sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Tédio

Filosoficamente poderíamos descrever o tédio como um estado de espírito onde o fato futuro não tem representante na expectativa. É talvez, estar ‘nem aí’, na linguagem coloquial.
Assim como uma espécie de aborrecimento onde vemos as coisas do mundo com certo desinteresse. Certo funcionamento da mente onde elementos como fervor, entusiasmo ou impetuosidade, se encontram inoperantes.

O tédio parece ser algo que é vivido tão introvertidamente, que muitas vezes torna-se um estado emocional extremamente sutil, distante dos olhos alheios. Por conta desta falta de veemência, o tédio acaba por não encontrar lugar significativo na literatura psicanalítica, ou nos estudos feitos pela psicologia, seja ela qual for a abordagem que utilize. Porém, o fato da manifestação psíquica muitas vezes não se revelar externamente e não se encontrar veemente, não reduz sua importância no funcionamento mental do sujeito e na influencia que ocupa nas escolhas da vida de cada um de nós.
Uma criança, possivelmente ilustraria esse estado como “nada pra fazer”. E a partir desta teoria infantil (na minha visão, a mais próxima de um estado desprovido de defesas, logo mais próximo da realidade), e pela ausência de uma teoria mais bem elaborada, podemos arriscar criar alguma tentativa de unir alguns pontos desse assunto. Isso no intuito de gerar um símbolo do que seria tédio. Criar a partir de um olhar mais atento, um sentido para compreendermos o porquê e como nos ocorre o tédio.

A criança pode fazer uso do tédio como um ensaio da separação da mãe, ainda na presença dela. Uma tentativa de pensar-se a si mesmo sem aquilo que mais se valoriza na vida. Estar ‘nem aí’, talvez seja estar mais ‘aqui’, no agora, onde o real acontece. Dessa maneira, se pensarmos na maturidade como missão humana do desenvolvimento, a capacidade de entediar-se pode ser uma conquista na independência da criança. Um ensaio da perda, inevitável. Um momento na vida que nos propomos a sentir o vazio interior, um sentimento que pode sugerir certa angústia e que assim, gera esse estado de quietude e marasmo interior. Na verdade é o resultado da percepção interior de algo que habita a alma. Alguma coisa que faz parte dela, mas que, normalmente (até prudentemente, em certos momentos) evitamos senti-la ou sofrê-la. Quando digo “sofrê-la”, penso na ambiguidade do termo, pois a vida é um processo e sendo assim, não o sofrer caracteriza certa ação (não-ação) patológica. Um obstáculo no viver.
Steven Tyler
O roqueiro Steven Tyler, vocalista da banda Aerosmith, em uma entrevista sobre as dificuldades que enfrentou na busca por livrar-se de sua relação compulsiva com as drogas diz: “A única forma da coisa passar é passando pela coisa”. Se pensarmos o tédio como um momento da vida emocional, perceberemos um tempo mental onde a pressa não parece encontrar lugar. Passamos então, a olharmos o termo que denomina essa experiência com outros olhos, diferente daquele da colocação popular sobre o tédio.
Donald Woods 
Winnicott (1896 - 1971)
Dessa forma, é muito interessante percebermos aspectos internos e externos. Isso quando a exigência social entra em contraste com nosso estado de espírito. Perceba como alguém sem pressa incomoda o homem moderno, que corre desesperado atrás de “sabe-se lá o que”. Por essa decorrência, amiúde criamos um “falso eu”, como coloca Donald Woods Winnicott (1896 - 1971) pediatra e psicanalista inglês, ou como o psicólogo suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) denomina o arquétipo da “Persona” (parte do eu que existe para satisfazer o outro), de tal modo, que nunca se entendia. Algo que é criado para satisfazer o outro, ou melhor dizendo, um eu criado para satisfazer a necessidade de sermos desejados pelo outro. Na predominância desse recurso, porém, abandonamos nosso eu real no quarto dos fundos de nosso interior, muitas vezes sem dar-nos conta disso. Pensemos na utilidade de através do tédio, repensar nossos objetos de desejo.



Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
Contato: renatodiasmartino@hotmail.com   
(17) 3011 3866
Veja mais sobre o autor em: http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com/  

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Dor da Luz que Faz Viver













Dor da Luz que Faz Viver
Renato Dias Martino



A dor da luz que faz viver.
A dor conduz e faz saber.
Então seduz e faz crescer.



Quando adia a dor, paga dobrado.
Com a dor da inércia do inanimado.
Do ser dinâmico, e estar parado.



Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866
renatodmartino@ig.com.br
http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com

segunda-feira, 21 de junho de 2010

A MELANCOLIA DE NORMAN BATES

Se partirmos de um pressuposto onde a cogitação criativa é de onde geram os pensamentos, talvez por seu inicial dês compromisso imediato para com a realização efetiva. O lúdico, tão valorizado nas teorias iniciadas por Melanie Klein (1882 – 1960). Não seria absurdo dizer que a saúde do aparelho mental então, é “poder avaliar a dimensão do que diz respeito ao objeto externo” e mais precisamente conhecer esse objeto enquanto representante do interno. Isso corresponde à proporção da falta interna relacionada a esse objeto. 

Falo aqui de um modelo semelhante ao usado por Sigmund Freud (1856 -1939) em 1917, quando relaciona a melancolia com a invasão do eu pelo objeto perdido. Então “a sombra do objeto recai sobre o ego”, diz o velho pai da psicanálise. Condição que rege o sujeito ameaçando a capacidade de viver o processo de luto. Freud descreve um modelo de luto que se dispõe como processo de tomada de consciência da perda real do objeto amado. Em 1917 o pai da psicanálise publica LUTO E MELANCOLIA que expõe justamente a disputa desses dois funcionamentos mentais pela regência do eu. Antes de tudo certo embate inexorável nos processos internos de cada um de nós.
Muito boa ilustração da manifestação melancólica está na obra do cineasta inglês Alfred Hitchcock (1899 – 1980), o clássico Psicose de 1960. No filme, o personagem Norman Bates, interpretado por Anthony Perkins (1932 – 1992) é um gentil cicerone em um motel a beira da estrada. Prestativo rapaz que reserva grande mistério por trás de sua simpática e bondosa figura externa. Travestido de sua velha mãe, já falecida, mata com facadas a personagem Marion Crane, que no filme original é interpretada por Janet Leigh (1927 – 2004). Uma bela moça que chega ao motel solicitando um quarto, depois de ter roubado uma boa quantia de dinheiro e decidido fugir. Sem saber do roubo praticado pela moça, Norman mata aquela da qual cortejava anteriormente. Muito provavelmente herdeiro da perversão da mãe, hoje ele disputa seu próprio corpo com a alma daquela que um dia o invadiu. Nesse caso, de cunho melancólico, o sujeito torna-se o objeto. Esse fenômeno acontece através do funcionamento do qual Freud denomina mecanismo de identificação. Essa talvez seja a única forma encontrada pelo melancólico, para suportar viver a perda daquele objeto do qual o sujeito dependia e que hoje sente a ausência. O caso toma proporções imensuráveis na medida em que essa dependência se da justamente na capacidade de desempenhar o próprio pensar.


O funcionamento mental do estado de melancolia, se da no ataque ao vínculo com a realidade externa. A projeção do ódio no mundo externo. A odiosidade investida a qualquer que seja o objeto externo que dispute lugar com o fantasma da mãe. A perseguição inunda qualquer que seja a figura do rival no que diz respeito à dedicação de interesse, ou como colocaríamos em psicanálise, qualquer que seja o investimento da libido.


Estamos aqui conjeturando sobre certa relação narcisista, que na situação de perda do objeto amado tem seu desfecho no estado de melancolia. Isso é na trama da película, o gerador do crime. A lembrança atormentadora da mãe, constantemente alimentada de culpas, obriga que Norman viva uma clausura em seu mundo interno. Assim, ele fica impedido de se dedicar a qualquer nova exploração no mundo emocional. A incapacidade de sonhar com a separação da mãe coage Norman a viver num pesadelo alucinado. A exclusividade afetiva que sempre inundara o vínculo narcisista (logo de cunho perverso), entre Norman e sua mãe, resultariam agora, num buraco negro na alma. Qualquer outra relação que se proponha e que não seja entre Norman e sua mãe traz também uma carga enorme de ideias persecutórias sobre o objeto. Ideias sempre geradas a partir de um ambiente repleto de culpa e incredulidade quanto ao mundo real, ou seja, aquele mundo externo ao vínculo fusionado. A experiência de dois corpos disputando uma alma tem como consequência agora num modelo onde duas almas disputam um só corpo. O estado de melancolia nos parece então, certa falha na difícil tarefa de continuar vivendo mesmo conscientes de tudo que perdemos e percebermos que perderemos tanto mais.


