceba nesse sonho, ou nesse trecho de sonho esquecido, alguma verdade muito dolorida sobre si-mesmo.
Por isso muitas vezes os sonhos parecem tão desconexos. Por ocasiões, nem nos lembramos de partes significativas o bastante para que formemos o mínimo de sentido para relatarmos. Mesmo assim, sentimos que esse sonho nos trouxe certa sensação de prazer ou desprazer. Mesmo sem muita compreensão, apenas acordamos angustiados ou então bem dispostos sem nos lembrar do que sonhamos.
Proponho então que, se isso é fato, na medida em que podemos nos perceber e nos reconhecer melhor em nossos medos e desejos, naturalmente poderemos ter maior acesso aos conteúdos dos sonhos. E o contrario também é verdade, aquele que tem medo de si mesmo terá maior dificuldade no desempenho do sonhar. Como coloca Freud em, “Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise”, publicado em 1912, o sonho também é um caminho para o auto-conhecimento :


“Há alguns anos, dei como resposta à pergunta de como alguém se pode tornar analista: ‘Pela análise dos próprios sonhos’ Esta preparação, fora de dúvida, é suficiente para muitas pessoas, mas não para todos que desejam aprender análise. Nem pode todo mundo conseguir interpretar seus próprios sonhos sem auxílio externo”. Freud (1912-p.55-56)

 Um exemplo muito claro disso é o que nos ocorre enquanto estamos em análise. É muito comum nos lembrarmos de nossos sonhos quando estamos no divã, talvez por sentirmo-nos mais seguros para recordá-los na presença do analista.

Ponte entre consciente e inconsciente

Um impulso (inconsciente) que clama por ser compreendido (tornar-se consciente) é uma chance sem igual para que se inicie um autoconhecimento. O sonho é em si uma mistura dos conteúdos conscientes e inconscientes. São impulsos que ainda não puderam ser efetivamente pensados, impregnados de resquícios da vida em vigília, ou seja, fatos acontecidos no nosso dia a dia. Muito do que vivemos durante nosso dia não pode ser pensado e simplesmente vivemos, agimos. Isso muito provavelmente surgirá no sonho tentando mais uma vez emergir para ser relembrado e agora talvez, pensado. Sendo assim, poderíamos dizer que nos sonhos encontramos experiências, sobre tudo emocionais, ocorridos sem que tivesse chance de preparação. Falo de uma situação de perigo e surpresa onde não houve oportunidade de ansiedade (que vem anterior ao perigo) e que agora é recorrente no sonho.
Apesar de o sonho ser normalmente relacionado ao sono, na verdade sonhamos o tempo todo, mesmo quando acordados, ou em estado de vigília. Porém, a realidade nos cobra atenção e nos desvia do nosso mundo dos sonhos. É quando confrontamos seu conteúdo com aquilo que é real e possível.
Uma ponte que liga o consciente e inconsciente. Um contato com o inconsciente, conceito que juntamente com o da transferência, do reprimido e da sexualidade infantil, é um dos elementos pilares da teoria psicanalítica. O inconsciente é esse mundo caótico onde conceitos racionais como tempo e lugar, não fazem o menor sentido. No sonho condensamos e deslocamos imagens e sentimentos. Todos os personagens dos nossos sonhos na realidade são partes do eu e condensam-se e deslocam-se conforme as leis do principio do prazer. Partes de nós mesmos projetadas em figuras da realidade e articuladas no enredo do sonho. Certa vulnerabilidade que não esteja podendo ser reconhecida pelo ‘eu’ pode ser representada no sonho, por um animalzinho indefeso, por exemplo.

Além de um simples caminho

C. Gustav Jung (1875 – 1961)
C. Gustav Jung (1875 – 1961), medico suíço e um dos discípulos mais importantes de Freud escreve em PSICOLOGIA DO INCONSCIENTE publicado no Brasil em 1971 a transcendência do conceito do sonho. “Considero o sonho não só como uma fonte preciosa de informações, mas também como um instrumento educativo e terapêutico eficientíssimo” pg. 97. Se utilizarmos um modelo onde compreendam continente e contudo, o sonho não é simplesmente a forma mais nobre de se chegar ao inconsciente e revelar os elementos ali contidos, ele tem fundamental importância nos processos internos, e isso vai mais além do que essa função.


