terça-feira, 29 de outubro de 2024

FAZER AMOR - Prof. Renato Dias Martino


Esse é um tema extremamente polêmico! Porque nós aprendemos desde pequenininho que praticar o sexo com o outro é fazer amor. No entanto, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Desejo sexual não é amor. O desejo sexual é um desejo de se satisfazer com o corpo do outro, amor é justamente a capacidade de adiar a sua satisfação pelo outro. Uma coisa é o avesso da outra. O sexo precisa ser de comum acordo dos dois. O sexo saudável é aquele que acontece quando os dois estão disponíveis naquele momento. Esse negócio de que precisa haver sexo, tem que ter sexo, é uma conversa fiada. Não tem que ter sexo. O sexo tem que acontecer quando houver a sintonia das duas pessoas e aquilo acontecer como uma brincadeira. É muito mais um entrosamento dos dois do que é um desejo. O sujeito que é maduro emocionalmente é capaz de adiar a sua vontade sexual, porque ele percebe que o outro não está disponível. Ele é capaz de renunciar ao seu desejo sexual por conta do outro. Porque, desejo sexual é uma coisa, vontade de sexo é outra. Desejo sexual diz respeito a alguma coisa que vai para além da satisfação sexual. Você tem vontade se e isso é fisiológico e você precisa do sexo para suprir esta vontade, agora, o desejo sexual é outra coisa. O desejo sexual diz respeito a um biotipo específico, o desejo sexual diz respeito a “eu desejo ser desejada pelo meu companheiro”. Isso não tem nada a ver com satisfação sexual, dentro do âmbito da necessidade.


segunda-feira, 21 de outubro de 2024

DA INVEJA A GRATIDÃO - Prof. Renato Dias Martino



Em 1957 a Melanie Klein, publica INVEJA E GRATIDÃO e ela planta uma sementinha para gente refletir sobre a relação da inveja e do sentimento de gratidão. Do sentimento de inveja e do sentimento de gratidão. 

GRATIDÃO

Quando a gente fala de gratidão, nós estamos falando de um sentimento. Gratidão é um sentimento e ninguém escolhe o que sentir. Então gratidão é um desdobramento de uma experiência que vai levar sujeito à maturidade emocional e não uma escolha. Então, você não escolhe ser grato você vive experiências que vão te levar a sentir gratidão. Isso é muito importante. Muitas vezes, a gente vê nas redes sociais: “Ah! você tem que ser grato!” Não! Você não tem que ser grato! Você vai ser grato na medida em que você conseguir viver experiências junto com o outro, que te leve a desenvolver o sentimento de gratidão. Eu preciso do outro para que eu possa sentir gratidão. Ninguém desenvolve uma possibilidade de sentir gratidão sem ter experiências afetivas com o outro.

INVEJA

 A inveja é um sentimento que vai espontaneamente brotar no sujeito. Também, ninguém escolhe sentir inveja, ou deixar de sentir inveja. Na terra infância, a Melanie Klein vai dizer que quando o bebê começa a perceber que a mãe traz para ele uma série de elementos que ele próprio, sozinho não consegue, ele passa sentir inveja da mãe. Ele sente inveja da mãe. O que a gente está chamando de inveja aqui? Inveja é admiração sem capacidade. Então, o bebê passa a admirar a mãe, mas ele não tem capacidade daquilo, logo, configura-se em inveja. Esta inveja, ela vai seguir alguns caminhos. Alguns nocivos e um saudável. Dois caminhos nocivos que a gente poderia enumerar aqui. Voracidade, o bebê querer devorar a mãe, incorporar a mãe para conseguir tudo aquilo que ele inveja e o outro é depreciação. Ah! Isso aí não presta mesmo! Para aplacar a inveja. Os dois formatos são nocivos e uma via saudável. Qual é a via saudável? Quando a mãe é generosa. Quando a mãe é capaz de suprir suficientemente bem as necessidades do bebê, daquilo que ele não dá conta sozinho e que ela pode fazer. Ele passa a desenvolver a gratidão por essa mãe. Ele passa a ser grato porque ela dá para ele aquilo que sozinho ele não consegue fazer. Isso não só na vida do bebê. Um adulto, por exemplo, dentro da análise a gente vê isso. Muitas vezes, o paciente, ele sente inveja do analista, porque ele se sente tão bem perto do analista e longe do analista ele não consegue fazer isso sozinho. Então, ele passa a sentir inveja do poder que o analista tem em relação a ele. Dele se sentir bem, dele se sentir protegido, dele se sentir seguro, mas quando ele está longe ele se sente inseguro, ele sente desprotegido. Ele fala assim com ele mesmo: “Puxa vida, mas o que esse cara tem que eu não consigo fazer sozinho?” Ou ele começa a ser atacado pelo próprio superego dele, dizendo assim: “Está vendo, óh? Você é um banana, você não consegue fazer isso aí sozinho. Você é dependente do teu analista.” Então, ele passa a ter inveja do analista nas capacidades, no poder que o analista tem em relação ao seu funcionamento emocional e afetivo. Só que, aos pouquinhos se ele for capaz de tolerar esta inveja, ele vai devagarinho, aprender o funcionamento que a dupla tem e internalizar isso para que ele possa fazer consigo mesmo. E quando ele consegue internalizar este modelo, quando ele consegue acolher a si mesmo, assim como o analista o acolhe, ele passa a ser grato ao analista. Então, o que um dia foi inveja, passou pelo acolhimento, se transformou em gratidão. 

PRÀTICA

Com alguns anos de psicanálise, né? A gente experimenta algumas vezes, até o paciente que é sincero o suficiente para falar: “Um dia eu senti inveja de você, mas hoje eu sou grato a isso aqui”. É uma experiência bonita. Aliás, a psicanálise é bonita. A psicanálise é bela. Não deixa de ser triste. Não deixa de ser dolorosa, mas é bela. Contemplação! O contemplar, por mais que seja doloroso, contemplar, por mais que seja doído. COM + TEMPLO. COM = junto e TEMPLO = local sagrado. Um ambiente sagrado, por mais que não seja um ambiente físico, hoje a gente tem a psicanálise online aí, se forma um ambiente emocional-afetivo sagrado, por isso uma contemplação.



domingo, 13 de outubro de 2024

CONJUNÇÃO E GESTAÇÃO - Prof. Renato Dias Martino


DESAPEGO E IGNORÂNCIA

O desapego é a pedra fundamental do desenvolvimento saudável da mente. Uma mente se desenvolve através da capacidade de tolerar o desconforto do desapego e a compreensão é um elemento que está ligado diretamente neste desenvolvimento. O sujeito, ele se apega a compreensão por não tolerar a sua ignorância. A vontade dele faz com que ele se apegue no saber, na compreensão por não estar preparado para tolerar o desconforto de se perceber ignorante. Ignorante da realidade, ignorante do fluxo constante da realidade.

MODELO MÃE BEBÊ 

A psicanálise se utiliza dessa relação mãe e bebê, sobretudo depois da introdução das ideias do Winnicott, como um modelo de toda a elaboração que vai acontecer com outros objetos, com outros elementos do mundo, mas essa relação mãe e bebê é uma relação simbólica e uma relação icônica que transcende essa própria relação. Claro! É importante a gente lembrar que, quando a gente fala da relação mãe e bebê, nós estamos falando, implicitamente da relação mãe e pai. O pai precisa estar presente, desempenhando a sua função paterna para que a relação mãe/bebê seja bem-sucedida. Quando a gente está falando da relação mãe/bebê nós estamos falando, inclusive da relação eu e eu mesmo. Eu sendo a minha mãe. Eu sendo a minha mãe e tendo a minha função paterna em relação a mãe que eu sou de mim mesmo.

RE-CONHECER

Quando a gente fala relação mãe e bebê na psicanálise, implicitamente nós estamos falando, por exemplo da relação analista paciente. É só um exemplo, mas quando a gente fala que é prejudicial para o bebê que a mãe acredite conhecê-lo e que se contente com aquilo que sabe sobre ele, nós estamos falando do sujeito em relação ao mundo. Todas as vezes que você acredita que sabe alguma coisa e que você se contenta sobre isso que você conhece sobre esta coisa, isso te impede de continuar aprendendo. Porque, aquele que acredita que já sabe está obstruído de aprender e quando a gente traz isso no âmbito da mãe e do bebê, isso toma uma proporção extremamente grave, porque a mãe precisa estar aberta o tempo todo a reconhecer o seu bebê a conhecer o seu bebê novamente. Um analista precisa estar aberto a reconhecer o seu paciente. Conhecer o seu paciente novamente a cada encontro.

TRANSFORMAÇÃO

É prejudicial para o sujeito que ele acredite conhecer as coisas do mundo, que ele acredite saber sobre as coisas do mundo e mais, que ele se conforme com isso que ele acredite saber. Assim como a mãe e o seu bebê. A mãe precisa propiciar um ambiente para que o bebê possa se transformar nos seu ritmo. Quando ela acredita que conhece esse bebê, ela pode ficar com estas características do já conhecido e obstruir o desenvolvimento deste bebê. Isso tem a ver também com a experiência do analista e do paciente. Estar abertos para aquilo que é a transformação no paciente.

TOLERÂNCIA 

Saúde mental carece de tolerância. Todo desenvolvimento saudável da mente tem como pressuposto a tolerância. É necessário ter tolerância para se desenvolver emocionalmente e afetivamente. E esse desenvolvimento vai trazer mais tolerância como um desdobramento do processo.

INVARIÂNCIA 

A ideia de invariância, ela é uma ideia extremamente delicada. Por quê? Porque nada é completamente invariante, nada neste plano é completamente invariante, as coisas que podem ser invariantes estão num plano transcendental ao plano material. Por exemplo a divindade é invariante a essência é invariante, a partícula que configura os elementos do mundo pode ser chamada de invariante. Todos nós somos feitos de átomos. O átomo talvez possa ser chamado, talvez possa ser chamado de invariante em cada um de nós. Não só em cada um de nós, mas uma xícara é feita de átomo e o ser humano também é feito de átomos. Esta partícula pode ser chamada de invariante, mas é extremamente delicado tratar da ideia de invariância, porque a invariância é relativa. Já a transformação, não! A transformação é a realidade. Tudo está em transformação. Tudo está se reconfigurando o tempo todo. Cada coisa no seu tempo. Cada coisa dentro da perspectiva particular daquela configuração, mas tudo está em transformação. Nós vamos falar aqui da invariância temporária do colo da mãe em relação ao bebê. Então, o colo da mãe precisa ser invariante para acolher o bebê que é transformação.

AMPARO

A transformação saudável vai ocorrer na medida que possa contar com um acolhimento, um amparo invariante. O paciente está procurando o analista porque está sofrendo de transformação e ele precisa encontrar neste analista uma invariância para que ele possa se apoiar e viver a transformação necessária para o seu desenvolvimento. Você coloca, por exemplo, uma sementinha de qualquer planta num vaso, essa terra que está no vaso, este substrato que está no vaso, precisa estar invariante para que essa sementinha possa germinar e brotar. Se você ficar mexendo essa terra o tempo todo, ela não vai conseguir firmar as raízes para que ela possa crescer, para que possa haver uma transformação saudável. Essa transformação está subordinada ao amparo, ou ao acolhimento invariante. Esta invariância precisa estar também atenta à transformação, porque ela precisa ceder a essa transformação quando essa transformação já estiver num certo ponto de autonomia. Então, a terra que estava ali invariante para que a semente pudesse brotar, passa precisar ceder para que as raízes possam penetrar cada vez mais fundo nessa terra. Porque se ela se mantiver invariante, a raiz não consegue penetrar. Assim também o colo da mãe precisa trazer esta transformação conforme a transformação do bebê.

