terça-feira, 14 de maio de 2024

O TEMPO DA PSICANÁLISE - Prof. Renato Dias Martino


Quando a gente fala de psicanálise, pelo menos dentro deste modelo que nós refletimos aqui e passamos a dar o nome de psicanálise do acolhimento, a tolerância é elemento fundamental. A tolerância quanto ao tempo dos processos e nisso a psicanálise está em concordância com as formulações religiosas, quando os devotos dizem que as coisas acontecem no tempo de Deus e não no tempo do homem. Dentro da psicanálise aqui, a gente poderia falar que as coisas acontecem no tempo da realidade, independente da urgência da demanda do sujeito. Para que a gente possa praticar esta psicanálise é imperioso que a gente possa desenvolver tolerância quanto aos processos, seja o processo que for. Precisa haver um tempo adequado para cada processo. O sujeito que não tem essa tolerância, o sujeito que ainda mantém essa urgência da sua demanda, não vai se dar bem com este modelo psicoterapêutico. É por isso que é muito complicado o ensino da psicanálise dentro das universidades, porque o sujeito sai da universidade querendo resultado, com um desejo de mostrar aquilo que ele conseguiu no seu tempo de formação, para a sociedade, para sua família e antes de tudo, para si mesmo. E a psicanálise não pode se comprometer com resultados. Porque, nós não sabemos o que realmente é um resultado. Por conta disso, o sujeito acaba buscando outras promessas, outras propostas de aplicabilidade psicoterapêuticas e outras propostas de teorias. Ou ainda, invenções como psicanálises breves, ou propostas de psicoterapias que prometem um resultado breve que seja dentro da prática psicoterapêutica, o que configura-se num grande perigo, porque a gente sabe muito bem que o funcionamento emocional-afetivo não pode trabalhar por uma demanda do que se deseja que aconteça, mas vai acontecer no seu próprio tempo.

terça-feira, 7 de maio de 2024

MEMÒRIA - Prof. Renato Dias Martino



Normalmente, a gente tem a ideia de que um sujeito que tem uma boa memória é um sujeito favorecido, é um sujeito mais bem sucedido, por assim dizer, do que o outro que não tem uma memória muito boa. Na verdade, um sujeito que é capaz de ter uma memória boa quer dizer que ele tem na sua mente, um cabedal enorme de dados armazenados e isso, muitas vezes, não é saudável. O saudável é viver uma vida espontânea, no fluxo contínuo da vida. 

MOTIVO DA MEMÓRIA

A memória, por si só, é mantida por medo de esquecer, por um “deveria ser”. Quando o sujeito tem uma boa memória, tem esta capacidade, porque o resgate daquela memória pode trazer para ele, ou tirá-lo de certa ameaça, ou trazer para ele a aprovação do outro. A memória tem um objetivo claro que é o benefício superficial do sujeito. Não tem a ver com questões profundas. 

MEDO DE PERDER

A memória está dentro da perspectiva do obter. Eu tenho na memória e se eu tenho na memória, eu também tenho medo de perder. Porque o medo de perder está relacionado ao desejo de ter.

MEMÓRIA FRIA

Para que a memória possa ser bem registrada e possa ser resgatada quando necessário, de maneira ágil, ela não pode estar irrigada de emoções nem de afetos. Um sujeito que tem uma boa memória é um sujeito que não relaciona a esses dados, emoções, ou afetos, sentimentos, para que esses dados sejam armazenados de maneira fria e calculista, para serem resgatados da mesma forma quando necessário for. 

MEMÒRIA E DEFESA

Muitas vezes, o sujeito tem uma boa memória para esconder, para tamponar, por assim dizer para tampar questões afetivas desconfortáveis de serem relembradas um sujeito de boa memória pode estar usando isso para se defender de algo que é muito doloroso para ele.

LEMBRANÇAS ENCOBRIDORAS

Uma rica contribuição do Freud, LEMBRANÇAS ENCOBRIDORAS. Quando o sujeito vive uma experiência extremamente dolorosa e desconfortável, ele tende a registrar alguma outra coisa no lugar daquela experiência. Ele registra um fato que foi relacionado àquilo. Se lembra deste fato, mas não consegue se lembrar daquilo que está por baixo por assim dizer.