Wilfred Ruprecht Bion ( 1897 – 1979)


Assim como certos processos de digestão têm sua importância por fazerem parte do funcionamento biológico do corpo físico, na alma ou no aparelho psíquico, o sonho tem análoga função. Wilfred Ruprecht Bion ( 1897 – 1979), importante psicanalista contemporaneo, deixa em seus manuscritos um valioso material de reflexão sobre os sonhos. Nessa reunião de textos que teve sua publicação póstuma em 1992, numa coletania de manuscritos entitulada “Cogitações”, Bion escreve propondo um modelo parecido. Bion expande o pensamento freudiano e enriquece a valorização do sonhar que em 1900 Freud iniciara a pesquisa. Ele escreve que os sonhos são “ continentes de uma massa amorfa de elementos não conectados e indiferenciados” (p. 58).  Está ai uma chance de se “digerir” certas idéias e nutrir-se delas.
Existe ai a oportunidade da percepção de conflitos internos propondo assim, uma ocasião de elaboração e evolução do pensamento. No sonho ocorre a acomodação e harmonização dos dados recolhidos pelos órgãos dos sentidos, com os conteúdos mentais. Isto é aquilo que em psicanálise denominamos “capacidade para o trabalho onírico”. Bion propõe em sua obra “Estudos Psicanalíticos Revisados” ou no inglês original Scond Thought publicado no Brasil em 1967, a função alfa como, “um instrumento de trabalho na analise dos distúrbios do pensamento” (pg. 133), essa capacidade é o que converteria os dados sensoriais em elementos alfa, fornecendo assim para o aparelho psíquico material para o pensamento onírico. Esse processo para Bion é o que propicia a capacidade de dormir e acordar, de estar consciente ou inconsciente. Segundo Bion:

“O malogro no estabelecimento de uma relação mãe/bebê em que seja possível a identificação projetiva normal impedirá, entretanto, o desenvolvimento de uma função alfa e, consequentemente a diferenciação dos elementos conscientes e inconscientes”. (pg. 133)

O 'Om' símbolo das religiões indianas
O símbolo e o trabalho onírico

Estamos cogitando, sobretudo, a propósito do trabalho onírico, o responsável pela conversão dos pensamentos inaceitáveis para o ego, em pensamentos oníricos. Esse processo compreende alguns mecanismos conhecidos da psicanálise, como: condensação, deslocamento, representação, até chegarmos ao simbolismo propriamente dito. O símbolo é o resultado bem sucedido do trabalho onírico. A falha na capacidade do processo onírico gera um estado característico do funcionamento psicótico. Um funcionamento onde até existe certo contato com a realidade, mas isso é feito com muito pouca freqüência e com uma dificuldade grande. O psicótico tem muito pouca habilidade em distinguir o que é sonho e o que é real.


Se estivermos de acordo até esse ponto, então podemos dizer que o sonho é certa produção mental a partir de uma experiência fracassada no vínculo com a realidade.  Um sinal de que isso ocorreu. Assim, a conjectura freudiana de que o sonho é uma realização de desejos inconscientes, ganham novo ponto de vista e passamos a perceber uma questão ligada ao ideal de eu, que diz respeito a aquilo que se pretende ser. A rigidez dessa parte da estrutura mental do qual também Freud chamou de superego é a responsável pelo insucesso do desenvolvimento do sonho em sua função mental. Isso porque, aquilo que o “eu” pode ser entra em conflito com aquilo que o “eu” deve (ria) ser. Forma-se então, um ambiente extremamente delicado para o funcionamento mental. A partir da ação cruel do superego, a auto-depreciação ocorre onde o que se tem obrigação de ser fica valorizado em detrimento do que realmente se pode ser.
Muito interessante podermos nos lembrar do que sonhamos. Isso é muito sério, na medida em que somos aquilo que um dia sonhamos. Se não se sonha, ou não se tem consciência do que se sonha, como poderá se realizar?