INVARIÂNCIA DINÂMICA 

Precisa ser uma invariância dinâmica. Então, a terra precisa ser invariante para que a raiz da planta possa se apegar, possa se expandir, mas não invariante ao ponto de obstruir a penetração desta raiz. Porque se ela for extremamente rígida, a raiz não consegue penetrar e não consegue se expandir. Então, esta invariância também é relativa, ela não pode ser efetiva e engessada.

BEBÊ TRANSFORMAÇÃO 

Invariante é aquilo que não muda, que não se transforma. O colo da mãe precisa ser invariante para acolher o bebê que é transformação, que está se transformando o tempo todo e quanto mais esse colo for invariante, mais o bebê vai ter a chance de se transformar. No entanto, esta invariância do colo da mãe precisa estar atenta para o desenvolvimento do bebê. Para quê? Para que possa libertar o bebê na medida em que ele estiver transformado o bastante para ter certa autonomia. Porque esta invariância, quando ela é muito rígida, ela obstrui o desenvolvimento do bebê que é transformação.

VÍNCULOS

Quando uma parte é capaz de sofrer a transformação, a outra parte também é beneficiada. Tudo que diz respeito ao vínculo, quando é saudável para uma parte, também é saudável para outra e vice versa. Quando algo é nocivo para uma parte também é nociva para outra parte dentro do vínculo. O Bion coloca lá em ATENÇÃO E INTERPRETAÇÃO, 1970, ele propõe três tipos de vínculos e ele se apoia na biologia para trazer esses três tipos. Então, ele vai falar do vínculo comensal, ele vai falar do vínculo simbiótico e ele vai falar do vínculo parasítico. E aí, ele traz uma ideia muito interessante que vai aí entrar em conflito com a ideia vigente de simbiose. Nós vamos chegar lá. Então, vamos falar do vínculo comensal. O vínculo comensal, ele diz assim, que é um vínculo onde duas partes se unem, onde uma não beneficia a outra, mas também não atrapalha a outra. Convivem harmonicamente, sem que uma atrapalhe a outra, ou também que uma possa trazer benefício para a outra. Vamos chamar esse vínculo de comensal e isso acontece na natureza. O vínculo simbiótico, dentro da natureza é quando uma vida se une a outra vida para que essas duas vidas consigam expandir. Cada uma beneficiando a outra e beneficiando também o vínculo. Então, a mãe tem um vínculo simbiótico com o bebê. O bebê se desenvolve, a mãe se desenvolve e o vínculo dos dois se desenvolve. E ele vai também falar do vínculo parasítico. O vínculo parasítico é quando um se junta com o outro causando um mal para o outro, um mal para si mesmo e o mal para o próprio vínculo.

SIM-BIOSE 

Vínculo simbiótico, onde uma vida se junta com outra vida para que as duas possam crescer e se desenvolver e com isso também propiciar o desenvolvimento do vínculo. Quando a mãe cuida do bebê, quando a mãe é suficientemente boa é dedicada ao bebê, ela propicia o crescimento do bebê o desenvolvimento do bebê e ela também se desenvolve nessa experiência. Não é só o bebê que está se desenvolvendo, ela não é simplesmente um recipiente como um vaso que vai ali, receber o bebê para que o bebê se desenvolva, mas ela é um continente ativo e dinâmico que também está aprendendo com esta experiência e o primeiro aprendizado é a humildade para perceber e reconhecer a sua ignorância frente a esta criatura da qual ela está cuidando.

CONJUNÇÃO CONSTANTE 

O Bion traz a ideia de continente contido no APRENDER COM A EXPERIÊNCIA, mas depois ele retoma essa ideia de uma maneira muito interessante lá no ELEMENTOS DE PSICANÁLISE, onde ele vai eleger a conjunção constante continente contido como o primeiro elemento de psicanálise. Então, o que é conjunção constante continente contido? É onde uma parte está junto da outra, ora uma sendo continente, ora outra sendo continente, ora uma sendo contido, ora outra sendo contido. Um bom exemplo disso é o bebê no colo da mãe. O bebê está contido no colo da mãe que é o continente, mas quando ele começa a mamar o seio da mãe, a boca dele passa a ser um continente e o seio da mãe o contido. Um outro exemplo disso, o analista o analista precisa ser o continente para receber o conteúdo, o contido do paciente, mas ora trabalhado, este conteúdo devolvido para o paciente, o paciente precisa ser capaz de ser o continente para receber este contido. Isso a gente vai chamar de conjunção constante continente contido.

CONSTÂNCIA

Para que haja uma transformação é necessário que haja constância. Constância sugere invariância. Se é constante, não está variando, não pode ser transformação, ou pelo menos dentro de uma boa proporção não pode se transformar. Para que o bebê possa se transformar ou possa viver o processo do seu desenvolvimento ele precisa contar com uma mãe que seja proporcionalmente invariante ela precisa proporcionar um ambiente de constância de invariância até que o bebê possa se desenvolver

GESTAR

O próprio Bion se utiliza da do símbolo feminino como continente e o símbolo masculino como contido, sugerindo aí, a penetração mesmo, do órgão genital masculino no órgão feminino. A cópula em si. Então, esta penetração é uma relação continente contido e essa relação continente contido é tão simbólica que é justamente o que vai gerar o novo gerar, o bebê. Dentro da mente também podemos usar esse mesmo modelo, onde uma ideia penetra um sujeito que vai gestar aquela ideia e gerar uma nova ideia. Não mais aquela ideia anterior, mas uma ideia agora que une as duas partes. Então, o bebê não é só da mãe, o bebê é uma união do pai e da mãe.



sexta-feira, 4 de outubro de 2024

DO AUTOEROTISMO AO AMOR PELO OUTRO - Prof. Renato Dias Martino


AUTOEROTISMO

Hoje nós temos aí, pessoas com um dom extremamente elevado de diagnosticar as pessoas, de apontar os dedos e trazer com precisão inúmeros dados, mas nós psicanalistas, precisamos ser humildes o suficiente para admitir que a gente não sabe nada e que a gente precisa viver essas experiências junto com o paciente. A questão é o sujeito que só consegue se satisfazer através da masturbação. Então, a gente está falando aí, da impossibilidade de ter passado do autoerotismo para o narcisismo primário. O que é o autoerotismo? É quando o sujeito se satisfaz consigo mesmo, por mais que seja através do corpo do outro, mas ele ainda tem uma autossatisfação, ele não consegue admitir o outro. Ele não inclui o outro. Então, ele não conseguiu fazer essa transição do autoerotismo para o objeto externo, para o outro. Então, ele ainda ficou fixado nisso.