MEMÒRIA OU RECORDAÇÃO

Memória e recordação. A memória não pode estar vinculada as emoções porque as emoções desorganizam as emoções propõem transformação e os dados da memória não podem estar em transformação porque quando o sujeito for resgatar já não é mais o mesmo e aí não é memória. Mas, por outro lado, aquilo que está na ordem das recordações são, o tempo todo, transformações. Cada vez que você recorda alguma coisa, você recorda de uma maneira nova, de uma outra forma, porque diz respeito ao vínculo. Por mais que seja de alguma coisa que já passou, você, ao se transformar, você se vincula a aquele dado armazenado na memória de maneira diferente. Por isso é recordação, cada vez que você recorda você dá outra vez para o coração. Re-cor-dar! Então, isso vai se transformando. Isso vai se nutrindo. Isso vai crescendo, se expandindo, ficando cada vez mais nobre. Diferente dos dados da memória que são sempre do mesmo jeito. Não só o resgate do que foi registrado na memória, diz respeito à dificuldade de lidar com aquilo que está acontecendo no presente, mas também o próprio registro do fato. Quando o sujeito tem um conflito, quando o sujeito não é capaz de viver de maneira espontânea aquilo que está acontecendo, ele tende a registrar aquilo na sua memória. Diferente porque, isso espontaneamente vem dentro da perspectiva da recordação, que é diferente de buscar, de resgatar isso, dentro dos dados armazenados na memória.

DE NOVO

Nós temos três palavras que estão associadas de maneira muito bela. Então, a gente tem a palavra recordar, a gente tem a palavra respeito e a gente tem a palavra reconhecimento. As três palavras começam com o prefixo RE, que quer dizer “de novo” e todas elas têm essa conotação de, novamente submeter a um processo de renovação. Recordar, “dar novamente ao coração”, respeito, “prestar atenção novamente” e reconhecimento, “conhecer de novo”.

RECONHECER E GRATIDÃO

A ideia de recordar está ligada ao respeito, está ligada também ao reconhecimento. E a palavra reconhecimento, ela também tem esta polissemia, esses sentidos diversos, que podem ser atribuídos a ela. Por exemplo, reconhecer é conhecer novamente, reconhecer é também uma extensão da gratidão. Quando o sujeito reconhece alguma coisa, ele está sendo grato a aquilo. Para que o sujeito seja capaz de reconhecer, ele precisa ter desenvolvido a capacidade de gratidão.

RECORDAR E TRANSFORMAR

 Quando a gente está falando de emoções, quando a gente está falando de afetos, de sentimentos, a gente não pode ligar isso a certezas, mas sempre há um fluxo, há algo que é incerto, porque está em transformação. Então, a recordação vem como algo que é contínuo, é um processo. O resgate do que está na memória não tem a ver com processo, tem a ver com resgatar algo que foi pré-estabelecido, foi armazenado e agora é resgatado de maneira, quanto mais precisa possível. A recordação é rica, ela se transforma. Cada vez que você amadurece um pouco, você se recorda de algo de maneira diferente. Antes eu me recordava de uma forma, hoje eu me recordo de outra forma e futuramente me recordarei de outra maneira diferente dessas. Então, não pode ter certeza.



quarta-feira, 1 de maio de 2024

PODCASTS GEPA – TEMAS DA PSICANÁLISE - Prof Renato Dias Martino



Então, quando a gente fala de psicologia, nós estamos falando do estudo da parte psíquica do sujeito. Logos quer dizer conhecimento, estudo, saber sobre o aparelho psíquico. Psicologia estudo da mente. Quando a gente fala de psicoterapia, a gente está falando do sujeito que cuida da mente. Terapia cuidado e psique parte psíquica, da mente. Um psicólogo não é necessariamente um psicoterapeuta e um psicoterapeuta não precisa necessariamente ser psicólogo. Eu posso ser um psicoterapeuta e me utilizar de inúmeros outros recursos que não seja aquele que a faculdade de psicologia se propõe a ensinar. E um psicólogo não é, necessariamente um psicoterapeuta. Ele é um estudioso da mente, não é um sujeito que se propõe a cuidar da mente. Psicanálise, nós estamos falando de um modelo de psicoterapia. Psicanálise é uma forma de aplicabilidade de uma terapêutica do psíquico. É uma forma de se cuidar do psíquico. A psicanálise não é uma psicologia. A psicanálise não se propõe saber sobre a mente, ela se propõe cuidar da mente e a partir deste cuidado, você vai adquirindo ali, um reconhecimento do funcionamento emocional e afetivo que é a parte psíquica. Então, um psicanalista, ele não se propõe a conhecer, mas ele se propõe a cuidar e nesse cuidado ele acaba conhecendo. Mas, ele não pode se convencer disso que ele está conhecendo.

