quarta-feira, 10 de junho de 2026

A ILUSÃO DA DEMOCRACIA - Prof. Renato Dias Martino

 

As melhores ideias raramente triunfam numa democracia, pois costumam ser impopulares. O que é saudável, via de regra, não é muito prazeroso — e aí surge o impasse. A massa busca satisfação imediata. Sigmund Freud deixa isso claro em sua obra Psicologia das Massas e Análise do Ego. “As massas nunca tiveram sede de verdade. Elas querem ilusões e não vivem sem elas” (Freud, 1921). Uma boa proposta para um país normalmente envolve sacrifícios imediatos em troca de benefícios futuros, como ocorre nas reformas estruturais ou em medidas ambientais drásticas. Esse modelo coincide com o da passagem do processo primário para o secundário no funcionamento mental, como propôs Freud no texto Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental. “Um prazer momentâneo, incerto quanto a seus resultados, é abandonado, mas apenas a fim de ganhar mais tarde, ao longo do novo caminho, um prazer seguro.” (Freud, 1911) Os políticos atuam em ciclos eleitorais curtos; logo, oferecer “remédio amargo” equivale a um suicídio político. Por outro lado, oferecer o “doce prazeroso” garante votos. Sendo assim, o político tende a não propor ideias que representem o princípio da realidade, mas acabam fazendo propostas que coincidam com o princípio do prazer/desprazer.

Não é preciso ir muito longe nas pesquisas para perceber que, quanto mais popular, menor costuma ser a qualidade de qualquer coisa. No âmbito estético, artístico e cultural isso fica evidente. As músicas mais ouvidas hoje são justamente as que menos carregam mensagens nobres e enriquecedoras. Notícias indicam que mais da metade das faixas no topo das paradas no Brasil reproduzem discursos misóginos ou de forte apelo à objetificação e depreciação da mulher. Engana-se quem pensa que esse fenômeno é exclusivo do Brasil.

Na gastronomia ocorre algo semelhante. Os alimentos mais consumidos no mundo são os de pior qualidade nutricional — ao ponto de alguns países terem precisado proibir certos produtos ou estampar em suas embalagens alertas como “não serve como alimento humano”. Por que nas eleições seria diferente?

Essa busca desenfreada pela satisfação imediata não é um mero desvio cultural, mas um reflexo da nossa própria constituição psíquica. Em 1930 em sua obra O Mal-Estar na Civilização, Freud propõe que a vida em sociedade exige a renúncia de impulsos. Vivemos em constante tensão porque nossas necessidades individuais raramente coincidem com as demandas do grupo. Humanos não são, por natureza, animais de grupo.

Nossa biologia e condição emocional parece ter-nos preparado para pequenos grupos familiares. “Assim como os grandes primatas, também os humanos têm a natureza de se manter numa espécie muito peculiar de grupo restrito, na sua primeira esfera familiar” (Martino, 2025). O ser humano se agrupa por conveniência ou quando se vê obrigado a isso. “Partindo do pressuposto de que o ser humano é naturalmente narcisista, isso se contrapõe à ideia de que possa trazer, de forma inata, qualquer sinal de instinto gregário” (Martino, 2025). Obrigar 200 milhões de “animais narcisistas” a concordarem num mesmo projeto de país é uma grande cilada. O ser humano não é naturalmente cooperativo, mas sim um sobrevivente dentro de uma selva de dissimulações chamada sociedade. Por isso, sistemas baseados no “bem comum” são uma grande utopia.

Tendo como verdade que o grupo natural do humano é a família, também é verdade que, na família, o regime democrático não é praticável. Vamos imaginar uma família constituída pelo pai, a mãe e três filhos ainda imaturos emocionalmente. Se fosse estabelecida a democracia nesse ambiente, as regras seriam sempre as que priorizam a satisfação prazerosa, e as regras que priorizassem as necessidades básicas, que dependesse de renúncias seriam prontamente rechaçadas. Se concordamos que a maior parte da população é formada por pessoas que não têm maturidade emocional mínima sequer para consumir produtos e conteúdos que sejam saudáveis, o modelo da democracia na família se aplica perfeitamente à sociedade.

Durante seu discurso de aceitação do Prêmio Nobel da Paz, em 11 de dezembro de 1979, Madre Teresa de Calcutá, ao ser questionada sobre o que as pessoas comuns poderiam fazer para promover a paz mundial, respondeu: “Vá para casa e ame sua família.” Numa sociedade em que as famílias parecem cada dia mais raras, essa resposta soa inquietante.

O filósofo Sócrates (470 a.C. – 399 a.C.) desaprovava veementemente a democracia. Sua perspicácia parece mais atual do que nunca. No regime democrático, o governo é entregue à persuasão e à opinião das massas — que são estúpidas —, em vez de ser confiado a alguém maduro o suficiente para exercê-lo. Ora, votar sem maturidade emocional é perigoso. Sócrates comparava a política ao pilotar de um navio. Para atravessar o mar, quem escolheria um capitão por votação popular ou sorteio, em vez de um especialista em navegação? Governar exige profundo discernimento sobre justiça e bem comum, e não apenas a habilidade de convencer a maioria.

Freud cunhou a expressão sobre as "três profissões impossíveis": educar, governar e psicanalisar, em seu texto Análise Terminável e Interminável. Ele as considerava impossíveis porque o resultado nunca é pleno, havendo sempre um "resto" que escapa ao intuito do educador, do governante ou do analista.

Ao tentar agradar ao povo, abrem-se oportunidades para os demagogos — líderes carismáticos que manipulam as massas para conquistar poder, mesmo sem capacidade real de governar. Prometem tudo aquilo que percebem como desejo da maioria para se eleger. Não é preciso ser historiador para lembrar que o próprio Sócrates foi condenado à morte por um tribunal democrático ateniense, sob a acusação de corromper a juventude com suas ideias.

 

Referências:

FREUD, Sigmund. Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental. In: FREUD, Sigmund. O caso Schreber, artigos sobre técnica e outros trabalhos (1911-1913). Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. Psicologia das Massas e Análise do Ego (1921). In: Obras Completas, Rio de Janeiro: Imago, 1976. FREUD, Sigmund. Mal-Estar na Civilização (1930). In: Obras Completas, Rio de Janeiro: Imago, 1976.

FREUD, Sigmund. Análise Terminável e Interminável (1937). In: Obras Completas, Rio de Janeiro: Imago, 1976. FREUD, Sigmund. Mal-Estar na Civilização (1930). In: Obras Completas, Rio de Janeiro: Imago, 1976.

MARTINO, Renato Dias. Esboço de expansão: escolhas, vontade e desejo. Rio de Janeiro: Paula Editorações, 2025.

PLATÃO. A República. Tradução de Anna Lia Amaral de Almeida Prado. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

 






Prof. Renato Dias Martino












Inscreva-se no canal: https://www.youtube.com/user/viscondeverde/videos


 

Nenhum comentário: