sexta-feira, 26 de julho de 2013

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Sobre as emoções

As emoções permeiam a vida mental e sem dúvida, uma mente que está funcionando de maneira saudável depende de emoções positivas para tanto. Já as emoções negativas colocam a mente em alerta e dessa forma, uma mente constantemente sujeitada a essa ordem de emoções, tem o seu funcionamento saudável abalado e assim, seu desenvolvimento é comprometido. 
Se a proposta aqui for falarmos da perspectiva mental, então a saúde física não deve ser mais que um representativo externo dos processos que ocorrem internamente, no nível psíquico. O dito popular, “mente sã, corpo são”, não é uma mera colocação sem sentido, mas é a forma natural das articulações dos arranjos que ocorrem entre as dimensões do “eu”. 
Alguém inundado de emoções negativas não pode ser capaz de reconhecer seu próprio valor (autoestima) e então, dificilmente respeitará seu corpo, para que possa cuidar e dedicar manutenção à saúde física. Além do mais, não é novidade alguma o fato de que inúmeras enfermidades físicas se originam de um grande ressentimento que ficou impossibilitado de ser pensado, por ser extremamente doloroso. Uma mente que for constantemente submetida às emoções negativas, tenderá a criar de forma inconsciente um representante no corpo físico e isso se manifesta como doença.
Emoções são geradas nos processos psíquicos que dependem de uma boa condição de interação entre a realidade interna, que é repleta de ilusões e a aspereza da realidade externa. Certa interação entre aquilo que se deseja que a realidade seja (interno) e aquilo que a realidade realmente é (externo). Quanto melhor for a qualidade de interação entre essas duas dimensões, tanto maior será a chance de se experimentar emoções positivas. 
Da mesma forma, emoções negativas são originárias de uma interação mal sucedida entre mundo interno e mundo externo. É importante ressaltar que emoções negativas são mais frequentes que as positivas, pois, a realidade externa é sempre dura e dolorida.


As emoções negativas podem seguir caminhos diferentes, dependendo da capacidade emocional do sujeito que experimenta tal emoção. Quando se pode contar com certa maturidade emocional (tolerância à frustrações), as emoções negativas podem servir como oportunidade para uma evolução no desenvolvimento, como na tomada de consciência de algo que faz mal ao funcionamento mental. Já numa mente fragilizada de mais, ou mesmo quando muito imatura, a emoção negativa será vivida com severos prejuízos que podem ser percebidos num comprometimento na realização de tarefas básicas do dia a dia. Em casos mais graves, aparecem como dificuldades ou impedimentos na capacidade de estabelecer vínculos afetivos, tanto com o outro quanto no desempenho do amor próprio, podendo culminar até na doença física.
As emoções positivas convivem constantemente com as negativas, povoando nossa mente e está distante do nosso alcance controlar sua frequência. O que me parece ser possível de ser feito, de maneira real é o cultivo de bons vínculos afetivos, para que possamos nos nutrir constantemente do amor do outro. Isso será útil quando o nosso amor próprio estiver enfraquecido e não se encontrar irrigado de pensamentos positivos.
A cultura contemporânea com todos seus recursos das ciências tecnológicas nos trouxe a ilusão do domínio de áreas que na realidade estão longe de serem dominadas. Apesar de algumas teorias psicológicas trazerem a proposta da disciplina, se estivermos aqui falando da dimensão das emoções, o conceito de disciplina não se aplica. A disciplina sufoca a emoção e isso coincide justamente com a emoção negativa. 
Não podemos disciplinar emoções, o que podemos fazer é humildemente respeitá-las e cultivar bons vínculos que nos ajudarão na manutenção dessa ordem de experiências. Aquele que imagina dominar suas emoções com disciplinas, na realidade não faz mais do que esconder de si mesmo, suas maiores fragilidades. Se existe algo que possa dar conta dessa ordem de experiências, isso deve estar no amor, no cultivo dos bons vínculos afetivos e não numa “educação disciplinar”.
Não vejo qualquer maneira de se tratar da questão das emoções com propriedade sem poder contar com a base fundamental do amor na forma do vínculo afetivo. É através do vínculo afetivo de qualidade, que as emoções podem ser vividas de forma saudável. Isso pois, quando nos sentimos amados nos vemos bem integrados e assim podemos tolerar mais as emoções que nos acomete. Contando com a capacidade de tolerar as manifestações das emoções, as consequências delas são sempre mais brandas.





Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866 
renatodiasmartino@hotmail.com

segunda-feira, 8 de julho de 2013

O real e a idealização (do real)

O conceito de desejo, no Dicionário Aurélio (2002) está definido como ato ou efeito de desejar; vontade de possuir ou de gozar; anseio, aspiração, cobiça ambição; vontade de comer ou beber; apetite sexual. Quando nos propomos a cogitar sobre esse fato,
falamos da inconsequência de Eros (deus do amor), filho de Afrodite (deusa da beleza). O mito de Eros, na primeira fase de sua vida, é mostrado como uma criança pequena, mesmo com o passar dos anos. 
Dentro de sua etimologia, a palavra desejo tem sua origem do latim desidiu, que tem seu inverso em considiu. A palavra sidiu ou ainda siderare quer dizer astro. E enquanto con traz a referência de vínculo, des traz a ideia de desvinculação. Logo, estamos falando de “estar” ou “não estar” ligado aos astros. Ou, ainda, consultar os astros (assim como os gregos faziam por meio do oráculo) ou tomar certo caminho, desconsiderando o que eles têm a nos dizer.
Dessa forma, podemos dizer que fica claro, ao desejarmos algo, que nos tornamos responsáveis por isso e, possivelmente, abandonamos a opinião dos astros quanto a isso. Ora, se a proposta é de falarmos sobre o desejo, então estaremos cogitando sobre certa tensão que indica um fim. Quem deseja, o faz em relação a algo que, por sua vez, trará o fim do desejo. Esse fim está intimamente ligado a um pressuposto de carência. 
Benedito Espinoza
(1632-1677)
Quero dizer que o desejar é resultado do sentimento da falta de algo. Sendo assim, o desejo torna-se uma característica clara do ser humano mortal, que se encontra no polo oposto dos deuses. Para Benedito Espinoza (1632-1677), um dos grandes pensadores do século XVII, dentro da chamada Filosofia Moderna, a imperfeição repousa na perspectiva do humano e o define como tal. O desejo é uma classe de sentimento ou de certo movimento mental que, muitas vezes, mesmo irracional, em sua forma inconsciente, emerge tomando a forma de nossas escolhas. 
A ideia é de que o desejo é um fluxo muito forte de libido (energia psíquica) e carrega em si muito dos conteúdos impensados e impregnados de um narcisismo prematuro. Assim, um pensamento que tenha nascido dessa forma, prematuro, já agia no funcionamento da mente, mesmo sem ainda poder ser chamado de pensamento. Esse fato revela-se importante na medida em que muito perigosa é a ação ausente da reflexão: o agir sem pensar. 
A psicanálise nos mostra, com muita clareza, que o desejo é definido pela sensação de perda de algo que se foi. E se concordamos com essa afirmação, podemos descrever que o objeto de desejo se encontra no passado.
Isso corresponde a dizermos que quem deseja, deseja, pelo menos em certa medida, a repetição de algo que perdeu no passado. E esse sentimento pode tomar maior proporção se nos lembrarmos que, a perda sempre inclui certa culpa de não ter cuidado daquilo que se perdeu. Assim, podemos afirmar que o desejo guarda sempre uma cota de passado, e isso é representado, nas experiências psíquicas, pela memória. Com esta forma de pensar, abre-se então uma condição, que nos permite afirmar que o desejo se encontra impregnado, das forças do mito de Tânatos (o deus grego da morte), dentro de sua perspectiva de pulsão de morte. 
Ele busca sempre o retorno de algo perdido, por mais que se encontre regido pelas graças do mito de Eros (o deus grego do amor) no conceito freudiano de pulsão de vida, em seus impulsos na direção do mundo externo. 
Percebemos, com esse modelo, que memória e desejo estão muito próximos e que a forma como se pode ter certa concepção de memória coincide diretamente no que se tem concebido sobre o desejo. 
Em sua célebre obra “Interpretação dos Sonhos”, de 1900, Sigmund Freud (1856-1939) propõe a ideia de que a memória é o desejo no passado, e, se concordarmos quanto a isso, poderíamos formular que, se a memória é desejo do passado, então o desejo é, também, uma espécie de memória do futuro. De qualquer forma, o desejo então é algo que existe para ser satisfeito. Contudo, ainda assim, só existe enquanto se está frustrado. 
Entretanto, deixemos temporariamente a situação da satisfação de lado, com a proposta de retornar mais tarde, e assim, cuidaremos dessa hipótese com mais atenção e dedicaremos então os olhares para a situação da frustração. Pelo menos a priori, abrem-se dois caminhos: o de enfrentar a tarefa do reconhecimento da realidade ou o que sustenta a fantasia até onde ela possa ser sustentada.


“Eu fiz isso”, diz minha memória.
“Eu não posso ter feito isso,  
diz meu orgulho, 
e permanece inflexível.
“Por fim a memória cede.”
Friedrich Nietzsche (1844-1900) 