NASCE UM PSICANALISTA

O psicanalista ele nasce a partir da percepção de uma dor psíquica. Sentiu, essa dor psíquica, buscou a psicoterapia. E aí então, existe a possibilidade de se nascer um psicanalista.

TENTAR CONVENCER 

Essa propensão do psicólogo, do psicoterapeuta comum, de tentar convencer o outro de alguma coisa e na realidade, tentar convencer o outro é uma grande falta de respeito. Quando o outro está aberto, uma palavra é transformadora, mas se ele não tiver aberto milhões de tentativas vão ser em vão.

MATURIDADE E ESCOLHA

A partir do desenvolvimento dessa maturação emocional, que vai se desdobrar na maturação dos vínculos afetivos, o sujeito vai, cada vez menos tendo escolhas, porque ele vai entrando num acordo com a realidade. E aí, ele vai começar a ser guiado por um caminho que é um só. Ele vai perceber aquilo que é nocivo e por ser nocivo ele não vai se aproximar mais disso, que pode intoxicar, pode machucá-lo, e aí, não tem escolha, o caminho é um só. O caminho é o da saúde e o da construção, da expansão, do próprio aparelho psíquico. A psicoterapia, dentro da psicanálise do acolhimento, propõe justamente, propiciar um ambiente afetivo, livre de tentativa de convencimento, de bajulação, de crítica, de julgamento, para que possa haver uma reparação do aparelho emocional-afetivo e que ele possa estar de acordo com a realidade e perceber que o caminho é um só.

AMBIENTE SAUDÁVEL

Para que o ambiente seja emocionalmente saudável ele precisa contar com dois elementos básicos, que é o amor e a sinceridade. E quando a gente coloca esses dois elementos juntos a gente vai pensar assim, o amor dentro do limite que o sujeito é capaz de se doar. Lembrando que a gente, quando fala amor aqui, a gente está falando dentro da conotação da doação, da dedicação. Amor aqui, de maneira alguma, está vinculado a desejo, a se sentir atraído, mas na capacidade do sujeito se doar ao outro. Amor, dentro do limite, logo, vinculado a sinceridade. A psicoterapia precisa estar configurada nesse formato, nesse modelo.

PSICANÁLISE PARA TODOS

A psicanálise está aí para todo mundo, mas nem todo mundo está aí para psicanálise.

SUFICIENTEMENTE BOM

Imprescindível que a gente possa contar para desenvolver essa tolerância, um ambiente suficientemente bom, como recomendaria o nosso grande Winnicott. Quando a gente fala de suficientemente bom, tanto dentro da perspectiva da mãe suficientemente boa, ou do ambiente suficientemente bom, a gente está falando de uma proporção saudável.

VAI PASSAR

O suicídio acaba sendo uma atitude definitiva por uma situação que é temporária. É resolver de uma vez por todas alguma coisa que na realidade, tanto a situação ruim quanto a situação boa, vai passar.

CONCORDAR

Dentro da psicanálise do acolhimento, a gente tem uma mudança catastrófica dessa ideia de concordar. Concordar, para gente não é quem está certo, ou quem está errado, se você está certo e eu concordo com você, mas é estar junto de coração. “COM + CORDES” COM = conjunto e CORDES de coração e esta é uma questão extremamente difícil. É muito mais fácil se a gente tiver dentro da perspectiva do saber. De concordar, quem está com a razão, de quem está certo e é muito mais difícil você estar junto de coração, porque se você estiver junto de coração não importa quem tá com a razão.

REALIDADE E DESILUSÃO

Que você vai se afastando cada vez mais da realidade e cada vez vai ficando mais distante de aprender a lidar com esta mesma realidade. E o grande problema da realidade é que cada aspecto da realidade que você reconhece é uma desilusão.

O QUE É PSICANÁLISE 

Hoje a psicanálise é bem diferente do que aquilo que foi quando o Freud começou a desenvolver. Quando o Freud desenvolveu, ele tinha, ele começou pela técnica da hipnose. Ele tinha propostas que na nossa prática clínica hoje não fazem muito sentido. A gente tem uma outra metodologia. Uma das questões fundamentais é que o Freud tinha uma característica muito mais paterna, da figura paterna, dos fatores da função paterna. A prática clínica dele acabava sendo formatada como o modelo do pai. A partir da introdução da Melanie Klein, a gente vai criando, vai introduzindo, a gente vai vendo ser introduzido, um modelo materno, um modelo que inclui os fatores da função materna. O Winnicott traz a questão do holding, do handling, da apresentação do objeto, que são características que também são presentes na prática clínica. E aí, com o Boin isso fica mais evidente ainda, quando ele coloca a ideia da continência, da função-alfa. Todos esses elementos que estão presentes também na função materna. Isso não quer dizer que os fatores da função paterna foram perdidos, mas que acrescentou-se as questões da função materna também na prática da psicoterapêutica psicanalítica.


AMBIENTE DE PASSAGEM

A gente tem a noção, dentro dessa prática psicanalítica contemporânea de que a psicanálise é um ambiente de passagem. Então, não é um ambiente de conhecimento. mas é um ambiente de reconhecimento. A cada encontro, se propor a conhecer novamente, como se nunca tivesse conhecido.

DEPRESSÃO PUERPERAL

Quando a gente fala dessa depressão puerperal, depressão pós-parto, quando o casal está integrado, o companheiro, o pai ele vai sofrer tanto quanto a mãe. E a gente não está falando aqui de uma depressão pós-parto patológica, a gente está falando deste luto da mãe que precisa abrir mão da sua própria vida pela vida do bebê que está nascendo e depois uma série de outros lutos, essa coisa do afastamento, do desmame do afastamento da a criança, que vai se desenvolvendo. Então, o companheiro, o pai também vai sofrendo tudo isso, se ele estiver integrado no casal. A mãe se afastando do bebê é um modelo de desintegração. Algo que estava junto que agora se separa fisicamente, mas emocionalmente, acontece o inverso, que é a integração. O físico desintegra, o emocional se integra. E a função paterna é justamente aquela que vai vir para dar esse formato, esse acolhimento, continência para essa integração.

MULHER E MÃE

A mulher deixa de ser mulher para ser mãe e depois que a criança começa a se desenvolver, ela precisa voltar a ser mulher. Claro, que isso tudo simbólico. Ninguém está falando aqui, que uma coisa anula outra, mas ela precisa colocar em standby, por assim dizer, a sexualizada feminina, no momento em que ela está ali na maternagem e depois ela precisa retornar com esse teor feminino. Assim que a criança começa a se desenvolver e isso é um grande problema. Muitas vezes, a mãe nunca se sentiu muito bem integrada sendo mulher. Ela sempre se sentiu muito insegura sendo mulher e ela acaba se implicando na função materna de uma maneira tão viciante, por assim dizer, que depois ela sente uma dificuldade muito grande em voltar a ser mulher, que é num formato onde ela tinha grande segurança.

DEIXAR DE SER

O fluxo da vida está muito mais em “deixar de ser”, do que “tornar-se”. Maturação é tolerar deixar de ser, não tornar-se alguma coisa. Desde pequeno, a gente aprende aquilo que a gente deveria ser. Existe uma expectativa, na verdade, existe uma expectativa antes mesmo da gente nascer, já existia uma expectativa. Um fluxo saudável da vida é justamente desobstruir todos esses “deveria ser” para conseguir um “deixar de ser”.

NECESSIDADE DA FUNÇÃO PATERNA

O homem foi se afastando da família, essa família foi aprendendo “dar um jeito” de viver sem esse homem e acaba com que a sociedade hoje recusa o reconhecimento da necessidade da função paterna presente. E aí, a gente vai percebendo homens inseguros do que é ser homem quando ele precisa tomar uma atitude e mulheres que não são capazes de avaliar os homens dos quais ela vem se envolver. São dois desdobramentos dentre vários que são os prejuízos da ausência da função paterna.

AUSÊNCIA PATERNA

Dos maiores prejuízos na função paterna e não do pai, porque não é necessariamente o pai biológico, mas é um sujeito masculino que possa exercer a função paterna. A ausência dessa função paterna, me parece que traz dois grandes prejuízos. Um deles a dificuldade de reconhecimento de limites e o outro é a dificuldade de provisão, de ser capaz de prover. Um primeiro momento, prover-se a si mesmo, em segundo momento prover o lar. Então, nós vemos umas uma sociedade onde a falta de limites, a falta da capacidade de reconhecimento de limite, de respeitar o limite de si mesmo, seja se colocando em situações de risco e dificuldade de reconhecer o limite do outro, onde o sujeito abusa do outro e também a dificuldade de dar manutenção a sua auto-provisão, administração financeira. E quando o sujeito não consegue fazer isso consigo mesmo, muito menos ele vai conseguir com a família, ou qualquer outra instancia que ele precisar.

VÍCIO NO FRACASSO

Muito se fala hoje de relacionamentos tóxicos. Essa ideia se expande, não só para os relacionamentos, mas ela também se expande à substâncias tóxicas, ou qualquer coisa que possa fazer mal para o sujeito. O grande problema está por trás do uso da substância, ou por trás do relacionamento tóxico. Muitas vezes, existe algo por trás que faz com que o sujeito busque o relacionamento tóxico, busque o uso da substância. Um dos casos mais difíceis de tratar, esse tipo de situação, é quando o sujeito se sente merecedor daquilo. Quando, o sujeito não é viciado na substância, mas ele é viciado no fracasso de estar usando aquela substância. Ele não está implicado num relacionamento tóxico com o outro, mas ele está implicado num relacionamento tóxico com ele mesmo e não se sente merecedor de um relacionamento saudável e aí, isso é extremamente difícil de tratar.

DEVERIA SER

Na realidade, o sujeito acaba não confiando em si mesmo, não confiando na sua autoavaliação e ele acaba usando o critério do outro para estabelecer aquilo que ele deveria ser e é uma grande emboscada, porque esse deveria ser é insaciável. Ele não vai conseguir nunca exatamente suprir isso.

SENTIR DOR OU SOFRER

Parece que existe uma diferença muito grande de sentir a dor e sofrer a dor. O sujeito pode estar sentindo a dor, mas não ser capaz de se submeter ao processo de sofrer essa dor. Porque, quando ele sofre a dor acontece a transformação. Uma coisa é você padecer da dor e outra coisa é você sofrer a dor. Quando você padece da dor, você está num estado cristalizado que não tem transformação. Quando você passa a sofrer a dor, aquilo ali, vai te proporcionando a possibilidade de mudança e transformação.


RECONHECIMENTO

Transformação é um resquício daquilo que falhou lá atrás, na primeira infância.  A criança não pode ser reconhecida pelos seus pais e ele acaba tendo um autoreconhecimento deficitário e ele passa a vida toda procurando a aprovação do outro, porque na realidade não foi reconhecido.





quarta-feira, 24 de abril de 2024

SEM MEMÓRIA - Prof. Renato Dias Martino



Um psicanalista não pode se utilizar daquilo que ele registrou na memória. Isso é nocivo para o processo psicoterapêutico. Um psicanalista, segundo a orientação de Wilfred Bion, precisa ser sem memória, que ele possa rebaixar ao máximo o seu resgate dos dados que foram armazenados na memória.

LEMBRAR OU RECORDAR

 Precisamos, diferenciar duas experiências. A experiência de resgatar dados da memória e a experiência de recordar. Resgatar dados da memória é uma experiência calculista, é uma experiência que faz com que você tente se lembrar de alguma coisa para justificar algo que você não está conseguindo viver no presente. Recordar é algo que surge, é algo que brota é algo que vem por conta de uma configuração saudável do presente. RE, quer dizer de novo, COR, quer dizer coração e DAR, quer dizer doar. Então, recordar é dar mais uma vez para o coração e isso é saudável, isso é terapêutico. Eu poderia ficar aqui horas tentando te explicar a diferença de uma coisa e de outra, mas você vai precisar viver isso na sua prática, para você perceber que você não resgatou aquilo na memória, você não buscou aquilo para justificar alguma coisa que estava desconfortável no presente, mas aquilo brotou por conta de uma experiência afetiva que aconteceu no presente.

IMPORTÂNCIA DO PRESENTE 

 Quando eu realmente me importo com o que está acontecendo aqui e agora, aquilo que passou vai perdendo a importância. Aquilo que passou só ganha importância quando eu não estou sendo capaz de me importar com o presente, com aquilo que está acontecendo agora. Quanto mais eu me preocupo com o futuro, ou me entulho do passado, eu não consigo me ocupar do presente. 

JUSTIFICA O PRESENTE PELO PASSADO

Quando eu não estou conseguindo justificar o presente pelo próprio presente... Aliás, o presente não precisa de justificativa. Quando eu não consigo viver o presente pelo próprio presente, eu começo a tentar resgatar aquilo que passou para trazer álibis condenatórios para pessoa da qual eu estou discutindo. “É, mas, ontem não sei o que.” “É, mas, semana passada não sei o que mais.” Isso quer dizer que eu não estou conseguindo viver o presente, mas eu preciso resgatar alguma coisa que passou para justificar o meu descontentamento.

O BARQUEIRO

Quando a gente está angustiado quando a gente está ansioso a gente tende a resgatar dados da memória, a gente tende a resgatar algo do passado. Um barqueiro fazia o translado das pessoas de um porto para uma ilha. Ele era um barqueiro e fazia isso num ponto turístico. Um casal entrou, num dia de nevoeiro, entrou no barco para ser levado até a ilha e o barqueiro começou a remar olhando para trás. O sujeito que estava sendo transportado perguntou para ele assim: “mas por que que você fica olhando para trás?” Ele falou: “Porque o nevoeiro me obstrui a visão da ilha, então, eu preciso me basear no porto, até que esse nevoeiro possa se dissipar e eu consiga enxergar a ilha.” Então, todas as vezes que a gente tiver obstruído de olhar para frente, a gente vai olhar para trás, mas isso precisa ser temporário. Isso precisa ser só naquele momento, onde eu não tenho outra referência, porque se eu continuar olhando para trás, eu vou tropeçar no meu caminho.

REGRA RÍGIDA

Se eu tomo essa coisa de não resgatar dados da memória como uma regra rígida, que eu preciso ficar me policiando, você sabe o que que vai acontecer? Eu vou resgatar algum dado de memória porque eu sou humano, eu vou ficar preso nisso e não vou conseguir para frente, eu vou ficar me julgando e me cobrando de ter lembrado alguma coisa da memória e não consigo ir para frente. Então, eu lembrei ponto. Tudo bem! Não tem problema. Vamos embora. Vou tentar não lembrar mais.

ANGÚSTIA

Todas as vezes que o sujeito tenta intervir no passado, naquilo que ficou registrado na memória, para mudar aquilo, ou até para se julgar, se condenar por conta de alguma coisa que ficou no passado, isso gera um sentimento de angústia. Então, a angústia é essencialmente gerada por algo que ficou no passado e o sujeito tem o desejo de mudar. 


SINTOMA NEURÓTICO

O passado é justamente o tempo do sintoma neurótico. O sintoma neurótico é, por assim dizer, uma âncora que ficou no passado. Então, o sujeito viveu alguma coisa e não consegue soltar desta ideia e ele fica rememorando esta ideia, não permitindo que essa ideia fique no seu tempo adequado que é naquilo que passou e ele traz aquilo de volta. Quando aquilo vem, ele manifesta o seu sintoma dentro da configuração neurótica, o sujeito que tem a predominância neurótica na mente é aquele que está preso em alguma experiência que aconteceu no passado. Isso obstrui o fluxo do funcionamento emocional afetivo ou o fluxo da mente.

REGISTRO DO PASSADO

Quando a gente fala assim: “eu lembro” de algum fato, na verdade você não lembra do fato, você lembra daquilo que você pôde registrar deste fato. Ninguém é capaz de registrar um fato como um todo, mas você registra aquilo que foi possível obter enquanto panorama do que estava acontecendo. E muitas vezes, a gente julga isso como o todo. Aliás, este é um grande problema da história, com “HI” e dos livros de história. Quem escreveu o livro de história, quem registrou aquilo, na verdade registrou a partir de uma percepção de parte do que aconteceu, de uma ínfima parte do que que aconteceu. Porque, a maior parte do que aconteceu ele não pode registrar. Mas, ainda assim, aquilo é tido como uma verdade. Muitas vezes, o sujeito que tem a predominância neurótica da mente, muitas vezes o sujeito que tem um sintoma neurótico, padece por se condenar, por conta de um registro da memória que, na verdade é um fragmento e não é a totalidade do que aconteceu. E ele está ali, se condenando por alguma coisa que na verdade ele conseguiu registrar apenas um pedacinho do que aconteceu na totalidade.

DESAPEGO DO BENEFÍCIO

Para ser capaz de não ficar resgatando dados da memória, não ficar se lembrando de coisas que, na verdade já passaram e que hoje já não importam mais, eu preciso antes me desapegar me depreender do benefício que me faz ficar lembrando disso tudo. E muitas vezes, fica parecendo até meio estranho perguntar por exemplo para o outro, qual o benefício que ele tem de ficar se lembrando o tempo todo de uma experiência horrível que aconteceu no passado. Benefício de se sentir o “coitadinho”, tem o benefício de se sentir melhor do que o outro, porque conseguiu ultrapassar por aquela experiência. Só que esse benefício vem junto com uma série de ônus também.



quinta-feira, 18 de abril de 2024

BREVE REFLEXÃO SOBRE A PSICANÁLISE NOS TEMPOS DE HOJE

Das Mudanças Culturais e Tecnológicas


É função da psicanálise, independente da capacidade de cada psicanalista, a de transformação e adequação a novos modelos. Uma psicanálise enrijecida, ou cristalizada nos seus modelos é uma psicanálise morta e isso vale para cada sujeito que se propõe à sua prática. Com o fenômeno recente da pandemia do coronavírus, houve grande necessidade de adaptação tecnológica. O formato virtual, nos atendimentos online tornaram-se um importante recurso por conta da necessidade do afastamento físico, pelo risco de contágio. No entanto, no que se refere às questões culturais, não acredito que a psicanálise deva se ocupar de adaptação.  A atenção da psicanálise deve estar no âmbito do funcionamento emocional que, por sua vez, dá sustentação ao funcionamento afetivo e isso está compreendido numa dimensão independente das tendencias culturais ou ideológicas.

Não vejo diferença entre a psicanálise que possa ser aplicada num sujeito que viva na cultura brasileira, com a psicanálise que possa ser aplicada num outro sujeito de uma cultura diferente, ou ainda, na cultura do passado, ou mesmo, na contemporânea. A real psicanálise se presta a cuidar de elementos como amor, respeito, tristezas, ansiedades, angústias, e outros elementos do funcionamento emocional, desdobrando-se no âmbito afetivo. Estes elementos estão incluídos numa ordem que independem da tendencia cultural ou propostas ideológicas.

Da Ética Psicanalítica na Era Digital


A ética deve estar presente na prática da psicanálise, independente da modalidade de atendimento. A saber, a possibilidade de rebaixamento da influência moral para o enriquecimento ético é justamente, uma função da psicanálise. O respeito é elemento indispensável tanto no modelo presencial como no atendimento online. Da mesma maneira, dentro do âmbito das redes sociais, penso que um psicanalista real irá se manifestar dentro de uma atmosfera de respeito.


Da Patologização, do Diagnóstico Rotulador e o Medicamento que Alivia a Dor


Numa psicanálise real, que esteja cumprindo sua função, não se inclui os diagnósticos nas catalogações psiquiátricas. O respeito à forma de funcionar de cada um, em suas peculiaridades, assim como o respeito ao tempo que cada um leva nas transformações dentro do dos processos emocional e afetivos é indispensável numa prática bem-sucedida na clínica psicanalítica. A medicação psiquiátrica parece ser um fator obstrutor no fluxo bem-sucedido do processo psicanalítico, já que todo o trabalho da análise se inicia, se mantem, pela dor psíquica que é sua motriz. O que move o processo psicanalítico são as ansiedades e angústias, logo, quando esses sentimentos são suprimidos, o motivo da análise também se ausenta. A analisabilidade, ou seja, o nível de disposição ao processo psicoterapêutico, inclui a coragem de sofrer a dor para que se aprenda a tolerar desconfortos. Sem dor, sem psicanálise.

 

Da Formação dos Novos Psicanalistas


Vejo frequentemente nas redes sociais, divulgações de cursos de formação, cada vez mais breves. Na realidade, independente da época, a orientação de Freud, feita em 1919, em seu importante texto, SOBRE O ESTUDO DA PSICANÁLISE NAS UNIVERSIDADES, é elemento invariante na formação do psicanalista. O pai da psicanálise é categórico quando propõe o tripé contínuo e constante.

A análise pessoal, a supervisão feita por um colega mais experiente sobre os casos atendidos e o estudo teórico, de preferência em grupo. Isso qualifica o sujeito à prática da psicanálise, não um curso de formação. A dedicação à sua análise pessoal é mais importante do que os estudos teóricos, na formação do psicanalista. 




quinta-feira, 11 de abril de 2024

AMOR E FELICIDADE - Prof. Renato Dias Martino


Lá em 1914, no SOBRE O NARCISISMO: UMA INTRODUÇÃO, o Freud coloca a ideia lá, do amor feliz, para ele. Essa palavra feliz, para mim não faz muito sentido. Um amor feliz. Amor é dor. Amor não tem felicidade. Que felicidade tem no amor? Nenhuma! Amor é renúncia, amor é dor. Ama aquele que é capaz de tolerar a dor. Se você está buscando felicidade, não é amor que você vai buscar, você vai buscar paixão, você vai buscar qualquer outra coisa que é satisfação. A felicidade depende da ignorância. Quanto mais ignorante o sujeito for mais ele é feliz. O amor feliz para Freud que eu colocaria como amor saudável é aquele em que a libido objetal coincide com o a libido do ego. Este aí talvez, seria o amor saudável.