Referencias:
Freud, S. Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas - Edição Standard Brasileira, IMAGO (1969-80)
Jung, Carl Gustav. (1971) PSICOLOGIA DO INCONSCIENTE – Editora Vozes.

Bion, Wilfred Ruprecht. (1992). Cogitations. (Edited by F.Bion). London: Karnac Books.

Bion, Wilfred Ruprecht. (1967). Estudos Psicanalíticos Revisados (Scond Thought). Rio de Janeiro, IMAGO Editora.





Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
renatodiasmartino@hotmail.com
Fone – 17 3011 3866

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Beleza no Corpo, Beleza na Alma.



O desenvolvimento emocional é o foco central dos estudos psicanalíticos. Toda idéia proposta dentro deste vértice, compreende um curso de desenvolvimento desde as pulsões mais internas do aparelho psíquico até a capacidade mais nobre de simbolização. O psicanalista indiano Wilfred Bion (1897 –1979), em sua obra Atenção e Interpretação, impressa no Brasil, pela Imago editora em 1972, nos propõe a ‘Grade’. Uma sugestão de tabela gradual onde se encaixaria certa medida de evolução do elemento contido no psiquismo.  Fica claro que, mesmo que sejam os estudos, voltados para algum absurdo numa ocorrência patológica, ainda assim, esse caso é estudado a partir de certa referencia numa idéia de saúde mental.  Alias, se a saúde mental é justamente um estado fluido de espírito, que permite transpassar a vida com certa naturalidade, se expandindo através das realizações, logo nos vemos novamente na perspectiva do desenvolvimento emocional.
 Dr. Robert Rey, cirurgião plástico das estrelas

de Hollywood. Fatura fortunas.
Não é novidade alguma que o desenvolvimento emocional depende da capacidade simbólica. Cada simbolização que se tornou possível, tem como resultado a construção, estruturação, desenvolvimento e promove a saúde do ego. Através da mãe simbolizada é que o bebê pode tolerar a ausência desta nos períodos em que não pode estar por perto. O símbolo se faz útil quando o bebê não pode vê-la ou sentir sua presença física. Na medida em que vai simbolizando o mundo externo, também alarga a simbolizaçãodo eu.


Numa perspectiva de ser humano, que tenha como pressuposto um corpo e além desse corpo algo que transcende ao próprio corpo físico,se pronunciando enquanto mente (parte do eu que não pode ser confirmado pelos órgãos dos sentidos), iniciamos então a apreciação do intuito desse trabalho. A super valorização da beleza física. Seguindo essa linha de raciocínio, tomamos aqui o corpo como forma material ou concreta do eu. A parte do eu que se encontra no nível do real sensório. Aquilo que se pode constatar com o aparato sensorial, ou seja, com os órgãos dos sentidos. Pois bem, se estivermos de acordo que o símbolo é aquilo que sustenta o vínculo que se tem com a realidade, na situação de impossibilidade da confirmação sensorial, logo, a não aceitação da forma física ou do corpo como ele é, coincide com certa falha na capacidade de simbolização do próprio eu.
No processo que conduz a simbolização, o desejo é reduzido e a urgência é acalmada. Isso acontece, em decorrência do ambiente interno que pode contar com a imagem simbolizada. Por outro lado, onde não existe simbolização, a necessidade da confirmação da realidade é urgente. Sem o símbolo, o eu não funciona sem a confirmação do real. Quando trazemos de volta a questão da estética corporal e o belo concentrado no corpo, percebemos que onde o corpo não corresponde com o desejo, ele não é aceito pelo próprio eu. A falha na simbolização do corpo promove a intolerância quanto à própria mudança natural que o corpo físico naturalmente experimentará, conforme os anos passam.  Um modelo de perfeição é então, instalado num objeto idealizado, eleito através da preferência do outro. Por alguma razão percebeu-se que ter certas formas físicas, serviria de motivo para o olhar e a escolha do outro.

