segunda-feira, 9 de dezembro de 2024
SOBRE O CONHECIMENTO E A PRÁTICA CLÍNICA DA PSICANÁLISE - Prof. Renato ...
INTELIGÊNCIA
O conhecimento é inútil e muitas vezes perigoso nas mãos do imaturo. Então, quando a gente fala de conhecimento, nós não estamos falando de maturidade emocional. O conhecimento não está subordinado à maturidade emocional e a maturidade emocional também não está subordinada ao conhecimento. Ser inteligente não garante a sua maturidade emocional. A maturidade emocional se desenvolve paralelamente a capacidade intelectual. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Por mais que nós tenhamos aí, pensadores que tentam aproximar uma coisa da outra, falando até de “inteligência emocional”, a maturidade emocional, a capacidade emocional, que se desdobra na capacidade afetiva, nada tem a ver com o âmbito intelectual, ou a capacidade de armazenar, acumular conhecimento e articular estes esses conhecimentos. Um sujeito muito inteligente pode ser muito pouco maduro emocionalmente.
IGNORÂNCIA
A maturidade emocional inclui a capacidade de tolerar a sua própria ignorância. Tolerar o não saber, tolerar que não sabe das coisas, logo, passa a estar aberto a aprender. Diferente de um sujeito intelectual, ou inteligente, que já sabe tudo e que não tem muita coisa a aprender. Quando a gente fala de ignorância, nós estamos falando da condição do ser humano. O ser humano tem a condição da ignorância. Por mais que ele é dito um sujeito cognoscente, ainda assim, ele é um grande ignorante da realidade como um todo. Ele pode até saber algumas coisas, mas essas coisas são pedaços e não o todo. O todo está fora da sua capacidade de conhecimento. Quando o sujeito é capaz de reconhecer a sua própria ignorância, ele está pronto a aprender. Quando ele não é capaz de reconhecer a sua ignorância e age como se ele soubesse, ele passa a agir com estupidez. Agir com estupidez é ignorar a própria ignorância.
DESCONFORTO
Para que você possa aprender com a experiência, você precisa reconhecer a sua ignorância e isso é desconfortável. Principalmente, se você não está confiando naquilo que você está sendo e o que comanda a sua vida é aquilo que você deveria ser, então, se aquilo que está regendo a sua vida é aquilo que você deveria ser, você não consegue aprender com a experiência. Porque existe sempre um pressuposto daquilo que você deveria ser e aquilo que você deveria ser é alguma coisa muito nobre, muito bonita, muito cheia de perfeições e aí não tem como aprender com a experiência. Porque, na experiência será revelada a sua limitação a sua ignorância logo a possibilidade de aprender.
CONFORMADO
Aquele sujeito que até reconhece a sua ignorância, mas está conformado com isso. E esta conformação vai levá-lo a caminhos perigosos. Por exemplo, passar a estar subordinado a outras pessoas, subordinado a instituições. Religiosas, políticas, governamentais... Então, ele conforma com a sua ignorância e passa a ser um dependente do outro. Onde o outro vai dizer para ele para onde ele tem que ir. Tão nocivo quanto o sujeito que é ignorante da sua própria ignorância, logo acredita que sabe, é aquele que é consciente da sua ignorância, mas está conformado com isso.
DEFESA
A tentativa de conhecer é o primeiro recurso que o sujeito lança a mão quando ele não consegue amar. Quando ele não é capaz de reconhecer, de respeitar e se responsabilizar, ele tenta entender. O respeito não está subordinado ao entendimento. Se você tiver que entender primeiro para depois respeitar, você já faltou com o respeito. Conhecer é uma defesa. Quando eu sou capaz de acolher meu paciente, eu não preciso ficar tentando entender. Eu simplesmente propicio um ambiente para que ele possa trazer tudo aquilo que está doendo independente que eu entenda aquilo ali.
INSEGURANÇA
O conhecimento é um desdobramento de uma experiência. A epistemofilia vai acontecer, ou seja, o sujeito vai, de maneira inata ter esse ímpeto, esse impulso de vir a conhecer. É um impulso de exploração, de conhecimento e a gente já conversou sobre isso. O Freud vai falar que está dentro da perspectiva da sexualidade, depois a Melanie Klein vai falar que essa epistemofílico está ligada a explorar o corpo na mãe. A tendencia a buscar conhecer é inata, mas é inata como uma possibilidade de se defender. A epistemofilia vai ser provocada pela insegurança. Eu me sinto inseguro, então, eu busco saber por que estou me sentindo inseguro. Enquanto eu estiver seguro, eu não busco saber. Enquanto eu estiver acreditando em mim mesmo, eu não vou buscar conhecer. Não me interessa conhecer. O conhecimento advém da insegurança.
DISPUTA
Hoje, com o advento das redes sociais, a gente tem essa chance de observar e muitas vezes até se ver envolvido em debates infecundos, que não vão dar em nada, onde um quer saber mais que o outro. E aí, cada um vai angariar argumentos e provas para contestar a ideia do outro. Tudo em nome de ser o campeão na disputa de quem tem a razão.
INFORMAÇÕES INÚTEIS
ENEM, ENADE, todos esses testes, todas essas provas que são aplicadas nos jovens, são falácias, inúteis. Ele não aprendeu aquilo, ele decorou aquilo e decorar um conteúdo frio e sem qualquer afeto é nocivo para o funcionamento emocional. Intoxica a mente. Ele vai decorar fórmulas químicas, ele vai decorar equações matemáticas, ele vai decorar inúmeras informações que vão ser inúteis para o resto da vida dele. Ele nunca mais vai usar esse monte de porcaria e ao mesmo tempo ele não vai ser capaz de trocar um botijão de gás quando for necessário. Ele não consegue desenvolver as coisas que vão ser úteis para ele e ao mesmo tempo ele está entulhado de informações inúteis.
APRENDENDO
Um paciente o procura, ele como analista, e diz assim: “Olha, eu preciso de atendimento porque eu estou com problema alimentar, estou compulsivo na minha alimentação, estou comendo demais”. Então, ele adianta isso aí, ali na mensagem. Ele marca o horário com o analista e a partir dali o analista começa a ler livros e artigos a respeito de compulsão alimentar. Não! Você não vai receber uma compulsão alimentar, você vai receber um ser humano que sofre. Você vai receber um ser humano que está desnutrido afetivamente e por conta disso não está funcionando emocionalmente adequadamente. Ele não está nesses artigos que você está procurando. Ele não está em nenhum livro que você vai ler. Você precisa aprender com ele o que é que está acometendo esse sujeito.
ACOLHER
Esse tipo de atitude é muito mais difícil. Não é para qualquer um. É muito mais fácil você se afundar na leitura e se tornar especialista em compulsão alimentar e colocar uma placa na frente do seu consultório: “especialista em compulsão alimentar”. Você sabe tudo sobre isso. Você é doutor em compulsão alimentar. Você é mestre em compulsão alimentar. Só que, quem vai te procurar não é uma compulsão alimentar é um ser humano, é uma pessoa que está em dor e que a compulsão alimentar é apenas uma característica desta dor. E diga-se de passagem, a característica mais superficial desta dor. E indo para além, a dor que está gerando a compulsão alimentar, você não pode conhecer e nem o seu paciente. Você pode acolher. Você pode, junto com o seu paciente, desenvolver recursos para tolerar esta dor. Para conviver com esta dor. Para lidar com esta dor e através disso, pode ser até que essa dor possa ir se amenizando, mas isso também não é promessa.