A incapacidade simbólica obriga o melancólico materializar o objeto que se foi no nível real sensório, mas isso ocorre em detrimento do próprio eu. Se for verdade que o símbolo é aquilo que fica no eu, enquanto não se pode confirmar no mundo real, com os órgãos dos sentidos, então assim como coloca Melanie Klein em 1930, o ego é estruturado através de símbolos, e cada falta da qual o ego toma consciência, expande-se e evolui a capacidade emocional. Esse processo de expansão poderia apresentar-se numa escala do pensamento que se dispõe como que em uma espiral progressiva. E assim como sugere Wilfred R. Bion (1897-1979) outro grande psicanalista contemporâneo e discípulo de Melanie Klein somos: “pensamento em busca de um pensador”. Cada pensador que encarna esse pensamento, também tem a chance de evoluí-lo por meio do seu próprio aprendizado adquirido em sua experiência.
A maior dor compreendida na psicose talvez esteja justamente no breve contato com a realidade. Curto mas doloroso momento em que se toma consciência de que não se suporta a ausência concreta do objeto. E isso coincide com a incapacidade de criação de símbolos, que é aquilo que sustenta a falta da realidade externa.

BION, W.R.(1992) CONVERSANDO COM BION. Quatro discussões com W. R. Bion (1978) Bion em Nova York e em São Paulo (1980)Rio de janeiro: Imago.
FREUD, Sigmund. EDIÇÃO BRASILEIRA DAS OBRAS PSICOLÓGICAS COMPLETAS – Edição Standard Brasileira, Imago (1969-80.
KLEIN, M, (1930) A IMPORTÂNCIA DA FORMAÇÃO DE SÍMBOLOS NO DESENVOLVIMENTO DO EGO. In: ______ AMOR, CULPA E REPARAÇÃO. Rio de Janeiro: Imago, 1996.


terça-feira, 15 de junho de 2010

Pontapé inicial para o sucesso

Pontapé inicial para o sucesso


“Em geral, as coisas idealizadas são exigentes demais para ser realizáveis.” Neste cenário, ele sugere o filme “Antes de Partir”, estrelado por Morgan Freeman e Jack Nicholson. “É fantástico para questionar as nossas mais profundas crenças, para desapegar dos esquemas de identidade conservadores.”

Mais uma vez é possível enxergar a importância de um bom planejamento. Segundo o psicoterapeuta Prof. Renato Dias Martino, necessita-se perder o medo dos próprios sonhos e aproximá-los da realidade. “A tolerância é ingrediente fundamental, pois o sonho deverá sofrer mudanças até que se realize.”Segundo Prof. Renato Dias Martino, tolerar até que se chegue o momento certo da realização e ter a percepção de até que ponto a realização poderá reproduzir o sonho original é de suma importância. “Do sonhar até o realizar exige paciência e tolerância, do contrário, o que se quer é mágica.”

Matéria na integra:

domingo, 6 de junho de 2010

DEPRESSÃO PÓS-PARTO


(Na mãe e no pai)

O ser humano necessita criar nomes, conceitos, para descrever os processos internos que percebe. Manifestações interiores que trazem consigo sentimentos e emoções manifestados nas relações interpessoais e, é claro, do eu para o eu mesmo. 
 Immanuel Kant (1724-1804)
Isso está em concordância com as Críticas às Razões, Pura e Prática de Immanuel Kant (1724-1804), filósofo alemão, quando propõe que, para haver real experiência com a realidade das coisas, deve ter havido a possibilidade de nomear essa vivência, caso não, a experiência se coloca cega e inconsequente.
Quanto maior a capacidade de transformação dos processos internos em palavras comunicáveis ao outro, melhor a adaptação desse sujeito no mundo. É um sinal de bom funcionamento no que se refere ao convívio entre as pessoas.
No entanto, a nomeação indiscriminada de certos fenômenos da mente humana, pode confundir e limitar o desenvolvimento psíquico e emocional, assim como o resultado disso na capacidade de criação e manutenção dos vínculos. As dificuldades em se lidar com sentimentos que surgem do interior da mente e se pronunciam como comportamento, é o que nos impede de amar. O uso da expressão 'depressão pós-parto' ou  depressão puerperal (diagnóstico da psicopatologia psiquiátrica muito usado hoje), é algo que poderia ilustrar o que tento expor.
Quanto maior a capacidade de troca afetiva entre um casal, melhor é a possibilidade de ultrapassar crises. Normalmente a crise implica na perda de algo, ou alguém importante, se não, pelo menos a iminência de perda. Assim como a perda, ou a morte de alguém, implica em um período de luto, uma fase de características depressivas, onde o sujeito se desinteressa das coisas do mundo. Uma experiência onde se percebe, se reconhece, se aprende a respeitar e se responsabilizar pela realidade de ter que viver sem alguém. 
Bem, o desequilíbrio emocional sentido quando uma vida nasce é de certa forma análoga, se percebermos o fato de que, agora não se pode viver sem alguém. Ou seja, fica claro que, também sugere a morte de algo. A morte de aspectos da personalidade daquele que concebeu uma vida e tem a missão de cuidar desse alguém que nasce. Uma forma de luto sem dúvida, também se instala.