Metamorfose de Narciso de Dalí Em 1937, 
tela a óleo, que faz parte da exposição da Tate Modern. 
(Copyright: Dalí. Fundació Gala-Salvador Dalí, DACS, 2007).
Na primeira infância o olhar desejoso da mãe funciona como um espelho para o bebê. Enquanto mama, ele olha fixamente nos olhos daquela que naquele momento vive pra ele. O bebê vive a experiência do que Sigmund Freud (1856 – 1939) denominou em 1914, em seu livro ‘Sobre o Narcisismo: uma introdução’, de narcisismo primário.
Freud utiliza-se do mito de Narciso, que era filho do deus-rio Cephiso e da ninfa Liríope. O adivinho Tirésias orientou a mãe que, Narciso teria vida longa desde que não contemplasse a própria imagem. O narcisismo primário é certa etapa do desenvolvimento emocional que deve ser experimentada da forma mais efetiva possível, visandoà saúde do desenvolvimento da mente. É a partir dai que ocorre a simbolização do desejo do outro, que a partir da simbolização já não terá que ser confirmado com tanta urgência e sem duvida com menor frequência.O reconhecimento e valorização angariados nessa experiência ensinam e capacitam o bebê a reconhecer-se a si mesmo. O eu aprende a valorizar-se e logo se liberta da exclusividade da aprovação do olhar do outro.
Quando Freud, em sua importante obra, intitulada O Ego e o Id, escreve: “o ego é, primeiro e acima de tudo, um ego corporal” (Freud, 1923:39), ele fornece um ponto de partida para a construção de uma visão estrutural da mente e faz isso partindo da idéia do corpo. O bebê reconhece seu próprio corpo a cada toque carinhoso.

Albert Camus (1913-1960)
Bem, quando falamos do culto ao físico independente da qualidade da alma que o preencha, falamos de um modelo primitivo de relação que quando perdura coloca em risco o desenvolvimento emocional. Isso pois, toda supervalorização do corpo físico implica na desvalorização da alma. A tarefa dentro dessa perspectiva prisioneira do olhar do outro, é a de se tornar cada vez mais atraente para ser escolhido e mantido por ele, já que parece não existir capacidade de responsabilizar-se por si mesmo e muito menos a possibilidade de se manter sem a aprovação do outro.
Assim, construímos nosso conceito de beleza a partir do desejo do outro. Antes de tudo, nessa perspectiva superficial, estamos expostos ao nosso próprio destino, sem recursos, impossibilitados para lutar contra certa ‘herança maldita’ que habita cada alma desse mundo e que foi profetizada por Albert Camus (1913-1960), em seu O Homem Revoltado, publicado originalmente em 1951. Camus chama a atenção para o fato de que, ainda assim, ‘O homem é a única criatura que se recusa a ser o que é’. Algo que requer constante manutenção reflexiva em prol da tomada de consciência, o que coincide com a saúde mental.
No vértice do desenvolvimento saudável do plano emocional, o caminho deve seguir um curso de transformação vincular. Na expansão simbólica da mente, a realidade no nível sensório é abandonada para que haja um posterior reencontro. No entanto, agora com outro modelo de vínculo, mais amadurecido e menos exigente.O que antes era impulsionado exclusivamente pela necessidade de receber reconhecimento e cuidado, agora é permeado pelo respeito e enriquecido pela gratidão.
Também na relação com o corpo, as exigências diminuem e o reconhecimento, a valorização e o respeito ocorrerão, conforme a expansão da capacidade simbólica.

Bion, W. R. (1979). Atenção e interpretação. Rio de Janeiro: Imago.
Freud, S. Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas - Edição Standard Brasileira, IMAGO (1969-80)
Camus, A. 2008. Rio de Janeiro: Editora Record.




Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866  

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quinta-feira, 7 de abril de 2011

O Rio de Janeiro ficou triste

Extremamente emocionado de entristecido eu pasmo frente à proporção que pode tomar o descaso para com o ambiente familiar (mãe, pai, filho) que mais do que espectadores, fazemos parte. Enquanto não deixarmos de nos queixar pelo que sofremos em nossa família de origem e nos propusermos a nos responsabilizar pelos nossos filhos, continuaremos vendo criança (Wellington Menezes de Oliveira 24 anos) matando criança (alunos na média dos 14 anos). As confirmações de experiência de abandono na primeira infância não são de forma alguma raras, numa pesquisa mais atida da vida desse menino.
Prof. Renato Dias Martino

