segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Busca pelo sucesso

José de Sousa Saramago
(Azinhaga, Golegã, 16 de Novembro de 1922 -
Tías, Lanzarote, 18 de Junho de 2010)
De certa forma, o ser humano sempre buscou o sucesso (e ainda hoje o faz), porém, me parece que o objetivo obter sucesso, tem deslocado seu foco, ou seu objeto. Não seria um absurdo dizermos que a busca do “ser” vem sendo substituída pelo “ter”. Tem uma frase muito linda de José de Sousa Saramago (1922 — 2010)  (Nobel de literatura) que diz assim: “Ter é a pior forma de amar e amar talvez seja a melhor forma de ter”. Podemos pensar, por exemplo, o sucesso na busca pelo concreto, o dinheiro, por exemplo, a maior expressão disso, “vale um por um”, não é?
O sujeito busca mais e mais, pois na verdade não é isso o que realmente busca.
Assim como o obeso busca na comida (seio) o substituto do amor (mãe) perdido. No outro extremo, a busca do sucesso naquilo que talvez, tivesse importância crucial, e digo isso pesando naquilo que está implicado em todas as outras buscas, inclusive na busca do próprio dinheiro. Estou tentando falar sobre o sucesso na busca por si mesmo, onde realmente está nosso desejo e não aquilo que me faz maior em comparação ao outro. Penso que o sucesso sem limite me sugere uma busca do triunfo sobe o outro. O que destoa completamente de uma busca sadia pela expansão mental e o crescimento espiritual, onde se encontra a capacidade de amar.
Quem é capaz de “ser” certamente achará um jeito de “ter”, entretanto o “ter” nunca garantira o “ser”. Isso só se consegue na busca pelo reconhecimento do eu. Quando estamos mais próximos de nossas verdades (desejos e medos), estamos mais próximos também de nossas possibilidades e somos menos atormentados por um “ideal de eu” (Freud 1934) exigente e impiedoso, que nos cobra o tempo todo.




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Prof. Renato Dias Martino

Psicoterapeuta e Escritor
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sábado, 9 de outubro de 2010

A Caridade e o Ato de Amor



A proposta de pensarmos certos conceitos dos quais nos baseamos para viver como padrões já estabelecidos e que são muito mais derivados de conceitos herdados do que de experiências que levaram à compreensão da própria realidade, esbarra num incômodo. Incômodo esse gerado ao colocarmos em jogo o conforto que se pode desfrutar estando sob certas doutrinas e leis das quais se encontram saturadas de certeza. O conceito de caridade é um bom exemplo de uma ideia que só se faz integral enquanto pensada e repensada constantemente. O sentido de certo conceito de tamanha importância, só se faz possível, se submetido a um constante questionamento quanto a sua autenticidade e base ética. Para esse exercício é imprescindível a pergunta: ‘por que estamos sendo caridosos?’ e seu extremo oposto, ‘por que desejamos receber caridade?’ Porém, antes disso seria útil pensarmos a origem do conceito, ou com que intuito ele foi criado.
A terminação

O nome ‘caridade’ é um derivado de carência, que por sua vez, significa falta ou até uma necessidade que clama por ser suprida. Sendo assim, implica em uma relação entre uma parte carente e outra que possa suprir. A caridade é um gesto muito poderoso, contudo, requer capacidade de perceber certos limites, caso contrário, existe o perigo de se instalar uma vínculo doente, entre as partes.

A caridade e o gesto afetuoso

Penso não ser adequado atribuir à caridade o sinônimo de sentir prazer ou o ato de proporcionar prazer. Se não com limites, o ato de caridade pode se transformar no mal que aprisiona e não deixa crescer. Digo isso, pois, muitas vezes o gesto de amor pode ser justamente representado por um ‘não’. Isso se tratarmos aqui, de certa intenção afetiva, ou seja, cunhada no amor. É muito importante estabelecer relações caridosas quando realmente se pode perceber que ocorre a incapacidade de produção ou realização daquele que é ajudado, do contrario o que se faz é prejudicar e desvalorizar a capacidade do outro. Assim, é bom que o caridoso seja capaz de perceber que a caridade deve perder seu efeito afetivo (positivo) assim que o ‘carente’ desenvolva a capacidade de fazer por si. Contudo, para tanto, é necessária certa capacitação emocional, no intuito de exercer isso que poderíamos chamar de “caridade ética”. Essa modalidade de caridade é algo que parte de uma experiência interna e se projeta no mundo em direção ao outro. Do contrario estaríamos falando de uma forma de demagogia. O que poderíamos chamar de palavras vazias.

Caridade negativa


A caridade pode partir de uma experiência da qual o sujeito possa ajudar alguém num momento difícil da vida, porém, pode ser também oriunda de culpa, onde o sujeito doa ao outro e assim reduz a carga da culpa que possa carregar por algum motivo. No segundo caso, pela ‘vista grossa’, o que pode parecer caridade revela-se, pensado de forma mais cuidadosa, como um ato extremamente narcisista. Nesse modelo de relação o outro é simplesmente um instrumento de satisfação ou afastamento de desconforto. Usado, em muitos casos, para reafirmar uma posição de poder.
Se estivermos falando então de um modelo ético de caridade, logo, isso partirá de experiências da bondade que a criança possa ter, em sua relação primaria, com os pais ou aqueles que ocuparam essa função. Sendo assim, a caridade (assim como outras ações éticas) deve ser incorporada pela criança através de identificação no vínculo com os pais, nunca ensinada como algo moralmente imposto.

Caridade com o si-mesmo


A capacidade de caridade é uma extensão da capacidade de amar que se pode ter por si mesmo. Quero propor que, aquele que pode criar uma relação afetiva com o si mesmo, através de suas realizações já prepara assim, o lugar do outro em sua vida. A ideia ficaria mais ou menos assim: Só pode ser caridoso com o outro aquele que cuida (é caridoso) de si mesmo. 
A construção de conceitos dessa importância, assim como repensá-los, é tarefa para dedicação constante e até de manutenção incessante.
Isso ocorre na medida em que se possa ser capaz de empatia, que é a capacidade de se colocar no lugar do outro e posteriormente retornar ao seu lugar de origem.






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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Encontro Filosófico


MECANISMOS DE FORMAÇAO DA INVEJA
O OBJETIVO É CONHECER PERSPECTIVAS PSICOLÓGICAS SOBRE O SENTIMENTO DE INVEJA E COM AUXÍLIO DO PENSAMENTO PSICANALÍTICO CRIA ESPAÇO PARA COGITAR A POSIÇÃO DESSA ORDEM DE SENTIMENTOS DENTRO DOS PROCESSOS PSÍQUICOS.
ESTÃO CONVIDADOS ALUNOS DO CURSO DE PSICOLOGIA E À COMUNIDADE EM GERAL.
O ENCONTRO SERÁ COORDENADO PELO Professor: RENATO DIAS MARTINO
Data: 02 DE OUTUBRO DE 2010
Horário: 14:00 ÀS 16:00 HORAS
Local: UNILAGO
Participação sem custo
Vagas limitadas
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domingo, 5 de setembro de 2010

CIGARRO E LIBERDADE


É interessante observar um adolescente, hoje cada vez mais jovem, se arriscando na solitária e perigosa experiência com cigarros. Quando toma em sua a mão e traga do cilindro de tabaco, o faz experimentando de uma sensação de liberdade que o arremessa para o lado oposto ao das amarras que o envolviam até ali, em sua vida infantil, onde era submetido aos cuidados e à autoridade dos pais.


O cigarro pode se tornar, naquele momento um símbolo de uma nova proposta de ‘vida’, que o emancipa da condição onde recebia certa proteção, assim como provisões para sobreviver, contudo também responsável por um sentimento crescente de submissão e até mesmo de impotência, sob o domínio da autoridade dos pais. A liberdade é então, cultuada pelo fumante novato em uma nuvem de fumaça que se forma em desenhos psicodélicos no ar, na medida em que a brasa corre pelo cilindro branco até atingir o filtro.


Durante esse ritual solitário, poderosas substancias químicas, corroboram com todo valor simbólico de algo que se coloca na boca para se acalmar – se pudermos aqui usar da subjetividade e nos arriscarmos em uma analogia, poderemos perceber grande semelhança com a relação que o bebê pode ter com o seio (ou mamadeira).


O orgulhoso mancebo enche seus pulmões de fumaça e assim sente-se no topo de sua liberdade e independência. Gesticula trejeitos que em certos momentos até pode convencer, pelo ar de maturidade, que a liberdade de fato se estabelece naquela nuvem de carbono.


O mais curioso nessa relação é que estamos tratando de um modelo de vínculo que em primeiro momento parece ser a solução para certo problema, mas que gradualmente se revela como problema maior. Falo de um representante da liberdade que se tornou prisão.


O cigarro é um bom exemplo dessa qualidade de vínculo, porém, esse formato de relação transcende o exemplo aqui proposto, já que é um modelo de vínculo ocorrente em relação a coisas e também entre pessoas.


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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O Filho Não É

O filho não é o desejo dos pais, mas depende disso na empreitada de ser ele mesmo. Quero dizer que é muito importante para um desenvolvimento emocional saudável que antes do filho, tenha vindo o desejo de concebê-lo. 

Parece-me que isso é um fator preponderante no desenvolvimento da vida mental. Assim, quando não foi possível, resulta num grande vazio na alma. Profunda dor em alguém, que assim, dependerá de forma especial, das experiências de vinculação primitivas para resistir e persistir nessa tarefa tão difícil que é o reconhecimento da realidade do mundo e de si mesmo. Quero propor que aquele que não foi amado por seus pais enfrentará naturalmente a dificuldade de aceitar o amor de qualquer outra pessoa.

O filho e o desejo se confundem no inicio, mas essa ideia precisa expandir-se constantemente na direção da diferenciação do filho ideal e o filho real. Não é uma proposta a minha de escrever textos com “receitas de como educar os filhos”, antes disso tento focar o desenvolvimento emocional e a construção da capacidade de vínculo com o mundo, ou seja, a saúde mental.

Proponho assim, que o desejo evolua na medida em que o filho ganhe maturidade e passe a reconhecer seu próprio desejo. A vida emocional desse filho estará vulnerável na medida em que o desejo dos pais não pode evoluir. Falo da ‘con-fusão’ entre o real e aquilo que se deseja que o real seja. Agora falamos sobre o conceito de “ideal”.
Da mesma forma, muito da capacidade de ser pai-mãe, vem da qualidade que se pôde ter na experiência de ter sido filho. Quero propor que as experiências infantis das quais viveram faltas severas, tendem a se transformarem em impulsos narcísicos que buscarão incessantemente um espelho no real, para serem projetados e vividos no outro. Veja que, por esse vértice, percebemos uma forma de desejo cristalizado dos pais projetados no filho. São resquícios de impossibilidades na história do desenvolvimento emocional do progenitor.


sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Tédio

Filosoficamente poderíamos descrever o tédio como um estado de espírito onde o fato futuro não tem representante na expectativa. É talvez, estar ‘nem aí’, na linguagem coloquial.
Assim como uma espécie de aborrecimento onde vemos as coisas do mundo com certo desinteresse. Certo funcionamento da mente onde elementos como fervor, entusiasmo ou impetuosidade, se encontram inoperantes.

O tédio parece ser algo que é vivido tão introvertidamente, que muitas vezes torna-se um estado emocional extremamente sutil, distante dos olhos alheios. Por conta desta falta de veemência, o tédio acaba por não encontrar lugar significativo na literatura psicanalítica, ou nos estudos feitos pela psicologia, seja ela qual for a abordagem que utilize. Porém, o fato da manifestação psíquica muitas vezes não se revelar externamente e não se encontrar veemente, não reduz sua importância no funcionamento mental do sujeito e na influencia que ocupa nas escolhas da vida de cada um de nós.
Uma criança, possivelmente ilustraria esse estado como “nada pra fazer”. E a partir desta teoria infantil (na minha visão, a mais próxima de um estado desprovido de defesas, logo mais próximo da realidade), e pela ausência de uma teoria mais bem elaborada, podemos arriscar criar alguma tentativa de unir alguns pontos desse assunto. Isso no intuito de gerar um símbolo do que seria tédio. Criar a partir de um olhar mais atento, um sentido para compreendermos o porquê e como nos ocorre o tédio.