Agora alguém depende de mim, ou seja, já não sou mais dono da totalidade do meu eu, em função de uma vida que sucumbe sem meus cuidados.

Na casa de um recém-nascido, é comum que se encontre uma mãe “louca”, e me parece importante que ela possa encontrar espaço para “enlouquecer”. É como se ela se atirasse em um ‘abismo’(chamado bebê) que, só deseja e não possui sequer a capacidade ou qualquer que seja o recurso para comunicar aquilo que deseja tanto. Um modelo unilateral de relação, onde no bebê, a capacidade de pensamento é embrionária (muito limitada) e não existe possibilidade de gratidão.
 Nessa fase inicial é a mãe que deve pensar por ele. Até aqui já temos motivos bastante razoáveis para justificar a experiência de se viver certo estado de depressão, isso depois de tomar consciência dessa realidade.
Wilfred R. Bion (1897-1979)
A capacidade de Rêveri na mãe, segundo Wilfred R. Bion (1897-1979) – um dos mais importantes autores da psicanálise contemporânea, é que transforma cada choro ansioso do bebê em referencias reais que então é devolvido a ele em forma de contenção e acolhimento ou maternagem. 
A ação de maternagem proporciona ao bebê um modelo para que se construa a representação de coisa, assim como descreveu Sigmund Freud (1856 – 1939), ou em outras palavras, um símbolo de algo que apazigua a angústia na falta da possibilidade da constatação sensorial. 
Donald Woods
Winnicott (1896 - 1971)
mãe suficientemente boa para o psicanalista e pediatra inglês Donald Woods Winnicott (1896 - 1971), é aquela que proporciona ao bebê a possibilidade de reconhecer-se a si mesmo antes de se preocupar com o mundo externo. Essa mãe é que será o ambiente deste bebê até que este possa capacitar-se a perceber o ambiente real que o cerca.
Concomitantemente e contando com esse processo, a partir do contato com o real, se desenvolve a capacidade de imaginação e então o pensamento simbólico. É necessário que o bebê sinta-se acolhido e contido, em sua realidade, para que possa passar do processo imaginativo para o processo de pensamento simbólico, criando o que Bion (1953) chama de aparelho para pensar.
Mas, voltando à mãe “enlouquecida” em perceber uma vida que depende exclusivamente dos seus cuidados; é de extrema importância que, ao se arriscar nesse abismo chamado bebê, a mãe conte com um alguém (marido/pai) que mantenha a mão seguramente dada. É daí que ela buscará a resposta para o viver, ou a confirmação da existência: “sou amada!”, já que o bebê não pode fazê-lo. 
O pai será o “outro” que dividirá com o “eu” esse período de conflitos entre a realidade e as emoções que são demandas internas, que é chamado de depressão pós-puerperal. É bom que uma mãe tenha como retaguarda, um marido (pai) que possa suprir a necessidade de afeto, que no início não pode ser respondida pelo bebê. Ele agora, só quer, necessita, precisa...
O vínculo com o companheiro corresponde pelo menos nesse período, à possibilidade de vínculo com a própria realidade que existe além do desempenho da maternidade. Algo que existe do lado de fora daquele mundo simbiótico entre mãe e bebê. É a partir daí que, depois dos filhos crescidos, a mãe pode retomar seu papel de mulher. De outra forma, é comum que se perca no papel de mãe e não consiga mais se encontrar como “mulher”.
 Na verdade o nascimento de um bebê mexe profundamente na estrutura, funcionamento e dinâmica emocional do sujeito, assim como do casal e por que não, da família. A chegada do bebê trás angústias que a mãe, mesmo abalada pela situação, deve ser dedicada em cuidar. Entretanto, o pai suficientemente bom, por sua vez, também sofre com o processo. Muitas vezes isso fica encoberto por uma série de conceitos e preconceitos, porém, o pai, quando dedicado, também sofre todo o processo. Ele deve sentir e participar da mesma dor, que inunda as emoções da mãe, em meio a esse complexo processo.
Seu maior desafio quem sabe, seja a tarefa de elaborar em si mesmo, sentimentos invejosos naturalmente gerados pela atenção da companheira que, se desloca dele, para a criança.
O fato é que todos nós passamos por “depressões pós-parto” ao longo de nossa vida, contudo, daquilo que criamos e que, como realização, passa a ser algo que representa o eu de alguma forma, não sendo necessariamente um filho. 
Mas, no âmbito onde toda escolha efetiva, implica na renuncia de algo que não foi escolhido. Penso que a oportunidade de “brincar” com o sentimento antes que realmente aconteça é fundamental na criação desses recursos para lidar com a vida. Aquele que pôde um dia imaginar e sonhar com aquilo que hoje acontece, tem sempre maior chance de viver o presente, respeitando seu tempo, pois se torna mais responsável pela própria realidade.

terça-feira, 1 de junho de 2010

CINEMA E PSICANÁLISE II


Exibição e discussão do clássico filme Psicose (1960) de Alfred Hitchcock. A proposta é analisar através do texto Luto e Melancolia (1914) de S. Freud.