sábado, 26 de março de 2011

O SONHAR ENQUANTO RECURSO NA EXPANSÃO MENTAL

CONHECER PERSPECTIVAS PSICOLÓGICAS SOBRE O SONHAR E COM AUXILIO DO PENSAMENTO PSICANALÍTICO, APRECIAR A FUNÇÃO DO DESEMPENHO DO SONHAR NOS PROCESSOS PSÍQUICOS.
 Coordenação: Prof. RENATO DIAS MARTINO
30 DE ABRIL DE 2011
Dàs 14:00 às 16:00 HORAS
Local: UNILAGO, São José do Rio Preto.
Inscrição: http://www.unilago.com.br/extensao/info/inscricao/?Curso=399 

O evento será realizado no anfiteatro da UNILAGO. Mesmo que no site da faculdade estejam esgotadas às inscrições, serão feitas inscrições extras no dia do evento.
Muito obrigado!
Espero todos la!



Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866
renatodiasmartino@hotmail.com
http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com  

A arte como simbolização do mundo

Dor da palavra
"O que seria da minha palavra 
se minha dor nela não habitasse?
O que seria da minha dor 
se não encontrasse palavra 
que a expressasse?"


Na Grécia antiga a arte dramática era encenada nos teatros de arena, propondo certa catarse naquele que assistia. Um golpe no narcisismo do espectador. Como em uma ab-reação que alertasse a platéia, de qualidades da realidade, que no cotidiano pudessem ser de alguma forma ignoradas, ou mesmo perdidas nas tarefas repetitivas do dia a dia.
Um bom início na empreitada de estudarmos a arte enquanto símbolo de mundo, talvez seja pelo vértice epistemológico, onde o intuito é criar ferramenta que nos possibilite o discernimento entre crença e conhecimento.
Immanuel Kant (1724-1804)
Um exercício no questionamento daquilo que Immanuel Kant (1724-1804) chama de conhecimento a priori, onde propõe que a "coisa em si" é icognicivel. Se pudermos incluir dentre essas perspectivas de estudo do saber a partir das ideias de Kant, o vértice das 'possibilidades' passa a ser o instrumento principal na busca pelo conhecimento. O ponto de partida da filosofia de Kant é justamente o problema do conhecimento, e a ciência, tal como existe.

Esse importante filósofo alemão propõe duas categorias básicas de conhecimento, o conhecimento a priore e o conhecimento a posteriori. Para esse importante pensador, o conhecimento a priori não depende da experiência, sendo assim, algo transmitido teoricamente. Esse padrão de conhecimento segue um modelo de saber acumulativo, que baseado em um fato registrada na memória e que foi percebida pelos órgãos dos sentidos. Então pode ser transmitido a outrem, como verdade.

No extremo oposto, estaria o conhecimento a posteriori, ou como Kant o denominava em alguns casos, o saber sintético. Nesse molde de saber estaria aquele conhecimento que seria resultam da experiência e, por isso, implicaria aspectos privados e incertos. Segundo esse modelo proposto por Kant, o conhecimento é vínculo, ou relacionamento entre o sujeito e o objeto do conhecimento.

Para Kant, são necessários os dois modelos de conhecimento e isso coincide com a nomeação (a priori) da experiência (a posteriori). A partir dessa proposta de pensamento, não se pode conhecer as coisas "em si", mas apenas o que podemos obter através da experiência com ela. Isso equivale dizer que aquilo que chamamos de coisa, é apenas aquilo que pudemos conhecer do objeto, e nunca a coisa “em si”.

Entretanto, é uma forma menos acessível e seleta do saber, pois é uma maneira de pensar que torna o sujeito responsável pelo saber. Certa pedagogia regida por esses moldes propostos por Kant, talvez fosse aquela calcada na priorização das possibilidades em se qualificar o sujeito para a experiência. Isso, para Kant, representaria a retirada do sujeito de sua menoridade, posição onde se encontra dependente do saber do outro. O ‘por si mesmo’ é a bandeira do saber kantiano, e seria talvez a única forma de ensino que poderia receber o titulo de real.

