segunda-feira, 22 de junho de 2026

BAJULAÇÃO - Prof. Renato Dias Martino

 


A dificuldade de acreditar em si mesmo pode se desdobrar de inúmeras formas. Quando o sujeito não se sente capaz de confiar em si mesmo, encontra-se vulnerável e aberto a várias formas tóxicas de vinculação. O amor-próprio, quando em níveis muito baixos, acaba gerando manifestações nocivas nos vínculos. Aquele que não consegue confiar em si mesmo tende a procurar falhas nos outros. Uma expressão disso é a inveja.

Por outro lado, pode se desenvolver, no sujeito que não confia em si mesmo, uma disposição para o enaltecimento e a bajulação. A bajulação tem sempre o intuito de conseguir um benefício oculto, ou mesmo explícito. Quando definitivamente não consegue o que pretendia, o bajulador passa a atacar aquele que antes adulava. Quem bajula espera um benefício especial e, quando não o obtém, passa a criticar. A base do vínculo de bajulação parece estar na incapacidade de acreditar em si mesmo.

A bajulação não é apenas uma característica do indivíduo, mas se manifesta como uma dinâmica da relação. Ela depende de duas ou mais pessoas dispostas a isso. O ditado popular “quando um não quer, dois não brigam” corresponde à realidade. Depende da ação de pelo menos duas pessoas, e não necessariamente de uma só. O bajulador, por não acreditar que possa ser amado sendo sincero, e o bajulado, que se satisfaz com as bajulações por não acreditar que possa reunir em si virtudes admiráveis, unem-se nesse processo.

No entanto, por se tratar de um modelo de vínculo parasítico, tanto o bajulador (parasita) quanto o bajulado (hospedeiro) sofrem enormes prejuízos. Wilfred Bion (1897-1979) afirma: “Por 'parasitário' entendo uma relação em na qual um depende do outro para produzir um terceiro, o que é destrutivo para todos os três” (Bion, 1970). Um fica obstruído de desenvolver o reconhecimento de si mesmo, por imaginar que o outro é sempre melhor que ele. O outro, por sua vez, contentando-se com elogios sobre atributos falsos, fica impedido de reconhecer suas reais características para, então, desenvolvê-las.


Bion, W. Atenção e Interpretação. Rio de Janeiro: Imago. Dias, C. Amaral. 1991 [1970]






Prof. Renato Dias Martino












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