PUBLICO ALVO: ALUNOS DO CURSO DE PSICOLOGIA E À COMUNIDADE EM GERAL.
Professor: RENATO DIAS MARTINO
Data: 19 DE JUNHO DE 2010
Horário: 13:00 ÀS 17:00 HORAS
Carga Horária: 04 HORAS
Vagas limitadas
Local: UNILAGO
Inscrição:
http://www.unilago.com.br/extensao/info/?Curso=255
___________
Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Músico
Fone: 17-30113866 renatodmartino@ig.com.br
http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com/

terça-feira, 11 de maio de 2010

Entre o amor e a amizade

Arte: Orlandeli



Um relacionamento que se inicia muda a rotina.
O casal quer encontrar-se em todos os momentos livres.
Estar junto é o que importa.
Porém, os amigos antigos começam a cobrar sua presença.
“Esqueceu dos amigos? Não gosta mais da gente?”

Manutenção da amizade

O professor e psicoterapeuta Renato Dias Martino não acredita que uma amizade saudável possa ser destruída por um terceiro, no máximo um afastamento temporário. “De maneira contrária, é um bom sinal de que nunca foi realmente amizade”, diz. Na realidade, é interessante que cada um perceba a qualidade do vínculo que mantém e escolher como mantê-los, seja com amigos ou com amores. “Muito perigosa é a relação onde um decide com quem o outro deve se relacionar”, afirma Martino.

No entanto, mulheres podem manter amizade com amigos. E homens podem continuar o vínculo com amigas sem que isso interfira no relacionamento. E isso só é possível quando existe a capacidade de percepção e manutenção de certo limite que guarda e protege as relações, e para isso, responsabilizar-se por si mesmo é imprescindível. “Aquele que não é capaz de estabelecer certo limite, nunca perceberá a qualidade das relações, e assim uma relação acaba por ameaçar a outra, pois nunca se sabe muito bem até onde vão”, diz Martino.


Entrevista na integra

Francine Moreno - Porque um novo relacionamento pode influenciar nas amizades existentes antes da formação do casal?
Prof. Renato Dias Martino - Quando um casal está apaixonado, cria-se sempre certa fantasia de completude na dupla, onde o resto do mundo fica de certa forma, desvalorizado. Na medida em que o casal vai criando maior confiança à paixão vai dando lugar ao amor e esse quadro tende a amenizar. Contudo, muitas vezes quando um casal se une, pode ter a chance de construir um novo modelo de vínculo, onde elementos como respeito e amor estejam mais presentes e frequentes e assim acaba-se por questionar as outras relações, que podem não apresentarem essas qualidades. Isso é muito claro no inicio de uma psicoterapia, que também é um novo relacionamento.

Francine Moreno - Muitas amizades terminam à pedido do novo parceiro (a). Até que ponto isso é positivo ou negativo?

Prof. Renato Dias Martino - Não acredito que uma amizade saudável possa ser destruída por um terceiro, no máximo um afastamento temporário, de maneira contraria é um bom sinal de que nunca foi realmente amizade. Na realidade, seria muito interessante que cada um pudesse perceber a qualidade do vínculo que mantém e escolher como manter-los, seja com amigos ou com amores. Muito perigosa é a relação onde um decide com quem o outro deve se relacionar.

Francine Moreno - Isso quer dizer que há insegurança na relação? O que mais representa esse tipo de pedido?

Prof. Renato Dias Martino - São infinitas as ocorrências e inúmeras às experiências de insegurança que se pode viver num relacionamento. Não obstante, num vínculo saudável, é muito provável que ao perceber algum movimento de vínculo num modelo tóxico com algum “amigo”, o novo parceiro possa sugerir que isso não esteja fazendo bem e assim mostrar que talvez não seja uma boa companhia. O perigo é quando isso se transforma num vínculo de dependência onde um escolhe pelo outro.

Francine Moreno - Porque algumas pessoas aceitam esse tipo de contrato. Ou eu ou seu amigo (a)?
Como fazer o parceiro (a) relevar o pedido e fazer com que não perca amizade? È uma questão de diálogo?


Prof. Renato Dias Martino – Muito provavelmente aceitem, pois já cultivam dentro de si um descrédito à própria capacidade e habilidade de perceber o que pode estar fazendo mal no que concerne à escolher amizades. A saber, isso muito provavelmente, guarda sua origem numa relação familiar onde pais não são capazes de estimar o que os filhos escolhem e na verdade acabam por desvalorizar as opções deles. O dialogo sempre é o melhor caminho, mas me parece que situações crônicas como essa de “ou eu ou seu amigo (a)” já revelam a ineficácia do dialogo. Já que grande parte de um vínculo doente, inclui muito menos a palavra, e muito mais a criação de certo ambiente emocional silencioso de dependência.

Francine Moreno - E quando há dialogo e a proposta de deixar a amizade permanece. Esse comportamento já dá detalhes de como será a relação?

Prof. Renato Dias Martino - Perceba que é justamente o que proponho na questão anterior, ou seja, o que acontece com relações doentes. A palavra não tem qualquer efeito, pois ambas as parte consentem no vínculo de dependência, de forma muitas vezes inconsciente, logo incapazes de serem discutidas conscientemente, onde o “eu” (cada um) responsabiliza-se por si mesmo. São resquícios de experiências emocionais pré-verbais onde não se podia contar com a expressão falada.

Francine Moreno - Como mulheres podem manter amizade com amigos. E homens podem continuar o vínculo com amigas sem que isso interfira no relacionamento?

Prof. Renato Dias Martino – Isso só é possível quando existe a capacidade de percepção e manutenção de certo limite que guardam e protegem as relações, e pra isso responsabilizar-se por si mesmo é imprescindível. Aquele que não é capaz de estabelecer certo limite, nunca perceberá a qualidade das relações e assim uma relação acaba por ameaçar a outra, pois nunca se sabe muito bem até onde vão.

Francine Moreno - A protagonista do seriado "Ghost Whisperer" disse certa vez ao marido que o problema não era o amigo, mas no que o parceiro que transformava quando estava com ele. E realmente isso acontece diariamente. Porque algumas pessoas se modificam quando estão com o amigo (a)?

Prof. Renato Dias Martino - Talvez, por um despreparo na capacidade de se manter integro. Possivelmente ele se sente limitado em ser realmente quem é quando no ambiente do casal. Ao encontrar com o amigo sente-se seguro para revelar a parte que é reprimida na companhia dela.

Francine Moreno - É possível ser feliz só com amigos ou só com o parceiro (a)? Como encontrar o equilíbrio perfeito?
Prof. Renato Dias Martino - Quando podemos reunir os dois e criarmos certo vínculo onde compreenda sermos também amigos daquele que escolhemos como parceiros, muito provavelmente diminuiremos as amizades externas, mantendo apenas as mais próximas e escolhendo um modelo menos achegado para a maioria. Assim, se pode criar um ambiente menos perigoso para se viver aquilo que está na ordem das experiências de afeto e das emoções.

Linck para a matéria na integra: http://www.diarioweb.com.br/novoportal/Divirtase/Comportamento/8955,,Entre+o+amor+e+a+amizade.aspx
--


Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866 

renatodmartino@ig.com.br
http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com/  

domingo, 9 de maio de 2010

Reflexão sobre perversão

Os desvios no amor
Renato Dias Martino


...A saber, que o homem não é realmente um só, mas verdadeiramente dois em um. Digo dois, porque o estado dos meus conhecimentos não vai além desse ponto. Outros virão, outros me ultrapassarão nessa mesma direção, e aventuro-me a pensar que o homem será finalmente conhecido como um simples agregado multiforme de cidadãos incongruentes e independentes uns dos outros. O Medico e o Monstro, Robert Louis Stevenson (1850-1894).




Dr. Jekill deixa uma carta relatando sua experiência. Escreve uma longa carta que antes de tudo traz a revelação de um momento reflexivo daquele que tivera um insight (compreensão interna) sobre si mesmo. Alguém que descobrira o terrível fato de que talvez sua maior perversão fosse justamente o que o permitira manter-se intenso em suas realizações.