Qualquer outra tentativa de conhecimento colocaria o sujeito dependente da experiência do outro, invalidando grande parte do vínculo com a própria realidade do objeto do conhecimento. Não é muito difícil chegarmos a uma concepção onde uma verdade contada não pode ser comparada a uma verdade vivida. Segundo a proposta de Kant, fora da experiência não pode haver o real aprendizado.

Se assim procede; a realidade é mesmo inacessível e o que podemos obter é simplesmente breve impressão desta, então, que ao menos seja criado algo que possa amenizar a condição finita e desprotegida da existência. Algo que permita estar mais próximo possível da apreensão do real.


Sigmund Freud (1856-1939)
Como no material clássico de Sigmund Freud (1856-1939), “O Mal-Estar na Civilização”, onde em 1930 ilustra a tentativa de dar conta dessa angustia. O ser humano desenvolve instrumentos de representação, buscando na realidade aquilo que possa simbolizar as dores da alma.

Considerando três grandes modelos onde estejam compreendidos o cientifico - filosófico e o místico-religioso, a arte se enquadra na categoria dos padrões da epistemologia, enquanto dimensão estética. Certa área da mente rica em imaginação, logo, propícia à simbolização. O aparelho psíquico dispõe-se a certo estado se funcionamento do não-tempo e do não-espaço interior. Contudo, a arte proporciona assim, um encontro com o si-mesmo em áreas conflituosas da mente onde o vínculo com o mundo externo ainda se encontra num modelo muito primitivo.
Conceito de símbolo

OM
Um importante instrumento de reflexão da alma. Filosoficamente, contudo, de maneira prática, podemos chamar de símbolo tudo aquilo compreende a função de sustentar durante a ausência material. Num modelo cientifico - experimental, um time de futebol pode facilmente ser recordado através de um simples brasão, por exemplo. No misticismo encontramos amuletos e formas simbólicas que reúnem conceitos extremamente subjetivos, mas que ainda assim permitem-se estarem presente em uma pedra, ou um pedaço de madeira, quem sabe. O afeto dedicado às imagens sagradas é um aspecto muito característico de algumas religiões.

 Melanie Klein (1882-1960)
Do ponto de vista psicológico, o símbolo começa a ser estudado com maior atenção, a partir dos estudos de Melanie Klein (1882-1960), pensadora que talvez seja o nome mais importante para o pensamento psicanalítico depois de Freud. Em sua obra “Da importância da formação de símbolos no desenvolvimento do ego” (1930) a autora propõe que a capacidade de simbolizar o seio é o protótipo de vinculo que pendurará na vida emocional. A questão é “o que fica quando o seio não esta?” Desse ponto de vista, cada experiência simbólica com a realidade habilita o “eu” a viver a falta.

Jacques-Marie Émile Lacan (1901-1981) propõe uma tríade interessante onde real, imaginário e simbólico se sucedem. Esse pensador francês valoriza a linguagem enquanto aquilo que estrutura o inconsciente. Lacan usa do ‘nome do pai’ como símbolo da palavra.


Wilfred R. Bion (1897-1979)
Wilfred R. Bion (1897-1979), psicanalista inglês, nascido na Índia, propõe a capacidade de vivermos o “O” da experiência, representado nas religiões hindus pelo símbolo do 'om', onde o aparelho psíquico fica livre da satisfação sensorial, sendo sustentado justamente pelo símbolo. Assim, a falta do seio real é o que leva a pensar. Contudo, quando a falta que se sente é de um seio do qual se tem muito escassas as impressões afetivas, o ambiente se torna assustador e muito pouco fértil a simbolização.


A arte no simbolizar

Edipo de Moreau
O artista nos prova que a paisagem existe mesmo que não conheçamos a paisagem em-si, ou seja, nos reporta ao ambiente retratado, mesmo sem termos conhecido o ambiente real da paisagem. A Partir daí inicia-se certo processo. A realidade é percebida gerando a duvida, então, o imaginário é o que entra em funcionamento. Nesse ponto do processo (do imaginário), movimentos lúdicos são experimentados, sempre repletos de amor, ódio e consequentemente a fuga para o real. Dentro desta perspectiva Bion aprecia o espaço mental, tal como num processo de digestão daquilo que se obtém nas pesquisas feitas no mundo real. Assim, com a ajuda de um ambiente saudável, alguma hipóteses dentre aquelas ludicamente experimentadas, agora abre a possibilidade para a simbolização, através de um representante na realidade. Assim como no sonho também na arte, abre-se certo caminho nobre de acesso aos conteúdos inconsciente. Por funcionamento através da capacidade criativa, ilustram em sua representação os movimentos internos de fantasias.