NARCISISMO PRIMÁRIO

Como se dá a passagem do autoerotismo para o narcisismo primário? Então, Freud vai colocar em 1914, SOBRE O NARCISISMO: UMA INTRODUÇÃO, que, para que possa haver o narcisismo primário, precisa ter havido uma ação a mais. Qual é essa ação a mais? É a apresentação do objeto que é a mãe. A mãe precisa entrar na relação, porque se a mãe não entra na relação ele fica preso no autoerotismo. Para a mãe se apresentar e para que o sujeito possa reconhecer esta mãe, ela precisa chegar de mansinho. Aí, vamos resgatar o Winnicott: ela, primeiro, precisa ter sido o ambiente. Quando ela é um ambiente, o bebê vive o autoerotismo, porque ela não é outra pessoa. Então, ele desenvolve, ele vive a experiência do autoerotismo até o ponto que isso possa se desenvolver e ele passe a ser capaz de reconhecer o outro. Este outro passa a ser um espelho para ele. Quando ele passa a ser um espelho para ele, ele começa a viver o narcisismo primário. Então, agora ele admite a entrada do outro, mas um outro que vive exclusivamente para ele. Quando ele não tem este outro que vive exclusivamente para ele, ele fica fixado no autoerotismo como se não existisse qualquer outra pessoa. Porque essa outra pessoa não foi boa o suficiente para que ele pudesse abrir mão daquela configuração autoerótica para se abrir para o outro.

FUNÇÕES

Quando eu falo aqui da função materna, eu estou falando implicitamente da função paterna. Não há como exercer a função materna de maneira suficientemente boa, ou de maneira bem-sucedida, sem a presença atuante da função paterna não tem como.

INTENSO OU DURÁVEL 

Amor intenso não existe! Amor intenso é paixão e na paixão o elemento fundamental é o desejo. Na paixão eu desejo o outro, no amor eu me dedico ao outro. E a dedicação não é intensa, ela é constante. O amor é constância, a paixão é intensidade. Então, quando a gente está falando de um amor saudável, de um amor verdadeiro, a gente está falando de constância, de continuidade. Quando a gente fala de intensidade, nós estamos falando de paixão. Na paixão o sujeito elege o outro como um objeto de desejo e quando ele percebe que o outro não corresponde ao seu desejo, ele já não quer mais o outro. 

GOSTAR OU AMAR

Nós temos a ideia de que amor é um sentimento, nós temos a ideia de que se sente amor. Eu sinto amor! Não! Eu não sinto amor. Amor não é um sentimento, amor é uma capacidade. Nós tendemos a colocar o amor no super relativo do gostar. Eu gosto tanto que eu amo. Não! Amor é independente de gostar. Amor é dedicação, amor é doação. Gostar é para coisas, amar é para pessoas. Quando a gente ama o outro é quando a gente está aberto a se dedicar ao outro. Por quê? Porque a gente está amando a gente mesmo, porque a gente é capaz de amar a gente mesmo, a gente estende esse amor ao outro. E amar a nós mesmos independente de gostar de nós mesmos. Eu posso não estar gostando de mim, mas eu me amo, eu me dedico a mim mesmo. Isso porque aquele que cuidou de mim, aquela que fez a função materna e aquele que fez a função paterna me amava independente de gostar de mim. Uma mãe não gosta do bebê o tempo todo. Bebê é muito difícil de cuidar e eu não posso esperar que eu goste desse bebê para amá-lo. Gostar é quando o outro me traz um benefício, amar é quando eu me dedico ao outro. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.


DIFERENCIAÇÃO 

A mãe se separou do pai e o menininho de 11 anos, um dia chegou para mãe e falou assim: “Mãe, olha, eu te amo muito, mas o papai é muito mais legal que você”. Na avaliação da criança, o pai é mais legal. Agora, quando a criança não é capaz de amar ainda, porque ela ainda não tem esta capacidade. Uma criança não ama. Crianças não amam! Bebê não ama! Eu não posso exigir de uma criança que ela ame, porque ela ainda não é capaz disso. Ela precisa ser amada, muito amada, muito bem-amada, para que ela possa desenvolver isso. Então, não posso exigir isso da criança. Então, enquanto ela não se torna capaz de amar ela também não é capaz de discernir o que está vindo do outro, se é amor, ou qualquer outra coisa. Mas, a ainda assim, a dedicação é amor e quando ela aprender a amar através dessa dedicação, que hoje ela não consegue reconhecer como amor, ela vai perceber e vai avaliar quem realmente ama. Talvez a criança não seja capaz de diferenciar quem gosta dela e quem a ama, mas isso aí é temporário, é até que ela possa aprender a amar. Aprender a amar através do quê? Através da dedicação que tiveram com ela e não através das pessoas que gostam dela. Porque as pessoas que gostam dela, gostam porque ela pode trazer um benefício. Porque ela é bonitinha, porque ela fala legalzinho, porque ela sabe fazer continha, porque ela faz desenho bonito, isso é gostar, mas isso daí só alimenta um falso eu, porque você vai ficar preso naquilo que você tem que fazer para que o outro possa gostar de você. O amor não! O amor é dedicação. As pessoas que se dedicaram a mim, alimentaram em mim a minha auto-dedicação e hoje eu sou capaz de dedicar a mim mesmo e estender essa dedicação ao outro. Isso é amor! Gostar é outra coisa. O amor se manifesta quando eu não espero nada do outro. Enquanto eu estiver esperando alguma coisa do outro, não é amor. Então, o amor se manifesta quando o sujeito é idoso e quando o sujeito é criança. Por quê? Porque quando ele é criança, ele não pode trazer benefício nenhum para o outro e quando ele é idoso, tanto quanto. Então, a criança pode não estar sendo capaz de reconhecer, ou diferenciar, ou avaliar o que é amor e o que é gostar, mas mesmo que ela não esteja sendo capaz de diferenciar, está acontecendo a nutrição e ela está se alimentando disso e se nutrindo disso.