A criança pode fazer uso do tédio como um ensaio da separação da mãe, ainda na presença dela. Uma tentativa de pensar-se a si mesmo sem aquilo que mais se valoriza na vida. Estar ‘nem aí’, talvez seja estar mais ‘aqui’, no agora, onde o real acontece. Dessa maneira, se pensarmos na maturidade como missão humana do desenvolvimento, a capacidade de entediar-se pode ser uma conquista na independência da criança. Um ensaio da perda, inevitável. Um momento na vida que nos propomos a sentir o vazio interior, um sentimento que pode sugerir certa angústia e que assim, gera esse estado de quietude e marasmo interior. Na verdade é o resultado da percepção interior de algo que habita a alma. Alguma coisa que faz parte dela, mas que, normalmente (até prudentemente, em certos momentos) evitamos senti-la ou sofrê-la. Quando digo “sofrê-la”, penso na ambiguidade do termo, pois a vida é um processo e sendo assim, não o sofrer caracteriza certa ação (não-ação) patológica. Um obstáculo no viver.
Steven Tyler
O roqueiro Steven Tyler, vocalista da banda Aerosmith, em uma entrevista sobre as dificuldades que enfrentou na busca por livrar-se de sua relação compulsiva com as drogas diz: “A única forma da coisa passar é passando pela coisa”. Se pensarmos o tédio como um momento da vida emocional, perceberemos um tempo mental onde a pressa não parece encontrar lugar. Passamos então, a olharmos o termo que denomina essa experiência com outros olhos, diferente daquele da colocação popular sobre o tédio.
Donald Woods 
Winnicott (1896 - 1971)
Dessa forma, é muito interessante percebermos aspectos internos e externos. Isso quando a exigência social entra em contraste com nosso estado de espírito. Perceba como alguém sem pressa incomoda o homem moderno, que corre desesperado atrás de “sabe-se lá o que”. Por essa decorrência, amiúde criamos um “falso eu”, como coloca Donald Woods Winnicott (1896 - 1971) pediatra e psicanalista inglês, ou como o psicólogo suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) denomina o arquétipo da “Persona” (parte do eu que existe para satisfazer o outro), de tal modo, que nunca se entendia. Algo que é criado para satisfazer o outro, ou melhor dizendo, um eu criado para satisfazer a necessidade de sermos desejados pelo outro. Na predominância desse recurso, porém, abandonamos nosso eu real no quarto dos fundos de nosso interior, muitas vezes sem dar-nos conta disso. Pensemos na utilidade de através do tédio, repensar nossos objetos de desejo.



Prof. Renato Dias Martino
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segunda-feira, 28 de junho de 2010

Dor da Luz que Faz Viver













Dor da Luz que Faz Viver
Renato Dias Martino



A dor da luz que faz viver.
A dor conduz e faz saber.
Então seduz e faz crescer.



Quando adia a dor, paga dobrado.
Com a dor da inércia do inanimado.
Do ser dinâmico, e estar parado.



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segunda-feira, 21 de junho de 2010

A MELANCOLIA DE NORMAN BATES

Se partirmos de um pressuposto onde a cogitação criativa é de onde geram os pensamentos, talvez por seu inicial dês compromisso imediato para com a realização efetiva. O lúdico, tão valorizado nas teorias iniciadas por Melanie Klein (1882 – 1960). Não seria absurdo dizer que a saúde do aparelho mental então, é “poder avaliar a dimensão do que diz respeito ao objeto externo” e mais precisamente conhecer esse objeto enquanto representante do interno. Isso corresponde à proporção da falta interna relacionada a esse objeto. 

Falo aqui de um modelo semelhante ao usado por Sigmund Freud (1856 -1939) em 1917, quando relaciona a melancolia com a invasão do eu pelo objeto perdido. Então “a sombra do objeto recai sobre o ego”, diz o velho pai da psicanálise. Condição que rege o sujeito ameaçando a capacidade de viver o processo de luto. Freud descreve um modelo de luto que se dispõe como processo de tomada de consciência da perda real do objeto amado. Em 1917 o pai da psicanálise publica LUTO E MELANCOLIA que expõe justamente a disputa desses dois funcionamentos mentais pela regência do eu. Antes de tudo certo embate inexorável nos processos internos de cada um de nós.
Muito boa ilustração da manifestação melancólica está na obra do cineasta inglês Alfred Hitchcock (1899 – 1980), o clássico Psicose de 1960. No filme, o personagem Norman Bates, interpretado por Anthony Perkins (1932 – 1992) é um gentil cicerone em um motel a beira da estrada. Prestativo rapaz que reserva grande mistério por trás de sua simpática e bondosa figura externa. Travestido de sua velha mãe, já falecida, mata com facadas a personagem Marion Crane, que no filme original é interpretada por Janet Leigh (1927 – 2004). Uma bela moça que chega ao motel solicitando um quarto, depois de ter roubado uma boa quantia de dinheiro e decidido fugir. Sem saber do roubo praticado pela moça, Norman mata aquela da qual cortejava anteriormente. Muito provavelmente herdeiro da perversão da mãe, hoje ele disputa seu próprio corpo com a alma daquela que um dia o invadiu. Nesse caso, de cunho melancólico, o sujeito torna-se o objeto. Esse fenômeno acontece através do funcionamento do qual Freud denomina mecanismo de identificação. Essa talvez seja a única forma encontrada pelo melancólico, para suportar viver a perda daquele objeto do qual o sujeito dependia e que hoje sente a ausência. O caso toma proporções imensuráveis na medida em que essa dependência se da justamente na capacidade de desempenhar o próprio pensar.