Arte e o eu real

Con-fusão entre o eu e a arte
Em 1910 Freud publica “Leonardo Da Vinci e Uma Lembrança Da Sua Infância” e nessa importante obra analisa o artista através dos documentos de registro e também através de suas obras. Através de seu quadro ‘Sant’ Ana com Dois Outros’ analisa as duas mães fundidas num corpo só, formando um abutre com o manto que as envolve, ave sombria que aparecera num sonho de Leonardo di ser Piero da Vinci (1452-1519) colocando as penas de calda em sua boca. Essa questão é retomada em 1939 por Carl Gustav Jung (1875-1961), importante colaborador na construção do pensamento psicanalítico, em seu “O Espírito Na Arte e Na Ciência”, onde transcende o modelo cientifico propondo o vértice mitológico na analise. A arte de Da Vinci revela aspectos importantes de seus conflitos emocionais e verdades internas.

Donald Woods Winnicott 
(1979-1983)
De qualquer modo, o modelo estético-artistico apresenta dessa forma, como revelação do mundo do verdadeiro eu, ou nas palavras de Donald Woods Winnicott (1979-1983), pediatra e psicanalista pós-kleiniano, temos aqui uma possibilidade de contato com o verdadeiro self que vive nos quartos dos fundos do falso self, construindo a partir da necessidade de sermos desejados pelo outro, alinhavando a idéia em concordância com Lacan que propõe que “o homem é o desejo do outro”.

Arte e sublimação

Freud (1910, p. 72) propõe o conceito de sublimação como capacidade de substituição de objetivos imediatos por outros desprovidos do caráter sexual, através do aprimoramento e valorização das realizações. A arte não é só simples instrumento ilustrativo dos processos internos, ela tem a propriedade de conduzir o espectador a um “estado de espírito” muito próximo da vivencia emocional da qual experimentou o artista. O artista constrói um ambiente emocional que envolve aquele espectador aberto à linguagem artística usada. Quantas vezes não nos pegamos segurando um “nó na garganta” ao ouvirmos uma canção, sem sabermos explicar o porquê do sentimento de tristeza que habita nosso peito?

A arte nos permite viver nossa “memória sonho”, como propõe Walter Trinca (1997), onde a sensorialidade perde o valor. Não podemos provar cientificamente quantos metros existe entre a cerca e a casa pintadas na tela, mas ficamos satisfeitos ao contemplá-la. O espaço e o tempo são freqüentemente inutilizados. Na arte, existe a relação estética do “sempre” eternizada na obra. Dispensamos a coisa em si que nos propõe Kant e nos encantamos pela representação da qual nos diz Freud.

Referencias:
Bion, Wilfred, Ruprecht. Transformações - mudança do aprendizado ao crescimento. Rio de Janeiro, Imago, 1983, trad. C.H.P. Affonso, M.R.A. Junqueira, L.C.U. Junqueira Fo.

(1970) Atenção e interpretação. Rio de Janeiro, Imago, 1973.

(1992). Cogitations. (Edited by F. Bion). London: Karnac Books.

Freud, S. Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas - Edição Standard Brasileira, IMAGO (1969-80)

Jung, C. Espírito Na Arte e Na Ciência, Petrópolis, Vozes, 1939.

KLEIN, Melanie, (1930) A importância da formação de símbolos no desenvolvimento do ego. in Contribuições à psicanálise. São Paulo, Mestre Jou, 1981.

Trinca, W. O espaço do homem novo. São Paulo, Papirus, 1997.

WINNICOTT, Donald, Da pediatria à psicanálise. São Paulo, Francisco Alves, 1982.

O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre, Artes Médicas, 1983.

Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
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