FELICIDADE E ALEGRIA

Um distanciamento enorme entre o conceito de felicidade principalmente este cultivado na contemporaneidade, com experiências como contentamento, alegria. Ninguém busca alegria, ninguém busca contentamento, elas são um estado de espírito que vem quando há uma configuração adequada para que elas possam vir. Agora, a felicidade é aquilo que o sujeito fica buscando o tempo todo, se ocupando em buscar, em detrimento de se preparar para tolerar dor. Se preparar para os dias difíceis. Felicidade se busca, alegria e contentamento vêm sem que eu precise buscar.

AMAR E SER AMADO

Enquanto o bebê, e isso se estende ao adolescente e ao adulto, enquanto o sujeito estiver se sentindo desamparado, inseguro de si mesmo, ele não é capaz de amar. Ele vai se ligar as pessoas para obter um benefício, ele vai se ligar as pessoas por conveniência. Ele precisa desenvolver isso. E como é que ele desenvolve isso? Sendo amado! Ele precisa ser amado e ser amado realmente, para que ele possa aprender a amar a si mesmo, aprender a reconhecer o limite de si próprio e estender isso ao outro. Reconhecer o limite do outro e aprender a amar o outro.



quinta-feira, 4 de abril de 2024

BENEFÍCIO NO SINTOMA - Prof. Renato Dias Martino


O sujeito que tem uma dificuldade no funcionamento emocional afetivo, o sujeito que muitas vezes busca psicoterapia, manifesta um problema, ele manifesta um sintoma neurótico, ou um sintoma muitas vezes até psicótico, que na verdade, é alimentado pelas pessoas que convivem com ele. As pessoas têm um interesse que ele continue funcionando daquela forma e a memória é um elemento presente nisso que eu estou dizendo. Muitas vezes, o sujeito não consegue permitir a transformação dele próprio, porque as pessoas esperam que ele continue sendo a mesma pessoa e não permitem que ele se transforme. Cada característica que ele apresenta de transformação de si mesmo é seguido por uma reprovação do outro. E aí, ele começa a ficar com medo dessa transformação e muitas vezes obstrui essa transformação de acontecer.

GANHO PRIMÁRIO E SECUNDÁRIO

Os benefícios de uma neurose, ou os benefícios de uma psicose não são só do sujeito que apresenta aquelas características, mas também são das pessoas que convivem com ele. Cada sintoma que o sujeito apresenta, não é só um malefício, mas tem por trás um benefício. E na verdade, não só um, mas vários. O próprio Freud falou do benefício primário que é a vazão da pulsão que estava ali reprimida e o benefício secundário que passar a ser visto pelo outro por conta daquele sintoma.

BENEFÍCIO DO OUTRO

Como o sujeito se sente saudável quando ele convive com alguém supostamente doente emocionalmente! Então, ele se sente o saudável e fala assim: “Esse daí tem problema.” “Esse aí precisa de terapia.” “Eu sou o saudável, eu não preciso.” Conviver com alguém, atribuindo a ele um problema psicológico é extremamente conveniente para aquele que não é capaz de se responsabilizar pelos seus problemas.

CORAGEM DO MAIS SAUDÁVEL 

A maioria das pessoas que procuram psicoterapia, são justamente as pessoas mais saudáveis da casa, da família. São justamente essas pessoas que tiveram a coragem de buscar ajuda, enquanto os outros estão extremamente implicados em seus sintomas e muito bem articulados com eles.

CHANTAGEM EMOCIONAL  

Uma pessoa fica o tempo todo condenando a outra por algo que aconteceu no ano passado, há cinco anos atrás, há dez anos atrás. Ela passa uma vida justificando a sua incapacidade de estabelecer um vínculo saudável com essa pessoa, por algo que aconteceu há muito tempo atrás e fica ali torturando, incitando remorso nessa pessoa, para conseguir um benefício com isso. Sendo que hoje aquilo já não existe mais. O sujeito que não está sendo capaz de amar pode encontrar na culpa um elemento que garanta que ele não vai ser abandonado. Ele não conseguia que o outro se dedicasse a ele pelo amor e agora, a partir de um evento que ele pode condenar o outro e incitar o remorso, ele começa a conseguir que o outro faça as coisas para ele.