DEPRESSÃO PÓS 

Depressão é um movimento. O movimento para dentro, para baixo. A depressão pode tanto ser patológica, quanto ser saudável. Todas as duas são desconfortáveis. Então, depressão pós-parto, ela vai acontecer, em alguma medida, em todos os partos, em todos os pós-partos, todo filho que nasce vai gerar na mãe uma certa depressão. Todo sujeito que entra na minha vida, após a entrada desse sujeito na minha vida, vai gerar uma depressão. Por quê? Porque esta entrada do outro vai, de alguma forma sacrificar uma parte do meu narcisismo. Então, o bebê que nasce vai, de alguma forma, suprimir a vida da mãe em alguma medida. A mãe, agora, vai ter que viver para aquela criatura e dizer que você vai lidar com isso de uma maneira: Ah está tudo bem! Não! Não vai lidar com isso, “tudo bem”. Umas estão mais preparadas para isso, outras menos, mas de alguma forma, você vai sentir isso. Ou seja, você, em algum momento, não vai gostar que aquela criança esteja ali, mas você vai amá-la, da mesma forma, mesmo não gostando que ela esteja ali, porque amar é dedicação.

EDUCAR

Você sabe qual que é a semântica da palavra educar? “E” quer dizer fora e “DUCERE” quer dizer colocar. Educar é colocar para fora. Educar é um fator da função paterna, a mãe não educa é o pai que vai preparar para fora. É a função paterna que prepara a criança para que ela possa viver no mundo externo. A mãe não! Quando não tem a função paterna, a mãe tem que carregar esse duro fardo de educar e aí, ela tem que se destituir da sua sensibilidade que é a sua maior virtude para fazer isso.

NÃO DE PAI 

Para o pai, falar um não é uma coisa, para a mãe falar um não é outra. Custa muito para uma mãe falar não. Para o pai é corriqueiro. Então, numa família bem estruturada, o filho pede alguma coisa para mãe e a mãe fala assim: “Vai pedir pro seu pai”. Por quê? Porque para ela custa falar não, mas para ele é simples. “O pai... Não! Não! Não! Não! Não! Já falei que não.” Acabou a conversa! O pai dedicado é o pai que ama, é o pai que se dedica ao filho, é o pai que se dedica à criança. Não é simplesmente aquele que fala não. Não é simplesmente aquele que faz reconhecer o limite, mas é aquele que se dedica. E este pai que é capaz de amar também vai dizer o não e este não é mais um fator da função de dedicação. A dedicação dele inclui o não. Então, o pai que ama não precisa sequer justificar o não, porque o não é uma expressão do amor, da dedicação. Quando ele fala esse não com amor, este não é internalizado como autocuidado e esta criança vai aprendendo a dizer não para ela mesma como um autocuidado e não como uma repressão, como uma castração, ou como qualquer coisa nesse sentido, mas como uma capacidade de respeitar a si mesmo. E a partir daí, ele vai se posicionando e tomando atitudes que incluem esta configuração de limite e amor.

MODELO

O nosso desenvolvimento emocional trabalha através de modelos. Eu preciso de modelos. Modelos que possam me trazer limite e amor. Eu preciso ser amado com limite para que eu possa ver no outro um modelo que eu possa seguir, mas hoje nós estamos extremamente carentes de modelos. Modelos aonde? Dentro de casa. O pai precisa ser um modelo para o menino se tornar um homem. O pai precisa ser um modelo para que a menina possa avaliar qual é o homem que ela vai se envolver. A mãe precisa ser um modelo para menina se tornar uma mulher. A mãe precisa ser um modelo para que o menino possa avaliar a mulher que ele vá se envolver. Mas nós não temos mais isso. O pai não está mais presente. A mãe também não está mais presente. E aí, ou ele desiste de procurar modelos, ou ele busca o modelo externo, o modelo de um ídolo que sabe lá onde é que está. Muitas vezes político, muitas vezes dirigente religioso... Sei lá onde... Um cantor de funk, um artista, ele busca esse modelo onde este modelo não é adequado para que ele possa estruturar a sua própria personalidade.




domingo, 29 de setembro de 2024

DESAPEGO E VONTADE - Prof. Renato Dias Martino


DESAPEGO


Toda a configuração da prática do desapego, e quando eu falo prática do desapego aqui, nós estamos falando diretamente do intuito da própria psicanálise, porque a psicanálise propõe essa ideia de se desapegar. São inúmeras formas de se dizer isso, uma delas por exemplo está proposta lá em 1917 no LUTO E MELANCOLIA, que é ser capaz de viver o processo do luto e aqui nós estamos chamando de desapego. Então, a proposta do desapego coincide com a proposta psicanalítica. Esta proposta tem um desafio que é a vontade. A vontade que, na medida em que não é satisfeita no seu tempo, na medida que não é cumprida, suprida no seu tempo adequado, vai se desdobrar em desejo. Um sujeito que está saudável, que está funcionando de maneira saudável é aquele que é capaz de se desapegar, é aquele que é capaz de renunciar dos seus desejos e capaz de adiar suas vontades. Isso se configura num fluxo do desenvolvimento emocional e afetivo.


VONTADE


Quando a gente fala de vontade, a gente está falando daquilo que ao mesmo tempo que é a manifestação da vida, também é aquilo que pode obstruir o próprio fluxo da vida. Muitas vezes, a manifestação da vontade atenta contra a própria vida do sujeito. Ele, muitas vezes, está com tanta vontade que ele, por si só, pode se colocar em uma cilada. Um Bom exemplo disso é quando a molecadinha, lá no sítio, arma uma arapuca para pegar passarinho. A arapuca está cheia de milho para que o passarinho possa se alimentar e é justamente a vontade de viver que leva o passarinho buscar o milho. E esta vontade de viver faz com que ele caia na arapuca. Então, a vontade de viver é também aquilo que leva sujeito, muitas vezes, para a própria morte.


DESEJO


Essa ideia do desejo, ela é extremamente polêmica, principalmente dentro de outras escolas aí, por exemplo, dentro da escola lacaniana. Vou ser bem sincero, tenho um conhecimento extremamente limitado das propostas do Lacan, mas me parece que ele trata, os lacanianos tratam da ideia de desejo diferente da forma como nós tratamos aqui. Nós tratamos aqui o desejo como algo que não é necessário, mas que ainda assim, o sujeito quer. Então, quanto mais o sujeito for capaz de se desapegar, renunciar desse desejo, mais ele vai estar de acordo com a realidade, que está configurada naquilo que é necessário.

NECESSÁRIO


A vontade é genuinamente do sujeito. O sujeito tem vontade de alguma coisa e isso diz respeito à sua necessidade básica. O desejo diz respeito à interferência, ou a contaminação do que o outro quer. Então, vontade é básica, a vontade se manifesta através do corpo, por conta de necessidades básicas. E aí, o Schopenhauer nos orienta muito bem, lá no MUNDO COMO VONTADE DE REPRESENTAÇÃO. O desejo já é algo que se elegeu um objeto substitutivo para tentar suprir algo que não foi adequadamente suprido no nível da vontade.


REPRIMIDO


Existe um instinto e o instinto está ali, assim como o Freud nos orientou, está ali na barreira entre o somático e o psíquico, entre o somático e o psíquico, entre a carne e a mente. De início é uma manifestação orgânica que nós vamos chamar de instinto. Então, o instinto está ali naquela barreira, o instinto se manifesta pelo corpo, mas já não é mais do corpo. O corpo é o soma, o corpo são manifestações orgânicas. O instinto já transcende o orgânico. Primeiro o instinto. O instinto está ali, na barreira do somático e do psíquico. Este instinto vai se manifestar através da pulsão. A pulsão é algo que acontece por conta da demanda instintiva, ou instintual, melhor dizendo. Esta pulsão vai gerar o que a gente vai chamar de impulso. Então, o impulso é a ação da pulsão. Este impulso vai ser a ação em direção a um possível objeto que possa vir suprir a demanda do instinto. Quando essa satisfação não acontece o impulso retorna. E aí, a gente vai chamar de reprimido. Por quê? Porque não houve a satisfação, não houve o suprimento da demanda do instinto. Retorna este impulso. E aí, a gente vai chamar de impulso reprimido. Este impulso reprimido agora não vai mais se satisfazer com o objeto original, ele vai eleger um outro objeto para satisfazê-lo. Este outro objeto é um objeto de desejo, não mais um objeto de vontade, que seria a demanda do instinto.


NASCE UM DESEJO


Para que se desenvolva o desejo é necessário ter havido a repressão. Reprimiu-se a vontade e agora a vontade já não se satisfaz mais com o objeto original, mas agora, precisa de algo a mais, para ser supostamente satisfeito. Porque não vai ser satisfeito. Desejo nunca se satisfaz, o que se satisfaz é a vontade. O sujeito que deseja, ele quer sempre mais. A vontade se satisfaz até que haja novamente a sua demanda.


AMBIENTE 


Quando o Winnicott propõe a mãe ambiente, ele está propondo a mãe, não como outro, mas como o ambiente. Ela vai dar conta da demanda das necessidades. Ela vai dar conta da demanda da vontade e se ela der conta disso, tanto menor vai ser a geração de desejos. Quando ela não é capaz de suprir essas necessidades, quando ela não está sendo suficientemente boa, ele começa a desenvolver desejos, porque a vontade não foi satisfeita. Então ele começa a vincular aquela vontade à relação com o outro que já não é mais ambiente, mas é realmente um outro. Então ele precisa fazer alguma coisa para que esse outro venha suprir isso. E aí, já não é mais vontade é desejo.


PULSÃO DE VIDA 


Quando Freud propõe pulsão de vida, ele está ali, se baseando na ideia de vontade do Schopenhauer, falando sobre a manifestação do instinto, daquilo que é mais primitivo no ser humano. Então, não tem a ver com desejo. Quando isso não é satisfeito, começa a se desenvolver o desejo que já não é mais básico, mas que já tem uma contaminação de algo a mais do que a satisfação da necessidade básica.


VORACIDADE


A voracidade é uma expressão do desejo. Quando a criança começa desenvolver voracidade é porque ela não foi satisfeita, ou não foi suprida no tempo adequado, aí ela começa a ter vontade para além da conta. E aí, se torna desejo. O Winnicott vai falar assim, que a criança alucina o seio e a mãe encaixa o seio real na alucinação do bebê. Quando essa alucinação que o bebê tem do seio não é suprida no seu tempo, esta alucinação cresce. A vontade não foi satisfeita e começa a crescer, então aquela vontade que gerou uma alucinação x, agora é x elevada a tanto. Aquele seio que vai se encaixar nessa alucinação já não vai mais suprir, porque essa alucinação já virou um desejo.


SUJEITO DESEJANTE


Então a gente vai partir da ideia do objeto. O que é um objeto? Ser um objeto é ser alguma coisa que alguém deseja. Objeto é algo que é desejado. O bebê precisa ser um objeto desejado. Ele precisa ser alguma coisa que o outro deseja. Um objeto precisa ser desejado para que ele possa se mover. Um vaso é um objeto. Se alguém não desejar esse vaso, ele vai ficar esquecido lá. Então, eu preciso desejar o vaso para que o vaso saia do lugar. Eu desejo o vaso, eu pego o vaso e levo pra minha casa. Quando o sujeito vai se desenvolvendo emocionalmente, ele deixa o lugar de objeto desejado para sujeito desejante ele passa a desejar. A maioria das escolas psicanalíticas acabam a história aí. O sujeito é um sujeito desejante, está ótimo! Não! Não está ótimo. Agora ele precisa se qualificar para ser capaz de renunciar do seu desejo. Aí sim, ele está aberto. Aí sim, ele desobstrui o caminho do acordo com a realidade. Porque a realidade existe independente do seu desejo e se você continuar sendo um sujeito desejante, você não vai conseguir entrar num acordo com a realidade, que existe independente do seu desejo.