INTEGRAÇÃO
Um paciente me trazendo a seguinte queixa: “eu estou fumando demais e eu tenho me preocupado com isso”. E eu digo para ele: “vamos continuar o nosso processo de integração”. “Esta integração vai trazer para você um desinteresse em relação ao ato de fumar”. É a integração que traz a possibilidade de se desinteressar daquilo que não é fundamental, não é o contrário. Não é abandonar ou se afastar daquilo que não é fundamental, ou aquilo que é tóxico que vai trazer a integração. O processo de psicoterapia traz a reparação emocional para que haja a integração da personalidade e nesta integração da personalidade o sujeito vai se afastando da aquilo que é nocivo para ele, ou daquilo que não é fundamental para que ele viva.
CONHECIMENTO NA CLÍNICA
O conhecimento não entra na clínica. O conhecimento precisa estar fora da clínica. O conhecimento precisa estar no grupo de estudo. Na clínica é o acolhimento. Na clínica é abrir mão do conhecimento. É ser capaz de rebaixar ao máximo tudo aquilo que você sabe. Se o conhecimento estiver entrando na clínica ele precisa ser somente alegórico. O que é alegórico? Eu vou até explicar para o paciente: “Olha, seria interessante que você reconhecesse, aprendesse a respeitar e se responsabilizasse”. Isso é teórico. Isso é um conhecimento, mas eu não estou pretendendo que, com esta minha fala alguma coisa seja mobilizada no paciente, mas a minha atitude de dar atenção ao meu paciente e mobilizar alguma argumentação para estar junto dele, que mobiliza a desobstrução para a transformação. Eu poderia ter recitado um Fernando Pessoa, eu poderia ter cantado o Renato Russo, eu poderia ter falado sobre a teoria do Heisenberg, dentro da física quântica... Não é isto! Mas é o ato de estar disposto a prestar atenção junto com o paciente. Este foi o grande avanço que o Freud trouxe. O Freud se dispôs a ouvir as histéricas que os médicos estavam chamando de frescura. Ele se dispôs a estar com estas mulheres. Ele se dispôs a ouvir aquele que a classe médica estava menosprezando, porque não encontrava indício fisiológico da origem daquilo que o paciente estava sofrendo.
I.A.
A inteligência artificial está chegando para fazer uma revolução muito importante na humanidade. Para revelar realmente o que é importante. O que é verdadeiramente importante. O que é verdadeiramente impossível ser feito por máquina. Todas as outras coisas vão poder ser feitas pela Inteligência Artificial, menos o essencial e a psicanálise é uma dessas coisas. Quando a gente fala de psicanálise, nós não estamos falando aqui do analista dizer pro paciente alguma coisa que possa intervir na transformação, ou possa promover uma transformação, nós estamos falando aqui de um vínculo que se estabelece e pode trazer a possibilidade de experiências emocionais e afetivas reparadoras. Não existe a possibilidade de viver experiências emocionais reparadoras com uma máquina. Não há como aprender a amar com uma máquina. Não há como aprender a amar a si mesmo com uma máquina.
O FALO DO SABER
Grande parte dos sujeitos que se interessam pela psicanálise, se interessam porque parece que o psicanalista é aquele cara que sabe muito, que é muito inteligente. Nossa como você é inteligente! Vi um vídeo seu na internet, como você é inteligente! E aí, o sujeito fica “faludo”, né? Não meu amiguinho! Não é isso! Mas grande parte dos sujeitos que se interessam pela psicanálise, se interessam porque aquilo traz um falo poderoso para se exibir, para falar nos podcasts. Coitado do paciente dessas pessoas.
PSICANÁLISE REAL
Por mais que o Freud tenha analisado obras de autores, inclusive já falecidos como Leonardo da Vinci, como o caso do Schreber, como a Gradiva de Jensen. Ele estudou obras e analisou as obras. Isso é uma grande dedução. Porque a psicanálise real é aquela que acontece onde duas pessoas estão de acordo com o processo. Onde o analista e o paciente estão de acordo com aquilo que vai acontecer. Uma análise real é aquela que acontece com um paciente que está disponível a esta análise. Disponível e presente. Então, esta coisa que a gente vê por aí, de ficar analisando pessoas ausentes, ou que estão ali, dentro de notícias bombásticas, no quadro político, religioso, sei lá qual quadro. Muitas vezes, o sujeito diagnosticando pessoas, personagens aí, de notícia, isso não é psicanálise. A psicanálise não pode se prestar a isso. Isso aí está no nível intelectual e a psicanálise não está dentro deste nível. A psicanálise se presta a um processo emocional. Primeiro precisa ser estabelecido um vínculo para, depois disso, começar a algum tipo de análise. Antes disso é impossível. Sem um vínculo saudável, tudo que sai dali é duvidoso. O próprio Freud, depois, veio falar da transferência. Sem que tenha havido uma transferência entre paciente e analista, tudo é duvidoso. A análise só pode acontecer dentro da transferência e quando ele fala isso daí, ele está dando o primeiro passo para dizer para gente que é só a partir do vínculo estabelecido. Depois o Bion vai falar que o primeiro elemento de psicanálise é a conjunção constante do continente e contido. Então, se não houver esta conjunção constante entre algo que esteja disponível a ser acolhido e algo que esteja pronto a acolher nada pode acontecer de verdadeiro.
ESPECIALISTA
Quando a gente fala de psicanálise, pelo menos dentro desse modelo aqui, a gente precisa tomar muito cuidado com esta coisa de especialista em uma coisa ou especialista em outra coisa. Psicanalista é aquele que recebe o que vier, independente da especialidade. O psicanalista real acolhe uma pessoa, não uma patologia. Ele acolhe um ser humano e não o que está cometendo esse ser humano. A especialidade vem através de um estudo teórico e o analista não vai se basear em estudos teóricos. Ele vai se basear, ele vai se sustentar, ele vai se apoiar no seu preparo emocional e afetivo. Nós estamos tratando de maturidade emocional. Nós não estamos falando de especialidade teórica, porque quando você se especializa em alguma coisa, das duas uma: ou você vai obrigar o seu paciente a estar dentro da sua especialidade, ou você vai simplesmente dizer: “isso aí eu não atendo”.
QUEIXA INICIAL
A experiência mostra que muitas vezes, a queixa inicial do paciente é trazida somente na primeira sessão. Porque, na verdade, aquilo ali era apenas a casca de alguma coisa muito mais profunda. Quando o analista está sendo acolhedor, ele recebe o paciente, o paciente começa a perceber e começa a ter coragem de mexer nisso tudo. E aí, se você é especialista em alguma coisa, você tende a ficar naquela coisa que o paciente trouxe, insistindo naquilo.
DISPONIBILIDADE
Agora, vou dizer para vocês qual é a minha especialidade. Eu sou especialista. Eu sou especialista em tratar pacientes que estejam disponíveis para a análise, que estejam abertos a isso, que estejam predispostos ao processo psicoterapêutico. Eu sou especialista nisso. Aí, ele pode vir com o rótulo de autista, de caolho, seborreia no couro cabeludo, hemorroida... Tudo bem! Não tem problema. Eu recebo essa pessoa com todo o carinho, se esta pessoa estiver predisposta ao processo psicoterapêutico. Essa é a minha especialidade. Agora, se o sujeito não estiver predisposto, eu não tenho muito o que fazer. Se ele veio porque a irmã dele disse que ele tem que vir, eu não tenho o que fazer. Você atende online, ou você atende presencial? Sim! Qual é o valor da sessão? É tanto. Ah! Mas não é para mim não, é pro meu marido. Então, ele tem que entrar em contato comigo. Ah! É para o meu filho. Quantos anos ele tem? 25 anos. Pois é, é ele que tem que me procurar.
QUERER
A gente usa essa ideia de “eu não quero”, “eu não vou numa reunião social porque eu não quero” e tudo bem eu não querer. A questão não é que eu não quero, é que eu não dou conta, é que passa do meu limite, agride a minha intimidade. Então, eu não vou! Se eu falo: “eu não quero”, fica parecendo que eu poderia querer. Que é por conta de alguma coisa e eu decidi não ir, eu escolhi não ir. Não! Não escolhi! Esse tipo de reunião não me faz sentido, porque atenta contra a minha intimidade emocional. Então, eu não vou e tudo bem, você pode ir.
QUERER NÃO É PODER
Não adianta só o paciente querer fazer psicoterapia, ele precisa estar preparado, ele precisa estar predisposto, ele precisa estar no tempo de se dedicar à psicoterapia. Muitas vezes ele até deseja, muitas vezes ele até quer, mas não é o suficiente. A psicanálise nos ensina que querer não é poder. O querer está aquém da possibilidade real das coisas acontecerem. Precisa haver um ponto de desenvolvimento para que a psicoterapia possa trazer algum benefício para esse sujeito, alguma expansão.
DESEJA PELO OUTRO
Você vê a sua agenda cheia de pessoas que não veem sentido em fazer terapia. E aí, o que é que acontece? Você começa a tentar convencer o outro. Aí você deseja fazer terapia pelo outro. E aí você não sabe por que no final do dia você está exausto. Porque você passou o dia inteiro tentando convencer o outro que ele tem que isso, que ele tem que aquilo, que não sei o que mais... Isso não é função do psicoterapeuta, não é função do psicanalista.
CONVENCER
Não é função do psicanalista convencer ninguém de nada. O convencimento não é função da psicanálise. E vou mais longe, se o paciente começa a questionar muito: Ah! eu não sei muito bem o que dizer... Aí eu já pergunto para ele: será que ainda está fazendo sentido vir aqui, porque você não tem que vir aqui. Ah! mas meu irmão falou que que eu tenho... Pois é, então, se teu irmão falou que você tem que vir, muito provavelmente, é ele que está precisando mais de terapia do que você. Porque você está se virando com os mecanismos de defesa aí, com a tua forma de viver. Ele não! Ele está se queixando.
O MEDO É FILHO DO DESEJO
Quando o sujeito está atendendo pessoas que não estão disponíveis a serem atendidas, ele passa a desejar pelo paciente. “Ah! Mas eu tenho que pagar meu aluguel!” “Ah! Mas eu tenho que pagar minhas contas e se o paciente parar eu não vou ter dinheiro para fazer isso.” Então, você ainda não está pronto para ter uma clínica de psicanálise. Eu tenho medo que o paciente pare e aí eu começo a insistir que o paciente precisa continuar e eu começo a desejar pelo paciente. O medo é filho do desejo.
REPETIR
O paciente que precisa ser lembrado da sessão um dia antes, ou no dia da sessão é porque, na realidade, ele ainda está naquele modelo da mãe falar: “Fulano, vai tomar banho!” “Fulano, vai jantar!” “Fulano, já escovou os dentes?” E aí, você entra na vida dele e repete esse modelo.
COMPULSÃO ALIMENTAR
Quando a gente fala de compulsão alimentar a gente está falando de uma carência. Eu não posso propor para o meu paciente que ele pare de comer. Eu não posso propor para o meu paciente tarefas para que ele possa se defender daquilo que já é uma defesa. Então, nós precisamos tratar alguma coisa que está mais profundo, que está gerando esta compulsão alimentar. Podem ser inúmeros fatores. Desde o mais superficial que é a exigência dos pais, ou exigência social, que na realidade tem a ver muito mais com a autoexigência, até uma tentativa de substituir o amor que ele não conseguiu pelo prazer de comer. Então, não adianta desviar do restaurante.
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Wilfed R. Bion
quarta-feira, 4 de dezembro de 2024
ABUSO EMOCIONAL E RECONHECIMENTO DA REALIDADE - Prof. Renato Dias Martino
Dificuldade de reconhecer a realidade, a gente poderia levantar dois grandes motivos. É claro que a gente está abrindo aqui apenas dois, a gente pode ter outros motivos. Mas vamos lá! O primeiro: ter um benefício direto que a ilusão possa estar trazendo para ele que viver na fantasia, ainda possa estar beneficiando e depois a gente pode ver alguns exemplos disso, ou a dificuldade de admitir a realidade. Um é um benefício direto. Eu ganho alguma coisa não reconhecendo a realidade. Eu ganho alguma coisa estando iludido e o outro é: eu não consigo, eu não dou conta desta realidade.
ABUSO
Eu estou convivendo com uma pessoa dentro de uma relação tóxica. Uma pessoa que está abusando de mim. E quando eu falo abusando aqui, eu não estou falando diretamente de algo manifesto, por exemplo um abuso sexual, um abuso físico e muito menos um abuso moral. Eu estou falando de um abuso emocional, de um abuso afetivo, que acontece sem que o sujeito possa perceber. Ele vai perceber o desdobramento disso. Ele vai perceber o prejuízo, mas ele não percebe o abuso. Então, ele não consegue fazer a associação deste prejuízo, deste dano que está sendo causado com o abuso que é gerador disso. Porque este abuso é sutil. Ele é tratado com desrespeito, mas um desrespeito sutil. Ele é tratado com um descaso, mas com um descaso extremamente silencioso e sutil que nem ele consegue perceber e muitas vezes nem o outro que está abusando. Mas quando ele começa a descrever a relação dele com o outro para o analista, o analista começa a perceber isso e vai, sutilmente também, questionando. “Como é que é essa coisa?” “Essa pessoa te trata assim e tudo bem para você?” Mas aí, o que que acontece? Esta pessoa que está ora abusando dele também traz um benefício em outras esferas. Um benefício que pode ser desde a coisa mais material, que seria um suprimento financeiro, um suprimento de um conforto, até a atitude de dominância que traz para o sujeito uma sensação de segurança de estar do lado de alguém que é tão poderoso. Poderoso emocionalmente. Então, existe um benefício ali. Reconhecer essa realidade é inviável, porque ele perderia todo o benefício que ele está tendo. Assim, dentro do profissional, isso acontece com frequência. Um superior que trata um funcionário com um abuso emocional. Eu não estou falando nem um assédio moral, um abuso manifesto, mas um tipo de relacionamento, um molde, um modelo de relacionamento que muitas vezes seria melhor que ele abusasse moralmente, manifesto que aí o outro seria é capaz de se defender percebendo isso e percebendo o prejuízo dele. Mas, aí a gente precisa respeitar o tempo. Porque isso tende a se expandir e em algum momento vai se revelar. A relação analista e paciente vai trazer para este paciente um modelo de vínculo saudável com respeito com amor com carinho, que vai em algum momento vai acabar sendo um referencial comparativo para aquele relacionamento abusivo que ele está vivendo. Por estar ali naquele relacionamento saudável, ele começa a questionar os outros relacionamentos que não estejam sendo saudáveis. A bajulação é um abuso emocional é um abuso afetivo. Bajular o outro é uma forma de abusar do outro. Enganar o outro. Quem bajula, quem fica elogiando o tempo todo é porque, na realidade está tentando tirar um proveito daquilo. A crítica é o polo oposto. Uma crítica velada tem o intuito de: “estou te criticando construtivamente”. Tudo que o sujeito faz tem ali, um olhar crítico e muitas vezes com um embasamento inteligente para justificar esta crítica. Mas que na realidade, é um abuso emocional.
domingo, 1 de dezembro de 2024
NEUROSE, PSICOSE E INCLUSÃO - Prof. Renato Dias Martino
COTAS
Talvez a maior contribuição do Freud para a psicoterapêutica, ou pelo menos dentro da configuração teórica, que vai se desdobrar na prática é que todos nós, em alguma medida somos neuróticos. Por mais que a gente possa estar ali, numa manifestação saudável, ainda assim, nós temos cotas consideráveis de um funcionamento neurótico. E o Bion vai para além. Ele vai dizer assim: “Todos nós somos psicóticos em alguma medida”. Temos partes psicóticas da mente. Então, seria mais adequado a gente falar: “O sujeito que tem a sua parte psicótica proeminente, dominante”. O sujeito que tem sua parte neurótica dominante, ou o sujeito que tem sua parte saudável dominante, ou preponderante. Então, em primeiro momento, seria importante que a gente pudesse ter essa noção de cotas, noção de proporção.
REALIDADE
Quando a gente está falando de uma configuração neurótica, a gente está falando de uma de um funcionamento onde o sujeito reprime uma parte fantasiosa, reprime uma parte que não está em consonância com a realidade, que não está em concordância com a realidade, para que ele possa viver um relacionamento com a realidade, com as outras pessoas. Então, ele reprime uma parte para conviver com as pessoas. Então, a maior parte dele está convivendo com as pessoas e para que ele possa conviver com as pessoas de uma maneira harmônica ele precisa reprimir uma parte que é absurda, por assim dizer, que é baseada em ilusões, em alucinações, fantasias. O Psicótico é o contrário. O Psicótico tem uma pequena parte que se relaciona com o mundo externo, porque a maior parte dele está cindida do mundo externo e da realidade. Está baseada em ilusões e alucinações. Então, o sujeito que tem a predominância, ou a preponderância do funcionamento psicótico da mente dele, tem a maior parte deste funcionamento cindido da realidade, desconectado da realidade. Ele guarda, na melhor das hipóteses, uma pequena parte que ainda faz com que ele consiga, minimamente se comunicar com o mundo externo.
NEURÓTICO E PSICÓTICO
A maior parte do neurótico está conectada com o mundo externo, com as pessoas, mas existe uma parte que está ali, reprimida e essa parte é estruturada com ilusões, com alucinações. O funcionamento psicótico, ele não tem a ver com o aparato neurológico. O sujeito pode ter um aparato neurológico, pode ter um aparelho neurológico intacto. Ele faz exames neurológicos, não aparece nada, mas ainda assim, ele funciona psiquicamente de forma psicótica.
VÍNCULO
Quando a gente vai refinando os psicodiagnósticos, a gente vai, automaticamente, concomitantemente, afastando os vínculos. Quanto mais eu vou criando nomes e refinados para diagnosticar o sujeito, mais eu vou me afastando afetivamente deste sujeito. Quanto maior a minha capacidade de acolher o sujeito, quanto maior for a minha capacidade de criar um vínculo saudável com o sujeito, menor é a necessidade de ficar investigando para saber o que é que ele tem. Pouco importa o que ele tem. Se é autismo, se é unha encravada, ou se é caspa. Pouco importa! A minha função é criar um vínculo saudável com esta pessoa que me procurou e até onde é possível isso. Até onde eu estou preparado para isso e até onde esta pessoa está disponível a isso.
A CAMA DE PROCUSTO
A cama de Procusto é um conto grego. Uma pousada de um sujeito chamado Procusto. Então, o sujeito chegava na pensão do Procusto, o Procusto colocava ele numa cama e se a cama fosse menor que o sujeito, ele cortava o pé do sujeito, que sobrava do sujeito ele cortava e se a cama fosse maior que o sujeito, ele esticava o sujeito até o sujeito ficar do tamanho da cama. Então, hoje, dentro do âmbito emocional-afetivo, nós vivemos este Mito de Procusto. A maioria das psicoterapeuticas se dedica a encaixar o sujeito num estereótipo designado pela sociedade. Para que ele possa ter um bom convívio na sociedade ele precisa se adequar a isso que é expectativa social. Então, nós vamos ali, através de terapêuticas de doutrinação, readequação comportamental, isso associado à administração medicamentosa, até que ele consiga atingir uma formatação social aceitável.
INCLUSÃO
Hoje, a gente fala muito de inclusão. O que eles chamam de inclusão hoje? A inclusão hoje precisa anteriormente passar por uma exclusão. Então, primeiro você precisa ser diagnosticado. Apartado do dito sujeito normal. Depois de rotulado, hoje é o termo laudado, aí você é reinserido na escola, no trabalho, ou na sociedade, com este laudo, com este rótulo e a partir daí você pode ser incluído. Mas primeiro você precisou ser submetido por uma diferenciação. Na realidade você não foi incluído, você vai passar para o resto da vida carregando um rótulo, um laudo que foi colocado em você e que, muitas vezes você vai encontrar um benefício em ter aquilo e vai ser muito difícil você conseguir superar aquilo ali.
DOR PSÍQUICA
O medicamento psiquiátrico obstrui a possibilidade do acordo com a realidade. “Ah! Mas esse o sujeito está muito agitado, ou ele está muito deprimido!” Pois é, ele vai precisar viver experiências para aprender a conviver com aquilo. Aprender a lidar com aquilo que está acometendo a mente dele, ou o aparelho emocional dele. Enquanto administrando substâncias químicas psiquiátricas, isso vai ficar obstruído e eu vou deixar claro isso. Agora, eu não posso dizer para ele para de tomar isso. Eu não tenho essa função. Se para ele, ainda está fazendo sentido, ótimo. E vamos cuidar deste paciente até quando fizer sentido para ele vir. É claro que o sujeito, quando ele está num processo psicoterapêutico e por algum motivo ele é acometido ali, de uma ansiedade aguda, de uma angústia aguda, muitas vezes ele pode procurar um psiquiatra. O psiquiatra vai prescrever para ele medicamentos e quando ele passa a tomar esse medicamento, ele, muito provavelmente, vai começar a se desinteressar pela psicoterapia. Por quê? Porque a psicoterapia funciona através da dor psíquica. Não existe psicoterapia se não houver dor psíquica. E se o sujeito está se medicando e a dor psíquica dele está rebaixando, a psicoterapia passa a não ser tão interessante assim.
OS 3 Rs
Eu sou até meio repetitivo nisso. Dei até um curso sobre isso, mas isso é fundamental, que são os três Rs, que é ser capaz junto com o paciente, reconhecer a sua limitação. Admitir a sua limitação e reconhecer não é conhecer é admitir que existe, independente de saber o que é. O segundo passo é o segundo R, que é aprender a respeitar esta limitação que se admitiu que existe. Respeitar independente de saber o que é. E o terceiro e mais difícil dos três Rs, a responsabilização por isso que se reconheceu, admitiu-se que existe, aprendeu a respeitar e agora precisamos nos responsabilizar por isso. Esta responsabilização inclui uma nova configuração emocional e afetiva, ambiental. Eu não posso mais me manter em ambientes emocionais, em psicosfera que também não sejam capazes de respeitar a minha limitação.
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domingo, 24 de novembro de 2024
MECANISMO EGOSSINTÔNICO
SINTÔNICO OU DISTÔNICO
Egossintônica é quando a defesa está em sintonia com o ego. Quando o sujeito desenvolve um mecanismo de defesa e este mecanismo de defesa está sintônico, em sintonia com o ego. Então, ele acredita que aquele mecanismo de defesa não é um mecanismo de defesa, mas é um elemento inerente ao ego, é parte do ego. E aí, é muito difícil de tratar aquilo que está gerando o mecanismo de defesa. Quando este mecanismo de defesa começa a ser egodistônico, ou seja, quando ele já não está mais em sintonia com o ego, o sujeito começa a se incomodar com aquilo, ele começa a perceber que aquele mecanismo de defesa é algo que não está mais trazendo para ele algum benefício, mas começa a atrapalhar o fluxo da sua vida. Egossintônico é quando aquilo está em sintonia com o ego, quando a gente fala aí, do saber como um mecanismo de defesa e o saber é, o conhecimento, a busca do conhecimento é um mecanismo de defesa, o sujeito se defende tentando saber. Quando este mecanismo de defesa está em sintonia com o ego, o sujeito é o dito intelectual. Aquilo faz parte dele, aquilo faz parte da personalidade dele. Ele se contenta com aquilo, ele agrega aquilo, ele está em sintonia com aquilo. Quando ele começa a perceber que esse saber não garante nada e ele começa a duvidar desse saber, este mecanismo começa a ser distônico. E aí, ele começa a questionar o saber admitir a sua ignorância e passa a ser um eterno aprendiz.
EU SOU ASSIM MESMO
Muitas vezes, o sujeito desenvolve mecanismos de defesa que estão tão incorporados no ego, tão incorporados nele mesmo, na sua personalidade, que a gente vai chamar esse mecanismo de defesa de egossintônico, porque ele está tão eficaz, incorporada ao funcionamento do ego, que parece que é uma característica do sujeito. É um mecanismo de defesa, mas por estar dentro da ordem do egossintônico, ele passa a ser admitido pelo sujeito como característica dele e não como uma defesa. Na realidade, ele desenvolveu isso num momento onde ele se sentia inseguro, onde ele se sentia ameaçado por alguma coisa e passou a usar aquele mecanismo de defesa constantemente, mesmo depois que aquela ameaça não estava mais ali. Então, passou a ser um mecanismo egossintônico. Ele não enxerga mais aquilo como um mecanismo de defesa, mas ele enxerga como característica dele e este tipo de mecanismo de defesa é quase que intransponível. Você não consegue enxergar mais o que está por trás daquilo. Você já não consegue mais olhar para o que gerou o mecanismo de defesa, porque ele já se agregou como característica do sujeito. E aí, quando o paciente, na clínica vem com este tipo de mecanismo de defesa, ele não consegue ver aquilo como mecanismo de defesa, mas ele vê aquilo como “eu sou assim mesmo”.
EXEMPLO
Uma mulher que teve uma experiência malsucedida com o seu pai, uma moça que não conseguiu ter uma experiência bem-sucedida com o seu pai, seu pai não conseguiu exercer a função paterna de maneira adequada, ela passa então a desenvolver uma repulsa a homens. Esta repulsa que ela tem por homens é uma defesa em relação ao pai, mas ela hoje, carrega esta repulsa em relação a qualquer homem e ela passa a dizer assim: “eu sou assim mesmo, eu não gosto disso” Isso não quer dizer que não seja uma defesa, mas é uma defesa egossintônico ego.
DISSOLUÇÃO
Para que as defesas egossintônico possam ser dissolvidas, elas carecem de autoconfiança. Por mais que a psicanálise possa trazer para o sujeito a possibilidade de desenvolvimento da autoconfiança, não é só na psicanálise. É claro que dentro do ambiente psicoterapêutico nós temos uma configuração privilegiada. A psicoterapia tem um uma configuração que é propícia para isso, mas esta relação, esta relação de confiança consigo mesmo pode ser desenvolvida, por exemplo, com o seu cônjuge, com o seu companheiro. É claro que vai demorar mais. O companheiro não está preparado para trazer esta possibilidade de estar isento de memórias, de estar isento de expectativas e de estar isento do conhecimento sobre a situação e o analista tem esse privilégio. Então, vira e mexe, alguma expectativa do companheiro vai interferir. Vira e mexe, alguma lembrança do companheiro vai interferir. Vira e mexe, alguma tentativa de saber de conhecer vai interferir. Coisa que dentro da psicanálise, pelo menos dentro dessa perspectiva da psicanálise que a gente estuda, que a gente comunga nos nossos grupos e na nossa análise pessoal vai estar isenta, ou pelo menos, rebaixada ao máximo o resgate da memória, a tentativa de enquadrar na expectativa, a tentativa de enquadrar no já sabido.
AUTOCONFIANÇA
A partir desse ambiente acolhedor do setting terapêutico, da relação com o analista, ele passa a desenvolver autoconfiança. Quando ele desenvolve autoconfiança, ele passa a perceber que estas defesas já não são mais úteis. E aí, essas defesas, por si só, vão se dissolvendo com a entrada da autoconfiança. Então, não passa pelo racional. Ele, muitas vezes, nem entende nada do que está acontecendo. Em algum momento da análise, pode ser que ele perceba tudo isso e venha emergir a oportunidade de fazer um mapeamento do que aconteceu. “Você percebe que eu já não tenho mais aqueles medos?” “Eu já, também não faço mais isso, porque talvez isso também não me ameace mais...” Toda essa problemática racionalizada, toda essa problemática não tem tanta relevância como a transformação emocional que vai acontecendo gradativamente, na medida em que o analista dá conta de proporcionar esse ambiente também, porque muitas vezes é difícil para o analista.
ILUSÃO
Toda defesa é uma ilusão. Os mecanismos de defesa estão apoiados, amparados em ilusões. Quando essa ilusão começa a ruir e esse mecanismo de defesa passa a não ser tão eficaz, quer dizer que ele já está começando a ficar egodistônico. Ele já não está mais em sintonia com o ego. E aí, ele passa a se dissolver, a se diluir. Por quê? Porque o sujeito se sente seguro o suficiente para questionar os seus mecanismos de defesa. O trabalho da psicoterapia não é derrubar a defesa, mas é criar um ambiente suficientemente tranquilo, confiável, saudável para que o sujeito possa desenvolver a autoconfiança e passar a questionar as formas como ele tem se defendido das coisas, se defendido das coisas que muitas vezes são ilusórias.
TRANSFERÊNCIA
É a base do que o Freud chamou de transferência. Voltando no exemplo da moça que não conseguiu ter um relacionamento bem-sucedido com o pai e hoje tem repulsa homens. Cada homem que ela se aproxima, ela transfere a imago do pai, e aí, ela age com essa pessoa nova que ela está se relacionando, não como esta pessoa real, mas com como ela se relacionava com o pai e passa a se defender desta pessoa assim como ela se defendia do pai. Mesmo que essa pessoa não venha a trazer as ameaças que o pai trouxera.
quarta-feira, 20 de novembro de 2024
O EU E O OUTRO - Prof. Renato Dias Martino
O LIMITE DO AMOR
Lá, no SOBRE O NARCISISMO UMA INTRODUÇÃO, o Freud fala sobre o que ele chamou de amor feliz. Eu tenho uma restrição quanto à ideia de feliz. Eu, mais adequadamente, colocaria: o amor real, ou um amor bem-sucedido. Mas, de qualquer forma, o Freud coloca lá que, para que possa ser chamado de amor feliz, a libido do ego precisa coincidir com a libido objetal, ou seja, o quanto o sujeito ama a si mesmo precisa coincidir com o quanto ele ama o outro. Todas as vezes que um uma tendência de interesse sobressair a outra, vai haver uma falta correlacionada. Se eu amar mais o outro do que a mim mesmo, eu não posso chamar isso de amor e se eu amar a mim mesmo mais do que ao outro, tanto quanto. E aí, a gente vai resgatar lá, a formulação religiosa com os dois mandamentos de Jesus Cristo. “Ama a Deus sobre todas as coisas e ama o outro como a ti mesmo”. E aí, é interessante, vale lembrar que, quando a gente lê na Bíblia, “mandamento”, isso não quer dizer que Jesus está mandando você fazer isso. Jesus está mostrando uma regra. Jesus está mostrando uma lei. Jesus está mostrando ali, um princípio. Então, ele está dizendo assim: “não há como amar o outro além do que você ama a si mesmo”. Não tem como. E antes de amar a si mesmo, você precisa estar amando a Deus. Amando a realidade, amando o todo. Porque, senão, isso que você tem com você não é amor, muito menos aquilo que você tem com o outro.
O OUTRO COMO AMBIENTE
O Winnicott traz o conceito de mãe ambiente. Para o Winnicott, é importante que a mãe seja capaz de, antes de ser uma outra pessoa na vida do bebê, que ela possa ser o ambiente do bebê. Como uma extensão do que o útero foi para o bebê. Então, a mãe é o ambiente do bebê que cuida de toda a psicosfera, por assim dizer, para que ele possa se integrar ao todo. Depois que ele se integrou ao todo, ele está capacitado a reconhecê-la como uma outra pessoa e não simplesmente como o ambiente saudável que o circunda.
O INDIVÍDUO OU A ESPÉCIE
O ser humano tem essa coisa do indivíduo, do individual, do individualismo. Ele tende, a todo custo preservar a si próprio. O seu desejo, aquilo que ele quer, mas a natureza não está nem aí para o indivíduo. A natureza não está nem aí para o sujeito. A natureza está aí para espécie. Schopenhauer já chamou atenção sobre isso. A natureza tem interesse que a espécie prolifere. Uma formiga não tem a menor importância, o que tem importância é o formigueiro. Ou você está de acordo com o formigueiro, ou você não tem a menor relevância para a natureza. E o ser humano é extremamente incapaz de estar de acordo com o todo, com a natureza. Ele quer saber dele próprio, do umbigo dele e ele, ele, ele, ele e nada mais.
domingo, 10 de novembro de 2024
JULGAMENTO, CONDENAÇÃO, CULPA E PUNIÇÃO - Prof. Renato Dias Martino
SENTIMENTO DE CULPA
Muitas vezes, o sujeito, na relação com a mãe, com o pai, ou com irmãos, ele desenvolve um sentimento de culpa. Culpa é um sentimento! Ninguém tem culpa de nada, a gente faz aquilo que dá conta de fazer. O sentimento de culpa é uma ilusão, mas muitas vezes o sujeito carrega um sentimento de culpa, por conta de uma relação malsucedida com a mãe, com o pai, com irmãos, sei lá com quem. Este sentimento de culpa vai trazer para ele um autojulgamento, uma autocondenação, o sentimento de culpa efetivamente, uma tentativa de autopunição, para que ele possa aplacar este sentimento de culpa. Quando ele se autopune, ele se sente menos culpado. Ele se sente culpado, mas ao mesmo tempo, ele está sendo punido por esta culpa e aí, entra a autossabotagem. O sujeito se autossabota como autopunição, porque estava se sentindo culpado. O desconforto do sentimento de culpa é aplacado pela autopunição, pela autossabotagem. Então, por mais que ele esteja sendo ali, prejudicado por aquilo que ele acabou se autossabotando, ainda assim, esta autossabotagem é menos desconfortável do que o sentimento de culpa.
A AUTOSSABOTAGEM E O INSTINTO DE AUTOPRESERVAÇÃO
E esta autossabotagem inclui a desconexão com o instinto de autopreservação, ou seja, o instinto de autopreservação é aquilo que faz com que você cuide de si mesmo, se afaste daquilo que é nocivo. O instinto de autopreservação é tão primitivo que até plantinha tem. Então, a plantinha por exemplo, você cutuca ela, ela solta um leite ácido que queima a mão. Isto é um instinto de autopreservação. Então, o sujeito, quando ele está se autopunindo, se autossabotando por conta do sentimento de culpa, ele se desconecta desse instinto de autopreservação. E aí, ele passa a atentar contra a própria vida, ou se colocar em situações de risco, porque aí, ele consegue aquilo que vai trazer para ele a possibilidade de aplacar o sentimento de culpa.
O INSTINTO DE AUTOPRESERVAÇÃO E O SENTIMENTO DE CULPA
Um dos fatores que mais contribui para o sujeito se desconectar do seu instinto de autopreservação é o sentimento de culpa. Muitas vezes, ele carrega um sentimento de culpa e passa por cima do seu instinto de autopreservação, descuidando de si mesmo, porque, muitas vezes, ele se sente merecedor de adoecer. Porque se sente culpado e o adoecer vai vir como uma autopunição. Esta autopunição vai fazer com que ele consiga equilibrar o sentimento de culpa. “Me sinto culpado, mas olha só como eu estou padecendo”.
PUNIR E SER PUNIDO
Muitas vezes, ele não consegue fazer isso consigo mesmo, atentar contra a própria vida e aí que que ele acaba se aproximando de pessoas que vão atentar contra a vida dele, fisicamente, emocionalmente, moralmente, de qualquer forma. Então, eu não dou conta de me autopunir, então eu me aproximo de alguém que vai me punir e vou ter atitudes que sejam dignas de punição. Muitas vezes, quem faz isso tem uma característica mais histérica da personalidade e ela se aproxima de uma pessoa que tem características mais obsessivas. Então, o obsessivo vai punir o histérico. O histérico se sente culpado e o obsessivo procura alguém que se sinta culpado. O histérico se sente merecedor de punição e o obsessivo quer punir alguém, procura alguém para punir.
LEGADO DO FRACASSO
Eu começo a perceber que eu funciono de maneira diferente dos meus pais e cada atitude que eu tenho que não esteja em consonância com as atitudes do meu pai, ou da minha mãe, eu me sinto culpado por aquilo. Me sinto culpado me sinto culpado de sentir prazer, me sinto culpado de me sentir alegria, me sinto culpado de realizar, me sinto culpado das coisas, por quê porque meus pais estão identificados com o lugar do fracassado e por conta disso eu não posso avançar para além daquilo que meus pais fizeram. Porque senão eu me sinto culpado. Então, cada realização que eu consigo, cada prazer que eu sinto, cada alegria que eu sinto, vem junto com o sentimento de culpa, logo com um ímpeto de autopunição.
domingo, 3 de novembro de 2024
SOBRE A VONTADE E A PSICOTERAPIA - Prof. Renato Dias Martino
VONTADE OBSTRUTORA
Se a gente for levantar aí as nossas aulas, pelo menos aí, nos últimos meses, a gente vai ver que a gente tem falado muito sobre a vontade, sobre a vontade e sobre o desdobramento dessa vontade no desejo. Por que isso é tão importante? Porque é justamente a vontade e o desejo no desdobramento da frustração da vontade que vai ser um fator fundamentalmente obstrutor da nossa prática diária da psicanálise na clínica. Todas as vezes que a nossa vontade sobressair ao reconhecimento da realidade e isso a miúde pode acontecer, este acordo que pode ser travado entre o sujeito e a realidade vai ser comprometido, vai ser poluído. Ou seja, o sujeito deseja alguma coisa, ou ainda a sua vontade está prevalecendo e por conta disso ele tem dificuldade de reconhecer a realidade, tendo dificuldade de reconhecer a realidade ele não é capaz de respeitar esta realidade, não sendo capaz de respeitar essa realidade ele não é capaz de se responsabilizar por si mesmo e pela realidade e aí, estamos obstruídos de um fluxo no vínculo que pode ser estabelecido com o paciente.
ACORDO
O Bion propõe a ideia de “sem memória, sem desejo e sem compreensão”, então ele diz assim quanto menos você resgatar dados da memória, quanto menos você estiver sendo conduzido pelo seu desejo, quanto menos você estiver com ânsia de saber, ou com uma ânsia de tentar encaixar aquilo que está acontecendo no que você já sabia, mais de acordo com a realidade você estará. No entanto, tanto o conhecimento, quanto o resgate dos dados da memória, estão subordinados ao desejo. É o desejo que faz você resgatar as coisas da memória. É o desejo que faz você tentar encaixar aquilo que você está vivendo no já sabido. Então, é muito importante que a gente possa olhar para o desejo como algo que é fundamentalmente obstrutor na prática da clínica. Nos impede de reconhecer a realidade e portanto nos obstrui de entrar num acordo com esta realidade.
RENÚNCIA E FRUSTRAÇÃO
A questão de renunciar do desejo está subordinada à capacidade de tolerar a frustração, que é gerada pela incerteza. Quando eu não sou capaz de tolerar a incerteza, eu estou apegado àquilo que eu gostaria de ser. Eu tomo como real aquilo que eu gostaria de ser, ou aquilo que eu gostaria que fosse a realidade e isso é justamente o desejo.
PROJEÇÃO
Quando o analista está vivendo uma grande dor, por exemplo e de alguma forma ele ainda evita sofrer essa dor. Isso é muito importante! A gente separar, sofrimento de dor. Sofrimento, sugere movimento e dor é algo que você sente. Sofrer a dor é diferente de sentir a dor. Quando você sofre essa dor, essa dor tende a se transformar. Diferente de quando você simplesmente sente essa dor. Quando o analista está com dificuldade de sofrer a dor, ele pode projetar esta dor que ele ora está sentindo no paciente. Quando ele projeta essa dor no paciente, porque o paciente sugeriu algo parecido com essa dor, ele passa a tentar solucionar ou resolver ou ainda amenizar essa dor do paciente então ele projeta, essa dor, no paciente e tenta então resolver a dor do paciente, amenizar a dor do paciente. Quando ele está em dia com a sua análise pessoal, quando ele está integrado, ele consegue tolerar esta dor até que ele possa sofrer esta dor para que haja uma transformação, mas para isso ele precisa ser capaz de renunciar ao seu desejo e adiar das suas vontades.
FUGA
Muitas vezes, quando a gente está sentindo uma dor muito intensa, quando a gente está sentindo uma angústia muito grande, uma ansiedade muito grande, a gente tende a fugir dessa dor, dessa dor psíquica, dessa dor emocional. E tudo bem! Não tem problema, nós vamos fazer isso a miúde, mesmo. Nós vamos fugir dessas dores. No entanto, a gente precisa ter consciência de que fugir de uma dor psíquica é impreterivelmente se iludir. A fuga da dor emocional é a ilusão, que vai gerar alucinação, que vai gerar delírios. Ninguém foge de um processo psíquico, ele se engana estar fugindo.
SENTIMENTO, EMOÇÃO, AFETO E VÍNCULO
Quando a gente fala de emoção, vamos começar pela emoção, eu penso ser muito importante a gente partir da semântica da palavra. “E + MOÇÃO” E, no latim é ex. Corta-se os X, aí quer dizer para fora e MOÇÃO é movimento. Então, movimento para fora, ou seja, algo que está dentro que vai para fora, se projeta no mundo externo. A emoção é impreterivelmente algo que eclode do mundo interno. O sentimento já é algo que você sente independente de externalizar. Eu sinto isso e isso não necessariamente vai gerar uma emoção. É claro que toda emoção é gerada de um sentimento, mas nem todo sentimento gera uma emoção. Sentimento é algo que me faz mobilizar algo internamente e emoção é quando eu externalizo isso. Quando eu coloco para fora, quando eu manifesto isso no mundo externo. E aí, vale acrescentar mais uma experiência que é do afeto. A quer dizer em direção alguma coisa e FACERE quer dizer fazer. Fazer alguma coisa em direção. Então, um sentimento gera uma emoção e esta emoção está buscando um afeto que possa afetá-la. Quando esta emoção encontra um afeto acontece um vínculo.
MODELO
Cada psicoterapeuta tem a sua técnica, cada psicoterapeuta tem a sua maneira, a sua metodologia de praticar a psicoterapia. Não só cada psicoterapeuta, mas existem inúmeras teorias de aplicabilidade psicoterapêutica, no entanto, seja a prática que for, seja o método que for, seja a técnica que possa ser usada, na realidade, o que realmente é transformador é o vínculo saudável que se estabelece entre as duas pessoas, psicoterapeuta e paciente. Como é que funciona isso? Você propicia a possibilidade de se estabelecer um vínculo saudável com esse paciente, este vínculo ora estabelecido vai começar a se tornar um modelo de vínculo para que o paciente possa internalizar e aplicar na relação que ele tem consigo mesmo. Muitas vezes, ele não consegue reconhecer a si mesmo. Muitas vezes, ele não consegue respeitar a si mesmo. Muitas vezes, ele não consegue se responsabilizar por si mesmo, mas dentro do vínculo psicoterapeuta/paciente vai haver a possibilidade disso. O psicoterapeuta vai reconhecer esse paciente, vai respeitar este paciente, vai se responsabilizar por esse vínculo com o paciente. E o paciente vai aprendendo isso e internalizando. E ele passa a fazer isso em relação a si mesmo. A partir desse vínculo que ele vai reparando consigo mesmo, ele vai sendo capaz de estender este mesmo modelo nas relações que ele tem com as pessoas. E não só estender este modelo na relação com as pessoas, mas ser capaz de avaliar se a pessoa que ele vem a se relacionar é capaz de manter um vínculo desta qualidade e se afastar das pessoas que definitivamente ele perceba que não são capazes de manter esta qualidade de vínculo saudável.
TRANSFORMAR
A psicoterapia não promove transformação, ela propicia um ambiente para que a transformação possa acontecer. A transformação vai acontecer por si só, não é a psicoterapia que promove. A psicoterapia propicia um ambiente para desobstruir a possibilidade de transformação. O sujeito não se transforma porque ele está obstruído de um monte de coisas que ele foi criando e colocando no seu caminho e que vão represando a sua possibilidade de fluxo do desenvolvimento. A psicoterapia é um recurso de desobstrução. Então, o que realmente propicia desobstrução é um vínculo saudável, é um vínculo que tenha dedicação e limite, amor e verdade. Dedicação é amor. Acolhimento! O que é acolhimento? É amor com limite. Acolher é algo que carece de limite, mas também carece de dedicação, de doação, de atenção, mas isso tudo dentro do limite. Qual é o limite? O limite da capacidade de ambos. Precisamos respeitar o limite de cada um. O limite do analista e o limite do paciente. O quanto o analista é capaz de se doar. Tem um limite. O quanto o paciente é capaz de se doar. Tem um limite!
DEBRIS
Auto-lapidação! É muito bonito isso. O que é lapidação? É ir retirando as partes que não são tão nobres de si mesmo e se desfazendo daquilo que talvez não seja saudável de si mesmo e ficando só com a essência. Esta questão de auto-lapidação é muito bela. O Bion vai falar dos debris. Ele vai falar dos escombros, dos entulhos que o paciente chega na clínica e você vai ajudando ele a tirar aquilo de cima dele para ver o que é que sobra de verdadeiro. Então, essa questão é muito e interessante, é muito bela, de ir se autou-lapidando daquilo que não é nobre, daquilo que não te ajuda, daquilo que só te obstrui o fluxo da sua própria vida.
SOFRER A DOR
O Bion trata sobre essa questão do sofrer a dor e o sentir a dor lá no ATENÇÃO E INTERPRETAÇÃO, 1970. Então, ele vai dizer que alguns pacientes não são capazes de sofrer a dor. Eles sentem a dor, mas eles não conseguem submeter essa dor ao sofrimento. Ele não consegue viver essa dor, então ele padece da dor. Ele sente aquela dor repetidamente, da mesma forma e ele se lamenta daquela dor. Ele reclama daquela dor, mas ele não consegue sofrer aquela dor. Quando ele coloca esta dor dentro da perspectiva do sofrimento e se propõe a realmente sofrer esta dor... O que é sofrer essa dor? É RECONHECER essa dor como sua, é aprender a RESPEITAR essa dor e é se RESPONSABILIZAR por essa dor. Quando ele consegue esses três “Rs”: reconhecer, respeitar e se responsabilizar, essa dor começa a se transformar em algo nobre, em aprendizado e já não está mais naquela perspectiva da lamentação, do padecimento, mas esse sofrimento leva à transformação. Não é simplesmente... Sofrer a dor não é simplesmente sentir a dor, mas é viver essa dor para que ela possa se transformar. Mas, para isso eu preciso de tolerar essa dor. Quando eu estou padecendo da dor e não estou sofrendo da dor, eu estou a aguentando essa dor, eu não estou tolerando a dor. Quando eu tolero, ela se transforma. Quando eu aguento... E o que é aguentar? É suportar como se suporta um peso. Então, quando eu aguento, quando eu suporto, aquela dor fica represada e não se transforma. E aí, a gente vai chamar em psicanálise isso daí de melancolia, de estado de melancolia. Quando o sujeito submete essa dor ao sofrimento ele passa a viver o processo do desta dor e aí é transformador.
RESPONSABILIDADE
Um exemplo claro de sentir a dor, de padecer da dor e não sofrer da dor: eu sinto essa dor dentro de uma perspectiva de angústia, de ansiedade, de medo, de insegurança e eu atribuo ao outro a responsabilidade disso. “Foi você que me deixou inseguro!” “Quando você faz isso eu fico assim!” “Foi você que provocou isso!” E aí, eu brigo com o outro, porque eu não sou capaz de reconhecer que essa dor é minha, que é uma insegurança minha, que eu não estou sendo capaz de reconhecer isso como meu, não estou sendo capaz de respeitar isso como meu e não estou sendo capaz de me responsabilizar por isso. Então, eu coloco no colo do outro e digo: “É você quem faz isso acontecer comigo!” E aí, o que acontece? Quando o sujeito sente a dor e padece da dor e não é capaz de sofrer a dor ele prejudica todo mundo que está em volta dele. Todo mundo se sente culpado por aquilo. Quando, na realidade, é o sujeito que precisa se responsabilizar por isso.
CULPA
Qual é o antídoto para dissolver a culpa? É a capacidade de se responsabilizar. Não existe outra coisa! Mas, qual é o benefício do sujeito manter a culpa, se manter se sentindo culpado? É justamente atribuir ao outro esta culpa. “A culpa é minha, eu coloco em quem eu quiser!” Manter a culpa tem um benefício. Reconhecer, aprender a respeitar e se responsabilizar pelo fato é muito trabalhoso. Requer uma dedicação enorme. Requer uma capacidade de frustração muito grande. Não é para qualquer um. É muito mais fácil eu jogar para o outro. É muito mais fácil eu armar um caos, sair brigando com todo mundo, gritando, esbravejando, do que me responsabilizar por isso, do que cuidar disso na minha análise pessoal.
REALIDADE
Nós temos a tendência de enxergar no mundo aquilo que coincide com a nossa vontade. A gente imagina alguma coisa e procura no mundo isso que a gente imaginou. A possibilidade de reconhecer as coisas reais do mundo é muito difícil para o ser humano. Ele só consegue fazer isso a partir de um encontro bem sucedido com o mundo externo. O bebê precisa encontrar com a mãe generosa, com a mãe suficientemente boa, porque a mãe é a primeira noção de mundo externo. Quando ele não consegue encontrar esta mãe generosa, essa mãe benevolente, essa mãe suficientemente boa, ele vai guardar uma dificuldade enorme de reconhecer as coisas do mundo externo, as coisas reais e vai priorizar aquilo que ele imagina e não aquilo que realmente é.
ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
Tenho minhas restrições ali com o Saramago, porque era ateu, mas tudo bem, respeito, não tem problema, mas ele tem obras geniais e uma das obras geniais dele é o Ensaio Sobre a Cegueira, que depois virou um filme tão bacana quanto o livro. Então, muitas vezes, o paciente chega na clínica vivendo uma experiência muito parecida com esta obra. Ele é o único que está sendo capaz de ver, de enxergar, simbolicamente é claro, num ambiente onde está todo mundo cego. E ele chega desesperado por causa disso e muitas vezes, ele acreditando que o mal dele é enxergar. Porque está todo mundo cego e adaptado à cegueira, só que pendurado nele. Muitas vezes, na maioria das vezes o sujeito que procura terapia é o sujeito mais saudável emocionalmente da família.
REPARAÇÃO
Quando a criança é pequena, existe maior possibilidade dele conseguir reparar esta relação com o mundo externo. Conforme ele vai crescendo, conforme ele vai se desenvolvendo, vai se tornando cada vez mais difícil, porque esta interação quando vai passando o tempo, vai criando maiores obstruções maiores ilusões e ilusões muitas vezes, intransponíveis, que não podem ser ultrapassadas na barreira que separa o sujeito do outro. Então, quanto mais terra for a possibilidade de reparação, tanto mais ela pode ser bem-sucedida.
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