Essa questão se torna de grande importância se estivermos falando em aspectos condizentes com a luta diária, onde exista um trabalho de capacitação emocional, no sentido de aceitar, respeitar, ser sincero e assim, tornar-se capaz de amar o real ou ligar-se afetivamente ao outro. Falo aqui de vínculo. O objeto de desejo nunca é real, isso por que nunca desejamos o objeto real, mas aquilo que esperávamos que fosse, o ideal. 
Na realidade tendemos a desvalorizar o objeto de desejo, assim que se torna real. Isso por que se tornar real limita as qualidades e possibilidades do objeto, o que não ocorre com o ideal. Às vezes, levamos isso a tal consequência, que ela nos conduz a desistir de certo objeto, por não atender nossas expectativas. É como se disséssemos: “se não é como eu desejava não importa pra mim”. Ou seja, a realidade não interessa o que interessa é o que se imaginava ser essa realidade. Assim que o real se revela é logo descartado. Ou, ainda, por outro lado, num ato de violência para com a realidade, podemos forçar o objeto a se tornar aquilo que gostaríamos que fosse. 
Immanuel Kant (1724-1804)
O que conduz essa linha de pensamento é o fato de que na maioria do tempo, somos impulsionados por paixões, ou seja, idealizamos (fantasia) algo e consequentemente passamos a odiar o seu extremo oposto. Esta é uma forma arriscada de se conduzir a vida,já que, de tal modo, não se pode conhecer coisa nenhuma. Deixamos de nos aproximar de certas “coisas” por enxergá-las muito maiores que nós e, a partir do mesmo modelo de funcionamento, evitamos outras por nos julgar muito superiores a elas. Na perspectiva de Immanuel Kant (1724-1804), conduzir escolhas essencialmente pelo desejo é um modo doentio de viver.
Então dispensar o desejo seria a condição sine qua non da prática, daquilo que ele chamou de moral e que pressupõe certa indiferença em relação à satisfação e ao prazer. Na proposta edípica de Freud é justamente a renúncia do desejo do filho pela mãe que o liberta para pensar em si. Na capacidade de viver a posição do terceiro excluído é que se iniciam as realizações no mundo. 
Jacques-Marie Émile Lacan
 (1901-1981)
Jacques-Marie Émile Lacan (1901-1981), psicanalista francês, propõe o Nome-do-Pai como símbolo do corte no desejo pela mãe. O que adéqua o vínculo entre filho e mãe, libertando-o do pesadelo incestuoso. Na apreciação psicanalítica do indiano naturalizado inglês, Wilfred R. Bion (1897-1979), a questão se encontra na perspectiva daquilo que poderia proporcionar definir e sustentar as qualidades dos vínculos que se pode ter com a realidade. 
Bion propõe a cesura do desejo, priorizando o que chamou de “O” da experiência, ou seja, o reencontro com a realidade depois da simbolização. O símbolo permite que se tolere o vazio, e isso coincide com a privação da satisfação imediata do desejo, onde está a chance para que se comece a pensar. 
A presença excessiva de certo desejo por algo, impede que se possa conhecê-lo na realidade ou ainda, paralisa qualquer que seja o esforço na direção de entendê-lo em sua forma integra.
A consequência inevitável desse funcionamento baseado na paixão está justamente na cristalização ou enrijecimento daquilo que limita o que é do eu (como o desejo), daquilo que é do mundo, do não-eu, do outro. Em última instância, da realidade (que dificilmente coincide com o desejo), congela e compromete severamente aquilo que nos leva a experimentar possibilidades, condição indispensável à criatividade.
As experiências são exercícios de fundamental importância, na medida em que nos capacitam de referências e nos permitem distinguir, não só o que poderia ser o mundo externo, mas, consequentemente, o que podemos realmente ser, ou melhor, o que pode ser o eu real. Falo da inexorável luta entre o que é real e o que se deseja que seja, ou até, o que se teme que possa ser (já que o medo é filho do desejo). A questão está na ordem do que se encontra entre o real e o imaginário. 
Um processo de rigidez, nesse nível, é inevitavelmente gerador do que poderíamos denominar de pseudo-sabedoria ou mesmo sabedoria psicótica. Uma classe de informações sobre o mundo que só se pode manter através da imposição. Um saber que deve contar com a defesa de certo escudo chamando arrogância. Enquanto essa pseudo-sabedoria se localiza em certo nível superficial, encontramos um sujeito turrão e teimoso, consequentemente ignorante (ignorante de sua própria ignorância). 
Contudo, é alguém que consegue, a duras penas, algumas realizações no mundo, já que (mesmo chateado com isso) mantém certo vínculo com a realidade. No entanto, se esse modelo de “saberes” passa a ser atribuído a elementos de maior profundidade da personalidade, criam-se características psicóticas na forma de se conduzir a vida. O outro nunca é o outro, mas sempre o que se deseja que fosse. 

Voltemos agora os olhares para a satisfação completa do desejo. Este vértice conduz à morte da busca e nos remete ao estado de inércia. Na satisfação total não existe reflexão, e não é difícil chegar a essa conclusão quando nos lembramos de um bebê que logo adormece, assim que se satisfaz com o seio da mãe. Totalmente satisfeitos, deixamos de pensar, deixamos de existir. Só seguimos em frente se tivermos a consciência do que perdemos. 

Capítulo do livro MARTINO, Renato Dias. Para Além da Clínica.Renato Dias Martino - 1. ed. São José do Rio Preto, São Paulo: Editora Inteligência 3, 2011.

Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866 
renatodiasmartino@hotmail.com
http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com