Talvez em sua busca por ser alguém livre de imperfeições, tivera que criar no quarto dos fundos de sua alma, um perverso. Alguém que ele mesmo não conhecera. E quando o pode conhecer, foi o fim. Na obra de Stevenson, Dr. Jekyll, um dedicado medico que reunira em torno de seu nome, qualidades como as de cavalheirismo, educação e bondade, desenvolve uma formula que permite transformá-lo em Mr. Hyde, um ser frio e nefasto que age essencialmente por seus impulsos. O uso da poção decompunha a personalidade do medico que assim, se tornava alguém dividido. Um recurso criado por ele, antes de tudo, para conseguir continuar vivendo. Justifica-se com o argumento de que, amiúde era tomado por certos desejos estranhos que ameaçavam o desenvolvimento e até a existência do medico bem sucedido. O preparado farmacológico não criava alguém novo, mas revelava uma parte escondida no interior do gentleman. Ao beber da poção, o medico era arremessado para a extremidade avessa do médico, ocupando sua alma da irracionalidade do monstro. O uso da substancia química criava um fenômeno onde era evitando assim a experiência do conflito, já que delegava a cada parte do eu, uma escolha. Enquanto Dr. Jekyll (que carrega a morte em seu nome; kill), abriria mão do desejo proibido e assim revelava um homem amável e preocupado com o outro; Mr. Hyde (escondido em inglês), de forma inversa, abre mão da realidade e satisfaz o impulso perversamente, atacando pessoas num ódio mortal pelo ser humano. Entretanto, o maior oprimido e grande sacrificado pelos atos perversos de Mr. Hyde seria exatamente Dr. Jekyll.
O que poderia nos permitir cogitar, com propriedade sobre o que é perversão, que tipo de argumento poderia nos autorizar diagnosticar ou designar algo como sendo perverso?
A palavra "perversão", se entendida por um vértice onde é utilizada a linguagem coloquial, ganha logo um formato malévolo, um representante venenoso da crueldade. No dicionário (Michaelis 2003), encontraremos a palavra como sinônimo de expressões que aparecem desde contaminação, infecção, até corrupção, ou mesmo depravação. Se estivermos utilizando um estilo em que se usa vocabulário e sintaxe bem aproximados da linguagem do dia-a-dia, ou seja, coloquialmente, encontraremos a palavra perversão como significado de algo que se encontre, quem sabe, no avesso do que é humano. Na medicina (quiçá a primeira ciência a estudar o termo), a palavra perversão aparece como classificação de uma enfermidade, ou descrição de algum tipo de degeneração. Contudo, se procurarmos a origem da palavra, encontraremos no latin, per vertio, por sua vez
derivado de per vertere, que remete à noção de "pôr de lado", ou "pôr-se à parte".
A partir dos estudos da psicanálise, sobre tudo na obra de Sigmund Freud (1856-1939)
publicada em 1905 “TRÊS ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALIDADE”, a conotação ganha alguns importantes ponderadores, apontando para a mesma direção semântica do radical determinador da palavra. Através de um exame mais polido, podemos apreciar maduramente a palavra em seu significado e assim perceberemos certos pontos de vista que permitem deslocar o conceito da posição fixa, no extremo oposto do bom, do bem, do humano e perceber um significado mais amplo que poderia abarcar o termo. Na psicanálise, o termo foi e é (esse trabalho é um exemplo disso) de essencial importância no escopo dos pensadores. Sendo cuidadosamente estudado e debatido desde o inicio dos estudos de Freud.
No segundo tópico do primeiro capitulo da obra freudiana de 1905 o termo é descrito como uma espécie de desvio. Mas, é importante percebermos que esse desvio ocorre no caminho em direção ao encontro sexual, ou a copula em si. Como que um adiamento temporário no objetivo da copula, assim como um desvio no caminho do desenvolvimento sexual, descritos como sadismo, masoquismo, pedofilia, exibicionismo,voyeurismo, etc. Um atalho que desvia do outro, ou do objeto e se direciona a satisfação narcísica. Como se em certo momento, o desejo de buscar o objeto externo convertesse simplesmente em desejo de satisfação do impulso.


Em “UMA CRIANÇA É ESPANCADA - UMA CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DA ORIGEM DAS PERVERSÕES SEXUAIS” de 1919, Freud propõe que:
“Uma fantasia dessa natureza, nascida, talvez, de causas acidentais na primitiva infância, e retida com o propósito de satisfação auto-erótica, só pode, à luz do nosso conhecimento atual, ser considerada como um traço primário de perversão”.
Porém, é importante percebermos que, apesar de parte do eu pressionar a totalidade a olhar para outro lado, só pode desviar-se aquele que segue alguma direção. Freud postulara em 1905 sobre uma polemica idéia que ainda hoje nos parece de difícil compreensão, ou no mínimo, pega o leigo de surpresa, com certa sensação (muitas vezes repleta de restrições em seu reconhecimento) de que sempre sentira algo que ao mesmo tempo acaba de conhecer.
Logo, perceberemos o fato de que, utilizamos muito mal a palavra perversão, ou pelo menos limitamos muito sua utilização se atribuirmos a ela um movimento de reprovação. A idéia é que, a perversão se apresenta como componente, até mesmo da vida sexual sadia, sendo considerada pelo sujeito como qualquer outro pensamento secreto. Freud da um passo imenso na direção da necessidade de desfazer a fronteira insolúvel entre saúde e doença, pelo menos no âmbito psicológico, ou seja, quando se estuda a mente humana.


“As perversões não são bestialidades nem degenerações no sentido patético dessas palavras. São o desenvolvimento de germes contidos, em sua totalidade, na disposição sexual indiferenciada da criança, e cuja supressão ou redirecionamento para objetivos assexuais mais elevados — sua “sublimação” — destina-se a fornecer a energia para um grande número de nossas realizações culturais.”

É o que sugere Freud no seu “FRAGMENTO DA ANÁLISE DE UM CASO DE HISTERIA” (1905[1901]), e se pudermos sustentar a direção deste pensamento freudiano, verificamos que reprovar a perversão é reprovar parte do eu. Este afastamento temporário do objeto externo, tem a exclusividade e fixação (Freud 1905) como constituinte em seu modelo. Freud nos dizia que "a neurose é o negativo da perversão", ou seja, enquanto o neurótico fantasia, o perverso atua (accting out). Esse desvio ocorreria por uma impossibilidade de satisfação do desejo sexual, o que faria com que no neurótico, a partir da repressão do impulso, criassem-se sintomas que serviriam ao aparelho psíquico como substitutos da satisfação sexual. Logo entendemos que, a neurose esconde um desejo perverso, encoberto pelo sintoma. A partir deste ponto de vista, com auxilio da psicanálise, pudemos reconhecer que todos nós temos uma coleção de neuroses e da mesma forma, passamos assim a perceber a perversão como certa característica que pode ser descoberta, até mesmo no sujeito dito normal ou saudável. Mesmo no adulto que, pelo menos a priori, conquistara o status de maturidade, conserva-se em sua personalidade (em um lugar secreto) partes infantilizadas que amiúde se revelam em situação de hiperexcitação, ou mesmo no prenúncio da perda do objeto amado.

Através de um exercício de subjetividade poderíamos pensar em algo que se manifesta através do desejo, vem sempre acompanhada de certa ânsia. Desse modo, gradualmente suscita-se um processo gerador de um modelo de estrutura, algo que possa sustentar a viabilização desse desejo, mesmo que apenas imaginativamente. A partir dai produzir-se-ia uma qualidade especial de vínculo com aquilo que é da realidade, exatamente onde está o outro, o objeto externo. Antes de tudo, no caso aqui estudado, uma espécie de dificuldade de reconhecer, integrar-se e interagir com o real. Isso se pensarmos o ato sexual como um modelo de encontro entre duas partes diversas da realidade onde existe a possibilidade de criação de uma terceira.
Verificamos por esse caminho que através de uma escala de evolução, a perversão estaria para o amor, como um primeiro tipo, um modelo menos desenvolvido, entretanto, em desenvolvimento. Um protótipo do amor que tenta bravamente seguir em frente na tentativa de desenvolver-se.

Longo é o caminho que percorre o bebê até que aprenda a amar. Até que possa ser capaz de retribuir aquilo que recebeu de seus dedicados cuidadores e criar assim um modelo que possa servir a cada nova aproximação amorosa em sua vida. Tento propor que, talvez quem hoje ame, um dia desejou perversamente. Eros (deus do amor) é filho de Afrodite (deusa da beleza, sedução) a geradora do afrodisíaco.
Mas voltando a belíssimo romance proposto no inicio do texto, se o medico tivesse sido capaz de suportar a imperfeição de seus pensamentos perversos teria a chance de integração das partes de sua personalidade abrindo assim a oportunidade de viver algo real, logo imperfeito. Talvez custasse a ele momentos de “monstros”, contudo sob sua responsabilidade em detrimento da perfeição do gentil medico bem sucedido. Seguindo o mesmo caminho, percebemos que a despeito da formulação popular, onde o titulo de perverso é atribuído a descrição do vilão, malvado e agressor, também o papel de vitima se encaixaria na descrição perversa, quando cada agressor carrega uma vitima dentro de si, pronta a ser projetada naquele que possa oferecer um modelo adequado para receber essa função.


Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
renatodmartino@ig.com.br
http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com/ 

Fone: 17-30113866 begin_of_the_skype_highlighting            17-30113866      end_of_the_skype_highlighting