RENÚNCIA


No senso comum a gente vincula a ideia de liberdade à possibilidade de satisfazer os desejos, mas na realidade, a verdadeira liberdade é ser capaz de renunciar dos desejos, de não satisfazer os desejos. Ser capaz de tolerar que o seu desejo não vai ser satisfeito. Para quê? Para que você possa investir a sua libido na necessidade básica, na vontade, naquilo que realmente vai te trazer enriquecimento para o fluxo da sua vida. Então, a liberdade não está em satisfazer desejos, mas está em ser capaz de investir naquilo que é necessário.


ESCOLHA


Se a gente estiver falando de vontade, não tem escolha, o caminho é um só. Você pode até adiar, mas não tem como escolher você não tem como escolher se alimentar ou não, mas você pode adiar a alimentação. O desejo tem escolha. Você pode escolher ou não. Eu posso escolher por exemplo até não suprir a minha vontade e tentar realizar o meu desejo. Vou ter um prejuízo com isso, mas o livre arbítrio está ali. Para que eu possa, talvez reconhecer que, quando eu estou satisfazendo o meu desejo, eu tenho prejuízo da minha necessidade básica. E aí, eu aprendo com a experiência e percebo que o caminho é um só não são dois.


QUERER


A semântica da palavra vontade, ela diz respeito a querer. Querer está ligado tanto à vontade, quanto ao desejo. Quem deseja quer alguma coisa e quem tem vontade também quer alguma coisa. Querer é a base, mas esse querer é de desejar ou de ter vontade. Se for de ter vontade é necessidade básica, se for de desejar é alguma coisa que não é necessário.


TOLERAR


A vontade, ou o desejo geram ansiedade. Ansiedade é ânsia, busca. Quando eu sou frustrado nisso que eu fui buscar, eu sinto angústia. Angústia diz respeito à frustração. Quando eu estou falando de adiamento da vontade, ou de renúncia do desejo, nós estamos falando de ser capaz de tolerar a frustração, de ser capaz de tolerar a angústia gerada por não conseguir aquilo que se buscava. Eu preciso me tornar capaz de renunciar, ou adiar. Renunciar se for desejo e adiar se for vontade. Se eu conseguir isso, eu vou conter essa ansiedade e aí, eu inclusive, posso até direcionar para alguma outra coisa mais adequada, ou suprir essa vontade num momento mais adequado.


TROFÉU 


O sujeito, quando está com sobrepeso, quando ele está mais gordo do que o saudável, isso quer dizer que está havendo uma obstrução na vontade de viver. Quando você está pleno na sua vontade de viver, o seu corpo está adequado ao fluxo da sua vida. Então, emagrecer dentro da vontade de viver é se adequar ao peso que vai te trazer a possibilidade do fluxo da sua vida. Agora, muitas vezes, o sujeito tem uma configuração mais fofinha, o sujeito tem uma configuração natural mais gordinha, por conta de inúmeros fatores hereditários, inúmero... isso não é, de maneira alguma, nocivo. Mas, o que acontece? Existe um padrão social de beleza e quando esse padrão fala mais alto, o sujeito começa a questionar a sua configuração corpórea para se adequar a este modelo. Aí já não tem a ver com vontade, aí tem a ver com desejo, aí tem a ver com o desejo de se adequar àquilo que é o desejo do outro. Então, eu preciso ser de uma forma ou de outra, para ser desejado pelo outro. Quando estou falando de uma adequação da saúde, nós estamos falando da vontade. E aí, você pode realmente adiar o emagrecimento, mas você não pode renunciar, porque senão você morre. Você vai engordando até morrer, até uma obesidade mórbida. Agora, quando você é fofinha, sempre foi desde menininha, a tua mãe é fofinha, todo mundo da tua família tem, mais ou menos esse estereótipo e você por algum motivo, por alguma experiência malsucedida, não conseguiu reconhecer a si mesmo e se contentar com o seu corpo e começa a estabelecer um ideal de corpo que a sociedade pregou, então, você está desejando ser de outra forma, então isso não é simplesmente adiar o emagrecimento, mas é renunciar a esse emagrecimento. Porque, por mais que você seja fofinha, você está saudável e muitas vezes, qualquer tipo de dieta, ou de exercício excessivo, vai fazer muito mais mal do que continuar sendo fofinha e linda como você é. Uma cilada! Porque, um sujeito que procura uma mulher com o corpo no padrão pré-estabelecido da sociedade, ele não está disposto a se aproximar de uma mulher para amá-la, mas ele quer um troféu para mostrar, para exibir a mulher. Quer se tornar bela para ser desejada pelo outro e o homem quer uma mulher bela para ser desejado pelo outro por ter essa mulher bela. Uma sociedade podre! Uma sociedade nociva, que só pega os desavisados, que só pega os estruturados, que só afeta o sujeito que não está sendo capaz de reconhecer a si mesmo, que não está de bem consigo mesmo.