O funcionamento mental do estado de melancolia, se da no ataque ao vínculo com a realidade externa. A projeção do ódio no mundo externo. A odiosidade investida a qualquer que seja o objeto externo que dispute lugar com o fantasma da mãe. A perseguição inunda qualquer que seja a figura do rival no que diz respeito à dedicação de interesse, ou como colocaríamos em psicanálise, qualquer que seja o investimento da libido.


Estamos aqui conjeturando sobre certa relação narcisista, que na situação de perda do objeto amado tem seu desfecho no estado de melancolia. Isso é na trama da película, o gerador do crime. A lembrança atormentadora da mãe, constantemente alimentada de culpas, obriga que Norman viva uma clausura em seu mundo interno. Assim, ele fica impedido de se dedicar a qualquer nova exploração no mundo emocional. A incapacidade de sonhar com a separação da mãe coage Norman a viver num pesadelo alucinado. A exclusividade afetiva que sempre inundara o vínculo narcisista (logo de cunho perverso), entre Norman e sua mãe, resultariam agora, num buraco negro na alma. Qualquer outra relação que se proponha e que não seja entre Norman e sua mãe traz também uma carga enorme de ideias persecutórias sobre o objeto. Ideias sempre geradas a partir de um ambiente repleto de culpa e incredulidade quanto ao mundo real, ou seja, aquele mundo externo ao vínculo fusionado. A experiência de dois corpos disputando uma alma tem como consequência agora num modelo onde duas almas disputam um só corpo. O estado de melancolia nos parece então, certa falha na difícil tarefa de continuar vivendo mesmo conscientes de tudo que perdemos e percebermos que perderemos tanto mais.


A incapacidade simbólica obriga o melancólico materializar o objeto que se foi no nível real sensório, mas isso ocorre em detrimento do próprio eu. Se for verdade que o símbolo é aquilo que fica no eu, enquanto não se pode confirmar no mundo real, com os órgãos dos sentidos, então assim como coloca Melanie Klein em 1930, o ego é estruturado através de símbolos, e cada falta da qual o ego toma consciência, expande-se e evolui a capacidade emocional. Esse processo de expansão poderia apresentar-se numa escala do pensamento que se dispõe como que em uma espiral progressiva. E assim como sugere Wilfred R. Bion (1897-1979) outro grande psicanalista contemporâneo e discípulo de Melanie Klein somos: “pensamento em busca de um pensador”. Cada pensador que encarna esse pensamento, também tem a chance de evoluí-lo por meio do seu próprio aprendizado adquirido em sua experiência.
A maior dor compreendida na psicose talvez esteja justamente no breve contato com a realidade. Curto mas doloroso momento em que se toma consciência de que não se suporta a ausência concreta do objeto. E isso coincide com a incapacidade de criação de símbolos, que é aquilo que sustenta a falta da realidade externa.

BION, W.R.(1992) CONVERSANDO COM BION. Quatro discussões com W. R. Bion (1978) Bion em Nova York e em São Paulo (1980)Rio de janeiro: Imago.
FREUD, Sigmund. EDIÇÃO BRASILEIRA DAS OBRAS PSICOLÓGICAS COMPLETAS – Edição Standard Brasileira, Imago (1969-80.
KLEIN, M, (1930) A IMPORTÂNCIA DA FORMAÇÃO DE SÍMBOLOS NO DESENVOLVIMENTO DO EGO. In: ______ AMOR, CULPA E REPARAÇÃO. Rio de Janeiro: Imago, 1996.