TEORIA


Nós estamos aqui tentando refletir. Ninguém aqui está tentando colocar uma verdade acabada, ou saturada. Até porque, isso aqui é uma formulação nova, nós estamos formulando agora. Ah! Mas onde é que eu encontro isso, na literatura? Eu não sei! Sinto muito! Vou ficar devendo para vocês. Se não estiver fazendo sentido através da nossa reflexão, passa o vídeo, não precisa assistir. Não tem problema. Agora, se estiver fazendo o sentido, ótimo, vamos pensar juntos. É muito mais interessante que a gente possa, através das nossas experiências, refletir sobre o que a gente está chamando de instinto, sobre o que a gente tá chamando de pulsão, do que a gente tá chamando de desejo, ou de vontade, do que revisar literaturas. É muito importante que a gente possa reconhecer esse desencadeamento que vai do corpo até a alma. Não por uma especulação teórica, ou literária, mas por conta de algo que você reconhece no seu próprio funcionamento. Isso é muito mais importante do que qualquer leitura teórica, seja desde Kant, Schopenhauer, Platão, até Bion. ou qualquer outro contemporâneo.





quarta-feira, 25 de setembro de 2024

PSICODIAGNÓSTICO E TRANSFORMAÇÃO - Prof. Renato Dias Martino


TRANSFORMAÇÃO 

A gente tem a ilusão de que através da nossa intervenção que a transformação acontece. Nós é que mudamos as coisas. Não! Na melhor das hipóteses, a gente vai desobstruir o caminho para que a transformação aconteça naturalmente. Na realidade, a transformação está acontecendo o tempo todo. Somos nós que obstruímos o caminho e não percebemos que a transformação está acontecendo. A gente vai criando ilusões para manter a realidade cristalizada, como engessada, quando na realidade - e me desculpe aí o pleonasmo - a realidade está em franca transformação. Somos nós que não somos tolerantes a essas transformações. A gente deseja ser definido, mas nós somos possibilidades. Nós somos transformações constantes e não pela nossa vontade, pela vontade do todo, pela vontade da natureza, pela vontade da realidade, que vai se transformando por si só. E o trabalho psicanalítico está implicado nisso também. O trabalho psicanalítico não promove mudança, mas propicia a desobstrução para que a transformação possa acontecer e não apenas uma mudança superficial, mas uma transformação profunda. Não apenas uma mudança de comportamento, como promete outras psicoterapêuticas, mas uma transformação de funcionamento. Não é só o comportamento é o funcionamento.

DEFINIDO

Nós somos processo, não somos definidos, mas a gente aprendeu que a gente precisa se definir. Desde pequenininho as pessoas pergunto para você assim: “o que que você vai ser quando crescer?” Quando você é adolescente, você já precisa estar com isso muito seguro, porque você vai prestar o ENEN, você vai prestar o vestibular para ser isso que você falou para todos os adultos que você seria, E ai de você, se você não for isso, você vai ter que fazer um esforço hercúleo para mostrar para todo mundo que aquilo ali não era bem daquela forma.

INTEMPERES 

Hoje você não pode mais ter uma mínima intemperança no seu humor. Sabe essas coisas que a gente vive? A gente tem estudado bastante o movimento da espiral no GEPA. Sabe essa coisa que uma hora você está para baixo, outra hora você está para cima? Não pode mais! Porque, senão você é bipolar. Mas se você foi diagnosticado bipolar, agora você pode desfrutar de tudo o que um título de bipolar, do que o rótulo de bipolar pode te trazer. Por exemplo, agora eu acho isso, amanhã não acho mais, hoje eu estou triste, amanhã eu estou feliz, amanhã eu estou para cima... Agora eu posso, porque eu fui rotulado. Mas se eu não fui rotulado, eu não tenho direito disso. Todo mundo vai me olhar torto.

CONSTÂNCIA 

O sujeito que normalmente é diagnosticado como inconstante emocionalmente, na maioria das vezes é o sujeito que teve a sua estruturação da personalidade num ambiente emocional inconstante. Ele viveu num ambiente emocional que não trazia constância e hoje ele tem a configuração da personalidade inconstante. E o sujeito que reclama do outro ser inconstante é porque também não está tolerando a inconstância. Ou seja, não está sendo capaz de manter a sua constância. Para que um sujeito possa estabelecer uma certa constância no seu funcionamento emocional, ele precisa, antes de qualquer coisa, de um ambiente de constância, um ambiente que seja de paz de tranquilidade, que não ameace destempero, para que ele possa estabelecer um funcionamento saudável e constante, um ambiente saudável. A psicanálise tenta trazer isso o ambiente do setting terapêutico propõe essa constância. Por isso que é importante não ficar mudando móveis de lugar. É por isso que é importante que você, enquanto psicanalista esteja bem, sentindo um bem-estar, para receber o seu paciente, para que você possa trazer essa constância e para que ele possa perceber a sua inconstância em relação ao ambiente emocional que ele está inserido.

PSEUDOCIÊNCIA

A psicanálise carrega o título de pseudociência porque não tem comprovação científica. Eu gostaria de saber que tipo de ciência dá o poder do sujeito, através de uma entrevista de 15 minutos diagnosticá-lo como TDAH, como bipolar, como muitas vezes, esquizofrênico e não só diagnosticá-lo, mas passar a administrar medicamentos extremamente perigosos, que podem causar dependência para o resto da vida do sujeito. Isto é ciência? Isto sim é ciência? A psicanálise não?

PSICODIAGNÓSTICO

Eu tenho muito pouco conhecimento em relação aos psicodiagnósticos psiquiátricos, mas me parece que a maior parte desses psicodiagnósticos dentro da clínica psicanalítica é o que a gente chama de mecanismos de defesa. Aquilo que é um rótulo dentro do psicodiagnóstico, dentro da clínica, a gente vê como uma forma de se defender em relação a alguma outra coisa que está muito mais profunda. E tratar a defesa, só a defesa, não funciona. Você trata uma defesa, aquela defesa pode rebaixar, pode diminuir e outra defesa vai se erguer. Os transtornos alimentares, normalmente tem uma raiz muito mais profunda e dizem respeito ao vínculo que a criança estabeleceu com a alimentação. Me alimentar me trazia culpa. Cada vez que eu me alimentava e estava com a barriguinha cheia, eu me sentia culpado. Ou porque eu percebia que isso era desconfortável para minha mãe, por algum motivo eu me sentia culpado, logo, todas as vezes que eu me alimento e me sinto satisfeito eu vou ter a tendência de regurgitar, ou ainda, vou evitar me sentir satisfeito. E aí, a gente vai falar da anorexia e não da bulimia. Para não me sentir culpado, como eu me sinto. Todo psicodiagnóstico tem uma razão mais profunda. E aí, o que acontece? O sujeito acaba se medicando, essa defesa rebaixa, mas aquilo que realmente estava causando permanece latente e escondido do sujeito.